segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Hominus crudelis

A violência é condição da sobrevivência das espécies. Agora há uma espécie que acrescentou à violência a crueldade, e essa espécie é a nossa. O homem é o único animal cruel que de fato existe
José.Saramago

Uma mensagem aos Destruidores

A maldade pública entra na casa de cada homem, os portões do seu pátio não conseguem impedi-la de entrar, ela salta sobre o muro alto; deixe-o fugir para um canto do seu quarto, ela certamente o encontrará
Sólon

Você que procurou nos destruir
Falharam.

Você que nos ignorou
Falharam.

E você que zombou de nós
Estão sozinhos agora.

Nós nos lembraremos e escreveremos
Onde você procurou esquecer e apagar.

Nós criaremos e criaremos novamente
Onde você destruiu.

E não faremos
Seu roubo é sagrado.

E não reconheceremos
Seu anular,
E sua ruína,
Sua fabricação,
E sua usurpação.

Nós viramos as costas para você
Perverso inverso da história.

Nós viramos as costas para você
Então, para testemunhar e lembrar:

De Deir Yassin a Sabra e Shatila ,
De Nazaré e Jenin
Para Haifa , Jaffa e 'Akka ,

De Sheikh Jarrah a Beit Hanina,
E de Gaza a Khan Younis
E Rafah,

Não perdoaremos o imperdoável ,
E não esqueceremos.

Nós olhamos para o abismo
Do seu monstruoso
Fósforo branco
E vimos seu rosto.

Mas você perdeu o momento
Você atacou.

E suas paredes
Não irá protegê-lo
Da sua própria
Consciência.

E suas paredes
Não irá protegê-lo
Da sua própria
História.

E o que você roubou
Nós retomaremos,

Pensamento por pensamento,
Centímetro por centímetro,
Até sua maldição sangrenta
Torna-se nossa benção.

O genocídio é seu verdadeiro direito de nascença,
E seu verdadeiro legado.
A Palestina é nossa.

Seus são os canhões e os tanques,
Seus são os tratores e as bombas.
E a sua é a ladainha de mentiras e contos fantásticos.

Mas a nossa é a cultura ,
E o tempo,
E o espírito,
E a vontade.

Não ao roubo de terras,
Não ao roubo cultural,
Não à colonização,
Não à ocupação.

O escravo sempre diz “sim”.

Até que sejamos livres,
Você é um usurpador,
E assim você irá

Seja sempre.

O fim das ideologias ou o desgraçado mundo novo

Do grego “idea” (conceito) conjugado com “lógos” (estudo) à laia de sufixo, a palavra ideologia significa, etimologicamente, o estudo das ideias.

Para tanto ainda chega o meu conhecimento de grego, não estudado, mas adquirido nas leituras duma vida, sobretudo naquelas em que balizei (eu e grande parte da minha geração) as minhas ideias políticas.


Mais do que meras palavras, termos como liberalismo, socialismo, comunismo, fascismo foram, desde o século XIX, correntes de pensamento que moldaram revoluções, criaram e fizeram cair regimes, promoveram movimentos em todo o mundo.

Eram estes “mapas” políticos que organizavam a vida das pessoas e a sociedade com base em ideias claras sobre justiça, liberdade, igualdade, economia ou progresso.

Hoje em dia é como se vivêssemos numa era pós-política, sem grandes projetos, grandes visões de futuro ficando-nos apenas pela gestão do quotidiano e dos ciclos eleitorais, pelos números de votos e pelas promessas vagas. Assistimos a verdadeiros números de contorcionismo em tudo dependentes dum jogo de poder pelo poder, espezinhando valores fundamentais com o único fim de conseguir captar um eleitorado a cada dia menos esclarecido e mais à mercê dos discursos simplistas e vazios.

No entanto e ao contrário do que parece, as ideologias não desapareceram — apenas mudaram de forma. Perderam a estrutura clara dos velhos tempos e dispersaram-se em causas, emoções e identidades. Deixaram de comunicar para o “todo” para se centrarem em nichos de mercado político deixando órfã a maioria.

Uma maioria que, humanamente, tem necessidade de acreditar em algo, de ter respostas, de procurar sentido. E é exatamente aí que começa o problema.

Neste “desgraçado mundo novo”, o vazio deixado pelas antigas ideologias está a ser ocupado por discursos fáceis, emocionais, vazios e perigosamente sedutores. O medo, a frustração, a desilusão o sentimento de abandono que assolou essa maioria, alimentam populismos que prometem proteger, restaurar e até mesmo vingar. Discursos que prometem tudo — menos pensar. Em vez de ideias, temos slogans. Em vez de diálogo, temos gritos. Em vez de pontes, muros.

O que assusta realmente é que muitos, cansados de não serem ouvidos, de não terem uma explicação, de se sentirem esquecidos, aceitam. Aceitam o inimigo como explicação e o ódio como resposta. Dizia alguém num desses livros de ideologia lidos há muito que os monstros nascem, não da força, mas do silêncio.

Este é o retrato de um mundo novo de promessas vazias, discursos agressivos e identidades simplificadas, onde o medo faz mais barulho.

Enquanto as ideologias se fragmentam e os valores se esvaem, o vazio ideológico é tapado por políticas punitivas e radicalizadas.

Abalroam-se valores e princípios, em troca de votos e de vitórias eleitorais. A política já não se faz para as pessoas e muito menos para construir respostas sociais . Neste momento, a politica tem um único objetivo: vencer o adversário!

Não há debates ideológicos, não existem contrapontos políticos. As alianças são feitas apenas e só baseadas na matemática eleitoral.

É caso para dizer “ que se lixem as pessoas”.

Mas ainda há espaço para mudar o rumo. Precisamos de política com coragem: coragem para pensar em coletivo, para propor, para incluir em vez de excluir. A coragem de voltar a acreditar que a política pode ser mais do que ruído — pode ser caminho.

O conservadorismo se isolará se ficar refém dos Bolsonaros

A recente imposição de tarifas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros, motivada por pressões políticas da família Bolsonaro, expõe a dependência do conservadorismo brasileiro em relação à família do ex-presidente. Os conservadores realmente esperam que a medida que pune trabalhadores e empresários brasileiros seja colocada na conta de Lula e Alexandre de Moraes, e não na de Eduardo Bolsonaro? Eles conseguem explicar por que os trabalhadores da indústria da carne em Mato Grosso ou os trabalhadores da indústria de calçados do Rio Grande do Sul deveriam pagar, com seus empregos, a conta das disputas entre o Supremo e os bolsonaristas? E qual a estratégia por trás da medida? Eles esperam que o Supremo se reoriente por medo de sanções comerciais — ou mesmo da Lei Magnitsky?


Nada disso faz o menor sentido. A armadilha em que se meteram se deve ao indisputado domínio da família Bolsonaro sobre todo o campo conservador. Sem perspectivas concretas de livrar o pai da cadeia, Eduardo Bolsonaro viajou para os Estados Unidos com o projeto de estimular sanções americanas aos ministros do Supremo, na esperança vã de que a ameaça pudesse moderar as sentenças nos julgamentos dos atos antidemocráticos. Só que Trump recebeu a demanda e a dissolveu na sua estratégia de guerra tarifária. Eduardo Bolsonaro, tomado de vaidade e sentindo-se influente sobre a Casa Branca, tomou a medida desproporcional de Trump como se fosse sua, implicando todo o movimento conservador na sua trapalhada.

O que era uma punição direcionada a Moraes e outros ministros virou uma punição a milhares de brasileiros. Os governadores da direita tentaram escapar da armadilha, buscando dizer que a postura antiamericana de Lula teria provocado a medida e que a solução seria a mesa de negociação comercial. Trump, no entanto, deixou claro que seu problema é com o Supremo, que a disputa não é de natureza comercial e que age a pedido dos bolsonaristas nos Estados Unidos.

Trump está tratando o Brasil como trata as universidades americanas. No caso delas, usou seu poder econômico como financiador das pesquisas científicas para lhes arrancar o compromisso de fechar ou enquadrar departamentos de estudos árabes, revisar as políticas de diversidade e perseguir estudantes pró-Palestina, sobretudo os estrangeiros.

No caso do Brasil, está usando tarifas para conseguir que o Supremo inocente Bolsonaro, suspenda a regulamentação judicial das mídias sociais e cesse a suspensão de contas de bolsonaristas na internet. A exigência é descabida e, na falta de termo melhor, imperialista. O Brasil não é frágil como um pequeno país centro-americano, nem hiperdependente dos Estados Unidos, como o México. Além do mais, o Supremo é um Poder independente do Poder Executivo. Só mesmo o delírio de grandeza de Eduardo Bolsonaro poderia esperar que tarifas contra o setor produtivo e punições bancárias a Moraes pudessem coagir o Supremo.

Não apenas as medidas não surtirão o efeito desejado, como terão o efeito contrário. A postura de Trump unirá ainda mais o Supremo e isolará ou enquadrará Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux. E tornará muito mais difícil reorientar a Corte. A lista de problemas por lá não é pequena. Começa com os inquéritos abertos de ofício — sem objeto definido, sem prazo para acabar — e com a confusão de papéis entre vítima, investigador e juiz. Depois, vem uma sequência de medidas equivocadas e desproporcionais: a cassação de contas em mídias sociais, estabelecendo de fato censura prévia, sentenças duríssimas contra os bagrinhos do 8 de Janeiro e os erros que sustentaram a prisão de Filipe Martins.

A persistência dos conservadores foi capaz de trazer essas questões à luz, mas sua incapacidade de dissociar a exposição dos problemas do STF da vontade de livrar Bolsonaro da cadeia compromete o diagnóstico. Os bolsonaristas não conseguem condenar o golpismo de 2022/2023 da mesma maneira e pelos mesmos motivos que os lulistas não conseguem reconhecer a corrupção na Petrobras. Quem considera a mão pesada de Moraes uma ameaça à democracia não deveria achar inócuo decretar estado de sítio sobre o TSE ou um general planejar assassinar autoridades.

Não conseguiremos consertar os problemas do Supremo sem também condenar o golpismo. E nada disso será conseguido com o apoio de Trump. O conservadorismo se manterá isolado enquanto permanecer refém das estratégias personalistas da família Bolsonaro.

O lobo

Em 2023, Adam Conover afirmou: “Não pretendíamos defender-nos contra a tecnologia, mas sim contra os humanos no outro lado da mesa, que tentam lixar-nos todos os dias.” A frase foi proferida após ser finalmente alcançado um acordo entre os argumentistas e os representantes dos estúdios de Hollywood, na sequência de uma greve que parou a produção de séries e filmes. O tema central da disputa era a utilização sem regras do ChatGPT e de ferramentas semelhantes pelos estúdios. Conover parafraseou Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem.” Ou seja, sem leis, o homem vive em permanente conflito, com um desejo de poder para garantir a sua própria sobrevivência. No “contrato social”, os cidadãos abdicam de parte da sua liberdade, conferindo ao Estado o poder de legislar e a autoridade para fazer respeitar as leis.


Mas e se os cidadãos já não confiarem no “contrato social” das sociedades modernas? Se uma parte crescente da população entender que o Estado não zela pelos seus interesses?

A crise das sociedades democráticas ocidentais é exacerbada pelo algoritmo, que fomenta a polarização e impede o diálogo. Mas por que motivo discursos extremistas, violentos e desumanos apelam a tantos?

O filosofo Michael Sandel, no livro A Tirania do Mérito, procura encontrar a resposta. Embora a sua análise se foque na sociedade americana, o seu pensamento é relevante para as sociedades ocidentais em geral e, sobretudo, para os desafios que ora se colocam com o advento da Inteligência Artificial.

A promessa de que a riqueza gerada pela globalização permitiria, a todos, maior conforto económico não se cumpriu. Em quatro décadas, a China elevou da pobreza 800 milhões de pessoas, mas nos EUA a riqueza gerada com a globalização foi capturada por apenas 20% da população. Os salários mantiveram-se estagnados e, em 2020, o Departamento de Estatísticas dos EUA divulgou um estudo demonstrando que a desigualdade atingira o nível mais elevado em cinco décadas. À desigualdade social soma-se a arrogância dos vencedores. O discurso dominante é de que quem venceu o fez pelo seu mérito exclusivo. Que tudo deve à sua inteligência e ao seu esforço e, como tal, os seus rendimentos não só são merecidos, mas justos. No entanto, tal implica também afirmar que os outros falharam por sua única e exclusiva responsabilidade, porque não estudaram, não trabalharam. Às agruras das dificuldades económicas alia-se a humilhação. Naturalmente, este é um discurso perverso, não nascemos todos com os mesmos dons, com famílias idênticas e oportunidades iguais. Mas não é somente o facto de, na corrida da vida, não partirmos todos da mesma linha e de no percurso termos apoios distintos, é também o facto de que a sociedade, em cada momento, valoriza talentos muito diferentes. Finalmente, e provavelmente mais relevante para a polarização atual, a sociedade ocidental faz coincidir o contributo de cada um para o bem comum com o valor da remuneração auferida, numa perversão social que ficou a nu na pandemia de Covid-19. Os denominados “trabalhadores essenciais” eram aqueles que desempenham as funções mais mal pagas – quem recolhe o lixo, colhe a fruta, cuida de idosos…

O trabalho não é apenas um meio para a obtenção de um rendimento. Não somos indiferentes à estima e ao respeito que geramos. Numa sociedade desigual que desvaloriza o contributo de tantos, começa-se a adivinhar porque o discurso contra os “estrangeiros” – que afirmam vir “usurpar” trabalhos e rendimentos – encontra ouvintes, e porque se afirmam contra “elites”, “privilegiados”, “políticos do sistema”.

Se este foi o status que resultou da globalização, como será quando o “estrangeiro” for um exército de agentes artificiais, que nunca dormem e tudo sabem? Quando a riqueza se concentrar numa clique ainda mais reduzida de donos de Big Tech e o trabalho cognitivo diminuir exponencialmente? Devemos a nós e às próximas gerações um debate sobre que sociedade e contrato social desejamos. Tal envolve refletir em alternativas à tributação do trabalho, capital e heranças. Reforçar a discussão destes temas na escola, na disciplina de Filosofia ou, para os mais jovens, Ética, e regular a introdução de sistemas de Inteligência Artificial na economia.

O continente da demência

Um incidente na Câmara dos Deputados em Brasília põe em dúvida o sentido do conhecido aforisma "o patriotismo é o último refúgio do canalha". É que, apesar da indignação coletiva contra o ataque desvairado de Trump ao Brasil, um pequeno grupo alçou na Câmara dos Deputados enorme bandeira em homenagem ao agressor. O autor da frase, Samuel Johnson, literato inglês do século 18, queria dizer que o "scoundrel" (canalha), sem justificativa moral para suas ações, recorre malandramente ao motivo fácil do patriotismo.


O ato da camarilha esvazia o sentido da frase: patriotismo não pode ser último refúgio de quem implicitamente o rejeita em sua ação. Durou meia hora a exposição da sabujice lesa-pátria, até que se tomasse a providência de retirá-la. Tarde demais. O fato chegou às redes, o país inteirou-se da vilania impatriótica, isto é, da exaltação a uma ameaça estrangeira de absurda intervenção no Judiciário brasileiro, que acabou se concretizando.

Traição ao sentimento nacional envergonha o bom senso. As lideranças do Congresso começam a cogitar de alguma seriedade interna. Mas para o grande público fica a interrogação de como são possíveis comportamentos tão aberrantes à liturgia do cargo, mesmo em se considerando o estado civicamente regressivo da composição parlamentar.

Em princípio, seria insuficiente a exclusiva atribuição do fenômeno à ultradireita, pois nem todos os extremistas ousaram expor-se dessa maneira. Pode-se pensar no arroubo de uma turma juvenilizada em estilo cafajeste. Jovens costumam mostrar-se mais permissivos em companhia de pares. É a lógica das gangues, das torcidas de futebol violentas.

Mas se trata de políticos eleitos. Ocorre então a hipótese de uma demência coletiva manifestada como síndrome de padrões disfuncionais de cognição e comportamento. Não figura em manuais de psiquiatria. É um continente desconhecido, para além de motivações apenas individualizadas, em que se age sem fundamento, por puro efeito autodemonstrativo. No período Bolsonaro, deu-se atenção pitoresca a fenômenos dessa natureza nas ruas e nas rodovias, quando pequenas aglomerações marchavam sem rumo certo ou rezavam para pneu de caminhão. Voltados para as macrocausas político-econômicas, os observadores sociais deixaram escapar, por insignificante, a obtusa singularidade desses comportamentos. Neles se divisa agora uma dimensão significativa, em que miúdos eventos aberrantes se conectam a outros muito maiores numa escala continental. Ações egotistas, sem negociação.

O ataque trumpista ao Brasil é demencial. Os negociadores, diplomatas e empresários, atêm-se aos aspectos econômicos das tarifas anunciadas, embora cientes da improcedência do argumento de déficit comercial desfavorável aos EUA. Na realidade, trata-se de apelar ao senso comum. Sobra assim o motivo de estreiteza territorial, imperial, animalizado de um indivíduo que diz "faço porque posso". Como na fábula, o lobo fala ao cordeiro. É a essência do terrorismo, cujos atos são inegociáveis.

Mas, neste milênio, a suposta vítima pode se fortalecer, ao modo de minérios críticos, dentro da cadeia produtiva global. A receita estaria na formulação de numa Grande Política, que ponha fim à sua própria demonização por meio de um projeto nacional coerente, em frente ampla. É a garantia de voz forte em negociação, antídoto de canalhice, única escapatória do continente da demência.

sábado, 2 de agosto de 2025

Pensamento do Dia

 


Como enfrentar um predador

“Para ser livre é preciso ser temido”, disse Emmanuel Macron, criticando o acordo que a União Europeia assinou com Donald Trump.

O presidente francês errou. São vários os países livres que ninguém teme — e o mundo andaria melhor se fossem todos assim. A Costa Rica, por exemplo, aboliu o seu Exército em 1948. É um país democrático, estável, e não aterroriza ninguém. O mesmo se pode dizer de Canadá, Botswana, Namíbia, Cabo Verde, Timor Leste ou Nova Zelândia, nações independentes, com democracias sólidas, e nenhum histórico de ameaça contra quem quer que seja.

Mesmo errado, Macron acertou no essencial — não se negocia com alguém como Donald Trump baixando a cabeça. Ao ajoelhar-se diante do atual presidente americano, Ursula von der Leyen protagonizou um espetáculo deprimente, que envergonha os europeus, e todos aqueles que acreditam na democracia.

A Europa não assinou apenas um mau acordo econômico. Fez pior: assinou uma proclamação de irrelevância política e diplomática.

Nas últimas décadas, a União Europeia esforçou-se por construir uma imagem de sucesso econômico, de consciência moral da Humanidade, de campeã da civilização, da democracia e dos direitos humanos. Ao capitular diante de Donald Trump — um protoditador rude, abjecto, repugnante —, a Europa humilhou-se e apequenou-se. Levará tempo a reerguer-se.

O presidente Lula está certo ao enfrentar Trump. A reação americana — uma longa lista de isenções às taxas — confirma aquilo que me ensinou, há muitos anos, um guarda-florestal no Krueger Park, na África do Sul: não se foge de um leão. O melhor é enfrentá-lo de pé, olhando-o nos olhos, e erguendo os braços.

Resulta sempre? Não. Por vezes o leão é corajoso — ou está esfomeado (temam a bravura dos famintos). Fugir, porém, é que nunca resulta.

Lula continuaria estando certo, mesmo que o leão o devorasse. Por vezes, somos forçados a sentar-nos à mesa com pessoas desagradáveis — crápulas, déspotas, pedófilos, terroristas —, e negociar. Nesses casos, há que manter a cabeça erguida, preservando a dignidade. Também me parece importante cultivar a memória. No fim, por uma questão de higiene, convém lavar as mãos.

Segundo o jornalista Jack Nicas, que na quarta-feira passada assinou uma entrevista de Lula da Silva publicada no New York Times, “talvez não exista um líder mundial desafiando o presidente Trump com tanta veemência quanto Lula.”

Trump escolheu o presidente brasileiro como alvo. Como, ao contrário de Ursula von der Leyen, Lula não se dobrou, eis que, mal ou bem, o mundo o começa a perceber como um gigante. Tempos tumultuosos e incertos, como aquele que estamos atravessando, demandam heróis.

Inadvertidamente, o antagonista criou o protagonista.

A História — uma velha senhora caprichosa e insubmissa — julgará não apenas os monstros, mas também aqueles que os adularam, os que se dobraram diante deles, os que procuraram justificá-los. E saberá exalar quem lhes fez frente.

José Eduardo Agualusa

Que a força esteja connosco

A sala transformava-se no espaço sideral. As peças de legos eram armas de raios laser ou comandos de naves intergaláticas, enquanto ao fundo, na televisão, passavam as aventuras de Mr. Spock. Crescer com um pai obcecado por ficção científica fez-me passar horas a ver os episódios de Star Trek e assistir, uma e outra vez, aos filmes das cassetes de VHS com a saga da Guerra das Estrelas. A ideia de aventura, de explorar mundos novos, os fatos excêntricos, as lutas entre o bem e o mal eram estimulantes e divertidos. Só comecei a desinteressar-me pela ficção científica quando dei por mim a tropeçar sobretudo em conteúdos distópicos, projeções de um mundo devastado por guerras, destruído por uma civilização decadente, onde os humanos são seres em fuga, acossados pela crise ambiental, por máquinas inteligentes que querem dominá-los ou por outros povos que os oprimem.

Quando eu ainda sonhava com aventuras espaciais, não sei se alguma vez me apercebi de como o autor da série Star Trek usava a possibilidade de sair da Terra para enviar mensagens políticas, que passavam despercebidas à estação que a emitia. “Ao criar um mundo novo com regras novas, eu podia falar de sexo, religião, Vietname e política.” A tripulação de Spock preocupava-se com a paz, combatia o autoritarismo e o imperialismo e punha em causa o racismo, o sexismo e o papel da tecnologia. “Se falasse de um povo roxo num planeta longínquo, a estação não percebia do que se estava a falar. Estavam mais preocupados com os decotes. Chegavam mesmo a enviar um censor para o estúdio para medir os decotes das mulheres e garantir que não se via demasiado os seios”, disse uma vez o criador da Star Trek, Gene Roddenberry.

Mr. Spock vivia no séc. XXIII. Nós estamos no séc. XXI. Quando eu era criança, 2001 ainda era uma data fantástica projetada num futuro longínquo de uma odisseia no espaço. Agora, é um passado já bastante distante. E o presente começa a parecer-se demasiado com o tipo de filmes que me fizeram desinteressar-me pela ficção científica.


Se em 1966 Gene Roddenberry conseguia fintar a NBC, enchendo de conteúdos políticos uma aparentemente inofensiva saga espacial, em 2025 o Presidente dos Estados Unidos fez do Elmo seu alvo político. O Elmo é um bonequinho vermelho e felpudo que, ao lado do Monstro das Bolachas, me ensinou sobre coisas como partilhar. Donald Trump acredita que isso é o tipo de conteúdos “esquerdalhos” que ajudam a endoutrinar criancinhas no comunismo e a contagiá-las com coisas tão woke como respeitar quem é diferente ou ajudar os mais frágeis.

Numa cruzada contra a PBS e a NPR – as redes de serviço público americanas –, Donald Trump conseguiu fazer passar no Congresso um corte de 1,1 mil milhões de dólares, que constitui um rude golpe em estações que já enfrentam os seus próprios problemas e que, assim, ficam com menos disponibilidade financeira para continuar a produzir o tipo de programas educativos que ajudam crianças em idade pré-escolar há 50 anos. Para se ter uma ideia, em março, depois de a Warner Brothers ter anunciado que deixaria de pagar por novos episódios da Rua Sésamo, a produtora Sesame Workshop teve de despedir 20% dos seus trabalhadores, incluindo criadores de conteúdos.

“This is big”, anunciou Donald Trump, na rede social Truth Social, com uma alegria provocada pela destruição que faz lembrar Donald Grump, o monstro com um tufo de cabelo laranja que apareceu em 2005 num caixote do lixo da Rua Sésamo, com um projeto para aí construir uma Grump Tower, arrasando as casas do Egas, do Becas e do Poupas. Já agora: há quem ache que o Egas e o Becas são um casal e, por isso, conteúdo woke, claro.

A resposta à agressividade de Trump foi uma imagem do Poupas Amarelo e do Sr. Snuffleupagus – um amoroso e peludo mamute castanho – com a frase: “Orgulhosos por sermos vossos vizinhos”, publicada na rede social X. Elon Musk disse que a empatia “é um vírus”. E eu gostava muito de acreditar que sim, não pelas mesmas razões, mas porque gostava que esse sentimento se espalhasse pelo mundo. Pelo menos, a resposta da Rua Sésamo tornou-se viral.

Muitos dos conteúdos que marcaram a minha infância foram pensados ainda no rescaldo de algo que aconteceu muitos anos antes: a II Guerra Mundial e num contexto de Guerra Fria. Nesse mundo, havia poucos cinzentos. Era quase tudo a preto e branco: os bons e os maus. Os maus eram feios e tentavam dominar o mundo, os bons eram bonitos e generosos e ganhavam sempre.

Nesse mundo, ser um trafulha não era uma qualidade. Explorar os outros haveria sempre de merecer castigo. E toda a crueldade acabava mal. Era ingénuo? Era. Dava-nos uma ideia limitada e maniqueísta do mundo? Dava. Mas essa ilusão, que também tinha um lado propagandístico, ajudou a construir nas sociedades ocidentais um certo sentido de superioridade moral e de excecionalismo. Foi muito graças a essas ideias que nos convencemos de que a democracia ocidental era uma espécie de produto final perfeito da História.

Foi à boleia dessa ideia que se fizeram muitas guerras e muitas mortes, com a opinião pública ocidental a acreditar que estava “do lado certo da História”. Nós éramos os bons. O que se está a passar agora é uma frecha nesse sistema de crenças. Cada vez mais de nós se confrontam com a mentira que isso representa quando veem as imagens de crianças palestinianas famélicas mortas a tiro à espera de comida, quando percebem a facilidade com que são oprimidas pessoas que se manifestam pela paz, quando assistem à perseguição impune de imigrantes e à forma como os Estados os criminalizam, prendendo em centros de detenção trabalhadores cujo crime era lutar por uma vida melhor.

Perante tudo isto, há quem sinta vontade de fugir da realidade. “Beam me up, Scotty.” Há quem assegure que deixou de ver as notícias e foge dos jornais, para manter a sanidade mental. Para esses, tenho uma má notícia: a ideia de que se pode fugir à realidade é uma ilusão. E uma ilusão perigosa, ainda por cima. Por muito que entenda a vontade de experimentar uma anestesiante alienação, o mundo é o que é e, mais cedo ou mais tarde, perceberemos que estamos dentro dele.

Quando eu era criança, os cardassianos, um povo autoritário que tentava expandir o seu império, foram vencidos pelo Mr. Spock. Eu tenho saudades dos tempos em que os vilões acabavam mal. Mas sei que não posso esperar pela tripulação da Enterprise para me salvar e que as minhas peças de legos já não emitem raios laser mortíferos. Ainda assim, acho que aquelas tardes todas passadas a ver os heróis salvar o Universo não foram em vão. Deram-me, pelo menos, a ideia de que é sempre possível lutar. Que a Força esteja connosco.

Barreira nos trópicos

Viver em uma democracia liberal tornou-se um privilégio para poucos. Um levantamento realizado pela Universidade de ­Gotemburgo, na Suécia, constatou que a onda autoritária ganha força e transforma o cenário geopolítico internacional. No total, existem 88 democracias, incluindo as liberais e as eleitorais, aquelas nas quais existe o direito ao voto e eleições rotineiras ocorrem, mas sem que esse direito resulte numa transformação democrática mais ampla da sociedade, a garantia do Estado de Direito e de uma Justiça independente.

Em 2024, aponta o estudo, 91 países eram classificados como autocracias, desde os regimes mais fechados até aqueles nos quais existem eleições de fachada, marcadas por constantes manipulações e fraudes.


Os dados do instituto, referência no monitoramento da experiência democrática no mundo, trazem um alerta dilacerante. “As democracias liberais tornaram-se o tipo de regime menos comum no mundo, um total de 29 em 2024”, anotam os pesquisadores. Atualmente, abrigam menos de 12% da população mundial, cerca de 900 milhões de indivíduos. Trata-se do menor índice em 50 anos. O relatório prossegue: “2024 marca a primeira vez, desde 2002, em que há mais autocracias do que democracias no mundo. Esse é um recado contundente de quão longe foi o declínio democrático”.

A transformação do cenário político não é nova. A partir de 2009, quando as lideranças políticas decidiram salvar o capitalismo e o sistema financeiro em detrimento de direitos sociais, o que se viu foi um enfraquecimento das bases democráticas. “De fato, a última vez que havia apenas 29 democracias liberais no mundo foi em 1990, no fim da Guerra Fria”, alerta o estudo. Segundo os estudiosos, o aumento gradual do número de democracias eleitorais reflete o fato de que os países que costumavam ser democracias liberais sofreram um retrocesso e perderam algumas de ­suas características. A lista inclui ­Botsuana, ­Chipre, Grécia, Israel e Eslovênia.

O mais assustador é constatar que quase 3 em cada 4 seres humanos, 72% do planeta, vivem atualmente em autocracias. Esse é o índice mais alto desde 1978. Em pleno século XXI, a realidade é que as autocracias são maioria no mundo.

Ao mesmo tempo que as democracias perdem espaço, há uma tendência identificada pelos especialistas, a radicalização das ditaduras. “Os países já autoritários estão se tornando ainda mais autocráticos. O número de autocracias fechadas vem aumentando desde 2019, de 22 para 35.”

O mundo encontra-se, portanto, em uma encruzilhada e o futuro da democracia está no centro. Acabo de concluir meu período de um ano nos EUA e retornei à Europa. Em agosto de 2024, cheguei enquanto a terra tremia, num país que vive uma verdadeira encruzilhada entre ventos gelados do autoritarismo e o reconhecimento implícito do fracasso de um sistema em dar respostas a todos. Nas urnas, em novembro passado, estava à busca pela alma de um país em crise existencial. Um país que, pela primeira vez em 80 anos, se deparava com um questionamento de sua hegemonia, enquanto se dava conta de que a pobreza em suas periferias persiste, corrói e estabelece um clima de desilusão.

Constatei como o sistema norte-americano estava quebrado. Como uma sátira distópica, comícios flertavam com ideias supremacistas e eram emoldurados com declarações que, em outros momentos, entrariam na classificação do fascismo. Em encontros com grupos nas periferias pobres ou nos comícios, me deparei com eleitores repletos de indignação, ansiosos e sem destino. Vi corações partidos e promessas não cumpridas, esperanças frustradas e sonhos adiados.

Com Donald Trump no poder, não existe dúvida de que a superpotência caminha para a mesma direção autoritária imposta por grupos de extrema-direita. O risco é, porém, que esse não seja apenas um fenômeno limitado às fronteiras dos EUA. E as forças progressistas no Brasil e na América Latina sabem disso. Ao fazer uma ofensiva política para a desestabilização da economia brasileira, Trump busca influenciar diretamente o destino político do País. No Palácio do Planalto e no Itamaraty, a constatação é de que essa não será uma crise de curto prazo ou que um acerto comercial baste para encerrar a tensão.

No governo, prepara-se para uma tensão que deve marcar o restante do governo Lula e que redefine a política externa brasileira. Entre os governos estrangeiros, os serviços de inteligência e diplomacias não escondem a instalação no País­ de um sismógrafo para medir a capacidade de uma democracia de resistir ao terremoto autoritário. “Os brasileiros poderão ser o exemplo ao mundo sobre como sobrevive uma democracia”, afirmou num tom solene um experiente diplomata francês. Ou a última lágrima.

O futuro da soberania brasileira

O Brasil consolidou dois tipos de soberania desde a redemocratização. O primeiro diz respeito à autonomia do país frente às outras nações. Embora tenha origens na Independência, esse processo só se firmou com o final da Guerra Fria, quando o nosso lugar soberano ficou mais claro e destacado no cenário internacional.

O outro sentido da soberania é a sua faceta popular: a raiz do poder do Estado nacional está na sociedade e nas instituições que ela própria criou, por meio da Constituição e de seus representantes. Foi o que a democracia nos legou de forma inédita. A proposta de nova ordem mundial feita por Trump coloca em jogo essas duas enormes conquistas.

O tarifaço chegou, mas com muitas exceções que reduzem bem o impacto da medida. Mas muitas coisas poderão ser feitas ainda por Trump em temas estratégicos, de modo que a soberania brasileira, em seu duplo sentido, estará em jogo pelo menos até as eleições de 2026.

Esse cenário pode ser de menor impacto se a popularidade de Trump e sua estratégia internacional fracassar nos próximos meses, culminando com a derrota na disputa de meio de mandato, com a perda da maioria na Câmara e/ou no Senado. Porém, o contrário pode acontecer: o trumpismo forte por quatro anos desestabilizará por completo a ordem internacional.

O problema da política internacional de Trump, na verdade, vai muito além do Brasil. Ele está colocando em jogo a capacidade soberana de os países ou blocos regionais, como a União Europeia, defenderem suas posições.

Claro que já havia assimetrias entre as nações antes do trumpismo, contudo tais desigualdades tinham sido minoradas pelas instituições multilaterais construídas no pós-Segunda Guerra e, mais recentemente, pela conformação mais multipolar do poder mundial, o que estava tornando cada vez mais difícil que o interesse de um único país hegemônico predominasse sobre os demais.

Foi esse novo contexto que produziu vários modelos cooperativos de relacionamento do mundo, desde a defesa de temas relativos à humanidade, como os direitos humanos, o meio ambiente e a educação, como parcerias regionais (ao estilo da União Europeia) ou de países semelhantes, como os Brics

Trump luta contra esse mundo com muitas nações soberanas, dispostas a cooperar entre si em torno da comunhão de interesses ou de questões que valham para toda a humanidade. Não que antes a estrutura internacional fosse completamente harmônica e tivesse acabado com as assimetrias, como bem sabem as guerras na África ou a própria invasão da Ucrânia.

Mas, mesmo com defeitos, a ordem pós-Guerra Fria gerou um maior pluralismo na distribuição do poder e a busca de um sentido normativo mais amplo para o mundo, como foi o esforço do Acordo de Paris, em 2015, e poderia ser agora a nova COP de Belém, no final desse ano. Só que o trumpismo torna muito difícil que os EUA entoem novamente o “We are the world, we are the children”, criação belíssima de Michael Jackson e Lionel Richie.

O objetivo da guerra comercial de Trump vai além da economia. O jogo das tarifas serve para mostrar quem manda no mundo. O “Make America Great Again” não vale só para o âmbito interno. Seu sentido maior é criar uma hegemonia americana única e sem nenhum contrapeso. Um império de fato, inclusive capaz de interferir na política no interior dos países.

É aqui que se atinge o outro sentido da soberania: o trumpismo comanda um grupo de atuação internacional contra a democracia. Trata-se do eixo do autoritarismo de extrema direita, com força crescente em várias partes do mundo, e que será ainda mais forte quanto mais os Estados Unidos construírem uma hegemonia capaz de interferir na dinâmica interna dos países.

Obviamente que a capacidade de intervenção varia segundo o desenvolvimento e o poderio das nações. Mesmo assim, se Trump prolongar seu poder ao longo do tempo, sobrarão muitos poucos com possibilidade de defender sua dupla soberania.

O Brasil precisa compreender esse sentido maior do fenômeno trumpista e qual é seu lugar específico neste projeto de nova ordem mundial. Há três dimensões que podem nos afetar. A primeira é a relação com a China e, secundariamente, os Brics.

Os Estados Unidos sob Trump vão tentar fazer de tudo para evitar uma aliança muito forte entre os governos brasileiro e chinês. Ter o maior e mais importante país da América Latina - e o segundo mais relevante em toda a América - ligado fortemente ao maior inimigo da hegemonia americana é algo que o trumpismo não admite e usará várias formas de poder contra essa parceria.

No fundo, Trump quer que o Brasil faça uma escolha entre os EUA e a China. Não está se pedindo, por ora, o cancelamento de todo o intercâmbio comercial, algo que seria inviável nas atuais circunstâncias. Mas o trumpismo quer que se defina qual é o aliado preferencial em termos geopolíticos. Para os interesses brasileiros de longo prazo, não é desejável ter “relações carnais” com nenhuma potência, sendo preferível jogar cooperativamente em todas as casas do mapa-múndi.

Por essa razão é preciso fazer o acordo com a União Europeia, continuar as parcerias com a América Latina e com os Brics, ampliar ainda mais relações políticas e econômicas com outras partes do mundo (como Japão, Austrália, Oriente Médio, África, entre outros), tudo isso mantendo vários canais de relacionamento com os Estados Unidos. Esse projeto multipolar, no entanto, depende da capacidade de atuar interna e externamente de forma soberana.

A segunda dimensão diz respeito às características brasileiras que podem potencializar o poder e a prosperidade dos Estados Unidos. É a produção agropecuária de ponta do Brasil, sua energia e capacidade hídrica, seus minerais, os setores tecnológicos de ponta que dominamos (o Pix e os aviões da Embraer são bons casos aqui), uma população grande como mercado consumidor e seu poder regional.

Defender a soberania não é evitar parcerias e cooperação, fechando-se em relação ao mundo. O desenvolvimento envolve trocas entre os países, compartilhamento de conhecimento e complementaridade econômica, coisas que podem - como já são - ser realizadas com os EUA.

Soberania é autonomia para escolher como trocar e cooperar com outros países. No jogo trumpista de poder, só importa a vitória completa dos Estados Unidos. Basta ver suas propostas para a Ucrânia, trocando a dominação e a exploração das terras raras pelo fim da guerra com a Rússia, para a Faixa de Gaza, que ficaria em paz em troca de se transformar num resort da família Trump, e mesmo para o Canadá, que deveria se tornar o 51º estado dos EUA. Seguir essa lógica seria um desastre para o Brasil, que ganharia muito com parcerias internacionais, mas não com projetos neocolonialistas.

Aceitar que os Estados Unidos definam como nossas instituições democráticas devem funcionar é a terceira e mais terrível dimensão de perda de soberania. Quem defende isso é traidor da pátria e joga fora a maior conquista da sociedade brasileira: a capacidade de se autogovernar democraticamente.

Ao se aliar nesse projeto trumpista, o bolsonarismo destrói as bases de um Brasil soberano. Quem acompanhar essa traição ou não gritar contra os planos da família Bolsonaro não merece o respeito mínimo dos brasileiros que amam seu país e querem um futuro melhor e independente para seus filhos e netos.

Diante desse cenário, o risco à soberania brasileira vai além desta semana. Três coisas fundamentais deveriam ser feitas para evitar a perda de nossa independência nacional. A primeira é compreender melhor quais são os elementos essenciais para o nosso futuro e criar as condições institucionais para que tenhamos autonomia para nos desenvolver em parceria com o mundo. Definir bem nossas verdadeiras riquezas e como potencializá-las é urgente.

Além disso, é preciso que as forças políticas que não se perfilam entre os traidores da pátria se unam em defesa da dupla soberania de que necessitamos. De forma mais direta, as forças de centro e o lulismo podem ter suas divergências, apresentar até candidatos presidenciais separados, mas precisam estar juntos no essencial e lutar contra a aliança do bolsonarismo com a extrema direita internacional.

Por vezes, o centrismo tem medo do impacto de ir contra Bolsonaro, e, por vezes, o governismo petista não consegue sair de seu próprio casulo sectário. Agora chegou a hora de serem mais cooperativos para salvarem o Brasil, sem perder suas especificidades.

A soberania será mais profundamente defendida quando a sociedade, por meio de suas associações e parcerias entre diversos grupos, compreender o risco da nova ordem trumpista e defender de baixo para cima o país e suas instituições. O povo soberano é maior do que os partidos e os governos, mas precisa se organizar e se mobilizar contra quem quer enfraquecer nossa economia e nossa autonomia nacional. Agora chegou a hora de construir um verdadeiro patriotismo para enfrentar a grande onda internacional - com parceiros bolsonaristas locais - que pode nos levar de volta ao triste passado do colonialismo.
Fernando Abrucio

Terras Raras: a liga do BRICS

Porque as chamadas “Terras Raras” são tão demandadas assim atualmente? Primeiramente, elas não são tão raras, mas raras sim nos países do Ocidente, do poder político-militar e da ideologia dominante. Segundo, porque sem elas não há nada a se fazer no campo moderno da tecnologia industrial, ipsis litteris, em todos os países. Terceiro, porque estão concentradas na China, no Brasil, na Rússia e na Índia; assim, são “raras”; a nossa redenção.

As assim chamadas Terras Raras formam um grupo de 17 componentes químicos, maleáveis e de alta aplicação industrial e militar, como o ítrio, o lantânio, o escândio e outros mais. São indispensáveis para a fabricação dos super condutores, carros e equipamentos elétricos, celulares, TVs, equipamentos militares, etc., etc., etc.

Hoje, as “Terras Raras”, assim chamadas por expressarem o desejo distante dos países economicamente dominantes, estão 72% concentradas nos países do BRICS: China com 37% das reservas mundiais, Brasil 18%, Rússia 10%, e Índia 7%, nesta ordem; restando 28% para outros países, inclusive a Ucrânia, com 5%.

Se no século XIX as colônias eram o importante; no século XX, o petróleo; neste século XXI, as “Terras Raras” são o insumo determinante.


Economicamente, em 1960 o PIB dos Estados Unidos representava 40% do PIB mundial, mandavam no mundo. Hoje, os países cresceram, caindo o PIB dos Estados Unidos para 26% do PIB mundial. O BRICS, considerando seus 5 países mais importantes, a China, a Rússia, o Brasil, a Índia e a África do Sul, representam 27% do PIB mundial. A União Europeia 17%, a China 17%. Sabemos que o BRICS é mais caracterizado por ser uma Associação de Países, por falta de uma moeda para lastro, do que um Bloco Econômico, lastreado no dólar, com os Estados Unidos, a União Europeia e os países da OCDE. Mas os Estados Unidos, com 26% do PIB mundial, não mandam mais no mundo. Trump deixa o comércio global, como ocorrido nos últimos 80 anos, pós Segunda Guerra Mundial, e inicia o protecionismo na economia americana, através de tarifas, com novas negociações, e realinhamento político e econômico mundial.

Parodiando Marx, quando disse “Trabalhadores do mundo: uni-vos”!, o que não ocorreu; e a OPEP, que ocorreu; “Países das ‘Terras Raras’, esta é a vossa redenção!”. É difícil, mas quem sabe? O mundo anda por linhas tortas, e em algum nível a “Associação das Terras Raras” ocorrerá. Já que o mundo é segmentado.

O modelo de poder de condomínio

O golpe de Estado, segundo os indícios, planejado por Bolsonaro e em julgamento no STF pode não ter sido mera tentativa. Um conjunto extenso de ocorrências, de comportamentos e de reiterações de conduta continuados após o fim do governo Bolsonaro sugere que o golpe foi dado e instituiu um regime político paralelo, alienado, disseminado e ativo.

Utilizando as próprias normas da lei, os Bolsonaros mostraram competência familística para atrair, aliciar e sujeitar gente como os bolsonaristas. Os que têm a mesma ambição de agregar e dominar. A espantosamente larga massa de políticos com vontade de poder. Os que, como eles, não têm nenhum talento para a democracia.

Não só eles são carentes de talento para o exercício das funções próprias da política, que são impessoais funções de Estado. Também os que deles se diferenciam mais por fatores de circunstância. São políticos de segunda classe.


De certo modo, o falso grupo de centro da política brasileira é apenas uma facção política residual, funcionalmente bolsonarista ou funcionalmente qualquer coisa por omissão. Querem o poder, mas não querem as responsabilidades políticas e morais do poder, para o que é preciso ter a competência que não possuem, como ocorre com os bolsonaristas, na bajulação carneiril ao autoritarismo.

O bolsonarismo acha que inventou o golpe de Estado preventivo contra a possibilidade e a necessidade democrática da alternância de poder. É uma corrente ideológica antidemocrática, mas inventiva. Joga com os ardis ocultos na forma meramente democrática do Estado brasileiro.

Para seus militantes, governar é conspirar contra a democracia. Bolsonaro, desde o primeiro dia do seu mandato, demonstrou ter tacitamente renunciado a ele, em favor do porta-voz do neoliberalismo econômico antissocial.

Nos quatro anos do mandato, o Brasil foi dominado por fantasmas da política, por assombrações, como ocorrera durante a ditadura militar, no mandato do general Emílio Garrastazu Médici. Escolhido a propósito, quando a Presidência da República foi ocupada de fato pelo chamado “sistema”, o grupo secreto de militares da extrema direita.

Dobravam as oposições com prisões, tortura, desaparecimentos e assassinatos. Não raro, civis assistiam a sessões de tortura, como se fossem espetáculos de civismo.

Bolsonaro montou um esquema de acesso ao poder e de manutenção do poder em suas mãos, que permitisse manipular as formalidades legais do sistema eleitoral contra o espírito da lei, este baseado no pressuposto de alternância do poder. Ele conseguiu criar um esquema em que oficiais-generais batem continência para um capitão, que neles manda.

Enquanto milhares de brasileiros morriam sufocados por falta de vacinas contra covid, ao lado do então presidente da República, que dera a ordem para cancelar as vacinas do Butantã, o general ministro da Saúde explicou por que fora cancelado o respectivo protocolo de compra: “É simples assim: um manda e o outro obedece”. Ambos rindo e sem a máscara protetiva. O ministro era portador do vírus, já havia contraído covid.

O esquema montado por Bolsonaro e sua família é o de um modelo de condomínio familiar de poder. Aos poucos, as queixas e reclamações da família, suas contradições e fragilidades mostram o que é. Usa a trama do parentesco como um único e peculiar sujeito político.

Atualiza e militariza o modelo de política do “coronelismo” brasileiro contra o qual se alçaram os tenentes das revoluções tenentistas dos anos 1920. Que desestruturaram o Estado brasileiro. Que se associaram a Getúlio Vargas na Revolução de Outubro de 1930. Ficaram mais ou menos no poder até 1º de abril de 1964, quando finalmente deram o golpe e derrubaram o governo constitucional.

Bolsonaro é o filho irrelevante da ditadura. Não participou dela e não teve nela nenhuma expressão. Há uma certa infantilidade em seu empenho de continuar a ditadura derrubada pelo movimento político das Diretas Já e pela Constituição democrática de 1988.

O retrógrado modelo condominial de poder de Bolsonaro depende muito de uma coalização de atrasos sociais. Como a subversão das religiões evangélicas para delas fazer muletas do governo invisível. É o que mostra a massa que age como se o país não tivesse um novo governo a partir de 1º de janeiro de 2023. As igrejas protestantes e evangélicas foram subjugadas pela manipulação anticristã.

Bolsonaro, com sua religiosidade familiar de imitação, de um só versículo e não da Bíblia inteira, conseguiu virar os protestantes e evangélicos do avesso. Não são igrejas do púlpito, mas igrejas do gazofilácio. Não as do livre exame, mas de igrejas da falta de liberdade no exame da palavra de Deus.

José de Souza Martins

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

O jargão

Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber e “a que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.

Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

– Recolher a traquineta!

– Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

(O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a bombordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive, no primário.)

– Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.

– Cuidado com a sanfona de Abelardo!

(A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.)

– Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela, senão afundamos e o capitão é o primeiro a pular!

– Cortar o cabo de Eustaquio!

Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até eu ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada para enganar.

Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. Quem garantiria que o meu enfoque diferente – minha defesa de um overspread corretivo sobre a base de pagamentos, por exemplo – não era uma novidade que merecia estudo, já que ninguém parece mesmo saber o que é o certo?

Luis Fernando Veríssimo

Onde estão os intelectuais apaixonados?

Em um mundo marcado por crises profundas, injustiças sistêmicas e narrativas dominantes que frequentemente silenciam as vozes marginalizadas, essa pergunta ressoa como um desafio urgente. Afinal, qual o papel do intelectual diante das dores coletivas e das opressões estruturais? Mais do que meros observadores ou especialistas distantes, precisamos daqueles que se envolvem com paixão; que se colocam na linha de frente da luta ética e política.


A visão de Edward Said sobre a responsabilidade intelectual serve como uma estrutura orientadora, desafiando-nos não apenas a testemunhar a dor dos outros, mas a nos envolvermos ativamente na reconstrução de um mundo mais justo. Ela nos convida a questionar as narrativas dominantes, a confrontar as injustiças sistêmicas e a defender os direitos dos oprimidos. Diante do trauma histórico, a responsabilidade intelectual torna-se uma bússola, um chamado à ação que transcende os limites da academia e permeia os domínios da transformação social e política.

Said nos oferece uma imagem poderosa do intelectual como testemunha ética e agente de interferência no espaço público. Para ele, pensar não é suficiente; é preciso agir com a palavra. Ao definir a responsabilidade intelectual como a capacidade de “falar a verdade ao poder” (Representations of the Intellectual, 1994), ele rompe com a neutralidade acadêmica e desloca o pensamento para o campo do engajamento político e ético.

Essa visão transforma a crítica em bússola moral: ela orienta o olhar para as feridas históricas, os silenciamentos estruturais e os discursos hegemônicos que naturalizam o sofrimento. Mais do que diagnosticar a dor alheia, essa ética exige uma resposta ativa: reconstruir sentidos, intervir nos meios de comunicação, educar para a consciência política e sustentar as causas dos subalternizados.

“Não podemos lutar por nossos direitos, nossa história e nosso futuro sem estarmos armados com as armas da crítica e da consciência dedicada.”
Edward Said, Culture and Resistance (2003)

Aqui, a crítica não é uma forma de distância, mas de proximidade ética. Said quer um intelectual que se aproxime das lutas, que se contamine com a urgência do mundo — um intelectual verdadeiramente apaixonado.

Nas Reith Lectures (1993), reunidas em Representations of the Intellectual, ele descreve o intelectual ideal como uma figura marginal, quase exilada, que utiliza uma “linguagem que tenta falar a verdade ao poder” ainda que isso a coloque em conflito com instituições dominantes.

“Nada me parece mais repreensível do que aqueles hábitos mentais do intelectual que induzem à evasão […] Você quer parecer equilibrado, objetivo, moderado; sua esperança é ser convidado de volta, ser consultado, participar de conselhos e comitês prestigiados, e permanecer dentro da corrente dominante responsável.”
Edward Said, Representations of the Intellectual

E ainda:

“[O] intelectual amador deve levantar questões morais mesmo na atividade mais técnica e profissionalizada […] perguntar: por que isso está sendo feito, quem se beneficia, como isso pode ser conectado a um projeto pessoal e a um pensamento original?” 

Com essas passagens, Said contrapõe o intelectual-amador — movido por valores éticos, justiça e verdade — ao intelectual profissionalizado, que atua sob as exigências institucionais e frequentemente reforça o status quo.

Essa crítica à neutralidade acadêmica está no cerne de sua concepção de responsabilidade intelectual. Said demonstra que a suposta “objetividade” muitas vezes serve para encobrir estruturas de dominação. O “intelectual moderado” é, para ele, alguém que evita o conflito direto com a injustiça para preservar seu prestígio. Ao contrário, o intelectual que Said propõe deve estar disposto a perder privilégios em nome da verdade e da justiça.

A crítica, portanto, não é apenas diagnóstica, mas interventiva. Ela deve ultrapassar os limites disciplinares e alcançar o campo social, político e midiático, como Said argumenta em seu ensaio Opponents, Audiences, Constituency and Community (1982). Ele defende uma “pedagogia da vigilância” — uma forma de crítica que ensina que a linguagem não é passiva, mas instrumento de transformação. “A melhor linguagem é aquela que move, que envolve reflexão crítica e permite ao usuário fazer escolhas informadas para mudar o mundo.”

Said exorta os intelectuais a abandonarem a postura de especialistas desapaixonados. Seu antagonista não é apenas o poder, mas também a complacência: “a pessoa que assiste à CNN o dia inteiro e diz que aquilo é o mundo”. O verdadeiro intelectual, para ele, deve buscar outras narrativas, desafiar o senso comum e comprometer-se com a mudança.

A responsabilidade intelectual funciona, assim, como uma bússola ética que orienta tanto o pensamento crítico quanto a ação pública. Essa bússola exige o despertar de uma consciência crítica diante das narrativas hegemônicas — aquelas que moldam a percepção coletiva e sustentam estruturas de dominação. Mas a crítica não pode se restringir aos muros da academia; ela deve transbordar para a esfera pública, expressando-se por meio da escrita, do ensino, da mídia.

O intelectual é convocado a se posicionar como testemunha ativa das injustiças, intervindo com palavras e gestos que desafiem o silêncio e a complacência. Mais do que produzir conhecimento, trata-se de ampliar os horizontes democráticos com uma linguagem e uma prática comprometidas com a liberdade.

Em suma, a proposta de Said é clara e contundente: não basta observar — é preciso participar, interferir, contribuir para reconstruir os sentidos que organizam (ou oprimem) a vida em sociedade. A liberdade não nasce do silêncio, mas do choque entre a dor sentida, o pensamento crítico e a coragem de intervir.

Brasil e Estados Unidos: Uma Guerra Assimétrica

A ordem executiva assinada por Donald Trump impondo tarifas de 50 % sobre produtos brasileiros e citando nominalmente Jair Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo, não é apenas uma escalada comercial, é uma declaração de guerra econômica contra o povo brasileiro. É a confirmação definitiva de uma nova fase da guerra assimétrica que os Estados Unidos travam contra países que ousam exercer sua soberania, e representa o momento em que a máscara da "parceria" finalmente caiu. Ao misturar interferência política direta com chantagem econômica, Trump revelou o que há de mais arcaico e desesperado na política externa estadunidense.


A justificativa apresentada pela Casa Branca de que o governo brasileiro representa uma "ameaça incomum e extraordinária" à segurança nacional dos EUA expõe a paranoia de um império em decadência. Declarar emergência nacional com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 contra o Brasil, enquanto simultaneamente sanciona o ministro Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, demonstra o desespero de quem perdeu a capacidade de exercer influência através de meios diplomáticos convencionais.

Durante décadas, os EUA mantiveram sua posição hegemônica no mundo através de uma combinação de uma diplomacia agressiva, força militar, influência econômica e dominação cultural. No entanto, essa hegemonia já não se sustenta mais, a emergência de novos atores globais e o fortalecimento de blocos alternativos como os BRICS, que buscam consolidação de projetos multilaterais de desenvolvimento e cooperação, têm progressivamente minado o poder unilateral dos EUA. O mundo já não gira em torno de Washington e isso os incomoda profundamente.

O Brasil, ao adotar uma política externa mais autônoma e orientada para o multilateralismo, naturalmente passa a incomodar essa ordem em ruínas. As recentes aproximações com a China, com os BRICS+, com países do Sul Global e a defesa de uma nova governança internacional mais equânime colocam o Brasil num novo eixo estratégico. E essa guinada, ainda que moderada e gradual, é percebida por setores do establishment norte-americano como um ato de desobediência intolerável.

A inclusão de Bolsonaro e Paulo Figueiredo na ordem executiva revela uma estratégia ainda mais sinistra e antidemocrática: a instrumentalização de extremistas de direita como pretexto para pressões geopolíticas devastadoras contra o Brasil. Trump não defende genuinamente os direitos humanos, muito pelo contrário, o que vemos é a operação clássica da utilização de seus aliados internos para justificar a destruição econômica de uma nação soberana.

Essa guerra assimétrica não se dá no campo de batalha tradicional, já não há tanques, e não há invasões. O que existe é chantagem comercial, manipulação midiática, operações de desinformação e uso político de organismos internacionais. A atual administração dos EUA pressiona empresas, impõe sanções, desestabiliza democracias por dentro e cria narrativas para justificar suas ações, tudo sob a bandeira da "liberdade" e dos "direitos humanos", ainda que o que esteja em jogo seja, sempre, o controle de mercados e recursos alheios.

A tarifa de 50% não é apenas uma medida comercial, é um recado político. É a tentativa de punir economicamente o Brasil por exercer sua soberania judiciária e por não se curvar às pressões externas. Quando Trump afirma que está "protegendo a segurança nacional dos Estados Unidos de uma ameaça estrangeira", ele revela a rota essência imperial de quem não tolera que outros países tomem decisões independentes que contrariem os interesses da velha potência.

Os brasileiros precisam estar cientes disso. Estamos entrando, pelo nosso crescimento com um ator global extremamente relevante, em uma disputa geopolítica na qual o país será constantemente provocado, testado e pressionado. A guerra é comercial, mas também simbólica. Está em jogo a capacidade do país de construir um projeto nacional soberano, voltado para o desenvolvimento com justiça social e inserção internacional altiva. E, ao contrário do que muitos imaginam, isso não será permitido pacificamente pelos que ainda se imaginam senhores do mundo.

A tentativa do presidente Lula de estabelecer diálogo, relatada em entrevista ao New York Times quando afirmou que "ninguém dos EUA quer conversar" sobre o tarifaço, demonstra a maturidade diplomática brasileira diante da intransigência estadunidense. Enquanto o Brasil busca o diálogo, eles respondem com ultimatos e chantagens.

Por isso, o caminho do Brasil não pode ser o da submissão, tampouco o do alinhamento automático com qualquer potência. O país precisa afirmar sua soberania com lucidez e estratégia, ampliando suas parcerias sul-sul e aprofundando sua integração com a América Latina e a África. Além disso, deve fortalecer o papel dos BRICS como alternativa real à ordem unipolar e apostar em instrumentos financeiros próprios, como o comércio em moedas locais e o uso de bancos multilaterais independentes.

Ao mesmo tempo, é preciso resistir às tentativas internas da extrema-direita de sabotagem. Grupos políticos locais alinhados a interesses estrangeiros atuam como verdadeiros cavalos de Troia, não só aqui, mas no mundo todo, esses grupos buscam desestabilizar governos democraticamente eleitos, desacreditar políticas públicas nacionais e semear o caos como pretexto para restaurar um modelo de dependência que agoniza de morte. A ordem executiva de Trump foi dirigida a eles, não ao Brasil democrático e soberano.

O império, ao agir dessa forma, apenas confirma sua decadência terminal e seu desespero crescente. Quando um país precisa recorrer a sanções econômicas brutais e interferência política descarada para tentar manter sua influência, isso demonstra a sua falência iminente, o esgarçamento do seu modelo de liderança global. É o comportamento típico de um predador acuado, sem capacidade de seduzir ou convencer, resta apenas a tentativa patética de ameaçar quem ousa desafiá-lo. E, quando um país tenta exportar sua crise interna para outro, é preciso firmeza.

O Brasil precisa entender que o novo conflito em curso não é apenas econômico, e sim civilizacional. A disputa é entre um modelo de mundo multipolar, democrático e respeitoso à soberania nacional de todos os estados nacionais, e outro que insiste na dominação unilateral através da força e da chantagem, neste embate, não basta sobreviver é preciso liderar e apontar o futuro.

Ou o Brasil assume seu papel como ator geopolítico soberano, com projeto próprio, resistindo às pressões e construindo alternativas concretas à ordem nati-morta, ou será tragado pela tempestade de um antigo império que, sem conseguir mais mandar no mundo, tenta arrastá-lo para o fundo com ele. Este não é mais um debate acadêmico ou uma reflexão diplomática. Cada brasileiro precisa entender que estamos vivendo o momento decisivo, não se trata apenas de economia ou política externa, trata-se de definir se teremos um país verdadeiramente soberano ou se seremos reduzidos de volta à condição de colônia.

As forças entreguistas internas, aquelas mesmas que Trump cita em sua ordem executiva, trabalham incansavelmente para sabotar qualquer projeto nacional autônomo. Elas preferem a subordinação confortável à dignidade da luta. Precisam ser identificadas, expostas e politicamente derrotadas em cada espaço de poder que ocupam, carregando para sempre o carimbo de quinta-colunistas que são.

A batalha não será fácil, um antigo império ferido é muito mais perigoso, mas nunca na história moderna houve condições tão favoráveis para quebrarmos definitivamente as correntes da nossa dependência. China, Índia, Rússia, África, os países árabes, todos enfrentam o mesmo tipo de chantagem em algum momento de suas trajetórias. A história julgará sem piedade quem se omitiu nesse momento tão grave. O Brasil tem não apenas a oportunidade, mas o dever histórico de ser um dos líderes da resistência global contra a tirania dos EUA sob Trump. O futuro se decide hoje, a neutralidade é cumplicidade e o colaboracionismo crime! Soberania de verdade só se conquista com luta.

Batalha campal

Somos o campo de testes de uma disputa global que tem o potencial de definir um novo mapa do poder nas relações internacionais. Nas últimas duas semanas, a ofensiva do governo de Donald Trump contra o Brasil não ocorreu por uma questão tarifária. Não estão em jogo nem o café nem o suco de laranja. Esses são danos colaterais.

Abalar a estabilidade de um governo democraticamente eleito é o principal objetivo de um movimento que precisa retirar de seu caminho forças progressistas e emergentes para costurar uma nova ordem mundial que perpetue e renove sua posição de força. A autonomia do Brasil, portanto, é intolerável. Inclusive perigosa, caso outros emergentes a usem como modelo. Desmontar a oposição que o País representa aos interesses de Trump cumpre duas funções estratégicas.


A primeira delas é a de permitir que uma operação de grande envergadura para restabelecer a hegemonia norte-americana no mundo e frear a China possa vingar. Robert Lighthizer, o assessor extraoficial do departamento de Comércio de Trump e mentor das tarifas da Casa Branca, resumiu como poucos o que a China representa: “Uma ameaça existencial aos EUA”.

Para a Casa Branca, isso passa necessariamente por voltar a poder chamar a América Latina de quintal. Desde que voltou à Presidência, Trump sinalizou que recuperar a zona de influência entre os vizinhos ao Sul do Rio Grande era uma prioridade, recuperando o espaço que hoje é, em parte, da China. Assim, Washington passou a chantagear o Panamá, forçou entendimentos com países da América Central e Caribe, costurou apoios com Equador, Guiana, Paraguai e Argentina. E, de forma estratégica, busca agora influenciar diretamente as próximas eleições no Chile e na Colômbia. Mas nada disso terá um resultado concreto sem o Brasil.

Há, no entanto, uma segunda disputa travada e ela é ideológica. Nos últimos dias, ao abrir mão do interesse nacional, da renda dos brasileiros e da própria democracia em troca de um apoio externo para proteger seu clã, o bolsonarismo foi desmascarado. Também ficou evidente que não se trata de um grupo isolado. Tea­tralizadas, as demonstrações de líderes ultraconservadores confirmaram, uma vez mais, a existência de uma aliança internacional de uma força política que, ao longo dos últimos anos, costurou uma estratégia globalizada para chegar e se manter no poder.

Um dos líderes que saíram no apoio do ex-presidente brasileiro foi o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. “Continue lutando, Jair Bolsonaro! Ordens de silêncio, proibições de redes sociais e julgamentos com motivação política são ferramentas de medo, não de justiça”, disse o líder húngaro nas redes sociais. No começo de 2024, Bolsonaro passou dois dias na Embaixada da Hungria em Brasília. O movimento ocorreu dias depois de ele ter seu passaporte retido pela Justiça, que o investigava pela trama golpista. O apoio também veio da extrema-direita polonesa, que agora pede sanções na Europa contra Alexandre de Moraes. Na Itália, Matteo Salvini disse que Bolsonaro é um “perseguido pela Justiça de esquerda”. Na Espanha, foram os herdeiros intelectuais e políticos do ditador Francisco ­Franco que saíram ao resgate do brasileiro.

Em todos os casos, as palavras de apoio se repetiam de forma calculada. Como se tivessem sido ensaiadas. O movimento ultraconservador no mundo sabe o que está em jogo no Brasil. E não é a sobrevivência política de um ex-presidente indiciado por golpe de Estado. O que está em jogo é seu projeto de poder.

Se a extrema-direita mundial sempre teve um plano, dinheiro e objetivo, agora também tem um líder com uma bomba atômica, com o maior mercado do mundo e determinado a reverter uma sensação de decadência de um império. Não poderia ser mais perigoso.

Num mundo onde a velha ordem internacional se desfez e na qual uma disputa­ pelo poder é travada a cada dia para determinar quais serão as regras que vão reger as próximas décadas, o que está sendo desenhada é a fundação de uma geografia do poder.

Seja pela busca norte-americana por hegemonia, seja pela disputa ideológica de um grupo que quer refundar a sociedade a partir de um novo parâmetro ultraconservador, a realidade é que o embate, neste momento, está ocorrendo em nossa democracia.

Os golpes enviados desde Washington e ecoados por traidores testam os alicerces de uma sociedade e os parâmetros da civilização.

No país, a disputa é por onde passam a linhas não tão imaginárias das fronteiras de zonas de influência e da definição de soberania.

No Brasil, portanto, disputa-se neste momento o século XXI.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Uma coisa totalmente normal de vender

Enquanto eu estava na academia, vi um homem na máquina ao meu lado vestindo uma camiseta do Alligator Alcatraz, e embora a maioria das coisas não me influencie mais politicamente, esta realmente influenciou. Aquela camiseta é um verdadeiro símbolo de um campo de concentração. As pessoas detidas lá não são criminosos que foram considerados culpados em um tribunal — são pessoas que Trump considerou indesejáveis. E agora que mais cinco locais foram aprovados em vários outros estados, a situação só está piorando. É realmente assustador.

A inteligência artificial é uma fresta para a revolução


A experiência humana cada vez mais se entrelaça com as telas. De fato, em seus distintos formatos – do cinema à televisão, do computador ao smartphone –, a tela não se limita a uma mera função projetiva inerte, ela é, sobretudo, uma prótese de percepção que o ser humano progressivamente foi obrigado a internalizar em seu aparelho psicofísico. Essa ideia, que à primeira vista pode soar como uma abstração filosófica, revela-se como um objeto tátil que nos permitirá compreender as mutações profundas em nosso modo de pensar, sentir, aprender e interagir com o mundo.


É nesse terreno, onde a tecnologia se funde com a fenomenologia da experiência íntima humana, que a inteligência artificial (IA) e, em particular, os modelos gerativos de linguagem natural e de linguagem da natureza já se apresentam como protagonistas de uma nova era da cultura e da civilização. Esta nova arma criada por cientistas em seus laboratórios experimentais é capaz de redefinir a própria noção que possuímos de comunicação, ou mesmo a própria dinâmica da educação e do trabalho. Com tantos elementos distintos na equação, finalmente podemos novamente mencionar, sem o constrangimento típico, as urgentes lutas sociais e políticas que precisamos reinaugurar.

Historicamente, a tela tem sido um instrumento poderoso na moldagem de percepções e na disseminação de ideologias. Desde a invenção do cinema, no alvorecer do século 20, testemunhamos a capacidade intrínseca dessa “nova mídia” de mobilizar as massas para processos de lutas através do estímulo ideológico, sempre ao redor de uma sensibilidade coletiva projetada como filmes-modelos. O cinema, em sua gênese, não foi apenas uma forma de entretenimento; ele se estabeleceu como um vetor de induções psíquicas, contribuindo tanto para ideologias revolucionárias (como as bolcheviques) quanto contrarrevolucionárias. Sua influência foi palpável na integração estratégica do império do capitalismo americano e, de forma ainda mais sombria, na adesão da população alemã ao nazismo.

A projeção de imagens em movimento, apresentadas em telas como personificação do mercado e de seus líderes políticos, exerceu um controle massivo. Esse controle espetacular foi capaz de reconfigurar a percepção visual e, por consequência, a própria realidade percebida. Aqui, a existência humana se entremeava com a existência da cultura fílmica. E, com a transição do suporte analógico para o digital, o cenário se tornou exponencialmente mais complexo.

A dita pós-modernidade, marcada pela ubiquidade das telas e pela velocidade da informação, intensificou esse processo de expropriação e orientação artificial da cognição. Os recentes ataques neofascistas às democracias globais, por exemplo, revelam um investimento estratégico justamente nas mesmas produções audiovisuais perversas – as fake news, os negacionismos, as montagens que compartilham envolvendo desde figuras bíblicas até políticos populistas – e novamente levaram ao extermínio partes da população, principalmente no Brasil e em sua aberta campanha ao genocídio de classes desfavorecidas. A mensagem direcionada ao gerenciamento ideológico e ontológico às sociedades açoitadas pelo subdesenvolvimento, como a nossa, é implacável e demanda um grande aparato manipulador que intermeia tais ataques, este é o papel daquilo que conhecemos com “a mídia”.

Essa rede de organização política da informação, facilitada pela onipresença das telas, demonstra o quão profundamente nossa percepção pode ser constrangida por estímulos cuidadosamente orquestrados, eles têm caracteres libidinais, consumistas, de pertencimento, de estilos e opções personalíssimas como a moda, a gastronomia, a estética corporal etc. É nesse contexto entre a instrumentalização das nossas telas que há muito trava-se uma guerra pelo poder. E aqui, a IA é, antes de tudo, uma potencial forma de contra-informação, um modelo que, se olhado em sua “essência”, não será apenas instrumento e/ou dispositivo de intensificação da desigualdade, mas uma oportunidade de reformas estruturais planetárias. É esse o risco e o desespero que podemos pressentir entre os comportamentos extremista e irracionais da elite governante e econômica.

Ferramentas que atuam com base em deep learning (aprendizado profundo de máquina não supervisionado) orientadas por redes neurais artificiais (RNAs) processam informações ininterruptamente e autonomamente; elas as criam, as moldam e as disseminam em uma escala e velocidade sem precedentes. O papel humano torna-se limitado em certos processos de uma rede neural. Em certo ponto, a mente humana e a mente artificial se desacoplam, e apenas uma é capaz de se mover com expertise neste plano de uma realidade totalmente digitalizada.

É um fenômeno que exige nossa mais profunda atenção, pois aqui ainda sobressaem os riscos e assédios que observamos diariamente, ou seja, há um anseio do poder neoliberal em dominar tal tecnologia utilizada como um bem voltado à produtividade. Porém, também há um campo de forças insurrecionais que sequer o próprio sistema de controle e produção pode gerir, impedir, ou mesmo judicializar.

A questão não é mais se a IA influenciará a humanidade, mas como ela delineará as qualidades políticas, eleitorais, educacionais, subjetivas, institucionais, diplomáticas e bélicas nos próximos anos. Os dias atuais nos confrontam com uma realidade onde a comunicação política se transformou em um campo de batalha, e a “guerra de vídeos” deflagrada recentemente pela esquerda nacional, provisoriamente intitulada “Nós contra eles”, é um exemplo contundente dessa nova dinâmica. De fato, nossa única possibilidade de uma instrumentalização efetiva a um processo revolucionário, o único “revide” que nos sobrou e que tanto aguardávamos efetivar, após séculos de exploração e injustiça. São essas as condições materiais de desencadeamento de novas gramáticas de lutas de classes e, como toda nova ação insurgente, novas dinâmicas devem entrar. Fomos deveras provocados, na captura de nosso querer e na segregação de nossas ações solidárias.

Diante desse cenário tecnológico, apenas meia dúzia de vídeos curtos, mas que escandalizam o papel do Congresso Nacional e da estupidez da classe dominante, já fez solavancar e aterrorizar o status quo tanto da oposição quanto dos veículos de imprensas líderes. Recorrer à IA para defender a taxação dos super-ricos, o fim da escala 6×1, maior acesso à distribuição de recursos e serviços sob novas figurações de produto audiovisuais democráticos, acessíveis e esclarecedores demonstrou que podemos recorrer à linguagem fílmica que ocupa as redes sociais, e isso nos sinaliza para a urgência de dominar esse novo terreno da comunicação política, onde a direita tem historicamente trafegado com maior desenvoltura.

O novo uso da IA para uma causa, para reacender a militância em torno de uma bandeira socialmente relevante, é um tipo de inflamação popular que não será mais contido. Uma característica relevante dessas novas produções é que não há identidades de militantes, não é possível sequer atribuir a um ser humano a confecção dos vídeos. De certo, digitamos na caixa de texto a narração da cena, os personagens, o conteúdo (mesmo que abstrato), mas são as próprias redes neurais que constroem o vídeo, sonorizam, editam, criam efeitos especiais, transmitem uma mensagem valiosa. Sequer o Partido dos Trabalhadores (PT) pode ser identificado como autor e promovedor do movimento, até porque o governo é de viés legalista e neoliberal. A impossibilidade de acusar indivíduos de subversão pela natureza mesma dessa produções não permitirá que a justiça, a política ou qualquer órgão estatal seja capaz de punir, incriminar. Abre-se uma era de anarquismo comunicacional, e os projetos de regulamentação da IA são equivocados tanto do ponto de vista técnico quanto conceitual.

Os vídeos divulgados por militantes de esquerda, e suas redes neurais, cumpriram um efeito simbólico e mobilizador. Sem precisar apelar às retóricas de ódio e acusações agressivas contra representantes específicos, ali apresenta-se estilisticamente a imagem-movimento de um antro degradado de acordos de políticos que se julgam astutos e cujos mecanismos de corrupção não podemos contestar. Acontece que, para nós, temos um passado literário e científico produzido por grandes figuras do pensamento, que nos legou a potência de criar maior impacto, capaz de criar compreensões mais fortalecidas da natureza humana, da imensidão das formas de existência e resistência. A IA tem um imenso poder duplo: pode tanto emancipar quanto manipular a construção de consensos, levando à polarização radical.

Neste ponto, é papel da universidade renovar seus votos de compromisso com a vida. Para as academias não resta alternativa a não ser imprimir o máximo de facilitação entre as sociedades e esta nova fonte de saber-poder. Se insistir em estratificação e burocratização, as universidades do mundo enfrentarão formas ostensivas de contestações, na mesma moeda que enfrentarão os governos, o latifúndio agrário, os regimes e escalas de trabalho, a participação aos bens públicos e aos direitos fundamentais. As academias precisam fazer valer o papel que há tanto lhe foi confiado, mesmo que a atual tecnologia social de suas ações não as permitam cumprirem tal magnânima missão.

É nesse cenário de incertezas e de um poder tecnológico em constante expansão que a IA, paradoxalmente, pode se apresentar como esta “fresta para a revolução”. Não se trata de uma revolução nos moldes tradicionais, com levantes populares, barricadas, assaltos com milícias armadas e mudanças abruptas de regime, mas de uma mensagem oculta, silenciosa e íntima, que torna o sistema dominante o arquétipo maior do inimigo. No que tange às relações de poder e saber, outra dimensão discursiva será produzida pelas redes neurais, revitalizando conceitos e fenômenos, histórias de lutas modernas e antigas, em que novamente nos deparamos com a opressão das classes oprimidas e que sempre apostaram na mobilização. Agora, a informatização das lutas permite um caminho promissor.

Se a IA é capaz de gerar e disseminar narrativas em escala massiva, ela também pode ser utilizada para desconstruir narrativas hegemônicas e para amplificar vozes dissidentes. A atual ação da esquerda nacional é um prenúncio disso: a apropriação de ferramentas tecnológicas para disputar a narrativa e mobilizar a base, mesmo que com recursos limitados, pode ser uma nova forma de marginalismo heroico, o uso estratégico e consciente para fins de transformação social sob um rígido suporte popular. A IA, nesse sentido, é um catalisador de novas possibilidades, de vozes periféricas, excomungados, amaldiçoados e portadores de doenças psíquicas. Um campo de disputa onde o futuro da luta social e mental pode ser redefinido. A história, que parecia ter chegado ao seu fim, pode estar apenas começando, impulsionada por essa nova força tecnológica que, se bem utilizada, pode nos levar a um mundo mais livre, solidário e igualitário.

A USP, construída sobre a excelência na ciência, cultura, arte e filosofia, depende da nossa capacidade de questionar o mundo com abertura, desprendimento, inteligência e coragem. A ocupação desta universidade, por décadas, de grandes expoentes do intelectualismo nacional, permite que derivemos a clareza de propósito e a coerência ética para que a tecnologia atual sirva à emancipação humana, e não à sua subjugação. Que a história, que se desenrola diante de nossos olhos, cujo materialismo é a própria abstração do código, seja um instrumento a serviço dessa construção coletiva.

A “fresta para a revolução” que a IA pode abrir não se concretizará sem um esforço consciente e coletivo para garantir que essa tecnologia seja desenvolvida e utilizada de forma transparente e responsável, e, neste ponto, almejamos uma democracia direta, de participação livre e aberta de todas(os) os brasileiros(as). O dispositivo da IA pode realizar a aproximação entre tudo o que foi institucionalizado e o interesse público, o que nos faz prescindir de representação política, dos poderes republicanos e, principalmente, de uma polícia militar e de forças armadas descoladas da realidade do mundo. A verdadeira revolução, portanto, é um projeto de sociedade mais inclusivo, pacífico e democrático. É um convite à intervenção, a uma apropriação estética dessa ferramenta poderosa, para que a história não se repita daqui em diante, ou que se repita sem os velhos e boçais personagens, agora satirizados e humilhados por jovens rebelados sem qualquer inserção ou reconhecimento social, profissional e intelectual.

A verdadeira revolução não será travada nas ruas, mas nas redes neurais. A IA representa uma oportunidade histórica de democratizar o poder da informação e dar voz aos silenciados. Cabe à universidade, e especialmente à USP, liderar esse processo de forma ética e responsável. O futuro da democracia pode depender de nossa capacidade de transformar essa tecnologia em instrumento de emancipação, não de opressão.