quinta-feira, 24 de abril de 2025

A captura das polícias pelos discursos religiosos, conservadores e de extrema direita

A ascensão simultânea do neopentecostalismo e da extrema direita no Brasil inaugurou um ciclo inédito de sobreposição entre moral religiosa, militarismo e política de segurança. A interpenetração desses domínios tornou-se particularmente visível dentro das polícias, especialmente nas polícias militares estaduais, que concentram quase meio milhão de profissionais armados. Embora a presença de capelanias seja antiga, o que se observa desde meados dos anos 2010 é um salto qualitativo, não se trata apenas de prestação de assistência espiritual, mas de um processo de formação de identidade corporativa tutelado por pastores e líderes políticos que convertem valores confessionais em doutrina operacional e visão de mundo.

Diversos fatores favoreceram esse quadro. Primeiro, o pacote de políticas sociais provocado por restrições orçamentárias empurrou a segurança pública para o centro de debate eleitoral, criando terreno fértil para atores que prometem “resgatar” a ordem a qualquer preço. Segundo, a própria estrutura militar das polícias militares, hierárquica, fechada à sociedade civil e marcada por rituais de coesão, facilita que narrativas maniqueístas prosperem sem contestação interna. Terceiro, o bolsonarismo, ao amalgamar símbolos cristãos, nacionalismo e culto às armas, ofereceu um repertório pronto que passou por uma circular em grupos de WhatsApp institucionais, tornandose parte do cotidiano dos quartéis. A reportagem da revista Piauí sobre cultos e jejum de oficiais em batalhões é ilustrativa: ali, a tropa não se vê apenas como agente do Estado, mas como “escolhida” para uma guerra espiritual contra o mal encarnado no crime e, por extensão, em opositores ideológicos.


Esse fenômeno ganha densidade política quando se converte em votos. O Instituto Sou da Paz detectou um registro de candidaturas de policiais nas eleições municipais de 2024, movimento descrito como “policialismo eleitoral”. Esses candidatos chegam ao parlamento sob a promessa explícita de fortalecer a corporação, de flexibilizar regras de uso da força e de ampliar o porte de armas. O resultado é um círculo virtuoso para o conservadorismo, a lei, antes instrumento de limitação do poder policial, passa a ser moldada por quem carrega a mesma farda. No âmbito federal, as bancadas da bala e da Bíblia firmaram alianças que bloquearam projetos de controle de armamentos e engavetaram propostas de desmilitarização, evidenciando como a captura simbólica para transbordar a arena legislativa.

O estopim que tornou visível o perigo institucional foi o ataque golpista de 8 de janeiro de 2023. Relatórios do Gabinete de Segurança Institucional e da Polícia Federal descrevem tanta omissão quanto à conivência ativa de segmentos da Polícia Militar do Distrito Federal, alguns dos quais entoavam cânticos religiosos entre os invasores. A lacuna de comando naquele domingo foi revelada: quando a identificação ideológica se impõe sobre uma disciplina constitucional, a cadeia de autoridade civil se desfaz. A democracia depende, no limite, da conformidade das armas ao veredito das urnas; ao negarse a reprimir os golpistas, parcelas da tropa sinalizaram que autorizaram uma autoridade transcendental (Deus, pátria ou líder messiânico) acima do Estado laico.

No plano cotidiano, a captura se manifesta em práticas seletivas de policiamento. Estudos qualitativos com cadetes da Universidade de Brasília mostram que a figura do “inimigo” é construída com base em critérios morais: moradores de rua, usuários de drogas, defensores de diretrizes identitárias ou religiões afro-brasileiras são percebidos como ameaças não apenas legais, mas espirituais. O passo seguinte é o afrouxamento do filtro da legalidade — se o oponente é visto como demoníaco, a violência letal se converte em exorcismo. Não surpreende, portanto, que os três estados com maior proporção de policiais evangélicos (Rio de Janeiro, Goiás e Pará) apresentem altos índices de letalidade policial, ainda que fatores socioeconômicos também concorram para explicar o quadro.

A literatura internacional sobre securitização moral fornece lentes úteis para compreender esses processos. Buzan, Wæver e de Wilde (1998) demonstram que, ao transformar um tema em ameaça existencial, o Estado legitimará medidas protetoras. No Brasil, a moral evangélica faz esse papel: crimes contra a família, contra “pessoas de bem” ou contra “valores cristãos” são elevados a categoria de anomia total, justificando o emprego ilimitado da força. À securitização somase o populismo punitivo, conceito que articula a noção de justiça à antipolítica. O policial deixa de ser mero executor da lei e tornase o braço armado do “senso comum honesto”, dispensando intermediação judicial. Portanto, não apenas o uso ampliado das armas, mas a recusa crescente dos mecanismos de controle externo, sejam corregedorias, ouvidorias ou Ministério Público e até mesmo o uso de câmeras corporais.

A captura religiosa, entretanto, não se esgota no discurso. Ela inclui infraestruturas institucionais que avançam sobre a laicidade. Em 2021, o Ministério da Justiça inaugurou o programa “Assistência Espiritual para Profissionais de Segurança Pública”; o objetivo era o “cuidado integral da alma do guerreiro”, linguagem que rompe a neutralidade republicana para abraçar uma visão messiânica da função policial. Além de boinas e bíblias, as viagens passaram a ostentar adesivos com versículos; em redes sociais, oficiais orgulham-se da “racha de Satanás” promovida por suas operações. Muito antes de se institucionalizar, porém, o ideário já circulava em vídeos de funk gospel que retratam policiais fardados invocando “o sangue de Jesus” antes de entrar na favela. Esse imaginário performativo cimenta laços de solidariedade entre fé e farda, tornandoos quase indissociáveis ​​aos olhos da tropa e da comunidade religiosa de origem.

A convergência com a extrema direita opera em três níveis. No simbólico, ambos unidos a retórica do “nós versus eles”, fortalecendo a gramática do inimigo interno. No programático, defendem agendas de persistência penal, armamentismo e combate a temas tidos como “ideologia de gênero”. Não organizacional, articula campanhas políticas e redes de financiamento que abastecem templos, influenciadores e associações de classe. O resultado é uma rede de poder que combina capital religioso, eleitoral e bélico, capaz de obstruir qualquer tentativa de reforma que ameace sua hegemonia. 


Os efeitos sobre a democracia são profundos. Ao se infiltrar em organizações dotadas de monopólio de violência legítima, esse movimento minimiza o custo de contestar decisões civis. Não se trata mais de lobby tradicional, mas de potencial veto armado a políticas que frustram sua visão moral do mundo. A política deixa de ser espaço de negociação para se converter em arena de redenção e, como recorda Carl Schmitt, quem define o inimigo decide sobre a exceção. No Brasil de 2025, as audiências públicas sobre câmeras corporais evidenciaram a dificuldade de implantação de sistemas de supervisão imparciais, associações policiais evocam “autonomia de culto” para emitir sensores que captem áudio enquanto repetem slogans bolsonaristas contra “advogados de bandidos”.

Vencer esse impasse exige estratégias multissetoriais. A primeira é fortalecer os controles externos independentes, cegos contra a pressão corporativa. A segunda envolve redirecionar a formação policial para uma ética laica de direitos humanos, na qual liberdade religiosa seja direito individual e não diretriz institucional. A terceira passagem pela diversificação interna: mulheres, negros e não cristãos precisam ocupar posições de comando para romper a homogeneidade ideológica que facilita uma captura. Há experiências de polícia comunitária em Pernambuco e no Ceará, capitaneadas por oficiais civis, reduziram a letalidade sem sacrificar autoridade, provando que a profissionalização não enfraquece a corporação, mas ela lhe devolve legitimidade.

No plano cultural, é preciso disputar narrativas nas mesmas plataformas onde a captura avança. Projetos audiovisuais que retratem policiais defendendo a Constituição e não podem o “pecado zero” ressignificar heroísmos. Iniciativas de mediação comunitária que envolvem terreiros, coletivos LGBTQIA+ e conselhos de segurança ampliam o repertório ético da tropa, mostrando que a função policial é proteger a pluralidade democrática, não um conjunto particular de valores.

Nada disso, contudo, surtirá efeito sem vontade política de alto nível. As eleições de 2026, já anunciadas como plebiscito entre continuidade e ruptura, colocarão o tema no centro do debate público. Se as forças conservadoras lograrem ampliar a bancada armada, uma janela de oportunidade para reformas pode fecharse por uma geração. Em contrapartida, uma coalizão democrática capaz de unir partidos de centro-esquerda, movimentos sociais e parcelas da sociedade civil religiosa comprometida com os direitos humanos talvez reabra o caminho para a desmilitarização tão adiada.

A cooptação das polícias brasileiras por discursos religiososconservadores e de extremadireita não tem representação periférica, mas é um epicentro de riscos à democracia. Quando as armas se unem às convicções de salvação e ao populismo punitivo, o projeto republicano de neutralidade se desfaz, e o Estado se transforma em instrumento de cruz moral. Se a sociedade não reagir com firmeza, poderemos observar a consolidação de um complexo policialreligiosoautoritário que, sustentado por legitimidade eleitoral e amparo espiritual, minará as instituições por dentro. O Brasil já provou em 2023 quão frágil pode ser a linha que separa a ordem democrática de aventura golpista. Evitar que essa experiência se converta em norma histórica depende, em última instância, de nossa capacidade de resgatar a laicidade, democratizar a segurança pública e reafirmar que, em uma república, não há espada que pese mais do que a soberania civil.
Roberto Uchôa

Um Papa para humanizar os migrantes diante de Trump

O Papa Francisco morreu. Ele foi o primeiro Papa latino-americano, o 266º desde o apóstolo São Pedro, que deu seu nome à Basílica que preside o Vaticano, a cidade-estado que serve como sede papal. Francisco, como gostava de ser chamado, chegou como uma lufada de ar fresco para muitos: humilde, carismático e com uma grande capacidade de se conectar com as pessoas, talvez semelhante à de João Paulo II na história recente.

Francisco não estava isento de controvérsias, assim como a Igreja que ele liderou por 12 anos. Em muitas ocasiões, setores tradicionais o acusaram de ser muito progressista por suas posições em relação à comunidade LGBTQI+ (“Quem sou eu para julgar?”, disse ele), por suas críticas a certas práticas “capitalistas” — sem ser um anticapitalista no estilo de Marx ou outros teóricos ou políticos radicais — ou pelo papel mais proeminente das mulheres dentro da Igreja. Apesar de suas opiniões liberais, nos Estados Unidos, um país bastante conservador, 78% dos católicos têm uma imagem favorável dele, de acordo com uma pesquisa realizada em fevereiro pelo Pew Research Center.

Ele também não teve vida fácil com os abusos do clero, especialmente o abuso sexual . Francisco buscou uma abordagem mais transparente e tomou medidas legais e disciplinares. A expulsão do poderoso cardeal Theodore McCarrick por “solicitação do Sacramento da Confissão e pecados contra o Sexto Mandamento com menores e adultos, agravados por abuso de poder” é um exemplo visível, assim como a dissolução do Sodalício de Vida Cristã, uma organização peruana acusada de abuso físico, sexual e financeiro. Apesar de sua abertura, alguns críticos de Francisco consideram suas medidas muito tímidas e de escopo muito limitado.


A queda no número de candidatos ao sacerdócio era outra de suas dores de cabeça. Esse fenômeno, que não é novo, tem forçado o fechamento de muitas paróquias, obrigando cada padre a cuidar de congregações cada vez maiores e impactando as finanças da Igreja. De acordo com um estudo de Jay Doherty e Patrick Cullinan, da Universidade Fordham, o número de padres católicos somente nos Estados Unidos caiu de 60.000 em 1965 para 35.000 em 2022, enquanto a população do país cresceu em 100 milhões. Simplesmente não há candidatos suficientes, e aqueles que aparecem o fazem mais tarde.

Em contraste, o número de católicos aumentou em 16 milhões em 2020, atingindo cerca de 1,36 bilhão de fiéis, de acordo com dados do Vaticano. Com isso, 17,7% da população mundial seria católica, sendo 48% localizada em nosso continente e 28% somente na América do Sul.

Os Estados Unidos são o quarto país em número de católicos, depois do Brasil, México e Filipinas. Desde 2014, essa porcentagem gira em torno de 20%, de acordo com o Pew. Por raça, os brancos estão diminuindo e os hispânicos estão aumentando: 54% dos católicos nos Estados Unidos são brancos, 36% são hispânicos, 4% são asiáticos, 2% são negros e 2% são de outras raças. Entretanto, desde 2007, o número de brancos caiu 10% e o número de hispânicos aumentou 7%.

E os imigrantes? Segundo o Pew, 29% dos católicos nos Estados Unidos são imigrantes e 14% são filhos de imigrantes. Cinquenta e oito por cento dos católicos hispânicos nasceram fora dos Estados Unidos, e 22% têm pelo menos um dos pais nascido no exterior. Em contraste, 83% dos católicos brancos vêm de famílias que estão nos Estados Unidos há três ou mais gerações.

Em termos de filiação política, cerca de metade dos católicos são eleitores registrados; 53% são republicanos e 47%, democratas. Os brancos, por sua vez, tendem a ser republicanos, com 61% contra 36% se identificando como democratas. Entre os latinos, a situação é oposta: 56% inclinam-se para os democratas e 39% para os republicanos.

O último líder político global com quem Francisco se encontrou, por alguns minutos e algumas horas antes de sua morte, foi o vice-presidente republicano JD Vance , um católico devoto que se converteu há alguns anos e foi batizado em 2019. Eles não conversaram muito. Mas Francisco estava preocupado com as políticas de imigração e deportações em massa de Washington, a tal ponto que não faltaram atritos recentes entre os Estados Unidos e a Igreja Católica, que tem a maioria de seus paroquianos na América Latina e é a religião mais difundida nos Estados Unidos. Assim como em outros países, o clero pode desempenhar um papel nos Estados Unidos que não impedirá que as políticas de Washington sejam implementadas (nem é esse o papel deles), mas pode torná-las mais humanas para os afetados. O católico Vance, junto com seu colega e correligionário Marco Rubio, poderia ajudar a fazer isso acontecer.

A mente humana é muito forte, e a morte de Francisco pode ser uma prova disso. Ele esteve “na vanguarda” até o fim e, apesar de sua saúde debilitada, deu sua bênção na missa de Páscoa, poucas horas antes de sua morte. Como se pretendesse ver seus paroquianos celebrando a ressurreição de Jesus Cristo pela última vez, antes de “retornar à casa do Pai”, como anunciou o camerlengo do Vaticano, o cardeal irlandês-americano Kevin Joseph Farrell, que também será um dos candidatos à sucessão de Francisco. E em sua última aparição no Domingo de Páscoa, o Santo Padre defendeu os direitos dos migrantes e outros grupos vulneráveis.

A responsabilidade do conclave que se reunirá é, portanto, imensa. O próximo Papa deve garantir que a Igreja Católica seja uma força positiva e unificadora na sociedade, navegando em um mundo dividido, cheio de incerteza e intolerância, com lacunas sociais e econômicas cada vez maiores. Um mundo que, além disso, está cheio de líderes políticos de todos os tipos que se veem como mensageiros de Deus e acreditam ser portadores da verdade revelada.

Paz no túmulo de Francisco.

O bom humor de Francisco

"O senso de humor é um certificado de sanidade", disse há tempos o papa Francisco. "Há mais de 40 anos rezo para pedir senso de humor. [Peço a] São Thomas More [1478-1535, humanista do Renascimento, autor da "Utopia", decapitado por Henrique 8º por sua fidelidade à Igreja Católica e canonizado como mártir], um grande homem. Coloquei essa oração na nota 101 de ‘Gaudete et Exsultate’ [‘Alegrai-vos e Exultai’, de 2018, exortação apostólica de Francisco pela santidade no mundo atual], caso alguém queira vê-la. Nela, pedimos ao Senhor a capacidade de sorrir, de rir. De ver o lado ridículo das coisas e [também] o não ridículo, para aprender que a vida sempre tem algo para se sorrir."


"A oração", continuou Francisco, "começa muito bonita: ‘Dá-me, Senhor, uma boa digestão e algo para digerir’ [risos]. Já começa com senso de humor, e gosto disso. O senso de humor humaniza. Humaniza muito. Pessoas que não têm senso de humor são chatas, chatas até consigo mesmas [risos]. Aconteceu comigo, no meu trabalho sacerdotal, de certa vez aconselhar a alguém: ‘Olhe-se no espelho e ria de si mesmo’. Mas foi muito difícil para ele, porque lhe faltava essa capacidade de humor. Veja bem, o que estou dizendo não é muito dogmático. É um pouco de sabedoria de vida que me ensinaram, e tento ajudar os outros com isso".

Foi uma entrevista de Francisco à repórter Bernarda Llorente, da agência argentina de notícias Télam. A Télam foi fechada em 2024 por Javier Milei, mas o vídeo está disponível no app da TV Brasil.

Rosto, gestos e palavras de Francisco transpiravam humor. Com todo respeito, sempre o achei fisicamente parecido com Stan Laurel, o Magro da dupla O Gordo e o Magro, um dos cômicos mais humanos do cinema —sujeito às maldades do Gordo, Oliver Hardy, mas sempre vencedor no fim, por sua resistência pacífica.

Assim como Milei, também Trump e Bolsonaro nunca acharam graça em Francisco. Ele os irritava, porque enxergava neles o não ridículo — o insano, o desumano, o não cristão.

O mundo fake de Bolsonaro não tem limites. Quem quiser, acredite nele

Duvide sempre de tudo o que Bolsonaro faz ou diz. Ele vive num mundo de fantasia onde o que parece ser nunca é. Ou dito de outra maneira: onde quase tudo é fake.

Uma vez operado por causa de uma obstrução intestinal, no dia seguinte, em situação deplorável, ele foi filmado tentando caminhar em um corredor do hospital DF Star, em Brasília.

Quem acessou o vídeo, postado nas redes, certamente sentiu pena dele. Poucas horas depois, outro vídeo o mostrou caminhando com razoável rapidez amparado apenas em sua mulher.

Fato ou fake? O primeiro vídeo ou o segundo?

Na véspera da Quinta-feira Santa, quando Jesus lavou os pés dos seus discípulos antes de cear com eles, Michelle Bolsonaro ajoelhou-se diante do marido e massageou seus pés.

Fato ou fake? Ou, digamos, mera coincidência?

Diariamente, o hospital divulgava um boletim sobre o estado de saúde de Bolsonaro. Parou de divulgar. Ora, Bolsonaro é um homem público. A informação é de utilidade pública.

O último boletim dizia que Bolsonaro passava bem, mas seguia internado na UTI, sem previsão de alta e proibido de receber visitas. Neste dia (21), Bolsonaro concedeu uma entrevista ao SBT.


No mesmo dia, participou de uma live junto com seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo para impulsionar as vendas de um capacete recém-lançado a preços módicos. Negócios são negócios.

Os Bolsonaro não fabricam capacetes. Eles se associaram a uma empresa que os fabrica. Emprestam seu prestígio. E repartem o lucro com o fabricante. Vez em quando, leiloam um capacete.

No dia 22, Bolsonaro recebeu no hospital a visita de Valdemar Costa Neto, presidente do PL. Conversaram por uma hora e meia sobre o projeto de anistia para os golpistas do 8 de janeiro.

“Saí de lá muito feliz ao ver que a cada dia ele está melhor”, disse Costa Neto a jornalistas. “A conversa foi ótima. Estou na torcida pela recuperação total e o mais rápido possível”.

Quem é capaz de conceder entrevista direto de uma UTI, participar de uma live para vender capacetes e acolher ali visitantes, pode recepcionar um oficial de justiça direto de uma UTI.

“O oficial botou o pé na porta da UTI”, anunciou Bolsonaro, ontem (23). Se lida literalmente a frase, a oficial, a mando do Supremo Tribunal Federal, empurrou a porta para forçar a entrada.

Fake. Fake. Fake.

A oficial pediu para ser atendida. Sua missão: intimá-lo da abertura do processo penal sobre a trama golpista de dezembro de 2022. Bolsonaro mandou-a entrar.

Equipe de filmagem a postos, antes de assinar a intimação, Bolsonaro discursou por cerca de 11 minutos. Criticou Alexandre de Moraes, falou sobre as próximas eleições e disse à oficial:

“Você só está cumprindo ordem, mas as pessoas dos tribunais do Hitler também cumpriram: colocavam judeus na câmara de gás. Todas pagaram seu preço. Não vai ser diferente no Brasil”.

Enquanto falava com a oficial de Justiça, uma pessoa, não se sabe quem, entrou em cena para dizer a Bolsonaro que sua pressão subira. Nenhum médico confirmou o aumento de pressão. Fake.

No início da noite, à porta do hospital, o Padre Kelmon, que se diz padre e que concorreu à Presidência em 2022 com a pretensão de ajudar Bolsonaro a se reeleger, celebrou uma missa… fake.

Kelmon foi ligado a uma tal de Igreja Ortodoxa do Peru. Depois, à Igreja Ortodoxa Grega da América e Exterior. É dono em Brasília de uma loja de produtos religiosos. (Melhor verificar a procedência.)

O mundo de Bolsonaro é de outro mundo.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


O último texto

Li com emoção estas páginas nascidas do pensamento e do afeto de Angelo Scola, querido irmão no episcopado e pessoa que desempenhou serviços delicados na Igreja, como ter sido reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, depois patriarca de Veneza e arcebispo de Milão. Antes de tudo, quero expressar a ele toda a minha gratidão por esta reflexão que une experiência pessoal e sensibilidade cultural como poucas vezes tive a oportunidade de ler. Uma, a experiência, ilumina a outra, a cultura; a segunda dá substância à primeira. Nesse entrelaçamento feliz, a vida e a cultura florescem em beleza.

Não se deixe enganar pela forma breve deste livro: são páginas muito densas, para serem lidas e relidas. Das reflexões de Angelo Scola, colho algumas passagens que ressoam particularmente com aquilo que a minha própria experiência me levou a compreender.

Angelo Scola nos fala da velhice, da sua velhice, que – ele escreve com um toque de desconcertante sinceridade – 'caiu sobre mim com uma aceleração repentina e, em muitos aspectos, inesperada'.

Já na escolha da palavra com que se autoidentifica, 'velho', encontro uma afinidade com o autor. Sim, não devemos ter medo da velhice, não devemos temer abraçar o envelhecer, porque a vida é a vida, e adoçar a realidade significa trair a verdade das coisas. Restituir orgulho a um termo muitas vezes visto como pejorativo é um gesto pelo qual devemos ser gratos ao cardeal Scola. Porque dizer 'velho' não significa 'descartável', como às vezes uma cultura degradada do descarte nos faz pensar. Dizer velho, ao contrário, é dizer experiência, sabedoria, discernimento, ponderação, escuta, lentidão... Valores dos quais precisamos urgentemente!

É verdade, envelhecemos, mas esse não é o problema: o problema é como envelhecemos. Se vivemos essa etapa da vida como uma graça, e não com ressentimento; se acolhemos esse tempo (ainda que longo) em que experimentamos forças reduzidas, o cansaço físico crescente, os reflexos já não iguais aos da juventude, com um senso de gratidão e reconhecimento, então, a velhice também se torna uma etapa da vida, como nos ensinou Romano Guardini, realmente fecunda e capaz de irradiar o bem.

Angelo Scola destaca o valor humano e social dos avós. Já ressaltei várias vezes como o papel dos avós é fundamental para o desenvolvimento equilibrado dos jovens e, em última análise, para uma sociedade mais pacífica. Porque seu exemplo, suas palavras, sua sabedoria podem inspirar nos mais jovens um olhar mais amplo, a memória do passado e o apego a valores duradouros. Em meio à correria das nossas sociedades, muitas vezes voltadas para o efêmero e para o gosto doentio pela aparência, a sabedoria dos avós torna-se um farol que brilha, ilumina a incerteza e dá direção aos netos, que podem tirar da experiência deles um 'algo a mais' para sua vida cotidiana.

As palavras que Angelo Scola dedica ao tema do sofrimento, que muitas vezes se instala com o envelhecer, e consequentemente à morte, são joias preciosas de fé e esperança. Na argumentação deste irmão bispo, ouço ressoar a teologia de Hans Urs von Balthasar e de Joseph Ratzinger, uma teologia 'feita de joelhos', imersa em oração e diálogo com o Senhor. Por isso, disse há pouco que estas são páginas nascidas do 'pensamento e do afeto' do cardeal Scola: não apenas do pensamento, mas também da dimensão afetiva, aquela à qual a fé cristã remete, pois o cristianismo não é tanto uma ação intelectual ou uma escolha moral, mas, sim, o afeto por uma pessoa, aquele Cristo que veio ao nosso encontro e decidiu nos chamar de amigos.

É justamente a conclusão destas páginas de Angelo Scola, que são uma confissão de coração aberto de como ele está se preparando para o encontro final com Jesus, que nos devolve uma certeza consoladora: a morte não é o fim de tudo, mas o começo de algo. É um novo começo, como sabiamente destaca o título, porque a vida eterna – que quem ama já experimenta aqui na terra em meio às ocupações do dia a dia – é o começo de algo que não terá fim. E é exatamente por isso que é um começo 'novo': porque viveremos algo que nunca vivemos plenamente – a eternidade.

Com estas páginas nas mãos, gostaria idealmente de repetir o mesmo gesto que fiz assim que vesti o hábito branco de Papa, na Capela Sistina: abraçar com grande estima e afeto o irmão Angelo, agora ambos mais velhos do que naquele dia de março de 2013. Mas sempre unidos pela gratidão a esse Deus amoroso que nos oferece vida e esperança em qualquer idade da nossa existência.

Cidade do Vaticano, 7 de fevereiro de 2025".

Papa Francisco em prefácio para o livro do cardeal Angelo Sola, arcebispo emérito de Milão, “Na espera de um novo começo. Reflexões sobre a velhice”.

Trump e os perigos para o mundo

Uma das leituras mais impressionantes dos últimos dias foi ado artigo que Martin Wolf publicou no jornal britânico Financial Times, do qualé o principal comentarista econômico. O título causa impacto: “The economic consequences of a mad king ”( o jornal Valor Econômico reproduziu o artigo em português ). O “rei louco” é referência direta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Wolf relembra trechos do artigo que escreveu em junho do ano passado, sobre os então candidatos à Presidência dos Estados Unidos, Joe Biden (que só no mês seguinte desistiria da candidatura em favor de Kamala Harris) e Donald Trump. “Biden pode ser velho. Mas Trump é louco e, infelizmente, não é um louco divertido. É um louco perigoso. Os instintos de Trump são também os de um ditador”, escreveu no ano passado. Agora na Presidência da nação econômica e militarmente mais poderosa do mundo, Trump age como o rei louco do título.


Na opinião de Wolf, “o que está acontecendo hoje nos Esta dos Unido sé dei mportância histórica e também de importância global, porque está em jogo a sobrevivência dos limites ao exercício arbitrário do poder”. Para o comentarista britânico, as guerras comerciais que Trump iniciou (guerras, porque é uma contra cada um dos demais países do mundo) mostram os perigos envolvidos nessa decisão. Em poucos dias, Trump anunciou sobretaxas para as importações originárias de todos os demais países, alguns com alíquota de mais de 30%, voltou atrás e reduziu temporariamente a alíquota para 10%, masa elevo upara a China, que respondeu com igual medida. Até agora, as tarifas praticamente impedem o comércio entre as duas maiores economias do mundo.

O objetivo declarado de T rum pé fazer crescera indústria de seu país, que vem perdendo espaço para a produção de manufaturados de outras partes do mundo. “Ninguém em sã consciência pode acreditar que isso levará à industrialização dos Estados Unidos”, advertiu Martin Wolf. “Na verdade, o resultado será uma paralisação dos negócios, o aumento dos preços e a desaceleração da economia.”

É claro, como bem observou Celso Ming em sua coluna Ora, o declínio da globalização... ( Estadão, 18/04, B2), que são apressadas as interpretações segundo as quais a globalização “está em inexorável retração”. Não está. Mas também é claro, como mostraram relatórios recentes da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), que a guerra de tarifas deflagrada por Trump afeta as trocas comerciais.

Trump abriu muitas outras guerras. Em nome de “fazer a América grande novamente”, ele quer destruir todas as organizações multilaterais criadas no fim da Segunda Guerra Mundial e que, nas últimas oito décadas, vêm assegurando a relativa paz no planeta, a expansão do comércio mundial, a redução da pobreza e o crescimento. Todas, segundo ele, estão a serviço de inimigos dos Estados Unidos. E Trump está enfraquecendo os acordos militares que Washington conclui nos últimos anos, especialmente na Europa.

Com a colaboração essencial do bilionário Elon Musk, Trump vem desativando algumas das principais organizações norte-americanas com atuação mundial. São elas que, desde o fim da Segunda Guerra, asseguram a presença dos Estados Unidos em grande número de países, com ações de ajuda econômica e social, apoio ao desenvolvimento de países pobres e outras iniciativas. O poder político norte-americano dependeu em boa parte dessas ações.

Nas ú l t i mas s e manas, Trump concentrou sua fúria demolidora contra universidades norte-americanas, exigindo delas ações que agradem à Casa Branca em questões como o tratamento de questões ligadas a escolhas sexuais e as ações militares de Israel na Faixa de Gaza. A Casa Branca vem tentando impor às universidades exigências que implicam danos à liberdade acadêmica e à independência indispensável para a pesquisa e a produção do conhecimento. A resistência da Universidade Harvard a suas imposições talvez o tenha surpreendido. E pode levar outras universidades a rejeitar as intromissões do governo em sua liberdade acadêmica.

Nos últimos dias, Trump decidiu atacar o Federal Reserve Board (Fed), o banco central americano, e vem procurando meios para destituir seu presidente, que tem mandato fixado por lei. Não se trata de criticar decisões da autoridade monetária do país, mas de intervir com mão forte em sua direção.

“Déspotas imprevisíveis geram desperdício, medo e incerteza generalizada”, observou Martin Wolf. “As guerras comerciais voláteis de Trump e a demolição do sistema comercial global estão mostrando isso em tempo real.”

O poder absoluto não pode ser confiado a ninguém, menos ainda a demagogos, diz o articulista do Financial Times. “As pessoas que apoiaram Trump deveriam saber que, totalmente liberado, ele inevitavelmente semearia o caos.” E suas políticas prenunciam esse caos.

Como discordar?

A vontade dos homens e a vontade das leis

Num tempo distante em que políticos de Minas eram admirados pela virtude e a sabedoria, o governador Milton Campos, pressionado por seu partido para instrumentalizar o governo em seu benefício político, resistiu dizendo que ao governo dos homens preferia sempre o governo das leis. Na linguagem da política moderna estava dizendo que a força das instituições deveria prevalecer sobre a vontade dos homens.

A democracia e a economia de livre mercado combinadas produziram o período de maior progresso e maior liberdade em toda a história da humanidade. Não foi um tempo em que grandes homens faziam a história apenas com a sua vontade. Foi um tempo em que instituições políticas e econômicas impessoais asseguraram um ambiente de segurança jurídica e previsibilidade econômica, no qual empresas e pessoas puderam prosperar e cooperar.

Um dos grandes pensadores de nosso tempo, o filósofo austríaco Karl Popper, afirmava que a democracia não tinha o poder de garantir que só os melhores e os mais capazes seriam escolhidos para governar, mas para sobreviver a democracia teria que ter os meios e os instrumentos para impedir que maus governantes pudessem fazer ao país males irremediáveis. Nos Estados Unidos e na Europa esta regra prevaleceu por muito tempo. Aqui na América Latina e também na Ásia as instituições não se desenvolveram com a mesma potência e a maldição dos salvadores da pátria e dos “pais dos pobres” com frequência arruinaram a economia, mataram a liberdade e chegaram a alimentar uma cultura populista que envenenou para sempre alguns países. Isto talvez explique um pouco porque nossos países ficaram para trás.


Por razões que variam de país a país, o prestígio da democracia liberal em todo o mundo está em recessão. Numa volta a um passado que julgávamos sepultado estamos assistindo ao crescimento das democracias iliberais, não fossem os dois termos tão contraditórios entre si. Estas chamadas democracias tem eleições regulares, mas não há separação dos poderes, nem garantia dos direitos individuais e a lei que prevalece é a vontade do governo. Podem muito bem ser chamadas de ditaduras disfarçadas.

O avanço desses arranjos iliberais parece irrefreável. O caso da vez é nada menos que os Estados Unidos, o grande modelo de democracia resistente ao tempo, na verdade a mais antiga das modernas democracias, que parecia a todos constituída para durar sempre. De repente, sem nenhuma pactuação institucional com o Parlamento ou a Justiça, o Presidente converteu-se por iniciativa própria em um verdadeiro monarca absoluto. Governa por ordens executivas, sem consulta ao Congresso ou submissão ao Judiciário, sem nenhuma oposição dos demais Poderes e com a aparente concordância de parcela importante da população. Na contramão da advertência de Popper, está tomando decisões que afetarão irremediavelmente o destino futuro do seu país. As instituições cederam à vontade dos homens e a democracia americana está sendo derrubada sem resistência, tal como foi um dia derrubado o Muro de Berlim, numa suprema ironia da história.

Entre nós no Brasil as instituições e as leis nunca tiveram o prestígio que necessitam para serem efetivas. Sofremos da tentação irresistível dos personalismos. Nunca tivemos partidos de verdade, sempre tivemos personalidades. Ainda agora nossa vida política se resume ao confronto entre dois homens praticamente sem ideias, a cujos caprichos todos se curvam. Em um campo está nosso Presidente, exercendo seu terceiro mandato e aspirando a um quarto, apesar da idade e do vazio de seu governo, que anunciou candidamente na última terça feira que o ano de 2027 será o de um desastre fiscal.

No outro campo, Bolsonaro, embora inelegível, mantem paralisados todas as demais possibilidades eleitorais, pela submissão dos possíveis candidatos a uma liderança sem ideias ou projetos de mudanças.

Em todos os campos de atividade nosso país tem homens e mulheres de alto nível, capazes de competir em qualquer lugar do mundo. Por que só na política falta talento, virtude e mentes criativas?

O desafio aponta o caminho

Foi o tema da semana nas manchetes, posts e editoriais: a trágica morte de uma menina de 8 anos no DF, por um desafio de internet. Ela aspirou o aerossol de um desodorante. Há um mês, em Pernambuco, outra menina de 11 anos já tinha perdido a vida da mesma forma.

Segundo o Instituto DimiCuida, ao menos 56 crianças e adolescentes morreram ou se feriram nos últimos dez anos por causa de jogos e desafios como sufocamento, asfixia, ingestão de detergente, atear fogo ao corpo, automutilação e outros.

Crianças e adolescentes não têm discernimento suficiente para entender os riscos desses procedimentos. Mas o ódio nas redes é tanto que o comentário mais comum é “seleção natural”. Culpam também os que mais sofrem pela tragédia: pais e avós. Existe, sim, negligência, mas muitas famílias desconhecem os riscos, acham que Tiktok pode ser brinquedo de criança. Por isso é tão importante disseminar o conhecimento sobre os perigos do ambiente digital.


Albert Einstein disse: “A ciência nos deu meios terríveis de destruir uns aos outros, mas não a sabedoria e a ética para impedir que os utilizássemos”. A humanidade enfrenta esse paradoxo em cada salto tecnológico — e a internet talvez seja o maior deles.

Ela se tornou em grande parte um território perigoso. Máquinas viciantes que priorizam lucros sobre direitos e bem-estar, as redes sociais minam o tecido democrático, disseminam conteúdos tóxicos, fake news, ódio e todo tipo de crimes. A mesma tecnologia que permite a uma criança acessar o conhecimento humano também pode levá-la ao sofrimento ou ao perigo extremo.

O problema é coletivo, e as soluções também serão. Já é quase consenso no Brasil que o excesso de vida digital está fazendo mal a todos nós. A reação já começou e está se acelerando nos últimos meses. O banimento do celular nas escolas foi um grande passo.

Educação midiática é fundamental. As famílias precisam saber da importância de postergar a entrega do celular e a entrada nas redes sociais, ao menos até o fim do ensino fundamental. Precisam supervisionar, garantir o respeito ao estudo, sono, leitura, esporte e convívio com pares. Educadores e familiares precisam ajudar os jovens a entender os riscos do algoritmo, a respeitar o próximo, a desenvolver pensamento crítico sobre o conteúdo tóxico.

Para isso temos o Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais, recém lançado pelo governo federal, e iniciativas do MEC para capacitar professores e inserir a educação midiática no currículo.

Precisamos também de cidades amigáveis, que estimulem todas as famílias a levar os filhos para a praças e parques, para a cultura, o esporte e o livre brincar.

É urgente a regulamentação do ambiente digital. Não podemos mais aceitar que plataformas lucrem com a disseminação de crimes e conteúdos perigosos. Como escreve Maria Mello, do Instituto Alana, “precisamos de modelos que respeitem os direitos humanos, que priorizem a vida... e que se comprometam, de forma concreta, com a construção de uma internet justa, segura e democrática.”

Só podemos alcançar isso pela lei. O PL 2628 visa proteger crianças e adolescentes no ambiente digital, responsabilizando plataformas pelo dever de cuidado, por retirar conteúdos nocivos, exigir verificação etária e dar limites a publicidade infantil. Para aprová-lo, será preciso superar o discurso mentiroso de “censura e ameaça a liberdade de expressão” da extrema direita.

O Ministério da Justiça trabalha para adaptar a classificação indicativa ao mundo digital, e anunciou a criação de um aplicativo para impedir acesso a plataformas que produzem conteúdo impróprio.

São nossas escolhas que vão determinar o impacto da tecnologia digital. Cabe a nós enfrentarmos os interesses poderosos e lutar pela vida de nossos filhos. Podemos ser um exemplo para o mundo.

Harvard resistirá

Nasci numa família amazonense que “se mudou” para Niterói. Cresci ouvindo exclusivamente português. Na varanda da casa do Ingá, em Niterói, meus tios discutiam política debaixo de um cauteloso silêncio de vovô, que foi desembargador, e de meu pai. Eram funcionários públicos e getulistas. Meus pais choraram muito quando Vargas cometeu seu suicídio de honra.

O mundo era grande. Na nossa casa de classe média não havia livros; havia, contudo, a música do piano da mamãe. Um cunhado do meu querido tio Mário visitou os Estados Unidos e, nessa varanda, deu uma entrevista confirmando muitas coisas que víamos no cinema.

Fui o primeiro de três gerações a viajar para o exterior, graças a minha entrada no universo democrático das pesquisas em antropologia do Museu Nacional. Lá encontrei a acolhida, a energia e o profissionalismo de Roberto Cardoso de Oliveira, que me ensinou a escrever e perseverar, como fazem os mestres verdadeiros. Seu objetivo não era nos tornar militantes, mas conhecedores das origens e correntes da pesquisa antropológica.


Harvard entrou na minha vida quando um de seus docentes, David Maybury-Lewis, se associou a meu mentor numa pesquisa cujo objetivo era estudar comparativamente sociedades tribais de língua jê, duas das quais haviam sido descritas pelo pesquisador alemão Curt Nimuendajú. Maybury-Lewis foi o primeiro e estudar a organização social dos xavantes e havia escrito um importante artigo teórico sobre os apinajés, que eu havia visitado em 1962.

Esse é o encadeamento que explica como um caipira niteroiense — cuja imensa curiosidade só era emparelhada a sua ignorância — foi parar em Harvard em 1963-64 e em 1967-72, quando finalizou seu doutorado. Ali viveu uma visão cosmopolita da antropologia por meio de professores e colegas que estudavam sociedades tribais em todo o planeta. Ali também entendeu que, em Harvard, era normal ler dois ou três livros por semana para discuti-los em seminários a que ninguém chegava atrasado.

Uma lembrança marcante de Harvard é meu nome. Ninguém me chamava de Roberto. Virei “Mr. DaMatta”. Como sou mais do mato do que da morte, adotei feliz o DaMatta.

Percebi o imenso prestígio de Harvard no contexto do competitivo sistema universitário e intelectual americano quando um colega me informou que um ph.D. harvardiano garantia um emprego. De fato, recebi e recusei uma oferta. Devia minha carreira ao Museu Nacional e ao Conselho Nacional de Pesquisas. No museu, permaneci de 1959 a 1986. Nos infames Anos de Chumbo, sofri preconceito político, mas institucionalizei o Programa de Antropologia Social que lá existe, transformando colegas bolsistas da Fundação Ford em professores da UFRJ. Contra o chumbo, usei o “Veritas” (lema de Harvard) que, bem sei, está nua no fundo de um poço.

Em abril de 1964, um amigo ligou informando que fazíamos nossa revolução cubana. Minutos depois, ouvi que era um golpe militar. Como, se os militares não figuravam na minha politizada lista de atores políticos — exceto no realismo do meu reacionário pai? Apresentei as teorias de um fundador da antropologia. A professora Cora Du Bois, ex-aluna de Franz Boas, comentou:

— Mr. DaMatta, sua exposição foi ótima. Mas o que você acha das ideias desse autor, você concorda com elas?

Não sabia o que dizer.

Na primeira vez que entrei na Biblioteca Widener, na época a maior do mundo, fui avisado:

— Roberto, tenha cuidado com o labirinto de estantes. Um aluno lá se perdeu e foi achado semanas depois, faminto como um náufrago.

Nevava muito, e perguntei se teríamos aula.

— Harvard não para desde 1636!

E não vai parar diante de um presidente mal-educado. Hoje, eu, niteroiense, correria o risco de não entrar em Harvard. Meu conforto é que Donald Trump lá jamais seria aceito.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Em meio aos destroços dos meus sonhos despedaçados

Escrevo estas palavras sentada sobre os escombros da minha casa, cercada pelos destroços dos meus sonhos despedaçados. Meus dedos percorrem os restos do que um dia foi a parede do meu quarto. Vasculho as cinzas em busca de uma caneta, um pedaço de papel — qualquer vestígio que me lembre de que um dia fui um ser humano aqui, um estudante de arquitetura que sonhava em construir cidades intocadas pela guerra.

Sou uma jovem estudante de engenharia arquitetônica — um sonho que acalento desde a infância. Um sonho que antes era repleto de cores, linhas e belos desenhos, mas que, sob o fogo da guerra, se transformou em agonia diária, e a esperança está se esvaindo sob os escombros. Em Gaza, não vivemos vidas normais, nem estudamos como os outros. Cada dia é uma batalha pela sobrevivência, mas carregamos nossos livros, nossos dispositivos e nossos sonhos nos ombros e seguimos em frente.

Estou afastada dos meus estudos há mais de um ano — um ano de dor e espera, um ano de busca por um vislumbre de esperança na escuridão da destruição. Todas as manhãs, acordo com o som de bombas e o terror do desconhecido. Caminho por ruas que não conhecem mais segurança, em busca de um sinal de internet para assistir às minhas aulas, de um fio de eletricidade para iluminar a escuridão do meu dia.


Eu era forçada a me aventurar diariamente em jornadas perigosas, indo a lugares onde eu não tinha nem como garantir minha própria segurança, só para encontrar a conexão de internet necessária para estudar. A cada dia que passava, o sonho da formatura se apagava dos meus olhos.

Cada momento era desperdiçado procurando um lugar tranquilo para estudar, entrar em contato com meus professores, entregar trabalhos. Eu não precisava apenas da internet — eu precisava de um espaço seguro para me concentrar, para silenciar as guerras internas que rugiam em meu coração. Era como se eu estivesse lutando a cada momento — fosse buscando um sinal ou fugindo de um ataque aéreo que se aproximava.

Nessas condições, o ensino a distância parecia um sonho distante. A engenharia arquitetônica, uma área que exige aplicação prática, foi reduzida a mero material teórico em uma tela de computador.

Como eu poderia compreender o projeto de construção ou rascunhar plantas quando as ferramentas de que precisava estavam destruídas? Como eu poderia aprender a usar uma impressora 3D ou trabalhar em modelos de engenharia quando o equipamento de que precisava estava em ruínas — quando minha casa, antes meu estúdio, agora era apenas escombros? A ocupação destruiu tudo, até mesmo a esperança de retornar àqueles cômodos outrora repletos de meus sonhos e ambições.

À medida que as provas se aproximavam, meu sofrimento se multiplicava. Conseguir uma conexão de internet estável naquela época era quase impossível. Às vezes, eu assistia a palestras à luz de velas, estudando com anotações rabiscadas às pressas em papel colorido, pois não tinha acesso a materiais digitais ou aos recursos cruciais para as provas. O tempo passava, e um medo profundo se apoderava do meu coração: "Será que vou conseguir passar por essas etapas ou esta guerra marcará o fim dos meus sonhos?"

As provas eram um pesadelo. Imagine ter que entregar um projeto preciso dentro do prazo, sem luz, sem internet, sem um lugar seguro para sentar. Eu me deslocava entre casas e centros, procurando um sinal de Wi-Fi fraco, um carregador portátil, uma vela para estudar.

Eu fiz meus exames com o coração em outro lugar — porque uma invasão poderia começar a qualquer momento, porque a ocupação poderia invadir o bairro ou bombardear a área de repente, porque a morte estava mais perto de nós do que qualquer coisa.

18 de março, quando as balas se tornaram meu projeto final

A noite se esvaiu no céu de Gaza. Já passava da meia-noite e eu estava sentado entre meus esboços arquitetônicos, tentando reconstruir o que restava da minha cidade destruída — como se o lápis em minha mão pudesse desfazer o que os tanques da ocupação haviam feito.

Minhas plantas espalhadas exibiam fileiras de casas, hospitais e escolas — projetos que jamais seriam realizados. Mesmo assim, eu as desenhei para provar a mim mesmo que ainda estávamos vivos, resistindo através dos sonhos.

De repente, o silêncio foi quebrado pelo estrondo dos alto-falantes israelenses, cortando a noite como uma faca:

“Aviso final… Este é o Hospital Al-Shifa… Uma zona militar perigosa… Vocês serão eliminados em minutos.”

Essas palavras caíram sobre mim como pedras. Olhei ao redor — minha mochila de engenharia cheia de plantas onde redesenhei o que os tanques haviam destruído, minha mala de roupas agora apenas uma relíquia de uma época em que eu era uma pessoa comum, um saco plástico contendo restos de comida de dias de fome. Três escolhas, todas iguais à morte.

Naquele momento, entendi que a engenharia que estudei jamais construiria um teto para me proteger de mísseis, que o lápis com o qual esbocei o futuro jamais apagaria as manchas de sangue nos muros de Gaza. Até minha pequena bolsa se tornou uma questão existencial:

Devo levar meus projetos, que podem virar escombros amanhã?

Devo levar minhas roupas para poder morrer “apresentável”?

Ou pego o pão seco, porque meu corpo faminto merece uma última mordida?

Meus olhos buscavam uma resposta entre as ruínas de decisões impossíveis, enquanto meu coração gritava:

“Até a fuga se tornou um exame sem nota de aprovação… Todos os caminhos levam à morte, mas eu preciso escolher como carregá-la!”

No fim, peguei minha mochila de engenharia — não porque fosse a mais importante, mas porque era a mais pesada. Carreguei-a como um caixão para a minha infância. Saí para a rua onde a escuridão lambia os rostos dos que fugiam, onde o céu chovia fogo. Eu sabia que minhas plantas queimariam junto com nossas casas, mas algo dentro de mim se rebelou e disse:

“Eles não roubarão a última coisa que possuo… Continuarei atraindo vida, mesmo enquanto corro pela morte!”

Naquela noite…

Aquela noite não foi apenas uma fuga. Foi o momento em que entendi que, em Gaza, não temos o luxo de escolher entre a vida e a morte — apenas entre formas de morte. Que "sobrevivência" é apenas uma mentira que contamos a nós mesmos para não enlouquecer de terror.

Naquela noite... aprendi que a guerra não rouba apenas vidas — ela rouba até mesmo o nosso direito de sonhar com uma morte digna. Aprendi que "engenharia" em Gaza significa projetar rotas de fuga de um inferno sem fim, que "futuro" é uma palavra que sussurramos com medo, como se fosse uma maldição.

Agora, sempre que passo pela rua da universidade, lembro-me de que uma mão invisível apaga o que construímos, mesmo enquanto o esboçamos. Mesmo assim, ainda carrego minha bolsa de engenharia. Talvez um dia descubramos que cada linha que desenhamos sob bombardeio era uma forma de prece desesperada:

“Olhem para nós… Estamos aqui… Tentando parecer seres humanos apesar de tudo!”

Entre as palavras da tese e o rugido dos mísseis

Meus dedos tremiam sobre o teclado — não de frio, mas do brilho da tela, meu único portal para um mundo além da vasta prisão de Gaza. Arrastei-me para aquele espaço distante onde o sinal de internet era um pequeno roubo das garras da ocupação.

“Doutor, este é o meu projeto para um centro de reabilitação para sobreviventes de guerra”, eu disse, forçando a voz a expressar confiança enquanto meus olhos observavam o céu.

Assim que o professor começou a dar seu feedback, o mundo explodiu. A queda da internet não foi apenas uma falha técnica — foi um grito ensurdecedor: "Não há espaço para sonhos aqui". O míssil que caiu não apenas abalou a Terra — ele destruiu nossa crença de que o conhecimento poderia nos proteger. Eu estava a poucos metros da morte.

Três horas de nada.

Minha mãe circulava entre hospitais, levantando os sudários das crianças, procurando meu rosto.

Meu pai cavou os escombros próximos com as mãos sangrando.

Minha irmãzinha gritou na rua: “Minha irmã é engenheira, ela não tem nada a ver com essa guerra!”

Voltei para casa tarde e encontrei minha família de luto, sofrendo por mim. O laptop que segurei durante todo o caminho parecia mais pesado que uma montanha — não porque continha meu projeto final, mas porque era a única testemunha de que eu havia tentado ser mais do que apenas mais um nome no registro dos mártires.

“Minha filha... Achávamos que você tinha se tornado uma daquelas pessoas cujas vidas são reduzidas a um atestado de óbito”, disse minha mãe, apertando minhas mãos como se confirmasse que eu ainda estava ali.

Naquele momento, eu entendi: nós não estudamos para obter diplomas, nós estudamos para provar que estamos vivos, que merecemos sobreviver.

Agora, quando caminho por aquela área, vejo minha sombra impressa na parede como uma testemunha:

“Aqui estava uma estudante defendendo seu futuro enquanto a guerra debatia seu direito de existir.”

Não rascunhamos nossos projetos no papel — nós os gravamos com sangue nas paredes do tempo, para que o mundo saiba que Gaza nunca foi apenas um lugar de morte. Sempre foi uma escola onde aprendemos a forjar esperança a partir das ruínas.

Isso é apenas uma fração do que suportei em meus estudos durante esta guerra assassina.

Eu sou a estudante de arquitetura sonhadora, 

segunda-feira, 21 de abril de 2025

A Mensagem



Não podemos estacionar nosso coração nas ilusões deste mundo, nem fechá-lo na tristeza; temos de correr, cheios de alegria.
Papa Francisco, em sua última mensagem ao mundo

Trump é religioso?

‘Agora todos querem beijar minha bunda.’ A frase atribuída a Trump, depois da decretação do tarifaço, não me surpreende. Sua biografia revela um homem mundano, circulando nas altas-rodas de Nova York. O que pode surpreender um pouco é como ele, e também Jair Bolsonaro, pode ser tão admirado pelos evangélicos, que os veem como predestinados a governá-los. Uma das grandes decisões de Trump foi transferir a embaixada americana para Jerusalém, algo que estava também nos planos de Bolsonaro.

Creio que ambos perceberam que a proximidade com os evangélicos seria maior se transformassem suas profecias em política de governo. Os evangélicos acreditam na volta de Cristo, desde que sejam preenchidas algumas condições, certos eventos previstos na Bíblia. O retorno dos judeus à Terra Prometida, a reconstrução do templo em Jerusalém, conflitos envolvendo nações contra Israel e a existência de um governo mundial anticristo.


Algumas dessas profecias foram elaboradas no século XIX por teólogos como John Nelson Darby. São interpretações que leem textos proféticos como previsões e eventos históricos que estão por vir. Essa concepção, conhecida entre os evangélicos como Bíblia Scofield, previa que, antes da volta de Cristo, os crentes serão levados ao céu (arrebatamento da igreja), um período de tribulação global, e a volta de Cristo para reinar a partir de Jerusalém.

Portanto um dos passos importantes para Trump foi precisamente fundir sua política com as profecias, como se estivesse deliberadamente abrindo caminho para a volta de Cristo. Interessante como um homem de negócios, materialista e frequentador das altas-rodas nova-iorquinas, passa a defender essas teses e se volta furiosamente contra gays e pessoas trans.

Mark Lilla — cujo livro sobre a primeira vitória de Trump já mencionei aqui — concedeu uma entrevista recentemente afirmando que a alma americana está doente. Mas será necessário um estudo mais profundo. A alma alemã também estava doente na ascensão do nazismo. Judeus, homossexuais e ciganos eram os bodes expiatórios. Agora são os estrangeiros.

Uma grande pressão pré-tarifaço foi feita para que Canadá, México e China detivessem a entrada de fentanil, droga que ameaça o país. A Alemanha se posicionava contra inimigos, mas os Estados Unidos de hoje estão preocupados com a própria decomposição interna. O inimigo, nesse caso, está dentro das pessoas. A Alemanha tinha um projeto de futuro em busca de espaço vital. Trump se volta para a conquista da Groenlândia, talvez do Canadá, mas seu foco mesmo é a volta aos bons tempos em que a indústria era forte na América.

Será preciso um grande trabalho de pesquisa para definir essa “doença” na alma americana. É algo inédito, específico desse estágio do capitalismo e do avanço tecnológico. Uma tarefa gigantesca. Aqui do Sul, podemos contribuir apenas lembrando como Trump e seus auxiliares diretos se referem a nós. Quando decretou o tarifaço, Trump disse que os países sul-americanos não tinham nenhuma importância, pois os Estados Unidos não precisam deles. Semanas depois, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que a América Latina é um quintal dos Estados Unidos que precisa ser liberado da influência chinesa.

Depois de tantos anos de intercâmbio, com forte presença latina nos Estados Unidos, inclusive no universo artístico, ainda nos olham de cima para baixo. Aliás, como olham os chineses. O vice-presidente J.D. Vance declarou numa entrevista:

— Nós pegamos dinheiro emprestado de camponeses chineses para comprar as coisas que esses camponeses chineses fabricam.

São olhares típicos do período colonial, que, embora deem impressão de superioridade, podem ser resultado de insegurança. Como dizia nosso poeta Cazuza, suas ideias não correspondem aos fatos. É o mínimo com que podemos contribuir para o diagnóstico da “alma”americana.

A inteligência que foge do fascismo

Semanas atrás, três professores da Universidade Yale — uma das oito instituições privadas que compõem a estelar Ivy League americana — tornaram pública sua mudança para a Munk School of Global Affairs and Public Policy, de Toronto, no Canadá. Em tempos normais, a notícia nem notícia seria, dada a mobilidade inerente ao mundo acadêmico. Só que o filósofo Jason Stanley, o historiador Timothy Snyder e sua mulher Marci Shore, professora de História intelectual europeia, não são nomes quaisquer.

Stanley, autor de seis livros — incluindo “Como funciona o fascismo” —, centra sua obra na manipulação emocional da propaganda fascista e nos riscos de uma sociedade ignorar sinais precoces de autoritarismo. Judeu, pai de dois filhos multirraciais (foi casado com a cardiologista negra Njeri K. Thande), ele já sofreu inúmeras ameaças de morte digitais recentes. Por isso decidiu empacotar seu saber e filhos para além do ambiente político opressor instaurado por Donald Trump.

— O que é um país? — indaga ele, com resposta pronta: — É a forma pela qual seu povo escolheu se governar. Os Estados Unidos existem porque o povo americano elege aqueles que devem fazer e executar as leis... Mas a lógica atual é a da destruição.

Seu colega Snyder é autor, entre outros, do best-seller “Sobre a tirania —Vinte lições do século XX para o presente”. Estudioso da história da Europa Central, União Soviética e Holocausto, Snyder pesquisa o elo que brota no fascismo histórico e desemboca nos tempos atuais. Em todas as obras, ele enfatiza a responsabilidade pessoal e coletiva na construção ou ruína da democracia. Como seu colega de Yale e agora Toronto, tem 55 anos, mas é nascido em família quacre do Meio-Oeste americano. A mãe de seus dois filhos também é de Ohio, e a decisão de se mudar para o Canadá, tomada ainda antes da eleição de Trump, é mais nuançada. Por isso acabou exigindo dele um longo esclarecimento público. Alguns trechos do que publicou no jornal da universidade:

— Não saí de Yale em consequência do que Trump está fazendo. Também não estou fugindo de nada. Não mudei devido a ameaças, denúncias, tentativas de violência aleatória por parte de pessoas baixas em cargos altos, nem por alertas de amigos etc. Mas, mesmo que fosse esse o caso, qual o problema de pessoas menos privilegiadas do que eu (e elas são muitas) optarem por sair do país? Alguns já se foram. Outros mais sairão. Devemos apoiá-los e aprender com eles. A função de uma universidade é criar condições de liberdade, e é em função disso que são alvo prioritário de tiranos. Já é possível ver nos Estados Unidos a tentativa, por parte do governo, de alimentar o conformismo e o denuncismo com o propósito de disseminar medo e imbecilidade.

A partida dos três professores de Yale aponta para uma realidade bem mais alarmante. Segundo pesquisa realizada pela revista Nature com 1.600 cientistas em atividade acadêmica nos Estados Unidos, 75% declararam estudar a possibilidade de sair do país domado por Trump. O corte nas verbas para pesquisa, as tentativas de silenciamento da contradita e a repressão à imigração foram citados como principais motivos.

Uma das ignomínias dos editos da Casa Branca está em dar roupagem edificante ao autoritarismo rábido das deportações de estudantes e professores: o combate ao antissemitismo. Snyder escreveu dois livros sobre o Holocausto e ensina a história do antissemitismo há décadas.

— O governo atual não está combatendo o antissemitismo, está fomentando-o — sustenta ele.

Não perceber a falácia permite que o termo se transforme em instrumento político e que as universidades sejam destruídas em nome dessa aberração. Cabe lembrar que nenhum governo americano do pós-guerra teve tantos amigos da extrema direita mundial, da AfD alemã ao camarada Putin.

Sempre haverá quem manifeste incômodo com o uso da palavra “fascismo” no contexto da democracia americana. Mas o fascismo pode assumir roupagens diversas, como alertou o vice-presidente de Franklin Roosevelt, Henry Wallace, em ensaio publicado no auge da Segunda Guerra, em 1943.

— A luta mundial e secular entre fascismo e democracia não cessará quando a luta terminar na Alemanha e no Japão — escreve.

No texto, Wallace cunha a expressão “fascismo americanizado” e explica que o pensar fascista se adapta a momentos e sociedades diversas. Seria fácil identificá-los:

— Eles se proclamam superpatriotas, mas estão dispostos a destruir as liberdades constitucionais. Clamam por liberdade de mercado, mas são porta-vozes de interesses e monopólio. Seu objetivo final é a captura do poder político por meio do uso do poder do Estado.

Em outras palavras: não existe espaço para inocência num mundo operado por Trump.
Dorrit Harazim

Insano e calhorda

Criado há 30 anos em total desobediência à lógica, o pequeno município piauiense de João Campos retrata as mazelas de um Brasil disfuncional, ocupado por políticos que condenam o país ao subdesenvolvimento. Para atender a seus 2.970 habitantes, a cidade instalou 12 secretarias municipais em torno da Prefeitura e um Legislativo com 11 vereadores. Vive de transferências da União e é, proporcionalmente, a campeã na destinação de emendas parlamentares na modalidade Pix ou secreta. Nada menos de R$ 11.6 milhões foram enviados para lá pelo generoso Congresso, o que significa R$ 3,9 mil por habitante, mais do que o dobro do salário médio dos 417 trabalhadores locais.

João Campos não está só. De 1980 para cá, o país saltou de 3.974 municípios para 5.570, a maioria incapaz de gerar renda para sobreviver. Mendigam recursos nas assembleias estaduais e nos gabinetes de Brasília, e, não raro, na urgência do dinheiro, pagam corretagem. São ainda alvo preferencial para desvios do irrastreável orçamento secreto rebatizado de emendas de comissão, conforme tem sido confirmado por investigações da Polícia Federal.

É insano: dinheiro público gasto sem planejamento, pulverizado entre cidades e bolsos diversos.

Não se pretende aqui criminalizar emendas parlamentares legais e legítimas. A questão é que, ano a ano, os parlamentares extrapolam no volume e na criatividade para mantê-las em sigilo. Em 2025, o Parlamento vai operar R$ 53 bilhões do Orçamento da União via emendas, entre as individuais, de bancada e de comissão (modelo similar às secretas). No ano que vem, segundo o Projeto de Lei e Diretrizes Orçamentárias apresentado pelo governo no último dia 15, o Congresso vai executar R$ 56,5 bilhões. Em 2028, R$ 58 bilhões, e em 2029, R$ 61,7 bilhões, abocanhando 100% das despesas não obrigatórias. Isto é, tudo o que o governo tem para investir.


Aos gastos para satisfazer bases eleitorais, somam-se altos salários e mimos para a elite da coisa pública e a enorme quantidade de subsídios e incentivos fiscais que os lobbies de setores mais fortes conseguem arrancar do governo e do Congresso. No ano passado, essas benesses ultrapassaram R$ 700 bilhões, duas vezes o PIB do Uruguai.

Tais disfuncionalidades punem o cidadão, mas são criadas e mantidas por serem essenciais para garantir o mínimo de alteração nas esferas de poder. Tanto é assim que emendas nada republicanas unem inimigos figadais do Centrão e do bolsonarismo com a turma da esquerda, cuja rubrica aparece em dezenas delas.

Mesmo que estivesse disposto a apertar as contas, algo que não está no horizonte do estilo “gasto é vida” da atual gestão, o governo não encontraria suporte no Parlamento para fazê-lo. Para encerrar os R$ 15 bilhões do Perse, criado na pandemia a fim de auxiliar o setor de eventos, o Ministério da Fazenda suou e continua no ringue, pressionado pelo Congresso e contestado por diversos segmentos – até pelo gigante Ifood, que continua sem recolher impostos. O fim da desoneração da folha de pagamentos, editada, reeditada e postergada, será outra luta, embora já esteja provado que ela pouco ou quase nada impacta na geração de empregos.

Para a maior parte dos brasileiros sobram serviços de quinta categoria. João Costa, incrustada no belo Parque Nacional da Serra da Capivara, tem menos de 20% de saneamento básico e a vexaminosa proporção de mortalidade infantil de 90,9 óbitos por mil nascidos vivos. No país, 59 milhões vivem na pobreza, 9,5 milhões na miséria; 90 milhões continuam sem esgoto, 32 milhões sem água encanada. Crianças e jovens frequentam as escolas mas pouco aprendem; convive-se com a crescente sensação de insegurança e medo.

Aditando um pouco mais de crueldade no que já é duríssimo de engolir, suas excelências ainda querem urgência para anistiar golpistas. É mais do que insano – é calhorda.

A democracia nos EUA está em perigo?

Apesar de ser a democracia mais antiga do mundo, muitas pessoas acreditam que, dado o que aconteceu durante os três primeiros meses da segunda presidência de Donald Trump, os Estados Unidos podem rapidamente evoluir para um regime autoritário.

Não faltam motivos para preocupação. Algumas das ações da nova administração dos EUA são, por um lado, implausíveis e, por outro, extraordinariamente graves: a detenção de cidadãos estrangeiros e sua expulsão imediata do país , os expurgos nos serviços de inteligência, a demissão em massa e quase indiscriminada de funcionários públicos, a restrição da liberdade acadêmica nas melhores universidades do país, bem como a tentativa de controlar algumas agências independentes, incluindo a Comissão Eleitoral Federal. Já há especulações de que o atual presidente pode tentar contornar os limites de mandatos, e há até rumores de que ele pode encontrar uma desculpa para cancelar as eleições legislativas de novembro de 2026.

Por outro lado, se o Executivo decidir confrontar legalmente os juízes que se opõem aos planos de Trump, haverá uma profunda crise constitucional. Se o governo decidir ignorar as demandas judiciais, a queda em direção ao autoritarismo poderá ser muito rápida.

Os estudiosos da democracia estão perplexos. De acordo com as teorias tradicionais, a democracia não está em perigo em um país que atingiu o nível de desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Sabemos que regressões autoritárias ocorrem em países de baixa e média renda, mas não em países de alta renda; Elas também ocorrem em países jovens e em países com episódios frequentes de instabilidade política. Nada disso acontece nos Estados Unidos, então, se a pesquisa estatística for válida, o perigo de colapso da democracia é minúsculo. No entanto, quando acompanhamos a política no dia a dia, os artigos acadêmicos não oferecem a paz de espírito necessária para nos desligarmos do problema. Afinal, esses estudos são baseados em tendências passadas e, portanto, não conseguem identificar uma mudança de era: talvez o mundo esteja começando a operar com uma lógica diferente daquela que operava no passado.

Vamos imaginar o pior cenário possível: Trump está disposto a anular a democracia. O fato de ele nunca ter reconhecido sua derrota nas eleições de 2020 , atribuindo os resultados a uma fraude eleitoral massiva, é o principal motivo para temer que ele possa não respeitar os procedimentos eleitorais no futuro.

Se isso acontecesse, haveria uma maneira de interromper a regressão? Não se tivesse apoio eleitoral incontestável. Com uma clara maioria a seu favor, Trump teria um caminho livre. No entanto, é preciso lembrar que a vitória de Trump sobre Kamala Harris foi por uma pequena margem de apenas 1,5 ponto percentual . Foi uma vitória limpa e legítima, mas não esmagadora. O país está profundamente dividido. Não há base para acreditar que haverá apoio inquestionável a uma tentativa de desmantelar a democracia americana.

Agora, mesmo que não tenha seguidores suficientes, ele ainda pode tentar se tornar um autocrata. Nesse caso, receio que os mecanismos de controle horizontal, os famosos freios e contrapesos previstos na Constituição de 1789, seriam de pouca utilidade. Os sistemas institucionais são extremamente frágeis quando o poder executivo decide ultrapassar todos os limites (como os países latino-americanos bem sabem). Uma vez quebrado o sistema, qualquer decisão do legislativo ou do tribunal não conta mais, e o presidente assume todos os poderes.

Se uma situação dessa natureza surgisse, haveria apenas duas soluções. Ou o exército interviria em defesa da democracia, ou a sociedade civil se organizaria e lutaria para preservar seu sistema institucional. Dada a história dos Estados Unidos, onde os militares não entraram na política e nunca houve golpes militares, parece altamente improvável que as forças armadas possam se tornar o árbitro entre inimigos e apoiadores da democracia.

No final, portanto, a questão-chave é esta: haveria resistência popular suficiente à potencial tentação autocrática de Donald Trump? Há razões sólidas para ser otimista. Os Estados Unidos são o primeiro país historicamente estabelecido como uma república. Sua própria identidade nacional está associada aos ideais democráticos expressos na Declaração de Independência de 1776. É também um país caracterizado, como observou Alexis de Tocqueville, por uma sociedade civil vibrante e bem articulada. Embora as associações possam ter diminuído nos últimos tempos, os Estados Unidos continuam a ter uma classificação elevada em todos os estudos comparativos sobre a participação dos cidadãos em associações. É claro que, em um país tão grande e diverso como esse, as dificuldades de coordenar tantos grupos e associações em torno de uma causa comum são formidáveis, mas uma ameaça à sobrevivência da democracia seria um estímulo muito poderoso para superar essas dificuldades. Mais preocupante seria se a transição para o autoritarismo fosse gradual, porque nesse caso não fica claro quando o presidente foi longe demais e chega a hora de protestar e resistir. Isso pode levar a uma certa passividade, com os cidadãos esperando que as coisas piorem ainda mais.

Um exemplo interessante e recente do papel da sociedade civil na defesa da democracia é a Coreia do Sul, onde um presidente conservador tentou um autogolpe repentino declarando lei marcial (suspendendo a liberdade de imprensa e proibindo toda atividade política, incluindo a atividade parlamentar) e enfrentou forte resistência política e popular que o levou a desistir.

Além disso, as condições gerais do país são cruciais para o sucesso de uma transição para uma ditadura. Se as políticas de Trump desencadearem uma recessão econômica, as pessoas terão incentivos poderosos para se mobilizar. O fato de as consequências do “experimento” trumpista serem visivelmente negativas é importante para que cidadãos sem uma forte predisposição contra Trump possam abrir os olhos e perceber que o país caminha para uma catástrofe. Se a situação sair do controle, o atual presidente poderá recorrer à repressão e à violência para esmagar a resistência civil. Esse é um ponto sem retorno. Contudo, vale lembrar que a repressão à sociedade civil é uma medida extrema e provavelmente incompatível com o nível de desenvolvimento econômico e cultural dos Estados Unidos. É seguro assumir que muitas pessoas se afastariam do projeto trumpista se algo assim acontecesse.

Da minha perspectiva, Trump provavelmente fracassará como presidente, seja por causa de suas políticas erráticas e mal concebidas, seja por causa de desentendimentos internos dentro de sua camarilha governante. É lógico que isso continue sendo um parêntesis um tanto grotesco na história dos Estados Unidos. No entanto, vivemos em tempos turbulentos, portanto uma tentativa de solução autoritária não pode ser totalmente descartada. Combina muito bem com o personagem. Num caso como esse, acredito que a sociedade civil seria capaz de impedir isso. Se a democracia falhasse nos Estados Unidos, muitos outros países seguiriam o exemplo.
Ignacio Sánchez-Cuenca

domingo, 20 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Brasil: país do vale tudo?

O vale tudo no Brasil não é só um objeto de duas edições de novela, é um processo histórico recorrente de nosso passado, presente e será que ainda do futuro? A começar com a própria Proclamação da República (1889), que, desde então, sofre algumas ocorrências em processo contínuo, sob o controle das elites econômicas que dominam as políticas regionais e nacionais. Foram várias as tentativas de golpe que não tiveram punição e, mutatis mutante, se repetiram. Com anistia garantida a todos seus executores, essas recorrências foram acontecendo ao longo de nossa história republicana.

Três períodos podem ser compreendidos com similaridades e diferenciações do vale tudo que vem dominando a nação brasileira: o primeiro, ao longo da ditadura (anos 60 a 80), garantiu aos militares torturadores a isenção de um processo de anistia; o segundo — a partir de 1985, no início do processo de democratização, conclusão da nova Constituição (1988) — ocorreu até 2002, com a primeira eleição presidencial direta e o (primeiro) governo Lula.


Por fim, houve um terceiro momento do vale tudo nacional, que teve início no segundo governo Lula e chegou aos tempos mais recentes, com o domínio do Congresso Brasileiro por elites econômico-empresariais que tanto levaram à ocorrência de processos como o Mensalão e o Petrolão, como à posterior deposição da presidenta Dilma Rousseff.

Mas não só, vale tudo também ocorre com a entrega total dos governos a um Centrão conjugado a outros partidos políticos, inclusive de uma direita mais radical. Não exclui o atual governo Lula, que continua patinando com as elites.

Trata-se de momentos similares, apesar de algumas diferenças quanto aos detentores pessoais do poder que continuam a realizar o que venha a ser interesse lucrativo em detrimento de demandas nacionais. No "mostra a sua cara", o Brasil atual continua o mesmo: dos poderes voltados às elites e do povo abandonado.

A novidade atual é que, pela primeira vez, está em curso uma proposta de anistia preventiva — dado que o crime de tentativa de golpe ainda não foi julgado e, portanto, ainda não há sequer a condenação de seus mentores. Esse novo vale tudo entrou em ritmo acelerado de execução num Congresso Nacional turbinado com mais de R$ 50 bilhões, vantagem ganha mesmo após o fim do financiamento privado que tanto o corrompia, e com uma nova aliança dos políticos em exercício, representantes das novas elites (bélica, do agronegócio e evangélicos).

Começa-se a acelerar uma tentativa que visa não só a "anistia preventiva" dos mentores do ataque à democracia. Configura-se, ainda, a vingança especial ao Supremo Tribunal Federal (STF) pela condenação e, também, pela vigilância ao descontrole nas emendas parlamentares.

Essa nova edição do vale tudo Brasil dependerá, além da anistia preventiva, do que vier a acontecer em breve com relação às votações de políticas redistributivas em curso no Congresso. Já se sabe que as riquezas nacionais deverão continuar, no campo legal, a serem direcionadas para elites donas da dívida interna, que gozam de subsídios tributários empresariais e a quase total isenção de impostos de renda pessoal e familiar.

E no campo ilegal? Será que continuarão, por exemplo, os desvios de recursos públicos por "propinas" e "rachadinhas"? Negarão a isenção de impostos para os pobres e remediados de renda até R$ 5 mil, compensada pelo aumento compensatório da hoje parca tributação dos rendimentos que sejam maiores que R$ 50 mil mensais ou milhão anual?

Ressalte-se que o período proposto para o tal projeto de anistia preventiva antecede, em meses, os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Sem dúvidas, denunciando que nada é em defesa da massa popular manejada nos atos de vandalismo, mas direcionado para o tal grupo político militar que os controlava. Nesse lamaçal, nós, o real povo brasileiro, derrapamos, há centena de anos, num potentíssimo vale tudo em defesa dos privilégios dominantes. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos: Brasil, mostra a tua cara!

Hora e vez da performance do papagaio

O democrata Cory Booker, primeiro senador negro de New Jersey, bateu o recorde mundial de duração de um discurso parlamentar, falando em pé na tribuna contra Trump 25 horas ininterruptas, sem pausa para a toalete. Oposicionistas insinuaram o uso de fralda, mas o fato é que ele superou o recorde do republicano Strom Thurmond, supremacista branco da Carolina do Sul que, muitos anos atrás, deblaterou por 24 horas contra a Lei dos Direitos Civis.

Em termos de energia física, essas façanhas evocam as maratonas de dança durante a Grande Depressão nos EUA, cujos participantes iam até a exaustão para ganhar alguns trocados. Foram dramatizadas em "A noite dos desesperados", filme célebre de Sidney Pollack (1969). Algo não tão estranho quanto a famosa epidemia de Estrasburgo (1518) em que as pessoas dançavam até a morte, mas extremo ainda assim.


Em extremismo vocal, os senadores superam Fidel Castro, quando falava seis horas a um público que se esbaldava em rum, melancia e danças. Aparentemente ninguém escutava nada, mas há testemunha de que, uma vez, quando tossiu, a multidão gritou em uníssono: "Que se cuide, Fidel!". Já entre nós, é recente a opinião do ator Marco Nanini depois de uma sessão da Câmara dos Deputados: "Aquilo é um caos, todos falam, ninguém ouve!"

Mas psitacismo, a performance do papagaio, tem relevância acadêmica. Sobre mecanismos sociais contrários ao Estado, o etnólogo Pierre Clastres observou que os Guayki, sem obedecer literalmente ao chefe, davam grande importância à sua fala. Não pelo dito, mas pelo longo desempenho, uma retórica do tempo em que importa a voz da chefia, não o significado das palavras.

Agora, com a racionalidade oficial pelo avesso, vale uma ideia do que Cory Booker disse, ou apenas performou, chocado por magna obscenidade. Se entendermos a palavra como ver sem mediações a cena de um tabu, é espantosamente obsceno o governo de Donald Trump. Ele é o primeiro a acumular o cargo com gestão de negócios. Em Doral, seu resort de 643 apartamentos, próximo a Mar-a-Lago, mistura golfe com levantamento de fundos, já em campanha para um hipotético terceiro mandato. O preço por cabeça de um jantar é US$ 1,3 milhão. Disse um dos convidados: "É tudo só negócios e dinheiro. A América é uma empresa".

Obscena é a exibição sem véus do poder mefistofélico do dinheiro, indiferente à turbulência e ao sofrimento causados por Trump, agente da destruição pelo caos, que mascara seus interesses privados. Aos investidores bilionários garante que "não é a hora de ficar apenas rico, e sim mais rico". Disso tomou conhecimento a imprensa enquanto ele jogava golfe com Yasir Al-Rumayyan, gestor do fundo soberano de US$ 925 bilhões da Arábia Saudita.

Tudo isso é público, a fala de Cory Booker não trouxe surpresas aos pares no Senado. Mas sua performance é um sobressalto crítico ao espírito do tempo em que loucura metódica não é apenas construção dramática. A expressão machadiana "química do tempo" daria talvez melhor conta do que se passa: uma assustadora e acelerada dissolução dos sentimentos morais.