sábado, 19 de julho de 2025

Inimigo do povo?

O fenômeno dos vídeos que viralizaram nas redes sociais, produzidos por setores progressistas com o emprego de Inteligência Artificial, em resposta às últimas medidas escandalosamente antipopulares do Congresso Nacional, mostrou, de modo inequívoco, que as mídias digitais são um campo de batalha política e ideológica, um poderoso instrumento de conquista de mentes e corações para um determinado projeto político. A campanha focou, sobretudo, em questões como a recusa de tributar os ricos na batalha do IOF e o aumento do número de deputados federais.

A direita e a extrema-direita há muito perceberam o potencial dessas mídias e as elegeram como seu principal ambiente e instrumento de militância ideológica. Os métodos por elas empregados não costumam, porém, primar pela ética e pelo compromisso com a verdade: difundem-se notícias falsas, mentiras, desinformação, preconceitos de todo tipo, ataques pessoais, discursos de ódio. Tudo em nome da manutenção dos mandatos dos representantes desses setores, à custa da ignorância e da vulnerabilidade intelectual em que buscam manter a população.


A esquerda, por sua vez, aparentemente menos íntima dessa modalidade de comunicação, parece ter finalmente acordado. Foram-se os tempos da panfletagem em porta de fábrica, do jornal impresso distribuído nas ruas, da visita de casa em casa chamando ingloriamente para discutir política. Evidentemente, não se excluem essas ações que, em determinadas circunstâncias, permanecem válidas e eficazes. E, olhando daqui, do futuro, aqueles tempos até parecem ter sido bons, mas já passaram. Hoje, dominar as ferramentas tecnológicas, incluindo a Inteligência Artificial, e inserir-se no mundo digital, é condição necessária para atingir as massas.

Os métodos e os objetivos da esquerda devem, contudo, ir além da resposta imediata a problemas conjunturais, por mais que isso também seja importante. O impacto positivo que os vídeos parecem ter produzido abre uma janela de oportunidade também para uma ação pedagógica de médio e longo prazo, que evidencie o papel do Poder Legislativo, em geral menos valorizado pelo eleitor, e a importância da escolha consciente – com consciência de classe – dos representantes parlamentares. Para tanto, seria interessante, por exemplo, não apenas denunciar nominalmente deputados e senadores comprometidos com banqueiros e grupos empresariais, e que votam contra o povo, mas também dar visibilidade àqueles que, comprometidos com as classes populares, votam a seu favor.

A hashtag #CongressoInimigoDoPovo atingiu em cheio a hipocrisia da maioria dos parlamentares e pôs a nu seus verdadeiros compromissos e interesses. No calor da polêmica, essa estratégia foi importante: derrubaram-se máscaras, deram-se nomes aos bois, vestiram-se carapuças e obrigaram-se baratas a saí­rem do esgoto. Nesse sentido, a campanha midiática teve também valor pedagógico, ao evidenciar o caráter classista da composição do Congresso ­Nacional. Efeito semelhante teve a alcunha de “Hugo nem se importa”, atribuída ao presidente da Câmara Federal.

No entanto, a generalização da imagem do Congresso como inimigo do povo, abstraindo suas contradições internas e a multiplicidade de forças e posições políticas que abriga, não apenas produz uma ideia falseada daquela instituição como também pode trazer efeito deletério para a própria esquerda: a intensificação da rejeição popular a essa esfera de poder, levando a um desinteresse ainda maior da população pela eleição de candidatos proporcionais. Isso parece beneficiar apenas à direita que, certamente, seguirá recorrendo ao poder econômico e aos artifícios eleitoreiros a ele associados para se perpetuar no poder. Para o campo progressista, o desprezo popular pelo Congresso representará um obstáculo muito maior à eleição de parlamentares em número suficiente para viabilizar a implementação de políticas de interesse popular. E as eleições de 2026 estão logo aí…

A janela que se abriu pode e deve ser bem aproveitada pela esquerda. De fato, o momento atual parece propício para uma ação educativa que busque explicar de forma didática, atrativa e, ao mesmo tempo, rigorosa, políticas de interesse social como taxação de grandes fortunas e dividendos, fim dos incentivos fiscais a grandes empresas, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais, extinção do orçamento secreto e do atual sistema de emendas parlamentares, fim dos supersalários de setores privilegiados do funcionalismo, redução da jornada de trabalho, prioridade nos investimentos públicos para a educação e saúde, defesa da democracia e da soberania nacional, reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar e combate efetivo ao aquecimento global. Por que, então, não começar, desde já, uma campanha de conscientização sobre essas e outras pautas e sobre os partidos e os parlamentares que com elas se comprometem, sem deixar de fazer a denúncia dos inimigos do povo? Por que não mostrar claramente que expurgá-los do Congresso só depende da vontade popular?

O momento é propício, as ferramentas existem e ao menos parte da esquerda mostrou que sabe usá-las com inteligência, criatividade e bom humor. Se haverá vontade política para seguir nesse caminho, veremos nos próximos capítulos. Mas parece indubitável que isso é necessário para que venhamos a ter um Congresso amigo do povo. 

Alerta a Bolsonaro: o melhor é já ir se acostumando às restrições

Tolerantes em excesso com Bolsonaro ao longo da sua carreira política, os três Poderes da República deveriam, agora, se ajoelhar, bater no peito três vezes e confessar em latim: “Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa.” Criaram um monstro.

O general Golbery do Couto e Silva, um dos condestáveis da ditadura militar de 64, cunhou a frase “Criei um monstro”, ao referir-se ao Serviço Nacional de Informações, órgão de espionagem do antigo regime. Morreu desgostoso com sua obra.

Não espere de Bolsonaro sinal de arrependimento. Ele é escravo do personagem que criou. À época da pandemia, Bolsonaro incentivava auxiliares a se vacinarem enquanto dizia que não poderia fazer o mesmo para não contrariar seus seguidores.

Michelle vacinou-se. Flávio, Carlos e Eduardo, os três filhos Zero, vacinaram-se. Bolsonaro encomendou um falso certificado de vacina para ele e a filha Laura. Temia ser impedido de circular livremente nos Estados Unidos por falta de um certificado.


Durante 30 anos como deputado federal, o Congresso tratou-o como se fosse um parlamentar qualquer e não um extremista de direita que defendia a volta da ditadura e exaltava os torturadores, como fez na hora de votar pelo impeachment de Dilma.

Jamais foi punido, censurado ou apenas advertido por seus pares. Nem quando agressivamente bateu boca com a deputada Maria do Rosário (PT-RS) e disse que ela era feia e por isso não merecia ser estuprada. A Justiça arquivou o processo aberto contra ele.

Mal pôs os pés no Palácio do Planalto, Bolsonaro passou a atacar o Supremo Tribunal Federal, a minar a confiança dos brasileiros nas urnas eletrônicas e a plantar a semente do golpe. A Justiça demorou a reagir. Ao fazê-lo, a semente florescera.

A semente não morreu só porque o golpe foi abortado. Ela continua a ser regada por Bolsonaro, em parceria com o presidente mais louco da história dos EUA. E a dar frutos, como o tarifaço de Trump, que ameaça desestabilizar o governo de Lula.

Batizado por um pastor deletério nas águas do rio Jordão, o Bolsonaro quase preso, algemado a uma tornozeleira eletrônica, diz acreditar em milagres. Atribui a um milagre ter sobrevivido à facada. E sonha com o milagre da anistia ou do indulto.

O melhor seria já ir se acostumando às restrições que experimenta. É só um ensaio do que virá. Vida longa a Bolsonaro.
Ricardo Noblat

Ataque ao PIX, à LGPD e ao Judiciário como estratégia de guerra híbrida

Trump tem uma forma particular de articular política internacional. Em vez de discursos oficiais, tratados ou interlocuções diplomáticas, prefere o atalho das redes sociais. Sua plataforma favorita, a Truth Social, funciona como um megafone sem mediação, um espaço em que ele lança provocações, recados cifrados e ameaças econômicas que obrigam o aparato norte-americano que preside a correr atrás. Ainda que seja evidente que Trump esteja contornando os ritos institucionais para impor sua agenda e se esquivar de qualquer due diligence, não questionamos neste artigo seus métodos e como eles contornam os processos supostamente democráticos de seu próprio país, e sim, seus resultados.

Promovendo o caos, e obrigando o mundo a responder no ritmo acelerado determinado pela digitalização massiva, a novidade agora é o ataque ao PIX. Criado em 2020, o método de transferência operado pelo Banco Central do Brasil se tornou o maior método de pagamento no país em 2024. O PIX é um sistema de pagamentos instantâneos que liquida transferências em até cerca de 10 segundos, 24h por dia, inclusive finais de semana e feriados. Ele corta intermediários típicos de pagamentos eletrônicos (bandeira, adquirente, processadora), o que reduz custos já que para pessoas físicas, em regra, não há tarifa, e para empresas as taxas tendem a ser menores. Graças a esses atributos, foram feitas cerca de 20 bilhões de transações e movimentados mais de R$ 11 trilhões entre 2020 e 2024.

Em comparação com o antigo DOC, ou TED, o PIX representa um salto tecnológico e institucional: enquanto os sistemas anteriores operavam apenas em horário bancário, com taxas elevadas e prazos de compensação que podiam levar horas ou até dias, o PIX realiza a transação em segundos, a qualquer momento, configurando a lógica dos pagamentos e transferências no Brasil.


Já nos Estados Unidos, o livre mercado custa caro ao consumidor e ao empreendedor. Os sistemas de pagamento nos Estados Unidos são notoriamente fragmentados, caros e lentos se comparados ao PIX. As transações via ACH, por exemplo, em geral só são liquidadas dias depois. As famosas Wire Transfers são mais rápidas, ora, podem levar apenas algumas horas, e, por serem tão velozes, custam ao bolso americano cerca de US$ 25 a US$ 50 por operação. Os mais hegemônicos Venmo e CashApp, por sua vez, operam sob condições que limitam sua escala: impõem taxas em transferências instantâneas e comerciais, além de estabelecerem tetos semanais de uso.

Não é de surpreender que nos EUA, país em que livre-mercado não é sinônimo de concorrência justa, estes sejam os paradigmas, e porque o PIX – e também os Brics – incomodam tanto. 

Além do PIX, os outros países Brics também são referência em circulação rápida e barata de capital. Na Índia, o UPI (Unified Payments Interface) conecta contas bancárias diretamente, sem intermediários, viabilizando pagamentos digitais gratuitos entre pessoas e empresas, e já representa mais de 80% das transações digitais do país. A Rússia desenvolveu o Mir, um sistema nacional de cartões que substitui Visa e Mastercard no contexto das sanções, fortalecendo sua autonomia financeira. Na China, o ecossistema é liderado por UnionPay e pelos pagamentos via QR Code integrados aos superapps Alipay e WeChat Pay, usados por mais de 1 bilhão de pessoas. Já na África do Sul, soluções como o EFT Instant e os pagamentos por QR Code vêm se expandindo com apoio institucional, promovendo inclusão financeira com baixa tarifa e liquidação rápida. Ainda que apenas o PIX e o UPI indiano sejam os únicos em geral gratuitos para pessoas físicas, as opções russas, chinesas e sul-africanas são significativamente mais baratas que os sistemas norte-americanos.

Essa convergência em torno de infraestruturas nacionais de pagamento também se conecta com o fortalecimento institucional do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o chamado Banco dos Brics. Ainda que a agenda do NDB não proponha diretamente uma moeda única, ele tem atuado na criação de alternativas reais à intermediação em dólar, por meio da emissão de títulos em moedas locais, do financiamento de projetos de infraestrutura estratégica e da construção de mecanismos financeiros próprios. A articulação entre sistemas domésticos de pagamento, como o PIX no Brasil e o UPI na Índia, e o avanço do NDB compõe um mesmo movimento: o de viabilizar uma arquitetura financeira multipolar, na qual os países do Sul Global possam transacionar, desenvolver e acumular valor com menor exposição às pressões, sanções e volatilidades impostas pela hegemonia do dólar.

Ainda em fevereiro, discutimos sobre como A Escalada Tarifária Dos Eua Seria Oportunidade Para Desdolarização E Uma Nova Ordem Multipolar Liderada Pelo Brics, bem como, em abril, a importância da recondução de Dilma ao NDB no cenário geopolítico. O argumento central era que as medidas protecionistas de Trump pressurizariam blocos como o Brics+ a fortalecer suas instituições financeiras e buscar alternativas ao dólar, reduzindo a vulnerabilidade às sanções e à coerção econômica externa, e que, com Dilma à frente, o NDB reforçou projetos em moeda local, ampliou seu campo de financiamento e avançou em mecanismos que desafiam a centralidade do dólar.

O argumento de que o monopólio é o estágio avançado do capitalismo radical pode até ser disputado, mas o fato é que os EUA não praticam livre mercado nem dentro de casa: seu sistema é dominado por megacorporações e holdings que sufocam a concorrência antes que ela ameace o topo. O que incomoda no PIX é justamente ele funcionar.

Um mercado perfeito num ambiente tecnológico depende de algumas condições: atomicidade entre os agentes (nenhum suficientemente grande para manipular os preços), homogeneidade dos produtos, fluidez nas trocas e transparência total das informações. Tais condições, no entanto, não existem por geração espontânea, elas precisam ser produzidas, socialmente, ou por mediação do Estado. A despeito de se posicionar globalmente como o maior defensor do neoliberalismo, do capitalismo, da livre concorrência e da desregulação, os Estados Unidos operam internamente sob uma lógica concentracionista, em que poucos conglomerados controlam a infraestrutura dos mercados digitais, financeiros e comunicacionais. O discurso do livre mercado serve como narrativa para impor regras aos outros, mas em casa o que vigora é a proteção de monopólios.

Os Brics decidiram jogar pelas regras dos EUA, mas com competência técnica, coordenação política e infraestrutura própria e isso é insuportável para Washington. O que está em disputa não é apenas o comércio ou a tecnologia, mas a narrativa legitimadora de que os EUA são um país liberal. E o sonho da América não é mais um sonho liberal: os EUA hoje são protecionistas, seletivos e autoritários, protegem seus preciosos oligopólios, hoje, parte das Forças Armadas e da Casa Branca.

Dentre eles, a Meta. O conglomerado que controla o Facebook, Instagram e WhatsApp, este último a plataforma mais utilizada pelos brasileiros, atua como um braço informal da política externa digital norte-americana. Seu interesse no setor financeiro não é novo, mas se intensificou após o sucesso do PIX, que passou a representar uma ameaça concreta à expansão do WhatsApp Pay. Ao contrário do sistema público, gratuito e universal do Banco Central brasileiro, o WhatsApp Pay impõe limites, intermediações e tarifas: cobra 3,99% de lojistas, exige cartões de crédito vinculados a bancos parceiros e mantém o controle da infraestrutura sob servidores privados nos EUA. Trata-se de um modelo fechado, opaco, onde o acesso é condicionado e a informação é capturada.

Desde o encerramento da Cúpula do Brics+ no Rio de Janeiro, os Estados Unidos têm adotado uma postura hostil contra o Brasil. A despeito da presidência modesta, Trump iniciou uma série de ameaças, tentando intervir na política brasileira. Semana passada, criticou abertamente o processo judicial contra o ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, afirmando que o Brasil não respeita sua própria democracia e ameaça tarifar em 50% todos os produtos brasileiros exportados aos EUA. Essa medida pode ou não ser implementada – descobriremos no início do mês que vem se Trump estava falando sério, ou blefando.

Desde a carta, no entanto, a popularidade de Lula só tem aumentado. A reação brasileira ao ultimato tarifário foi de sobriedade e defesa da soberania, reforçando a imagem do país como articulador de uma multipolaridade prudente. Enquanto isso, a ação norte-americana reforçou a popularidade do Brics+ dentro e fora do país, evidenciando a importância de uma cooperação internacional capaz de proteger seus membros de pressões externas.

No entanto, a escalada das declarações de Trump indica que as tarifas são apenas uma das frentes em jogo. Por isso o ataque ao PIX não pode ser interpretado de forma isolada, ele se insere numa ofensiva mais ampla, articulada em diferentes dimensões, que caracteriza o que chamamos de guerra híbrida. Esse tipo de conflito é simultâneo em múltiplos domínios: monetário, digital, institucional, jurídico e informacional. A guerra híbrida opera para desestabilizar o adversário por dentro, minando sua confiança social, seus instrumentos normativos e sua capacidade de coordenação soberana, e, agora, observamos disputa em pelo menos três elementos: cognitivo, comercial e judicial.

Como um país polarizado, é de se imaginar que Trump esperava que sua carta desestabilizasse a coesão interna da governança brasileira através da resposta da população. A ameaça da tarifação, por exemplo, a despeito de ter sido apoiada por alguns parlamentares da extrema-direita, teve o efeito oposto na população: cresceu o apoio ao atual governo federal e ganhou força o movimento nas redes sociais com a mensagem “O Brasil é dos brasileiros”. No elemento da cognição, Trump por enquanto está perdendo a batalha, a despeito de ser dono do campo que são as plataformas de mídias sociais digitais.

A batalha avança agora no elemento comercial com o ataque ao PIX. Trump disputa agora a infraestrutura que garante eficiência, inclusão e soberania ao sistema financeiro brasileiro. O sucesso do PIX, ao eliminar intermediários e reduzir custos, representa uma afronta direta aos interesses das grandes corporações norte-americanas que lucram com tarifas, dados e intermediações forçadas dentro de seu país, ou por fora, com as sanções unilaterais.

O terceiro flanco da guerra híbrida é institucional e jurídico. A tentativa de interferência no processo judicial contra Jair Bolsonaro, sob o pretexto de defender a democracia, revela o esforço norte-americano de deslegitimar o sistema de Justiça brasileiro. O mesmo vale para o ataque à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que estabelece regras para o tratamento de dados pessoais, inclusive digitais, com o objetivo de proteger a privacidade e a liberdade de pessoas físicas e jurídicas: no novo relatório do governo Trump, os EUA acusam a Lei Geral de Proteção de Dados brasileira de ser uma barreira ao livre comércio digital.

A LGPD garante ao cidadão e às empresas a titularidade dos seus dados, além do direito de saber como eles são coletados, armazenados e utilizados. Para isso, a lei impõe um conjunto de exigências, como o consentimento do titular, que tornam o uso desses dados condicionado à transparência e à autorização prévia, e um dos pontos mais relevantes trata da responsabilidade civil: se o uso dos dados causar dano patrimonial, moral, individual ou coletivo, o controlador ou operador, seja pessoa física, empresa ou órgão público, é obrigado a reparar os prejuízos.

A LGPD ainda é o principal instrumento de Soberania Digital no Brasil. Qualquer tentativa de enfraquecê-la ou desmontá-la significa, na prática, abrir as portas para que dados sensíveis de cidadãos e empresas sejam explorados por interesses estrangeiros. O argumento é que as regras brasileiras dificultam a transferência internacional de dados; mas, na prática, elas atrapalham as operações das Big Techs norte-americanas, em níveis comerciais e de cognição – e é isso que importa à Trump.

O que os EUA querem é liberar a coleta de dados dos brasileiros por empresas como Meta e Google, sem precisar seguir as regras locais. Ao criticar a LGPD, Trump tenta enfraquecer um marco legal que protege a soberania digital do Brasil, articulando tanto a questão cognitiva quanto legal-institucional dentro do panorama de guerra híbrida. Isso porque, se nossa lei estiver fragilizada no campo da cognição – permitindo que as Big Techs coletem dados e disseminem conteúdo sem responder legalmente por seus efeitos, como desinformação –, Trump poderá ganhar onde tem perdido, a opinião pública.

A defesa cognitiva no âmbito legislativo-institucional começa pela proteção dos dados. No Brasil, esse princípio está diretamente ligado à Constituição, dentro do capítulo que trata da Ordem Econômica. É por meio dela que o Estado se afirma como agente normativo, fiscalizador e regulador, inclusive no mundo digital.

E é por isso que o ataque ao PIX, à LGPD e ao Judiciário devem ser lidos em conjunto, como peças articuladas de uma ofensiva geopolítica. A verdade incômoda para os EUA é que o Brasil entregou, com o PIX, aquilo que eles dizem defender e não praticam: um mercado moderno, transparente, barato e acessível. O Meta-Trumpismo não teme o autoritarismo, e sim, teme a concorrência. E quando essa concorrência vem de países do Sul Global, que operam com soberania, competência técnica e coordenação política, o medo se transforma em hostilidade. É uma reação covarde de quem sempre defendeu o livre mercado, mas nunca soube competir em condições verdadeiramente livres.

O que Trump não suporta não é o Brasil fora de controle, é o Brasil no controle.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Os transtornos causados pelos data centers gigantes e o excessivo gasto de água

Quando Beverly Morris se aposentou em 2016, ela achou que havia encontrado a casa dos seus sonhos — um recanto tranquilo na zona rural da Geórgia, nos Estados Unidos, cercado por árvores e silêncio.

Hoje, não é nada disso.

A apenas 366 metros da varanda da sua casa em Mansfield, no Estado da Geórgia, há um prédio enorme sem janelas, repleto de servidores, cabos e luzes piscando.

É um data center — um dos muitos que estão surgindo em cidades pequenas dos Estados Unidos, e ao redor do mundo todo, para abastecer tudo, desde serviços bancários online até ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT.

"Não posso viver na minha casa com metade da casa funcionando e sem água", diz Morris.

"Não posso beber a água."

Ela acredita que a construção do centro, que é de propriedade da Meta (a empresa controladora do Facebook), danificou seu poço particular, causando um acúmulo excessivo de sedimentos. E agora transporta água em baldes para dar descarga no banheiro.


Morris conta que precisou consertar o encanamento da cozinha para restaurar a pressão da água. Mas a água que sai da torneira ainda tem resíduos.

"Tenho medo de beber a água, mas ainda cozinho e escovo os dentes com ela", diz Morris. "Se isso me preocupa? Sim."

A Meta afirma, no entanto, que as duas coisas não estão relacionadas.

Em declaração à BBC, a Meta disse que "ser um bom vizinho é uma prioridade".

A empresa informou que encomendou um estudo independente das águas subterrâneas para investigar as preocupações de Morris. De acordo com o relatório, a operação do seu data center "não afetou negativamente as condições das águas subterrâneas na região".

Embora a Meta conteste ter causado os problemas relacionados à água na casa de Morris, não há dúvida, na sua opinião, de que a empresa não é bem-vinda na vizinhança.

"Este era meu lugar perfeito", diz ela. "Mas não é mais."

Costumamos pensar na nuvem como algo invisível, flutuando acima de nós no éter digital. Mas a realidade é um tanto física.

A nuvem está presente em mais de 10 mil data centers em todo o mundo, a maioria deles localizados nos EUA, seguidos pelo Reino Unido e pela Alemanha.

Com a inteligência artificial impulsionando agora um aumento na atividade online, esse número está crescendo rapidamente — assim como as reclamações dos residentes próximos.

O boom dos data centers nos EUA enfrenta o desafio do ativismo local — com US$ 64 bilhões em projetos atrasados ou bloqueados em todo o país, de acordo com um relatório do grupo de monitoramento Data Center Watch.

E as preocupações não se limitam apenas à construção dos data centers. Também se referem ao consumo de água. Manter esses servidores refrigerados requer muita água.

"Esses processadores esquentam muito", afirmou Mark Mills, do Centro Nacional de Análise de Energia, perante o Congresso em abril. "É preciso muita água para resfriá-los."

Muitos centros usam sistemas de resfriamento evaporativo, em que a água absorve o calor e evapora — semelhante à forma como o suor absorve e libera o calor do nosso corpo. Em dias quentes, uma única instalação pode consumir milhões de litros.

Um estudo estima que os data centers impulsionados por inteligência artificial poderiam consumir entre 4,2 bilhões e 6,6 bilhões de metros cúbicos de água a nível mundial até 2027.

Poucos lugares ilustram essa tensão com mais clareza do que a Geórgia, um dos mercados de data center que mais cresce nos EUA.

Seu clima úmido oferece uma fonte de água natural e mais econômica para refrigeração dos data centers, o que torna o Estado atraente para os desenvolvedores. Mas essa abundância pode ter um custo.

Gordon Rogers é o diretor executivo da Flint Riverkeeper, uma organização sem fins lucrativos que monitora a saúde do rio Flint, na Geórgia.

Ele levou nossa equipe de reportagem a um riacho a jusante de um canteiro de obras de um data center que está sendo construído pela empresa americana Quality Technology Services (QTS).

George Dietz, um voluntário local, coleta uma amostra da água e coloca em um saco plástico transparente. A água está turva e marrom.

"Não deveria ter essa cor", diz ele. Para ele, isso sugere fluxo de sedimentos — e possivelmente floculantes. Esses produtos químicos são usados na construção civil para fixar o solo e evitar erosão, mas se escoarem para o sistema hídrico, podem criar lodo.

A QTS afirma que seus data centers atendem a altos padrões ambientais e geram milhões em receita tributária a nível local.

Embora a construção desses data centers seja realizada com frequência por empreiteiras terceirizadas, são os moradores que devem arcar com as consequências.

"Eles não deveriam fazer isso", diz Rogers. "Um proprietário mais rico não tem mais direitos de propriedade do que um proprietário com menos recursos."

Os gigantes da tecnologia dizem que estão cientes dos problemas, e afirmam que estão tomando providências.

"Nossa meta é que, até 2030, estaremos devolvendo mais água às bacias hidrográficas e às comunidades onde operamos os data centers do que extraindo", diz Will Hewes, líder global de gestão de recursos hídricos da Amazon Web Services (AWS), que opera mais data centers do que qualquer outra empresa no mundo.

Ele diz que a AWS está investindo em projetos como reparos de vazamentos, coleta de água da chuva e uso de águas residuais tratadas para refrigeração. Na Virgínia, a empresa está trabalhando com fazendeiros para reduzir a contaminação por nutrientes na Baía de Chesapeake, o maior estuário dos EUA.

Na África do Sul e na Índia — onde a AWS não usa água para refrigeração —, a empresa ainda está investindo em iniciativas de acesso e qualidade da água.

No continente americano, diz Hewes, a água só é usada em cerca de 10% dos dias mais quentes do ano.

Ainda assim, os números são significativos. Uma única consulta de inteligência artificial — por exemplo, uma solicitação ao ChatGPT — pode usar uma quantidade de água equivalente a uma garrafa pequena que você compra no supermercado. Multiplique isso por bilhões de consultas por dia, e a dimensão fica clara.

O professor Rajiv Garg ensina computação em nuvem na Universidade Emory, em Atlanta. Ele diz que os data centers não vão desaparecer — na verdade, estão se tornando a espinha dorsal da vida moderna.

"Não há como voltar atrás", afirma Garg.

Para o acadêmico, o segredo é pensar a longo prazo: sistemas de refrigeração mais inteligentes, coleta de água da chuva e infraestruturas mais eficientes.

No curto prazo, Garg admite que os data centers vão gerar "uma enorme pressão". Mas o setor está começando a se voltar para a sustentabilidade.

Isso não serve de consolo, no entanto, para proprietários como Beverly Morris.

Os data centers se tornaram mais do que uma simples tendência do setor — eles agora fazem parte da política nacional. O presidente americano, Donald Trump, prometeu recentemente construir o maior projeto de infraestrutura de inteligência artificial da história, classificando-o como "um futuro impulsionado por dados americanos".

Na Geórgia, o Sol bate forte em meio à densa umidade — um lembrete de por que o Estado é tão atraente para os desenvolvedores de data centers.

Para os moradores locais, o futuro da tecnologia já está aqui. É barulhento, sedento e, às vezes, difícil de conviver com ele.

À medida que a inteligência artificial cresce, o desafio é claro: como impulsionar o mundo digital do amanhã sem esgotar o recurso mais básico de todos — a água.

A taxação dos mais ricos pelo mundo

O Brasil e boa parte do mundo vêm debatendo formas de fazer os super-ricos pagarem mais tributos, já que essa pequena parcela de pessoas está cada vez mais rica, mas paga proporcionalmente muito menos tributos do que o resto da população.

Por exemplo, segundo um estudo divulgado em julho pela Oxfam Brasil, os 10% de brasileiros mais pobres pagam, em proporção da sua renda, três vezes mais tributos do que 0,1% mais rico da população. A pesquisa aponta que os mais pobres comprometem 32% da sua renda com tributos, contra 10% dos mais ricos.

Não é tarefa fácil mudar esse panorama. Os super-ricos são em geral bem conectados com a classe política e os tomadores de decisão. Além disso, junto com a globalização, veio a maior facilidade de mover dinheiro de um país para outro, e o enfraquecimento das instituições multilaterais torna mais difícil a adoção de iniciativas globais.


Os defensores de cobrar mais impostos sobre os super-ricos, entre os quais estão alguns bilionários, afirmam que a medida seria importante para aumentar a justiça tributária e usar os recursos extras para enfrentar problemas como a pobreza e o aquecimento global. Já seus críticos argumentam que a medida poderia reduzir os incentivos ao empreendedorismo e à inovação.

As propostas sobre como cobrar mais tributos dos indivíduos super-ricos se dividem em dois grandes grupos:

Aumentar o imposto sobre a renda

Essa é a forma tradicional que países vêm adotando para cobrar mais impostos dos mais ricos, por meio da progressividade das alíquotas do imposto de renda – quanto maior a renda, maior a alíquota de imposto devido.

A maior faixa do Imposto sobre Renda de Pessoas Físicas no Brasil (IRPF) é hoje de 27,5%. Em outros países, a alíquota máxima atual é a seguinte, segundo um relatório da consultoria PwC:
Alemanha: 45%
Argentina: 35%
Chile: 40%
China: 45%
Colômbia: 39%
França: 45%
India: 39%
Indonésia: 35%
Itália: 43%
Japão: 45%
México: 35%
Noruega: 39,7%

No entanto, apenas cobrar uma alíquota maior de quem ganha mais não funciona perfeitamente, pois muitos super-ricos não recebem salários, e sim lucros e dividendos de empresas que podem estar sujeitos a um regime de tributação distinto.

Eles também costumam ter à disposição consultores que os orientam como organizar seus investimentos de modo a pagar menos impostos – por exemplo, aplicando o dinheiro em fundos específicos ou abrindo empresas em paraísos fiscais.

Uma das formas que os governos têm para tentar corrigir essa distorção é cobrar uma alíquota mínima de imposto de renda dos super-ricos, independentemente da fonte da renda.

Esse mecanismo está em um projeto de lei enviado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso, aprovado nesta quarta-feira pela comissão especial da Câmara encarregada de analisá-lo.

O texto estabelece que as pessoas que recebem mais de R$ 50 mil por mês, incluindo dividendos e juros, terão que pagar uma alíquota mínima de imposto de renda, que será progressiva e de até 10%.

Se uma pessoa na faixa superior, com renda anual superior a R$ 1,2 milhão, já pagou mais do que 10%, não precisa pagar nada mais. Porém, se pagou 8%, terá que pagar mais 2% ao fazer sua declaração à Receita, segundo a proposta.

Outras formas indiretas de aumentar o pagamento de imposto sobre a renda é apertar a cobrança sobre alguns instrumentos usados pelos super-ricos.

Em dezembro de 2023, por exemplo, o Brasil sancionou uma lei para cobrar imposto de renda sobre o rendimento anual de fundos exclusivos e offshores – antes, o tributo era cobrado somente quando e se o recurso fosse resgatado.

Quando a lei foi aprovada, apenas 2,5 mil brasileiros aplicavam em fundos exclusivos, que somavam R$ 756 bilhões em patrimônio e respondiam, sozinhos, por 12,3% da indústria de fundos do Brasil.

Criar um imposto sobre o patrimônio

Além de cobrar imposto sobre a renda, alguns poucos países também cobram um imposto anual sobre o patrimônio dos super-ricos.

Entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas quatro cobram imposto sobre o patrimônio:
Colômbia: alíquota progressiva de 0,5% a 1,5% para patrimônio acima de 3,6 bilhões de pesos colombianos (R$ 5 milhões)
Espanha: alíquota progressiva de 0,2% a 3,5% para patrimônio acima de 167 mil euros (R$ 1 milhão)
Noruega: alíquota de 1% para patrimônios superiores a 1,7 milhão de coroas norueguesas (R$ 950 mil).
Suíça: alíquota de 0,02% a 1,02%, dependendo do cantão e do patrimônio

Outros quatro países da OCDE cobram taxas sobre alguns tipos de patrimônio, mas não sobre a fortuna total de uma pessoa: França, Itália, Bélgica e Holanda.

Cobrar um imposto sobre o patrimônio é o cerne de uma proposta do Brasil feita no ano passado no âmbito do G20, quando o país exercia a presidência rotativa do grupo, que reúne tanto potências industrializadas do Ocidente como países do Sul Global, além da União Europeia e da União Africana.

A proposta é cobrar uma taxa anual de 2% sobre o patrimônio das pessoas que têm mais de 1 bilhão de dólares (R$ 5,59 bilhões) em ativos. Esse grupo reúne cerca de 3 mil pessoas em todo o mundo, que pagam hoje tributos equivalentes a 0,3% de seu patrimônio por ano.

Segundo o economista francês Gabriel Zucman, que elaborou a proposta a pedido do governo brasileiro, a medida geraria receitas adicionais de 200 bilhões a 250 bilhões de dólares por ano.

A declaração final da cúpula do G20 em novembro de 2024, no Rio de Janeiro, expressou apoio à ideia de buscar formas para que os super-ricos sejam taxados de forma eficaz, mas não houve acordo sobre uma proposta concreta de como fazer isso.

Cobrar imposto sobre grandes patrimônios é um assunto mais controverso do que aumentar o imposto sobre a renda. Críticos afirmam que essa medida, se adotada por países individualmente, provocaria fuga de capitais para outras nações e, na prática, poderia anular os rendimentos obtidos de investimentos.

A Constituição brasileira prevê a existência de um imposto sobre grandes fortunas, mas ele nunca foi criado, apesar de diversos projetos de lei apresentados nesse sentido.

Uma dessas tentativas ocorreu no ano passado, quando o Congresso discutia a reforma tributária. O PSB e as federações PT-PCdoB-PV e PSOL/Rede propuseram uma emenda para criar um imposto anual sobre fortunas acima de R$ 10 milhões.

A alíquota seria de 0,5% para fortunas de R$ 10 milhões a R$ 40 milhões, de 1% para aquelas de R$ 40 milhões a R$ 80 milhões, e de 1,5% sobre as fortunas acima de R$ 80 milhões – e foi rejeitada pela Câmara, por 262 votos a 136.
Deutsche Welle

A hora dos predadores

Em livrarias em Paris, neste verão, logo na entrada aparece em destaque um pequeno livro que tem a ambição de ajudar a compreender o caos no qual nos encontramos hoje. De autoria do conselheiro político ítalo-suíço Giuliano da Empoli, “A Hora dos Predadores” examina contornos de uma nova ordem mundial, uma realidade que o autor considera “fruto apodrecido” de aliança de gigantes da tecnologia e dirigentes populistas, onde o uso da força bruta se torna o modo de funcionamento.

Antigo assessor do ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi (centro-esquerda) e acompanhante frequente do presidente francês Emmanuel Macron em viagens ao exterior, esse professor da Science Po, famosa universidade parisiense, faz curtos e inquietantes perfis de membros da chamada “internacional reacionária”, indo de Donald Trump a Nayib Bukele, presidente de El Salvador, e o príncipe saudita Mohammed bin Salman, além de patrões de grandes companhias tecnológicas como Elon Musk e Sam Altman (da OpenAI).

A constatação é de que o mundo muda velozmente marcado por avanços da inteligência artificial, ataques reiterados contra a democracia, multiplicação de conflitos militares. Como ele nota em diferentes entrevistas, há momentos em que a realidade tem mais imaginação que a ficção.


Donaldo Trump recebe destaque nessa análise. Para Da Empoli, o atual presidente americano lidera um cortejo colorido de autocratas descomplexados, de conquistadores da tecnologia, de reacionários e de conspiradores impacientes por confrontos. Considera que uma era de violência sem limites está se abrindo diante de nós e, como na época de Leonardo da Vinci, os defensores da liberdade parecem singularmente mal preparados para reagir.

Se em meados da década de 2010 os brexiters (defensores da saída do Reino Unido da União Europeia), Trump e Bolsonaro pareciam ser um grupo de outsiders, desafiando a ordem estabelecida e adotando uma estratégia de caos, como fazem insurgentes em guerra com uma potência superior, hoje a situação é oposta: o caos digital, por exemplo, não é mais a arma dos rebeldes, mas a marca registrada dos poderes dominantes.

Observa o autor que, se o velho mundo pressupunha salvaguardas - respeito à independência de certas instituições, direitos humanos e direitos das minorias, atenção às repercussões internacionais - elas não têm mais o menor valor na era dos predadores.

No novo mundo, todos os processos atuais serão levados às suas consequências extremas, nenhum deles contido ou governado de alguma forma. Os predadores têm uma vantagem decisiva, porque estão acostumados a evoluir em um mundo sem limites.

Para o autor, Trump é assim uma forma de vida extraordinariamente bem adaptada aos dias atuais. Uma de suas características, da qual seus assessores reclamam em voz baixa quando ele acha que deveriam estar alertando em alto e bom som, é que o presidente da maior potência do mundo nunca lê. Isso representa um desafio considerável para qualquer pessoa que deseje transmitir a Trump o mínimo de conhecimento estruturado.

Para Giuliano da Empoli, na verdade isso não tem importância, porque na hora dos predadores o conhecimento é um dos piores inimigos. O que conta acima de tudo é a ação em ambiente caótico que exige decisões ousadas, que cativem a atenção do público e, ao mesmo tempo, influenciem os oponentes.

Nessa era de predadores, constata que não são mais os líderes da antiga periferia que estão tentando se assemelhar aos líderes ocidentais, mas sim estes que estão adotando traços alógenos. Se o fato de Trump governar os EUA com um círculo de familiares e associados desconcerta os políticos europeus, o mesmo não acontece com os autocratas, que acham perfeitamente natural recorrer a um parente ou parceiro de negócios do presidente para obter tratamento preferencial.

A única coisa que conta é o resultado. E lembra uma frase do presidente argentino Javier Milei, à vontade no novo cenário global, segundo a qual a diferença entre um louco e um gênio é o sucesso.

Os predadores, escreve ele, se concentram na forma, não na substância. Prometem resolver os problemas reais das pessoas, como crime, custo de vida, imigração. E o que dizem seus oponentes, os liberais, os progressistas, os bons democratas? Regras, democracia em risco, proteção de minorias...

Na era dos predadores, o equilíbrio explodiu. As novas elites tecnológicas, os Musks e os Zuckerbergs, não têm nada em comum com os tecnocratas de Davos. Seu modo de vida não se baseia no gerenciamento competente do que existe, mas sim no desejo de “foutre le bordel”, fazer bagunça. A ordem, a prudência e o respeito às regras são anátemas para aqueles que fizeram sua fama agindo rapidamente e destruindo as coisas, conforme o lema do Facebook.

Para Giuliano da Empoli, essa situação era evitável. Acha que, se chegamos a esse ponto, é também por uma forma de submissão cultural de velhas elites políticas face à máquina da tecnologia. E o que temos é o caos digital, ou “ritual de degradação”, ausência de regras que está se tornando hegemônica.

A obstinação com a qual predadores políticos à la Trump e predadores da tecnologia como Musk e Zeckerberg avançam sobre a Europa e outros países, sua regulação e instituições, deixa claro como eles percebem tudo isso como um obstáculo.

A sanção anunciada por Trump contra o Brasil, na semana passada, é uma pequena ilustração do que procura mostrar Da Empoli.

Por que a vida gira em torno do dinheiro?

O que é para mim pelo dinheiro, o que eu posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Tão grande quanto a força do dinheiro é a minha força. As qualidades do dinheiro são minhas – [de] seu possuidor – qualidades e forças essenciais. O que eu sou e consigo não é determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar para mim a mais bela mulher. Portanto, não sou feio, porque o efeito da fealdade, sua força repelente, é anulado pelo dinheiro. Eu sou – segundo minha individualidade – coxo, mas o dinheiro me proporciona vinte e quatro pés; não sou, portanto, coxo; sou um ser humano mau, sem honra, sem escrúpulos, sem espírito, mas o dinheiro é honrado e, portanto, também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, logo, é bom também o seu possuidor, o dinheiro me isenta do trabalho de ser desonesto, sou, portanto, presumido honesto; sou tedioso, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas, como poderia seu possuidor ser tedioso? Além disso, ele pode comprar para si as pessoas ricas de espírito, e quem tem o poder sobre os ricos de espírito não é ele mesmo mais rico de espírito do que o rico de espírito? Eu, que por intermédio do dinheiro consigo tudo o que o coração humano deseja, não possuo, eu, todas as capacidades humanas? Meu dinheiro não transforma, portanto, todas as minhas incapacidades no seu contrário?
Karl Marx

Em várias sociedades e épocas distintas, as mercadorias são qualquer coisa que satisfaça às necessidades e os desejos humanos. Quanto mais mercadorias (cada sociedade dará um valor específico para os objetos), o indivíduo terá um status social determinado, de modo que a riqueza de um homem é medida pela quantidade de mercadoria que possui. Mas foi no capitalismo que o dinheiro se tornou a chave e a finalidade para se viver em sociedade.

“Os nativos de regiões da Índia usavam amêndoas. Os guatemaltecos usavam milho, os antigos babilônios e assírios usavam cevada. Nativos das Ilhas Nicobar usavam cocos, e os mongóis computavam tijolos”. Porém, de acordo com Jack Weatherford, “provavelmente seria […] difícil para eles compreender o nosso mundo, organizado como é, em torno dessa curiosa abstração chamada dinheiro”. Porque os objetos usados para troca nessas sociedades tradicionais possuíam um valor de uso, já o dinheiro tem como finalidade apenas o valor de troca.

Antes se trocava mercadoria por dinheiro para se comprar os objetos necessários para a satisfação do indivíduo. Uma pessoa ia até a feira levando o produto da sua horta, por exemplo, e trocava por dinheiro. Com a ascensão dos comerciantes nos centros urbanos esse processo se transforma. O objetivo não é mais a mercadoria. O comerciante compra do produtor e repassa com a finalidade de adquirir mais dinheiro. Aqui já se encontra o germe de uma lógica eterna e gananciosa de acumulação já que o comerciante retira de circulação mais dinheiro que colocou no início do processo.

Karl Marx explica que o dinheiro de papel ganhou predominância na lógica de crédito, substituindo, de forma irreversível, os metais preciosos. “À medida que se amplia o sistema de crédito, desenvolve-se a função de meio de pagamento exercida pelo dinheiro. Através dessa função, ele adquire formas próprias de existência no domínio das grandes transações, ficando as moedas de ouro e prata geralmente delegadas para o comércio a retalho”.

Ao longo dos séculos XVI até os finais do século XVIII, essa lógica foi alimentada pela burguesia que tomaria o poder e, consequentemente, tornaria o que tem em abundância (o dinheiro) como elemento central de toda a vida em sociedade. Uma classe, quando assume o poder, tende a levar o resto da sociedade a circular em torno do que ela tem o domínio. Assim como a sociedade medieval girava em torno da terra, já que a nobreza era a detentora das terras, a sociedade capitalista vai girar em torno do dinheiro, já que a classe dominante, isto é, a burguesia, é a grande detentora do capital. As ideias dominantes são sempre as ideias da classe dominante.

A burguesia, como classe revolucionária, “dilacerou os variados laços feudais que ligavam o ser humano a seus superiores naturais, e não deixou subsistir de homem para homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o insensível ‘pagamento em dinheiro’”.

“É sabido que o dinheiro existe desde as civilizações primevas, como a Mesopotâmia, mas somente nas economias de mercado capitalistas a sociabilidade é construída e articulada pelos nexos monetários”. Para a burguesia manter o poder, ela precisou construir um mundo que girasse em torno do dinheiro. Um processo que não foi imposto imediatamente, já que a mutação da mentalidade demanda uma longa duração. A nobreza ainda impregnava a alta esfera da sociedade com seu espírito feudal e, de acordo com Arno Mayer, “a terra continuou a ser a principal forma de riqueza e renda das classes dirigentes e governantes até 1914”. Portanto, o projeto burguês de submeter tudo e todos ao totalitarismo do dinheiro se dará por concluído nos anos 1970. 

Após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo sofreu restrições, o que provocou o nascimento do Estado de bem-estar social. O contexto da época levou o Ocidente a uma espécie de capitalismo tardio em que os mercados não desfrutavam da liberdade do período do entreguerras. E com os avanços da economia e das conquistas tecnológicas da URSS, muitos acreditavam que os dias do capitalismo estavam contados.

Todavia, os detentores do capital resistiram a essas restrições com o objetivo de revitalizar a fé no modo de produção que lhes dava sustentação. De acordo com Wolfgang Streeck, isso ocorreu através de “uma política estatal que comprou com dinheiro tempo ao sistema capitalista, garantindo uma espécie de lealdade das massas ao projeto neoliberal de sociedade enquanto sociedade de consumo de uma forma que a teoria do capitalismo tardio não podia, pura e simplesmente, imaginar”.

A Escola de Chicago desenvolve o paradigma da escolha racional, ponto central na argumentação de Milton Friedman, Theodore Schultz e Gary Becker. De acordo com Joel Spring, “a premissa do paradigma da escolha racional é que o homem age por meio do cálculo entre custo e benefício”. Foi somente nesse momento que o propósito subjetivo da burguesia, detectado por Marx e Engels em 1848, se concretizou. Foi nesse instante que a antiga classe revolucionária (que se tornou conservadora) “afogou nas águas gélidas do cálculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalhereisco, do sentimentalismo pequeno-burguês”. A. Hayek é um dos grandes pilares da mentalidade que dará sentido a uma vida que gira em torno do dinheiro. Em seu clássico O caminho da servidão, o austríaco associa liberdade ao dinheiro na sua crítica à economia planificada. “Se lutamos pelo dinheiro, é porque ele nos permite escolher da forma mais ampla como melhor desfrutar os resultados de nossos esforços”. Se houvesse outra recompensa, como as oferecidas pelas políticas públicas, como educação, moradia ou alimentação, “significaria apenas que o beneficiário já não teria liberdade de escolha e que o dispensador das recompensas determinaria não somente o seu valor mas também a forma específica em que elas seriam desfrutadas”. Ou seja, o dinheiro é a única recompensa que nos torna livres para termos o que quisermos. Com a posse do dinheiro, ninguém poderá decidir a maneira como devo viver, o que compro, a educação que devo escolher, a moradia e a comida que eu desejo para mim.

Após essa teoria neoliberal, tudo passou a estar submetido à lógica do investimento e da recompensa. Ser inteligente é pensar se vale a pena investir em determinada ação para colher vantagens econômicas pessoais. Isso se transformou em uma mentalidade adentrando o “plano mais profundo da psicologia coletiva, no qual estão os anseios, esperança, medos, angústias e desejos assimilado e transmitidos inconscientemente, e exteriorizados de forma automática e espontânea pela linguagem cultural de cada momento histórico em que se dá essa manifestação”. É algo que atinge todas as classes sociais, como Jacques Le Goff afirmava: “a mentalidade de um indivíduo histórico, sendo esse um grande homem, é justamente o que ele tem de comum com outros homens de seu tempo”. Assim, a religião, a educação, as relações amorosas, tudo foi colonizado por uma lógica matemática relacionada às vantagens que o indivíduo terá ao adotar uma determinada ação (toda ação passa a ser investimento, como na Bolsa de Valores). Esse fenômeno se tornou parte da mentalidade, e muitos passam a acreditar que a fortuna de um indivíduo está relacionada a sua competência em saber escolher racionalmente as suas ações.

Foi assim que os matemáticos de Chicago reduziram a economia a números levando à financeirização da economia. A matemática se torna a ciência mais importante porque a política econômica que visa apenas o lucro, a eficácia do cálculo do investimento, tornou-se predominante.

Thierry Guilbert mostra que esse pensamento se espalhou pela sociedade principalmente porque foi incorporado pelos meios de comunicação. “Esse pensamento econômico hoje globalizado, mas também ‘desistoricizado’ e ‘constituído em modelo e medida de todas as coisas’, propagou-se dos domínios econômicos aos sociais, políticos, esportivos, midiáticos, educativos, ecológicos… Os economistas na origem do discurso neoliberal escolheram, no início dos anos 1980, um duplo modo de difusão: ao mesmo tempo (pseudo) científico, entre pares de uma mesma disciplina e de um mesmo meio social, e midiático (rádio, televisão, cinema, revista, jornais…), permitindo assim ter acesso ao conjunto da sociedade”. 

O neoliberalismo, o programa de pensamento que faz a vida girar em torno do dinheiro, conquistou a mídia por ser “uma doutrina fácil de compreender”. Tudo se resume ao 2 + 2 = 4. Essa mentalidade neoliberal faz brotar dos confins mais obscuros da internet os “intelectuais orgânicos da ignorância”, como Olavo de Carvalho, Leandro Narloch etc.. e os indivíduos idiossubjetivados, “incapazes de reflexão, acríticos e subordinados às informações seletivas produzidas pelos meios de comunicação de massa dominados por grupos econômicos que exercem pressão com o objetivo de manipular a opinião pública”. 

Se a vida gira em torno do dinheiro porque este é o objeto que a burguesia tem em abundância, a única forma de transformar essa lógica será quando a classe trabalhadora tornar-se classe dominante. A partir desse momento, seguindo a lógica histórica que expomos anteriormente, a vida giraria em torno do trabalho, já que aos que foram excluídos os meios (o dinheiro, na sociedade capitalista) para se adquirir mercadorias, passaram a ter apenas o trabalho (que, na sociedade capitalista, está submetido ao dinheiro, sendo uma mercadoria como outra qualquer). O trabalho, portanto, seria o ponto gravitacional de uma sociedade dominada pelos trabalhadores.

Pensar em um mundo onde as pessoas trabalham sem remuneração monetária parece utopia, mas um mundo em que a terra fosse um objeto submetido ao dinheiro era uma utopia que se realizou quando a burguesia se tornou a classe dominante. Sendo assim, seria lógico imaginar que o trabalho seria o elemento central dessa sociedade pós-capitalista.

Escusado dizer que o dinheiro não seria abolido imediatamente, mas deixaria paulatinamente de ser o centro das relações sociais, assim como a terra foi se submetendo ao valor supremo do dinheiro.

Todos seriam trabalhadores, desde o campo até a construção de instrumentos virtuais e espaciais. Bastaria trabalhar para se ter acesso aos bens produzidos pelo trabalho de todos. O indivíduo não teria (parafraseando Marx e Engels) uma única atividade, mas poderia aprimorar-se no ramo que o satisfaça, a produção geral seria regulada pela que me daria a possibilidade de hoje fazer determinada coisa, amanhã outra, pintar pela manhã, desenvolver sites e aplicações online à tarde, analisar dados ao anoitecer, tocar algum instrumento depois do jantar, segundo meu desejo, sem que jamais me tornasse pintor, programador, analista de dados ou músico.

O indivíduo poderia trabalhar no que quisesse, não para ganhar dinheiro, mas para aprimorar seus dons. Não haveria para quem vender a força de trabalho, já que o dinheiro seria menos importante social e culturalmente. Outras formas de reconhecimento fagocitariam a recompensa em dinheiro. Talvez o mérito fosse de fato reconhecido. O trabalho estaria livre do capital, a criação humana estaria livre das imposições do lucro. Os remédios, a tecnologia, a educação, o meio ambiente, tudo estaria submetido à criatividade humana emancipada do capital.

Hoje vivemos, nas palavras de Frederic Jameson, em “uma sociedade em que o valor de troca se generalizou de tal ponto que mesmo a lembrança do valor de uso se apagou”. Na sociedade em que a vida giraria em torno do trabalho, o valor de uso seria mais importante que o valor de troca, este, tenderia, com o tempo, a se apagar.

Enfim, não adianta especular o que seria essa sociedade. Não queremos nos confundir com uma ficção científica soft. O certo é que uma outra sociedade nasceria das entranhas de um mundo dominado pelo dinheiro, com outros valores e propósitos de vida.
Raphael Fagundes

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Pensamento do Dia



Como arruinar uma potência

Há muitas formas de levar um país à breca —e todas sempre incluem a política exterior. A mais notável delas é iniciar uma guerra e perdê-la. Na versão eletrônica da revista americana "Foreign Policy", Stephen M. Walt, professor da Universidade Harvard, acaba de publicar o artigo "How to ruin a country" (Como arruinar um país), no qual descreve passo a passo a destruição da política externa dos Estados Unidos empreendida por Donald Trump.

Segundo o autor, são cinco atos letais, todos já cometidos pelo titular da Casa Branca. O primeiro é demitir funcionários capazes —com autonomia de pensamento— e substituí-los por sicofantas incompetentes, leais até a medula e totalmente dependentes da vontade do chefe. O segundo ato consiste em brigar com o maior número possível de países, a começar dos aliados.


O terceiro é ignorar a força do nacionalismo alheio, agindo de forma a despertá-lo nos países que agride e ofende. O quarto é violar normas, abandonar acordos e ser imprevisível, deixando claro que as regras internacionais, aquelas mesmas que os Estados Unidos ajudaram a criar, não passam de estorvo para o exercício do poder americano no mundo. A utilização das tarifas externas como instrumento de chantagem e intimidação, agora também incluindo o Brasil, é disso exemplo óbvio.

Finalmente, o quinto passo consiste em minar os fundamentos daquele poder, investindo feito tanque de guerra para destruir a vantagem científica e tecnológica resultante do conhecimento produzido por suas grandes universidades, atualmente sob cerco do Executivo.

O resultado, prevê o professor Walt, tornará os Estados Unidos mais pobres, mais débeis, menos respeitados e influentes mundo afora. Estudiosos da política externa de Washington concordam que a ação do governo Trump diverge dos diferentes modelos vigentes no passado: mais isolacionistas ou mais abertos ao mundo; mais realistas ou mais empenhados na promoção da democracia representativa e seus valores.

São poucos, porém, os que se arriscam a explicar essa ruptura tão dramática com o passado. O economista Dani Rodrik, também de Harvard, sugeriu em artigo transcrito no jornal Valor, de 12/7, que a ciência econômica não consegue tratar de um governo que não se mova pelo cálculo do custo/benefício de sua ação, mas por ideologia. Sim, ideologia pesa, mas tampouco dá conta de explicar o desastre da política exterior trumpista —bem como da doméstica.

Sem dúvida, nas ações de Trump há sempre ideologia reacionária que fantasia a volta a um passado idealizado —um Estados Unidos branco e protegido do exterior pelas barreiras alfandegárias e a polícia das fronteiras. Soma-se a isso desabrida defesa dos grandes financiadores de campanha —as big techs— e dos interesses empresariais do clã trumpista. Além de egolatria, patente ignorância sobre o mundo e, sim, pura insânia.

A mesma mistura que encontramos aqui, encarnada em Jair Bolsonaro e no bolsonarismo, em sua versão familiar ou no séquito de políticos, incapazes de entender o jogo internacional e sempre dispostos a colocar os mesquinhos interesses do chefe acima até dos de suas bases eleitorais, que dirá daquilo que é importante para o país.

Pare o plano distópico de 'cidade humanitária' de Israel — antes que seja tarde demais

Pense na ironia trágica e insuportável: o governo israelense — fundado após o Holocausto — está agora construindo um enorme campo de concentração para toda uma população.

O governo israelense acaba de apresentar um dos esquemas mais descaradamente genocidas da memória moderna — e, a menos que ajamos imediatamente, o mundo deixará isso acontecer novamente.

Conforme noticiado pelo Haaretz, o Ministro da Defesa israelense, Israel Katz, propõe alojar à força cerca de 600 mil palestinos — e, eventualmente, toda a população de Gaza — em uma "cidade humanitária" cercada, a ser construída sobre as ruínas de Rafah, no sul de Gaza. O plano é "triar" a população, separar supostos membros do Hamas e, em seguida, pressionar os civis restantes — homens, mulheres e crianças — a deixar Gaza "voluntariamente" e ir para outro país.

Qual país? Isso ainda não foi definido. A questão não é a realocação, mas sim a eliminação. Isso reflete um objetivo de longa data de muitos israelenses, especialmente da direita, de assumir o controle total de Gaza e livrá-la dos palestinos.

A ONU alertou que a deportação ou transferência forçada da população civil de um território ocupado é estritamente proibida pelo direito internacional humanitário e "equivale a uma limpeza étnica".


Enquanto todos os olhares estão voltados para um possível cessar-fogo, Gallant não está interessado em paz — ele está interessado em uma "solução final". Uma aceleração da segunda Nakba que temos testemunhado nos últimos 20 meses. Aliás, ele afirmou que a construção começaria durante um cessar-fogo de 60 dias. Então, qual o sentido de um cessar-fogo, se ele for usado para construir um campo de concentração?

Uma vez que os palestinos sejam alojados neste campo, eles não poderão sair para outras partes de Gaza. Não poderão retornar ao que restou de suas casas, seus bairros, suas fazendas, suas escolas. Ficarão presos dentro desta zona militarizada, sob vigilância constante, sob a mira de armas até que Israel possa providenciar sua deportação.

Pense na ironia trágica e insuportável: o governo israelense — fundado após o Holocausto — está agora construindo um enorme campo de concentração para toda uma população.

Se isso parece impensável, veja o que Israel já conseguiu fazer.

Nos últimos 20 meses, o mundo assistiu — e em grande parte possibilitou — uma campanha genocida em Gaza. Mais de 55.000 palestinos foram massacrados, a maioria mulheres e crianças. Israel bombardeou hospitais, escolas, campos de refugiados e mesquitas. Arrasou bairros inteiros com listas de morte geradas por IA. Assassinou jornalistas, atacou ambulâncias, destruiu padarias e sistemas de abastecimento de água.

Utilizou a fome como arma de guerra, bloqueando deliberadamente caminhões de ajuda humanitária, atacando comboios e levando a população à fome e ao desespero. E, numa reviravolta cruel, criou a Fundação Humanitária de Gaza , apoiada pelos EUA — um esquema para canalizar ajuda por rotas controladas por Israel e marginalizar a ONU e ONGs experientes. Seus chamados "pontos de distribuição" são, na verdade, armadilhas mortais , onde pessoas desesperadas são baleadas dia após dia, arriscando suas vidas para conseguir um pouco de comida.

Essa fome planejada não é um acidente. É uma estratégia — uma forma de punição coletiva em uma escala raramente vista nos tempos modernos.

Já falhamos com o povo de Gaza — repetidas vezes. Falhamos quando ignoramos as crianças soterradas pelos escombros. Falhamos quando permitimos que o dinheiro dos nossos impostos financiasse as mesmas bombas que destruíram os campos de refugiados. Falhamos quando continuamos fingindo que ainda havia uma linha que Israel não cruzaria.

Agora Katz está nos dizendo — explicitamente — o que vem a seguir: internação em massa e expulsão forçada. E, a menos que nos levantemos com toda a nossa indignação, fracassaremos novamente.

Sejamos absolutamente claros: a infraestrutura para este plano já está sendo construída. Netanyahu e Trump estão pressionando governos corruptos do Sul Global para que aceitem os deportados. Esta não é uma tática de negociação para fortalecer a posição de Israel nas negociações de cessar-fogo — é a próxima fase de um genocídio que temos acompanhado em tempo real há quase dois anos.

E o que o governo americano está fazendo? Continua emitindo declarações sem sentido sobre o "direito de Israel de se defender". Continua enviando armas. Continua bloqueando a responsabilização nas Nações Unidas — e até mesmo sancionando autoridades como a Relatora Especial da ONU, Francesca Albanese, por ousarem se manifestar.

O presidente Trump poderia impedir isso hoje mesmo — cortando a ajuda militar, apoiando as investigações do Tribunal Penal Internacional e declarando que o deslocamento forçado de palestinos não será tolerado. Mas, em vez disso, ele continua sonhando em transformar Gaza em um resort no Oriente Médio para os ultrarricos.

Enquanto isso, mais governos árabes se preparam para normalizar os laços com Israel, fechando acordos com criminosos de guerra enquanto seus compatriotas árabes passam fome, são bombardeados e agora ameaçados de exílio em massa. Onde está o clamor do Cairo, Riad, Amã? Não existe absolutamente nenhuma linha vermelha?

Um ponto positivo no cenário internacional é o Grupo de Haia, que convocará uma reunião de emergência na Colômbia nos dias 15 e 16 de julho. Este crescente bloco de nações uniu-se ao caso de genocídio da África do Sul contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça. Esses países estão assumindo uma posição corajosa para defender o direito internacional e a vida palestina. Todas as nações que afirmam valorizar a justiça devem juntar-se a eles — imediatamente.

E aqui nos Estados Unidos, cada membro do Congresso deve ser pressionado — em alto e bom som, implacavelmente — a assumir uma posição pública. Chega de linguagem vaga. Chega de se esconder atrás de roteiros melífluos. Exigimos oposição pública imediata a este plano de "cidade humanitária" — e o corte total do apoio militar a Israel. Este é um momento de ajuste de contas moral. Escolha um lado.

Não se iluda pensando que isso não pode acontecer. Está acontecendo. As bases estão sendo construídas. Os muros estão sendo erguidos. Os voos de deportação estão sendo negociados.

Não há terreno neutro. Isto não é um debate político. Isto é genocídio — diante das câmeras, com cobertura diplomática e com o dinheiro dos nossos impostos.

A hora de deter o plano distópico de Israel não é amanhã. É agora.

Levante-se. Fale abertamente. Inunde as ruas. Bombardeie o Congresso. Exija responsabilização.

Impeça o plano. Salve Gaza. Antes que seja tarde demais.

A volta das tarifas, com ou sem recuo de Trump

Como um cão em busca de um osso, Donald Trump sempre retorna às tarifas. Ele agora está propondo uma lista modificada delas sobre uma série de países, incluindo alguns aliados e algumas nações desesperadamente pobres, a serem impostas em 1º de agosto. Será que ele vai recuar de novo? Quem sabe! Mas as chances de ele conseguir acordos que satisfaçam seu mercantilismo irracional parecem mínimas ou inexistentes. Um homem irracional é imprevisível. Talvez desta vez ele esteja falando sério. Se for o caso, a já elevada tarifa média efetiva dos Estados Unidos, de 8,8% em maio, deve subir ainda mais. Estaríamos entrando em um novo mundo.

Basta dar uma olhada em algumas das propostas: tarifas de 50% sobre as importações do Brasil, 40% sobre o Laos e Mianmar, 36% sobre a Tailândia, 35% sobre Bangladesh, 32% sobre a Indonésia, 30% sobre a África do Sul, Sri Lanka e União Europeia, e 25% sobre o Japão e a Coreia do Sul. As tarifas sugeridas ainda estão bastante próximas da fórmula extraordinária apresentada em abril pelo assessor de Trump, Peter Navarro, segundo a qual o fator determinante é a proporção entre o déficit bilateral dos EUA e suas importações bilaterais.



Nunca é demais dizer que essa é uma visão econômica absurda. Não há absolutamente nenhuma razão para que o comércio bilateral seja equilibrado. O fato de não ser não significa, de forma alguma, que o país com superávit esteja “trapaceando”.

Além disso, o saldo comercial total de bens - ou mesmo de bens e serviços - não é a soma de saldos bilaterais determinados de forma independente. Ele é o produto da interação entre rendas líquidas de fatores, fluxos de capital e, acima de tudo, da renda e dos gastos agregados.

É no mínimo insano acreditar que os EUA podem incorrer em um enorme déficit fiscal sem também incorrer em grandes déficits comerciais e em conta corrente, pelo menos enquanto o resto do mundo estiver preparado para financiá-los. O que acontece se, ou quando, o mundo parar de financiar isso? Um colapso financeiro.

Enquanto isso, o emaranhado irracional de tarifas agora propostas provocará grandes distorções nas alocações de recursos. Um dos pontos que o governo Trump parece incapaz de entender é que as tarifas sobre alguns produtos são um imposto sobre a produção de outros. Tarifas elevadas sobre insumos, como o aço e o alumínio, são um imposto sobre os fabricantes dos bens que os utilizam. Se esses fabricantes produzem substitutos às importações, as tarifas podem ao menos compensar parte desses custos. Mas, se eles estiverem produzindo bens para exportação, não há como compensar. Portanto, as tarifas de Trump beneficiarão justamente os setores menos competitivos da economia internacional - à custa dos mais competitivos. Isso faz algum sentido? Obviamente que não.


Pior ainda: essa fixação com os bens do passado é simplesmente ridícula. O que importa é a competitividade no futuro. Trata-se, na prática, do equivalente econômico da tentativa de recriar dinossauros. Como observam David Autor, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e Gordon Hanson, da Universidade Harvard, o desafio para os EUA hoje é a ascensão da China como superpotência tecnológica e científica. Para responder a isso, os EUA precisariam cooperar com seus aliados, investir muito mais em pesquisas científicas e atrair imigrantes talentosos - exatamente o oposto do que Trump está fazendo. “Tornar os EUA grandes novamente”? Dificilmente. Os mercados estão ignorando esses riscos de longo prazo para os EUA. Eles podem estar certos. Mas também podem não estar.

Todos os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) deveriam declarar que quaisquer concessões comerciais feitas aos Estados Unidos serão estendidas a outros membros, em conformidade com o princípio da “nação mais favorecida”

Essas tarifas não são apenas tolas. São perversas. Tomemos apenas dois exemplos. O primeiro é a tarifa de 50% que Trump quer impor ao Brasil. Como ele mesmo deixou claro em uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essa medida é uma retaliação ao julgamento do “mini-me” de Trump, Jair Bolsonaro, acusado de tentar reverter o resultado da última eleição presidencial. Soa familiar? Como observou Paul Krugman, trata-se de mais um capítulo do “Programa de Proteção a Ditadores” de Trump. Além de tudo, Trump não tem autoridade legal para usar tarifas com essa finalidade.

Depois, há as tarifas brutais sobre o Laos. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Laos é muito pobre, com um PIB real per capita de apenas 11% do nível dos EUA. Seu superávit bilateral com os EUA foi também de apenas US$ 800 milhões em 2024! A ideia de que uma superpotência sequer cogite impor tarifas punitivas a um país como esse é mais do que tolice, é revoltante. O que torna essa medida irremediavelmente perversa é que, segundo a CNN, “de 1964 a 1973, os EUA despejaram mais de 2 milhões de toneladas de bombas sobre o Laos... Mais bombas foram lançadas sobre o Laos durante a guerra do Vietnã do que sobre a Alemanha e o Japão, juntos, durante a Segunda Guerra Mundial. Isso faz do Laos - em termos per capita - o país mais bombardeado da história”. Essas pessoas não têm vergonha?

Segundo a Casa Branca, este governo é liderado pelo “melhor negociador comercial da história”, cuja “estratégia tem se concentrado em corrigir desequilíbrios sistêmicos nas tarifas que há décadas favorecem nossos parceiros comerciais”. Na prática, porém, nunca houve a menor chance de fechar acordos com quase 200 países - ou mesmo 100 - em poucos meses. Além disso, muitas das exigências dos EUA - como a ideia de que a União Europeia deveria abolir o imposto sobre valor agregado (IVA), por exemplo - são absurdas. O IVA não é uma distorção comercial: ele se aplica a todos os bens e serviços vendidos nos mercados da União Europeia, como é correto, de acordo com o “princípio do destino”. Acima de tudo, essas tarifas não eliminarão, de qualquer forma, os déficits comerciais dos EUA.

Então, o que fazer diante dessa loucura? Primeiro, devemos torcer para que Trump realmente recue de novo e de novo, embora a incerteza gerada continue custosa. Segundo, é preciso haver retaliação contra os EUA, de preferência uma retaliação coordenada. Terceiro, todos os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) deveriam declarar que quaisquer concessões comerciais feitas aos EUA serão estendidas a outros membros, em conformidade com o princípio da “nação mais favorecida”. Por fim, os demais membros deveriam cumprir os acordos firmados entre si. Os EUA agiram de forma desonesta. O resto do mundo não precisa seguir os mesmos passos.

Eu vi uma racista

Entro numa loja do Chiado com os meus filhos. Enquanto aguardo pela minha vez para ser atendida, vejo como a jovem empregada brasileira ajuda uma cliente com simpatia e desenvoltura. Antes de mim, está ainda uma senhora, já de cabelos todos brancos, à espera de vez. Quando a rapariga se aproxima e a cumprimenta com um “boa tarde” caloroso, a mulher atira-lhe um ríspido “não tem ninguém aqui que fale português?” A rapariga estaca, abre os olhos, mas ainda sorri. “Eu falo português. Em que posso ajudar?” A mulher não desarma. “Alguém que fale português corretamente, não essa coisa que está a falar.” O tom é ostensivamente hostil. A trabalhadora tenta insistir, sempre com simpatia, perguntando se não se percebe o que diz. A outra repete que não gosta daquele português.

Não aguento mais. Intervenho. “Esta senhora não só é muito simpática, como fala um português muito correto.” A cliente trespassa-me com um olhar de ódio. “Isto não é português.” Reparo, então, que a funcionária olha para o chão, com os lábios trémulos. “É português e muito bem falado. Se a senhora não entende, o problema é seu. Acho que devia ir procurar outra loja”, disparo, num tom duro o suficiente para a fazer sair dali, murmurando-me impropérios.

“Peço desculpa”, diz-me a rapariga. Vejo-lhe as lágrimas a assomarem-lhe aos olhos. Sinto as faces a ruborescer. Mas faço um comício. “Eu é que lhe peço desculpa. Como portuguesa, sinto-me muito envergonhada. O que esta senhora fez é inaceitável. O seu português é muito bom e muito bonito. Está aqui a trabalhar e não há direito de virem aqui atacá-la desta forma.”


Tenho tido noites e dias terríveis, não durmo, fico bloqueado e apático. Vim miúdo, com 14 anos, de Cabo Verde e já não tenho lá ninguém ou quase ninguém. A situação é tão complicada que se não tenho espaço aqui, também não terei guarida lá, onde eles chamam ‘minha terra

Os meus filhos olham-me espantados, olhos muito abertos. Quando saímos, pergunto-lhes: “Perceberam o que aconteceu?” Estão confusos. Aproveito para lhes explicar que aquilo a que assistiram é “racismo”. Repetem a palavra, fazem perguntas, atentos e intrigados.

Quando chegam ao restaurante onde o pai nos aguarda, contam-lhe bem alto: “Vimos uma racista.” E explicam, de forma mais ou menos atabalhoada, a cena a que assistiram.

Este episódio passou-se há já bastante tempo, mas não o esqueceram. Volta e meia, quando ouve a palavra “racismo”, a minha filha mais velha conta o que viu, o mais pequeno acena com a cabeça.

Esta semana, tropecei por acaso num post de Instagram com vídeos de uma cena que parece decalcada da que vivi. Pelo sotaque da cliente, que não aparece na imagem, presumo que a situação se tenha passado no Norte. E a reação da lojista é mais firme do que aquela que presenciei no Chiado. Tudo o resto parece tirado do mesmo guião de ódio e necessidade de rebaixar quem é diferente, mesmo que quem é diferente esteja só a tentar fazer o seu trabalho o melhor possível, num país estrangeiro, muitas vezes de forma precária e mal paga, aceitando empregos que os nacionais desprezam. No final, sem que ninguém intervenha para defender a trabalhadora, a cliente pede o Livro de Reclamações e lá deixa por escrito o seu descontentamento firme por, imagine-se, ter sido atendida numa loja por alguém que fala o português com o sotaque doce do Brasil.

Dias antes, recebi uma mensagem no Instagram de um homem que não conheço e que me explicou ser cabo-verdiano, há muitos anos a viver em Portugal. Na véspera, a filha adulta que teve com a portuguesa com quem se casou foi parada na rua por uma pessoa que lhe falou em inglês. Obviamente, respondeu na mesma língua e foi então insultada pelo português de bem, que obviamente concluiu a cena mandando-a para a terra dela, sem perceber que ela está na sua terra. “Vivo aflito e com vergonha alheia. Tenho medo. Não confio nas forças de segurança”, diz o pai, depois de me explicar que trabalhou em Portugal durante 47 anos antes de se reformar e que as duas filhas são licenciadas, como que a reclamar para si uma dignidade que é sua por direito e não devia precisar de ser defendida com currículos e diplomas.

“Tenho tido noites e dias terríveis, não durmo, fico bloqueado e apático. Vim miúdo, com 14 anos, de Cabo Verde e já não tenho lá ninguém ou quase ninguém. A situação é tão complicada que se não tenho espaço aqui, também não terei guarida lá, onde eles chamam ‘minha terra’”, desabafa.

Nas últimas semanas, tenho recebido várias mensagens de brasileiros que me contam que estão a ponderar sair, por já não se sentirem bem-vindos ou pelas condições económicas se terem degradado, muito por causa do preço da habitação. Uma delas conheço bem. Chama-se Maria e é auxiliar no jardim de infância do meu filho.

A Maria sai de Portugal com as lágrimas nos olhos e o carinho e o respeito de todos quantos nestes anos lhe confiaram os seus filhos, sabendo do seu cuidado e da sua dedicação. A vaga que deixa na escola, diz-nos a experiência de quem tem assistido à dificuldade de recrutamento dos colégios no centro de Lisboa, não será fácil de preencher. E não é só (embora também seja) porque a Maria é uma grande profissional. É porque é cada vez mais difícil viver com os magros salários que por aqui se pagam, com os preços que tudo custa em Lisboa.

Até agora, muitas pessoas como a Maria têm ajudado a cuidar dos nossos filhos e pais, a construir e a limpar as nossas casas, a apanhar as nossas colheitas, a trazer-nos encomendas e comida e a transportar-nos ou a servir-nos em lojas, restaurantes e hotéis. As condições difíceis que aceitam são as mesmas a que nos sujeitámos (e sujeitamos ainda) em França, na Alemanha, na Suíça ou no Canadá.

Já se perguntaram: E se estas pessoas forem mesmo para a terra delas? O que é que nos acontece por cá?

Emendas parlamentares e o voto: o poder do 'P de banco'

Instrumento legítimo ou moeda de troca eleitoral, as emendas parlamentares se tornaram o principal elo entre Brasília e o eleitor — com efeitos preocupantes para a democracia.

Cláudio Lembo, professor de Direito, político experiente e dono das sobrancelhas mais decorativas do País, tinha a verve afiada. Em uma conversa com um amigo de Araçatuba, tentou trazê-lo para seu partido:

— Já se inscreveu em algum partido? — perguntou.

— Não. Esperava as suas ordens — respondeu o interlocutor.

Lembo sugeriu:

— Então entre no PP.

— No PT do Lula? — retrucou o amigo, fazendo-se de desentendido.

Lembo, paciente, soletrou:

— PP. P de partido e P de banco.


A história, contada com humor e ironia, traduz bem a realidade política brasileira atual. O “P de banco” tornou-se o símbolo mais evidente das emendas parlamentares — instrumento que deputados e senadores usam para destinar recursos do orçamento federal a projetos em seus redutos eleitorais. Um mecanismo legítimo, sem dúvida, mas cada vez mais associado à troca de favores, ao clientelismo e ao desequilíbrio no jogo democrático.

As emendas parlamentares se dividem em quatro tipos: individuais, de bancada, de comissão e de relator-geral (RP9). Estas últimas ganharam notoriedade no controverso “orçamento secreto”. Em tese, todas servem para atender demandas locais. Na prática, são ferramentas de influência política direta.

Deputados e senadores que conseguem enviar verbas para construção de pontes, hospitais ou escolas, mesmo com dinheiro da União, acabam colhendo capital político em suas regiões. O eleitor, ao ver a obra, associa o benefício ao parlamentar — e não ao contribuinte, de onde, de fato, vêm os recursos. A recompensa? Voto. Prestígio. Reeleição.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas, os parlamentares que mais destinam emendas aumentam em média 10% as suas chances de reeleição. O Tribunal Superior Eleitoral confirma: mais de 80% dos deputados reeleitos em 2022 usaram as emendas como vitrine de campanha.

O problema se agrava quando esse recurso se transforma em moeda de troca entre Executivo e Legislativo. Libera-se verba para quem vota com o governo. Premia-se a fidelidade, pune-se a oposição. Pior: candidatos com mais trânsito em Brasília acumulam vantagem sobre adversários locais, alimentando distorções na competição eleitoral.

As emendas do relator (RP9), por exemplo, movimentaram cerca de R$ 36 bilhões entre 2020 e 2022. Muitas delas foram distribuídas sem transparência, o que gerou críticas severas de órgãos de controle e do Supremo Tribunal Federal. O ministro Flávio Dino, do STF, tem apontado a opacidade como uma das principais ameaças à legitimidade do sistema — especialmente nos casos em que os autores das emendas sequer eram identificados.

Enquanto isso, a representação política no Brasil patina. Parlamentares acreditam que, com emendas, ganham visibilidade e ampliam suas bases eleitorais. Esquecem, no entanto, que boa parte da população enxerga nesse sistema um símbolo de corrupção e desigualdade.

A indignação social cresce. Nas ruas e nas pesquisas, aumenta a percepção de que o Parlamento não representa os melhores cidadãos — como pregava o ideário aristotélico —, mas sim uma elite política que se serve do poder, em vez de servir ao povo. A recente aprovação, pela Câmara, do projeto que aumenta de 513 para 531 o número de deputados federais, é mais um exemplo da desconexão entre o Congresso e os anseios populares.

O Senado, por sua vez, aprovou 25 emendas ao Projeto de Lei Complementar (PLP) 177/23, de autoria da deputada Dani Cunha (União-RJ), que segue agora para sanção presidencial. A medida deve valer a partir da legislatura de 2027.

No fim, o saldo é amargo. As emendas parlamentares, quando utilizadas com responsabilidade, podem ser uma ferramenta importante de descentralização de recursos. Mas, na forma como têm sido operacionalizadas, tornam-se símbolo de clientelismo, opacidade e manutenção do poder a qualquer custo.

Enquanto nossos representantes seguem preocupados com seus colégios eleitorais e os “P de banco”, cresce o fosso entre sociedade e instituições. E a descrença na política — já profunda — cava mais fundo a crise de representatividade no Brasil.

Europa idealizada, Brasil empobrecido

As elites econômicas do Brasil costumam se encantar com a Europa. Falam da cultura e da riqueza que lá imperam. Com frequência, ouço a pergunta: "O que você está fazendo no Brasil, se poderia morar na Europa, onde tudo é mais organizado, seguro e limpo?". Nesse meio, visitar Paris — incluindo uma sessão de compras e um jantar em restaurante caro — é quase como um certificado de pertencimento à classe dominante.

É claro que a Europa é fortemente idealizada. As carências do Brasil ganham um contraponto nas sociedades aparentemente funcionais do velho continente. Essa idealização também tem raízes no racismo das elites brancas. Nunca é dito abertamente, mas fica implícito: o Brasil seria inseguro e pobre porque tem demais pessoas incultas e sem instrução, cujas origens não estão na Europa.

É a resposta mais rasa e ignorante à pergunta sobre por que faltam segurança, educação de qualidade e bem-estar coletivo no Brasil.


Jamais essas elites se perguntam (ao menos em público) se as fragilidades estruturais do Brasil não teriam a ver com o sistema tributário — ou seja, como o Estado redistribui a renda por meio de impostos e gastos públicos.

Isso nos leva ao debate sobre o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

O Brasil figura hoje entre os três países do mundo com a maior desigualdade entre ricos e pobres, segundo o índice de Gini (que mede o grau de desigualdade na repartição de renda nas sociedades). Além das históricas injustiças na distribuição da terra e dos meios de produção, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontou, em 2023, o sistema tributário brasileiro como responsável direto por essa situação.

O PNUD criticou o fato de o Brasil depender excessivamente de impostos sobre o consumo — tributos pagos por todos no momento da compra. Cerca de metade de toda a arrecadação pública provém desse tipo de imposto. Isso significa que os lares mais pobres são, proporcionalmente, muito mais penalizados do que os mais ricos. O sistema tributário brasileiro, em vez de reduzir a desigualdade, aprofunda ainda mais o abismo social.

Essa situação se torna ainda mais escandalosa quando se comparam as alíquotas máximas do imposto de renda entre a União Europeia e o Brasil. A alíquota média sobre os mais ricos na UE é de quase 43% — com países como Dinamarca, Suécia, Bélgica e França cobrando mais de 50%. No Brasil, esse percentual é de apenas 27,5%. Ou seja, os brasileiros de alta renda contribuem pouquíssimo para o bem comum.

Seria, portanto, justo aumentar moderadamente o IOF, como previa o plano original do governo. (Outra discussão, claro, é se o projeto de lei do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi bem elaborado, ou se o governo Lula já perdeu o controle sobre suas próprias contas.)

Como se sabe, o Congresso brasileiro rejeitou o aumento do IOF, impondo uma derrota ao governo Lula e colocando sua estabilidade em xeque. A campanha do PT contra o Congresso acusado de defender os interesses dos ricos pode ter sido exagerada e caricata, mas estava, no essencial, correta – apesar da indignação que provocou na mídia conservadora e liberal do país.

O Congresso brasileiro é o espelho das elites nacionais. Ele não representa a diversidade do povo brasileiro, mas sim a camada branca e rica da sociedade. Famílias inteiras dominam a política, e há uma super-representação de latifundiários e empresários. É natural, portanto, que — apesar do discurso patriótico — defendam os interesses da própria classe, e não do povo brasileiro.

O disfuncional sistema político brasileiro concede a esse Congresso um poder desproporcional. E infelizmente, com sua composição estruturalmente reacionária, ele não é parte da solução — é parte do problema. Deputados e senadores já demonstraram diversas vezes o quanto estão distantes de qualquer compromisso real com o progresso ou com um Brasil mais justo. Na prática, suas ações quase sempre visam a preservar o status quo de um país rico, no qual a maioria ainda vive na pobreza, enquanto poucos desfrutam de um luxo obsceno — os mesmos que idealizam a Europa.