sábado, 25 de outubro de 2025

Um desejo chamado eléctrico

O destino era o Minho. A origem, Lisboa. Tudo parecia simples: íamos de boleia, viajando em família, numa economia de combustível e de consciência. Mas o que eu não sabia é que esse destino seria afinal uma sina. O que parecia ser uma excursão como tantas outras, um trajecto percorrido inúmeras vezes, transformou-se numa ode à perseverança. E ao tédio.

O carro dos meus parentes era eléctrico. Porém, chamar-lhe assim é pouco. Este é um daqueles casos em que, por decência filológica, o adjectivo deve converter-se em substantivo. Exacto, o carro era, na realidade, um Eléctrico, com maiúscula. Movia-se lento e cerimonioso como os transportes de antigamente, dependente de paragens obrigatórias, impondo ao tripulante uma cadência mais contemplativa do que funcional. O que seria símbolo de avanço tecnológico transformava-se em objecto poético do passado. E a viagem numa romaria penitencial movida a watts e introspecção.


Em vez da A1, escolhemos a A8. Porque “há menos trânsito”, porque “terá, com certeza, bons carregadores”. Ah, o optimismo! Esse desacerto português que nos faz acreditar no inalcançável. O trânsito era avassalador, e o optimismo energético durou apenas até à Área de Serviço da Vagos, onde o carregador de automóveis estava ocupado por dois outros fiéis, dois amigos que também viajavam juntos. Ficámos ali, feitos peregrinos, à espera do futuro que carregava sem pressas.

A meia hora de espera custava a passar. Comprei jornais que ainda não tinha lido e li-os de uma ponta a outra. Adquiriram-se salgadinhos e bebidas como puro entretém. (Quanto café é socialmente aceitável pedir enquanto se aguarda por um desfecho?) Os miúdos trepavam ao telheiro do parque de merendas da bomba de gasolina, desafiando as leis da gravidade e da responsabilidade parental. Quando finalmente chegou a nossa vez, confirmámos com serenidade o óbvio: o carregador era dos lentos — dos muito lentos — e antecipava cinco horas e meia para atingir uma percentagem aceitável. A ironia da situação apontava-nos o dedo com uma mão e tapava as gargalhadas com a outra. E aquela jornada eléctrica era o futuro a devolver-nos o tempo humano.

Era preciso um carregador dos rápidos. A aplicação dizia: Vagos. E Vagos foi o nome inscrito no túmulo da modernidade.

Abandonámos a auto-estrada e entrámos na Nacional. O século XXI acabava na saída 13, e Ponte de Vagos era o nome que marcava a passagem para outro tempo, talvez para 1988. Naquelas curvas redescobríamos os montes, as feiras, os cães vadios, o país dos cartazes a dizer “vende-se lenha” ou “aluga-se quarto”, gente na paragem da camioneta. Portugal, um pouco por todo o lado, voltava a ser enorme e, pela primeira vez em muito tempo, um pouco trágico também. Sentado no banco de trás, eu contentava-me com aquele pequeno concentrado de validação de todas as minhas implicações tecnológicas. Sou uma alma simples.

Em Vagos, junto a uma Alves Bandeira (essa gasolineira fascinante que só existe no Portugal B), ligámos a viatura à esperança de nos pormos a andar o mais depressa possível dali para fora. Mas ainda vimos a segunda parte do Benfica, experimentámos o sabor do pão da Beira Litoral e, num momento de superstição colectiva, como quem exige explicações à ventura, jogámos no Totoloto.

Restabelecidos, abandonámos a simpática localidade, mas o meu cunhado, exausto, entregou-me o volante. Era como se abandonasse a fé que um dia tivera no progresso, resignado a simulá-la: — “A questão tem que ver com uma peça que permite que os carregadores arrefeçam rápido quando se desliga o carro. Aí sim o carregamento é mais eficaz.”, dizia-nos ele.

Conduzi a não mais de cem à hora, vendo os faróis que nos ultrapassavam devagarinho. Pensei: eis o futuro – uma estrada silenciosa, carros bondosos e condutores sonâmbulos, como numa fila de racionamento, obedientes à lentidão disciplinada de um mundo alísio.

Naquele ritmo hipnótico, sob o zumbido do motor, enquanto a bateria descia dos 60 para os 59%, apercebi-me de uma coisa que Chesterton teria amado: os homens preferem ser conduzidos a serem livres. Humildes e mansos, estamos a prepararmo-nos para mais uma dessas derradeiras loucuras da espécie que pululam pelo século. Desta vez será o dia em que os carros se conduzirão sozinhos. Quando esse dia chegar — está quase — teremos saudades destes eléctricos. Pensaremos neles como máquinas que anunciavam o futuro apenas para nos devolver, pacientes, a lentidão antiga das coisas; e que nos levavam para trás, de volta à infância do mundo.

Ameaça ao jornalismo e amplificação da desigualdade informacional

O termo “Google Zero” vem sendo usado por editoras nos Estados Unidos e no Reino Unido para descrever um fenômeno que pode redefinir o jornalismo digital global: a queda drástica no tráfego de sites após a introdução de ferramentas de busca baseadas em inteligência artificial (IA).

Com os novos AI Overviews, o Google passou a exibir resumos completos de notícias e análises diretamente na página de resultados, sem que o leitor precise clicar nos links originais. Segundo o relatório Enders Analysis (2025), editoras britânicas registraram queda de até 80% no tráfego desde 2019, enquanto veículos norte-americanos relatam reduções superiores a 50%.

As causas combinam mudanças de algoritmo, colapso das estratégias de SEO e alterações no comportamento do público, que agora espera respostas instantâneas e com jovens leitores migrando para plataformas como TikTok e Reddit, onde o consumo é mediado por algoritmos e comunidades segmentadas.


Na América Latina, o cenário é ainda mais preocupante. Redações independentes e comunitárias, especialmente aquelas lideradas por jornalistas negros, indígenas e periféricos, não têm infraestrutura para competir por visibilidade nos ecossistemas de IA nem garantias de que seus conteúdos serão citados ou remunerados. No Brasil, em um país historicamente marcado por desigualdades raciais e territoriais, o “Google Zero” amplifica um problema antigo: a exclusão de vozes diversas da esfera pública.

Isso resulta em um duplo apagamento informacional: exclusão dos resultados de busca e apropriação de narrativas locais por sistemas automatizados sem reconhecimento de autoria. Sem políticas públicas, regulação de dados jornalísticos e incentivo à inovação, o Brasil corre o risco de aprofundar a dependência de intermediários que decidem, a partir de seus próprios interesses, quem merece ser ouvido.

É fundamental compreender que não existem vilões ou heróis absolutos nesse processo. O Google e o ChatGPT representam faces diferentes do mesmo desafio: a intermediação automatizada da informação. Em ambos os casos, a inteligência artificial não é a causa da crise do jornalismo, mas um espelho que torna suas fragilidades mais visíveis.

O verdadeiro problema está na concentração de poder e de recursos em poucas plataformas que determinam o que circula e o que desaparece. Encarar a IA como inimiga apenas desloca o foco: o desafio real é garantir que essas tecnologias sirvam ao interesse público, respeitem a autoria e ampliem a diversidade de vozes no espaço informacional.

O jornalismo que sobreviverá será aquele que reconstrói vínculos de confiança com as comunidades e reafirma o valor humano em um ecossistema automatizado. Como alerta o relatório The Age of AI in the Newsroom (2025), o futuro da informação dependerá da capacidade de produzir conteúdo original, relevante e socialmente enraizado.

Gaza: a trégua que nunca chega

A tão anunciada interrupção da guerra no território palestiniano revelou-se, mais uma vez, uma ilusão diplomática. Apesar dos comunicados triunfais e das fotografias cuidadosamente encenadas nas capitais ocidentais, o som das explosões continua a ecoar sobre as ruínas de um território exausto, onde a população civil tenta sobreviver entre promessas de cessar-fogo e a brutalidade quotidiana das operações militares. A retórica da paz transformou-se, neste conflito, num instrumento político — não numa realidade no terreno.

Nas últimas semanas, governos e organismos internacionais celebraram o que chamaram de “pausa humanitária”, fruto de negociações entre Israel, mediadores regionais e a Organização das Nações Unidas. Contudo, como sublinhou António Guterres, Secretário-Geral da ONU, o que se observa em Gaza está longe de constituir uma trégua autêntica: os bombardeamentos prosseguem em várias zonas, os corredores humanitários funcionam de forma intermitente e a ajuda que entra permanece manifestamente insuficiente perante a catástrofe em curso.


A dimensão prática dessa limitação é devastadora. Agências humanitárias e organismos das Nações Unidas relatam que o fluxo de alimentos, água, combustível e medicamentos está muito aquém do necessário. Muitos camiões ficam horas retidos nos controlos fronteiriços ou são desviados, e o acesso a Gaza City e às áreas do Norte continua severamente restringido. Sem corredores seguros e sem garantias de distribuição, o auxílio transforma-se em imagens e estatísticas — não em socorro real às famílias encurraladas.

Politicamente, o suposto compasso de alívio está refém de interesses contraditórios. A intervenção diplomática de Washington, fortemente influenciada por Donald Trump, construiu uma narrativa ambígua: por um lado, exalta-se a negociação que permitiu a libertação de reféns e a abertura limitada de rotas de ajuda; por outro, declarações sobre a Cisjordânia — incluindo o anúncio do presidente norte-americano de que não permitirá uma anexação formal — misturam-se a gestos que alimentam desconfianças regionais. Essa ambivalência mina qualquer consolidação de confiança: a diplomacia que proclama paz, enquanto impõe condições territoriais, inviabiliza um acordo duradouro.

No interior de Israel, a dinâmica política agrava o impasse. O governo de Benjamin Netanyahu equilibra pressões internas — vindas da direita mais dura e das suas coligações — com advertências externas quanto aos riscos humanitários e diplomáticos.

A narrativa oficial de “eliminar a ameaça” do Hamas serve de justificação para operações de larga escala; o resultado é a destruição de infraestruturas civis e um êxodo interno que as agências internacionais descrevem como cataclísmico. As necessidades de reconstrução já atingem proporções que apenas a ONU e as organizações humanitárias conseguem dimensionar, enquanto as promessas de apoio revelam-se incapazes de restaurar os serviços básicos.

A ONU é taxativa: é imprescindível uma cessação duradoura das hostilidades e mecanismos verificáveis que protejam civis e assegurem a assistência. As palavras de Guterres — elogiando os avanços diplomáticos, mas exigindo cumprimento e escala da ajuda — revelam uma contradição estrutural do sistema internacional: há vontade declarada, mas faltam instrumentos de garantia e pressão efectiva sobre os actores que controlam fronteiras e rotas de abastecimento.

Que medidas urgem para que este interregno não se reduza a propaganda? Em primeiro lugar, a criação de corredores humanitários realmente seguros, supervisionados por observadores independentes e com acesso incondicional das agências.

Em segundo, um compromisso público e verificável para multiplicar as entregas diárias — para além das promessas — e assegurar que combustível e insumos médicos cheguem sem entraves.

Em terceiro, uma acção diplomática coordenada — europeia e multilateral — que vá além das declarações: sanções direccionadas, condicionamento de apoios militares e vetos operacionais devem ser considerados instrumentos legítimos de protecção de civis.

Por fim, é indispensável iniciar um processo político que enfrente as causas estruturais do conflito: a ocupação, os bloqueios e a ausência de um quadro credível para a paz. Sem isso, qualquer pausa humanitária será apenas um prelúdio para nova escalada.

Em Gaza, as pessoas não vivem — resistem. A promessa de um alívio temporário converteu-se num instrumento de propaganda útil a governos que necessitam demonstrar sensibilidade enquanto preservam intactos os alicerces da guerra. E, enquanto se negoceia cada transporte de farinha, cada litro de combustível, cada evacuação médica, a trégua continua a ser apenas uma palavra — uma miragem num deserto de cinzas.

Falar de Gaza impõe uma questão ética inescapável: trata-se de um conflito a ser observado à distância ou de uma realidade que exige acção efectiva da comunidade internacional? A resposta requer determinação política — para condenar violações do direito internacional, exigir responsabilização e orientar as políticas externas segundo a defesa da vida humana. Sem essa coragem, qualquer cessar-fogo não passará de uma encenação momentânea de esperança, enquanto a tragédia prossegue no silêncio devastador das cidades em ruínas.

O conflito no território palestiniano é hoje o espelho de um mundo onde a moral se mede pela conveniência política. Israel insiste em que luta pela sua segurança; os Estados Unidos afirmam que procuram estabilidade; a ONU pede o impossível; e a Europa observa, dividida, o colapso de mais uma promessa de paz. O resultado é uma tragédia em câmara lenta, onde o cessar-fogo nunca cessa e a paz é sempre adiada.

A violência do europeu

Jared Diamond, em “Guns, Germs and Steel” (1997), descreve as causas do desenvolvimento da Europa e o porquê da violência do Europeu. Jared Diamond, na década de 1990, então proveniente das Ciências Biológicas; e Thomas Kuhn, com o seu livro “The Structure of Scientific Revolutions” (1962), na década de 1960, então proveniente das Ciências Físicas, assim como outros; trazem novos enfoques às Ciências Sociais, em notáveis contribuições.

Jared Diamond, tendo ido em 1972 observar pássaros na Nova Guiné para a elaboração de árvores genealógicas, ao andar com Yali, da Nova Guiné, por uma praia, foi perguntado: “Por que vocês, o povo branco, desenvolvem tanto ‘cargo’?” “Cargo” era o termo utilizado pelos habitantes da Nova Guiné para denominar “produtos”, uma vez que nos navios vinha sempre escrito “Cargo”.

A Europa se desenvolveu antes dos outros continentes por três razões. Primeiro, na Europa haviam grãos e animais domesticáveis, como base alimentar para a população. Segundo, a Europa tem menor distância norte-sul do que os outros continentes, como a Ásia, África, América do Norte e América do Sul; com maiores dificuldades para as suas populações migrarem de temperaturas mais frias para as mais quentes durante o inverno; e vice-versa. Terceiro, na maior incidência de germes e doenças do que em outros continentes; e na presença de jazidas de ferro; o Europeu, sem poder escapar às intempéries do tempo e da doença, criou armas e lutou, na busca da sobrevivência; na produção de “cargo”; ou, no que assim percebemos, como na busca da “racionalidade”. O Europeu ficou violento mais do que os povos dos outros continentes.


Se considerarmos o número de mortos em guerras, pelos séculos pelos continentes, é nítida a proeminência Europeia neste indicador. No século XX, por exemplo, com as duas Guerras Mundiais (que, em verdade, foram Guerras Europeias), e demais guerras, o número de mortos na Europa chega a 100 milhões, na Ásia 20 milhões, nos outros continentes em números menores. Em alguns séculos, o número de mortos em guerras na Ásia foi superior ao Europeu, mas, na média, a Europa prevalece.

Lembrando que boa parte das guerras na Ásia, e em outros continentes, foram guerras Europeias, como Alexandre “O Grande” indo para o Oriente, o Império Romano, as Cruzadas, a conquista das Colônias, as guerras na Ásia, as Guerras Mundiais, a extensão das guerras ao Oriente Médio e à África. O mapa assim mostra.

E assim, somos todos produto da Europa e de suas guerras, que não se acalmam até hoje, com consequências sobre todos nós.

“God save the King!”

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Paz é o fim da pobreza


Quando diminui a pobreza, nós vamos experimentando o que é a paz, a convivência e o que é vida. Segunda esperança: que diminuam as desigualdades sociais, que são muitas.

Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida (SP)

Zweig e os tempos que correm

“A tolerância não era desprezada como sinal de moleza e fraqueza, mas sim celebrada enquanto força moral.”

A frase foi escrita por Stefan Zweig no extraordinário O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu. As memórias do vienense que consta na galeria dos meus heróis e não só por ser um dos mais brilhantes autores da Humanidade.

Há demasiadas parecenças, descontando os normais anacronismos, entre os tempos que estamos a viver e as primeiras décadas da vida do genial escritor para que se possa destacar apenas um aspeto deste extraordinário livro. Dois mundos onde a segurança, o conforto, o crescimento económico, a conquista de direitos, a democratização no acesso à cultura, eram vistos como dados adquiridos e irreversíveis. Dois mundos cosmopolitas, progressistas, com extraordinários avanços nas várias áreas de conhecimento.


No entanto, olhar para a tolerância como fraqueza e não como força moral foi uma espécie de condição sine qua non que levou às duas guerras mundiais do século XX e que promete destruir as nossas comunidades.

Não falta quem culpe, em larga medida, as redes sociais pelo clima polarizado e radicalizado em que vivemos.

De facto, a manipulação rápida e em massa tem tido efeitos terríveis no espaço público. A capacidade de se transformar a mentira em verdade (aproveito para recomendar a uma editora que esteja por aí a tradução do livro Invisible Rulers, de Renée DiResta, sobre este assunto), a facilidade com que se pode insultar e difamar sem consequências e o anonimato que faz de qualquer cobarde um valentão são potenciadores brutais de dissensão. E, já se sabe, quanto mais radicais, mais insultuosas, mais violentas forem as mensagens, mais efeito têm, mais tráfego geram e mais dinheiro dão a ganhar aos donos das plataformas.

Ninguém ganha nada com posts moderados ou a vender a chata da verdade. Nas redes sociais não há diferentes pontos de vista ou adversários, há só inimigos e amigos. Há só trincheiras.

No mesmo sentido, nas redes sociais não há ninguém simplesmente de direita ou esquerda (sim, cá estou eu outra vez a usar conceitos que estão desprovidos de sentido), o inimigo é sempre um extremista: o inimigo ou é de extrema-direita e fascista ou de extrema-esquerda e comunista.

Não serei eu, portanto, a desresponsabilizar as redes sociais pela rápida degradação do espaço público. Bem pelo contrário.

As últimas eleições autárquicas, por exemplo, mostraram que há políticos que não hesitam em chamar radical ao seu adversário sem explicar em que se consubstancia essa acusação, que trocam epítetos por argumentos, que preferem discussões vagas sem ligação direta à vida das pessoas. E não poucas vezes isso resulta.

As pessoas estão muito recetivas a acreditar em mentiras, sobretudo nas que confirmam os seus preconceitos e, claro, esses podem ter sido amplificados por grandes ações de propaganda. No entanto, exploram sempre preconceitos.

As redes sociais apenas alimentam rápida e eficazmente sentimentos que são tão velhos como o mundo.

Não há crise social que não tenha este tipo de fenómenos, esta parte negra da natureza humana na sua génese. Podem, claro está, ser alimentados por outras circunstâncias: problemas económicos, choques civilizacionais, etc., etc., mas este lado lunar é sempre imprescindível. A capacidade de destruirmos o chão comum, a comunidade, sempre teve Xs, Facebooks e afins.

Por outro lado (ou não), a imensa concentração de riqueza ajuda hoje, como ajudou noutras alturas como a de Zweig, a definir narrativas – o poder imenso dos recursos infinitos consegue quase tudo.

O culpado da desigualdade, das crises económicas, do desemprego, da falta de expectativas é sempre um inimigo facilmente identificável: o imigrante, o judeu. Mas não só. É fundamental culpar as elites, e a narrativa define que nunca são as económicas, são sim as que chamam a atenção para os problemas das sociedades, os que não culpam os alvos do costume, mas apontam para causas que não se explicam num cartaz ou num tweet.

Que ninguém duvide: o investimento em propaganda e nos seus meios para a criação de um discurso político é também uma estratégia empresarial. Basta um exemplo: Trump e a sua claque.

Tudo isto, rigorosamente tudo, precisa de que não vejamos o outro como igual, como alguém que não vive com as mesmas angústias e desejos, que não tem como nós o mesmo direito a ser ouvido. É fundamental que não toleremos o outro e que o desprezemos. Um homem ou uma mulher como deve ser é um fraco se não gritar mais alto, se não insultar de forma mais violenta, se não olhar para o lado contrário. A tolerância tem de ser um defeito, não uma virtude.

Sim, querido Stefan Zweig, não aprendemos nada.

No caixote do lixo da História

“Por favor, apaga as imagens políticas horríveis que partilhei contigo, infelizmente ainda temos de voltar aos EUA.” Final da tarde de sábado, 18, em Portugal e o meu interlocutor no WhatsApp lembrava-se de que Donald Trump é um “agente laranja intocável” e que o Big Brother pode estar sempre a observar-nos.

Dois minutos antes, eu rira-me à gargalhada com os dois cartoons que me enviara. Num deles, Trump aparece mascarado de Mickey, de chupeta na boca e pistola na mão, orgulhoso de um cocó. No outro, o inquilino da Casa Branca está sentado no edifício do Capitólio feito retrete, preparando-se para usar papel higiénico com a bandeira dos Estados Unidos impressa.

Dentro de pouco tempo, este meu amigo e a sua mulher vão ter de sair de Portugal porque ainda não obtiveram a autorização de residência. Logo que possível, contam regressar ao País onde vieram procurar refúgio a seguir à tomada de posse da segunda Administração Trump. Mas, enquanto não estiverem escudados legalmente, todo o cuidado é pouco, lembram amiúde.


É uma amizade recente, esta, nascida por causa de um artigo a que demos capa na VISÃO, no início de fevereiro, sobre “refugiados de Trump” que aqui foram chegando nos últimos meses. Tudo pessoas que se sentem indignadas com o rumo do seu País e confessam ter vergonha de se dizerem norte-americanas.

Manhã de domingo, 19. Quando acordei, já tinha uma nova mensagem no grupo de WhatsApp criado por um outro casal também entrevistado para o mesmo artigo e também temporariamente de volta aos EUA: “Viste as manifestações? Nós não podíamos faltar!”

Nesse grupo, predeterminámos que as mensagens desaparecem ao fim de pouco tempo. Eu não tenho nada a perder com o que ali partilhamos; eles confessam algum receio, mas que não os travou de participarem no megaprotesto No Kings (sem reis) que, no sábado, 18, encheu de gente as principais cidades norte-americanas, pequenas vilas e subúrbios.

Não os travou a eles nem aos milhares de pessoas, de todas as idades, que se manifestaram contra a Administração Trump, a empurrar carrinhos de bebé, em cadeiras de rodas, de cães pela trela e cartazes alusivos (“Ninguém está a comer cães”), num ambiente festivo onde não faltaram as piadas. Foram mais de 2 600 manifestações, um pouco por todo o país, sem relatos de ilegalidades ou violência.

“Queremos expulsar o fascista Donald Trump e mandá-lo para onde ele pertence – direto para o lixo da História”, tinham anunciado os organizadores do No Kings. “Ele é a personificação do motivo pelo qual a 25ª Emenda e o impeachment [destituição] foram criados. Se o Congresso tivesse coragem, ele seria relegado para o caixote do lixo da História”, já defendera Bruce Springsteen, numa entrevista à Time.

O que talvez ninguém esperasse era ver Trump publicar na Truth Social um vídeo gerado por IA em que aparece de coroa na cabeça, a pilotar um caça e a deitar cocó sobre os manifestantes. Aconteceu logo na noite de sábado e escrevi “talvez”, embora já se espere tudo dele – sobretudo cocó e (suposto) humor para disfarçar mais uma ação de propaganda.

Transformar a violência num meme faz com que as pessoas deixem de a ver como violência, sabem de cor os ditadores.

A perda da hipocrisia

Os membros do Knesset israelita passaram um projeto de lei preliminar que abre caminho para a anexação da Cisjordânia. A resposta do partido do primeiro-ministro israelita, o Likud, foi de que esta é uma tentativa de minar as relações entre Israel e os Estados Unidos, assim como minimizar os ganhos da guerra. Afinal, “nós fortalecemos os assentamentos todos os dias com ações, orçamentos, construção, indústria, e não com palavras”. De acordo com o jornal Times of Israel, o partido sustentou: “A verdadeira soberania vai ser atingida não com uma lei de demonstração (show-off) para o protocolo, mas trabalhando propriamente no terreno e criando as condições políticas adequadas para o reconhecimento da nossa soberania, como foi feito nas Colinas de Golã e em Jerusalém”.

Ora, está tudo dito e repetido para quem queira ouvir: não vai haver um Estado Palestiniano, o governo israelita pretende anexar os territórios e toda a tentativa de oficializar isto agora em lei é apenas uma performance política, porque quem está comprometido de verdade com este processo não fala, faz. Se há alguma dúvida sobre a intenção israelita de embarcar num processo de paz com uma via política para os palestinianos, mesmo que como parte de um acordo restritivo que não apresenta quaisquer condições de concretização ou sequer inclui a voz palestiniana no processo, penso que estamos esclarecidos.


Não vale a pena continuar a minimizar o que é dito e repetido à luz do dia, sem vergonha e sem pudor. E isto é resultado direto da liderança de Donald Trump na Casa Branca, que levou a uma completa eliminação da hipocrisia no sistema internacional. Quando falamos em hipocrisia, pensamos numa palavra negativa, no jogo mentiroso e na tentativa de ludibriação dos fatos. Mas hoje percebe-se que a hipocrisia é, na verdade, essencial, porque representa a existência de alguma bússola moral e da sensação de que há limites e nem tudo é permitido.

Com a Riviera de Gaza, com a capitulação da Ucrânia, com o desabamento das relações entre EUA e União Europeia, Donald Trump disse para o mundo que entramos, de vez, na era do contrafactual. Tudo pode ser dito e, no dia seguinte, contrariado. Mesmo que existam vídeos e provas, os factos já não importam no mundo da pós-verdade. E isto se expande de forma nefasta por todo o mundo, incluindo nos nossos países e nas democracias ocidentais. A consequência direta disto é que nem hipócritas temos mais que ser. E com a perda da hipocrisia, vem a perda da vergonha e da moralidade.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A guerra invisível e a nova fronteira da luta humanitária

O mais importante movimento de solidariedade internacional concentrou os olhos sobre Gaza, contudo, a África sangra em silêncio. No coração do continente, o Sudão vive uma das maiores tragédias humanitárias do século — uma guerra civil que já produziu mais de 13 milhões de deslocados, centenas de milhares de mortos e um colapso moral global. Desde abril de 2023, o país é palco de uma disputa brutal entre o Exército Sudanês (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), que transformou cidades inteiras em ruínas.

O Sudão enfrenta uma crise alimentar severa e foi classificado como um dos países com riscos mais elevados. Regiões como Zamzam e El-Fasher foram devastadas pela privação alimentar usada como arma de guerra. 4,7 milhões de crianças e gestantes estão em risco de morte por desnutrição. O alimento é bloqueado, os hospitais destruídos, a ajuda humanitária impedida. O país tornou-se um laboratório de extermínio em que a fome, o estupro e o terror são táticas militares.

Entre 7 e 9 de outubro de 2025, mais de 60 pessoas foram mortas em ataques aéreos sobre El-Fasher, incluindo mulheres e crianças abrigadas em mesquitas. Trata-se de uma guerra total contra a vida – e não apenas contra exércitos. Na maioria das vezes, o genocídio sudanês permanece fora das manchetes e do debate internacional.


O resultado é que o Sudão se tornou a guerra por procuração mais complexa da atualidade. Nenhuma das potências envolvidas luta pela democracia ou pela paz. Todas defendem seus próprios interesses – estratégicos, energéticos, comerciais ou simbólicos. O país é apenas o território onde essas forças se confrontam, e os sudaneses, seus reféns.

Enquanto isso, o Ocidente pratica uma seletividade moral que se repete em todas as guerras do Sul. Os governos que clamam por direitos humanos na Ucrânia e denunciam os horrores em Israel, silenciam diante da África. Condenam a fome palestina, mas ignoram a fome africana. O G7 e a OTAN, que posam de defensores da civilização, financiam as mesmas indústrias bélicas que alimentam os conflitos no continente.

Mais de 30 milhões de pessoas precisam de ajuda imediata, mas menos da metade do plano humanitário da ONU foi financiado em 2025. A omissão não é descuido: é cálculo. O caos interessa. Ele mantém a África fragmentada, dependente e útil como barreira migratória. Cada guerra, cada crise, cada colapso reforça a política de contenção humana que impede milhões de africanos de cruzar o Mediterrâneo. É a nova forma de colonização – um sistema que transforma a miséria em instrumento de controle geopolítico.

A guerra no Sudão é também um espelho de Gaza, de Iêmen, de Congo, de Haiti. Em Gaza, o colonialismo é direto. No Sudão, é travestido de disputa interna. Em ambos, o que impera é a indiferença institucionalizada e a repetição de um padrão racial e histórico de desumanização. O Ocidente só reconhece tragédias quando o sofrimento tem cor e idioma semelhantes aos seus.

O caso sudanês revela algo ainda mais profundo: o capitalismo global não sobrevive sem a barbárie. Ele precisa de guerras periféricas para expandir lucros, de crises para justificar o saque, de catástrofes para legitimar intervenções. O sangue africano é a moeda com que se compra a estabilidade europeia e americana. O ouro e o urânio de Darfur sustentam o brilho das metrópoles e as baterias dos carros elétricos do Norte.

Como já advertia Karl Marx, “o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros”. E como completava Jean-Paul Sartre, “a liberdade de um só não é possível enquanto houver escravos”. A guerra no Sudão é o retrato contemporâneo dessa dialética. Cada criança faminta é o custo oculto da nossa modernidade.

Mas o que fazer diante desse abismo? O primeiro passo é recuperar o sentido revolucionário da autodeterminação dos povos. O direito à soberania não pode continuar sendo privilégio do Norte. A África não é colônia, nem laboratório de diplomacia seletiva. O povo sudanês tem o direito de decidir seu destino sem ser manipulado por alianças regionais ou sanções geopolíticas.

A paz não virá de Washington, Moscou ou Riad. Ela nascerá da organização popular africana e da solidariedade internacionalista. O socialismo, se quiser ser fiel à sua essência humanista, deve reencontrar na África a sua nova fronteira moral. Defender o Sudão é defender o sentido universal da vida. É afirmar que nenhum povo pode ser sacrificado no altar dos interesses econômicos.

Nesse contexto, o Brasil tem uma responsabilidade histórica intransferível. Somos o maior país afrodescendente do mundo, herdeiros diretos das civilizações africanas que nos moldaram. Nossa cultura, nossa língua e nossa espiritualidade nascem da África. O silêncio diante da destruição sudanesa é uma negação da nossa própria identidade.


O Brasil deve propor, no âmbito da ONU e da União Africana, uma Conferência Internacional pela Paz e Autodeterminação Africana, sediada em Salvador (Bahia) – símbolo maior da diáspora negra. Deve liderar um Movimento Sul-Sul de Solidariedade Humanitária, unindo países da América Latina e do continente africano para discutir paz, reconstrução e soberania. Deve criar, em parceria com universidades e organizações afro-brasileiras, um Observatório Permanente de Crises Africanas, capaz de produzir relatórios independentes e pressionar por responsabilização internacional.

Essas não são medidas simbólicas: são instrumentos concretos de reconstrução da ética global. O Brasil pode e deve ser a voz dos povos oprimidos, não apenas um espectador nas conferências das potências. Nossa diplomacia deve voltar a falar a língua dos povos – a língua da solidariedade, da igualdade e da dignidade.

A esquerda internacional, os socialistas, os trabalhadores e os movimentos revolucionários precisam compreender que o Sudão é mais do que uma tragédia africana: é uma nova fronteira de mobilização mundial. O que se decide ali não é apenas o destino de um país, mas o futuro do próprio conceito de humanidade. A luta pela África é a continuidade da luta pela Palestina, pela Amazônia, pelo clima, pela dignidade humana. Tudo está ligado pela mesma lógica de exploração e de resistência.

O genocídio sudanês é a prova de que o capitalismo em colapso precisa destruir vidas para continuar existindo. A resposta só pode vir de uma reorganização global dos povos – um novo internacionalismo ético, solidário e revolucionário. Um movimento capaz de unir trabalhadores, intelectuais, mulheres, negros, indígenas, estudantes e camponeses em torno de uma bandeira única: a defesa incondicional da vida contra a economia da morte.

Vivemos o tempo da urgência moral. A tecnologia avança, mas a consciência recua. A humanidade multiplica satélites, mas não consegue impedir que uma criança morra de fome em Darfur. O problema não é técnico; é político. E toda omissão é uma forma de cumplicidade.

Por isso, é hora de romper o silêncio. De transformar a solidariedade em organização e a indignação em política.

Porque a paz na África não é apenas uma causa regional.

É o começo da paz no mundo.

Concentração inédita cria risco de estouro da bolha da IA

Existe uma bolha da inteligência artificial? Esse é um debate que vem consumindo os círculos no entorno do Vale do Silício há pouco mais de um mês. O anúncio de uma operação casada de Nvidia, Oracle e OpenAI acelerou a preocupação. Afinal, existem vários indícios cada vez mais fortes de que a economia americana se meteu num lugar inédito. O primeiro começa com as magnificent seven — as sete magníficas, companhias que ocupam as sete primeiras colocações na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em valor de mercado. Por ordem: Nvidia, Microsoft, Apple, Google, Amazon, Meta e Tesla.

Em conjunto, as sete representam quase 35% do índice S&P 500, que reúne as 500 maiores companhias com capital aberto na NYSE e na Nasdaq. Tamanha concentração já ocorreu de forma similar no passado, mas nunca deste jeito. Por uns meses, em 1964, as sete maiores chegaram a valer perto de 30% do total. Entre 1973 e 1974, algo similar aconteceu. Mas não só representavam parte um tanto menor do conjunto, como havia uma diferença crucial. Nos anos 1960, naquele punhado de empresas, havia uma grande companhia telefônica, automobilísticas, petroleiras e até a IBM. Na década seguinte, a lista incluía ainda bancos e a GE. As sete pertenciam a muitos setores distintos. A ramos diferentes. Se houvesse uma crise do petróleo, como aliás houve, isso até aumentava o consumo de telefone. A ação de uma cai, a outra sobe.


Não foi só isso que mudou. Empresas que valiam muito, mas muito mesmo, no mercado americano ou mundial, chegavam a algo na casa dos US$ 200 bilhões. A Nvidia vale mais de US$ 4 trilhões. Microsoft e Apple estão possivelmente a semanas de cruzar essa linha. Mesmo corrigindo pela inflação, os números simplesmente não são comparáveis. Nem sequer cabem na mesma régua, tamanha a distância. E algo mais torna a preocupação maior. Os fundos com as aposentadorias dos americanos de classe média vêm sendo transferidos para a Bolsa cada vez mais nas últimas décadas. É a maior economia do mundo, portanto, com o maior volume de dinheiro mensalmente deslocado para guardar planejando auferir renda na velhice, dada a concentração. Quase todo esse dinheiro tem ido para comprar papéis das sete magníficas.

O apelido que o conjunto ganhou tem um trocadilho que, em português, se perde. Trata-se do nome original do filme “Sete homens e um destino”, adaptação americana, como western, de “Os sete samurais”, de Akira Kurosawa — por sua vez, versão japonesa de “Sete contra Tebas”, peça do teatro ateniense clássico. O mundo dá voltas.

E a preocupação aumenta. A Nvidia tem entre seus maiores clientes as grandes companhias de nuvem, que adquirem os chips de IA. São Microsoft, Google, Amazon e Oracle. A mesma Nvidia investiu US$ 100 bilhões na OpenAI. A OpenAI tem um contrato com a Microsoft e outro com a Oracle para rodar seus modelos de inteligência artificial na nuvem. Nuvem que depende de chips Nvidia. Ora, a mesma Nvidia também investiu na Anthropic, concorrente da OpenAI — que roda seus modelos nas nuvens de Amazon, Google e, mais recentemente, Microsoft. Se estas duas, OpenAI e Anthropic, não estão entre as sete, é por uma única razão. Não abriram capital. São empresas fechadas. Mas as sete grandes estão entre suas principais acionistas.

O dinheiro é circular. Entra numa e vai para a outra. A conta circular, feita pela McKinsey, funciona assim: ao todo, 60% do montante do dinheiro do negócio da IA vai para chips e nuvem. É quanto das fortunas investidas sai do cofre de uma, entra na outra, e volta para a primeira. Outros 25% são gastos em energia, escorrendo para outro setor da economia. Ponha-se, ainda, uns 15% do investimento em construção civil. Aço, concreto, cabos, operários.

Não é pouco dinheiro. O fato de a economia americana não estar em recessão, apesar das tarifas impostas ao mundo pelo governo Trump, é atribuído à única coisa que cresce como se não houvesse possibilidade de fim para construção de riqueza baseada numa única ideia: inteligência artificial. Nunca, na história do capitalismo, um único setor da economia gerou tanta riqueza tão rápido. E fez isso sem mostrar objetivamente como aumentar a produção usando o que vende. Não é um detalhe pequeno. IAs já poupam dinheiro em muitas empresas. Há estudos mostrando isso. É só que a conta da economia ainda é uma fração do que se investe.

Como o crescimento é num único setor muito estreito, baseado numa única inovação, basta uma das sete grandes sofrer uma crise que o risco de contágio é grande. Bum! Estoura a bolha.

Uma voz do Brasil

A voz anônima de uma atendente de restaurante chegou aos ouvidos de Caetano Veloso. “A vida é amiga da arte”, cantava a senhora ao microfone para uma sala quase vazia, com uma toca de plástico sobre a cabeça. “É a parte que o sol me ensinou”.

A imagem da improvável e fascinante cantora circulou pelas redes sociais, captada por alguém que ainda fez troça de sua idade – a “vovozinha do restaurante”. Mas conquistou tantos corações que chegou ao autor daquela canção, Força Estranha.

Deitado na cama, com o celular nas mãos, Caetano se emocionou. “Ela canta lindo”, disse ele. “É a mesma canção que cantei com meus filhos na televisão”.

Pouca gente saberá, por enquanto, quem é a cantora. Nem onde fica o restaurante, onde já não havia quase ninguém quando ela começou a cantar. Mas não importa. Ela mostrou ali, naquela rara simplicidade, como bate hoje o coração do Brasil.


Um Brasil que anda esquecido de si mesmo. Que se deixou mergulhar em brigas de egos, disputas políticas e guerras ideológicas que parecem ter saído do túnel do tempo.

Talvez de um século atrás, quando os nazistas começaram por atacar os artistas e acabaram levando o mundo inteiro a uma grande guerra.

Naquela Alemanha de antes de Hitler, Berlim era uma espécie de Nova York, que atraía artistas e intelectuais de todo o mundo. O cinema era revolucionário, a música inovadora, a arquitetura e a arte se uniram para criar o movimento Bauhaus.

Tudo foi proibido depois que os nazistas chegaram ao poder. Nazistas que inspiraram o famoso discurso do primeiro responsável pela cultura no governo de Jair Bolsonaro.

Aqueles quatro anos foram um tempo de ataque aos artistas. Na visão dos mais fiéis bolsonaristas, todos eram sanguessugas patrocinados pela Lei Rouanet. Embora os protegidos cantores sertanejos tenham feito fortunas com shows pagos por prefeituras alinhadas com a direita.

A senhorinha do restaurante não ganhou nada ao cantar. Talvez venha a ficar famosa e apareça na televisão. Mas também isso não importa. O que importa é o que ela tem por dentro e canta, mesmo que para ninguém.

Não terá sido aleatória a escolha da canção. “Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos”, escreveu Caetano. “Estive no fundo de cada vontade encoberta. E a coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol”.

No horizonte da política a imagem é outra. As grandes certezas imutáveis dividiram as pessoas, os amigos, as famílias. E até hoje há gente que aposta na radicalização, como a abrir caminho a uma instabilidade que soe como convite ao autoritarismo.

Nada disso parece mesmo valer um caminho sob o sol. O Brasil está povoado de pessoas simples como aquela cantora, com muita sensibilidade e vontade de viver em paz, em um país que busque reduzir a pobreza, a desigualdade e a violência.

É para toda essa gente que os futuros candidatos a presidente devem um novo projeto. Algo mais do que um necessário projeto nacional de desenvolvimento, que permita mais oportunidades a todos e proteção social a quem mais precisa.

Esse projeto também deve incluir a busca de uma nova identidade brasileira, para além da guerra ideológica que ainda ameaça contaminar as eleições de 2026.

O Brasil pode vir a se mostrar a si mesmo a ao mundo como um país que une a liberdade à busca do desenvolvimento, à proteção de sua natureza, ao combate à desigualdade e ao estímulo a suas mais diversas culturas.

Para que muitas outras senhorinhas possam soltar sua voz tamanha.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


Herzog, 50 anos

Passava da uma da tarde na esquina da Alameda Santos com Rua Leôncio de Carvalho. Era minha hora de almoço numa primavera com tempo nublado, 50 anos atrás. Sentado num muro baixo, lia o paulistano Jornal da Tarde. No pé da página, a notícia da morte de Vladimir Herzog.

De noite, na escola, soube pelo professor de química que o jornalista fora assassinado no DOI-Codi. Eu tinha 16 anos e lembro-me de sentir naquele momento o que uma ditadura faz com seus adversários: mata.

Dias depois, amigos mais velhos me contaram ter estado na missa em memória do jornalista, um ato ecumênico acontecido na Catedral da Sé e que reunira cerca de 8 mil pessoas. Pelos relatos, compreendi que não fora somente uma celebração religiosa, a reza compungida pela alma do morto. Além de tudo, os presentes lutavam em defesa da liberdade de viver sem temor e não ser subjugados por um regime autoritário. Ali se rezava por todos nós.


À luz da História, a missa celebrada entre outros por Dom Paulo Evaristo Arns e pelo rabino Henry Sobel, duas figuraças com quem conviveria anos depois, marca o início da derrubada da ditadura militar. O governo do general Ernesto Geisel prometia uma abertura lenta e gradual, quando se percebeu ser o regime um corpo disforme integrado por policiais maus e policiais bons — como se isso fosse possível num regime de exceção. Havia uma briga interna. Desde seu início, em março de 1964, já desapareciam desafetos políticos — prática tornada hábito sob Emílio Médici, com a banalização da tortura e o puro assassinato, como acontecera com Herzog e ocorreria com o operário Manoel Fiel Filho, ambos no reinado de Geisel, em desafio a sua autoridade. Apenas em 1977, com a demissão do ministro do Exército, Sylvio Frota, Geisel conseguiria ter em mãos seu projeto de liberalização (nos seus termos, fique claro).

Não se derruba uma ditadura sem passar por um longo processo. O mesmo vale para chegar a um golpe, como o de 1964, que precisou de muitos anos de sedição, políticos incompetentes e, no caso específico, dinheiro americano para a compra de deputados e senadores golpistas

A reação à morte de Vlado Herzog serviu para a classe média apoiadora do golpe perceber o caráter assassino do regime. Herzog não integrava a luta armada, não pegava em armas, era somente um jornalista de esquerda, de trato afável, amante de teatro. Como ele, milhões de outros brasileiros faziam oposição intelectual aos generais. Com seu desaparecimento, caía a ficha de que qualquer um poderia ser eliminado. O filme “Pra frente, Brasil”, dirigido por Roberto Farias, lançado em 1982, baseia-se num fato real. Um cidadão comum é confundido pelos agentes da repressão com um militante da luta armada. Preso, embora dissesse ser tudo engano, é barbaramente torturado. Não havendo liberdades democráticas, com o Estado de Direito suspenso e a imprensa sob censura, a simples delação anônima podia resultar em tortura e morte.

Terminada a ditadura, um acordo de covardia institucionalizou a impunidade dos torturadores. Ao contrário do Chile e da Argentina, que julgaram seus assassinos, o Brasil varreu sob o tapete sua sujeira. Até elegeu depois alguns como deputados, mostrando como a sociedade é também um corpo disforme onde convivem o médico e o monstro. Apenas os militares foram pintados como algozes, esquecendo o apoio civil dado ao regime em nome de uma pretensa luta contra a paranoia do comunismo.

O renitente apoio ao capitão Bolsonaro, julgado e condenado por tentativa de golpe, mostra a doença autoritária da sociedade brasileira. Os manifestantes nas portas dos quartéis ou na invasão dos prédios dos três Poderes, agora pintados pela conhecida contemporização brasileira, colocariam novamente no cadafalso outros cidadãos como Vladimir Herzog ou Rubens Paiva.

Passados 40 anos da volta da democracia, e 50 daquela tarde de tempo nublado na cidade de São Paulo, o Brasil ainda paga pela herança da ditadura. Não se pode dizer que a doença passou. Permanecemos uma sociedade violenta. A cordialidade brasileira, aquela que encanta turistas e alimenta nosso ego, sempre foi verniz fino sobre a brutalidade. Existe um ex-presidente, com seus seguidores civis capazes de elogiar torturadores e um regime que prendia e matava a esmo. E existem patriotas em defesa de um golpe de Estado, com a volta dos militares ao poder, desfilando pelas ruas de camisa amarela. Eles não querem nada mais que o fim da nossa liberdade — e não apenas para quem lê notícias encostado num muro baixo.

O discurso do ódio nas escolas públicas

Nunca, em outra altura da nossa carreira de quase quatro décadas enquanto professores da escola pública, o nosso papel foi tão importante para apaziguar o discurso do ódio que se sente, latente, dentro e fora da sala de aula.

Os tempos mudaram. E não foi para melhor. Numa altura em que o mundo parece desabar sobre as nossas cabeças, o discurso de promoção e incentivo ao ódio, ao preconceito e à violência contra pessoas singulares ou grupos específicos, cresce a olhos vistos. Se as famílias não colocarem como prioridade estabelecer limites a este fenómeno e se a escola pública e os seus professores não criarem, com caráter de urgênci,a um plano de ataque para esta problemática crescente, o quadro final será catastrófico.

Quem não viu ainda nos ecrãs da televisão ou, mais provável e frequentemente, nos grupos de whatsapp de alunos e pais, alguns vídeos que se tornam virais em poucos minutos com cenas com crianças e jovens a serem agredidos, gozados, humilhados perante um público que, em vez de agir de imediato, se limita a filmar? Basta deambular pelos corredores de uma escola multicultural como a minha para percebermos o quão fácil é, para um jovem adolescente, abrir a boca e humilhar, ofender, diminuir o outro, com base em características como a cor da pele, a religião, a orientação sexual, o estilo de vestuário, o corte de cabelo, o número de piercings e/ou tatuagens, entre outros.


No entanto, a escola não é o espaço embrionário para este tipo de discurso negativo contra grupos vulneráveis. Pelo contrário, ao longo dos últimos tempos, temos vindo a assistir a uma crescente aceitação do outro na escola pública. Em todas as turmas temos cada vez mais jovens marcadamente diferentes da maioria, quer pelo seu estilo alternativo, quer pela sua orientação sexual assumida sem medos. A normalização do discurso de ódio a que se vem assistindo surge de fora para dentro, impulsionado muitas vezes pela comunidade de onde estes jovens são oriundos e onde se integram (ou não). Por mais que opiniões desfavoráveis sobre determinados grupos ou indivíduos historicamente discriminados tenham vindo a surgir no discurso comum a que se assiste diariamente e, em grande parte, divulgados através de meios de comunicação social, a escola procura combater, de todos as formas possíveis, este tipo de discurso discriminatório.

A escola pública promove a educação em Direitos Humanos. Na minha disciplina, Português, surgem múltiplas oportunidades para este debate. Desde o profícuo debate a partir do estudo da epopeia lusitana aos vícios dos homens apresentados alegoricamente no Sermão de Santo António aos Peixes, passando pela mudança e pelo desconcerto do mundo presentes na lírica camoniana ou a falta de liberdade de expressão a partir do estudo da obra de Saramago, a língua materna permite múltiplos cenários de promoção dos Direitos Humanos. Mas acontecerá o mesmo nas outras disciplinas? Julgo mesmo que, em certos contextos, continuamos a agir como se o Holocausto não tivesse existido. E a escola deve trazer os Direitos Humanos para a agenda do dia, promovendo debates, criando experiências de inclusão e de solidariedade, incluindo-as no Plano de Atividades de todas as escolas, de todos os grupos disciplinares, de todas as áreas do saber, transversalmente alcançando todos, todos…

Como criar uma cultura de paz em escolas onde a diversidade étnica, religiosa, socioeconómica, de género, de estilo é tão gritante? Tenho na mesma sala de aula portugueses do bairro, membros de gangues, ciganos, negros, árabes, brasileiros de variadas vertentes religiosas e até uma aluna paquistanesa que usa hijab. Cada vez mais sinto a necessidade de ver fomentada na escola pública uma comunicação de respeito e de inclusão que promovam uma cultura de combate ao discurso de ódio que comece na sala de aula e se estenda, desta vez, ao exterior. Este é um desafio difícil mas urgente, uma vez que a onda de discursos de ódio está a alastrar-se e sai de casa para as ruas do bairro, para a cidade e para o mundo. Embora o Gabinete da Unesco para a Prevenção do Genocídio e a Responsabilidade de Proteger tenha desenvolvido um guia com algumas respostas educacionais, orientações e recomendações sobre a forma de fortalecer os sistemas educacionais para combater o discurso de ódio, estes parecem não ter sido divulgados pelas escolas, neste dias que correm, muito mais preocupadas com a sua diária burocracia estupidificante.

A publicação da Unesco, intitulada Enfrentar o discurso de ódio por meio da educação: um guia para formuladores de políticas (2023), aponta algumas soluções para prevenir e combater narrativas nocivas e discriminatórias na forma de xenofobia, racismo, antissemitismo, anti-islamismo e outros tipos de intolerância. Em consequência do rápido crescimento do número de utilizadores das redes sociais e da banalização de discursos populistas e extremistas por toda a Europa e pelo mundo, deve a escola através dos profissionais de ensino ajudar combater as narrativas de ódio. Neste sentido, a divulgação da Agenda Educação 2030 da Unesco, que faz parte de um movimento global para erradicar a pobreza através de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030, coloca a Educação como um desses objetivos fundamentais (Objetivo número 4).

O discurso de ódio contra grupos minoritários e/ou desfavorecidos, já por si marginalizados, pode agudizar situações de exclusão social ao promover a intolerância e o desrespeito pelo “outro”. A escola, através de uma educação inclusiva e equitativa, capacitando indivíduos de grupos marginalizados e, consequentemente, promovendo a sua inclusão social, pode ser um fator-chave na minimização deste tipo de discurso.

Como podem a escola e os seus professores combater esta forma de discriminação e criar uma cultura de paz num ambiente de respeito por todos e para todos? Contrariar narrativas prejudiciais e discriminatórias passará, entre outros aspetos, pela capacitação de professores e alunos sobre os valores e práticas a respeitar na relação com os cidadãos globais e digitais, pela adoção de abordagens pedagógicas e de toda a escola para fortalecer a aprendizagem social e emocional. Contudo, nada disto será verdadeiramente eficaz sem uma reformulação de alguns conteúdos curriculares, adequando-os culturalmente e incluindo conteúdos promotores da tolerância e do direito às liberdades fundamentais ao ser humano.

Numa altura em que a liberdade de expressão se revela cada vez mais necessária para as democracias e em que o discurso de ódio se propaga, é prioritário combater cenários de agressividade e de intolerância que ocorrem no dia a dia das nossas escolas, desenvolvendo na comunidade escolar um olhar crítico em relação a todo e qualquer tipo de discriminação.

Não é depois do discurso de ódio estar implementado que se deve agir. Este deve ser prevenido desde cedo através da construção permanente de diálogos sobre respeito pela diversidade, atividades que desenvolvam o pensamento crítico e promovam aprendizagens sociais e emocionais. Para que serve a escola, afinal, se não for para enfrentar os “desafios mundiais à paz, à justiça, aos direitos humanos, à igualdade de género, ao pluralismo, ao respeito à diversidade e à democracia?” (UNESCO)

Recordemos as palavras de Eduardo Sá, psicólogo clínico e psicanalista, num texto publicado no Observador (17/01/21): “O discurso do ódio, de que tanto se fala, é construído por nós, todos os dias. Não que o façamos de forma intencional, claro. Mas enquanto não educarmos para se saber escutar, para se pensar com aquilo que se sente, para se aprender com os outros, enquanto não se reeducar as pessoas para a palavra (…), menos os nossos filhos (e alunos) encontrarão na diversidade os argumentos com que apurem a singularidade.”

A escola, repito, joga neste tabuleiro um papel fundamental.

Ninguém quis ver o que aconteceu em Gaza

Existe uma resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada dez anos atrás que obriga os Estados-membros à proteção de jornalistas durante conflitos armados. Não só porque jornalistas integram a população civil de países, como pela função social específica que desempenham no mundo. Assinada por unanimidade em 27 de maio de 2015, a 2222 especifica que “jornalistas, profissionais de mídia e pessoal associado” na cobertura de guerras não podem ser considerados alvo militar. Outra resolução, bem mais recente (2730, de 2024), aborda especificamente “os princípios da distinção, proporcionalidade e precauções em conflitos armados”, de modo a proteger civis e pessoal humanitário. Contudo, ao longo dos últimos dois anos, até o frágil cessar-fogo instaurado em 10 de outubro, tudo isso e muito mais foi pulverizado pela ação das Forças de Defesa de Israel (FDI) na Faixa de Gaza.


Até aí nada de muito novo, visto que resoluções da ONU valem pouco dependendo da força política ou do apadrinhamento do país infringente. Inesperado, mesmo para os tempos atuais de escassez moral no mundo, foi a docilidade com que o chamado grande jornalismo profissional aceitou que seu papel de testemunha-chave da História fosse bloqueado. Diana Buttu, advogada palestino-canadense especializada em Direito Internacional, resumiu assim o noticiário inicial do conflito na imprensa ocidental:

— O mundo nos informa que nada pode justificar o 7 de Outubro (data em que grupos terroristas do Hamas irromperam no sul de Israel, trucidaram 1.219 pessoas em poucas horas e fizeram 251 reféns), mas tudo o que Israel fizer pode ser justificado pelo 7 de Outubro.

No início do feroz assalto das FDI, também pareceu compreensível que, por razões militares, Israel vedasse o enclave a todo e qualquer representante de mídia independente. Ninguém esperava poder voltar aos tempos áureos do jornalismo de guerra dos anos 1960 e 1970, quando os Estados Unidos, atolados no Vietnã, perderam o apoio da opinião pública graças à independência dos jornais, ao arrojo dos enviados ao front e à liberdade que tiveram para trabalhar arriscando a vida. Nas guerras seguintes, tanto contra o Iraque quanto no Afeganistão, o Pentágono domesticou os grandes órgão de mídia — transformou os enviados especiais em embedded journalists. Atrelados às forças invasoras, grande parte da cobertura foi feita em movimentos cerceados, e o envio de imagens ficou sob escrutínio. Mesmo assim, não foram poucos os jornalistas internacionais que abriram mão da sedução de poder cobrir uma guerra do interior de um tanque e se aventuraram a explorar o morticínio por conta própria.

Em Gaza, nem isso. O bloqueio foi, é e continua a ser irredutível e absoluto. Coube então ao jornalismo profissional e amador de Gaza vestir coletes e capacetes e mostrar o que ninguém queria ver. De início desacreditados pelas grandes mídias mundiais, ou suspeitos de ser meros propagandistas do Hamas, toda uma geração de repórteres, cinegrafistas, fotojornalistas, radialistas e blogueiros palestinos vivenciou e testemunhou a história da guerra. Foi alto o custo humano desse trabalho insano. Levantamento feito para o canal Al Jazeera identificou 278 jornalistas e pessoal de mídia (palestinos em sua imensa maioria) mortos em Gaza por ação de Israel. Foi somente em agosto deste ano, transcorridos 22 meses de blecaute total, que mais de 250 veículos de mídia de 50 países emitiram um protesto coletivo contra esse apagamento de vidas e da História. Mas notas de protesto não bastam. Soa infantil, mas uma flotilha encabeçada por The New York Times, The Economist, Financial Times, Le Monde, The Guardian, El País, Haaretz, The Wall Street Journal e outros pesos pesados poderia ter sido tentada para chamar a atenção do mundo para o bloqueio. Consórcios multinacionais de jornalismo de qualidade, que já provaram imensa capacidade de articulação e investigação com empreitadas como os Panama Papers, se mantiveram de mãos atadas. No Brasil, os mesmos jornais que no governo Jair Bolsonaro tiveram a ousadia de se organizar para contornar o bloqueio de dados nacionais sobre a Covid-19 não consideraram mover montanhas para acabar com o bloqueio da verdade em Gaza.

Quem apaga a luz teme o que possa ser visto. Chegará o dia em que o governo de Benjamin Netanyahu precisará entreabrir os portões da desumanidade. A imprensa mundial acorrerá e fará descrições caudalosas da desolação. Tarde demais. O que aconteceu em Gaza ninguém quis ver.

‘Pobreza não é fracasso pessoal’

A pobreza não é um fracasso pessoal, é uma falha sistêmica, uma negação da dignidade e dos direitos humanos. A afirmação feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17/10), diz muito sobre a realidade do povo brasileiro.

Pessoas negras (pretos e pardos) representam a maioria dos que se encontram em situação de pobreza no nosso país. Para se ter uma ideia, entre 2012 e 2023, mais de 60% dos negros tinham renda de no máximo um salário mínimo. Nesse período, a renda média nos domicílios com pretos e pardos foi menos da metade da auferida nos domicílios sem negros (Cedra).

No Brasil, a expectativa de vida de mulheres e homens negros chega a ser seis anos menor do que a dos brancos em razão de fatores decorrentes da pobreza, que expõe os mais pobres a doenças ligadas à falta de saneamento básico, à alimentação inadequada e à violência urbana.

Quem vive em situação de pobreza experimenta múltiplas privações que se conectam reforçando as carências e dificultando o acesso efetivo a direitos e garantias constitucionais. Um rol exemplificativo inclui o direito à moradia digna, nutrição adequada, trabalho decente, inclusão social, educação de qualidade e saúde.

Verdade que o país entrou num ciclo de redução da pobreza e da desigualdade nos últimos quatro anos, o que permitiu que quase 9 milhões de pessoas deixassem a chamada linha da pobreza (IBGE). Mas é muito importante lembrar que a pobreza é dinâmica, ou seja, as famílias muitas vezes entram e saem dessa condição de maneira cíclica.

Nesse sentido, impedir que as pessoas voltem para a pobreza é tão importante quanto tirá-las dessa condição.

E é aí que entram programas sociais de transferência de renda e políticas públicas de redução das desigualdades. O combate à pobreza abrange a promoção da equidade racial, o acesso à justiça e a inclusão racial. Afinal de contas, pobreza não é um fracasso pessoal.


Ana Cristina Rosa

Bem-vindos à era da 'nowstalgia'

Será que ainda controlamos as nossas vidas? Ou será que, sem darmos por isso, entregámos o leme a forças invisíveis – algoritmos que decidem o que vemos, mercados que ditam o valor do nosso trabalho, crises nacionais e internacionais que se sucedem como temporais sem fim? Vivemos num tempo em que o futuro deixou de ser um horizonte e se tornou uma ameaça. E, diante dessa ameaça, fazemos algo estranho: voltamo-nos para trás. Não para a História, mas para uma versão suavizada do passado recente – os anos 80, sobretudo – como se ali, entre sintetizadores, calças de ganga justas e videoclipes coloridos, tivéssemos perdido uma felicidade que agora nos escapa. É a isso que o sociólogo francês Gérald Bronner, professor na Universidade de Sorbonne, chama “nowstalgia”: a nostalgia do presente, ou, mais precisamente, a recusa de deixar o presente ir embora, porque o futuro já não nos pertence.

Mas por que falo dos anos 80? Porque essa década, em particular, se tornou o santuário emocional de uma geração que, em muitos casos, nem a viveu? Talvez porque os anos 80 pareciam prometer um futuro sem catástrofe. A Guerra Fria ainda pairava, mas o muro ainda não tinha caído – e, por isso, havia ainda um “depois” imaginável. A tecnologia era simples, tangível: um walkman, um telefone fixo, um ecrã de televisão que não nos vigiava. Havia crise, claro – mas também música alta, cor, movimento. Madonna dançava como se o mundo fosse seu. Prince cantava sobre o desejo e a liberdade como se fossem direitos naturais. O cinema falava de viagens no tempo, de heróis improváveis, de mundos melhores ao virar da esquina. Era um tempo de hedonismo consciente: gozar o agora, sim – mas com a certeza de que o amanhã ainda estava por escrever.


Hoje, o hedonismo mudou de rosto. Já não é celebração – é fuga. Consumimos o passado como se fosse um analgésico: ouvimos vinis não pelo som superior, mas por calor humano; vestimos roupa vintage não por estilo, mas por segurança simbólica; vemos séries ambientadas nos anos 90 não por nostalgia real, mas por saudade de um tempo em que o futuro parecia pertencer-nos. A “nowstalgia” é, assim, uma forma de autopreservação psíquica. Diante da perda de controlo sobre o ambiente, a globalização desenfreada, a aceleração tecnológica e a incerteza climática, preferimos congelar o tempo. Como escreve Bronner no seu livro À L’Assaut du Réel (2023), “o presente tornou-se tão compacto que o seu campo gravitacional absorve a nossa imaginação e desvitaliza o futuro”.

Mas e se essa fuga for, na verdade, uma rendição?

Perguntemo-nos: quem beneficia com o nosso desinteresse pelo futuro? Quem lucra com a nossa crença de que “nada pode mudar”? Não são os que detêm o poder? Não são os que querem manter o mundo exatamente como está – desigual, seletivo, predatório – mas com um verniz de normalidade? A “nowstalgia” é perigosa não por ser doce, mas por ser passiva. Transforma a política em estética, a memória em mercadoria, a esperança em playlist.

E, no entanto, há algo de profundamente humano nesse desejo de regresso. Porque a arte, a música, o cinema dos anos 80 não eram apenas entretenimento – eram formas de esperança. David Bowie reinventava-se a cada álbum como um ato de liberdade. Nina Simone cantava Mississippi Goddam (1965) com fúria e beleza, lembrando-nos de que a arte pode ser uma arma. Em Portugal, os anos pós-Abril foram também anos de efervescência cultural: Zeca Afonso, Sérgio Godinho, o Zé Mário Branco, GNR, os Heróis do Mar, Delfins, Xutos & Pontapés, o Rui Veloso – todos usaram a música para pensar o País, sonhar e celebrar a liberdade, exigir justiça. A felicidade que recordamos não estava só nas cores ou nos ritmos – estava na sensação de que o coletivo podia mudar o mundo.

Hoje, essa sensação rareia. Vivemos em bolhas algorítmicas, isolados mesmo quando conectados, ansiosos mesmo quando “bem-sucedidos”. O trabalho não dá dignidade – dá exaustão. A casa, o carro, não são lar nem movimento necessários – são investimentos. O amor não é paixão – é gestão de expectativas. E o futuro? O futuro é um fardo. Por isso, agarramo-nos ao passado como quem se agarra a um salva-vidas. Mas um salva-vidas não leva a lado nenhum – só impede que se afogue.

E é nesse vazio que floresce o veneno político. Enquanto idealizamos um passado que nunca existiu – um Portugal homogéneo, tranquilo, “sem conflitos” –, alimentamos discursos que trocam liberdade por ordem. A xenofobia avança disfarçada de defesa da identidade nacional, como se a nossa História não tivesse sido feita de cruzamentos desde os tempos dos fenícios. A misoginia regressa sob o manto dos “valores tradicionais”, como se a emancipação das mulheres não tivesse sido uma das conquistas mais profundas e belas da democracia portuguesa. E a extrema-direita cresce, não com fardas, mas com sorrisos bem-ensaiados, mentiras e promessas vãs de segurança – promessas que, na prática, exigem o sacrifício do outro: do imigrante, da mulher que decide sobre o seu corpo, do jovem que exige um planeta habitável, de todos nós.

Tudo isto prospera num clima de desespero silencioso. Um desespero que não se manifesta em barricadas, mas em olhares cansados, em casas vazias de aldeias desertificadas, em famílias que trabalham dois turnos e ainda assim não conseguem pagar uma renda. Esse desespero não pede revolução – pede alívio. E é aí que entra a ilusão: a ideia de que voltar atrás é a solução. Mas voltar atrás para onde? Para um tempo em que as mulheres precisavam da autorização do marido para abrir uma conta bancária? Para uma sociedade onde falar contra o regime podia levar à prisão? Onde escrever um artigo, um poema, poderia ser censurado pelo lápis azul? Para um País que via o diferente como ameaça?

A “nowstalgia”, nesse sentido, é uma traição à memória. Porque o povo que fez o 25 de Abril não era um povo de ressentimento. Era um povo de esperança ativa. Sabia que o futuro não caía do céu – tinha de ser construído, disputado, defendido. E hoje, quando tantos repetem que “não há alternativa”, esquecem-se de que a própria democracia foi, um dia, a alternativa impossível que se tornou real.

Essa esperança ativa tinha um nome concreto: bem-estar. Não o bem-estar do consumo, mas o bem-estar da dignidade. O direito a um emprego que não humilhasse, a uma casa que não fosse provisória, a uma escola democrática que abrisse horizontes, a um hospital que acolhesse sem perguntar quem se era. Como escreveu o filósofo Agostinho da Silva, numa das suas Lições de Filosofia, “o tempo é o espaço da liberdade” – e essa liberdade só tem sentido quando permite viver com plenitude. Essa plenitude inclui o amor, a paixão, a felicidade – não como estados privados, mas como possibilidades coletivas. Um País onde se pode amar quem se quer, onde se pode sonhar sem vergonha, onde se pode envelhecer com cuidado, onde se pode nascer sem medo.

Foi essa visão que inspirou a Constituição de 1976, com os seus artigos sobre o direito ao Trabalho (art. 58º), à Saúde (art. 64º), à Educação (arts. 73º-79º), à Proteção na Velhice e na Doença. Não eram promessas abstratas – eram respostas a décadas de exclusão. Hoje, porém, esses direitos são tratados como encargos, como luxos que o País “não pode pagar”. A educação é mercantilizada, a saúde é precarizada, o emprego é desvalorizado, a habitação tornou-se um privilégio. E enquanto isso acontece, a “nowstalgia” distrai-nos com vinis, séries rétro e discursos sobre “valores perdidos” – como se os verdadeiros valores não fossem precisamente os que estão a ser desmantelados sob os nossos olhos.

José Saramago, que sempre viu o futuro como responsabilidade, escreveu com clareza implacável: “O futuro não é o que será, mas o que fazemos dele.” A frase, proferida em múltiplas entrevistas e recolhida no seu Caderno de Viagem (Caminho, 2001), não é otimismo ingénuo – é um apelo ético. E o que estamos a fazer do futuro? Estamos a permitir que o medo defina os limites do possível. Estamos a aceitar que a solidariedade seja chamada ingenuidade, que a justiça social seja rotulada de utopia irrealista. Mas a utopia, como bem nos lembrou Saramago noutra ocasião, é o horizonte que nos faz caminhar. Sem ela, ficamos parados – e o presente, inchado de ansiedade, devora-nos.

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, confessou com inquietude profética: “O futuro é aquilo que ninguém quer, mas que todos terão.” Talvez tenha razão. Mas há uma diferença crucial entre sofrer o futuro e habitá-lo com intenção. A liberdade, como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen em O Nome das Coisas (Assírio & Alvim, 1977), é o espaço em que o homem pode ser justo. Não é um privilégio, nem um dado adquirido – é um campo de ação ética, que exige coragem, lucidez e compromisso com os outros.

Então, talvez a pergunta não seja “como voltar aos anos 80?”, mas “como recuperar a coragem que os anos 80, em parte, simbolizavam?” Não a inocência – essa nunca existiu –, mas a ousadia de imaginar. Porque a verdadeira felicidade nunca esteve no consumo do passado, mas na capacidade de construir um futuro comum.

Pensemos nos nossos filhos. Nos nossos netos. Nos nossos entes queridos. Que mundo estamos a legar-lhes? Um mundo onde o medo decide quem entra, quem fala, quem existe? Ou um mundo onde a liberdade – essa liberdade cara, conquistada com cravos e coragem – continua a ser um projeto vivo, exigente, interminável, eterno?

Chega de entregar o futuro à “nowstalgia” do medo. Chega de permitir que o presente, inchado de ansiedade e manipulação, devore o amanhã que os nossos avós sonharam e os nossos filhos merecem. O 25 de Abril não é uma fotografia emoldurada. É um compromisso. E esse compromisso chama-se: nunca mais!

Nunca mais haverá ditadura, mesmo que venha mascarada de normalidade. Nunca mais haverá racismo institucional, mesmo que se disfarce de “preocupação cultural”. Nunca mais mulheres caladas, nunca mais fronteiras fechadas à Humanidade, nunca mais um País que esquece que a sua força está na sua diversidade, na sua luta, na sua capacidade de sonhar coletivamente.

O futuro não é um destino. É uma responsabilidade. E essa responsabilidade começa agora – não na fuga, mas na presença. Não na “nowstalgia”, mas na ação consciente. Porque, como escreveu a Sophia de M. B. Andresen, a liberdade é o espaço em que o homem pode ser justo, repito – e esse espaço só existe se o construirmos, juntos, todos os dias.

N.B. Esta crónica é dedicada a todos os que ainda ouvem uma canção e sentem que o mundo pode mudar – porque, de facto, já mudou. Basta lembrar-mo-nos como.

sábado, 18 de outubro de 2025

Pensamento do Dia

 


A necessidade do Estado Palestino

A criação do Estado Palestino, juntamente com a segurança de Israel, são fundamentais para a pacificação e estabilização do Oriente Médio, e da política mundial. A maioria de nossos problemas atuais decorrem do Oriente Médio, berço de nossa civilização, com as suas divisões e anteposições, que até hoje perduram. O Acordo de Cessar Fogo obtido pelos Estados Unidos, nos moldes atuais, é instável e não soluciona o problema, onde a guerra irá voltar, brevemente ou a médio e longo prazo.

A criação de Israel remonta ao fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1916, a Inglaterra, a França e a Rússia assinaram o Acordo Sykes-Picot, no qual, devido ao desmantelamento do Império Otomano a Palestina e a Jordânia ficariam sob o Mandato Britânico, e o Líbano e a Síria sob o Mandato Francês, até 1943.


Após a Segunda Guerra Mundial, diante do holocausto e na inexistência de Estado juridicamente constituído na Palestina, a Assembleia da ONU aprovou, em 3 de setembro de 1947, a formação dos Estados Judeu e Palestino por 33 votos, representando 72% dos países, contra 13 votos no total. Votaram a favor os Estados Unidos, União Soviética, França, Brasil, dentre outros; votaram contra a Síria, Líbano, Arábia Saudita, Egito, Iraque, Irã, dentre outros; a Inglaterra, a China, e outros oito países se abstiveram.

A fundação de Israel data de 14 de maio de 1948, com a sequência da Guerra da Independência. Seguiram-se, até hoje, o total de 11 guerras entre Israel e os países da região, com a estimativa de cerca de 170.000 mortos no total, sendo 70.000 em Gaza nestes últimos 2 anos.

Hoje, 157 dos 193 Estados membros da ONU, ou seja, 80% dos países, reconhecem o direito da constituição do Estado Palestino, incluindo a Inglaterra, França, Canada, Australia, México, Brasil, o Vaticano, Turquia, Rússia, China, Índia, Japão, dentre outros, com o veto dos Estados Unidos.

São dois os principais problemas entre Israel e os países Árabes da Região.

Do ponto de vista político, toda vez que três países, com culturas e interesses antagônicos, compartilham suas fronteiras, o modelo tende ao desequilíbrio. Ali, se confrontam hoje Cristãos, Mulçumanos e Judeus, em suas diferentes percepções. Segundo a Teoria dos Jogos, todo sistema tripartite conflitivo tende ao desequilíbrio, uma vez que quando duas partes se acertam a terceira não necessariamente concorda, gerando na instabilidade contínua.

Do ponto de vista econômico, o petróleo é a grande riqueza e problema da região. 51% das reservas mundiais de petróleo estão no Oriente Médio, Arábia Saudita 16%, Iran 9,5%, Iraque 9%, Kuwait 6%, Emirados Árabes 6%. Os Estados detêm 2% das reservas mundiais, com 19% do consumo, Israel sem reservas. Como disse Robert Kennedy Jr., atual Secretário da Saúde e de Serviços Humanos de Trump, em sua então pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos em 2024, “Israel é a nossa fortaleza. É quase como ter um porta-aviões no Oriente Médio. Se Israel desaparecer, os BRICS vão controlar 90% do petróleo do mundo e isso seria uma catástrofe para nossos interesses”.

Segundo as teorias sobre o terrorismo, como em Martha Crenshaw, David Rapoport, Robert Gurr, dentre outros, pode-se e se deve combater, mas é muito difícil derrotar o terrorismo pelas armas, uma vez que o terrorismo sempre se renova, em seus líderes, segundo os motivos que lhe geram. A melhor solução, além do combate, é a composição, mesmo que relativa, como ocorreu na Irlanda do Norte. Para o bem da pacificação, dos povos, e dos países.

O Acordo de Cessar Fogo é mais uma Proposta de Rendição do que um Acordo de Paz, momentaneamente oportuno para todas as partes.

A pacificação tem o seu preço.

Hollywood me enganou

Sou uma vítima de Hollywood. Algumas décadas assistindo a filmes de ação me fizeram crer que o amor pela liberdade, pela democracia e a rejeição à tirania estavam inscritos no DNA dos americanos. É claro que nunca comprei essas ideias pelo valor de face.

Acompanhei dezenas de intervenções dos EUA em outros países que não podem ser catalogadas como defesa da democracia. Mesmo as que podem foram muitas vezes marcadas por um escandaloso autointeresse de Washington.


Ainda assim, acho que é difícil negar que os EUA, em parte pelas preferências de seus cidadãos, foram uma peça-chave na construção da ordem mundial do pós-Guerra, indubitavelmente mais democrática do que todas as ordens mundiais que a antecederam. E as preferências dos americanos são em parte determinadas pela imagem que esse público projeta de si mesmo, o que tem a ver com Hollywood.

Nesse contexto, devo dizer que me surpreende a passividade com que os americanos estão aceitando a escalada autoritária de Trump. Até entendo que as maiorias republicanas na Câmara, no Senado e na Suprema Corte deem corda para o Agente Laranja, mas como explicar que universidades, escritórios de advocacia e empresários que até outro dia se proclamavam paladinos do liberalismo também estejam acedendo a exigências, às vezes claramente ilegais, do governo Trump?

O pragmatismo pode ser uma resposta. O poder que a Casa Branca tem de impor custos a seus desafetos é quase infinito. É sempre mais interessante deixar que os outros façam o combate. Também deve haver atores imaginando que Trump acaba constitucionalmente em 2029. Melhor esperar a tormenta passar sem se molhar.

Não digo que esses raciocínios estejam necessariamente errados, mas não dá para negar que envolvem um certo risco. Kim Il Sung foi escolhido como presidente da Coreia do Norte para um mandato de quatro anos e a ditadura já está na terceira geração. Vamos ver se os protestos anti-Trump convocados para este sábado mudam a dinâmica, mas não estou muito otimista.