quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


'Por quanto tempo mais ficaremos parados?'


Estou na França, em Toulon,
Visitando minha filha, o verão está chegando.
O mar é quente, a luz é dourada,
Meu neto ri — estou envelhecendo.
Subimos as colinas, ainda através de aldeias,
Uma fonte canta, nós bebemos até nos fartar.
Pão e queijo sob as árvores,
Caprice des Dieux e a brisa do oceano.

Naquela noite eu acordo antes do dia,
A casa dorme, meus pensamentos não param.
Um jornal na língua de um estranho —
Números de jovens assassinados.
Gráficos e tabelas, nomes apagados,
Crianças perdidas e mães perseguidas.
Eu vi os pedágios de 48 —
A contagem sobe alto, o mundo espera.

Por quanto tempo mais ficaremos parados?
Quanto silêncio é preciso para matar?
Enquanto eu como queijo na Provença,
Uma criança morre com os lábios secos, sem nunca ter tido uma chance.
Por quanto tempo mais teremos que fingir
Que o conforto é a paz e o silêncio um amigo?
Quanto tempo mais?
Quanto tempo mais?

Ela mora no mesmo mar azul,
Mas ela não pode ir embora, ela não pode ser livre.
Nenhum barco para Gaza, nenhum socorro,
Sem pão, sem água, apenas tristeza.
Eu tenho tudo, ela não tem nada —
O céu acima, um sol escaldante.
Quando tudo se vai, a morte preenche o espaço,
Com a mão da fome, com o abraço da guerra.

Eles sabem — os ministros e os homens,
Aqueles que juram “Nunca mais”.
Eles sabem que não é “muito complexo para ver”,
Mas genocídio se desenrolando em uma tela.
Ainda falam de “equilíbrio”,
De “sombras” e “diplomacia”.
Mas o silêncio é uma escolha,
E o silêncio é uma arma.

Por quanto tempo mais ficaremos parados?
Quanto silêncio é preciso para matar?
Enquanto eu como queijo na Provença,
Uma criança morre com os lábios secos, sem nunca ter tido uma chance.
Por quanto tempo mais teremos que fingir
Que o conforto é a paz e o silêncio um amigo?
Quanto tempo mais?
Quanto tempo mais?

Isto não é 1942,
Não Ruanda, não é notícia velha.
Isto é agora — enquanto as flores desabrocham,
O jantar é servido em uma sala silenciosa.
Vejo meu neto perseguindo a luz,
E saiba que uma criança morreu em Gaza ontem à noite.
Uma risada terminou antes de começar —
Um nome apagado pelas mãos de um soldado.

Por quanto tempo mais ficaremos parados?
Quanto silêncio é preciso para matar?
Enquanto rolamos, bebemos e dormimos,
As sepulturas crescem, as feridas são profundas.
Não somos inocentes — não mais.
Cada boca calada, cada porta que se fecha.
Quanto tempo mais?
Quanto tempo mais?

Por que o bolsonarismo voltou às ruas?

Ao que tudo indica, o bolsonarismo voltou às ruas. Já não se veem as multidões impressionantes de 2016 a 2020, tampouco as mobilizações alcançam a escala nacional dos tempos gloriosos do movimento —mas cumprem bem a função que o consórcio Bolsonaros-Malafaia lhes designou.

Em uma época em que a presença digital e a política institucional são, de longe, mais efetivas do que 30 ou 40 mil pessoas aglomeradas ao redor de um carro de som, "as ruas" passaram a ter valor sobretudo simbólico e psicológico.

A nova extrema direita aprendeu com a esquerda tradicional, igualmente populista, que "ocupar as ruas" com multidões mobilizadas confere a qualquer causa um selo de legitimidade que a política institucional raramente alcança. Nesse sentido, 50 mil pessoas reunidas num domingo teriam mais valor simbólico como expressão da soberania popular do que os 513 deputados eleitos e os 120 milhões de votos depositados nas urnas.


Reunir uma multidão é enviar uma mensagem: se querem saber o que o povo quer, eis aqui o povo manifestando sua vontade. Com isso, o populismo de direita derrota a esquerda no seu próprio jogo, já que esta, que antes dominava nitidamente as praças, já não consegue, como antes, levar multidões significativas às ruas —salvo em ocasiões excepcionais. E é aí que entra o segundo ponto de interesse da extrema direita nas manifestações de rua: se é legitimidade o que está em jogo nesse exibicionismo, tamanho é documento, sim —e "as nossas manifestações são maiores do que as suas".

O que explica, naturalmente, o despeito que os exibicionistas de multidões costumam nutrir pelo "povo da USP" —o Monitor do Debate Político, liderado por Pablo Ortellado—, que introduziu critérios rigorosos e transparentes para estimar o número real de participantes em atos públicos, retirando do jogo de interesses a prerrogativa de inflar livremente o tamanho das massas mobilizadas.

Durante anos, foi fácil esticar os números até a escala assombrosa das centenas de milhares —ou mesmo do milhão—, até que os cientistas "encolhedores de multidões" estragaram a brincadeira e lembraram que política não se faz (só) com hipérbole.

Mas a questão não é apenas por que o bolsonarismo aprecia exibir grandes multidões, e sim por que elas voltaram a se reunir com mais frequência. A resposta está em outra função desses protestos: seu papel na reafirmação identitária e na compactação ideológica do grupo. Ao ocupar as ruas, o movimento mede seu próprio tamanho, reativa laços de pertencimento e renova a convicção de que ainda tem força.

Pessoas se dispõem a sair de casa e protestar quando se identificam fortemente com os outros manifestantes, acreditam que um valor essencial ou a sobrevivência do grupo está em risco ou sentem urgência diante de uma ameaça. Todas essas condições estão presentes para os bolsonaristas, desde que as narrativas sobre "a ditadura de Alexandre de Moraes" e a perseguição injusta a Bolsonaro foram plenamente incorporadas pelo movimento. As manifestações são, então, atos de autodefesa tribal, de sobrevivência da própria identidade.

É o "ninguém larga a mão de ninguém" de um grupo que faz da vitimização a principal estratégia de coesão e mobilização. Poucas coisas são tão eficazes para reforçar uma identidade e produzir o senso de "ou nos juntamos ou estamos perdidos" do que a convicção de estar cercado, ameaçado e sob ataque.

Nisso, o consórcio Bolsonaros-Malafaia é especialmente eficaz. Sabe que o bolsonarismo se move por medo e indignação, sentimentos que precisam de um bicho-papão para serem suscitados. Se o antipetismo perdeu apelo político, ou ficou menor que o antibolsonarismo — como comprova o fato de Lula ter sido reeleito em 2022 —, o novo monstro que frequenta os pesadelos é Alexandre de Moraes.

Se a Lula se odiava por corrupto, a Alexandre se odeia por ditador. Sem sombra de dúvida, o antialexandrismo é o antipetismo desta estação, assim como o sentimento anti-STF é a nova versão da antipolítica que protagonizou a eleição de 2018. Assistimos, em tempo real, ao bolsonarismo reciclando um mobilizador de fúria política e fabricando coletivamente a cola que une sua militância — ingredientes essenciais para pôr, mais uma vez, multidões indignadas nas ruas.

Eis por que a massa bolsonarista se agita, nas ruas e nas redes, para defender o que as narrativas do movimento garantem estar sob ataque: sua própria existência enquanto movimento político e moral. A ameaça, como convém, tem nome e rosto: o juiz-ditador, o monstro desta estação.

Ofensivas de Trump apenas vulgarizam o que as big tech já fazem desde sempre

É 2012 e pesquisadores do Facebook realizam experimento de manipulação psicológica com algoritmos e chocam-se ao perceberem que esqueceram que a plataforma foi criada para ranquear estudantes de forma misógina. É 2015: pesquisadoras identificam que recursos do Facebook ocultaram mobilizações do Black Lives Matter. É 2017: massacres em Myanmar levam à fuga de centenas de milhares – Anistia Internacional aponta papel da promoção algorítmica do ódio. É 2018, o escândalo da Cambridge Analytica reforça o poderio das big tech em influenciar eleições. É 2021, funcionários da Google e Amazon protestam contra o Projeto Nimbus, que oferece IA e infraestrutura digital ao apartheid israelense. É 2025: ferramenta Grok exalta Hitler no X, antigo Twitter. Caso relembra o célebre Tay Bot da Microsoft, que fez o mesmo no Twitter em 2016.

É janeiro de 2025: Mark Zuckerberg (Meta), Sam Altman (OpenIA), Elon Musk (X), Sundar Pichai (Google), Jeff Bezos (Amazon) e Peter Thiel (Palantir) participam da posse de Donald Trump, costuram novos contratos e abandonam compromissos de fachada – nunca realmente cumpridos – ligados à sustentabilidade, diversidade e transparência. No Brasil, a Advocacia Geral da União realiza audiência pública em reação à repentina mudança de termos de uso das plataformas. As empresas não enviam representantes.


Junho de 2025. Brasil lança, com pouca escuta da sociedade civil, versão atualizada “Plano Brasileiro de Inteligência Artificial” que inclui diversas menções positivas a empresas como OpenIA e, apesar de incluir menções à “redução da dependência externa”, as ações e investimentos são eclipsados pela enormidade de gastos que o país tem com as big tech. Só em 2024, foram R$ 10 bilhões gastos em ferramentas, softwares e serviços de nuvem que, ainda, vulnerabilizam dados de brasileiros. Pouco antes, o ministro da Fazenda se reuniu com representantes da Amazon e da Nvidia para levar um plano de incentivos fiscais para construção de data centers no Brasil. Brasileiros ainda não conhecem as condições do plano.

Chegamos a agosto de 2025 e a vulgaridade das ofensivas de Trump tem parceiros e beneficiários muito evidentes. Em declaração cheia de desinformação, a Casa Branca afirmou que a motivação para taxar desproporcionalmente o Brasil inclui as supostas ações do país para “tiranicamente e arbitrariamente coagir empresas dos EUA a censurar discurso político, desplataformizar usuários, entregar dados sensíveis ou mudar suas políticas de moderação”. 

O Brasil sofre de síndrome de Estocolmo com as big tech – o triste fenômeno psicológico quando vítimas de sequestro ou abuso desenvolvem sentimentos positivos e de dependência com seus agressores. As evidências do papel das big tech e capital financeiro sedento por usar tecnologias digitais e IA para aprofundar explorações parecem ser ignoradas por políticas públicas, ao mesmo tempo que a sociedade civil organizada não consegue espaço para participar – ou ao menos ter acesso a informações que deveriam ser transparentes.

As más decisões do Estado brasileiro sobre as big tech não acontecem num vácuo. Tais empresas são muito mais sofisticadas para incidir politicamente que a expressão mais agressiva do trumpismo deixa transparecer. Parte expressiva do Congresso Nacional brasileiro tem sido capturada pela influência dessas corporações, que contam com acesso privilegiado aos espaços decisórios e conseguem pautar a agenda legislativa em favor de seus interesses.

O abuso de poder econômico de grupos como Meta, Alphabet e Microsoft se manifesta não só na pressão sobre parlamentares, mas também na influência exercida sobre outros atores no campo da governança das tecnologias digitais. O investimento das big tech em think tanks, grupos de pesquisa em universidades privadas, conferências de privacidade de dados e outros espaços de debate sobre tecnologia criam um ambiente de promoção da ignorância e esquecimento sobre o histórico e o presente antidemocrático das big tech e o que representam.

Nesse contexto, o avanço da regulamentação das plataformas de redes sociais no Brasil, muitas vezes alardeado como censura prévia, aparece atravessado pelo lobby e pressão do setor privado, escancarando como seu poder se infiltra nas instituições e corrói a capacidade de defesa de um processo democrático efetivo.

Os impactos negativos da ofensiva de Trump a tantos setores brasileiros diferentes e os decorrentes benefícios de apoio ao governo federal na opinião pública, assim como a fragilização da confiança nos Estados Unidos, abrem uma janela de oportunidade ímpar. Agentes públicos, sociedade civil e pesquisadores acadêmicos, assim como o empresariado nacional responsável, podem tomar melhores decisões que reconheçam que o problema vai muito além de Trump – e que precisamos de um imaginário tecnológico de futuro que inclua soberania digital de forma significativa.

A marcha da insensaz

Não bastassem os cenários apocalíticos, cada vez mais frequentes, as erupções vulcânicas, os terremotos, tsunamis, inundações, o covid deixando para trás marcas de destruições catastróficas, os homens, mesmo assim, insistem em fazer guerra. É a "marcha da insensatez” de um grupo de meia dúzia de líderes empoderados pelas próprias ambições. Essa vaidade pessoal, transferida para os Estados Nacionais, extingue vagarosamente a vida no Planeta. Desorganiza países, economias, cidades, promove a morte de populações inteiras, fecham escolas, hospitais, explodem pontes e destroem terras agrícolas. Diante da dimensão que essas coisas estão tomando, perguntaria, se haverá tempo para um novo Plano Marsall, destinado a recuperação agora da Ucrânia, da Rússia, de Gaza, da Síria, do Líbano, do Iêmem, de Israel mesmo e até para uma reorganização do mundo.

Tem-se de admitir que esta geração política do Planeta é representada por lideranças paranóicas. Até fevereiro deste ano, a aventura de invadir a Ucrânia teria custado aos russos US$ 211 bilhões de suas reservas, de acordo com estimativas do Pentágono, já que a Rússia se recusa a tornar público este tipo de informação . Para os ucranianos, em fevereiro, os gastos aproximavam-se de US$ 320 bilhões. Mas eles receberam perto de US$ 100 bilhões de ajuda externa do mundo ao seu redor (Instituto Kiel da Economia Mundial). A Ucrânia mesmo teria investido em sua defesa entre US$ 150 a 200 bilhões.


No Oriente Médio, a guerra de Israel contra o Hamas, já levou a perdas físicas globais, projetadas para próximo de US$ 600 bilhões, incluindo a Síria, o Irã, o Líbano e o Iêmen, que vinham abrigando as guerrilhas revolucionárias do Hezbolah, do Hamas, dos Houtís, e outros grupos radicais clandestinos . Tiveram bombardeados campos de petróleo, fábricas e depósitos de armas. O Irã perdeu ainda unidades de geração de energia nuclear. Mas, a salvação da região está ainda no óleo combustível cru extraído.

Esta, contudo, não é ainda a guerra dos sonhos de Vladimir Putin - há 20 anos tentando expandir-se para territórios dos vizinhos. Da mesma forma, de Ali Kameini, Líder religioso Supremo do Irã que, sem muito sucesso, parece ter pretendido contaminar hegemonicamente o Oriente Médio. O mesmo se pode dizer de Kim Jong-un, da Coréia do Norte, que tem feito demonstrações de Poder para os países que estão à sua volta. Não teve, entretanto, coragem de testar sua capacidade militar com a Coréia do Sul e com o Japão. Nas primeiras tentativas de entrar na briga contra a Ucrânia, Kim perdeu em batalha a maioria dos seus homens e armamentos.

A impressão que se tem é que os líderes das superpotências parecem estar se aproveitando desses conflitos para treinar seus exércitos, assegurar prestígio no cenário político internacional e fazer testes com artefatos militares de última geração. Esta guerra está sendo travada, sobretudo, com foguetes de longa distância e famílias de “drones" que, projetados no espaço, se autodirigem, rastreaiam o inimigo, fotografam e lançam bombas. Apesar de voarem solitários, sem pilotos, os drones contabilizam a morte de mais de um milhão de combatentes e civis, conforme a OTAN- Organização do Atlântico Norte.

Os "senhores da guerra" tem dificuldade ainda de realizar seus sonhos paranoicos de uma "guerra total", esforçando-se em vão para atrair potencias ambíguas como a China e os Estados Unidos, bem como todos os 49 países europeus para conflitos bélicos que eles inventaram. O balanço das perdas físicas que essas guerras insanas estão provocando é dramático: crianças, idosos e mulheres, fugindo, como refugiados, desabrigados pelo mundo.

Essa geração de líderes surgidos na década de 50 eram infantes ou nem haviam nascidos quando ocorreu a Segunda Guerra Mundial, provocada por Hitler na expectativa de expandir território alemão e Poder pessoal. A aventura teria custado só para a Alemanha US$ 7,1 trilhões, para o Japão, 4,1 trilhões e para a Itália, 2, 5 trilhões. Perdida a guerra os alemães tiveram de indenizar países, vilas e pessoas , incluindo uma soma inicial de 20 bilhões de dólares o que fez em máquinas, matrizes tecnólogicas e fábricas. Morreram mais de 80 milhões de cidadãos. Até hoje os gregos cobram dos alemães indenizações pelos danos. Os cientistas alemães foram redistribuídos entre a Rússia e os Estados Unidos.

A França estimou o montante de suas perdas a três vezes o PIB nacional. A Bélgica e os Países Baixos sofreram danos em proporções semelhantes. A destruição física alcançou 40% das 49 das maiores cidades alemãs e 39% das habitações familiares, seguida de pilhagens retaliatórias de dimensões incalculáveis. As maiores cidades europeias registraram danos urbanos entre 20% a 30 % incluindo escolas, hospitais, universidades, os distritos comerciais centrais, e sistemas de transportes foram interrompidos. Locomotivas, vagões, barcaças, ônibus e até carros particulares foram confiscados. Pontes, estações ferroviários, aeroportos sofreram danos graves. A agricultura em todos os países ocupados teve destruídos milhões de hectares de terras de cultivo. Animais, fazendas, máquinas agrícolas, fertilizantes e mão de obra desapareceram. O abuso contra mulheres e crianças atingiu limites impensáveis.

Na Europa Oriental, a devastação foi ainda mais grave. A Polônia relatou que 30% de seus edifícios foram destruídos, bem como 60% de suas escolas, instituições científicas e instalações da administração pública; 30 a 35% de suas propriedades agrícolas e 32% de suas minas, sistemas de energia e indústrias foram danificados . A Iugoslávia teve destruídas 20,7% de suas moradias . Nos campos de batalha a Ucrânia e Rússia passaram por uma a destruição devastadora.

O mundo não merece isso. Viver é um privilégio. Passa-me pela cabeça que, de uma maneira geral, quem opta pela carreira política tem algum problema de adaptação aos modelos sociais e de trabalho vigentes ou tem dupla personalidade. Poucos resistiriam a testes psicológicos sérios. Recordo do meu amigo, Laerte Rimoli, segundo o qual estamos diante de uma hegemônica “Marcha da Insensatez". Não tivemos ainda ataques nucleares, mas já se fala em mísseis` lançados contra usinas nucleares espalhadas pelos territórios. Nelas se processa o urânio e produz-se o plutônio. Perguntas que não querem calar: Depois dessas guerras, haverá algo a ser recuperado por um novo Plano Marshall? Desta vez, com a inflação acusando picos e os correntistas bancários batendo às portas dos bancos russos, será que o Kremlim concordaria?

'Nós não temos um rei — temos um presidente'

Mais de 2300 nomes filiados ao Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (o Writers Guild of America) assinaram uma carta aberta denunciando "ataque autoritário sem precedentes” do presidente Donald Trump e seu governo. Entre os signatários estão nomes como Spike Lee, Adam McKay, Ilana Glazer, Mike Schur, Liz Merriwether e Tony Gilroy.

Segundo a revista Variety, o documento cita os “processos infundados” movidos pelo presidente norte-americano contra empresas de mídia que publicaram reportagens que o desagradaram" e que ele transformou em "acordos financeiros”, como o caso da Paramount, que pagou US$ 16 milhões a Trump para encerrar “um processo sem mérito” contra o programa "60 Minutes".

Os roteiristas também destacam que Trump “retaliou contra publicações que fizeram reportagens sobre a Casa Branca e ameaçou as licenças de emissoras”, além de pedir repetidamente o cancelamento de programas, noticiosos ou de entretenimento, que o criticam. Eis o texto:

Somos membros do Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos (Writers Guild of America) que falam com uma só voz para denunciar os perigosos e crescentes ataques à Primeira Emenda, à mídia independente e à imprensa livre.

Somos um sindicato de roteiristas de cinema, televisão e jornalistas, construído e sustentado sobre a crença fundamental de que narrativas ousadas, comédias destemidas e reportagens firmes são indispensáveis para uma sociedade livre e democrática. Sempre soubemos que a fidelidade a esses princípios poderia nos tornar alvo de ataques — vindos de nossos empregadores, de interesses corporativos ou mesmo de políticos. Ainda assim, sempre compreendemos nosso papel em uma democracia saudável.

Agora, enfrentamos um ataque autoritário sem precedentes. Só nos últimos meses, o presidente Trump entrou com processos infundados contra organizações jornalísticas que publicaram reportagens das quais ele não gosta, e os transformou em acordos financeiros — o mais notório deles com a Paramount, que pagou US$ 16 milhões para encerrar um processo sem mérito contra o programa "60 Minutes". Ele retaliou contra publicações que relataram fatos sobre a Casa Branca e ameaçou as licenças de emissoras. Regularmente, pede o cancelamento de programas de notícias e entretenimento que o criticam, como os de fim de noite e, mais recentemente, "The View".

De forma alarmante, grande parte do governo federal agora se uniu a esses ataques. Republicanos no Congresso colaboraram para cortar o financiamento da Corporation for Public Broadcasting, com o objetivo de silenciar a PBS e a NPR. A FCC condicionou abertamente a aprovação da fusão entre a Skydance e a Paramount a garantias de que a CBS faria “mudanças significativas” no suposto viés ideológico de seu jornalismo e de sua programação de entretenimento. O presidente da FCC, Brendan Carr, ecoou as ameaças de Trump.

Ainda assim, a Paramount quer que acreditemos que o cancelamento de "The Late Show with Stephen Colbert" não teve relação com política ou com a aprovação da fusão.

Essas são tentativas antiamericanas de restringir os tipos de histórias e piadas que podem ser contadas, de silenciar a crítica e a dissidência.

Nós não temos um rei — temos um presidente. E o presidente não tem o direito de decidir o que vai ao ar na televisão, nos cinemas, nos palcos, nas nossas estantes ou nas notícias.

Conclamamos nossos representantes eleitos e os líderes da indústria a resistirem a esse abuso de poder. Conclamamos nosso público — cada pessoa disposta a lutar por um futuro livre e democrático — a levantar a voz.

Essa certamente não é a primeira vez que a liberdade de expressão é atacada neste país, mas ela continua sendo um direito nosso porque geração após geração de americanos se dedicou a protegê-la. Agora e sempre, quando escritores são atacados, nosso poder coletivo como sindicato nos permite reagir. Este período da vida americana não durará para sempre — e, quando terminar, o mundo se lembrará de quem teve coragem de se manifestar.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Reforma do sistema monetário global?

As idiossincráticas trumpadas de Trump mereceriam a explicitação das forças socioeconômicas que se movimentam nos subterrâneos das vidas de mulheres e homens.

Keynes, o John Maynard, dedicou-se à compreensão das relações complexas entre Estrutura e Ação, entre os papéis sociais e sua execução pelos indivíduos engalanados nos ouropéis da liberdade e racionalidade, mas, de fato, enredados nas forças sistêmicas. Keynes, na esteira de Freud, introduziu as configurações subjetivas produzidas pelas interações entre as formas sociais e seus indivíduos, inexoravelmente submetidos aos objetivos de acumulação de riqueza monetária.


Não seria impróprio afirmar que o poder americano se debilitou no exercício de suas forças. Mais uma vez, no movimento de suas estruturas, a economia global iludiu as conjecturas binárias que pretendem afastar a Economia da Política. O exercício do poder americano desencadeou transformações financeiras, tecnológicas e geopolíticas que culminaram no enfraquecimento de sua hegemonia.

Entre tantos desesperos, Trump acusou os Brics de organizarem uma conspiração contra o poder do dólar. Não por acaso, um dos temas do momento é a reforma da arquitetura financeira internacional, ou coisa assemelhada. São cada vez mais frequentes os rumores sobre a possibilidade de abandono progressivo do dólar em favor de outras moedas no faturamento das transações internacionais e na denominação de contratos.

O futuro chegou ao passado: Keynes, delegado da Inglaterra em Bretton Woods, propôs a Clearing Union, uma espécie de banco central dos bancos centrais. A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, o bancor, destinada exclusivamente a liquidar posições entre os bancos centrais. Os negócios privados seriam realizados nas moedas nacionais, que, por sua vez, estariam referidas ao bancor mediante um sistema de taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis. Os déficits e superávits dos países corresponderiam a reduções ou aumentos das contas dos bancos centrais nacionais (em bancor) junto à Clearing Union.

O plano apresentado por Keynes em Bretton Woods buscava uma distribuição mais equitativa do ajustamento dos desequilíbrios de balanço de pagamento entre deficitários e superavitários. Isto significava, na verdade - dentro das condicionalidades estabelecidas - facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Ele imaginava, ademais, que o controle de capitais deveria ser “uma característica permanente da nova ordem econômica mundial”.

O arranjo monetário adotado em Bretton Woods afirmou a supremacia do dólar. Essa supremacia sobreviveu ao gesto de Richard Nixon em 1971 - a desvinculação do dólar ao ouro - e à posterior flutuação das moedas em 1973. A continuada desvalorização do dólar, ao longo dos anos 70, suscitou a elevação brutal do juro básico americano em 1979. Esse gesto de poder derrubou os devedores do Terceiro Mundo, lançou os europeus na “desinflação competitiva” e culminou na crise japonesa deflagrada no crepúsculo dos anos 80. A valorização da moeda americana suscitou o Acordo do Louvre, que empurrou goela abaixo do Japão a valorização do iene, a famosa endaka.

Sob pressão de Tio Sam, o país entrou na farra da desregulamentação financeira. Saboreou inicialmente as delícias de uma bolha imobiliária e outra no mercado de ações. A curtição durou pouco. Em 1989, os preços dos imóveis e das ações despencaram e deixaram os bancos japoneses encalacrados em créditos irrecuperáveis.

Retornemos às relações entre Estrutura e Ação: a supervalorização da moeda americana que danou as economias devedoras, como o Brasil, também moveu o investimento direto das corporações industriais americanas para a China e Ásia emergente.

Hoje, a “competitividade” chinesa é crescente tanto nos mercados menos qualificados quanto, em ritmo acelerado, nos de tecnologia mais sofisticada. O país tornou-se grande receptor do investimento direto americano, europeu e japonês e, ao mesmo tempo, ganhou participação crescente no mercado de bens finais, peças e componentes dos EUA e Europa.

A redistribuição espacial da indústria manufatureira ampliou os desequilíbrios nos balanços de pagamentos entre os EUA, a Ásia e a Europa, bem como favoreceu o avanço da chamada globalização financeira. A ampliação dos déficits comerciais americanos que atormentam Trump teve como contrapartida a rápida acumulação de reservas na China superavitária. Nos anos 90, as reservas chinesas abasteceram vigorosamente o mercado de títulos emitidos pelo Tesouro americano.

Há bens que vêm para o mal. A acumulação de reservas chinesas lastreadas nos Treasuries foi simultânea à espantosa expansão do crédito nos Estados Unidos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é a mesma coisa. Nessa toada, a espantosa evolução do consumo das famílias de Tio Sam instigou a bolha financeira que explodiu na crise de 2008. A virtude da temperança chinesa incitou os destemperos da finança que levaram à crise de 2008.

Não por acaso, correm à solta as propostas de reforma das relações monetário-financeiras internacionais. Quase todas elas contemplam a redução do papel do dólar como moeda-reserva e recomendam sua substituição progressiva por um sistema plurimonetário.

Há quem pretenda ressuscitar a proposta europeia apresentada em 1979, na reunião do FMI em Belgrado: substituir o dólar por uma cesta de moedas, a “conta de substituição”. Naquela reunião, a proposta foi rejeitada por Paul Volcker, que reafirmou o poder da moeda americana, ao impor ao mundo uma elevação sem precedentes da taxa de juro.

Despido da roupagem de protagonista importante, o palmeirense que ora submete os leitores do Valor às suas mal traçadas linhas estava na reunião de Belgrado. Ouvi pessoalmente as vozes dos poderes que comandam a economia. “Ninguém vai contestar o Poder do Dólar”, sapecou Volcker.

Trump toca flauta?

Numa entrevista recente, no podcast Pod Force One, Trump disse que estudou flauta por um breve período, com seus 11, 12 anos de idade. Embora não toque mais, continua conduzindo ratos, crianças e adultos ao abismo, de maneira semelhante ao famoso flautista de Hamelin.

Diz o conto, como muitos sabem, que numa cidade infestada por ratos, apareceu um flautista afirmando que, por um certo pagamento, poderia livrar os habitantes dos roedores. Acordo feito, levou os ratos, ao som da sua música, a se afogarem no rio. Acordo desfeito, por não ter recebido o combinado, escafedeu-se e depois voltou, com nova música que encantou as crianças locais e as levou, aprisionadas, a uma caverna. A cidade ficou sem crianças e, pois, sem futuro.


Melhor dizendo, não propriamente sem futuro, mas sem um futuro desejável, com melhor qualidade de vida, mais entendimento, negociações, concessões recíprocas, construções comuns, convivência harmônica e melhorias da qualidade de vida da maioria. Objetivamente falando, estamos sendo conduzidos a um futuro oposto a todos esses valores civilizacionais, a um porvir rumo à barbárie!

Nessa direção nos conduz um dos dirigentes mais poderosos da Terra. Há alternativas? Claro, existem, mas hoje sem o poder necessário para direcionar o futuro num rumo mais desejável. Como construir essa alternativa?

Não há resposta simples, clara e suscinta. O caminho há que se fazer ao caminhar. O bem comum tem de prevalecer sobre o lucro privado, sem deixar de reconhecer que o lucro privado é potente motor de melhorias para o bem comum, ainda que seja, também, causa de danos ao bem comum. A complexidade do equilíbrio entre bônus e ônus requer algo que os cada vez mais dominantes algoritmos e menos democráticos dirigentes não possuem: humanismo!

A força dominante é um Golias, mas há que construirmos os Davis! A vitória do pequeno sobre o grande é difícil, mas não impossível, e não se limita à bíblia!
No caminho a construir, equívocos ocorrerão, e somente serão corrigidos se prevalecerem os objetivos de privilegiar a solidariedade, a cooperação, a humildade e a objetividade rumo à uma nova civilização, na qual o ganho privado, domesticado, não suplante o bem-estar coletivo.

Trata-se, pois, de reinventar e redefinir o mundo, a civilização, os objetivos, os desejos, os sonhos, a satisfação, o contentamento.

Trata-se, talvez, de reinventar o animal humano, tornando-o, de fato, sapiens?

'Genocídio mais televisionado da história'

Ilan Pappe é filho de judeus alemães que escaparam da perseguição do nazismo. Nasceu em Haifa em 1954, seis anos após a criação do Estado de Israel. “Tive a infância típica de uma criança israelense”, contou na sexta-feira, na Festa Literária de Paraty. Ao escolher o ofício de historiador, ele começou a ter contato com fatos que não eram ensinados na escola. “Tudo o que encontrava nas minhas pesquisas contradizia o que havia ouvido dos meus pais e dos professores. Fui exposto a uma história bem diferente de Israel e da Palestina”, disse.

Depois de uma temporada de estudos no exterior, Pappe voltou a Israel para mostrar o que havia garimpado em livros e arquivos oficiais. Sua visão crítica do sionismo desagradou amigos, parentes e colegas de academia. “Fui ingênuo. Achei que seria recebido de braços abertos”, comentou. “Não me dei conta de que desafiar a narrativa histórica do meu próprio país seria considerado uma traição. Isso foi um choque para mim”, admitiu.


O historiador disse ter vivido um dilema comum a quem rema contra a maré. Ou se mantinha fiel às suas convicções ou “cedia à pressão e escrevia o que as pessoas queriam ler”. “Decidi continuar com a minha verdade, sabendo o preço que precisaria pagar”, contou. O mais caro foi a demissão da Universidade de Haifa, em 2006. Sem espaço para trabalhar em Israel, ele aceitou convite para dirigir o centro de estudos palestinos da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Autor de mais de 20 livros, Pappe veio ao Brasil lançar os dois mais recentes: “Brevíssima história do conflito Israel-Palestina” e “A maior prisão do mundo”, cujo título resume sua visão da atualidade em Gaza. “Os palestinos moram numa grande prisão desde 1967. Israel controla tudo em suas vidas. Eles vivem como detentos”, disse na Flip.

“Israel lançou mais bombas sobre a Faixa de Gaza desde 2007 do que os aliados lançaram sobre a Alemanha na Segunda Guerra”, prosseguiu. Ele comparou a situação atual do território à de um campo de extermínio. “É o genocídio mais televisionado da História”, sentenciou.

Na visão de Pappe, os palestinos são alvo de um processo de limpeza étnica, com a cumplicidade das potências que dão armas e apoio político ao governo de Israel. Ele disse que a promessa de França e Reino Unido de reconhecerem a Palestina como Estado é um “pequeno passo”. Mas defendeu que só sanções econômicas, como as aplicadas à Àfrica do Sul na época do apartheid, seriam capazes de frear o massacre em Gaza. “Se o Ocidente fizesse 50% do que está fazendo com a Rússia (após a invasão da Ucrânia), criaria um grande problema para Israel”, disse.

Ao apresentar a mesa, a curadora Ana Lima Cecilio disse que o convite a Pappe foi a “decisão mais importante” da 23ª edição da Flip. “Houve pressão para impedir que eu falasse a vocês”, agradeceu o historiador, sob aplausos e gritos de apoio. Ele afirmou que suas críticas não demonizam Israel nem os israelenses. “Eu falo em hebraico, sonho em hebraico”, comentou, antes de lembrar que mais da metade da população de Gaza tem menos de 20 anos de idade. “Esses jovens só conheceram uma realidade: viver sob cerco, bombardeio e destruição permanente.”

Trump é um pesadelo

Estive em Paraty para falar de um belo livro de fotos de João Farkas: “Costa norte”. Escrevi um texto de apresentação e, no debate sobre manguezais, dunas e petróleo na Foz do Amazonas, um homem perguntou:

— E o fator Trump, que dizer sobre ele?

Fugia um pouco do tema, mas respondi com sinceridade que Trump me tirava algumas horas de sono. Sou jornalista, ele é o homem mais poderoso do mundo. Terei de falar sobre ele nos próximos anos, é um inescapável pesadelo.

Seu narcisismo e estreiteza de ideias colocam um perigo ao analista: cair na zona de conforto da crítica fácil e deixar de evoluir como faria se estivesse diante de alguém com ambiguidades e zonas de sombra típicas da riqueza humana.


Não posso desistir. Preciso trabalhar e, além do mais, Trump influencia a sorte do Brasil. É um momento de todos ajudarem, dentro de seus limites. O que posso fazer é estudar mais.

Estou iniciando o clássico “Fantasias masculinas”, de Klaus Theweleit, uma análise profunda e inquietante de um grupo de soldados que tiveram papel crucial na ascensão do nazismo. Os soldados eram integrantes dos Freikorps, unidades paramilitares que lutaram e triunfaram sobre o movimento revolucionário alemão, imediatamente depois da Primeira Guerra.

Talvez possa avançar em minhas análises. Mas o fator Trump implica mais que um esforço individual de interpretação. É um desafio que pede uma estratégia nacional. Quando houve o tarifaço, sugeri que concentrássemos a energia tentando mobilizar as forças internas nos Estados Unidos, onde a medida repercutiu mal. Intelectuais, políticos e jornalistas criticaram Trump, sem falar nos grupos econômicos descontentes, que serão úteis nas eleições que se aproximam.

Passado o primeiro momento, é necessário continuar negociando. Mas sugiro que o Brasil inicie uma longa mudança. Primeiro ponto tático: é preciso recuperar ao máximo os contatos com os Estados Unidos. A Frente Parlamentar Brasil-Estados Unidos ainda não fez uma única reunião neste ano. Nossa inteligência, se podemos chamá-la assim, não acompanhou os passos dos lobistas que influenciaram a Casa Branca e contavam diariamente seus feitos.

De modo geral, nos comportamos como se o fator Trump nunca fosse chegar a nossa praia. As divergências não podem evitar o diálogo. Precisamos ampliar nosso conhecimento sobre o que se passa nos Estados Unidos, identificar interlocutores e compartilhar com os americanos este momento difícil, que parece desembocar num governo autoritário.

Em termos estratégicos, há um consenso de que devemos ampliar os negócios com o mundo, abrir mercados na Europa. Lula trabalha para fechar o acordo Mercosul-União Europeia ainda neste ano. Mas há também Canadá, México e todos os países que, de certa forma, foram atingidos pelas tarifas de Trump, inclusive na Ásia.

Existe outro nível de abertura, talvez difícil de trafegar numa maré nacionalista. É a abertura da própria economia brasileira, simplificando a estrutura tarifária, removendo barreiras não tarifárias, avançando no que o Banco Mundial chama de caminhos da prosperidade. Claro que uma abertura assim implica riscos internos que precisam ser minimizados. Podemos sair mais fortes de tudo isso. Por que não tentar?

Entre ameaças e chantagens

A chantagem de Trump de aumentar em 50% as tarifas para produtos brasileiros, com o objetivo de pressionar nosso Judiciário, faz parte de sua estratégia global, a teoria do louco. Imperam a imprevisibilidade e o personalismo em suas decisões. O bilionário tenta persuadir seus adversários mostrando que é capaz de qualquer ação para vencer. Em parte, está funcionando, como o acordo EUA-UE evidencia.

A Folha lembrou das rusgas entre Brasil e EUA por causa de softwares e computadores nos anos 1980. O país protegia seu mercado dos produtos estadunidenses ao mesmo tempo que incentivava o desenvolvimento de uma indústria nacional. Aos moldes do que fizeram China e Japão, fabricava softwares copiando a tecnologia dos EUA.


Como resposta, Ronald Reagan ameaçou aplicar uma sobretaxa de 100% sobre produtos brasileiros. A lista incluía madeira, ferro, equipamentos telefônicos e aviões. Sarney cedeu. O Brasil permitiu a comercialização dos produtos da Microsoft e flexibilizou sua política de informática. As sanções foram suspensas. Nossa indústria naufragou e nossa dependência externa reflete-se nos R$ 10 bilhões gastos com big techs em 2024.

Nos anos 1990, o neoliberalismo era mais que uma moda, era uma ordem ideológica. Economistas, jornais e políticos vibravam com as privatizações e a reorganização do Estado promovida por FHC no Brasil e que se estendia a maioria dos países da América Latina.

Todos seguiam as diretrizes do Consenso de Washington, que impunha ajustes estruturais, cortes de gastos sociais e abertura de mercado para liberar empréstimos. Precisa de dinheiro? Só adotando nossas políticas. Esse era o subtexto do FMI. “O que está sendo vendido como ajuda econômica é, na verdade, uma forma altamente sofisticada de chantagem econômica. A ‘ajuda’ do FMI vem sempre com um preço — e esse preço é o sacrifício da soberania econômica”. escreveu Naomi Klein em a Doutrina do Choque.

Ou como vaticinou o geógrafo David Harvey, “O neoliberalismo não destrói o Estado — o redesenha como instrumento de classe.” Não é coincidência a primeira experiência neoliberal ter ocorrido durante a ditadura de Augusto Pinochet entre os anos de 1973-1990 no Chile.

Há as chantagens evidentes e irracionais de Trump, há as ideológicas e racionais do neoliberalismo. E há as chantagens da rotina, que nos colocam em um labirinto sem saída. Somos submetidos aos mecanismos psicológicos, burocráticos e existenciais tal qual Josef K., o protagonista de “O Processo” de Franz Kafka. Nós normalizamos as opressões e somos cúmplices indiretos delas.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Hominus crudelis

A violência é condição da sobrevivência das espécies. Agora há uma espécie que acrescentou à violência a crueldade, e essa espécie é a nossa. O homem é o único animal cruel que de fato existe
José.Saramago

Uma mensagem aos Destruidores

A maldade pública entra na casa de cada homem, os portões do seu pátio não conseguem impedi-la de entrar, ela salta sobre o muro alto; deixe-o fugir para um canto do seu quarto, ela certamente o encontrará
Sólon

Você que procurou nos destruir
Falharam.

Você que nos ignorou
Falharam.

E você que zombou de nós
Estão sozinhos agora.

Nós nos lembraremos e escreveremos
Onde você procurou esquecer e apagar.

Nós criaremos e criaremos novamente
Onde você destruiu.

E não faremos
Seu roubo é sagrado.

E não reconheceremos
Seu anular,
E sua ruína,
Sua fabricação,
E sua usurpação.

Nós viramos as costas para você
Perverso inverso da história.

Nós viramos as costas para você
Então, para testemunhar e lembrar:

De Deir Yassin a Sabra e Shatila ,
De Nazaré e Jenin
Para Haifa , Jaffa e 'Akka ,

De Sheikh Jarrah a Beit Hanina,
E de Gaza a Khan Younis
E Rafah,

Não perdoaremos o imperdoável ,
E não esqueceremos.

Nós olhamos para o abismo
Do seu monstruoso
Fósforo branco
E vimos seu rosto.

Mas você perdeu o momento
Você atacou.

E suas paredes
Não irá protegê-lo
Da sua própria
Consciência.

E suas paredes
Não irá protegê-lo
Da sua própria
História.

E o que você roubou
Nós retomaremos,

Pensamento por pensamento,
Centímetro por centímetro,
Até sua maldição sangrenta
Torna-se nossa benção.

O genocídio é seu verdadeiro direito de nascença,
E seu verdadeiro legado.
A Palestina é nossa.

Seus são os canhões e os tanques,
Seus são os tratores e as bombas.
E a sua é a ladainha de mentiras e contos fantásticos.

Mas a nossa é a cultura ,
E o tempo,
E o espírito,
E a vontade.

Não ao roubo de terras,
Não ao roubo cultural,
Não à colonização,
Não à ocupação.

O escravo sempre diz “sim”.

Até que sejamos livres,
Você é um usurpador,
E assim você irá

Seja sempre.

O fim das ideologias ou o desgraçado mundo novo

Do grego “idea” (conceito) conjugado com “lógos” (estudo) à laia de sufixo, a palavra ideologia significa, etimologicamente, o estudo das ideias.

Para tanto ainda chega o meu conhecimento de grego, não estudado, mas adquirido nas leituras duma vida, sobretudo naquelas em que balizei (eu e grande parte da minha geração) as minhas ideias políticas.


Mais do que meras palavras, termos como liberalismo, socialismo, comunismo, fascismo foram, desde o século XIX, correntes de pensamento que moldaram revoluções, criaram e fizeram cair regimes, promoveram movimentos em todo o mundo.

Eram estes “mapas” políticos que organizavam a vida das pessoas e a sociedade com base em ideias claras sobre justiça, liberdade, igualdade, economia ou progresso.

Hoje em dia é como se vivêssemos numa era pós-política, sem grandes projetos, grandes visões de futuro ficando-nos apenas pela gestão do quotidiano e dos ciclos eleitorais, pelos números de votos e pelas promessas vagas. Assistimos a verdadeiros números de contorcionismo em tudo dependentes dum jogo de poder pelo poder, espezinhando valores fundamentais com o único fim de conseguir captar um eleitorado a cada dia menos esclarecido e mais à mercê dos discursos simplistas e vazios.

No entanto e ao contrário do que parece, as ideologias não desapareceram — apenas mudaram de forma. Perderam a estrutura clara dos velhos tempos e dispersaram-se em causas, emoções e identidades. Deixaram de comunicar para o “todo” para se centrarem em nichos de mercado político deixando órfã a maioria.

Uma maioria que, humanamente, tem necessidade de acreditar em algo, de ter respostas, de procurar sentido. E é exatamente aí que começa o problema.

Neste “desgraçado mundo novo”, o vazio deixado pelas antigas ideologias está a ser ocupado por discursos fáceis, emocionais, vazios e perigosamente sedutores. O medo, a frustração, a desilusão o sentimento de abandono que assolou essa maioria, alimentam populismos que prometem proteger, restaurar e até mesmo vingar. Discursos que prometem tudo — menos pensar. Em vez de ideias, temos slogans. Em vez de diálogo, temos gritos. Em vez de pontes, muros.

O que assusta realmente é que muitos, cansados de não serem ouvidos, de não terem uma explicação, de se sentirem esquecidos, aceitam. Aceitam o inimigo como explicação e o ódio como resposta. Dizia alguém num desses livros de ideologia lidos há muito que os monstros nascem, não da força, mas do silêncio.

Este é o retrato de um mundo novo de promessas vazias, discursos agressivos e identidades simplificadas, onde o medo faz mais barulho.

Enquanto as ideologias se fragmentam e os valores se esvaem, o vazio ideológico é tapado por políticas punitivas e radicalizadas.

Abalroam-se valores e princípios, em troca de votos e de vitórias eleitorais. A política já não se faz para as pessoas e muito menos para construir respostas sociais . Neste momento, a politica tem um único objetivo: vencer o adversário!

Não há debates ideológicos, não existem contrapontos políticos. As alianças são feitas apenas e só baseadas na matemática eleitoral.

É caso para dizer “ que se lixem as pessoas”.

Mas ainda há espaço para mudar o rumo. Precisamos de política com coragem: coragem para pensar em coletivo, para propor, para incluir em vez de excluir. A coragem de voltar a acreditar que a política pode ser mais do que ruído — pode ser caminho.

O conservadorismo se isolará se ficar refém dos Bolsonaros

A recente imposição de tarifas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros, motivada por pressões políticas da família Bolsonaro, expõe a dependência do conservadorismo brasileiro em relação à família do ex-presidente. Os conservadores realmente esperam que a medida que pune trabalhadores e empresários brasileiros seja colocada na conta de Lula e Alexandre de Moraes, e não na de Eduardo Bolsonaro? Eles conseguem explicar por que os trabalhadores da indústria da carne em Mato Grosso ou os trabalhadores da indústria de calçados do Rio Grande do Sul deveriam pagar, com seus empregos, a conta das disputas entre o Supremo e os bolsonaristas? E qual a estratégia por trás da medida? Eles esperam que o Supremo se reoriente por medo de sanções comerciais — ou mesmo da Lei Magnitsky?


Nada disso faz o menor sentido. A armadilha em que se meteram se deve ao indisputado domínio da família Bolsonaro sobre todo o campo conservador. Sem perspectivas concretas de livrar o pai da cadeia, Eduardo Bolsonaro viajou para os Estados Unidos com o projeto de estimular sanções americanas aos ministros do Supremo, na esperança vã de que a ameaça pudesse moderar as sentenças nos julgamentos dos atos antidemocráticos. Só que Trump recebeu a demanda e a dissolveu na sua estratégia de guerra tarifária. Eduardo Bolsonaro, tomado de vaidade e sentindo-se influente sobre a Casa Branca, tomou a medida desproporcional de Trump como se fosse sua, implicando todo o movimento conservador na sua trapalhada.

O que era uma punição direcionada a Moraes e outros ministros virou uma punição a milhares de brasileiros. Os governadores da direita tentaram escapar da armadilha, buscando dizer que a postura antiamericana de Lula teria provocado a medida e que a solução seria a mesa de negociação comercial. Trump, no entanto, deixou claro que seu problema é com o Supremo, que a disputa não é de natureza comercial e que age a pedido dos bolsonaristas nos Estados Unidos.

Trump está tratando o Brasil como trata as universidades americanas. No caso delas, usou seu poder econômico como financiador das pesquisas científicas para lhes arrancar o compromisso de fechar ou enquadrar departamentos de estudos árabes, revisar as políticas de diversidade e perseguir estudantes pró-Palestina, sobretudo os estrangeiros.

No caso do Brasil, está usando tarifas para conseguir que o Supremo inocente Bolsonaro, suspenda a regulamentação judicial das mídias sociais e cesse a suspensão de contas de bolsonaristas na internet. A exigência é descabida e, na falta de termo melhor, imperialista. O Brasil não é frágil como um pequeno país centro-americano, nem hiperdependente dos Estados Unidos, como o México. Além do mais, o Supremo é um Poder independente do Poder Executivo. Só mesmo o delírio de grandeza de Eduardo Bolsonaro poderia esperar que tarifas contra o setor produtivo e punições bancárias a Moraes pudessem coagir o Supremo.

Não apenas as medidas não surtirão o efeito desejado, como terão o efeito contrário. A postura de Trump unirá ainda mais o Supremo e isolará ou enquadrará Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux. E tornará muito mais difícil reorientar a Corte. A lista de problemas por lá não é pequena. Começa com os inquéritos abertos de ofício — sem objeto definido, sem prazo para acabar — e com a confusão de papéis entre vítima, investigador e juiz. Depois, vem uma sequência de medidas equivocadas e desproporcionais: a cassação de contas em mídias sociais, estabelecendo de fato censura prévia, sentenças duríssimas contra os bagrinhos do 8 de Janeiro e os erros que sustentaram a prisão de Filipe Martins.

A persistência dos conservadores foi capaz de trazer essas questões à luz, mas sua incapacidade de dissociar a exposição dos problemas do STF da vontade de livrar Bolsonaro da cadeia compromete o diagnóstico. Os bolsonaristas não conseguem condenar o golpismo de 2022/2023 da mesma maneira e pelos mesmos motivos que os lulistas não conseguem reconhecer a corrupção na Petrobras. Quem considera a mão pesada de Moraes uma ameaça à democracia não deveria achar inócuo decretar estado de sítio sobre o TSE ou um general planejar assassinar autoridades.

Não conseguiremos consertar os problemas do Supremo sem também condenar o golpismo. E nada disso será conseguido com o apoio de Trump. O conservadorismo se manterá isolado enquanto permanecer refém das estratégias personalistas da família Bolsonaro.

O lobo

Em 2023, Adam Conover afirmou: “Não pretendíamos defender-nos contra a tecnologia, mas sim contra os humanos no outro lado da mesa, que tentam lixar-nos todos os dias.” A frase foi proferida após ser finalmente alcançado um acordo entre os argumentistas e os representantes dos estúdios de Hollywood, na sequência de uma greve que parou a produção de séries e filmes. O tema central da disputa era a utilização sem regras do ChatGPT e de ferramentas semelhantes pelos estúdios. Conover parafraseou Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem.” Ou seja, sem leis, o homem vive em permanente conflito, com um desejo de poder para garantir a sua própria sobrevivência. No “contrato social”, os cidadãos abdicam de parte da sua liberdade, conferindo ao Estado o poder de legislar e a autoridade para fazer respeitar as leis.


Mas e se os cidadãos já não confiarem no “contrato social” das sociedades modernas? Se uma parte crescente da população entender que o Estado não zela pelos seus interesses?

A crise das sociedades democráticas ocidentais é exacerbada pelo algoritmo, que fomenta a polarização e impede o diálogo. Mas por que motivo discursos extremistas, violentos e desumanos apelam a tantos?

O filosofo Michael Sandel, no livro A Tirania do Mérito, procura encontrar a resposta. Embora a sua análise se foque na sociedade americana, o seu pensamento é relevante para as sociedades ocidentais em geral e, sobretudo, para os desafios que ora se colocam com o advento da Inteligência Artificial.

A promessa de que a riqueza gerada pela globalização permitiria, a todos, maior conforto económico não se cumpriu. Em quatro décadas, a China elevou da pobreza 800 milhões de pessoas, mas nos EUA a riqueza gerada com a globalização foi capturada por apenas 20% da população. Os salários mantiveram-se estagnados e, em 2020, o Departamento de Estatísticas dos EUA divulgou um estudo demonstrando que a desigualdade atingira o nível mais elevado em cinco décadas. À desigualdade social soma-se a arrogância dos vencedores. O discurso dominante é de que quem venceu o fez pelo seu mérito exclusivo. Que tudo deve à sua inteligência e ao seu esforço e, como tal, os seus rendimentos não só são merecidos, mas justos. No entanto, tal implica também afirmar que os outros falharam por sua única e exclusiva responsabilidade, porque não estudaram, não trabalharam. Às agruras das dificuldades económicas alia-se a humilhação. Naturalmente, este é um discurso perverso, não nascemos todos com os mesmos dons, com famílias idênticas e oportunidades iguais. Mas não é somente o facto de, na corrida da vida, não partirmos todos da mesma linha e de no percurso termos apoios distintos, é também o facto de que a sociedade, em cada momento, valoriza talentos muito diferentes. Finalmente, e provavelmente mais relevante para a polarização atual, a sociedade ocidental faz coincidir o contributo de cada um para o bem comum com o valor da remuneração auferida, numa perversão social que ficou a nu na pandemia de Covid-19. Os denominados “trabalhadores essenciais” eram aqueles que desempenham as funções mais mal pagas – quem recolhe o lixo, colhe a fruta, cuida de idosos…

O trabalho não é apenas um meio para a obtenção de um rendimento. Não somos indiferentes à estima e ao respeito que geramos. Numa sociedade desigual que desvaloriza o contributo de tantos, começa-se a adivinhar porque o discurso contra os “estrangeiros” – que afirmam vir “usurpar” trabalhos e rendimentos – encontra ouvintes, e porque se afirmam contra “elites”, “privilegiados”, “políticos do sistema”.

Se este foi o status que resultou da globalização, como será quando o “estrangeiro” for um exército de agentes artificiais, que nunca dormem e tudo sabem? Quando a riqueza se concentrar numa clique ainda mais reduzida de donos de Big Tech e o trabalho cognitivo diminuir exponencialmente? Devemos a nós e às próximas gerações um debate sobre que sociedade e contrato social desejamos. Tal envolve refletir em alternativas à tributação do trabalho, capital e heranças. Reforçar a discussão destes temas na escola, na disciplina de Filosofia ou, para os mais jovens, Ética, e regular a introdução de sistemas de Inteligência Artificial na economia.

O continente da demência

Um incidente na Câmara dos Deputados em Brasília põe em dúvida o sentido do conhecido aforisma "o patriotismo é o último refúgio do canalha". É que, apesar da indignação coletiva contra o ataque desvairado de Trump ao Brasil, um pequeno grupo alçou na Câmara dos Deputados enorme bandeira em homenagem ao agressor. O autor da frase, Samuel Johnson, literato inglês do século 18, queria dizer que o "scoundrel" (canalha), sem justificativa moral para suas ações, recorre malandramente ao motivo fácil do patriotismo.


O ato da camarilha esvazia o sentido da frase: patriotismo não pode ser último refúgio de quem implicitamente o rejeita em sua ação. Durou meia hora a exposição da sabujice lesa-pátria, até que se tomasse a providência de retirá-la. Tarde demais. O fato chegou às redes, o país inteirou-se da vilania impatriótica, isto é, da exaltação a uma ameaça estrangeira de absurda intervenção no Judiciário brasileiro, que acabou se concretizando.

Traição ao sentimento nacional envergonha o bom senso. As lideranças do Congresso começam a cogitar de alguma seriedade interna. Mas para o grande público fica a interrogação de como são possíveis comportamentos tão aberrantes à liturgia do cargo, mesmo em se considerando o estado civicamente regressivo da composição parlamentar.

Em princípio, seria insuficiente a exclusiva atribuição do fenômeno à ultradireita, pois nem todos os extremistas ousaram expor-se dessa maneira. Pode-se pensar no arroubo de uma turma juvenilizada em estilo cafajeste. Jovens costumam mostrar-se mais permissivos em companhia de pares. É a lógica das gangues, das torcidas de futebol violentas.

Mas se trata de políticos eleitos. Ocorre então a hipótese de uma demência coletiva manifestada como síndrome de padrões disfuncionais de cognição e comportamento. Não figura em manuais de psiquiatria. É um continente desconhecido, para além de motivações apenas individualizadas, em que se age sem fundamento, por puro efeito autodemonstrativo. No período Bolsonaro, deu-se atenção pitoresca a fenômenos dessa natureza nas ruas e nas rodovias, quando pequenas aglomerações marchavam sem rumo certo ou rezavam para pneu de caminhão. Voltados para as macrocausas político-econômicas, os observadores sociais deixaram escapar, por insignificante, a obtusa singularidade desses comportamentos. Neles se divisa agora uma dimensão significativa, em que miúdos eventos aberrantes se conectam a outros muito maiores numa escala continental. Ações egotistas, sem negociação.

O ataque trumpista ao Brasil é demencial. Os negociadores, diplomatas e empresários, atêm-se aos aspectos econômicos das tarifas anunciadas, embora cientes da improcedência do argumento de déficit comercial desfavorável aos EUA. Na realidade, trata-se de apelar ao senso comum. Sobra assim o motivo de estreiteza territorial, imperial, animalizado de um indivíduo que diz "faço porque posso". Como na fábula, o lobo fala ao cordeiro. É a essência do terrorismo, cujos atos são inegociáveis.

Mas, neste milênio, a suposta vítima pode se fortalecer, ao modo de minérios críticos, dentro da cadeia produtiva global. A receita estaria na formulação de numa Grande Política, que ponha fim à sua própria demonização por meio de um projeto nacional coerente, em frente ampla. É a garantia de voz forte em negociação, antídoto de canalhice, única escapatória do continente da demência.

sábado, 2 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Como enfrentar um predador

“Para ser livre é preciso ser temido”, disse Emmanuel Macron, criticando o acordo que a União Europeia assinou com Donald Trump.

O presidente francês errou. São vários os países livres que ninguém teme — e o mundo andaria melhor se fossem todos assim. A Costa Rica, por exemplo, aboliu o seu Exército em 1948. É um país democrático, estável, e não aterroriza ninguém. O mesmo se pode dizer de Canadá, Botswana, Namíbia, Cabo Verde, Timor Leste ou Nova Zelândia, nações independentes, com democracias sólidas, e nenhum histórico de ameaça contra quem quer que seja.

Mesmo errado, Macron acertou no essencial — não se negocia com alguém como Donald Trump baixando a cabeça. Ao ajoelhar-se diante do atual presidente americano, Ursula von der Leyen protagonizou um espetáculo deprimente, que envergonha os europeus, e todos aqueles que acreditam na democracia.

A Europa não assinou apenas um mau acordo econômico. Fez pior: assinou uma proclamação de irrelevância política e diplomática.

Nas últimas décadas, a União Europeia esforçou-se por construir uma imagem de sucesso econômico, de consciência moral da Humanidade, de campeã da civilização, da democracia e dos direitos humanos. Ao capitular diante de Donald Trump — um protoditador rude, abjecto, repugnante —, a Europa humilhou-se e apequenou-se. Levará tempo a reerguer-se.

O presidente Lula está certo ao enfrentar Trump. A reação americana — uma longa lista de isenções às taxas — confirma aquilo que me ensinou, há muitos anos, um guarda-florestal no Krueger Park, na África do Sul: não se foge de um leão. O melhor é enfrentá-lo de pé, olhando-o nos olhos, e erguendo os braços.

Resulta sempre? Não. Por vezes o leão é corajoso — ou está esfomeado (temam a bravura dos famintos). Fugir, porém, é que nunca resulta.

Lula continuaria estando certo, mesmo que o leão o devorasse. Por vezes, somos forçados a sentar-nos à mesa com pessoas desagradáveis — crápulas, déspotas, pedófilos, terroristas —, e negociar. Nesses casos, há que manter a cabeça erguida, preservando a dignidade. Também me parece importante cultivar a memória. No fim, por uma questão de higiene, convém lavar as mãos.

Segundo o jornalista Jack Nicas, que na quarta-feira passada assinou uma entrevista de Lula da Silva publicada no New York Times, “talvez não exista um líder mundial desafiando o presidente Trump com tanta veemência quanto Lula.”

Trump escolheu o presidente brasileiro como alvo. Como, ao contrário de Ursula von der Leyen, Lula não se dobrou, eis que, mal ou bem, o mundo o começa a perceber como um gigante. Tempos tumultuosos e incertos, como aquele que estamos atravessando, demandam heróis.

Inadvertidamente, o antagonista criou o protagonista.

A História — uma velha senhora caprichosa e insubmissa — julgará não apenas os monstros, mas também aqueles que os adularam, os que se dobraram diante deles, os que procuraram justificá-los. E saberá exalar quem lhes fez frente.

José Eduardo Agualusa