segunda-feira, 7 de julho de 2025
O tédio do fim do mundo
Enquanto escrevo esta coluna a Europa tira a roupa, e lota praias, lagos e piscinas, sufocando de calor. E, atenção, o verão estreou há poucos dias — 21 de junho para ser preciso.
França começou por sofrer uma série de tempestades violentas. Numa única noite caíram 17 mil raios. Logo a seguir veio a atual onda de calor, com as temperaturas a ultrapassar os 40 graus. As autoridades foram forçadas a fechar escolas, monumentos e pontos de interesse turístico.
Barcelona registrou o seu junho mais quente desde 1914. No Reino Unido, as altas temperaturas já estão provocando incêndios.
É outra vez o fim do mundo. O problema é que ao repetir-se todas as semanas, ainda que em diferentes formatos e geografias, o apocalipse acaba por se tornar fastidioso.
Lembra-me um episódio que a minha avó costumava contar, sobre um elefante cor-de-rosa que, lá pelos anos 1950, foi visto a passear-se pelas ruas da Chibia, uma pequena cidade do sul de Angola. No primeiro dia, a notícia do avistamento do paquiderme foi recebida com incredulidade e extraordinária comoção. Acontece que o animal gostou da cidade e passou a visitá-la, primeiro semana sim, semana não, e, finalmente, quase todos as manhãs. Em pouco tempo deixou de ser um fenômeno extraordinário. Era apenas um estorvo de colossais dimensões.
Mesmo a cor rosada — que lhe dava uma aparência onírica, quase milagrosa — foi explicada prosaicamente pelos caçadores locais: o animal banhava-se num lago próximo, ficando coberto de lama avermelhada.
As crianças passaram a persegui-lo, gritando obscenidades e atirando-lhe pedras. A velhinhas expulsavam-no dos quintais à vassourada. Deram-lhe até um apelido, Rosinha — o que, definitivamente, arrasou com o que ainda pudesse restar da reputação, e do orgulho, do infeliz animal.
Por este andar, acabaremos tratando o fim do mundo com idêntica impaciência. Caem 17 mil raios numa mesma noite?! O povão encolhe os ombros, entediado:
— Pô que tu é chato, ó Finzinho!
A temperatura chegou aos 46 graus no Alentejo, em Portugal? Os alentejanos estendem-se à sombra das oliveiras — e aproveitam para dormir uma sestinha.
O fim do mundo virou boletim meteorológico: “Céu parcialmente apocalíptico, com possibilidade de dilúvios à tarde, rios de sangue, pragas de gafanhotos, e um ligeiro colapso civilizacional ao entardecer”.
Em Israel assassinam-se crianças por fome, a tiro, de todas as formas possíveis, num interminável exercício de crueldade, porque, no entendimento dos seus assassinos, não são crianças mas terroristas em gestação.
E nós? Nós prosseguimos impassíveis. Tomando alguma bebida gelada, de preferência na praia, enquanto comentamos o colapso civilizacional como quem discute um filme de ação.
Rosinha, o elefante cor-de-rosa, dança nos salões dos palácios presidenciais, nos parlamentos, nos quartéis, nas redações dos jornais, nas igrejas, nas ruas, praças e jardins de todas as grandes cidades — mas já ninguém o vê. Ninguém o quer ver. Habituamo-nos a tudo. Inclusive, ao fim de tudo.
José Eduardo Agualusa
França começou por sofrer uma série de tempestades violentas. Numa única noite caíram 17 mil raios. Logo a seguir veio a atual onda de calor, com as temperaturas a ultrapassar os 40 graus. As autoridades foram forçadas a fechar escolas, monumentos e pontos de interesse turístico.
Barcelona registrou o seu junho mais quente desde 1914. No Reino Unido, as altas temperaturas já estão provocando incêndios.
É outra vez o fim do mundo. O problema é que ao repetir-se todas as semanas, ainda que em diferentes formatos e geografias, o apocalipse acaba por se tornar fastidioso.
Lembra-me um episódio que a minha avó costumava contar, sobre um elefante cor-de-rosa que, lá pelos anos 1950, foi visto a passear-se pelas ruas da Chibia, uma pequena cidade do sul de Angola. No primeiro dia, a notícia do avistamento do paquiderme foi recebida com incredulidade e extraordinária comoção. Acontece que o animal gostou da cidade e passou a visitá-la, primeiro semana sim, semana não, e, finalmente, quase todos as manhãs. Em pouco tempo deixou de ser um fenômeno extraordinário. Era apenas um estorvo de colossais dimensões.
Mesmo a cor rosada — que lhe dava uma aparência onírica, quase milagrosa — foi explicada prosaicamente pelos caçadores locais: o animal banhava-se num lago próximo, ficando coberto de lama avermelhada.
As crianças passaram a persegui-lo, gritando obscenidades e atirando-lhe pedras. A velhinhas expulsavam-no dos quintais à vassourada. Deram-lhe até um apelido, Rosinha — o que, definitivamente, arrasou com o que ainda pudesse restar da reputação, e do orgulho, do infeliz animal.
Por este andar, acabaremos tratando o fim do mundo com idêntica impaciência. Caem 17 mil raios numa mesma noite?! O povão encolhe os ombros, entediado:
— Pô que tu é chato, ó Finzinho!
A temperatura chegou aos 46 graus no Alentejo, em Portugal? Os alentejanos estendem-se à sombra das oliveiras — e aproveitam para dormir uma sestinha.
O fim do mundo virou boletim meteorológico: “Céu parcialmente apocalíptico, com possibilidade de dilúvios à tarde, rios de sangue, pragas de gafanhotos, e um ligeiro colapso civilizacional ao entardecer”.
Em Israel assassinam-se crianças por fome, a tiro, de todas as formas possíveis, num interminável exercício de crueldade, porque, no entendimento dos seus assassinos, não são crianças mas terroristas em gestação.
E nós? Nós prosseguimos impassíveis. Tomando alguma bebida gelada, de preferência na praia, enquanto comentamos o colapso civilizacional como quem discute um filme de ação.
Rosinha, o elefante cor-de-rosa, dança nos salões dos palácios presidenciais, nos parlamentos, nos quartéis, nas redações dos jornais, nas igrejas, nas ruas, praças e jardins de todas as grandes cidades — mas já ninguém o vê. Ninguém o quer ver. Habituamo-nos a tudo. Inclusive, ao fim de tudo.
José Eduardo Agualusa
O lento avanço da razão sobre as tribos
Nos anos mais sombrios da Idade Média, a conformidade era imposta. A Igreja pontificava e todos seguiam. Pensava-se igual, porque apenas isso era admitido. A individualidade era asfixiada. A tribo unida era forçada a pensar unida.
O Renascimento começa a romper essa masmorra intelectual. Os descobrimentos abrem horizontes. O indivíduo floresce. Apesar de acidentes de percurso, podia-se pensar e agir com a própria cabeça.
No Iluminismo, proclama-se o Império da Razão. Chegaríamos mais longe, pensando certo e com rigor. Sob a tutela da razão, as nossas concepções seriam ordenadas e o progresso viria. Que se enxotem os preconceitos e superstições. As emoções e valores tinham que achar os seus lugares, mais modestos.
No último século e tanto, entra em cena a abundância de resultados da pesquisa científica, com seus dados contundentes. No que é observável, ela deveria ter a palavra final. Doenças ou vacinas, a verdade passa a ser definida pelos critérios da ciência.
Avanço definitivo? Nem tanto, as vitórias foram mais modestas do que se esperava. Avançamos, é verdade. Mas o Império da Razão é periclitante. Para muitos, é uma nova moda, rechaçada ou não entendida. Há os que têm um pé nas verdades tribais e outro na razão científica, uma esquizofrenia intelectual.
Com grande consternação, temos que reconhecer os limites nos avanços da razão. Acreditamos no que acreditam as gentes da nossa tribo. Os intelectualmente mais refinados escolhem aqueles fatos e eventos, até verdadeiros, que melhor reforçam as crenças que já tinham. Os outros, nem isso. Lembra-nos Galbraith: “Diante da escolha entre mudar de opinião e provar que isso não é necessário, quase todos se dedicam a demonstrar a segunda opção”.
Façamos um exercício mental – os filósofos chamariam isso de solipsismo. Em sistemas econômicos ou em políticas sociais, será que as opiniões da nossa própria tribo não influenciam escandalosamente o que pensamos? Nossos amigos não pensam como nós? E não lemos os mesmos autores? O que dizem os nossos gurus, não é o que pensamos nós?
Algo começamos a entender, já existe alguma pesquisa nesse assunto. Demonstrou-se que as nossas opiniões e percepções são profundamente influenciadas pelas tribos a que pertencemos. A cartilha do Iluminismo prescreve que a razão nos auxiliaria a formar nossas opiniões. Mas, num número embaraçoso de situações, primeiro vem as crenças que trazemos de nossas tribos. Pespegada por fora, vem o verniz da razão.
Mais iniciativa individual ou mais Estado? Mais liberdade ou mais ordem? Mais autonomia ou a proteção oferecida pelas políticas públicas? Essas proposições estão além do alcance da ciência, são juízos de valor. Mas não fazem sentido no vácuo.
Por exemplo, é legítimo o direito do Estado de obrigar alguém a tomar uma vacina? A ciência nada pode dizer. Todavia, em casos reais, as discussões têm por trás o risco da doença e de seus efeitos colaterais. Conta a eficácia das vacinas, a transmissibilidade da doença e vários outros critérios. Tudo isso é ciência e é indispensável para tomar decisões inteligentes, ainda quando envolvem juízos de valor. Contudo, o que vemos é uma cacofonia de opiniões desencontradas.
As grandes revoluções na tecnologia da informação escancaram, cada vez mais, os dados e os fatos. Tudo está no Google. Porém, tendemos a encontrar nele aquilo que confirma o que já acreditávamos. Os próprios algoritmos do Google já exacerbam uma tal endogenia intelectual, pois na próxima busca virão sites com ideias na mesma linha.
Na Idade Média, todos tinham que pensar igual. Passamos a viver num mundo em que a variedade de gentes e de crenças se multiplicou. Terreno fértil para o Iluminismo.
Porém, nesse particular, a revolução das redes sociais teve um efeito deletério, competindo com seus imensos ganhos. Elas recriaram uma nova Idade Média. Passamos a nos relacionar por meio delas, apenas com gente que pensa igual. Geograficamente, estão hoje todos misturados. Mas, intelectual e emocionalmente, iguais estão conectados com iguais, pelos seus celulares. Que lástima, apesar de utilíssimos. Os celulares se prestam para isso! E quando se encontram os diferentes, não há diálogo produtivo. São “eles” contra “nós”.
O que está dito acima, pelo menos parcialmente, pode explicar a grande polarização política e ideológica dos dias de hoje. As mídias sociais contribuem grandemente para juntar os iguais e dar-lhes confiança e força, por sentirem-se solidamente acompanhados, tenha ou não cabimento o que proclamam. Qualquer imbecilidade pode virar uma crença grupal, como eram as superstições na Idade Média. E como naquela época, não se sabe lidar com o contraditório – que fertiliza as mentes.
Acreditava-se que a Grande Peste resultava da ira dos deuses ou coisa equivalente. Saíam todos em procissão, rezando e pedindo misericórdia. E as pulgas das ratazanas, infectadas, passavam de um devoto para o que estava ao lado. Será que igual não acontece hoje, sendo as pulgas os celulares?
O Renascimento começa a romper essa masmorra intelectual. Os descobrimentos abrem horizontes. O indivíduo floresce. Apesar de acidentes de percurso, podia-se pensar e agir com a própria cabeça.
No Iluminismo, proclama-se o Império da Razão. Chegaríamos mais longe, pensando certo e com rigor. Sob a tutela da razão, as nossas concepções seriam ordenadas e o progresso viria. Que se enxotem os preconceitos e superstições. As emoções e valores tinham que achar os seus lugares, mais modestos.
No último século e tanto, entra em cena a abundância de resultados da pesquisa científica, com seus dados contundentes. No que é observável, ela deveria ter a palavra final. Doenças ou vacinas, a verdade passa a ser definida pelos critérios da ciência.
Avanço definitivo? Nem tanto, as vitórias foram mais modestas do que se esperava. Avançamos, é verdade. Mas o Império da Razão é periclitante. Para muitos, é uma nova moda, rechaçada ou não entendida. Há os que têm um pé nas verdades tribais e outro na razão científica, uma esquizofrenia intelectual.
Com grande consternação, temos que reconhecer os limites nos avanços da razão. Acreditamos no que acreditam as gentes da nossa tribo. Os intelectualmente mais refinados escolhem aqueles fatos e eventos, até verdadeiros, que melhor reforçam as crenças que já tinham. Os outros, nem isso. Lembra-nos Galbraith: “Diante da escolha entre mudar de opinião e provar que isso não é necessário, quase todos se dedicam a demonstrar a segunda opção”.
Façamos um exercício mental – os filósofos chamariam isso de solipsismo. Em sistemas econômicos ou em políticas sociais, será que as opiniões da nossa própria tribo não influenciam escandalosamente o que pensamos? Nossos amigos não pensam como nós? E não lemos os mesmos autores? O que dizem os nossos gurus, não é o que pensamos nós?
Algo começamos a entender, já existe alguma pesquisa nesse assunto. Demonstrou-se que as nossas opiniões e percepções são profundamente influenciadas pelas tribos a que pertencemos. A cartilha do Iluminismo prescreve que a razão nos auxiliaria a formar nossas opiniões. Mas, num número embaraçoso de situações, primeiro vem as crenças que trazemos de nossas tribos. Pespegada por fora, vem o verniz da razão.
Mais iniciativa individual ou mais Estado? Mais liberdade ou mais ordem? Mais autonomia ou a proteção oferecida pelas políticas públicas? Essas proposições estão além do alcance da ciência, são juízos de valor. Mas não fazem sentido no vácuo.
Por exemplo, é legítimo o direito do Estado de obrigar alguém a tomar uma vacina? A ciência nada pode dizer. Todavia, em casos reais, as discussões têm por trás o risco da doença e de seus efeitos colaterais. Conta a eficácia das vacinas, a transmissibilidade da doença e vários outros critérios. Tudo isso é ciência e é indispensável para tomar decisões inteligentes, ainda quando envolvem juízos de valor. Contudo, o que vemos é uma cacofonia de opiniões desencontradas.
As grandes revoluções na tecnologia da informação escancaram, cada vez mais, os dados e os fatos. Tudo está no Google. Porém, tendemos a encontrar nele aquilo que confirma o que já acreditávamos. Os próprios algoritmos do Google já exacerbam uma tal endogenia intelectual, pois na próxima busca virão sites com ideias na mesma linha.
Na Idade Média, todos tinham que pensar igual. Passamos a viver num mundo em que a variedade de gentes e de crenças se multiplicou. Terreno fértil para o Iluminismo.
Porém, nesse particular, a revolução das redes sociais teve um efeito deletério, competindo com seus imensos ganhos. Elas recriaram uma nova Idade Média. Passamos a nos relacionar por meio delas, apenas com gente que pensa igual. Geograficamente, estão hoje todos misturados. Mas, intelectual e emocionalmente, iguais estão conectados com iguais, pelos seus celulares. Que lástima, apesar de utilíssimos. Os celulares se prestam para isso! E quando se encontram os diferentes, não há diálogo produtivo. São “eles” contra “nós”.
O que está dito acima, pelo menos parcialmente, pode explicar a grande polarização política e ideológica dos dias de hoje. As mídias sociais contribuem grandemente para juntar os iguais e dar-lhes confiança e força, por sentirem-se solidamente acompanhados, tenha ou não cabimento o que proclamam. Qualquer imbecilidade pode virar uma crença grupal, como eram as superstições na Idade Média. E como naquela época, não se sabe lidar com o contraditório – que fertiliza as mentes.
Acreditava-se que a Grande Peste resultava da ira dos deuses ou coisa equivalente. Saíam todos em procissão, rezando e pedindo misericórdia. E as pulgas das ratazanas, infectadas, passavam de um devoto para o que estava ao lado. Será que igual não acontece hoje, sendo as pulgas os celulares?
Superganância
O tempo livre do animal laborans (animal trabalhador) nunca é gasto em nada a não ser no consumo e, quanto mais tempo ele adquire, mais gananciosos e vorazes se tornam seus apetites.
Hannah Arendt , "A Condição Humana"
O esporte sem grandeza de Trump
Se há um espécime humano incapaz de compreender a essência do esporte olímpico, ou ver grandeza no esporte em geral, esse espécime se chama Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos prefere a pancadaria crua de uma luta de MMA, a que assiste presencialmente na boca do octógono. Fora isso, só mesmo a prática do golfe — e, mesmo assim, apenas num dos 15 clubes e resorts de sua propriedade (11 nos Estados Unidos, dois na Escócia, um na Irlanda, um nos Emirados Árabes — e algum dia, quem sabe, sonhe com um em Gaza?), onde é de bom-tom dos convidados deixá-lo ganhar. A ideia de competir sem vencer lhe é existencialmente indigesta. A ponto de, em 2018, ainda no primeiro mandato, referir-se aos soldados americanos tombados na Primeira Guerra e enterrados no cemitério francês de Aisne-Marne como “otários e perdedores”. Dificilmente teria tido empatia pelo maratonista John Stephen Akhwari, da Tanzânia, que na Olimpíada de 1968, no México, celebrou cruzar a linha de chegada em último lugar, mais de uma hora depois do vencedor. Questionado por que não desistira da prova quando sofreu uma queda e deslocou o joelho, Akhwari respondeu com naturalidade:
— Meu país não me enviou de 8 mil quilômetros de distância para começar a corrida; me mandaram até aqui para terminar a corrida.
Pois quiseram o destino e o calendário esportivo fazer desse presidente viciado em Big Macs e Coca-Cola o anfitrião da Copa do Mundo, no próximo ano, e da Olimpíada de Los Angeles, em 2028. Os primeiros sinais de incompatibilidade entre esses megaeventos de afluência global e seu combate à “invasão de nossas fronteiras” já vão se fazendo sentir. Por um excesso de zelo colateral ao decreto que proíbe a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de 12 países e impõe restrições parciais a sete outros (entre os quais Cuba), o mesa-tenista brasileiro Hugo Calderano se viu proibido de viajar para os Estados Unidos a tempo de disputar a importante competição desta semana, o WTT Grand Smash.
Justo Calderano, caramba, que tem dado tantas alegrias ao Brasil num esporte em que a China reina absoluta. A bordo de um passaporte português, o mesa-tenista brasileiro se vale das facilidades oferecidas a cidadãos da União Europeia (UE) quando viaja, inclusive para os Estados Unidos. Em 2023 disputou um Pan-Americano em Cuba, conseguindo ali a vaga para a Olimpíada de Paris, e dela saiu em inédito quarto lugar. Desde então, só vem empilhando sucessos. Terceiro lugar no ranking mundial, é o único atleta não asiático entre os cinco melhores do planeta. Sua recente vitória na Copa do Mundo de 2025 sobre o até então imbatível Lin Shidong foi um estrondo. No mês passado, pôde comemorar os 29 anos levando pela segunda vez o WTT na Eslovênia e pretendia nova conquista agora em Las Vegas.
Minuciosa, sofrida e rigorosa, a preparação de um atleta de alto rendimento para uma competição permite poucos imprevistos. Um empecilho de última hora, então, é desconcertante. No caso, sua inócua viagem a Cuba levou algum burocrata übertrumpista a ver vermelho (no caso, vermelho de comunista) e a dificultar sua entrada automática em solo americano. Até ele obter a retificação do erro já não havia mais tempo de competir em Vegas.
O episódio pode ser o prenúncio de confusões futuras. Em princípio, os decretos de Trump vetando a entrada de cidadãos de determinados países também contemplam exceções para atletas e equipes participantes dos grandes eventos. Mas a própria sanha com que o governo tem procurado cumprir a meta de 3 mil deportações por dia, somada ao orçamento recém-aprovado de US$ 150 bilhões para políticas de imigração e segurança da fronteira, pode levar pequenos burocratas a valorizar seus pequenos poderes e a multiplicar confusões. Difícil prever o estado do país de Trump em seu último ano de mandato, quando hordas de turistas e olímpicos descerão sobre Los Angeles. Vale lembrar que os Jogos de Seul foram decisivos para a abertura do regime sul-coreano em 1988. E que a Olimpíada de Moscou em 1980 permitiu uma primeira espiada no regime soviético até então blindado por Leonid Brejnev.
Por ora, o olimpismo que Donald Trump mais incentiva atende pelo nome de Enhanced Games (jogos turbinados, em tradução livre). Estão programados para maio de 2026, serão disputados em Las Vegas com patrocínio de um fundo de capital de risco capitaneado por Donald Jr. e já contam com mais de cem atletas inscritos nas três modalidades programadas: natação, atletismo e levantamento de peso. A novidade dessa “Olimpíada do século XXI” é que os participantes competirão turbinados por tudo o que o doping tem de mais moderno. Tudo o que é proibido pelo COI estará liberado. As premiações já anunciadas incluem um bônus de US$ 1 milhão para quem quebrar o recorde mundial na prova de 100 metros e 50 metros nado livre.
— Nosso negócio está em destravar o potencial humano. Estamos criando a vanguarda da super-humanidade — diz o fundador da ideia, o australiano Aron D’Souza.
Os jogos juntam fraude, tudo por dinheiro e violência (contra o corpo humano), as práticas preferidas de Donald Trump.
— Meu país não me enviou de 8 mil quilômetros de distância para começar a corrida; me mandaram até aqui para terminar a corrida.
Pois quiseram o destino e o calendário esportivo fazer desse presidente viciado em Big Macs e Coca-Cola o anfitrião da Copa do Mundo, no próximo ano, e da Olimpíada de Los Angeles, em 2028. Os primeiros sinais de incompatibilidade entre esses megaeventos de afluência global e seu combate à “invasão de nossas fronteiras” já vão se fazendo sentir. Por um excesso de zelo colateral ao decreto que proíbe a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de 12 países e impõe restrições parciais a sete outros (entre os quais Cuba), o mesa-tenista brasileiro Hugo Calderano se viu proibido de viajar para os Estados Unidos a tempo de disputar a importante competição desta semana, o WTT Grand Smash.
Justo Calderano, caramba, que tem dado tantas alegrias ao Brasil num esporte em que a China reina absoluta. A bordo de um passaporte português, o mesa-tenista brasileiro se vale das facilidades oferecidas a cidadãos da União Europeia (UE) quando viaja, inclusive para os Estados Unidos. Em 2023 disputou um Pan-Americano em Cuba, conseguindo ali a vaga para a Olimpíada de Paris, e dela saiu em inédito quarto lugar. Desde então, só vem empilhando sucessos. Terceiro lugar no ranking mundial, é o único atleta não asiático entre os cinco melhores do planeta. Sua recente vitória na Copa do Mundo de 2025 sobre o até então imbatível Lin Shidong foi um estrondo. No mês passado, pôde comemorar os 29 anos levando pela segunda vez o WTT na Eslovênia e pretendia nova conquista agora em Las Vegas.
Minuciosa, sofrida e rigorosa, a preparação de um atleta de alto rendimento para uma competição permite poucos imprevistos. Um empecilho de última hora, então, é desconcertante. No caso, sua inócua viagem a Cuba levou algum burocrata übertrumpista a ver vermelho (no caso, vermelho de comunista) e a dificultar sua entrada automática em solo americano. Até ele obter a retificação do erro já não havia mais tempo de competir em Vegas.
O episódio pode ser o prenúncio de confusões futuras. Em princípio, os decretos de Trump vetando a entrada de cidadãos de determinados países também contemplam exceções para atletas e equipes participantes dos grandes eventos. Mas a própria sanha com que o governo tem procurado cumprir a meta de 3 mil deportações por dia, somada ao orçamento recém-aprovado de US$ 150 bilhões para políticas de imigração e segurança da fronteira, pode levar pequenos burocratas a valorizar seus pequenos poderes e a multiplicar confusões. Difícil prever o estado do país de Trump em seu último ano de mandato, quando hordas de turistas e olímpicos descerão sobre Los Angeles. Vale lembrar que os Jogos de Seul foram decisivos para a abertura do regime sul-coreano em 1988. E que a Olimpíada de Moscou em 1980 permitiu uma primeira espiada no regime soviético até então blindado por Leonid Brejnev.
Por ora, o olimpismo que Donald Trump mais incentiva atende pelo nome de Enhanced Games (jogos turbinados, em tradução livre). Estão programados para maio de 2026, serão disputados em Las Vegas com patrocínio de um fundo de capital de risco capitaneado por Donald Jr. e já contam com mais de cem atletas inscritos nas três modalidades programadas: natação, atletismo e levantamento de peso. A novidade dessa “Olimpíada do século XXI” é que os participantes competirão turbinados por tudo o que o doping tem de mais moderno. Tudo o que é proibido pelo COI estará liberado. As premiações já anunciadas incluem um bônus de US$ 1 milhão para quem quebrar o recorde mundial na prova de 100 metros e 50 metros nado livre.
— Nosso negócio está em destravar o potencial humano. Estamos criando a vanguarda da super-humanidade — diz o fundador da ideia, o australiano Aron D’Souza.
Os jogos juntam fraude, tudo por dinheiro e violência (contra o corpo humano), as práticas preferidas de Donald Trump.
Palestinos são mortos na fila para pegar comida
Mahmoud Qassem perdeu o filho Khader no final de junho. O jovem de 19 anos tentava chegar a um centro de distribuição de alimentos na Faixa de Gaza operado pela Gaza Humanitarian Foundation (GHF), entidade apoiada por EUA e Israel.
"A última vez que a mãe dele e eu falamos com ele foi às 23h daquela noite. Ele disse que estava em um lugar seguro – ele tinha ido ao centro de distribuição de Netzarim –, e eu disse para ele se cuidar", contou Qassem à DW de uma tenda na Cidade de Gaza onde a família está abrigada.
"À 1h da manhã, tentei ligar de novo, mas o telefone dele não estava recebendo chamadas. Comecei a ficar ansioso. Não houve notícia todo o tempo, e esperei até as 14h do dia seguinte. Sentia como se um fogo queimasse dentro de mim", disse o homem de 50 anos.
No dia 27 de junho, Qassem foi ao centro da Faixa de Gaza e procurou nos hospitais até descobrir que Khader havia sido morto. Quando o corpo foi finalmente recuperado, após coordenação com o exército israelense, viu-se que ele exibia diversas marcas de tiro.
"Um garoto de 19 anos que nem sequer tinha começado a viver a vida, tudo por buscar uma caixa [de alimentos]", disse Qassem, mal contendo as lágrimas. Khader fizera a jornada contra a vontade do pai, por sentir que precisava sustentar a família.
"A situação aqui é indescritível. As pessoas estão se sacrificando para sobreviver. Só Deus sabe o que estamos passando. Ninguém sente por nós – nem o Hamas, nem Israel, nem os países árabes, ninguém."
Relatos quase diários de violência, feridos e mortos ligados à distribuição de alimentos e ajuda humanitária expõem as condições insuportáveis enfrentadas pelos 2,3 milhões de habitantes de Gaza, que se tornaram quase totalmente dependentes dos suprimentos que entram pelos postos controlados por Israel.
Quase toda a população do enclave foi deslocada pelo conflito, que já deixou cerca de 57 mil vítimas no lado palestino desde outubro de 2023, segundo contagem do Ministério da Saúde em Gaza, e 93% da população está em situação de insegurança alimentar aguda, segundo uma análise recente das Nações Unidas.
Alimentos e outros suprimentos se tornaram extremamente escassos em Gaza, mesmo com a retomada das entregas de ajuda da ONU e a abertura de novos centros de distribuição operados pela GHF – dos quais três atualmente em funcionamento, após quase três meses de bloqueio israelense.
Autoridades israelenses justificaram o bloqueio alegando que o Hamas está desviando ajuda e usando-a para financiar suas operações. A alegação foi rejeitada pela ONU e por outras organizações de ajuda internacionais e locais, que há muitos anos mantêm uma rede e um mecanismo de distribuição bem estabelecidos em Gaza.
Mas os caminhões que entram com essa ajuda têm sido repetidamente saqueados, seja por gangues armadas ou por pessoas comuns desesperadas por comida. Enquanto isso, o exército israelense tem intensificado seus ataques aéreos, emitindo ordens de evacuação para grandes áreas do norte e sul de Gaza.
A situação é difícil de ser averiguada de forma independente, já que Israel não permite o acesso de jornalistas estrangeiros ao enclave palestino.
Pai de cinco filhos, o palestino Saeed Abu Libda, de 44 anos, disse à DW que conseguiu recentemente pegar um saco de farinha quando um caminhão passou perto de Khan Younis. "Sei que era arriscado, mas precisamos comer", afirmou por telefone.
Segundo ele, havia milhares de pessoas esperando pelos caminhões. De repente, ele ouviu dois projéteis sendo disparados. "Vi pessoas no chão, algumas estavam feridas; outras, despedaçadas. Fui atingido por estilhaços no abdômen, mas por sorte foi um ferimento leve."
O Ministério da Saúde em Gaza afirma que mais de 500 pessoas foram mortas nas últimas semanas por bombardeios, ataques aéreos e tiros. A maior parte das vítimas estava na fila para buscar comida nos centros de distribuição de ajuda ou próxima a caminhões que transportavam esses mantimentos.
O Ministério do Exterior isralense refutou essas alegações na terça-feira passada (01/07) e acusou o Hamas de atirar em civis, afirmando que o grupo palestino "espalha falsas alegações culpando as FDI [Forças de Defesa de Israel], infla números de mortos e divulga imagens falsas".
No mesmo dia, cerca de 130 das maiores entidades de caridade e ONGs, dentre elas Oxfam e Save the Children, pediram o fechamento da GHF alegando que a fundação força milhares de famintos a transitar por zonas militarizadas, correndo risco ao tentar acessar ajuda humanitária vital.
O presidente da GHF, Johnnie Moore, reagiu dizendo que a fundação não encerraria suas operações, que o grupo distribuiu mais de 55 milhões de refeições e que está disposto a trabalhar com a ONU e outras agências de ajuda.
Moore sugeriu ainda que o Ministério da Saúde de Gaza estaria inflando o número de mortes associadas à distribuição de ajuda humanitária. Segundo ele, o órgão divulga "todo dia uma estatística de vítimas civis e, simultaneamente, atribui 100% dessas mortes civis à espera por ajuda – praticamente sempre, à espera da nossa ajuda".
O exército isralense admitiu em várias ocasiões ter disparado "tiros de advertência" contra indivíduos que se aproximavam de posições militares próximas aos locais de distribuição de ajuda, mas não divulga informações sobre o número de vítimas.
No final de junho, reportagem publicada no jornal israelense Haaretz afirmou que soldados israelenses foram autorizados a abrir fogo contra multidões perto de centros de distribuição de alimentos, com o objetivo de mantê-las afastadas de posições israelenses dentro das zonas militarizadas.
Soldados não identificados citados pelo Haaretz relataram ter usado força letal contra pessoas desarmadas que não representavam ameaça. O caso estaria sob investigação interna por suspeita de violação do direito internacional e crimes de guerra.
Em nota conjunta, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Israel Katz rejeitaram a denúncia, acusando o Haaretz de divulgar mentiras que visam "difamar as FDI, o exército mais moral do mundo".
As FDI também rejeitaram as acusações, afirmando em comunicado que não houve ordens para "atirar deliberadamente contra civis, incluindo aqueles que se aproximam dos centros de distribuição".
Mas três dias depois da publicação da reportagem, o exército isralense anunciou a reorganização de estradas de acesso e centros de distribuição de ajuda humanitária, com a criação de novos checkpoints e sinalizações para "reduzir a fricção com a população e manter a segurança das tropas que operam ali".
A GHF tem repetidamente negado relatos de violência em seus centros de distribuição e acusado veículos estrangeiros de mentir. "Não tivemos um único incidente violento em nossos locais de distribuição. Não houve incidentes violentos nas proximidades dos nossos centros", sustentou Moore.
No entanto, após as denúncias levantadas pelo Haaretz, a GHF declarou que elas eram "graves demais para serem ignoradas" e pediu uma investigação.
Neste sábado (05/07), a GHF anunciou que dois funcionários americanos teriam sido feridos num "ataque terrorista direcionado" com granadas. A entidade culpou o Hamas.
Enquanto isso, palestinos desesperados muitas vezes precisam caminhar por horas através de zonas devastadas pela guerra para alcançar os centros de distribuição, localizados em áreas militarizadas designadas por Israel. Esses centros costumam funcionar apenas por um curto período, e muitas vezes não está claro onde as pessoas podem se reunir com segurança enquanto esperam pela ajuda.
"A estrada até lá é muito perigosa, e eu tento ao máximo não desviar da estrada principal", contou Ahmed Abu Raida por telefone à DW. Como outros tantos, ele também vive em um barraco improvisado com a família, em Mawasi, no sul de Gaza. "Esperamos o anúncio da abertura dos centros, e durante as longas horas de espera, há tiros intensos vindos de várias direções."
Abu Raida disse que foi a um centro da GHF em Rafah várias vezes e conseguiu pegar uma caixa contendo farinha, lentilhas, macarrão, chá e óleo de cozinha. "Quando entramos no local, há um grande caos por causa da enorme quantidade de pessoas", relatou.
Segundo ele, o processo de distribuição é aleatório. "Não há fiscalização nem limite para a quantidade de caixas que alguém pode pegar." E, assim como outros ouvidos pela DW, ele disse também considerá-lo humilhante e injusto: idosos, mulheres, pessoas vulneráveis não têm chance.
"O que podemos fazer? Não temos comida suficiente nem renda para comprar nos mercados, onde os preços estão absurdamente altos", lamentou. "Tudo o que recebemos é apenas o suficiente para nos manter vivos."
"A última vez que a mãe dele e eu falamos com ele foi às 23h daquela noite. Ele disse que estava em um lugar seguro – ele tinha ido ao centro de distribuição de Netzarim –, e eu disse para ele se cuidar", contou Qassem à DW de uma tenda na Cidade de Gaza onde a família está abrigada.
"À 1h da manhã, tentei ligar de novo, mas o telefone dele não estava recebendo chamadas. Comecei a ficar ansioso. Não houve notícia todo o tempo, e esperei até as 14h do dia seguinte. Sentia como se um fogo queimasse dentro de mim", disse o homem de 50 anos.
No dia 27 de junho, Qassem foi ao centro da Faixa de Gaza e procurou nos hospitais até descobrir que Khader havia sido morto. Quando o corpo foi finalmente recuperado, após coordenação com o exército israelense, viu-se que ele exibia diversas marcas de tiro.
"Um garoto de 19 anos que nem sequer tinha começado a viver a vida, tudo por buscar uma caixa [de alimentos]", disse Qassem, mal contendo as lágrimas. Khader fizera a jornada contra a vontade do pai, por sentir que precisava sustentar a família.
"A situação aqui é indescritível. As pessoas estão se sacrificando para sobreviver. Só Deus sabe o que estamos passando. Ninguém sente por nós – nem o Hamas, nem Israel, nem os países árabes, ninguém."
Relatos quase diários de violência, feridos e mortos ligados à distribuição de alimentos e ajuda humanitária expõem as condições insuportáveis enfrentadas pelos 2,3 milhões de habitantes de Gaza, que se tornaram quase totalmente dependentes dos suprimentos que entram pelos postos controlados por Israel.
Quase toda a população do enclave foi deslocada pelo conflito, que já deixou cerca de 57 mil vítimas no lado palestino desde outubro de 2023, segundo contagem do Ministério da Saúde em Gaza, e 93% da população está em situação de insegurança alimentar aguda, segundo uma análise recente das Nações Unidas.
Alimentos e outros suprimentos se tornaram extremamente escassos em Gaza, mesmo com a retomada das entregas de ajuda da ONU e a abertura de novos centros de distribuição operados pela GHF – dos quais três atualmente em funcionamento, após quase três meses de bloqueio israelense.
Autoridades israelenses justificaram o bloqueio alegando que o Hamas está desviando ajuda e usando-a para financiar suas operações. A alegação foi rejeitada pela ONU e por outras organizações de ajuda internacionais e locais, que há muitos anos mantêm uma rede e um mecanismo de distribuição bem estabelecidos em Gaza.
Mas os caminhões que entram com essa ajuda têm sido repetidamente saqueados, seja por gangues armadas ou por pessoas comuns desesperadas por comida. Enquanto isso, o exército israelense tem intensificado seus ataques aéreos, emitindo ordens de evacuação para grandes áreas do norte e sul de Gaza.
A situação é difícil de ser averiguada de forma independente, já que Israel não permite o acesso de jornalistas estrangeiros ao enclave palestino.
Pai de cinco filhos, o palestino Saeed Abu Libda, de 44 anos, disse à DW que conseguiu recentemente pegar um saco de farinha quando um caminhão passou perto de Khan Younis. "Sei que era arriscado, mas precisamos comer", afirmou por telefone.
Segundo ele, havia milhares de pessoas esperando pelos caminhões. De repente, ele ouviu dois projéteis sendo disparados. "Vi pessoas no chão, algumas estavam feridas; outras, despedaçadas. Fui atingido por estilhaços no abdômen, mas por sorte foi um ferimento leve."
O Ministério da Saúde em Gaza afirma que mais de 500 pessoas foram mortas nas últimas semanas por bombardeios, ataques aéreos e tiros. A maior parte das vítimas estava na fila para buscar comida nos centros de distribuição de ajuda ou próxima a caminhões que transportavam esses mantimentos.
O Ministério do Exterior isralense refutou essas alegações na terça-feira passada (01/07) e acusou o Hamas de atirar em civis, afirmando que o grupo palestino "espalha falsas alegações culpando as FDI [Forças de Defesa de Israel], infla números de mortos e divulga imagens falsas".
No mesmo dia, cerca de 130 das maiores entidades de caridade e ONGs, dentre elas Oxfam e Save the Children, pediram o fechamento da GHF alegando que a fundação força milhares de famintos a transitar por zonas militarizadas, correndo risco ao tentar acessar ajuda humanitária vital.
O presidente da GHF, Johnnie Moore, reagiu dizendo que a fundação não encerraria suas operações, que o grupo distribuiu mais de 55 milhões de refeições e que está disposto a trabalhar com a ONU e outras agências de ajuda.
Moore sugeriu ainda que o Ministério da Saúde de Gaza estaria inflando o número de mortes associadas à distribuição de ajuda humanitária. Segundo ele, o órgão divulga "todo dia uma estatística de vítimas civis e, simultaneamente, atribui 100% dessas mortes civis à espera por ajuda – praticamente sempre, à espera da nossa ajuda".
O exército isralense admitiu em várias ocasiões ter disparado "tiros de advertência" contra indivíduos que se aproximavam de posições militares próximas aos locais de distribuição de ajuda, mas não divulga informações sobre o número de vítimas.
No final de junho, reportagem publicada no jornal israelense Haaretz afirmou que soldados israelenses foram autorizados a abrir fogo contra multidões perto de centros de distribuição de alimentos, com o objetivo de mantê-las afastadas de posições israelenses dentro das zonas militarizadas.
Soldados não identificados citados pelo Haaretz relataram ter usado força letal contra pessoas desarmadas que não representavam ameaça. O caso estaria sob investigação interna por suspeita de violação do direito internacional e crimes de guerra.
Em nota conjunta, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Israel Katz rejeitaram a denúncia, acusando o Haaretz de divulgar mentiras que visam "difamar as FDI, o exército mais moral do mundo".
As FDI também rejeitaram as acusações, afirmando em comunicado que não houve ordens para "atirar deliberadamente contra civis, incluindo aqueles que se aproximam dos centros de distribuição".
Mas três dias depois da publicação da reportagem, o exército isralense anunciou a reorganização de estradas de acesso e centros de distribuição de ajuda humanitária, com a criação de novos checkpoints e sinalizações para "reduzir a fricção com a população e manter a segurança das tropas que operam ali".
A GHF tem repetidamente negado relatos de violência em seus centros de distribuição e acusado veículos estrangeiros de mentir. "Não tivemos um único incidente violento em nossos locais de distribuição. Não houve incidentes violentos nas proximidades dos nossos centros", sustentou Moore.
No entanto, após as denúncias levantadas pelo Haaretz, a GHF declarou que elas eram "graves demais para serem ignoradas" e pediu uma investigação.
Neste sábado (05/07), a GHF anunciou que dois funcionários americanos teriam sido feridos num "ataque terrorista direcionado" com granadas. A entidade culpou o Hamas.
Enquanto isso, palestinos desesperados muitas vezes precisam caminhar por horas através de zonas devastadas pela guerra para alcançar os centros de distribuição, localizados em áreas militarizadas designadas por Israel. Esses centros costumam funcionar apenas por um curto período, e muitas vezes não está claro onde as pessoas podem se reunir com segurança enquanto esperam pela ajuda.
"A estrada até lá é muito perigosa, e eu tento ao máximo não desviar da estrada principal", contou Ahmed Abu Raida por telefone à DW. Como outros tantos, ele também vive em um barraco improvisado com a família, em Mawasi, no sul de Gaza. "Esperamos o anúncio da abertura dos centros, e durante as longas horas de espera, há tiros intensos vindos de várias direções."
Abu Raida disse que foi a um centro da GHF em Rafah várias vezes e conseguiu pegar uma caixa contendo farinha, lentilhas, macarrão, chá e óleo de cozinha. "Quando entramos no local, há um grande caos por causa da enorme quantidade de pessoas", relatou.
Segundo ele, o processo de distribuição é aleatório. "Não há fiscalização nem limite para a quantidade de caixas que alguém pode pegar." E, assim como outros ouvidos pela DW, ele disse também considerá-lo humilhante e injusto: idosos, mulheres, pessoas vulneráveis não têm chance.
"O que podemos fazer? Não temos comida suficiente nem renda para comprar nos mercados, onde os preços estão absurdamente altos", lamentou. "Tudo o que recebemos é apenas o suficiente para nos manter vivos."
Sobre gatos e jabutis
Um dos meus grandes amigos de infância foi um gato. Fofura branca de rabo preto, manso e pacífico, chamado de “pechincha”, não sei exatamente por quê. Presente de um vizinho, um achado pelo valor da gentileza. Sempre que me via triste, choroso pelos cantos da casa, penalizado “pelas trelas” cometidas, ele se achegava e ronronava na linguagem afetiva dos felinos domésticos (família dos “felidae”) que miam quando insatisfeitos ou rugem quando ameaçadores.
Quando ele se foi, sofri e prometi a mim mesmo que não em apegaria a nenhum animal doméstico. Senti, faz muitos anos, que cães e gatos, conhecidos, atualmente, como “pets”, são capazes de exercer na sociedade humana as funções de companheirismo, divertimento e os benefícios menos visíveis, porém não menos importantes, preencher nossos vazios e estimular nossos afetos.
A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: que papo é esse quando a agenda esteve e está repleta conflitos e incertezas e, no plano nacional o Congresso reina sobranceiro, impondo reveses ao Executivo que, ao fim e ao cabo, têm o custo suportado pela população brasileira?
Por coincidência, no centro da questão política Governo x Congresso está o setor energético, conta de luz e dois representantes da nossa fauna: o gato e o jabuti. Aí entram em cena o Código Penal e o criativo senso de humor do brasileiro. O parágrafo terceiro do artigo 155 estabelece: “Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico”. E a esperteza delinquente encontra uma forma de subtrair a energia da rede elétrica sem o devido pagamento à distribuidora com ligações clandestinas (furto) e adulterações de medidores ou dispositivos equivalentes (estelionato).
Ora, a ação delituosa é uma prática que, no caso da energia elétrica, exige habilidades, movimentos silenciosos e furtivos para não serem notados, à semelhança dos gatos, “gatunos”, um felino, ao mesmo tempo, ágil e sensual, capaz de inspirar a denominação de “gato” ou “gata” às pessoas atraentes.
Mas não fica por aí. O bichano concorrente é “o gato de água” obedece ao mesmo padrão de comportamento delituoso. Em ambos os casos, os prejuízos do crime afetam o patrimônio público, prejudicam as políticas de distribuição e abastecimento, agravam os danos da infraestrutura e afrontam respeito à lei cuja observância assegura a manutenção do estado de direito.
No mundo da política, porém, o representante mais importante da fauna brasileira é “um réptil de carapaça convexa” conhecido como jabuti. Como entrou e por que entrou na cena, em especial, no Congresso Brasileiro? Na sua origem, está a expressão “Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente ou foi mão de gente”.
A linguagem popular consagrou um significado especial: quando, ao longo do processo legislativo, os parlamentares se defrontam com um dispositivo estranho ao tema principal do projeto de lei: é um jabuti! A prática é mais comum do que se imagina. Ele está ali quietinho que, em grande medida, contraria legítimos interesses republicanos. Hoje, é um frequente personagem nos embates congressuais
Em recente episódio, a derrubada dos vetos presidenciais significa a ressureição de robustos jabutis que haviam sido incluídos enquanto tramitava o projeto de lei do marco legal das eólicas offshore. Segundo a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), os jabutis vão custar, aproximadamente, R$ 197 bilhões ao consumidor longo de 25 anos e, por igual período, um aumento de 3,5% a 9% na conta de luz
Neste sentido, cabe salientar que uma parte do ônus se alastra pela economia e pune a sociedade com a alta inflacionária. De outra parte, este tipo decisão tem sérios efeitos sobre expectativas e sobre a visão estratégica que apontam o Brasil como um grande protagonista da questão ambiental com a autoridade de quem construiu uma matriz energética limpa, atualmente, ampliada pelas fontes renováveis de energia.
A rigor, o jabuti é produto da “esperteza” brasileira que ao beneficiar poucos, prejudicam, seriamente, uma população inteira. Não dá para obter a vantagem de poucos representados pela pressão fraudulenta em prejuízo de muitos cujos direitos são difusos e destituídos da força dos grupos de pressão organizados. Os jabutis são inocentes. Culpados são os fraudadores da vontade popular.
Cabe, ao final, reagir, politicamente, para que “gatos” e “jabutis”, bípedes e engravatados, não comprometam vocação ambiental do país, caso as escolhas políticas se distanciem da dimensão estratégica que o Brasil representa para um mundo em profundas transformações.
Quando ele se foi, sofri e prometi a mim mesmo que não em apegaria a nenhum animal doméstico. Senti, faz muitos anos, que cães e gatos, conhecidos, atualmente, como “pets”, são capazes de exercer na sociedade humana as funções de companheirismo, divertimento e os benefícios menos visíveis, porém não menos importantes, preencher nossos vazios e estimular nossos afetos.
A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: que papo é esse quando a agenda esteve e está repleta conflitos e incertezas e, no plano nacional o Congresso reina sobranceiro, impondo reveses ao Executivo que, ao fim e ao cabo, têm o custo suportado pela população brasileira?
Por coincidência, no centro da questão política Governo x Congresso está o setor energético, conta de luz e dois representantes da nossa fauna: o gato e o jabuti. Aí entram em cena o Código Penal e o criativo senso de humor do brasileiro. O parágrafo terceiro do artigo 155 estabelece: “Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico”. E a esperteza delinquente encontra uma forma de subtrair a energia da rede elétrica sem o devido pagamento à distribuidora com ligações clandestinas (furto) e adulterações de medidores ou dispositivos equivalentes (estelionato).
Ora, a ação delituosa é uma prática que, no caso da energia elétrica, exige habilidades, movimentos silenciosos e furtivos para não serem notados, à semelhança dos gatos, “gatunos”, um felino, ao mesmo tempo, ágil e sensual, capaz de inspirar a denominação de “gato” ou “gata” às pessoas atraentes.
Mas não fica por aí. O bichano concorrente é “o gato de água” obedece ao mesmo padrão de comportamento delituoso. Em ambos os casos, os prejuízos do crime afetam o patrimônio público, prejudicam as políticas de distribuição e abastecimento, agravam os danos da infraestrutura e afrontam respeito à lei cuja observância assegura a manutenção do estado de direito.
No mundo da política, porém, o representante mais importante da fauna brasileira é “um réptil de carapaça convexa” conhecido como jabuti. Como entrou e por que entrou na cena, em especial, no Congresso Brasileiro? Na sua origem, está a expressão “Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente ou foi mão de gente”.
A linguagem popular consagrou um significado especial: quando, ao longo do processo legislativo, os parlamentares se defrontam com um dispositivo estranho ao tema principal do projeto de lei: é um jabuti! A prática é mais comum do que se imagina. Ele está ali quietinho que, em grande medida, contraria legítimos interesses republicanos. Hoje, é um frequente personagem nos embates congressuais
Em recente episódio, a derrubada dos vetos presidenciais significa a ressureição de robustos jabutis que haviam sido incluídos enquanto tramitava o projeto de lei do marco legal das eólicas offshore. Segundo a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), os jabutis vão custar, aproximadamente, R$ 197 bilhões ao consumidor longo de 25 anos e, por igual período, um aumento de 3,5% a 9% na conta de luz
Neste sentido, cabe salientar que uma parte do ônus se alastra pela economia e pune a sociedade com a alta inflacionária. De outra parte, este tipo decisão tem sérios efeitos sobre expectativas e sobre a visão estratégica que apontam o Brasil como um grande protagonista da questão ambiental com a autoridade de quem construiu uma matriz energética limpa, atualmente, ampliada pelas fontes renováveis de energia.
A rigor, o jabuti é produto da “esperteza” brasileira que ao beneficiar poucos, prejudicam, seriamente, uma população inteira. Não dá para obter a vantagem de poucos representados pela pressão fraudulenta em prejuízo de muitos cujos direitos são difusos e destituídos da força dos grupos de pressão organizados. Os jabutis são inocentes. Culpados são os fraudadores da vontade popular.
Cabe, ao final, reagir, politicamente, para que “gatos” e “jabutis”, bípedes e engravatados, não comprometam vocação ambiental do país, caso as escolhas políticas se distanciem da dimensão estratégica que o Brasil representa para um mundo em profundas transformações.
sábado, 5 de julho de 2025
O discurso dos grandes ditadores
Sim, quero ser imperador, cacique, líder supremo, dono do mundo, do pedaço, da parte que — por voto, concurso ou apadrinhamento — me cabe neste latifúndio.
Quero ser tratado por Meritíssimo, Excelência, Vossa Senhoria. É meu ofício: governar, legislar, fazer cumprir as leis — em causa própria, e, bem sabeis, a meu bel-prazer. Quero ajudar os meus — e que se danem ucranianos, ianomâmis e aposentados, contribuintes, motoristas de aplicativo e judeus. Prendei os que vandalizam palácios e ignorai os que deixam ruir igrejas, arder museus. Quero que negros odeiem brancos, pobres se insurjam contra ricos — e eu, rico e branco, fomentador de antagonismos e mestre em demonizar o diálogo, seja reverenciado como um deus.
Eu degusto lagosta à vossa custa, enquanto em 21,6 milhões de lares, em “insegurança alimentar”, comeis o pão que o diabo amassou. Eu presenteio lenços e gravatas de seda com o que retiro, compulsoriamente, do bolso onde mal tendes o suficiente para vos agasalhar.
Com o suor do vosso rosto, bobinhas, eu pago maquiadores que me mantêm a pele clara e imaculada para que eu possa defender vossa dignidade e vossas necessidades com meu afronte e minha bolsa (três anos e meio de Bolsa Família, uma pechincha) e denunciar o avanço da extrema direita —em Paris.
Eu liberto réus confessos, anulo condenações justas, perdoo multas bilionárias. Trabalhais oito horas por dia, seis dias por semana, 11 meses por ano para que pinguem o mínimo na vossa conta — eu tenho 60 dias de descanso remunerado, horário flexível, encho de penduricalhos meu supersalário (os pagamentos acima do teto constitucional passaram de R$ 10 bilhões em 2024) — e processo quem divulgar as remunerações ilegais.
Eu gasto muito e mal; e vos empurro goela abaixo mais e mais impostos e mordomias e má gestão. Visito ex-presidente presa por corrupção e mando buscar, em jatinho da FAB (bancado por vós, que íeis andar de avião e jamais decolastes), a ex-primeira-dama condenada à prisão por lavagem de dinheiro. Apoio agressores e ditaduras, corruptos e tiranias — mas me outorgo autoridade moral de defensor da paz, da ética e das minorias.
Acho que 513 deputados são pouco, que é pouco gastar mais de R$ 24 milhões por ano com cada um e voto por elevar esse número para 531. Quero mais fundo eleitoral e mais emendas parlamentares e menos transparência e mais privilégios. Com vossos recursos, eu pago meus procedimentos estéticos, meus jantares superfaturados e asfalto as ruas do meu condomínio de luxo.
Por isso, vos peço: lutai pela censura, pelo controle dos meios de comunicação, por mais taxação; pela anistia aos que tentaram golpear a democracia, pelos que a corroem por dentro simulando defendê-la. Afinal, quem sois vós na fila do pão? Uma das 196 mulheres violentadas por dia. Uma vítima de feminicídio a cada seis horas. Um dos 35.365 que sofreram morte violenta em 2024. Um dos 3,9 milhões de pedintes esperando Godot nos guichês do INSS. Um dos 59 milhões de incapazes de atender às próprias necessidades básicas de sobrevivência.
Não sois cidadãos: 213 milhões de pequenos tiranos é que sois. Segui, pois, odiando-vos uns aos outros — e ignorando que todo poder emana de vós, e em vosso nome deveria ser exercido.
Eduardo Affonso
Quero ser tratado por Meritíssimo, Excelência, Vossa Senhoria. É meu ofício: governar, legislar, fazer cumprir as leis — em causa própria, e, bem sabeis, a meu bel-prazer. Quero ajudar os meus — e que se danem ucranianos, ianomâmis e aposentados, contribuintes, motoristas de aplicativo e judeus. Prendei os que vandalizam palácios e ignorai os que deixam ruir igrejas, arder museus. Quero que negros odeiem brancos, pobres se insurjam contra ricos — e eu, rico e branco, fomentador de antagonismos e mestre em demonizar o diálogo, seja reverenciado como um deus.
Eu degusto lagosta à vossa custa, enquanto em 21,6 milhões de lares, em “insegurança alimentar”, comeis o pão que o diabo amassou. Eu presenteio lenços e gravatas de seda com o que retiro, compulsoriamente, do bolso onde mal tendes o suficiente para vos agasalhar.
Com o suor do vosso rosto, bobinhas, eu pago maquiadores que me mantêm a pele clara e imaculada para que eu possa defender vossa dignidade e vossas necessidades com meu afronte e minha bolsa (três anos e meio de Bolsa Família, uma pechincha) e denunciar o avanço da extrema direita —em Paris.
Eu liberto réus confessos, anulo condenações justas, perdoo multas bilionárias. Trabalhais oito horas por dia, seis dias por semana, 11 meses por ano para que pinguem o mínimo na vossa conta — eu tenho 60 dias de descanso remunerado, horário flexível, encho de penduricalhos meu supersalário (os pagamentos acima do teto constitucional passaram de R$ 10 bilhões em 2024) — e processo quem divulgar as remunerações ilegais.
Eu gasto muito e mal; e vos empurro goela abaixo mais e mais impostos e mordomias e má gestão. Visito ex-presidente presa por corrupção e mando buscar, em jatinho da FAB (bancado por vós, que íeis andar de avião e jamais decolastes), a ex-primeira-dama condenada à prisão por lavagem de dinheiro. Apoio agressores e ditaduras, corruptos e tiranias — mas me outorgo autoridade moral de defensor da paz, da ética e das minorias.
Acho que 513 deputados são pouco, que é pouco gastar mais de R$ 24 milhões por ano com cada um e voto por elevar esse número para 531. Quero mais fundo eleitoral e mais emendas parlamentares e menos transparência e mais privilégios. Com vossos recursos, eu pago meus procedimentos estéticos, meus jantares superfaturados e asfalto as ruas do meu condomínio de luxo.
Por isso, vos peço: lutai pela censura, pelo controle dos meios de comunicação, por mais taxação; pela anistia aos que tentaram golpear a democracia, pelos que a corroem por dentro simulando defendê-la. Afinal, quem sois vós na fila do pão? Uma das 196 mulheres violentadas por dia. Uma vítima de feminicídio a cada seis horas. Um dos 35.365 que sofreram morte violenta em 2024. Um dos 3,9 milhões de pedintes esperando Godot nos guichês do INSS. Um dos 59 milhões de incapazes de atender às próprias necessidades básicas de sobrevivência.
Não sois cidadãos: 213 milhões de pequenos tiranos é que sois. Segui, pois, odiando-vos uns aos outros — e ignorando que todo poder emana de vós, e em vosso nome deveria ser exercido.
Eduardo Affonso
Tempos de profetas e charlatães
Hoje, numa época em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatães usam as mesmas fórmulas com mínimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redações dos jornais são constantemente incomodadas por gente que acha que é um gênio, é muito difícil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pés diante da porta da redação são suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porém, o gênio passa a outra condição. Deixa de ser matéria fútil da crítica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tão pouco a sério como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de fatos concretos, com todas as consequências que isso tem.
Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância.
Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância.
Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem, e é por isso que sobram sempre muitos atributos. Foram criados um dia por algum homem importante para outro homem importante, mas esses homens há muito que morreram, e os conceitos que lhes sobreviveram têm de ser utilizados. Por isso andamos sempre à procura do homem certo para um determinado adjetivo. A "portentosa plenitude" de Shakespeare, a "universalidade" de Goethe, a "profundidade psicológica" de Dostoievski e muitas outras imagens que uma longa tradição literária deixou atrás de si andam às centenas nas cabeças dos que escrevem, e essa sobrelotação de reservas leva-os a dizer hoje que um estratega do tênis é "insondável" ou um poeta em moda "grandioso". É compreensível que se sintam gratos quando conseguem aplicar sem desperdício a sua reserva de palavras. Mas terá sempre de se tratar de um homem cuja importância já é um fato aceite, de maneira a que se compreenda como as palavras se ajustam bem a ele, ainda que não se diga exatamente a que qualidades.
Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"
Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"
Sociedade de massa e financismo
A tendência marcante do nosso tempo é a crescente submissão da política aos ditames dos mercados financeiros. Não se trata do poder dos operadores, aqueles que se empenham na busca do melhor resultado. Em suas opiniões econômicas, esses funcionários da finança exprimem os consensos impessoais que os submetem aos mandamentos da sociedade de massa. Não são agentes racionais, mas escravos das concepções que os dominam.
Em delírio subpositivista, um economista do mainstream sugeriu que as narrativas (ideologias?) não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Desgraçadamente para a matilha de cães raivosos que emitem latidos na economia, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Os consensos dos mercados deploram o peso excessivo do Estado munificente e investem contra as tentativas de disciplinar as forças simultaneamente criadoras e destrutivas do capitalismo. A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, tem sido contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do orçamento equilibrado. As massas enriquecidas contestam qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza e da renda.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos servos das finanças afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo que ordena restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
A ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. As duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder administrativo e na desvalorização da política. A resposta esperançosa às incertezas do futuro depende da capacidade de mobilização democrática e radical dos deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlados pela hegemonia das banalidades.
Um exemplo de procedimentos duvidosos está na ideia de superávit fiscal estrutural que trata de eliminar os efeitos do ciclo econômico nas receitas do governo. Nesse procedimento estão embutidas ideias peregrinas. Nas catacumbas do pensamento mercadista esconde-se o conceito de equilíbrio. Esse conceito dominante na teoria econômica obscurece a compreensão do capitalismo como economia monetário-financeira em permanente movimento.
Por rádio, televisão e jornal a população é “informada” que precisa se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais e menos direitos e benefícios trabalhistas, ou encarar a destruição da economia, tudo em nome da ciência econômica. Diante dessa configuração, a esfera pública e democrática sucumbe descaradamente à degradação dos Parlamentos. No Brasil de 2025, o Legislativo está contaminado pela peste dos interesses abrigados nas emendas parlamentares, para não falar das vergonhas do orçamento secreto. Esses processos visíveis e simultâneos de crescente putrefação do “público” e de celebração do “privado” decorrem da sociabilidade peculiar imposta pelo movimento “invisível” da mão que guia o curso dos mercados.
Para o cidadão afetado, parece inteiramente fantástica a ideia de controlar as causas desses golpes do destino. As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das Bolsas de Valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir suas condições de vida. Mas o consenso dominante trata de explicar que se não for assim sua vida pode piorar ainda mais.
A formação desse consenso é, em si, um método eficaz de bloquear o imaginário social, comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas de um ponto de vista negativo, no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade, mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa, primordialmente, o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
Em delírio subpositivista, um economista do mainstream sugeriu que as narrativas (ideologias?) não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Desgraçadamente para a matilha de cães raivosos que emitem latidos na economia, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.
Os consensos dos mercados deploram o peso excessivo do Estado munificente e investem contra as tentativas de disciplinar as forças simultaneamente criadoras e destrutivas do capitalismo. A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, tem sido contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do orçamento equilibrado. As massas enriquecidas contestam qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza e da renda.
A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos servos das finanças afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo que ordena restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.
A ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. As duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder administrativo e na desvalorização da política. A resposta esperançosa às incertezas do futuro depende da capacidade de mobilização democrática e radical dos deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlados pela hegemonia das banalidades.
Um exemplo de procedimentos duvidosos está na ideia de superávit fiscal estrutural que trata de eliminar os efeitos do ciclo econômico nas receitas do governo. Nesse procedimento estão embutidas ideias peregrinas. Nas catacumbas do pensamento mercadista esconde-se o conceito de equilíbrio. Esse conceito dominante na teoria econômica obscurece a compreensão do capitalismo como economia monetário-financeira em permanente movimento.
Por rádio, televisão e jornal a população é “informada” que precisa se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais e menos direitos e benefícios trabalhistas, ou encarar a destruição da economia, tudo em nome da ciência econômica. Diante dessa configuração, a esfera pública e democrática sucumbe descaradamente à degradação dos Parlamentos. No Brasil de 2025, o Legislativo está contaminado pela peste dos interesses abrigados nas emendas parlamentares, para não falar das vergonhas do orçamento secreto. Esses processos visíveis e simultâneos de crescente putrefação do “público” e de celebração do “privado” decorrem da sociabilidade peculiar imposta pelo movimento “invisível” da mão que guia o curso dos mercados.
Para o cidadão afetado, parece inteiramente fantástica a ideia de controlar as causas desses golpes do destino. As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das Bolsas de Valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir suas condições de vida. Mas o consenso dominante trata de explicar que se não for assim sua vida pode piorar ainda mais.
A formação desse consenso é, em si, um método eficaz de bloquear o imaginário social, comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.
A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas de um ponto de vista negativo, no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade, mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa, primordialmente, o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente.
Blowin’ in the wind
Uma amiga me perguntou se eu sempre me entendi antissionista. Respondi: “Nunca fui sionista e, em algum momento, me transformei em antissionista (cada vez mais radical). Fiz o ensino fundamental em colégio judaico no Bom Retiro (Renascença). A certa altura, me dei conta do sionismo e de que os judeus deveriam ir para Israel, a Terra Prometida. Então pensei comigo mesmo, ‘Nossa! Eu então aqui sou o rei, porque nasci lá’ (eu sempre acho que sou o rei da cocada preta… até cair do cavalo).
“Ingressei no ensino médio em colégio público (o Estadual do Parque D. Pedro II), em plena ‘guerra triunfal’ de Israel em 1967, e foi lá que ouvi as primeiras alusões antissionistas. Em 1968, comecei a militar na Polop e me posicionava a favor do povo palestino.
“Em 2012, depois que meus pais deixaram este mundo, comecei a escrever as suas memórias do Holocausto… e foi assim que eu caí do cavalo. Descobri que eu não era o rei porque nasci na Terra Prometida, eu, na verdade, era um traidor.
“Em Returnees, consta ‘Haim Yahil, do Ministério das Relações Exteriores de Israel, que estava na Alemanha trabalhando no Acordo de Reparações, disse que os judeus brasileiros, ao invés de imigrarem para Israel, manifestavam o seu sionismo sendo hostis aos returnees.’”
Minha amiga, que não é judia, respondeu: “Acho que a queda é um mito que nem todos têm a sorte de viver. Minha queda desse cavalo – eu cresci entre sionistas de esquerda, centro e direita – veio bem mais tarde, em 2019, e levou uns anos até se consolidar em 2023. Fico chocada como são poucos os que se atrevem a cair desse cavalo.”
Outro amigo, este de ascendência judia, que acompanhava de perto a minha trajetória antissionista, ao ler o artigo A violência dos sionistas, postado após o 7 de outubro de 2023, escreveu em 22 de novembro do mesmo ano: “Não posso concordar com um artigo que começa com a frase ‘A violência dos sionistas em relação aos palestinos não começou em 7 de outubro de 2023…’ Não concordo com o inteiro teor do texto, ou seja, com a seleção de fatos e argumentos que se encaixam teleologicamente na concepção do autor. Com a omissão, por exemplo, do fato de que centenas de milhares de judeus foram expulsos de países árabes do Oriente Médio e do Magreb depois da vitória de Israel na guerra de 1948. Não concordo especialmente com o final do texto, que usa como recurso retórico a posição alucinada de judeus fundamentalistas que são contra a existência de Israel porque acreditam que tal advento só poderia ocorrer com a chegada de um suposto messias. Aí já se ingressa no terreno do aluamento. Vai quem quiser. Eu, não. Espero que você reconheça o direito à divergência. Saudações.”
Três meses depois, o mesmo amigo me encaminhou um email com o título “Crise”: “Teu relato sobre os returnees foi um primeiro sinal de que havia alguma (ou muita) coisa errada com Israel. Hoje digo para você que estou horrorizado não apenas com o governo israelense e a maioria que o levou ao poder, não apenas com a trajetória histórica do Estado de Israel, não apenas com os setores fascistas, reacionários e todo tipo de picaretas da Diáspora, mas com a própria imagem da judeidade formada na minha cabeça ao longo de mais de 70 anos. Como você pode imaginar, Israel, na minha infância, adolescência, juventude, idade madura e bem depois era uma entidade acima das críticas que poderiam ser feitas a certos aspectos daquela sociedade. Acho que funcionava assim para a maioria dos judeus fora de Israel. Tudo isso desabou em semanas. Compreendo melhor, agora, as tuas posições. Deixou de existir a imagem de um conjunto de valores morais pelos quais supostamente se guiariam os filhos do ‘povo eleito’. Era uma premissa entranhada que alimentei (ou com que fui alimentado) década após década, apesar dos pesares e mesmo reconhecendo os direitos dos palestinos. Nunca imaginei me ver num contexto tão adverso. Acho que só existe saída na luta pela paz, que ainda estará engatinhando, se tanto, quando nós tivermos morrido. Mas não vejo outro caminho. Sem isso só restará amargura e, no limite, desespero. Abração.”
Quantas mortes serão necessárias até que se saiba que muitas pessoas já morreram?
Quantos anos pode um povo existir até que permitam que ele seja livre?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind.
Samuel Kilsztajn
“Ingressei no ensino médio em colégio público (o Estadual do Parque D. Pedro II), em plena ‘guerra triunfal’ de Israel em 1967, e foi lá que ouvi as primeiras alusões antissionistas. Em 1968, comecei a militar na Polop e me posicionava a favor do povo palestino.
“Em 2012, depois que meus pais deixaram este mundo, comecei a escrever as suas memórias do Holocausto… e foi assim que eu caí do cavalo. Descobri que eu não era o rei porque nasci na Terra Prometida, eu, na verdade, era um traidor.
“Em Returnees, consta ‘Haim Yahil, do Ministério das Relações Exteriores de Israel, que estava na Alemanha trabalhando no Acordo de Reparações, disse que os judeus brasileiros, ao invés de imigrarem para Israel, manifestavam o seu sionismo sendo hostis aos returnees.’”
Minha amiga, que não é judia, respondeu: “Acho que a queda é um mito que nem todos têm a sorte de viver. Minha queda desse cavalo – eu cresci entre sionistas de esquerda, centro e direita – veio bem mais tarde, em 2019, e levou uns anos até se consolidar em 2023. Fico chocada como são poucos os que se atrevem a cair desse cavalo.”
Outro amigo, este de ascendência judia, que acompanhava de perto a minha trajetória antissionista, ao ler o artigo A violência dos sionistas, postado após o 7 de outubro de 2023, escreveu em 22 de novembro do mesmo ano: “Não posso concordar com um artigo que começa com a frase ‘A violência dos sionistas em relação aos palestinos não começou em 7 de outubro de 2023…’ Não concordo com o inteiro teor do texto, ou seja, com a seleção de fatos e argumentos que se encaixam teleologicamente na concepção do autor. Com a omissão, por exemplo, do fato de que centenas de milhares de judeus foram expulsos de países árabes do Oriente Médio e do Magreb depois da vitória de Israel na guerra de 1948. Não concordo especialmente com o final do texto, que usa como recurso retórico a posição alucinada de judeus fundamentalistas que são contra a existência de Israel porque acreditam que tal advento só poderia ocorrer com a chegada de um suposto messias. Aí já se ingressa no terreno do aluamento. Vai quem quiser. Eu, não. Espero que você reconheça o direito à divergência. Saudações.”
Três meses depois, o mesmo amigo me encaminhou um email com o título “Crise”: “Teu relato sobre os returnees foi um primeiro sinal de que havia alguma (ou muita) coisa errada com Israel. Hoje digo para você que estou horrorizado não apenas com o governo israelense e a maioria que o levou ao poder, não apenas com a trajetória histórica do Estado de Israel, não apenas com os setores fascistas, reacionários e todo tipo de picaretas da Diáspora, mas com a própria imagem da judeidade formada na minha cabeça ao longo de mais de 70 anos. Como você pode imaginar, Israel, na minha infância, adolescência, juventude, idade madura e bem depois era uma entidade acima das críticas que poderiam ser feitas a certos aspectos daquela sociedade. Acho que funcionava assim para a maioria dos judeus fora de Israel. Tudo isso desabou em semanas. Compreendo melhor, agora, as tuas posições. Deixou de existir a imagem de um conjunto de valores morais pelos quais supostamente se guiariam os filhos do ‘povo eleito’. Era uma premissa entranhada que alimentei (ou com que fui alimentado) década após década, apesar dos pesares e mesmo reconhecendo os direitos dos palestinos. Nunca imaginei me ver num contexto tão adverso. Acho que só existe saída na luta pela paz, que ainda estará engatinhando, se tanto, quando nós tivermos morrido. Mas não vejo outro caminho. Sem isso só restará amargura e, no limite, desespero. Abração.”
Quantas mortes serão necessárias até que se saiba que muitas pessoas já morreram?
Quantos anos pode um povo existir até que permitam que ele seja livre?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind.
Samuel Kilsztajn
Congresso “chora” com onda de críticas e ganha defesa de 7 minutos
Com a crise política entre Congresso e Governo – por mais que neguem, ela existe – tomando conta do noticiário nos últimos dias e tendo uma participação ativa da população no debate, não deveria ser surpresa para ninguém a onda de memes criticando o Legislativo, principalmente na figura do atual presidente da Câmara, Hugo Motta.
Até aí, tudo como sempre foi desde que o debate começou a existir nas redes sociais. Mas as críticas incomodaram – e todos sabemos que, meme é igual apelido: quando o alvo não gosta, aí que pega. Falando nisso, as sátiras ganharam mais força ainda após reportagem no Jornal Nacional com ilustres 7 minutos de duração.
Não é possível comparar o espírito constante das eleições brasileiras, o bom humor como crítica, às campanhas de desinformação de cunho golpista, com ataques agressivos às instituições. Desde a época do impresso, a indignação do cidadão é expressada desse jeito “moleque” – no bom sentido – como uma forma de atingir mais pessoas e se fazer ouvido pelo Poder.
“Esses coronéis não querem pressão, eles querem proteger seus privilégios, impedir avanços sociais, sem dar satisfação ao povo, sem pressão política em cima deles. Em hipótese alguma nós podemos aceitar isso”, disse o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ) em sua rede social.
A verdade é que a boa criatividade do eleitor brasileiro na forma de conteúdos humorísticos que denunciam uma atuação de um parlamentar ou figura pública sempre foi e deveria ser hoje muito bem-vinda: é o que mede a temperatura da população, o desgaste político e, portanto, os rumos do país. O personagem criado para Motta, “Hugo Nem se Importa”, fala sobre a defesa de medidas que beneficiam a parcela mais rica, privilegiada da sociedade brasileira – a partir da derrubada do IOF após quebrar acordo feito com o Governo. Uma campanha que nasceu de forma orgânica através de internautas que empolgaram a militância da esquerda.
Salvo engano, Hugo Motta não gostou nadinha, se sentiu responsabilizado pela derrota do governo e ganhou uma matéria no Jornal Nacional em sua defesa, com termos como “risco à democracia” e “agressões”. O governo Lula chegou a precisar declarar que não foi um movimento engatilhado por eles e toda sorte de acusação foi levantada contra os criadores da “campanha Congresso da Mamata”.
“É só um bando de chantagista querendo mais grana. E aí, quando faz um ‘meme do mamateiro’, vão lá dizer que isso é um ataque antidemocrático, um ataque à política. Isso é ridículo, ataque à política é você sequestrar o Orçamento, é você acabar com o presidencialismo. Isso sim é um ataque à Democracia”, diz Guga Noblat.
Até aí, tudo como sempre foi desde que o debate começou a existir nas redes sociais. Mas as críticas incomodaram – e todos sabemos que, meme é igual apelido: quando o alvo não gosta, aí que pega. Falando nisso, as sátiras ganharam mais força ainda após reportagem no Jornal Nacional com ilustres 7 minutos de duração.
Não é possível comparar o espírito constante das eleições brasileiras, o bom humor como crítica, às campanhas de desinformação de cunho golpista, com ataques agressivos às instituições. Desde a época do impresso, a indignação do cidadão é expressada desse jeito “moleque” – no bom sentido – como uma forma de atingir mais pessoas e se fazer ouvido pelo Poder.
“Esses coronéis não querem pressão, eles querem proteger seus privilégios, impedir avanços sociais, sem dar satisfação ao povo, sem pressão política em cima deles. Em hipótese alguma nós podemos aceitar isso”, disse o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ) em sua rede social.
A verdade é que a boa criatividade do eleitor brasileiro na forma de conteúdos humorísticos que denunciam uma atuação de um parlamentar ou figura pública sempre foi e deveria ser hoje muito bem-vinda: é o que mede a temperatura da população, o desgaste político e, portanto, os rumos do país. O personagem criado para Motta, “Hugo Nem se Importa”, fala sobre a defesa de medidas que beneficiam a parcela mais rica, privilegiada da sociedade brasileira – a partir da derrubada do IOF após quebrar acordo feito com o Governo. Uma campanha que nasceu de forma orgânica através de internautas que empolgaram a militância da esquerda.
Salvo engano, Hugo Motta não gostou nadinha, se sentiu responsabilizado pela derrota do governo e ganhou uma matéria no Jornal Nacional em sua defesa, com termos como “risco à democracia” e “agressões”. O governo Lula chegou a precisar declarar que não foi um movimento engatilhado por eles e toda sorte de acusação foi levantada contra os criadores da “campanha Congresso da Mamata”.
“É só um bando de chantagista querendo mais grana. E aí, quando faz um ‘meme do mamateiro’, vão lá dizer que isso é um ataque antidemocrático, um ataque à política. Isso é ridículo, ataque à política é você sequestrar o Orçamento, é você acabar com o presidencialismo. Isso sim é um ataque à Democracia”, diz Guga Noblat.
sexta-feira, 4 de julho de 2025
Custos ocultos
“Externalidades” designa os custos ou benefícios de produzir um bem ou serviço que não se refletem no preço de mercado. Abundam as externalidades negativas, em que os lucros são privados, e os custos, de todos. Nos alimentos ultraprocessados, os custos com o tratamento dos doentes (obesidade, diabetes). Na indústria da moda, as pilhas de roupa num deserto sul-americano ou num qualquer país africano. Na energia, o aquecimento global. E há muitos outros exemplos.
Não obstante, uma realidade evidente para todos, a indústria canaliza recursos para gerar a dúvida. Alega que os estudos científicos são incompletos e é necessária mais investigação. Que não foi demonstrada causa-efeito. Que existem múltiplos fatores. As reações são ténues e tardias. Individual e institucionalmente, acolhemos a dúvida, que nos apazigua a ansiedade, num dia a dia já com a sua dose de preocupações.
Lentamente, compostos químicos são proibidos e impostos tornam mais rentável encontrar uma alternativa ou assegurar a reciclagem. Exemplos bem-sucedidos são o Protocolo de Montreal, que eliminou a produção de químicos que empobreciam a camada de ozono e, na Noruega, a taxa especial sobre produtores e distribuidores, caso não garantam a recolha de 95% das garrafas de plástico.
No novo mundo virtual, as externalidades não são apenas físicas. À poluição e aos custos energéticos associados à produção dos gadgets somam-se as externalidades de carácter intelectual e social. Multiplicam-se os estudos que demonstram que estamos mais ansiosos e infelizes, desde que a nossa vida social passou a ser formatada pelas redes sociais. A qualidade da nossa democracia degradou-se, com o discurso político controlado pelo algoritmo, que decide o que lemos e que manipula os nossos instintos mais básicos.
Face às denúncias de ex-funcionários das Big Tech, estudos de médicos e cientistas sugerem as primeiras respostas. Vários países europeus ponderam a proibição do uso de telemóveis nos recintos escolares (nalguns, incluindo no Secundário). No estado do Utah. EUA, foi publicada, em 2024, legislação a estabelecer limites de tempo de uso, proibição de auto-play, scrolling e notificações automáticas, e obrigatoriedade de apresentar os conteúdos por ordem cronológica, quando o utilizador é um menor. Em 2023, 41 estados americanos demandaram a Meta por produzir apps viciantes e especialmente destinadas aos mais jovens (na sequência de serem tornados públicos documentos internos pela ex-funcionária do Facebook Frances Haugen). Não se antecipa vitória, dado o Supremo Tribunal de Justiça Americano ter vindo a decidir que as empresas detentoras destas plataformas não são responsáveis pelos conteúdos. Na Europa, sucedem-se os pedidos de informação pela Comissão Europeia, ao abrigo do Regulamento dos Serviços Digitais, embora, até ao momento, tal ainda não se tenha refletido na forma como os algoritmos se encontram desenhados.
Importa acelerar a resposta e reconhecer que não são apenas as crianças e os jovens que beneficiariam da eliminação do auto-play e do scrolling ou de os conteúdos serem apresentados por ordem cronológica. Afinal, os 18 anos não nos tornam, como por milagre, imunes aos efeitos negativos das redes sociais. Um “recolher obrigatório”, isto é um período noturno em que crianças e jovens não podem estar online (como o previsto na legislação do Utah) permitiria um sono mais tranquilo e certamente um ambiente familiar e escolar mais saudável. Se é já evidente que uma escola menos digital – sem smartphones (há que recordar que para contactar existem sempre telefones de teclas) e com um uso muito circunscrito de televisores e computadores – permite melhores resultados na aprendizagem e no comportamento, porque adiamos tomar medidas? E se o ideal é legislar, também na nossa comunidade e na escola dos nossos filhos é possível atuar. Mobilizemo-nos como cidadãos, pais e educadores para, enquanto as Big Tech acumulam lucros, não sermos vítimas desta externalidade que nos corrói o cérebro e o tecido social.
Não obstante, uma realidade evidente para todos, a indústria canaliza recursos para gerar a dúvida. Alega que os estudos científicos são incompletos e é necessária mais investigação. Que não foi demonstrada causa-efeito. Que existem múltiplos fatores. As reações são ténues e tardias. Individual e institucionalmente, acolhemos a dúvida, que nos apazigua a ansiedade, num dia a dia já com a sua dose de preocupações.
Lentamente, compostos químicos são proibidos e impostos tornam mais rentável encontrar uma alternativa ou assegurar a reciclagem. Exemplos bem-sucedidos são o Protocolo de Montreal, que eliminou a produção de químicos que empobreciam a camada de ozono e, na Noruega, a taxa especial sobre produtores e distribuidores, caso não garantam a recolha de 95% das garrafas de plástico.
No novo mundo virtual, as externalidades não são apenas físicas. À poluição e aos custos energéticos associados à produção dos gadgets somam-se as externalidades de carácter intelectual e social. Multiplicam-se os estudos que demonstram que estamos mais ansiosos e infelizes, desde que a nossa vida social passou a ser formatada pelas redes sociais. A qualidade da nossa democracia degradou-se, com o discurso político controlado pelo algoritmo, que decide o que lemos e que manipula os nossos instintos mais básicos.
Face às denúncias de ex-funcionários das Big Tech, estudos de médicos e cientistas sugerem as primeiras respostas. Vários países europeus ponderam a proibição do uso de telemóveis nos recintos escolares (nalguns, incluindo no Secundário). No estado do Utah. EUA, foi publicada, em 2024, legislação a estabelecer limites de tempo de uso, proibição de auto-play, scrolling e notificações automáticas, e obrigatoriedade de apresentar os conteúdos por ordem cronológica, quando o utilizador é um menor. Em 2023, 41 estados americanos demandaram a Meta por produzir apps viciantes e especialmente destinadas aos mais jovens (na sequência de serem tornados públicos documentos internos pela ex-funcionária do Facebook Frances Haugen). Não se antecipa vitória, dado o Supremo Tribunal de Justiça Americano ter vindo a decidir que as empresas detentoras destas plataformas não são responsáveis pelos conteúdos. Na Europa, sucedem-se os pedidos de informação pela Comissão Europeia, ao abrigo do Regulamento dos Serviços Digitais, embora, até ao momento, tal ainda não se tenha refletido na forma como os algoritmos se encontram desenhados.
Importa acelerar a resposta e reconhecer que não são apenas as crianças e os jovens que beneficiariam da eliminação do auto-play e do scrolling ou de os conteúdos serem apresentados por ordem cronológica. Afinal, os 18 anos não nos tornam, como por milagre, imunes aos efeitos negativos das redes sociais. Um “recolher obrigatório”, isto é um período noturno em que crianças e jovens não podem estar online (como o previsto na legislação do Utah) permitiria um sono mais tranquilo e certamente um ambiente familiar e escolar mais saudável. Se é já evidente que uma escola menos digital – sem smartphones (há que recordar que para contactar existem sempre telefones de teclas) e com um uso muito circunscrito de televisores e computadores – permite melhores resultados na aprendizagem e no comportamento, porque adiamos tomar medidas? E se o ideal é legislar, também na nossa comunidade e na escola dos nossos filhos é possível atuar. Mobilizemo-nos como cidadãos, pais e educadores para, enquanto as Big Tech acumulam lucros, não sermos vítimas desta externalidade que nos corrói o cérebro e o tecido social.
Riqueza nacional
A miséria moral, como a pobreza material, não a compramos com a independência: herdamo-las. Colônia alguma recebeu de um povo europeu mais rico legado. Seja embora! As heranças veneram-se. Nós veneramos os nossos prejuízos. Nossa miséria histórica é a nossa riqueza.
Tavares Bastos (1839-1875)
Tavares Bastos (1839-1875)
Os humanos e as 'subespécies'
Numa brincadeira que circula nas redes sociais, o professor pergunta num teste: “Que nome se dá à Ciência que classifica os seres vivos?” E o aluno responde: “Racismo.” Somos todos Homo sapiens sapiens e não coexistimos com mais nenhuma subespécie humana. Para a Ciência, não existem raças, uma vez que os seres humanos partilham 99,9% do ADN, não justificando a sua divisão.
Certamente haverá uns mais sapiens do que outros, uns mais altos e outros mais baixos, uns com a pele mais clara e outros com a pele mais escura – são as diferenças de fenótipos que estão nos 0,1% restantes do ADN. As raças são uma construção social altamente influenciada pelo contexto em que vivemos.
Ainda que sem nenhuma base genética nem biológica, o facto é que a classificação do ser humano por raças, feita pelo antropólogo alemão Johann Friedrich Blumenbach, no século XIX, ainda permanece no imaginário dos povos europeus. Eram cinco, dizia ele, a caucasoide, a mongoloide, a etiópica, a americana e a malaia. Sendo que o “tipo” humano perfeito, para o alemão, se encontrava nas montanhas do Cáucaso.
Mas se a Ciência nos conta uma história, a de que partilhamos 99,9% do ADN, a política sempre nos contou outra e seguimos num mundo em que a partilha de 99,9% dos direitos humanos é ainda uma miragem. No nosso país, por exemplo, encontramos várias “subespécies” de pessoas que não têm direito a algo tão básico como a família.
O Governo quer alterar a Lei de Estrangeiros, que permite o reagrupamento familiar de quem cá está com título de residência, desde que tenha entrado no País de forma legal – a proposta do Executivo de Luís Montenegro é a de que tenham de esperar dois anos, com título de residência, para poderem ter consigo a família.
O mundo é feito de fronteiras e podemos deixar de lado a utopia cristã de que somos todos filhos de Deus – “crescei e multiplicai-vos”, uma conta que não fala em divisões – para ter uma conversa séria e moderna sobre a necessidade de criar uma política de imigração regulada dentro dos muros europeus. Mais difícil de entender é a proposta governamental de que, entre a “subespécie imigrante”, haja Homo sapiens sapiens que podem trazer a família e outros não.
Como é que se faz esta distinção? Quem é profissional altamente qualificado ou quem tenha um Visto Gold pode trazer a família de imediato. E aqui está a principal “característica” que não aparece nos 0,1% do ADN que não partilhamos, mas é um fator distintivo definitivo e universal: já nem é a cor da pele, mas o tamanho dos bolsos.
Já dizia Durão Barroso, nosso ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia: “Há limites para o multiculturalismo.” Uma coisa são as grandes multinacionais que espalham pelo mundo a sua monocultura – como o Goldman Sachs, o banco de investimento do qual Durão Barroso foi presidente não executivo –, outra é juntar mais línguas a esta Torre de Babel que já é a Europa.
O que mina a discussão sobre a imigração – que se quer séria, responsável, gentil, para não semear ódios nem incitar à violência e ao racismo – é o reino da hipocrisia.
Como ter agora o Chega a fazer a defesa das mulheres, outra “subespécie” humana, contra o uso de burkas. Como se os seus deputados não fossem dos maiores bullies contra as mulheres na Assembleia da República. O que sobra disto para a sensatez?
Certamente haverá uns mais sapiens do que outros, uns mais altos e outros mais baixos, uns com a pele mais clara e outros com a pele mais escura – são as diferenças de fenótipos que estão nos 0,1% restantes do ADN. As raças são uma construção social altamente influenciada pelo contexto em que vivemos.
Ainda que sem nenhuma base genética nem biológica, o facto é que a classificação do ser humano por raças, feita pelo antropólogo alemão Johann Friedrich Blumenbach, no século XIX, ainda permanece no imaginário dos povos europeus. Eram cinco, dizia ele, a caucasoide, a mongoloide, a etiópica, a americana e a malaia. Sendo que o “tipo” humano perfeito, para o alemão, se encontrava nas montanhas do Cáucaso.
Mas se a Ciência nos conta uma história, a de que partilhamos 99,9% do ADN, a política sempre nos contou outra e seguimos num mundo em que a partilha de 99,9% dos direitos humanos é ainda uma miragem. No nosso país, por exemplo, encontramos várias “subespécies” de pessoas que não têm direito a algo tão básico como a família.
O Governo quer alterar a Lei de Estrangeiros, que permite o reagrupamento familiar de quem cá está com título de residência, desde que tenha entrado no País de forma legal – a proposta do Executivo de Luís Montenegro é a de que tenham de esperar dois anos, com título de residência, para poderem ter consigo a família.
O mundo é feito de fronteiras e podemos deixar de lado a utopia cristã de que somos todos filhos de Deus – “crescei e multiplicai-vos”, uma conta que não fala em divisões – para ter uma conversa séria e moderna sobre a necessidade de criar uma política de imigração regulada dentro dos muros europeus. Mais difícil de entender é a proposta governamental de que, entre a “subespécie imigrante”, haja Homo sapiens sapiens que podem trazer a família e outros não.
Como é que se faz esta distinção? Quem é profissional altamente qualificado ou quem tenha um Visto Gold pode trazer a família de imediato. E aqui está a principal “característica” que não aparece nos 0,1% do ADN que não partilhamos, mas é um fator distintivo definitivo e universal: já nem é a cor da pele, mas o tamanho dos bolsos.
Já dizia Durão Barroso, nosso ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia: “Há limites para o multiculturalismo.” Uma coisa são as grandes multinacionais que espalham pelo mundo a sua monocultura – como o Goldman Sachs, o banco de investimento do qual Durão Barroso foi presidente não executivo –, outra é juntar mais línguas a esta Torre de Babel que já é a Europa.
O que mina a discussão sobre a imigração – que se quer séria, responsável, gentil, para não semear ódios nem incitar à violência e ao racismo – é o reino da hipocrisia.
Como ter agora o Chega a fazer a defesa das mulheres, outra “subespécie” humana, contra o uso de burkas. Como se os seus deputados não fossem dos maiores bullies contra as mulheres na Assembleia da República. O que sobra disto para a sensatez?
Número de mortos em Gaza é 65% maior que oficial, diz estudo
Com a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza severamente restrita pelos israelenses, a fonte de dados sobre o número de vítimas da guerra costuma ser o Ministério da Saúde local, controlado pelo Hamas – e Israel sempre rejeitou esses números, alegando que eles seriam exagerados. Agora, um estudo independente mostra que a contagem real de mortos é provavelmente ainda maior que os números oficiais.
Uma pesquisa conduzida pelo economista Michael Spagat, do Royal Holloway College, da Universidade de Londres, estimou que, até o início de janeiro deste ano, mais de 80 mil palestinos haviam sido mortos na guerra de Israel em Gaza, 65% a mais do que os nomes que constam nas listas do Ministério da Saúde local.
Para Spagat, especializado em guerras contemporâneas e na contagem de vítimas de conflitos, um dos aspectos importantes do seu trabalho é "lembrar-se de cada vítima". Que os nomes dos mortos estejam pelo menos escritos em listas, como o Ministério da Saúde de Gaza faz atualmente.
Ele considera as listas oficiais "amplamente corretas" – mesmo que o ministério seja controlado pelo Hamas, classificado como uma organização terrorista pela União Europeia (UE), pelos Estados Unidos e outros países.
"O Ministério da Saúde de Gaza lista os nomes dos mortos com seu número de identificação, idade e sexo. Isso pode ser facilmente verificado", afirma.
Isso já foi feito: em fevereiro, pesquisadores publicaram um estudo na revista científica The Lancet que comparou obituários publicados em redes sociais com as listas do Ministério da Saúde palestino, e chegaram à conclusão que alguns nomes não haviam sido adicionados à lista oficial – ou seja, havia nomes faltando. E concluiu que o número de mortos era provavelmente maior do que o divulgado.
Pesquisadores em campo em Gaza
Agora, pela primeira vez, foi apresentado um estudo realizado de forma independente sobre as listas de mortos publicadas pelo Ministério da Saúde em Gaza. Os pesquisadores, liderados por Spagat, perguntaram aos moradores do território palestino sobre os membros falecidos de suas famílias.
Para fazer isso, eles estabeleceram uma colaboração com colegas do Centro Palestino para Políticas e Pesquisas de Opinião (PCPSR), uma organização independente de pesquisa, liderada pelo cientista político Khalil Shikaki, financiada por fundações privadas e pela UE, entre outros. Ela é sediada em Ramallah, na Cisjordânia, mas também conta com uma equipe experiente na Faixa de Gaza.
"Não precisamos ser autorizados a entrar em Gaza. Já estávamos lá", diz Spagat, explicando como os dados foram coletados na zona de guerra, onde – com exceção de algumas organizações humanitárias – a autoridade israelense responsável dificilmente permite a entrada de alguém. Israel vem proibindo a entrada de jornalistas internacionais desde o início da guerra. "Felizmente, nenhum de nossos pesquisadores em campo foi morto até agora. Todos os funcionários do estudo estão vivos."
Os pesquisadores em campo conversaram com uma amostra de 2 mil famílias, representativa da população de Gaza antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que levou à guerra conduzida por Israel.
Eles não puderam entrar em áreas isoladas pelo exército israelense como zonas de combate. No entanto, como grande parte da população de Gaza foi deslocada, os pesquisadores puderam conversar com pessoas em locais como o acampamento de Al-Mawasi, onde estão ex-moradores do norte da Faixa de Gaza ou de Rafah.
O estudo concluiu que, de 7 de outubro de 2023 a 5 de janeiro de 2025, o número de mortes diretas pela guerra foi de cerca de 75.200. No mesmo período, o número de mortos segundo o Ministério da Saúde de Gaza foi de 45.650. A pesquisa indica, portanto, que o número real de mortes é 65% maior do que o registrado nas listas oficiais.
Isso significa que cerca de uma em cada 25 pessoas foi morta na Faixa de Guerra, que tinha uma população de cerca de 2,3 milhões de habitantes no início da guerra.
A isso se soma o número das chamadas "mortes indiretas da guerra", ou seja, todas as pessoas que morreram em consequência da desnutrição ou de doenças provocadas pelas circunstâncias da guerra – menos o número de pessoas que teriam morrido de velhice ou doença independentemente da guerra. Os pesquisadores estimam que as mortes indiretas da guerra somam 8.540 para o período mencionado.
Esse número é significativamente menor do que o anteriormente estimado. Um estudo publicado na revista The Lancet em julho de 2024 havia projetado que, para cada morte contabilizada, quatro mortes indiretas adicionais da guerra teriam que ser adicionadas. As organizações humanitárias vêm alertando há meses que os civis em Gaza podem morrer de desnutrição e doenças – falou-se em dezenas de milhares de mortes indiretas da guerra.
Spagat atribui o número mais baixo de "mortes indiretas" ao fato da população de Gaza ser, em média, jovem e, antes da guerra, em grande parte bastante saudável, devido a um bom sistema de saúde e à alta taxa de vacinação "graças à ONU e a muitas organizações humanitárias".
Esse número não é baixo em comparação com outras zonas de guerra. "Nossos números mostram que as organizações humanitárias têm feito um ótimo trabalho em manter a população viva até agora", afirma.
Ele ressalta que o estudo foi realizado antes do bloqueio total de onze semanas imposto por Israel às entregas de ajuda humanitária a Gaza. "A população de Gaza está desnutrida. Quando surgem doenças, as coisas podem acontecer muito rapidamente. Mesmo que houvesse um cessar-fogo na próxima semana e ele fosse mantido, o número de mortes indiretas cresceria novamente. Nossos números não são definitivos."
O estudo ainda não foi revisado de forma independente por pesquisadores que não estiveram envolvidos nele. Trata-se de uma pré-impressão. Por esse motivo, os números também não podem ser considerados definitivos. Mas as conclusões coincidem com o estudo publicado anteriormente na Lancet, que verificou a lista de nomes fornecida pelo Ministério da Saúde de Gaza.
A equipe de pesquisa de Spagat e Shikaki utilizou métodos diferentes, mas tinha um objetivo semelhante. Eles queriam verificar se a instituição que conta diariamente as novas mortes na Faixa de Gaza pode ser usada como referência confiável.
"Mostramos claramente que eles não estão exagerando o número de mortos. O estudo também indica que eles fornecem um quadro realista da demografia das vítimas fatais. A porcentagem de mulheres, crianças e idosos que calculamos corresponde com bastante precisão aos números do Ministério da Saúde em Gaza."
De acordo com o estudo, mais de 30% das mortes diretas são de crianças e adolescentes menores de 18 anos. Outros 22% são mulheres e cerca de 4% são pessoas com mais de 65 anos. A maioria dos mortos são homens de 15 a 49 anos. Isso significa que os combatentes foram realmente alvos?
"Não", responde Spagat. "Nas guerras, os jovens são sempre os mais propensos a serem mortos." Assim como o Ministério da Saúde de Gaza, o estudo não faz distinção entre combatentes e civis.
"Teríamos colocado nossos pesquisadores de campo em risco se eles tivessem perguntado se havia membros do Hamas morando na casa." Eles poderiam ser considerados suspeitos de serem agentes do serviço secreto israelense, de acordo com Spagat. Portanto, esses dados não foram coletados.
Ele enfatiza: "Temos um número muito grande de crianças pequenas mortas, o que é fora do comum". Ele hesita em fazer comparações, mas "em Gaza, 4% da população foi morta. Não vimos isso em nenhuma outra guerra no século 21".
Se extrapolarmos os números do estudo de Spagat e Shikaki para os dias de hoje, chegaríamos rapidamente a 100 mil mortos. Um número difícil de imaginar, por trás do qual estão os nomes e as histórias de pessoas.
Conhecemos algumas delas, como a família al-Najjar. As crianças Yahya, Rakan, Ruslan, Jubran, Eve, Rivan, Saydeen, Luqman e Sidra foram mortas em 23 de maio em um ataque aéreo israelense em Khan Yunis. Sua mãe sobreviveu porque estava de plantão no hospital como médica. O único sobrevivente do ataque foi seu filho Adam, de onze anos. O pai das crianças, o também médico Hamdi al-Najjar, morreu alguns dias depois.
Uma pesquisa conduzida pelo economista Michael Spagat, do Royal Holloway College, da Universidade de Londres, estimou que, até o início de janeiro deste ano, mais de 80 mil palestinos haviam sido mortos na guerra de Israel em Gaza, 65% a mais do que os nomes que constam nas listas do Ministério da Saúde local.
Para Spagat, especializado em guerras contemporâneas e na contagem de vítimas de conflitos, um dos aspectos importantes do seu trabalho é "lembrar-se de cada vítima". Que os nomes dos mortos estejam pelo menos escritos em listas, como o Ministério da Saúde de Gaza faz atualmente.
Ele considera as listas oficiais "amplamente corretas" – mesmo que o ministério seja controlado pelo Hamas, classificado como uma organização terrorista pela União Europeia (UE), pelos Estados Unidos e outros países.
"O Ministério da Saúde de Gaza lista os nomes dos mortos com seu número de identificação, idade e sexo. Isso pode ser facilmente verificado", afirma.
Isso já foi feito: em fevereiro, pesquisadores publicaram um estudo na revista científica The Lancet que comparou obituários publicados em redes sociais com as listas do Ministério da Saúde palestino, e chegaram à conclusão que alguns nomes não haviam sido adicionados à lista oficial – ou seja, havia nomes faltando. E concluiu que o número de mortos era provavelmente maior do que o divulgado.
Pesquisadores em campo em Gaza
Agora, pela primeira vez, foi apresentado um estudo realizado de forma independente sobre as listas de mortos publicadas pelo Ministério da Saúde em Gaza. Os pesquisadores, liderados por Spagat, perguntaram aos moradores do território palestino sobre os membros falecidos de suas famílias.
Para fazer isso, eles estabeleceram uma colaboração com colegas do Centro Palestino para Políticas e Pesquisas de Opinião (PCPSR), uma organização independente de pesquisa, liderada pelo cientista político Khalil Shikaki, financiada por fundações privadas e pela UE, entre outros. Ela é sediada em Ramallah, na Cisjordânia, mas também conta com uma equipe experiente na Faixa de Gaza.
"Não precisamos ser autorizados a entrar em Gaza. Já estávamos lá", diz Spagat, explicando como os dados foram coletados na zona de guerra, onde – com exceção de algumas organizações humanitárias – a autoridade israelense responsável dificilmente permite a entrada de alguém. Israel vem proibindo a entrada de jornalistas internacionais desde o início da guerra. "Felizmente, nenhum de nossos pesquisadores em campo foi morto até agora. Todos os funcionários do estudo estão vivos."
Os pesquisadores em campo conversaram com uma amostra de 2 mil famílias, representativa da população de Gaza antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que levou à guerra conduzida por Israel.
Eles não puderam entrar em áreas isoladas pelo exército israelense como zonas de combate. No entanto, como grande parte da população de Gaza foi deslocada, os pesquisadores puderam conversar com pessoas em locais como o acampamento de Al-Mawasi, onde estão ex-moradores do norte da Faixa de Gaza ou de Rafah.
O estudo concluiu que, de 7 de outubro de 2023 a 5 de janeiro de 2025, o número de mortes diretas pela guerra foi de cerca de 75.200. No mesmo período, o número de mortos segundo o Ministério da Saúde de Gaza foi de 45.650. A pesquisa indica, portanto, que o número real de mortes é 65% maior do que o registrado nas listas oficiais.
Isso significa que cerca de uma em cada 25 pessoas foi morta na Faixa de Guerra, que tinha uma população de cerca de 2,3 milhões de habitantes no início da guerra.
A isso se soma o número das chamadas "mortes indiretas da guerra", ou seja, todas as pessoas que morreram em consequência da desnutrição ou de doenças provocadas pelas circunstâncias da guerra – menos o número de pessoas que teriam morrido de velhice ou doença independentemente da guerra. Os pesquisadores estimam que as mortes indiretas da guerra somam 8.540 para o período mencionado.
Esse número é significativamente menor do que o anteriormente estimado. Um estudo publicado na revista The Lancet em julho de 2024 havia projetado que, para cada morte contabilizada, quatro mortes indiretas adicionais da guerra teriam que ser adicionadas. As organizações humanitárias vêm alertando há meses que os civis em Gaza podem morrer de desnutrição e doenças – falou-se em dezenas de milhares de mortes indiretas da guerra.
Spagat atribui o número mais baixo de "mortes indiretas" ao fato da população de Gaza ser, em média, jovem e, antes da guerra, em grande parte bastante saudável, devido a um bom sistema de saúde e à alta taxa de vacinação "graças à ONU e a muitas organizações humanitárias".
Esse número não é baixo em comparação com outras zonas de guerra. "Nossos números mostram que as organizações humanitárias têm feito um ótimo trabalho em manter a população viva até agora", afirma.
Ele ressalta que o estudo foi realizado antes do bloqueio total de onze semanas imposto por Israel às entregas de ajuda humanitária a Gaza. "A população de Gaza está desnutrida. Quando surgem doenças, as coisas podem acontecer muito rapidamente. Mesmo que houvesse um cessar-fogo na próxima semana e ele fosse mantido, o número de mortes indiretas cresceria novamente. Nossos números não são definitivos."
O estudo ainda não foi revisado de forma independente por pesquisadores que não estiveram envolvidos nele. Trata-se de uma pré-impressão. Por esse motivo, os números também não podem ser considerados definitivos. Mas as conclusões coincidem com o estudo publicado anteriormente na Lancet, que verificou a lista de nomes fornecida pelo Ministério da Saúde de Gaza.
A equipe de pesquisa de Spagat e Shikaki utilizou métodos diferentes, mas tinha um objetivo semelhante. Eles queriam verificar se a instituição que conta diariamente as novas mortes na Faixa de Gaza pode ser usada como referência confiável.
"Mostramos claramente que eles não estão exagerando o número de mortos. O estudo também indica que eles fornecem um quadro realista da demografia das vítimas fatais. A porcentagem de mulheres, crianças e idosos que calculamos corresponde com bastante precisão aos números do Ministério da Saúde em Gaza."
De acordo com o estudo, mais de 30% das mortes diretas são de crianças e adolescentes menores de 18 anos. Outros 22% são mulheres e cerca de 4% são pessoas com mais de 65 anos. A maioria dos mortos são homens de 15 a 49 anos. Isso significa que os combatentes foram realmente alvos?
"Não", responde Spagat. "Nas guerras, os jovens são sempre os mais propensos a serem mortos." Assim como o Ministério da Saúde de Gaza, o estudo não faz distinção entre combatentes e civis.
"Teríamos colocado nossos pesquisadores de campo em risco se eles tivessem perguntado se havia membros do Hamas morando na casa." Eles poderiam ser considerados suspeitos de serem agentes do serviço secreto israelense, de acordo com Spagat. Portanto, esses dados não foram coletados.
Ele enfatiza: "Temos um número muito grande de crianças pequenas mortas, o que é fora do comum". Ele hesita em fazer comparações, mas "em Gaza, 4% da população foi morta. Não vimos isso em nenhuma outra guerra no século 21".
Se extrapolarmos os números do estudo de Spagat e Shikaki para os dias de hoje, chegaríamos rapidamente a 100 mil mortos. Um número difícil de imaginar, por trás do qual estão os nomes e as histórias de pessoas.
Conhecemos algumas delas, como a família al-Najjar. As crianças Yahya, Rakan, Ruslan, Jubran, Eve, Rivan, Saydeen, Luqman e Sidra foram mortas em 23 de maio em um ataque aéreo israelense em Khan Yunis. Sua mãe sobreviveu porque estava de plantão no hospital como médica. O único sobrevivente do ataque foi seu filho Adam, de onze anos. O pai das crianças, o também médico Hamdi al-Najjar, morreu alguns dias depois.
quinta-feira, 3 de julho de 2025
Os inteligentes construíram o mundo, os estúpidos vivem à grande
Nas "hierarquias de poder" a mesma ordem burocrática que sufoca a criatividade e a originalidade estabelece a escala dos "méritos pressupostos", da qual não se pode discordar a não ser pondo em causa os próprios alicerces da sociedade. A estrutura hierárquica elimina a necessidade de distinguir os seres humanos na base das suas qualidades, dos seus talentos.
Numa burocracia, o chefe é o chefe, porque ocupa a posição de chefe, e não porque seja o melhor. Pode perfeitamente ser o mais estúpido que o último moço de fretes: isso não quer dizer nada, é ele quem manda – porque ele é o chefe. Os sargentos não são necessariamente mais imbecis que os simples soldados ; mas são os distintivos que lhes enfeitam as mangas ou os ombros que lhes conferem a autoridade de comando.
Os juízos de valor brilham pela mais completa ausência nos sistemas burocráticos, porque a estrutura hierárquica os tornou inúteis e consagrou assim o fim da vantagem constituída pela inteligência.
A imbecilidade está no poder. E o poder não precisa de génio.
Mas trabalha em seu próprio benefício, tende a imprimir a sua própria imagem no mundo circundante e a multiplicar a estupidez, da qual extrai a sua razão de ser.
Todos os regimes cuidam de sufocar a inteligência, que não só é desnecessária nos termos de seja que forma for de organização, mas constitui, além disso, um fator adverso e, por conseguinte, uma ameaça. As pessoas de bom senso, por exemplo, põem-se interrogações assustadoras, subversivas. Do tipo : "É possível que logo seja este cretino o meu chefe?". ( Possível e mais que possível ). "Mas não haveria ninguém mais capaz para uma missão tão delicada ?" ( Havia, é quase certo, mas não era isso que interessava ). As ditaduras suprimem a liberdade de pensamento ( e, com frequência, também o pensador ). Em democracia cada cabeça vale um voto, ainda que se trate de uma cabeça oca. Todas as formas de domínio procuram impor a uniformidade dos pensamentos, dos desejos, do mesmo modo que visam massificar os indivíduos e vinculá-los a um modelo comum de imbecilidade.
Tal é a essência do poder. Que resulta das escolhas evolutivas e culturais da nossa espécie. O "homem-massa" da moderna sociedade industrial ( dissuadido de pensar, ensinado a alimentar desejos idênticos aos dos seus semelhantes, porque impostos por sistemas de condicionamento extremamente eficazes ), o homem que se limita a saber desempenhar uma função, é o produto de um processo evolutivo que dura há milénios e se orienta para a repressão da inteligência. Quem diz: "não me agrada, considera" : "a evolução confundiu tudo." "será verdade ?"
Pino Aprile, “Elogio do imbecil“
Numa burocracia, o chefe é o chefe, porque ocupa a posição de chefe, e não porque seja o melhor. Pode perfeitamente ser o mais estúpido que o último moço de fretes: isso não quer dizer nada, é ele quem manda – porque ele é o chefe. Os sargentos não são necessariamente mais imbecis que os simples soldados ; mas são os distintivos que lhes enfeitam as mangas ou os ombros que lhes conferem a autoridade de comando.
Os juízos de valor brilham pela mais completa ausência nos sistemas burocráticos, porque a estrutura hierárquica os tornou inúteis e consagrou assim o fim da vantagem constituída pela inteligência.
A imbecilidade está no poder. E o poder não precisa de génio.
Mas trabalha em seu próprio benefício, tende a imprimir a sua própria imagem no mundo circundante e a multiplicar a estupidez, da qual extrai a sua razão de ser.
Todos os regimes cuidam de sufocar a inteligência, que não só é desnecessária nos termos de seja que forma for de organização, mas constitui, além disso, um fator adverso e, por conseguinte, uma ameaça. As pessoas de bom senso, por exemplo, põem-se interrogações assustadoras, subversivas. Do tipo : "É possível que logo seja este cretino o meu chefe?". ( Possível e mais que possível ). "Mas não haveria ninguém mais capaz para uma missão tão delicada ?" ( Havia, é quase certo, mas não era isso que interessava ). As ditaduras suprimem a liberdade de pensamento ( e, com frequência, também o pensador ). Em democracia cada cabeça vale um voto, ainda que se trate de uma cabeça oca. Todas as formas de domínio procuram impor a uniformidade dos pensamentos, dos desejos, do mesmo modo que visam massificar os indivíduos e vinculá-los a um modelo comum de imbecilidade.
Tal é a essência do poder. Que resulta das escolhas evolutivas e culturais da nossa espécie. O "homem-massa" da moderna sociedade industrial ( dissuadido de pensar, ensinado a alimentar desejos idênticos aos dos seus semelhantes, porque impostos por sistemas de condicionamento extremamente eficazes ), o homem que se limita a saber desempenhar uma função, é o produto de um processo evolutivo que dura há milénios e se orienta para a repressão da inteligência. Quem diz: "não me agrada, considera" : "a evolução confundiu tudo." "será verdade ?"
Pino Aprile, “Elogio do imbecil“
Nada é impossível de mudar
Nada é impossível mudar.
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
Bertold Brecht
Sentir, acreditar e compartilhar. A pós-verdade em tempos de guerras
Recentemente, me vi numa situação inusitada que me causou estresse e até um sentimento de culpa. Partilhei um vídeo feito com deepfake no close friends do Instagram. Alguns minutos depois do impulso, resolvi analisar melhor as imagens e notei que o vídeo havia sido feito com Inteligência Artificial e, no áudio, constavam informações de uma suposta pesquisa científica que, com alguns cliques, logo se descobre que não existe, tampouco a veracidade da informação que lá constava. Senti-me traída pelo perfil que publicou o vídeo, sobretudo por eu considerá-lo uma fonte de informação segura.
Na hora, pensei: se eu, que sou treinada para identificar conteúdos com informações falsas e tenho um olhar atento e crítico, caí numa armadilha vinda de um perfil de um veículo de comunicação supostamente sério, o que será que acontece com quem não tem o mesmo repertório que eu, nos caóticos grupos de WhatsApp?
A questão é que o impulso de partilhar o tal vídeo veio de uma emoção muito pessoal: meses atrás, recebi a notícia de que uma amiga havia falecido em decorrência do tipo de doença que o vídeo abordava. Ou seja, instantaneamente, aquele conteúdo acolhia a minha dor e, assim, tornou-se uma verdade a ponto de eu querer que outras pessoas acreditassem e, por isso, o partilhei.
O conceito de pós-verdade (post-truth) surge na filosofia contemporânea para explicar como a desonestidade e a mentira tornaram-se socialmente aceitas e como a verdade passou a ser relativizada em nome do conforto emocional. Na era da pós-verdade, somos condicionados a valorizar mais o que acolhe e respeita o que sentimos do que aquilo que, de fato, é real. Só o fato de nos tocar já é suficiente para acreditarmos mais do que em dados concretos.
Com isso, vivemos uma profunda crise de confiança, em que já não sabemos no que ou em quem confiar. E daí vem o maior e mais complexo risco: as emoções suprimem o debate racional, e tudo o que requer calma, escuta, análise e contexto perde-se num emaranhado de nós, numa vida digital cada vez mais saturada.
Vivemos em tempos em que a verdade, essa bússola civilizatória, parece ter sido sequestrada por algoritmos, renderizada em pixels e vendida em tempo real por um batalhão de pessoas e empresas que pouco se importam com as consequências de se publicar uma mentira. Entramos num terreno onde os fatos importam menos do que as emoções que provocam, e onde a credibilidade se constrói não pela veracidade, mas pela viralidade, instantaneidade e imediatismo.
Se antes a mentira precisava de um esforço para se sustentar, hoje ela é automatizada. Vídeos hiper-realistas gerados por Inteligência Artificial circulam como munição em guerras híbridas, confundindo a opinião pública, manipulando afetos, distorcendo narrativas e criando um exército de pessoas incapazes de pensar. É como se cada um escolhesse as verdades que lhes causam menos desconforto, em vez de confrontar a realidade, mesmo que as evidências estejam ali, escancaradas.
Na política, discursos que apelam ao medo ou ao orgulho nacional são frequentemente baseados em afirmações jogadas ao vento, mas emocionalmente poderosas. É o que vemos nos discursos anti-imigração, presentes nas últimas eleições portuguesa e norte-americana.
Ao mencionar números e fatos comprovadamente inverídicos, lideranças de extrema-direita inflamaram ainda mais os ânimos do cidadão comum, fortalecendo e ampliando discursos xenófobos que, no fim das contas, só acirram disputas ideológicas que distanciam as nações do próprio conceito de democracia. Não quero nem imaginar o quão complexo serão as eleições 2026 no Brasil…
No contexto geopolítico, em que assistimos dos nossos telefones diariamente ao genocídio de crianças palestinas, há quem acredite e defenda o discurso de que aquelas vidas nada importam. Nestes casos, a emoção é despertada não pelo fato de serem crianças em desespero, feridas e famintas, o que certamente me comove mais, e espero que a você também. Mas sim porque há, por trás, um discurso estruturado de que aquelas crianças “têm de morrer” para se combater um único inimigo.
Neste caso, o inimigo é constituído de várias “verdades”, que perpassam a compreensão de boa parte das pessoas aqui no Ocidente, por envolverem períodos históricos aos quais muitos sequer tiveram acesso nas aulas de História na escola. E, talvez por isso, há quem acredite que tudo começou em outubro de 2023.
Em uma guerra ou numa eleição, minutos de desinformação podem significar perdas irreparáveis. O problema não está só nas tecnologias, mas na estrutura de poder que as molda. Empresas que desenvolvem essas ferramentas de IA operam sob uma lógica de lucro e disputa por atenção. Governos, por sua vez, ora se omitem, ora se aproveitam.
Estamos vendo o nascimento de um novo complexo militar-informacional, em que vídeos falsos podem ser mais letais do que mísseis reais. Seja na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Sudão, em Israel, no Irã ou nos vídeos de 30 segundos que invadem nossos imaginários quotidianamente, o campo de batalha já não é territorial, mas sobre qual verdade será escrita na história da humanidade.
A pós-verdade redefine também a forma como pensamos o jornalismo. Não basta mais reportar os fatos; é preciso disputar a realidade. Checagem, curadoria, transparência e neutralidade, princípios básicos do jornalismo, tornam-se armas de resistência. Mas será suficiente?
Arrisco dizer que boa parte dos leitores dos jornais não acessa o link na bio do Instagram para tentar procurar a notícia na íntegra, abrir o link, ler e assimilar a informação, para então voltar aos comentários. Parte das pessoas baseia-se apenas na imagem e sequer lê a legenda. Não será a hora de o jornalismo repensar como apresenta as notícias no feed?
A pós-verdade, ao contrário do que se pensa, não é apenas sobre mentir. É sobre criar um ambiente em que a verdade se torna irrelevante. E isso, talvez, seja o maior risco para a democracia global: um mundo onde não importam as evidências dos fatos, mas o que cada um tem para si como verdade.
Na hora, pensei: se eu, que sou treinada para identificar conteúdos com informações falsas e tenho um olhar atento e crítico, caí numa armadilha vinda de um perfil de um veículo de comunicação supostamente sério, o que será que acontece com quem não tem o mesmo repertório que eu, nos caóticos grupos de WhatsApp?
A questão é que o impulso de partilhar o tal vídeo veio de uma emoção muito pessoal: meses atrás, recebi a notícia de que uma amiga havia falecido em decorrência do tipo de doença que o vídeo abordava. Ou seja, instantaneamente, aquele conteúdo acolhia a minha dor e, assim, tornou-se uma verdade a ponto de eu querer que outras pessoas acreditassem e, por isso, o partilhei.
O conceito de pós-verdade (post-truth) surge na filosofia contemporânea para explicar como a desonestidade e a mentira tornaram-se socialmente aceitas e como a verdade passou a ser relativizada em nome do conforto emocional. Na era da pós-verdade, somos condicionados a valorizar mais o que acolhe e respeita o que sentimos do que aquilo que, de fato, é real. Só o fato de nos tocar já é suficiente para acreditarmos mais do que em dados concretos.
Com isso, vivemos uma profunda crise de confiança, em que já não sabemos no que ou em quem confiar. E daí vem o maior e mais complexo risco: as emoções suprimem o debate racional, e tudo o que requer calma, escuta, análise e contexto perde-se num emaranhado de nós, numa vida digital cada vez mais saturada.
Vivemos em tempos em que a verdade, essa bússola civilizatória, parece ter sido sequestrada por algoritmos, renderizada em pixels e vendida em tempo real por um batalhão de pessoas e empresas que pouco se importam com as consequências de se publicar uma mentira. Entramos num terreno onde os fatos importam menos do que as emoções que provocam, e onde a credibilidade se constrói não pela veracidade, mas pela viralidade, instantaneidade e imediatismo.
Se antes a mentira precisava de um esforço para se sustentar, hoje ela é automatizada. Vídeos hiper-realistas gerados por Inteligência Artificial circulam como munição em guerras híbridas, confundindo a opinião pública, manipulando afetos, distorcendo narrativas e criando um exército de pessoas incapazes de pensar. É como se cada um escolhesse as verdades que lhes causam menos desconforto, em vez de confrontar a realidade, mesmo que as evidências estejam ali, escancaradas.
Na política, discursos que apelam ao medo ou ao orgulho nacional são frequentemente baseados em afirmações jogadas ao vento, mas emocionalmente poderosas. É o que vemos nos discursos anti-imigração, presentes nas últimas eleições portuguesa e norte-americana.
Ao mencionar números e fatos comprovadamente inverídicos, lideranças de extrema-direita inflamaram ainda mais os ânimos do cidadão comum, fortalecendo e ampliando discursos xenófobos que, no fim das contas, só acirram disputas ideológicas que distanciam as nações do próprio conceito de democracia. Não quero nem imaginar o quão complexo serão as eleições 2026 no Brasil…
No contexto geopolítico, em que assistimos dos nossos telefones diariamente ao genocídio de crianças palestinas, há quem acredite e defenda o discurso de que aquelas vidas nada importam. Nestes casos, a emoção é despertada não pelo fato de serem crianças em desespero, feridas e famintas, o que certamente me comove mais, e espero que a você também. Mas sim porque há, por trás, um discurso estruturado de que aquelas crianças “têm de morrer” para se combater um único inimigo.
Neste caso, o inimigo é constituído de várias “verdades”, que perpassam a compreensão de boa parte das pessoas aqui no Ocidente, por envolverem períodos históricos aos quais muitos sequer tiveram acesso nas aulas de História na escola. E, talvez por isso, há quem acredite que tudo começou em outubro de 2023.
Em uma guerra ou numa eleição, minutos de desinformação podem significar perdas irreparáveis. O problema não está só nas tecnologias, mas na estrutura de poder que as molda. Empresas que desenvolvem essas ferramentas de IA operam sob uma lógica de lucro e disputa por atenção. Governos, por sua vez, ora se omitem, ora se aproveitam.
Estamos vendo o nascimento de um novo complexo militar-informacional, em que vídeos falsos podem ser mais letais do que mísseis reais. Seja na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Sudão, em Israel, no Irã ou nos vídeos de 30 segundos que invadem nossos imaginários quotidianamente, o campo de batalha já não é territorial, mas sobre qual verdade será escrita na história da humanidade.
A pós-verdade redefine também a forma como pensamos o jornalismo. Não basta mais reportar os fatos; é preciso disputar a realidade. Checagem, curadoria, transparência e neutralidade, princípios básicos do jornalismo, tornam-se armas de resistência. Mas será suficiente?
Arrisco dizer que boa parte dos leitores dos jornais não acessa o link na bio do Instagram para tentar procurar a notícia na íntegra, abrir o link, ler e assimilar a informação, para então voltar aos comentários. Parte das pessoas baseia-se apenas na imagem e sequer lê a legenda. Não será a hora de o jornalismo repensar como apresenta as notícias no feed?
A pós-verdade, ao contrário do que se pensa, não é apenas sobre mentir. É sobre criar um ambiente em que a verdade se torna irrelevante. E isso, talvez, seja o maior risco para a democracia global: um mundo onde não importam as evidências dos fatos, mas o que cada um tem para si como verdade.
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