quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Já ganhei aposta com Fux

Luiz Fux é pai generoso. Ministro do STF, fez telefonemas para pedir nomeação de filha-advogada ao TJ-RJ ("É tudo que posso deixar para ela", disse a desembargador, segundo perfil da revista Piauí). Liberou filho-advogado para exercer advocacia de parentes no STF, ramo promissor da prática jurídica atual. Não ensinada nas faculdades, a habilidade exige laço de sangue.

Luiz Fux é colega generoso. Em liminar monocrática de 2014, jamais submetida ao plenário do STF, garantiu aos juízes do Brasil um aumento salarial oficioso por meio de auxílio-moradia ilegal. Cinco anos e bilhões de reais mais tarde, já negociado aumento com o Congresso, revogou a liminar. Sem perguntar ao plenário, sozinho "matou no peito", como fala. Herói da magistocracia.

Luiz Fux é generoso com citações de poesia. Em discurso, não desconfiou que o verso "recomeçar e só uma questão de querer, se você quer, Deus quer" talvez não fosse de Carlos Drummond de Andrade.

Luiz Fux só não é generoso com a clareza e a credibilidade de suas ideias.

Argumento é coisa séria em Estados de direito. A mais séria. É seu insumo, seu lubrificante, seu produto final. Alimenta a vida cívica e a legitimidade dos tribunais. Mas o Estado de direito também pede que os emissores de argumentos, sobretudo juízes, sejam levados a sério, tenham aparência de seriedade. Não é falácia "ad hominem", mas exigência de ética judicial.

Seriedade e aparência de seriedade são virtudes que Luiz Fux se esmera em não cultivar. Por isso, o voto de Fux está nu.

Inútil tentar classificar Fux por tipologias doutrinárias. Inútil perguntar se foi garantista ou punitivista, dicotomia que mais confunde o debate jurídico desde a Lava Jato. Garantista seria o juiz que manda soltar e absolver. Punitivista o que manda prender e condenar. Garantista que prende e punitivista que solta causam curto-circuito no senso comum autômato. Dicotomia que o jornalismo faria bem em abandonar. Melhor ler cada caso para além do resultado e observar variações argumentativas e factuais.

Fux não é punitivista nem garantista, apenas um casuísta. Resolveu deixar isso ainda mais claro no caso criminal mais importante da história nacional. Não é que o Fux de hoje discorde do Fux de ontem ou de amanhã. Fux não concorda nem discorda, apenas salpica ornamento verbal que dê alguma liga, alguma rima.

O voto de Fux não homenageou o direito de dissentir, o valor da divergência ou do pluralismo. Não ofereceu contraponto analítico numa deliberação sincera. Fux já condenou centenas de réus por tentativa de golpe no 8 de Janeiro. Quando julga seus líderes, diz que STF não tem competência.

Chico Anysio não se inspirou em Luiz Fux para inventar Rolando Lero. Dias Gomes não o conheceu para compor Odorico Paraguaçu ou Sinhozinho Malta. Luiz Fux se fez seu próprio autor. Não saiu da ficção, mas se matriculou, voluntariamente, na escola literária de onde saiu Pedro Malasartes. É o mais jurídico que se pode dizer de seu voto.

Em 2020, fiz aposta pública com Fux. Disse que, na presidência, não pautaria uma longa lista de casos delicados à sua agenda. Casos como dos penduricalhos de juízes fluminenses ("fatos funcionais") ou do "juiz de garantias". Jamais pautou e perdeu. Cobrei e jamais pagou.

Luiz Fux não merece ser levado a sério pelo que diz, mas pelo que representa.
Conrado Hübner Mendes

Fux mata no peito a culpa dos golpistas e vira herói da extrema-direita

Deixa ver se entendi. O ministro Luiz Fux condena um ajudante de ordem (o tenente-coronel Mauro Cid) por crime (tentativa violenta de abolição do Estado Democrático de Direito) que o ajudado por ele (Bolsonaro) não cometeu. E condena também pelo mesmo crime o vice da chapa derrotada na eleição de 2022 (general Braga Netto), isentando o cabeça da chapa (Bolsonaro).

Dito de outra forma: criminoso se perdoa, delator se castiga. Vice de chapa se condena, cabeça de chapa se absolve. É como se Mauro Cid, à falta do que fazer, decidisse abolir a democracia no Brasil à revelia de um Bolsonaro distraído. É como se Bolsonaro não tivesse conhecimento das atividades golpistas de Mauro Cid e de Braga Netto, seu companheiro de chapa.


Juristas experientes que pensavam já ter visto tudo nunca viram nada sequer parecido. Jamais esquecerão. O de Fux foi um voto de mais de 420 páginas, cuja leitura durou 12 horas, mas que não se sustenta à luz de coisa alguma e irá para os anais do Supremo Tribunal Federal como o triste fim de um ministro à beira da aposentadoria. O “Voto Mickey.” Ou o “Voto Trump”

À falta de um único fio de cabelo, não se poderá dizer que o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo sobre as tentativas de golpe de dezembro de 2022 e 8 de janeiro de 2023, a tudo assistiu arrepiado; perplexo, certamente. Mas teve uma hora em que o ministro Flávio Dino perdeu o fio da meada e preferiu interromper Fux. Travou-se então o seguinte diálogo:

DINO – Sobre Mauro Cid, o senhor já votou?

FUX – Sim.

DINO – Absolvendo ou condenando?

FUX – Condenando.

DINO – Um, dois ou três crimes?

FUX – (Sorriso)

DINO – Condenando Mauro Cid e absolvendo os outros? Só pra eu entender.

FUX – Ainda não acabei.


Ao acabar, além de Bolsonaro, Fux inocentou de todos os crimes mais cinco réus: o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier, o ex-ministro do Gabinete da Segurança Institucional da Presidência, Augusto Heleno, os ex-ministros da Defesa (Paulo Sérgio Nogueira) e da Justiça (Anderson Torres), e Alexandre Ramagem, ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência.

Onde na terça-feira, para condenar os réus do chamado “núcleo crucial” do golpe, Moraes e Dino encontraram “fartas provas” de cinco crimes, Fux, ontem, não encontrou praticamente nenhuma. Qual foi a mágica feita por Fux? Moraes e Dino leram o processo como se vissem um filme; Fux, como se o processo fosse um álbum de fotografias. O que Moraes e Dino juntaram, Fux separou.

Ao que Fux fez dá-se o nome de isolamento de condutas. Ele desmontou a história com começo, meio e fim contada por Moraes e Dino. Os dois conectaram os fatos e montaram o quebra-cabeça da tentativa de golpe seguindo um itinerário lógico. Fux chutou o quebra-cabeça embaralhando as peças encaixadas. Elas voltarão ao seu lugar com o voto da ministra Cármen Lúcia.

Não se cobre coerência a Fux. Quando presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ele defendia o sistema eletrônico de votação. Ontem, disse não ter visto nada demais nos ataques de Bolsonaro às urnas. Em mais de 1.600 casos, Fux confirmou a competência do Supremo para julgar os réus do 8 de janeiro. Ontem, disse que o Supremo não é o fórum competente para essa tarefa.

Quatro anos atrás, Fux reagiu às declarações de Bolsonaro contra o Supremo. Em discurso no dia seguinte às manifestações bolsonaristas do 7 de setembro de 2021, Fux afirmou que a ameaça de Bolsonaro de descumprir decisões de Moraes configurava “crime de responsabilidade”. Ontem, limitou-se a taxá-las de “rudes”, no máximo, “inapropriadas”, mas não criminosas.

O criminalista Aury Lopes Jr. foi preciso em seu comentário sobre o comportamento do ministro:

“Hoje, Fux apresentou mais divergências pro-réu do que a soma de decisões de uma vida inteira”.

A vida é uma sucessão de portas que se abrem ou se fecham à nossa passagem. Sossegue, Fux: as da Disney jamais se fecharão para você.

Desta feita, Fux beijou os pés de quem? Coragem a favor do crime é covardia

Luiz Fux age como aquele que fatia uma vaca e depois ordena que os bifes façam “muuuu”. Como não fazem, conclui cheio de razão: “Viram só? Não é uma vaca”. Retiradas as óbvias conexões entre as ações criminosas, tudo parece apenas uma soma aleatória de declarações irresponsáveis — quando não, fez questão de frisar, mero exercício da liberdade de expressão.

Ai, ai… Fux condena Braga Netto por abolição de estado de direito, mas não Bolsonaro. O general agiria à revelia do chefe… Sabem de quem é a tese de que os militares teriam traído Bolsonaro com golpismo? De Cunha Bueno, um dos advogados de Bolsonaro.

Quando a fé vira estratégia de poder

Quando a confiança abre as portas, é o silêncio que carrega a destruição. Foi assim que, sob o véu de uma dádiva, o perigo entrou sorrindo na Cidade de Tróia. A história está repleta de estratégias de infiltração que seduzem, manipulam e dominam. E a fé, quando instrumentalizada, pode ser o cavalo de Tróia mais eficaz de todos.

No Brasil contemporâneo, essa lógica encontrou terreno fértil nos presídios. Líderes de facções e traficantes passaram a se “converter” ao pentecostalismo, reduzindo penas e ganhando legitimidade espiritual. A frase de Jesus – “Meu reino não é deste mundo” – foi silenciada para dar lugar a um projeto de poder religioso. Projeções indicam que os evangélicos podem se tornar maioria entre 2032 e 2035, impulsionados por conversões nas faixas etárias mais jovens e pelo crescimento nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Pesquisadores como Gedeon Freire de Alencar, Ronaldo Almeida, Edin Sued Abumanssur e David Mesquiati de Oliveira revelam que o pentecostalismo nos presídios não apenas floresceu – ele se entrelaçou com as dinâmicas do poder informal, criando uma fusão singular entre fé e facção. O púlpito e o comando se cruzam onde o Estado falha. Líderes religiosos emergem como mediadores entre o sagrado e o ilícito, oferecendo disciplina, pertencimento e até proteção espiritual. 

Essa simbiose entre fé e poder já havia sido denunciada por Délcio Monteiro de Lima em Os Demônios Descem do Norte (1987). O autor escancara como seitas pentecostais vindas dos Estados Unidos se infiltraram nas periferias latino-americanas com discursos de salvação, mas práticas de dominação. “Os templos se multiplicam como botequins”, escreve, revelando uma expansão que não salva – seduz. A fé, travestida de consolo e prosperidade, passou a moldar consciências, silenciar revoltas e alinhar os pobres ao projeto político do Norte.

Essa lógica extrapolou os muros das prisões e invadiu o universo político. A CNBB, em sua travessia pelos ventos da história, buscou dialogar com os sinais dos tempos – mas nem todo tempo é de concórdia. Dentro das próprias comunidades católicas, brotaram grupos ultraconservadores que, em vez de beber da fonte do Evangelho, sorvem da retórica do medo. Flertam com uma simbiose pentecostal que não busca o Espírito, mas o poder; desejam um Estado teocrático, onde dogmas substituam direitos, e onde o crucifixo se confunda com o cetro.

São pessoas comuns, paradoxais em sua fé e política: condenam o aborto em nome da vida, mas celebram a “arminha” como gesto de alinhamento ideológico, mesmo diante de discursos que relativizam o genocídio. Essa incongruência não é exceção – é sintoma. Como na campanha contra a Fraternidade Ecumênica de 2021, onde o chamado ao diálogo inter-religioso foi atacado como “infiltração comunista”.

Esses grupos representam uma intersecção inquietante entre fé, conservadorismo e ativismo digital. Mimetizam a estética da extrema direita: vídeos inflamados, acusações infundadas, campanhas de boicote. Transformam o púlpito em palanque, e o sacrário em

quartel. Acusam a CNBB e o CONIC de promover “ideologias revolucionárias”, sem perceber que a própria Boa Nova já foi, em seu tempo, uma revolução contra o império, contra a exclusão, contra o ódio.

Dentro da própria Igreja, ergue-se um muro de polarização – onde o irmão se torna inimigo, e o Evangelho é usado como escudo, não como ponte. É um paradoxo sagrado: enquanto o Espírito sopra sobre o colegiado da CNBB como brisa de Pentecostes, sinal vivo da sinodalidade sonhada pelo Concílio Vaticano II, há quem, em nome de uma fé endurecida, levante muralhas contra o vento. Criticam o que é, na verdade, manifestação da Ruah divina: o discernimento coletivo, a escuta plural, o caminhar em comunhão.

Se outrora a Teologia da Libertação era “o perigo”, agora o cavalo de Tróia reaparece. Mas desta vez, ele não vem de fora: está dentro dos muros da fé, sorrindo como esperança, mas carregando a ruína.
Celso José Machado

Trump vai declarar guerra ao Brasil por causa de Bolsonaro?

Se é certo que de Donald Trump é possível esperar de tudo, qual o grau de seriedade que se deve aplicar à nada sutil ameaça feita pela sua porta-voz na tarde de terça-feira?

Karoline Leavitt, com a ligeireza que lhe é peculiar, comentou num mesmo e longo período as sanções já aplicadas ao Brasil, o combate que os Estados Unidos estão elevando a operação militar contra cartéis de traficantes e a defesa da liberdade de expressão.

Para o último item, afirmou a porta-voz, Washington dedicará todo seu "poder econômico e militar". Fica a questão nada retórica: está Trump disposto a declarar guerra ao Brasil caso Jair Bolsonaro (PL) seja condenado pelo Supremo Tribunal Federal?


Pode soar delirante ou apenas ridículo, mas esse é o subtexto da fala de Leavitt, que ocorre num momento em que a administração republicana deslocou consideráveis recursos militares para o entorno estratégico da Venezuela, ditadura que consideram responsável pelo aumento do influxo de drogas nos EUA.

Recapitulando: em 9 de julho, Trump anunciou que elevaria a 50% o imposto de importação de produtos brasileiros porque, entre outras coisas mas em primeiro lugar na sua visão, o Brasil estava perseguindo Bolsonaro —para ele, Alexandre de Moraes e Lula (PT) são indistinguíveis.

O ministro do Supremo não só deu de ombros como impôs medidas cautelares e, depois, prisão domiciliar ao ex-presidente. Recebeu, na via inversa, uma dura punição ao se ver atingido pela draconiana Lei Magnistky, desenhada para coibir a atividade econômica de terroristas, traficantes, ditadores e criminosos de guerra.

Ele, assim como todos os colegas de corte exceto os três que Trump associa ao bolsonarismo, André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, também teve seu visto americano cassado —medida estendida às suas famílias e, depois, levada a ministros do governo Lula por motivos aleatórios.

Como se viu no voto de Moraes, proferido enquanto Leavitt se manifestava, a pressão resultou em nada, mesmo com a certeza de que mais estará por vir. Não parece que será agora, com retórica canhoneira, que terá algum sucesso.

Voltando à questão, é mais do que improvável que o gogó da Casa Branca seja mais que isso. Primeiro, por uma questão de motivação legal: Trump está cercando a Venezuela de navios e caças, explodindo barcos suspeitos de tráfico sem perguntar antes, porque se ampara numa questionável decisão de fevereiro.

Segundo ela, cartéis de drogas são organizações terroristas. Assim, as regras de liberdade plena para atacar esses inimigos seriam aplicáveis aos grupos que operam na Venezuela e, por essa lógica, no México e até no Brasil.

Mas o foco foi sobre Caracas porque, além de tudo, Maduro é um desafeto que tem um prêmio de US$ 50 milhões por sua cabeça em Washington, procurado pela Justiça americana por tráfico. Se Trump irá às vias de fato ou apenas torce para que o ditador caia, é incerto, mas seu adversário é frágil.

Na hipótese esotérica de querer empregar a força para defender a liberdade de expressão que diz ver encarnada em Bolsonaro, o presidente americano precisaria pedir autorização ao Congresso. Não parece um caso sustentável nem para o mais empedernido aliado dos belicosos secretários Marco Rubio (Estado) e Pete Hegseth (Guerra).

Noves fora a parte prática: como seria a punição militar ao Brasil? Um míssil de cruzeiro Tomahawk sobre o Supremo? Um bloqueio naval contra um aliado de mais de dois séculos? A obliteração nuclear de Brasília? A invasão inviável de um país continental?

Nada disso faz sentido, com a ressalva de que é sempre bom voltar à frase que abre esse texto. Também não é algo corriqueiro ver tal tipo de ameaça, que serve como lembrete acerca de incapacidades crônicas de defesa do Brasil.

Mesmo sem a prevalência do bom senso no Hemisfério Norte esses dias, a bravata de Leavitt parece fazer pouco mais do que colocar nova cunha na relação entre Brasília e Washington e empolgar os que desfraldaram bandeiras americanas no 7 de Setembro.

1984 = 2025?

Publicado em 1949, o conhecido livro “1984”, do George Orwell, narra um futuro no qual o “Grande Irmão”, o Estado, tudo controla, por meio de ampla vigilância e do Ministério da Verdade, que reescreve a história. Até que ponto Orwell previu o mundo de hoje?

Embora muitos procurem negar, é fato que cada dia mais vivemos numa sociedade de vigilância. O fato de ocorrerem eleições periódicas em muitos países não é suficiente para descartar nem a vigilância nem a manipulação dos fatos.

Com o mundo atual dividido – artificial, equivocada e perigosamente – entre “nós e eles”, a vigilância e a manipulação, diz-se, são feitas por eles, nunca por nós! Será?


Lembremo-nos do Edward Snowden, ex-membro da Agência de Segurança Nacional dos EUA, que revelou como aquela instituição, e outras, vigiavam, sem amparo legal, milhões de pessoas mundo afora. A própria Dilma Roussef foi espionada. Entre outras, Snowden revelou que a ASN tinha capacidade de ligar remotamente câmeras de computadores e celulares, passando a gravar a intimidade dos alvos.

Mais recentemente, milhares de pessoas foram assassinadas pelo governo de Israel, que fez explodir os “pagers” usados por aqueles definidos como inimigos.

No “Ocidente”, diz-se que é a China que faz vigilância, por meio das câmeras com reconhecimento facial instaladas por todo o país. Indagada, a ChatGPT afirma, com ressalvas pela inexistência de dados oficiais e a dificuldade de se obter informações seguras, serem entre 600 e 700 milhões de câmeras, sendo incerto quantas possuem capacidade de reconhecer faces. As mesmas dificuldades aplicam-se para calcular aquelas instaladas noutros locais (sempre em milhões): EUA (60 a 85), Inglaterra e Japão (5 em cada), Rússia (200 mil só em Moscou), Alemanha (1,5 milhão) e, no Brasil, avalia que cerca de 47 a 80 milhões de pessoas são potencialmente cobertos pelos projetos existentes.

Mas a vigilância não depende das câmeras: a internet e os celulares tornaram-se também instrumentos de espia e controle. Os dados guardados nos datacenters – eufemisticamente chamados de “nuvem” – sob controle de corporações cada vez mais associadas ao plutocrata Trump – são, também, meios de saber o que pensamos, fazemos, com quem conversamos e muito mais! Não fosse assim e o Departamento de Estado não analisaria as redes sociais dos pretendentes a visto de entrada nos EUA.

Os mesmos EUA que estão em campanha acelerada para mudar a história. A começar pela nada inocente alteração do nome do Golfo do México, são muitas as iniciativas de Trump: demitiu diretores de instituições culturais, abriu guerra contra universidades e determinou uma “revisão” das exposições dos museus Smithsonian, para que o relato histórico se adapte a sua visão! Publicou, ainda, Ordem Executiva para “Restaurar a Verdade e a Razão na História Americana”.

O ano de 2025 tornou-se o temido 1984? Em grande parte, sim; de outra maneira como entender que dirigentes globais nada de eficaz façam contra a pobreza, contra as mudanças climáticas, acirrem os espíritos contra imigrantes e ainda ampliem gastos militares? Big Brother no comando?

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


'Não ficaremos em silêncio'

O silêncio que nos permitimos hoje pode em breve ser involuntário e absoluto. Vamos reunir um pouco da coragem da Dra. Safiya, do jovem Mohammad, de Sophie Scholl e de Hussam al-Masri e falar enquanto podemos.

Em seus últimos minutos de liberdade antes de ser preso pelo exército israelense, o Dr. Hussam Abu Safiya, vestido com um jaleco branco de médico, caminhou sozinho em direção a dois tanques israelenses. Seus captores o aguardavam em meio aos escombros do hospital Kamal Adwan, em Gaza. Um artista rapidamente criou um pôster dramático mostrando o Dr. Safiya caminhando pelas ruínas do hospital que ele dirigia. O artista, David Solnit, atualizou recentemente a legenda do pôster. Agora, diz: Libertem o Dr. Abu Safiya, oito meses de prisão, de 27 de dezembro de 2024 a 27 de agosto de 2025.

O Dr. Safiya já havia sofrido perdas agonizantes no hospital Kamal Adwan. No final de outubro de 2024, um ataque de drone israelense matou seu filho, também médico. Em um ataque ao hospital em novembro de 2024, o Dr. Safiya foi ferido por estilhaços, mas continuou trabalhando, insistindo que não fecharia o hospital. Ele testemunhou seus colegas sendo humilhados, espancados e levados para a prisão. Em 27 de dezembro de 2024, quando o calvário do Dr. Safiya como prisioneiro começou, a maioria dos hospitais em Gaza estava inoperante.

Em 28 de agosto de 2025, a advogada do Dr. Safiya, Ghaid Ghanem Qassem, visitou-o na Prisão de Ofer. Ela relata que ele perdeu um terço do seu peso corporal. Enquanto estava preso no Centro de Detenção Militar de Sde Teiman, localizado em uma base militar israelense no deserto de Negev, ele apresentou sinais de tortura. Submetido a choques elétricos e cassetetes, ele sofreu golpes que podem também causar a perda do olho direito. No entanto, sua mensagem permanece intacta:

“Entrei em nome da humanidade e sairei em nome da humanidade… Permaneceremos em nossa terra e continuaremos a prestar serviços de saúde às pessoas, se Deus quiser, mesmo de uma tenda.”

Última foto do Dr. Hussam Abu Safiya, detido em Gaza

Regimes que conduzem um genocídio têm mais de um motivo para eliminar profissionais corajosos que tentam, vida após vida, desfazer seu trabalho desumano: os médicos não apenas buscam retardar a morte, mas também, assim como os jornalistas que o regime israelense tão freneticamente persegue, estão especialmente posicionados e qualificados para reportar com precisão a intensidade e a natureza da campanha de extermínio de Israel. Silenciar os cidadãos mais capazes de reportar a selvageria genocida é um objetivo fundamental do genocídio.

Em um dos esforços mais flagrantes para eliminar uma testemunha ocular importante, as forças navais israelenses, em 9 de maio de 2025, mataram Mohammed Saeed al-Bardawil, de 12 anos, que, como um transeunte ao lado de seu pai, testemunhou a execução de 15 socorristas desarmados por Israel, antes do amanhecer de 23 de março. Os paramédicos assassinados haviam conduzido suas ambulâncias claramente identificadas para um local onde pretendiam resgatar vítimas de um ataque anterior. As balas que os mataram foram disparadas ao longo de seis minutos, enquanto soldados israelenses avançavam para atirar diretamente nas cabeças e torsos dos sobreviventes, usando posteriormente equipamentos de movimentação de terra para enterrar seus corpos e veículos. Naquele dia, Mohammed e seu pai foram detidos e obrigados a deitar de bruços perto de uma ambulância em chamas. Ele é listado como fonte em um vídeo bem documentado do NYT sobre o massacre, datado de 2 de maio . Onze dias depois, uma canhoneira israelense disparou contra o barco de pesca de seu pai, matando Muhammed na presença dele, na costa da província de Rafah, no sul de Gaza.

Foi há menos de duas semanas, em 25 de agosto, que Israel matou o operador de câmera da Reuters, Hussam Al Masri, e dezenove outros, quatro deles também jornalistas, em uma série de ataques aéreos guiados de precisão com duplo disparo contra prédios e uma escada do Hospital Al Nasser. Al Masri era facilmente um alvo, pois transmitia uma transmissão de vídeo ao vivo de um posto avançado da Reuters no último andar de um hospital. Descrevendo a segunda onda do ataque, Jonathan Cook escreve : "E quando Israel atacou 10 minutos depois com dois mísseis coordenados, sabia que as principais vítimas seriam os socorristas que foram resgatar os sobreviventes do primeiro ataque e os jornalistas — amigos de al-Masri — que estavam por perto e correram para o local... Nada foi um "acidente". Foi planejado nos mínimos detalhes."

Atiradores de elite e operadores de drones armados matam rotineiramente palestinos que corajosamente continuam a vestir coletes à prova de balas, instalar câmeras e reportar as atrocidades de Israel. Israel recusa a entrada de jornalistas estrangeiros e, quando jovens palestinos corajosos, enlutados e apaixonados insistem em documentar cuidadosamente a agonia de seu povo para veículos de notícias ocidentais, Israel os persegue cuidadosamente usando telefones rastreáveis ​​e equipamentos de transmissão necessários ao seu trabalho, antes de rotulá-los postumamente como agentes do Hamas. Autoridades ocidentais covardes observam de dentro dos Estados patronais de Israel, desconsiderando vidas negras sob quaisquer pretextos frágeis que as autoridades brancas lhes ofereçam. Quase diariamente, novos rostos aparecem em uma coleção de fotos mostrando centenas de jornalistas que Israel matou.

Profissionais de saúde e jornalistas que ainda estão vivos trabalham em meio à luta para evitar que suas famílias, colegas, vizinhos e, claro, a si mesmos morram não apenas por massacre direto, mas também pela fome imposta militarmente e sua companheira, a doença epidêmica. Cirurgiões relatam estar fracos demais para permanecer de pé durante uma operação. Repórteres documentam a própria fome.

Os palestinos anseiam por proteção, mas mesmo a perspectiva de forças de proteção mandatadas pela ONU traz consigo possibilidades aterrorizantes. E se as "forças de paz" designadas para monitorar os palestinos coletassem dados que os israelenses usariam para controlá-los? "Forças estabilizadoras" armadas, equipadas com tecnologia de vigilância dos EUA, poderiam ser usadas para alvejar, prender, assassinar e matar de fome ainda mais palestinos.

No verão de 1942, em Munique, Alemanha, cinco estudantes e um professor reuniram uma coragem impressionante para desafiar um regime genocida ao qual, relutantemente, temos que recorrer se quisermos encontrar uma crueldade racista comparável à que atualmente toma conta não apenas da liderança de Israel, mas, em pesquisa após pesquisa, de uma grande maioria de sua população não nativa. O coletivo estudantil, chamado A Rosa Branca, distribuiu panfletos denunciando as atrocidades nazistas. "Não nos calaremos" era a última frase de cada panfleto. Hans Scholl, de 24 anos, e sua irmã, Sophie Scholl, de 21, entregaram pessoalmente os panfletos em seu campus universitário em fevereiro de 1943. A Gestapo os prendeu depois que um zelador os viu distribuindo os panfletos. Quatro dias depois, Hans e Sophie, assim como seu colega Christopher Probst, foram executados na guilhotina.

Com o arsenal nuclear de Israel capaz de matar mais que o regime nazista em poucos minutos e, no processo, incitar a guerra final da humanidade; e com sua liderança e população radicalizadas por décadas de impunidade fascista a ponto de endossar não apenas um genocídio, mas múltiplos ataques militares preventivos contra a maioria de seus vizinhos de uma só vez, podemos muito bem estar chegando ao momento em que, como resultado de termos deixado Israel assassinar, impunemente, os repórteres de seus crimes, não restará ninguém no mundo exterior para receber os relatórios.

O silêncio que nos permitimos hoje pode em breve ser involuntário e absoluto. Vamos reunir um pouco da coragem da Dra. Safiya, do jovem Mohammad, de Sophie Scholl e de Hussam al-Masri e falar enquanto podemos.

Tarcísio demonstra desconhecer a História

O governador paulista, Tarcísio de Freitas, deu início, na semana passada, a um movimento golpista. Não é paranoia ou hipérbole. É simples leitura da História. Tarcísio anda falando muito disso, de História, em sua pregação pela anistia de Bolsonaro e dos generais. Como, ao recontar essa história, fala muita bobagem, é razoável acreditar que não conheça como se formou a República que ele deseja governar. Por isso é possível dar-lhe o benefício da dúvida. Ele acha que é esperto politicamente e não tem ideia do perigo que desperta. Mas é importante deixar uma coisa clara: ele está mexendo com forças da nossa cultura política muito perigosas, que exigem de todos os democratas, à direita, à esquerda e, principalmente, ao centro, máxima atenção.


O primeiro ponto: dar golpe de Estado não é trivial. Um golpe é, em essência, um truque. O golpista neutraliza as peças certas no Estado e o imobiliza. O que precisa é convencer atores o suficiente de que o regime passado deixou de existir e é quem manda agora. Durante seu governo, Jair Bolsonaro tentou. Neutralizou a Procuradoria-Geral da República. Mas não conseguiu controlar nem Congresso, nem STF. Bolsonaro precisou enfrentar também pressão americana do governo Joe Biden. O núcleo forte da advocacia resistiu, a partir do Largo de São Francisco. Empresários o suficiente fizeram frente, assim como toda a grande imprensa. Nesse cenário, ele não conseguiu mobilizar generais no Alto-Comando do Exército.

Tarcísio anda dizendo que o Brasil sempre anistiou. É verdade parcial. Anistiou militares golpistas, mas não os outros. Um dos exemplos absurdos que deu em um discurso mostra que não sabe do que fala. Disse que Getúlio anistiou quem promoveu a Intentona Comunista. Mentira: ficaram presos por dez anos. Olga Benário e Elisabeth Saborowski, judias, foram despachadas por Getúlio para a Alemanha nazista, na abjeta política de boa vizinhança varguista. Morreram nos campos. O marido de Saborowski, Arthur Ewert, foi tão torturado nos porões de Filinto Müller que perdeu a razão. Morreu, depois de expulso do Brasil em 1947, num sanatório da Alemanha Oriental.

O segundo ponto: de fato, o Brasil anistiou muito. E quase todos os militares anistiados voltaram a tentar golpes de Estado. Fizeram parte do golpe de 1889 Hermes da Fonseca (era capitão) e Augusto Tasso Fragoso (era tenente). Nada sofreram, o golpe deu certo. Hermes comandou a tentativa de golpe em 1922 que conhecemos como “18 do Forte”. Tasso liderou o golpe que apeou Washington Luís da Presidência em 1930. Na tentativa de 1922, eram tenentes Eduardo Gomes e Arthur da Costa e Silva. Foram anistiados. O brigadeiro Eduardo Gomes estava entre os vitoriosos de 1930 e conspirou contra Getúlio em 1954. Costa e Silva estava no meio de 1954, assim como na tentativa de golpe contra Jango, em 1961. Essa, Tancredo Neves neutralizou. Mas ele voltou a tentar um golpe em 1964, e este conseguiu. Tornou-se o segundo general-ditador.

Esses são apenas alguns dos muitos exemplos, e não são acidentais. Golpe é algo que se aprende a fazer. Não sabemos o que aconteceu no turbilhão entre 2019 e 2022. Mas quem estava envolvido no golpe sabe exatamente o que faltou. Que general não foi convencido e por quê. O que poderia ter sido dito para este ou aquele político. Onde se deveria ter posto dinheiro. Quem era incompetente, mas encarregado de tal missão.

Essa é a história da República brasileira. Toda ela. Golpes que deram certo são oito: 1889, 1891, 1930, 1937, 1945, 1955 (o contragolpe), 1964 e 1968. Golpes que deram errado e escaparam sem punição são mais que o dobro. Em todos os golpes que deram errado, havia militares que depois comandaram golpes que deram certo. Porque aprenderam. Porque estavam livres para usar o que aprenderam.

Na última semana, no Supremo, nenhum advogado de defesa, de militares ou políticos, negou que tenha havido tentativa de golpe. Uma anistia é deixar livres golpistas que aprenderam. Serão soltos num país exausto de Lula, cansado do STF, com o Congresso dominado por um Centrão irresponsável. E há um iliberal na Casa Branca.

Ainda assim, a união de democracia liberal com economia de mercado é a fórmula que mais levou a enriquecimento, distribuição de riqueza e construção de felicidade na História. Vivemos isso entre os anos 1990 e 2000. Não podemos perder isso. A irresponsabilidade de Tarcísio com a democracia não pode definir nosso futuro.

O marketing da extrema direita

Parece ser vontade confessa dos líderes do PL transmutar-se em partido de extrema direita de tendência apenas bolsonarista. Para a eleição de 2026, desejam apresentar somente candidatos identificados com o credo. Quem não ajoelhar diante do pneu terá de procurar outro altar.

Em princípio, é boa jogada de marketing. No mundo das redes, o que importa são as identidades. Nada opaco prospera, haja vista o deslustrado Hugo Motta, que não é nem cruz nem caldeirinha. Daí que uma marca, mesmo polêmica, soa como artifício publicitário adequado. Gruda na memória.

Com o tempo, até Geraldo Alckmin rendeu-se em paz à imagem de picolé de chuchu, e o PSDB nunca quis descer do muro, porque tucano voa baixo. Jânio Quadros jamais negou gostar bastante de uma birita — “bebo porque é líquido”, celebrizou. Difícil mesmo é não pensar no general Figueiredo e sua preferência olfativa por cheiro de cavalo. São adjetivos que ficam.

Apesar de indecisões típicas de quem ouve vozes, Jair Bolsonaro deixou na internet vídeos em que escande sua visão preconceituosa sobre a vida alheia. Lembro-me de alguns de seus bordões:


— Não te estupro porque você não merece;

— Preferia um filho morto do que (sic) gay;

— Eu sou favorável à tortura.

E o afamado “E daí? Não sou coveiro”. À sua maneira, são slogans.

Ao contrário de Dilma Rousseff, com suas tiradas surrealistas, o glossário do capitão é feito de ódio, preconceito e rasantes mentais. Penso que seja algo a constar do programa partidário do ideológico PL: mandamentos e execuções.

Caso avance, a proposta de um partido de extrema direita radicalmente bolsonarista expurgará alguns moderados abrigados na legenda. Não conheço nenhum deles, mas o líder Sóstenes Cavalcante diz identificá-los e os ameaça com a “sostenização” dos quadros. Reivindica o apoio férreo do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto.

Existem paralelos históricos no passado para o lançamento de partidos monotemáticos. À direita e à esquerda. Os exemplos não são auspiciosos, porque acabaram em prisão, exílio e torturas. Nem sempre nessa ordem.

O fracasso das iniciativas talvez se deva ao caráter ambíguo do nosso povo. Sempre identificados com a ideia de um partido-feira, os eleitores preferem barracas com ofertas múltiplas — abobrinha, batata ou peixe. Ao gosto do freguês, quero dizer, para não perder a viagem. Estaríamos distante de uma agremiação com um único produto — picles? —, dado que o eleitor nem sempre é honesto consigo mesmo. Depois de tantos posts, as pesquisas dão apenas 15% para quem se diz da extrema direita bolsonarista. Espremendo, o número pode ser maior ou menor, devido ao folclore do eleitor-urso, que abraça um candidato e vota no outro.

Talvez o PL de Sóstenes se espelhe no exemplo macabro da Ação Integralista Brasileira (AIB), ativa e histérica a partir da década de 1930. De imediato, lembro a tentativa de golpe e a identificação dos militantes com o mito deles, Plínio Salgado. Católico radical, emulou a obsessão de Mussolini por um uniforme militar. O desejo de guerras e sangue vinha como método de afirmação política. Salgado, pequeno, magro, ostentava um bigode ridículo, era um extremista de direita capaz de horrorizar até Getúlio Vargas. Os integralistas se fantasiavam de verde (da nossa bandeira) e desfilavam em arranjo militar. Não acreditavam na democracia e no voto popular. Postulavam que o populacho não sabia distinguir salame de mortadela. Portanto, liberdade vigiada para a turba.

Muitos de seus seguidores, como o ideólogo Gustavo Barroso, eram antissemitas e violentos. Se o bolsonarismo raiz buscou o ombro do governo americano, os integralistas tinham o colo financeiro da embaixada italiana. Depois de uma tentativa de golpe, Plínio Salgado foi exilado em Portugal e então aderiu — adivinha! — à ditadura militar, aquela defendida pelo capitão.

Na outra mão, o Partido Comunista, fundado entre outros pelo capitão Luís Carlos Prestes, apoiou a política do ditador Getúlio Vargas. Mesmo perseguido, Prestes emitia sinais de simpatia ao caudilho e, como Plínio e Jair, também tentou seu golpe. Coincidência ou não, os comunistas obedeciam aos sinais de rígida disciplina partidária emanados da URSS de Stálin.

Pelo jeito, do PL de Bolsonaro e do PC de Prestes ao integralismo de Plínio Salgado, o que os une são as tentativas de golpe. À direita ou à esquerda, é uma marca, e isso sempre acaba em exílio ou cadeia.

Amotinados continuam numa boa

No sábado fez um mês da violenta ocupação do plenário da Câmara com grave ameaça a Hugo Motta (Republicanos-PB) de interdição no seu trajeto rumo à cadeira da presidência da Casa.

Outro mês ainda vai transcorrer até completarem-se os 60 dias que generosamente o presidente afrontado deu à corregedoria para definir punição aos amotinados.

A julgar pelo silêncio em torno do caso e da vitória que obtiveram ao conseguir colocar a anistia na agenda, nada de mal lhes acontecerá. O episódio está com todo o jeito de que vai ficar por isso mesmo: o dito pelo não dito, os considerados agressivos naquele dia pelos reabilitados no transcurso do tempo.


No calor da rebelião, vozes se levantaram em defesa da necessidade de não se deixar barato, sob pena da erosão de autoridade do deputado Motta. Esfriada a temperatura, calaram-se todos. Os que são instados a se manifestar alegam que há outras sanções mais importantes com as quais o país deve se preocupar.

Cobram atenção às "injustiças" do Supremo Tribunal Federal contra executores, patrocinadores e incentivadores da tentativa de anular o resultado das eleições de 2022. Dizem que há mais infratores a serem punidos que os rebelados de 6 de agosto, por esta interpretação tidos como vítimas autorizadas a se utilizar de quaisquer meios para reagir.

Trata-se de uma versão convenientemente distorcida do ocorrido nas ocupações dos plenários da Câmara e do Senado. Ali houve tentativa de golpe parlamentar com execução explícita de atos não apenas preparatórios, mas efetivamente executados.

A ideia era mostrar ao presidente da Câmara eleito meses antes que havia na Casa uma força que se sobrepunha às regras do regimento e aos parâmetros do decoro parlamentar. A falta de uma reação imediata e rigorosa exibiu a fragilidade de Hugo Motta frente aos compromissos assumidos com governo e oposição para ser ungido ao comando.

Depende agora dele e da banda sadia do colegiado escolher de que lado estão: do malfeito ou do que deve ser bem feito.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Pensamento do Dia ( o 51° estado dos EUA)

 


Mídia miúda

Mão anônima escreveu num muro do bairro de San Telmo, em Buenos Aires, neste tempo de crise atroz:; "Nos mijam e os jornais dizem chove"

Eduardo Galeano, "O teatro do bem e do mal"

Por que essa estratégia não dá certo?

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (ou a COP30) toma todas as atenções no Brasil em 2025. A ser sediada em Belém – PA, em novembro deste ano, é esperado que o evento receba entre 50 e 60 mil pessoas, entre delegações oficiais, observadores e participantes da sociedade civil. Esse expressivo número de atores envolvidos não é à toa: falar em justiça climática e no papel dos países em desenvolvimento exige lidar com interesses diversos e enormes contradições.

A escolha de Belém como cidade-sede dá ainda mais peso a esse discurso: realizar a conferência no coração da Amazônia é estratégico, pois coloca o maior bioma tropical do planeta no foco das discussões sobre futuro climático e sustentabilidade global. Mas não é só estratégia, é também um gesto simbólico. A floresta carrega significados diversos: abriga povos que a percebem e vivem de formas distintas, tecendo relações que vão muito além da ideia de recurso natural. Para o evento, esse simbolismo se traduz na grandiosidade do bioma em si –afinal, trata-se da região que concentra mais da metade das florestas tropicais remanescentes do planeta e uma das maiores reservas de biodiversidade conhecidas.

Mais do que isso, a Amazônia funciona como um verdadeiro regulador climático: ajuda a estabilizar temperaturas globais, influencia o regime de chuvas na América do Sul e até em outras partes do mundo, e armazena toneladas de carbono que, se liberadas, acelerariam ainda mais o aquecimento global. Não à toa, é chamada de “pulmão do planeta” – embora, na prática, cumpra um papel muito mais complexo do que essa metáfora simplifica. O próprio governo brasileiro1 diz tratar-se de uma oportunidade histórica para reafirmar o protagonismo do país nas negociações climáticas, destacando esforços em energias renováveis, biocombustíveis e agricultura de baixo carbono – lembrando, claro, o currículo diplomático que vai da Eco-92 à Rio+20.

A conferência deverá colocar em pauta desde a redução das emissões de gases de efeito estufa e a adaptação aos impactos já visíveis das mudanças climáticas, até debates sobre financiamento climático e os caminhos para uma transição energética baseada em fontes renováveis. Também ganha centralidade a preservação das florestas, não apenas como reservas de biodiversidade e estoques de carbono, mas como elementos vitais para a regulação climática em escala planetária. Nesse contexto, a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais deveria se tornar imprescindível: são eles que historicamente conservam os territórios, detêm saberes ancestrais fundamentais para o que os cientistas denominam de “sustentabilidade” e que, ao mesmo tempo, sofrem de forma mais direta os efeitos da destruição ambiental e estão mais vulneráveis aos riscos decorrentes da mudança climática.


Porém, por trás do entusiasmo oficial, a COP30 também expõe contradições incômodas: afinal, são mesmo essas pautas ambientais e sociais que movem o Brasil para a frente? Ou estaremos diante de mais uma encenação verde, enquanto, nos bastidores, o “progresso” continua a ser sinônimo de devastação, lucro rápido e exploração das riquezas da floresta? Essa é a encruzilhada que a conferência nos obriga a encarar: que tipo de futuro estamos construindo quando o desenvolvimento ainda significa sacrificar a natureza e silenciar os povos que a defendem? 

Essa contradição não é nova. O Brasil há décadas se equilibra entre o discurso de liderança ambiental e a prática de um modelo econômico que insiste em chamar de “desenvolvimento” aquilo que, na realidade, tantas vezes se traduz em destruição. Não por acaso, os grandes projetos sempre aparecem revestidos de promessas sedutoras: emprego, renda, infraestrutura e cidadania pelo consumo. É nesse ponto que entramos no cerne da questão – o que significa, afinal, desenvolver? “Emprego, renda e desenvolvimento” são os pilares que ancoram as promessas dos grandes projetos desenvolvimentistas. Tal qual ocorreu com Brumadinho, Mariana ou Belo Monte. Quem, em sã consciência, poderia negar essas coisas tão desejáveis? Essa é, afinal, a parte bela do capitalismo – a promessa de progresso material, de ser cidadão por meio da capacidade de consumir.

O Produto Interno Bruto (PIB) de um país mede os bens e serviços finais produzidos no território. É o maior indicador de desempenho econômico das nações. Seu cálculo engloba desde a produção de automóveis até um corte de cabelo. Falar do PIB reforça a importância do dinheiro enquanto moeda, do comércio, da circulação de produtos. O PIB per capita, por sua vez, traduz esse índice em relação à quantidade de habitantes de determinado território.

Estes, junto com a expectativa de vida e os anos de escolaridade, compõem o IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano. O PIB é utilizado para definir se um país é rico ou pobre; o IDH identifica se o mesmo é desenvolvido ou não. Contudo, algumas questões não são traduzidas no IDH nem no PIB: quando você colhe uma fruta da árvore e come, essa ação não entra no PIB. Agora, se você vai ao mercado e compra uma fruta – mesmo que não a coma, mesmo que ela apodreça em sua fruteira, movimentou o PIB e gerou, em uma escala muito pequena, aumento da renda e do desenvolvimento do seu país.

Sob essa ótica, é inevitável questionar até que ponto o IDH consegue refletir o desenvolvimento de territórios sustentados pelo autoconsumo, pela economia circular e por uma menor dependência da moeda. Nada disso aparece nos tradicionais indicadores de emprego, renda e crescimento econômico. Quando essas métricas se tornam a régua principal, tudo o que foge delas acaba invisibilizado – tratado como menor, periférico, relegado às margens. Essa limitação fica ainda mais evidente na Amazônia, onde projetos como Belo Monte escancaram o abismo entre estatísticas oficiais e modos de vida tradicionais.

São modos de vida que não têm no dinheiro sua base de existência. Comunidades agroextrativistas, quilombolas e indígenas constroem o “existir” e o bem-viver sem depender necessariamente do comércio ou da lógica da compra e venda. Belo Monte é um retrato dessa ruptura: pescadores foram removidos de suas margens e levados a cerca de 7 km do rio. Como garantir a continuidade desse modo de vida quando a distância do território e a escassez de peixes inviabilizam a fartura que antes assegurava alimento e dignidade?

“Como é que você vai levar um pescador, que mora na beira do rio, que só sabe pescar, ou um peconheiro que apanha açaí, que vive daquilo, tu vais levar o açaí junto com ele pro asfalto? Vai levar o rio onde o pescador pesca para lá também? ”. O questionamento de Daniela Silva Araújo, moradora de Pirocaba, uma comunidade agroextrativista em Abaetetuba, Pará, traduz a indignação perante o desenvolvimento irracional que ‘os de fora’ insistem em impor.

No Brasil de 2025, a questão de Daniela é ainda mais complexa. As questões ambientais continuam sendo coadjuvantes ‘do real problema’. Inclusive, estas têm se mostrado, historicamente, como obstáculos ao enfrentamento do desemprego e da superação da pobreza. Aqui, não se sabe como dar legitimidade às questões ambientais, o caminho parece mais árduo. Mas, desde o milagre econômico, a resposta e solução para o desemprego e pobreza tem sido o “desenvolvimento”, este que atropela o meio ambiente e os corpos que dele dependem.

A pergunta de Daniela não se dá num vácuo: a Cargill tinha planos de construir um porto em Abaetetuba, a cerca de 120 quilômetros de Belém. A empresa comprou um terreno em área sobreposta a um assentamento da reforma agrária, o Assentamento Santo Antônio. Essa operação, é importante ressaltar, está sendo investigada por suspeita de grilagem pelo Ministério Público Federal (MPF).

A região em que o porto da Cargill pretendia se instalar apresenta um modo de vida muito específico e diverso: ali, vivem mais de 7 mil famílias ribeirinhas, com forte vínculo com a natureza local e dependem dos recursos hídricos para manutenção da família e sobrevivência. Em uma reunião com os representantes da empresa, a Daniela questionou: “o que farão com as pessoas afetadas?” Elas seriam remanejadas, foi a resposta que recebeu do representante da empresa. O espaço físico para assentamento das famílias já estava sendo construído, longe do rio, ignorando a dinâmica dos ribeirinhos – tal qual aconteceu com os ribeirinhos afetados pela hidrelétrica.

Belo Monte era a proposta de um mundo novo e desenvolvido para diversas famílias, mas, na verdade, foi o fim, assim como a Transamazônica na década de 1970 e pode ser atualmente com a Ferrogrão e o Porto da Cargill. Todas essas são propostas de promoção do desenvolvimento do país, seja para escoar grãos, tornar o agronegócio mais lucrativo, levar os benefícios do desenvolvimento em áreas não agraciadas por ele. Esse desenvolvimento, pelo menos no Brasil e em outros países do sul global, tem criado um ganho satisfatório para alguns, contudo, não vem sem custo: o ônus recai principalmente para aqueles que seriam “salvos”. O revés recai, sempre, sobre os moradores tradicionais do território. Pessoas essas que sequer são consultadas no processo que envolve a mudança dos seus próprios territórios.

Belo Monte foi vendida como a promessa de fornecer energia sustentável ao Brasil, mas desde o início já se sabia que sua produtividade seria baixa diante da sazonalidade do rio Xingu. Apesar da capacidade instalada de 11.233 MW, a geração média efetiva não passa de 4.500 MW – cerca de 40% do projetado. Em 2024, por exemplo, a usina entregou apenas 2.581 MW, míseros 23% de sua capacidade3.Uma escolha que, além de ineficiente do ponto de vista energético, mostrou-se um erro estratégico: para viabilizar a hidrelétrica, o curso do rio foi alterado, agravando a instabilidade natural de cheias e secas e comprometendo ainda mais o equilíbrio do próprio Xingu. Ou seja, Belo Monte não apenas falhou em cumprir sua promessa de geração de energia, como deixou o rio e as comunidades que dele dependem em situação ainda mais frágil.

Marcelo Camargo, geógrafo, corrobora essa afirmação. Ele afirma: “o Xingu passa seis meses em estiagem total, inviabilizando o funcionamento de uma estrutura como Belo Monte”. Além disso, a obra custou praticamente o dobro do previsto inicialmente. Ela foi orçada em R$16 bilhões, mas o custo final chegou a R$30 bilhões. Sobre essa questão, Camargo adiciona: “com as previsões de redução da capacidade de produção e os custos de operação, é impossível que Belo Monte, ao longo desses 30 anos, supere o valor do seu próprio custo”.

Em concordância com Daniela Araújo, Maria Cristina Alves da Costa, que vivia em uma comunidade que não existe mais para que Belo Monte pudesse ser construída, afirma: “O que eu sei fazer é pescar. Como vou pegar peixe no asfalto?”. Ela comprou uma casa em Altamira, com uma carta de crédito oferecida pela usina, buscando melhores condições de vida para si e para os filhos. Depois de nove meses sem qualquer tipo de renda ou alternativas, Maria optou por voltar para as margens do rio Xingu.

Vale ressaltar, ainda, que tanto a Ferrogrão quanto o Porto da Cargill são propostas para melhorar o escoamento de grãos oriundos do agronegócio, do Centro-Oeste brasileiro. Este, tal qual os grandes projetos de desenvolvimento que o cercam, anunciam-se como solução dos problemas vinculados à fome no mundo. Agora, quando a gente olha como ele de fato se estabelece no território, é possível perceber que o sistema alimentar explicita grande parte das contradições que ele se propõe a combater: ele está associado à concentração de terras e renda, exploração da mão de obra – principalmente a feminina, que recebe salários menores e está mais suscetível ao trabalho sazonal e ao assédio sexual. O agronegócio está vinculado, também, ao aumento da insegurança alimentar nos territórios em que ele é desenvolvido. Tal qual, novamente, os grandes projetos de desenvolvimento.

Esses grandes projetos são a promessa de emprego, renda e desenvolvimento. Eles representam uma maior integração ao capitalismo, mas de forma marginal: levam o pescador para morar longe do rio, o agroextrativista para morar longe da floresta. A ideia de um grande projeto de desenvolvimento funciona de forma circular: com a justificativa de regiões apresentarem PIB e IDH baixos – ou abaixo da média – eles são instalados. Geram uma integração periférica ao capitalismo e, ao não atingirem seus objetivos de trazer ‘desenvolvimento, emprego e renda’ justificam a implementação de um novo grande projeto.

Foi assim pelas chapadas do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, quando o desenvolvimento alcançou a região por meio da implementação massiva da monocultura do eucalipto na década de 1970, posteriormente com a Usina Hidrelétrica de Irapé em 2006 e agora com as mineradoras de lítio. Três projetos em décadas diferentes com a mesma pretensão, gerar emprego e renda.

Já na Amazônia, sede da COP 30 e objeto do olhar da conferência, vemos uma região marcada pelas veias abertas, pelos projetos alheios, pelas definições de quem acha que sabe o que é desenvolvimento (sobre os outros). Essa é a Amazônia que traz, historicamente, desenvolvimento, emprego e renda. Se tem dado certo ou não cabe a cada um e a nós, enquanto sociedade, buscarmos entender. O progresso esperado é esse em que a Amazônia vira a periferia de um país periférico, que se orgulha em ser “celeiro do mundo”? Ou é a Floresta Tropical que nos ensina como habitar esse planeta de modo a não saturar os recursos naturais? É a Amazônia, escolhida como sede do maior evento sobre sustentabilidade no mundo que vai nos ensinar? Então cabe a nós aprendermos com ela, entender que o centro do mundo é a Amazônia, e não impor a nossa visão capitalista de desenvolvimento sobre a floresta e seus habitantes.

Enquanto a Amazônia é anunciada como o centro do mundo no discurso oficial da COP30, no cotidiano político do Brasil seguem avançando projetos que caminham na direção oposta. A prova disso veio na calada da noite de 16 de julho, quando o chamado “PL da Devastação” foi aprovado. A contradição salta aos olhos: de um lado, a promessa de aprender com a floresta; de outro, a abertura de novas frentes para o agronegócio e a mineração, setores historicamente responsáveis por feridas profundas no território amazônico e no país.

O presidente Lula sancionou a lei com vetos parciais, mas o texto segue em tramitação no Congresso. Na prática, abre-se ainda mais espaço para que o agronegócio e a mineração avancem sobre territórios sensíveis, aumentando o risco de repetirmos tragédias como as de Brumadinho e Mariana. O paradoxo é evidente: em nome de um suposto “desenvolvimento sustentável”, multiplicam-se projetos de extração de lítio, cobalto, níquel e terras raras – minerais essenciais para carros elétricos e torres eólicas – enquanto a floresta e os povos que nela habitam pagam a conta dessa corrida verde.

A transição energética corre o risco de se tornar um novo colonialismo. O Brasil poderia assumir a dianteira em uma guinada realmente sustentável, mas os discursos oficiais insistem em reforçar velhas lógicas de espoliação ambiental. Sobre a exploração de petróleo na foz do Amazonas, o presidente Lula afirma: “A Petrobras é uma empresa responsável. Tem a maior experiência de exploração de petróleo em águas profundas. Vamos cumprir todos os ritos necessários para que a gente não cause estrago na natureza. Até porque é dessa riqueza que a gente vai ter dinheiro para construir a sonhada transição energética4”.

A contradição é gritante: como apostar em combustíveis fósseis – que são uma das raízes da crise climática – para financiar a transição que supostamente deveria superá-los? Essa justificativa ecoa a velha narrativa do “sacrifício necessário” em nome do progresso, mas ignora que as populações locais e os ecossistemas são os primeiros a pagar o preço. Se não questionarmos esse modelo, corremos o risco de trocar uma dependência por outra, mantendo a lógica de exploração predatória sob o verniz de “energia limpa”.

Os “ritos necessários” também foram seguidos em Mariana e em Brumadinho. A barragem da Samarco, em Mariana, era classificada como de médio impacto ambiental – tecnicamente enquadrada dentro da normalidade e autorizada pelos órgãos competentes. Ainda assim, foi justamente essa estrutura que deu origem, em 2015, ao que o Ministério Público Federal descreve como “o maior desastre ambiental do Brasil – e um dos maiores do mundo”.

Se tais desastres puderam ocorrer sob o manto da legalidade e do “cumprimento de requisitos”, o que nos garante que novos projetos, agora ainda mais ambiciosos e arriscados, não reproduzirão as mesmas tragédias? A questão central não é apenas cumprir protocolos, mas reconhecer que esses protocolos já se mostraram insuficientes diante de um modelo econômico que normaliza o risco e transfere seus custos humanos e ambientais para comunidades inteiras. Ainda mais quando iniciativas como o PL da Devastação avançam no Congresso, enfraquecendo salvaguardas socioambientais e tornando a aprovação de empreendimentos de alto impacto ainda mais simplificadas. Nesse cenário, a legalidade deixa de ser uma barreira de proteção para se tornar um atalho que facilita a reprodução da destruição.

Diante de tudo isso, fica evidente que a retórica oficial da sustentabilidade muitas vezes camufla uma continuidade do modelo predatório: protocolos e leis funcionam mais como aparências de proteção do que como barreiras reais contra a destruição. Se desastres como Mariana e Brumadinho ocorreram sob o ar da legalidade, e se agora se flexibilizam regras para o agronegócio e a mineração, a urgência deixa de ser apenas ambiental ou econômica, torna-se cultural e ética. O verdadeiro desafio não está em celebrar discursos verdes, mas em repensar nossas práticas, modos de produção e a forma como nos relacionamos com a natureza.

Talvez ainda não seja tarde para aprender com as populações que há séculos convivem de maneira equilibrada com o meio ambiente, e talvez isso custe bem menos do que insistir em modelos de desenvolvimento predatórios. Percebemos que a mudança cultural e de sistema econômico seja a única salvação para o Antropoceno. É tempo de retomada: nossas bases, sejam elas produtivas ou culturais precisam ser repensadas, e devemos observar com atenção e integrar aos debates os povos originários e as comunidades tradicionais, que praticam a sustentabilidade muito antes de o conceito sequer existir. No contexto do Brasil, país-sede da COP30, a reflexão se torna ainda mais urgente, pois a sustentabilidade, na prática, parece seguir em segundo plano diante das pressões do agronegócio, da mineração e de interesses econômicos de curto prazo.

Talvez, pensar que o desenvolvimento não seja o caminho. Como diz Nego Bispo: “vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento”.

O discurso da COP30 sobre desenvolvimento muitas vezes se ancora na promessa de conciliar crescimento econômico com sustentabilidade, mas a realidade mostra que essas estratégias pouco se traduzem em mudanças efetivas. Ao colocar o Brasil como protagonista das negociações climáticas, enfatizando energias renováveis, agricultura de baixo carbono e biocombustíveis, o evento corre o risco de transformar o país em uma vitrine de boas intenções, sem lidar com as contradições estruturais do modelo econômico que historicamente explora os biomas e águas de forma verdadeiramente insustentável.

O problema central está na própria concepção de “desenvolvimento” que orienta essas políticas: métricas como emprego, renda e crescimento econômico são usadas como indicadores absolutos, invisibilizando modos de vida sustentáveis baseados no autoconsumo, na economia circular e na convivência harmoniosa com a natureza. Projetos de mineração, grandes hidrelétricas e expansão do agronegócio seguem avançando sob a justificativa de gerar emprego, renda e progresso, enquanto comunidades locais e ecossistemas pagam o preço mais alto. Assim, as populações indígenas, quilombolas e agroextrativistas permanecem à margem, enquanto o que realmente determina decisões políticas e econômicas é o lucro imediato sobre os recursos naturais.

A transformação climática e social que o planeta precisa exigir mais do que metas de emissão e painéis de energia renovável: exige repensar os conceitos de progresso e riqueza, valorizar modos de vida sustentáveis, reconhecer os saberes ancestrais de comunidades tradicionais e integrar essas perspectivas nas decisões políticas e econômicas. Sem essa mudança de paradigma, a conferência pode, mais uma vez, acabar reforçando o mesmo sistema que provoca desastres ambientais, desigualdade e crises socioambientais, transformando o que deveria ser um ponto de virada em mais um episódio de “greenwashing” global. Até essa virada de chave, todo o brilho da COP30 corre o risco de servir apenas como fachada, enquanto a floresta, seus povos e o futuro do planeta pagam o preço da continuidade de velhos padrões de exploração.

Manifestação de guerra nos EUA

Até a semana passada, o Pentágono ainda atendia pela denominação com que fora rebatizado no mundo devastado pela Segunda Guerra Mundial: Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Naquele conflito, o planeta conhecera o poder da bomba atômica, e a corrida nuclear das superpotências recomendava adequar a agência à nova condição não binária de “guerra” ou “paz”. Algo que englobasse um conceito mais amplo de segurança e defesa nacional. Assim, em 1947, o presidente Harry Truman trocou o nome do Departamento de Guerra, que existia desde os idos da Revolução Americana, por Departamento de Defesa. Com aprovação do Congresso, como manda a lei.

Dos 13 presidentes que sucederam a Truman na Casa Branca, apenas Donald Trump cismou em fazer um rebranding do mamute militar. Pretende ressuscitar a denominação Departamento de Guerra por ato executivo.

— Todo mundo adora lembrar nosso histórico de vitórias incríveis quando o Pentágono tinha esse nome — explicou, com a lógica que lhe é própria. — Defesa soa muito defensivo, precisamos de mais ataque. Departamento de Guerra soa melhor.

O titular da pasta, Pete Hegseth, de apenas 45 anos e melenas televisivas, já se intitula secretário de Guerra nas plataformas sociais.

— Para nós, palavras, nomes e títulos importam. Vamos TORNAR A AMÉRICA LETAL NOVAMENTE — postou, com a originalidade de um trumpista raiz.

Em entrevista à Fox News, emissora em que se tornou personalidade midiática como comentarista, explicou:

— Queremos criar um etos de guerreiros no Pentágono (trocar burocratas de uniforme por combatentes de guerra), gente que sabe como trucidar o inimigo.

Alguém deve ter-lhe soprado o pitaco proferido pelo general George Patton em 1943, citado na revista The Atlantic, segundo o qual nenhum idiota jamais venceu uma guerra indo morrer por seu país — ele a vence fazendo outro pobre idiota morrer pelo país dele.

Por ora, ainda vigora a limitação constitucional à mudança antes de sua aprovação pelo Congresso. Mas Trump pode autorizar o uso paralelo do novo nome, assim como passou a usar a denominação “Golfo da América” (no lugar do tradicional Golfo do México) em todos os documentos de governo. Sem falar no custo de imprimir a marca de sua mais recente obsessão com nomenclaturas. A troca do nome em todas as placas, prédios, documentos, selos, brasões, medalhas, uniformes, etiquetas, publicações e instalações do Pentágono mundo afora ultrapassaria de longe os oito dígitos — em dólar. Na era Joe Biden, antecessor de Trump, a mudança de nome de apenas seis bases militares que homenageavam heróis confederados custou US$ 60 milhões, segundo levantamento do portal Axios. Dinheiro jogado fora com a posse de Pete Hegseth, que reverteu tudo ao estado original. No caso atual, a troca seria pantagruélica. O Departamento de Defesa emprega cerca de 1,3 milhão de militares ativos ou quase 3 milhões de pessoas, somando integrantes da Guarda Nacional, reservistas e civis. Dispõe de pelo menos 750 instalações militares mundo afora (120 só no Japão), e o rebranding de tudo isso retrataria a megalomania do autor da ideia.

Sem falar que Trump é autodeclarado candidato ao Nobel da Paz, honraria que combinaria pouco com a instituição de um presidente de guerra. Tampouco avançou um átimo para um cessar-fogo na Ucrânia, nem levanta um só dedo para cortar a máquina israelense de moer palestinos em Gaza.

À primeira vista, a troca de nome do departamento federal que consome mais de 12% dos gastos do governo não deverá afetar sua autoridade legal nem sua estrutura organizacional. É na retórica da mudança que reside o veneno. A intensificação do uso da Guarda Nacional como força de ordem doméstica, a caça e deportação desenfreadas de imigrantes, estudantes e estrangeiros indesejados em território americano, somadas a ataques frontais contra vozes dissonantes do próprio país, podem sugerir um futuro Departamento de Guerra dedicado, também, a combater inimigos internos. A militarização — ou “miliciarização” — dos agentes do ICE, o temido Departamento de Imigração e Alfândega, que não se identificam, nada explicam, usam máscaras no rosto e operam ao arrepio da lei (mas em nome dela), é um mau presságio.

Na juventude, Trump conseguiu dispensa médica para se evadir do serviço militar que despejou uma geração inteira no front vietnamita. Talvez por isso fantasie o que é estar numa guerra. Líderes tão imaturos são perigosos.

O voto da barata no chinelo

Indaga um leitor: por que, na eleição de Donald Trump, a barata votou no chinelo? A pergunta resume a perplexidade de milhões com o fato de que latinos, negros, mulheres brancas (negras, não) ajudaram a instalar no poder a sua Nêmesis, entidade de vingança e ressentimento, fonte de terror e medo. E votaram cientes do paradoxo temerário, desde sempre transparente nas ameaças do autocrata-laranja.


A questão amplia-se até nós quando pesquisas recentes atestam a existência de um "bolsonarismo-raiz" de 12% no eleitorado (Instituto Ideia). Nenhuma surpresa em 26%, de não-bolsonaristas, que votam na direita. A persistência da "raiz", porém, é tão intrigante quanto os milhões simbolizados pela barata. Após exposição a céu aberto da quinta-coluna antipatriótica, o clã ex-presidencial, o réu Bolsonaro mantém-se cabo eleitoral da direita. De cada ato de traição, vexame nenhum repercute na "raiz" e seus rizomas: doença autoimune, "mente defensiva, como um condomínio fechado" (Luis Fernando Veríssimo).

No conceito de classe social e suas diferenças, nascido da racionalidade da produção, não cabe explicação razoável para a insanidade extremista emergente das máquinas de desamparo e solidão. É mais delírio de pensamento, ao modo da distorção barroca (uma perversão da forma) do que loucura como doença mental. Daí a figura do idiota, não como oligofrênico, mas sujeito de uma razão privada, distorcida.

Por mais inatual que seja a filosofia, dela partem sugestões para a iluminação do fenômeno, a saber, a idiotia como personagem conceitual (Gilles Deleuze e Félix Guattari em "O que é Filosofia?"). O idiota permitiria a inclusão na política dos indivíduos alienados da vida pública pelo elitismo de pensamento. Não exatamente o doido, portanto, mas o produto imbecilizado de uma relação difícil com o plano da existência. Na frase "a internet deu voz aos imbecis" (Umberto Eco) ressoa essa lógica. Imbecilidade, idiotia são estratégias de rejeição ao "penso, logo existo" em favor de verdades prontas e acabadas, os dogmas.

Dessa forma, uma cômoda ignorância torna-se motivo de orgulho pessoal e de ódio às ciências, artes e educação emancipadora.

Não significa que uma cultura elevada ou com grandes ideias sobre as contradições históricas tenham gerado um homem fraterno, aberto à diversidade. O nazismo contou com renomados intelectuais.

Himmler, o mentor dos campos de concentração, vangloriava-se de buscar métodos de matar que não ofendessem a tradição humanista. Sem mediação compreensiva, o sol do Iluminismo pode cegar, como hoje acontece com os sistemas de conhecimento e seus algoritmos impermeáveis às massas. O fechamento em dogmas religiosos e formas de vida regressivas funciona como autodefesa dos alienados. E grito de alerta: cristalizada em doença social, a idiotia faz o trânsito natural para as perversões facinorosas da extrema direita. Tonta de inseticida histriônico, a barata arrisca-se a atravessar o galinheiro ou vota no chinelo.

'Se morrermos, que seja na casa do Senhor'


Ramez Al-Souri mora na Igreja Ortodoxa de São Porfírio, na Cidade de Gaza.

Ele perdeu 12 pessoas na família, incluindo três de seus filhos, no mesmo local, em 19 de outubro de 2023, após um ataque aéreo israelense que teve como alvo a terceira igreja mais antiga ainda em uso — atrás apenas da Igreja da Natividade, em Belém, e a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

Ainda assim, o pai enlutado insiste em permanecer no local e não ser deslocado, apesar das ordens de evacuação emitidas recentemente pelo exército de Israel a todos os moradores da cidade.

"Estamos aqui, entre familiares, amigos, entes queridos. Juntos, enfrentamos todos os atos de violência a que fomos expostos desde o começo da guerra. As igrejas foram atacadas diretamente, o que provocou o martírio de muitos dos meus familiares, inclusive meus filhos", afirmou ao programa de rádio Middle East Diaries (Diários do Oriente Médio), da BBC.

"Falo com vocês apesar da minha doença, da minha dor e da perda dos meus filhos, porque as cenas de destruição sem precedentes nos bairros de Sabra e Zeitoun não são um bom presságio", afirmou.

Igreja de São Porfírio é uma das que abriga cristãos de Gaza

"Certamente, todos nós, como cristãos e deslocados na igreja, tememos que ela volte a ser atacada. Mas acataremos a decisão tomada pelo Conselho Supremo da Igreja para os Cristãos em Jerusalém de não sermos removidos da Cidade de Gaza."

Al-Souri enfatizou que a igreja é quem toma as decisões corretas para os cristãos, e que todos os membros da comunidade cristã estão comprometidos com as decisões eclesiásticas mais importantes tomadas pelo Patriarcado Ortodoxo Grego e o Patriarcado Latino em Jerusalém.

Ao fim de agosto, o exército israelense ordenou a evacuação da Igreja Ortodoxa Grega de São Porfírio e de seu complexo na Cidade de Gaza, segundo o jornal The Times of Israel.

Esses acontecimentos ocorrem enquanto o exército israelense se prepara para iniciar uma evacuação em grande escala de civis na Cidade de Gaza, como preparação para uma ofensiva militar mais ampla destinada a dominar a maior cidade da Faixa.

O padre Issa Musleh, porta-voz oficial do Patriarcado Grego Ortodoxo de Jerusalém, declarou que a decisão de não se deslocar foi tomada diretamente pelo patriarca Teófilos 3, patriarca de Jerusalém, de toda a Palestina e da Jordânia, e pelo patriarca Latino de Jerusalém.

O padre Musleh destacou que o comunicado de imprensa emitido por ambos os patriarcados tem como objetivo "prevenir o deslocamento dos cristãos em particular, e dos palestinos em geral, de Gaza", para frustar o que ele chamou de "tentativas israelenses de se apoderar da terra e varrer seus habitantes".

Os patriarcados Grego Ortodoxo e Latino de Jerusalém declararam, em um comunicado conjunto publicado em 26 de agosto que "abandonar a Cidade de Gaza e tentar fugir para o sul equivaleria a uma sentença de morte para eles".

Por essa razão, os religiosos decidiram ficar e continuar cuidando de todos os que permanecerem nos dois complexos.

O padre Musleh disse, em seu discurso, que "apesar da decisão do exército de Israel de expulsar os cristãos do Mosteiro de São Porfírio e da Igreja de Santa Porchina, o clero ortodoxo, junto com as comunidades cristãs, se negou categoricamente a sair, insistindo que seu dever era cuidar do povo palestino, já que esses mosteiros e igrejas acolhem palestinos deslocados, tanto muçulmanos quanto cristãos".

O clero ortodoxo decidiu, de forma unânime, permanecer nos mosteiros e igrejas para "frustrar o plano de deslocamento e preservar o valioso patrimônio herdado de seus pais e avós".

O padre Musleh descreveu a tentativa de expulsá-los de seus locais de culto como um "crime atroz contra a humanidade" e concluiu seu discurso dizendo:

"Acompanhamos de perto a situação porque estamos realmente preocupados com a situação em Gaza, mas, por mais difíceis que sejam as circunstâncias, não os abandonaremos. É a nossa decisão final."

Já o padre Abdulla July afirmou que "os cristãos na Palestina e no Oriente Árabe, em geral, não são seitas, mas parte integral do povo árabe palestino e dos povos árabes da região".

"Partindo dessa perspectiva, nós, como pastores, devemos ajudar os cristãos a sobreviver, porque a sobrevivência e perseverança são uma forma de resistência contra o objetivo que o exército israelense pretende impor, que é se apoderar da terra sem seu povo."

O padre July alertou que, sem os árabes cristãos na região, as igrejas e os mosteiros seriam meros museus e santuários para lamentar entre as ruínas, um povo deslocado.

Elias al-Jida, deslocado da igreja e membro do Conselho de Representantes da Igreja Ortodoxa Árabe de Gaza, destacou:

"Permanecer é uma realidade. A realidade é que há centenas de deslocados neste lugar que não podem ser abandonados, além de várias crianças com deficiência que não poderão ser transferidas se a decisão de deslocamento for implementada."

Segundo Al-Jilda, a maioria das pessoas que se encontram nos templos cristãos da Cidade de Gaza são mulheres, idosos e crianças com deficiência, que foram deslocados de suas casas há cerca de dois anos e buscaram refúgio nessas igrejas após destruição de seus lares.

"A igreja decidiu que não sairíamos daqui, porque é impossível ir e abandonar as pessoas, especialmente as pessoas com deficiência e os idosos. Não é nem religioso e nem humano deixá-los sozinhos para enfrentar o desconhecido. Isso equivale a uma sentença de morte", acrescentou.

Como cristão palestino, Al-Jilda afirmou que nunca considerou ir embora, porque se deslocar ao sul significaria partir para o desconhecido e para um mundo de perdas insuportáveis.

"Nascemos na Cidade de Gaza e estamos acostumados a viver aqui. Não conhecemos outro lar que não seja a Cidade de Gaza."

"Se a morte é inevitável, que seja dentro da igreja. Não escolhemos entre a vida e a morte, mas entre a morte e a morte."

Essa firmeza cristã em Gaza não representa apenas um repúdio ao deslocamento.

É uma mensagem clara ao mundo de que a presença cristã na Terra Santa é parte integrante do tecido social palestino e, que as igrejas não são meros edifícios, mas refúgios e símbolos da humanidade.