sexta-feira, 16 de junho de 2023
Corrigir um erro fundamental
Talvez, em algum momento do passado, tal proposição tenha sido válida, mas hoje não mais. Tornou-se apenas mais um exemplo da célebre frase de Keynes, quando disse que políticos e homens de negócio com frequência são escravos de economistas mortos, assim destacando o fato de que muitas vezes ideias persistem apesar de as mudanças sociais e econômicas as terem tornado ultrapassadas, equivocadas.
Uma questão básica a ser levada em conta é que a acumulação de mudanças quantitativas leva a mudanças qualitativas. São muitos os exemplos: um copo de água pode matar a sede, um balde pode afogar o sedento; uma dose de droga salva o paciente, muitas o matam; um milhão de humanos afetam a biosfera minimamente, dez bilhões – ajudados por potentes equipamentos movidos pela dissipação de energia acumulada por milênios – ocasionam profundas alterações na geografia (literalmente movendo montanhas), nas composições química e biológica do ar e da água etc. Em suma, mudanças profundas na biosfera.
Sabemos, ainda, que as transformações da biosfera provocadas pelos humanos têm ocasionado, entre outras, a sexta extinção em massa, além de levar os próprios humanos a respirarem gases tóxicos e a se alimentarem de outros tóxicos. Assim, a velha regra aplicável a diversas ciências – mudanças quantitativas levam a mudanças qualitativas – deve também ser aplicada aos processos sociais e econômicos que vivem os humanos. É este fato que torna obsoleta e equivocada a busca pela “retomada da economia”, ou pelo “crescimento”.
O objetivo, agora deve ser outro, e direto: melhorar a qualidade de vida dos mais pobres e recuperar a resiliência dos vários biomas. Para tal, há que identificar objetivos socioambientais intermediários alcançáveis no curto prazo, ou seja, pequenas melhorias que abram espaço e mostrem o caminho para conquistas maiores.
Não é recente a ideia, em economia, de que a qualidade de vida depende também de fatores que não a renda: acesso à saúde, a uma moradia hígida, a transporte confiável, à percepção de progressiva melhoria para os filhos etc.
Exemplificando, o natimorto programa “Cartão Reforma”, lançado no governo Temer e que nunca vingou – pois criado atabalhoadamente, mais para promover o ministro que o propôs que para alcançar os objetivos de melhoria das habitações – é, a princípio, bem melhor, mais barato e eficaz, que o “Minha Casa Minha Vida”, cujas deficiências em termo de estrutura urbana são notórias. O “Cartão Reforma”, mais bem pensado, estruturado e negociado com prefeituras e associações comunitárias, pode, ao contrário, contribuir para solucionar problemas urbanos e habitacionais de longa data. Entre eles, menos resíduos espalhados nas vias públicas e melhor acesso ao transporte público e ao saneamento.
A questão habitacional é complexa, e não pode ser esgotada neste breve artigo. O ponto a destacar é que melhorias cumulativas, ainda que inicialmente pequenas e nem sempre observáveis quando a preocupação central é o crescimento do PIB, podem transformar para melhor e mais rapidamente a vida das populações mais carentes.
A multiplicação da quantidade de humanos e dos volumes de nossas intervenções na biosfera sinalização a impossibilidade de continuar no mesmo rumo e exigem uma mudança qualitativa: perseguir a progressiva redução de problemas concretos que afligem a maioria, e não mais almejar a miragem dita “desenvolvimento econômico”.
Humanidade
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguém pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrível, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As péssimas qualidades
Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoísta, interesseiros
Mas trata com cortesia
Mas tudo é hipocrisia
São rudes, e trapaceiros.
Carolina Maria de Jesus, "Meu estranho diário"
O trator e a fome
Inquietavam-se as terras do oeste sob os efeitos da metamorfose incipiente. Os estados ocidentais estavam intranquilos como cavalos antes de temporal. Os grandes proprietários inquietavam-se, pressentindo a metamorfose e sem atinar com a sua natureza. Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que tudo isto era efeito, e não causa. As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples — as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada por milhões; fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada por milhões; músculos e cérebros que queriam crescer, trabalhar, criar, multiplicados por milhões. A última função clara e definida do homem — músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar algo além da mera necessidade — isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique; obter músculos fortes à força de movê-los, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além de seu trabalho, galga os degraus de suas próprias ideias, emerge acima de suas próprias realizações. É isto o que se pode dizer a respeito do homem. Quando teorias mudam e caem por terra, quando escolas filosóficas, quando caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, econômicas alargam-se e se desintegram, o homem se arrasta para diante, sempre para a frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas não mais que meio passo, nunca o passo todo que já deu. Isto se pode dizer do homem, dizer-se e saber-se. Isto se constata quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando prisioneiros são tratados como porcos imundos, e os corpos esmagados se consomem imundos na poeira. Pode ser constatado desta forma. Não tivesse sido dado esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço seria jamais cortado. Tenha-se medo de quando as bombas não mais caem, enquanto os bombardeiros ainda existam, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito não morreu ainda. E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber — tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da humanidade, é a que a distingue entre tudo no universo.
Um homem, uma família, expulsos de suas terras, esse veículo enferrujado arrastando-se e rangendo pela estrada rumo ao Oeste. Perdi as minhas terras; um trator, um só, arrebatou-as. Estou sozinho e apavorado. E uma família pernoita numa vala e outra família chega e as tendas surgem. Os dois homens acocoram-se no chão e as mulheres e as crianças escutam em silêncio. Aqui está o nó, ó tu que odeias as mudanças e temes as revoluções. Mantém esses dois homens apartados; faze com que eles se odeiem, receiem-se, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que tu temes. Aí é que está o germe do que te apavora. É o zigoto. Porque aí transforma-se o “Eu perdi minhas terras”; uma célula se rompe e dessa célula rompida brota aquilo que tu tanto odeias, o “Nós perdemos nossas terras”. Aí é que está o perigo, pois que dois homens nunca se sentem tão sozinhos e abatidos como um só. E desse primeiro “nós” nasce algo muito mais perigoso: “Eu tenho um pouco de comida” mais “Eu não tenho nenhuma”. Quando a solução desta soma é “Nós temos um pouco de comida”, aí a coisa toma um rumo, o movimento passa a ter um objetivo. Apenas uma pequena multiplicação, e esse trator, essas terras são nossas. Os dois homens acocorados numa vala, a pequena fogueira, a carne que se cozinha numa frigideira comum, as mulheres caladas, de olhos vidrados; atrás delas as crianças, escutando com o coração palavras que seu cérebro não abrange. A noite desce. A criança sente frio. Aqui, tome esse cobertor. É de lã. Pertenceu à minha mãe — tome, fique com ele para a criança. Sim, é aí que tu deves lançar a tua bomba. É este o começo da passagem do “Eu” para o “Nós”.
E tratores abrem sulcos múltiplos nas terras abandonadas.
John Steinbeck, "As vinhas da ira"
Empresas, governos e a conta do aquecimento global
É bem verdade que as tratativas evoluíam razoavelmente até que a COVID19 seguida da guerra na Ucrânia arrefeceram a disposição dos governos e das empresas de cumprir as metas multilaterais de descarbonização, especialmente nos setores de energia, combustíveis e alimentos.
Contudo, nem o Corona Vírus e nem Putin podem ser condenados como carrascos isolados (nem sequer principais) da desaceleração das providências previstas nos acordos climáticos vigentes.
Acontece que o fator limitante dos avanços é estrutural e se encontra entre os pilares da economia moderna, que fundamentam tanto o investimento privado como o gasto público que o subsidia. Ao final, seja governo, seja empresa, ninguém se anima em fechar seus balanços no vermelho.
Para sermos mais exatos, a regra básica dos mercados é não apenas fechar no azul, como também maximizar esses resultados positivos. É uma ‘lei’ da eficiência que não merece juízo de valor em si, porque busca a obtenção dos melhores resultados possíveis, como em qualquer outra atividade humana.
Para isso, um caminho comprovadamente eficaz é minimizar os custos. E é exatamente nessa minimização de custos que o setor privado desde sempre tem exagerado em economizar, negligenciando nos princípios da Responsabilidade Socioambiental (RSE) ou, mais recentemente, Governança Social e Ambiental (ESG).
O passivo ambiental e social vem sendo percebido, contabilizado, regulamentado e tratado gradualmente, a partir das legislações e políticas trabalhistas, de saúde pública, saneamento, poluição do ar e água. O problema é que a produção industrial, a agropecuária, as cidades, a população e o consumo crescem muito mais rápido do que o nível de conscientização geral sobre a degradação que se provoca sobre as condições de sustentação da vida em grau planetário.
Até algumas décadas atrás, só se percebeu a escala global do estrago depois que ele estava feito. Em certo momento, fez todo o sentido quando Al Gore chamou o dilema climático de “verdade inconveniente”, porque se tratava de um despertar para um problema temporal difícil de responder: como corrigir os estragos passados, estancar os estragos atuais, prevenir os estragos futuros e se adaptar aos estragos irreversíveis?
Hoje, mesmo sendo possível prever o agravamento e os efeitos futuros, a resposta poderia ser mais fácil se não estivesse inevitavelmente associada a questões adicionais: como resolver tudo isso ao mesmo tempo, sem parar a economia e sem aprofundar as desigualdades sociais? Dito de outra forma, como descascar o abacaxi da mudança climática mantendo o setor privado lucrativo, os governos eficientes e os pobres menos pobres.
Vai ser difícil chegar a uma solução efetiva sem um volume de investimento em tecnologias, infraestruturas e serviços (públicos e privados) que transcende as vacas sagradas da economia e da administração contemporâneas. Será indispensável rever as definições de público, privado, lucro, risco, custo, produtividade, riqueza e soberania. Em alguma medida, ninguém vai escapar de pagar essa conta.
quarta-feira, 14 de junho de 2023
O uso astuto da internet
A fraude intrínseca das redes sociais é a pretensão de saber o modo de funcionamento do indivíduo e se achar espelho da realidade. Quando, na verdade, criaram um padrão – subgênero-gente-digital – tirado da fragilidade da identidade e das ninharias da personalidade. Amo que cindiu e alienou a pessoa a instâncias externas e com práticas desleais de causar sensação, combinadas com almas intrusivas, ilegais e nocivas, usurpou a grandeza da internet. Os atos contradizem os ares de direito que se deram. Malignidade da sagacidade, como foi fácil fabricar um ser rendido!
Moraes, Dino e Orlando foram direto ao ponto ao dizer que o que é crime na vida real é crime na internet. Estrada pedregosa de conexões táteis, virou sinônimo de monopólios abusivos que violam a soberania do País e dão majestade ao espírito de porco.
Não basta a descrença no sobrenatural e em impulsos sacrílegos. É a lei que bota limite no furor de incontroláveis. O virtual/digital, berço da repetição e túmulo da fala, não pode ser subestimado. Magnatas da instantaneidade, obcecados em dominar o mercado da crença, não imaginavam que o Brasil os confrontaria, como o fez a União Europeia. Loja de brinquedo dos segredos interiores adora a pessoa intencional irrefletida.
O que tais empresas fazem é blefar com a noção de liberdade impondo ao elemento afetivo o paradoxo meio moderno/modo primitivo. Vigilância e dependência do usuário vendidas como liberalismo ordinário.
Como não querem sofrer na própria carne, dizem que apenas dão espaço para a manifestação do outro. Compilam e distorcem biografias e fatos como as galinhas ciscam; imaginam que não é demonstrável o mal que propagam. Crescem em influência vendendo a ideia de que liberdade é escolher seus próprios deuses. Exploram o sentimento humano sem participar de sua formação. Fustigam instituições que ameaçam sua sobrevivência.
Como avançaram esbarrando nos destroços de políticas, culturas e espiritualidades decadentes, impuseram à sociedade a descrença no limite. Canal preferido do indivíduo-gangue, sócio do aliciamento que computador, celular ou qualquer aparelho sem controle o oferece para agir errado e escapar sem culpa.
Reservatórios de segredos de deslumbrado clube de egos instantâneos, apontam o dedo, fotos, vídeos, intimidade, publicidade e pesquisa. Carcereiros dos níveis profundos da vaidade, enfeitiçam pessoas em piqueniques da leviandade de expressão e despotismo espiritual, mais moderna forma de moagem da vida humana.
Quando a vítima da própria esperança ou desespero usa rede social, a estabelece para si como valor. Impregnada, ninguém a convence de que é empurrada, e não atraída pelo destino. Nem percebe que se oferece à dissecação como alma que não sabe se salvar. O ermo habitado do virtual facilita o incitamento; as bobagens que entopem a tela, seu natural. É como cair da vida.
A liberdade sem discernimento predomina nas mídias sociais. No ranking dos conectados, é corriqueiro falar e agir com opinião emprestada e achar que tudo está bem se obtém seguidores. A ação sem sabedoria captura o lado vil da personalidade e pode levar às vias de fato. O freio de arrumação se justifica ao buscar compreensão melhor da convivência humana diante das modernas patologias sociais. Para salvar a internet da manipulação e não deixar que por ela trafegue perversidade, irrefletida ou culpada. Como está, é repositório de um mundo que não se envergonha, de baixa estima coletiva. E, ao abusar da paciência humana, voa acima de sua credulidade para cair das alturas no crime ou na aceitação do mal recreativo.
Aplicar a lei, e buscar manter a superstição dentro de certos limites, ajuda a coibir o antissocial e enfraquecer a convicção de que é normal usar de forma torpe rede online, pela convicção de que a desonestidade virtual não é do mundo real. Recuperar a graça da cultura e não renunciar ao esforço cognitivo é recusar a dar o salto mortal que idolatra os predadores da internet.
Ao contrário do que se pensa, as big techs são o oposto da sociedade aberta, informada e livre. Sua força é dirigir e vigiar o comportamento. O uso de clichês e adaptação (in)consciente a uma forma especial de culto cria o lugar do curioso sem escolha. Ali, o sonho de uma vida racional está em jogo. Inverte o afeto dos assíduos e os faz deitar e rolar no colapso da cultura humanista. Um arsenal de benzedeiro em prontidão, delegado do distrito afetivo de usuários.
Por fora bela viola, por dentro pão bolorento. Não há como melhorar um erro. É preciso desligar o poder de remunerar a mentira. Canal do mundo sombrio, falar de big tech é falar de uma ferida que já é incorrigível.
A ditadura moderna: o capitalismo
José Saramago, "As palavras de Saramago"
Prende, que é preto!
Quem acompanha os noticiários brasileiros, pode tranquilamente se perguntar: mas qual é a novidade nesse sistema de segurança do Coronel Vidigal? Afinal de contas, mesmo que seja ilegal, a suspeição generalizada da população negra é um dos traços mais marcantes das ações policiais no Brasil.
O detalhe é que o Coronel Vidigal atuou na polícia do Rio de Janeiro na década de 1820. Isso mesmo.
Coronel Vidigal era um homem que viveu há 200 anos, num Rio de Janeiro que estava se transformando na maior cidade escravista das Américas. Sua função era, portanto, garantir a ordem da capital do Império do Brasil, uma cidade que dependia do trabalho de milhares de escravizados e escravizadas, mas que temia a presença dessas pessoas, que tinham inúmeras razões para se insurgir contra a escravidão que vivenciavam. Vidigal e seus comparsas entraram para a história por criarem um "sistema de segurança pública" que embora parecesse eficaz, era ilegal, violento e truculento com a população negra, fosse ela escravizada ou livre, e que chegou a ser abertamente condenado por parte da população branca que vivia no Rio de Janeiro de então.
E o que isso tem a ver com o Brasil de hoje? Absolutamente tudo.
No último domingo, dia 4 de junho, um mercado da Vila Mariana, em São Paulo, foi furtado por três pessoas. A polícia foi chamada, e depois de receber a descrição dos criminosos de um dos funcionários do estabelecimento, conseguiu prender um dos três autores do crime, que se recusou a ir para a delegacia. O rapaz, que havia assumido o crime de ter furtado duas barras de chocolate, parecia estar sobre efeito de alguma droga e/ou ter alguma questão de saúde mental resistiu a voz de prisão. E qual foi a solução dada pelos policiais militares? Eles prenderam as mãos e os pés do suspeito com uma corda e o levaram à força para a UPA mais próxima, desrespeitando toda e qualquer noção de direitos humanos.
As cenas do rapaz sendo levado pelos polícias são absolutamente chocantes. E como não tenho palavras para descrever esse horror, vou me ater ao fato de que esse horror é historicamente construído e legitimado. A minha sensação era que o Coronel Vidigal havia "baixado" nos dois policiais em questão, que desrespeitaram os códigos de conduta da instituição para "cumprir seu dever" e perpetuaram da maneira mais terrível o racismo que nos ordena.
A Polícia Militar de São Paulo condenou as ações desses seus dois integrantes, os afastou de suas atribuições e abriu um inquérito para averiguar os possíveis erros de conduta. Um procedimento que estamos cansados de ver, e que sabemos, não resultar em muita coisa. E para comprovar isso posso me reportar novamente às ações truculentas do Coronel Vidigal, no século 19, ou então ao caso mais recente, em maio de 2022, no qual a Polícia Rodoviária de Sergipe criou de improviso uma câmara de gás num camburão e matou por asfixia Genivaldo, um homem negro que sofria distúrbio mentais e que não teve nenhuma chance de se defender.
Não há dúvidas que o que temos no Brasil é um padrão de conduta muito bem delineado por parte das corporações responsáveis pela manutenção da ordem, sobretudo a polícia militar. Um padrão que tem no seu DNA o racismo que carrega consigo uma presunção de culpabilidade histórica sob toda e qualquer pessoa negra, pelo fato dela ser quem é: uma pessoa negra.
Não há mais desculpas possíveis para esse tipo de ação. Ou melhor dito, para esse tipo de política pública. A frequência com a qual a população negra é desrespeitada em seus direitos básicos por órgão públicos que deveriam garantir a sua segurança é a prova cabal de que essas instituições foram e continuam sendo organizadas para garantir a cidadania de um grupo específico de brasileiros.
Não sei e nem quero saber os nomes dos polícias militares de São Paulo que desrespeitaram e humilharam um cidadão brasileiro que roubou duas barras de chocolate, tratando-o da mesma forma que os traficantes tratavam os africanos escravizado, ou que a Polícia do Rio de Janeiro tratava a população negra, mesmo porque esse não é um problema localizado ou individual. O que sei, é que as heranças nefastas da escravidão ainda se fazem ouvir em muitas brechas da nossa vida republicana. E que é preciso reconhecer essa herança, para transformá-la.
Por aqui, nesse Brasil de 2023, todo camburão ainda tem um pouco de navio negreiro.
Como El Niño vai afetar a economia mundial
Este movimento de água e calor deu início a um fenômeno climático que irá trazer mudanças acentuadas dos padrões climáticos em todo o mundo nos próximos meses.
Os climatologistas recentemente anunciaram que o fenômeno climático El Niño já se formou e irá se fortalecer até o final do ano e durante os primeiros meses de 2024.
Eles alertam que existem grandes possibilidades de que o El Niño seja particularmente forte este ano. E, se as previsões se confirmarem, os impactos podem ser significativos.
Os cientistas já alertaram que, com o aumento das emissões de carbono e o forte El Niño deste ano, existe 66% de possibilidade de que o planeta ultrapasse o limite de aquecimento global de 1,5° C em pelo menos um ano, até 2027.
Mas o fenômeno pode também trazer padrões meteorológicos extremos e perigosos, como fortes chuvas e enchentes, em partes dos Estados Unidos e em outros países, no final deste ano e no início do ano que vem.
El Niño e La Niña são fenômenos de ocorrência natural que alteram os padrões climáticos em todo o mundo.
Durante o El Niño, as temperaturas da superfície do Oceano Pacífico são mais altas do que o normal. E La Niña é o seu oposto mais frio, em que as temperaturas do oceano estão abaixo do padrão.
"Nossa previsão é que o El Niño continue até o inverno [no hemisfério norte – verão no hemisfério sul] e a probabilidade de que ele se torne um forte evento ao atingir seu pico é bastante alta, de 56%. A possibilidade de um evento pelo menos moderado é de cerca de 84%", segundo Emily Becker, diretora do Instituto Cooperativo de Estudos Marinhos e Atmosféricos da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, no blog da Administração Nacional Atmosférica e Oceânica (NOAA, na sigla em inglês) americana.
E os efeitos podem também reverberar por algum tempo no futuro. Um estudo recente de pesquisadores do Dartmouth College em Hanover, no Estado americano de New Hampshire, estima que o El Niño que se inicia em 2023 pode custar até US$ 3,4 trilhões (cerca de R$ 16,6 trilhões) para a economia global nos próximos cinco anos.
Pesquisadores também afirmam que, após dois eventos poderosos recentes do El Niño, em 1982-83 e 1997-98, o PIB dos Estados Unidos foi 3% menor do que o esperado meia década depois. Se um evento com magnitude similar acontecesse agora, o custo calculado para a economia americana seria de US$ 699 bilhões (cerca de R$ 3,4 trilhões).
É preciso observar que países tropicais costeiros, como a Indonésia e o Peru, sofreram queda de 10% do PIB após os mesmos fenômenos, segundo os pesquisadores. Eles projetam que as perdas econômicas globais neste século somarão US$ 84 trilhões (cerca de R$ 410 trilhões), com as mudanças climáticas aumentando a frequência e a potência do El Niño.
"O El Niño não é apenas um choque do qual a economia se recupera imediatamente", afirma Justin Mankin, professor de geografia do Dartmouth College e um dos autores do estudo.
"O nosso estudo demonstra que a produtividade econômica após o El Niño é reduzida por muito mais tempo do que simplesmente o ano após o fenômeno."
"Quando falamos em El Niño aqui nos Estados Unidos, significa que o tipo de impactos que iremos ver, como enchentes e deslizamentos, normalmente não tem cobertura de seguro na maioria das empresas e residências", segundo Mankin. Na Califórnia, por exemplo, 98% dos proprietários de casas não têm seguro contra enchentes.
Outros impactos econômicos nos Estados Unidos podem incluir danos à infraestrutura causados por enchentes – que causariam interrupções das cadeias de abastecimento – e queda das colheitas, causada por enchentes ou seca, diz Mankin.
As pessoas nos Estados Unidos devem se preparar para um inverno especialmente desastroso este ano, se houver a chegada do El Niño?
Não necessariamente. O El Niño pode causar períodos de fenômenos climáticos extremos na América do Norte, mas nem sempre é o que acontece.
Durante o El Niño, os ventos que, normalmente, empurram a água mais quente do Oceano Pacífico para o extremo oeste se enfraquecem.
Isso permite que a água aquecida retorne para o leste e se espalhe por uma área maior do oceano.
Este fenômeno aumenta a concentração de umidade no ar acima do oceano mais quente, o que altera a circulação de ar na atmosfera em todo o mundo.
Nestas condições, o Canadá e o norte dos Estados Unidos tipicamente têm clima mais quente e seco do que o normal, enquanto os Estados do sul e o litoral do Golfo do México tendem a ter condições mais úmidas, segundo David DeWitt, diretor do Centro de Previsões Climáticas do NOAA.
"O El Niño tende a aumentar a probabilidade de precipitação acima do normal em um terço dos Estados Unidos, ao sul”, segundo ele.
O fenômeno também costuma reduzir o número de furacões no Oceano Atlântico, mas pode gerar mais furacões no Pacífico, na costa oeste dos Estados Unidos. Todos esses efeitos dependem, em grande parte, da potência do El Niño responsável pelas mudanças.
O sul dos Estados Unidos é a região mais propensa a sofrer impactos severos, incluindo fortes chuvas e possíveis inundações repentinas, segundo DeWitt.
Estes fenômenos se seguiriam aos vários anos de seca ocorridos após três anos consecutivos de La Niña.
"O que frequentemente acontece [durante o El Niño] é que, quando a chuva vem, ela vem com muita rapidez", explica DeWitt.
"Isso pode causar deslizamentos de terra na Califórnia e em outros lugares onde tenham ocorrido incêndios florestais, o que pode causar grande devastação."
Os deslizamentos ocorrem porque a terra queimada retém menos quantidade de água, que pode escoar perigosamente.
Os fortes eventos causados pelo El Niño em 1997-98 e 2015-16, por exemplo, incluíram enchentes e deslizamentos na Califórnia. E a estação de 1997-98 também foi associada a outros eventos extremos incomuns em outras partes dos Estados Unidos, como fortes tempestades de gelo na Nova Inglaterra (nordeste do país) e tornados mortais na Flórida.
Mas as mudanças dos padrões climáticos causadas pelo El Niño também trazem outros problemas. Doenças infecciosas, por exemplo, podem ter maior incidência em áreas onde as condições favorecem a proliferação de insetos e outras pragas transmissoras.
Um estudo sobre o fenômeno El Niño ocorrido em 2015-16 concluiu que os surtos de doenças foram 2,5% a 28% mais intensos.
Na Califórnia, houve aumentos dos casos de infecção pelo vírus do Nilo Ocidental, transmitido por mosquitos.
Já Novo México, Arizona, Colorado, Utah e o Texas observaram aumento dos surtos de síndrome pulmonar por hantavírus, que é principalmente transmitido por roedores.
Houve até aumento do número de casos de peste em seres humanos – embora ainda sejam poucos – no oeste e sudoeste dos Estados Unidos.
Durante o El Niño, muito calor e umidade são transportados dos trópicos em direção aos polos.
"Quando você aumenta a umidade em latitudes maiores, ela captura mais radiação infravermelha térmica, o que gera aquecimento", explica DeWitt. "É isso o que chamamos de efeito estufa."
Mesmo que seja temporária, a violação do limite de 1,5° C prevista pela Organização Meteorológica Mundial devido ao aumento das emissões e ao El Niño deste ano pode gerar amplo sofrimento humano em todo o mundo.
Um estudo recente da Universidade de Exeter, no Reino Unido, concluiu que a limitação por longo prazo do aquecimento global a 1,5° C poderá salvar bilhões de pessoas da exposição a níveis perigosos de calor (temperatura média de 29° C ou mais).
As políticas atuais foram projetadas para causar o aquecimento global de 2,7° C no final do século. Os autores do estudo advertem que este índice pode deixar dois bilhões de pessoas expostas a níveis perigosos de calor em todo o mundo.
Limitar o aquecimento a 1,5° C faria com que cinco vezes menos pessoas vivessem em ambientes com níveis perigosos de calor.
A limitação também ajudaria a evitar a migração climática e consequências prejudiciais à saúde, incluindo perda de gravidez e prejuízos às funções cerebrais, segundo Tim Lenton, diretor do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter e um dos autores do estudo.
Existem preocupações de que, se as emissões de carbono continuarem a aumentar, ocorrências futuras do El Niño podem elevar as temperaturas globais acima do limite de 1,5° C com frequência cada vez maior.
"Cada 0,1° C realmente importa", afirma Lenton. "Cada 0,1° C de aquecimento que pudermos evitar, segundo nossos cálculos, evita que 140 milhões de pessoas sejam expostas a calor em níveis sem precedentes e aos danos que podem sobrevir."
"Com isso, evitamos o perigo para centenas de milhões de pessoas e este deveria ser um imenso incentivo para trabalharmos mais intensamente para reduzir as emissões a zero", conclui Lenton.
terça-feira, 13 de junho de 2023
Desde quando, cara-pálida?
Já visitei algumas distantes aldeias ianomâmis com deputados e militares e ouvi muitos comentários sobre o desconforto em que vivem, seminus na floresta. Como seria bom para eles se tivessem nosso padrão de consumo, andassem de carro, vestissem terno e gravata.
É muito difícil entender outras culturas e religiões, aceitar um tipo de felicidade que não é a nossa. Mas a Constituição de 1988, num momento de lucidez, garantiu que os povos originários têm direito à sua cultura, à sua religião e também às suas terras.
Por trás do desejo de que os indígenas tenham conforto e dinheiro, existe também escondida a cobiça por suas riquezas e suas terras. Não é por acaso que organizações criminosas usando pobres garimpeiros invadem as terras ianomâmis, caiapós e mundurucus, para citar apenas algumas.
Os deputados mais antigos sabem bem que a Constituição garantiu as terras aos povos originários para fazer uma justiça histórica. Não há referência no texto ao marco temporal, limitando a demarcação apenas a terras já ocupadas por eles em 1988.
Havia uma reflexão sobre a formação do país, mas também uma lembrança recente da ditadura. Muitos povos foram deslocados durante o governo militar. A Constituição não foi escrita para reforçar injustiças, e sim, num determinado nível, para repará-las.
O absurdo projeto aprovado na Câmara abre espaço para povos que estivessem lutando na Justiça por suas terras. Mas não é fácil lutar na Justiça quando se vive na floresta, tão distante do mundo branco.
Mesmo aqui no Sudeste, os caiçaras de Trindade só conseguiram manter suas terras ameaçadas porque um advogado se solidarizou com eles e, gratuitamente, conduziu sua luta. Era o velho Sobral Pinto.
Muita gente ainda pensa que o problema dos povos indígenas é apenas deles e de alguns fazendeiros que querem tomar suas terras ou de garimpeiros que querem levar seu ouro. É um pouco mais do que isso. Segundo todas as pesquisas, as terras ocupadas por eles são as mais preservadas na floresta, apesar dos ataques criminosos.
A presença dos povos originários significa um passo importante na luta contra as mudanças climáticas. Apesar de eles serem os principais protagonistas nessa luta, o desfecho dela interessa a todo o planeta que luta contra o tempo para evitar um avanço irreversível no aquecimento global.
A esperança de que o STF mantenha a Constituição tal como foi pensada e escrita em 1988 é mais que razoável. Na verdade, os ministros que pediram vista são os dois indicados por Bolsonaro, que pensam como ele. Isso significa que previram sua derrota e querem apenas ganhar tempo.
Tempo, tempo, tempo. Estão enrolados nesse marco temporal e sabem que não se muda a Constituição no escurinho da Câmara, numa votação simples, como se estivessem decretando mais um feriado.
É bom acentuar que a simples demarcação das terras é insuficiente. As ianomâmis foram demarcadas no início da década dos 90 e até hoje são invadidas. Visitei Raposa Serra do Sol, em Roraima, depois da demarcação e senti que era preciso muito mais.
O atual governo criou um Ministério dos Povos Originários. É preciso que seja muito mais que uma simples marca. Nosso papel de potência ambiental no mundo combina defesa da floresta e florescimento de muitas culturas.
Na Conferência do Rio, em 1992, no fórum alternativo no Aterro do Flamengo, foi esta a grande decisão: a diversidade de culturas é tão importante para a sorte do planeta quanto a diversidade da natureza.
Lula parece não entender que relação com Congresso mudou
Daí a quase impossibilidade de que o presidente eleito consiga maioria com o seu partido no Congresso, um dos elementos que tornam o presidencialismo de coalizão inevitável. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, no Brasil o presidente não governa sem maioria na Câmara e no Senado. Logo, precisa formar uma coalizão de partidos que lhe garanta condições de governar.
Todavia, o fato de um partido ser favorito na disputa presidencial influencia fortemente sua estratégia para as eleições parlamentares. Embora a relação seja muito mediada, um partido "presidencial" tende a ser muito competitivo nas eleições parlamentares, mas não a ponto de fazer a maioria.
O PSDB cresceu nas vitórias de FHC. O PT ganhou presença parlamentar robusta nas eleições de Lula. Ficou com a maior bancada em 2010, quando Dilma ganhou seu primeiro mandato. Manteve esta posição em 2014, embora perdendo cadeiras. O PSL inchou na onda Bolsonaro. Os partidos presidenciais estiveram entre as três maiores bancadas na Câmara durante os mandatos dos governantes que elegeram.
O modelo entrou em crise em razão de mudanças estruturais e comportamentais na política brasileira. A ruptura eleitoral de 2018 desestruturou o padrão que formou governo e oposição, de 1994 a 2014, e equilibrava o processo político.
Esse padrão se assenta em dois eixos partidários-eleitorais. Um eixo é bipartidário, no qual se disputa a Presidência da República. O outro é multipartidário, em que os partidos competem por cadeiras no Congresso, com o objetivo de maximizar seu ativo parlamentar para ingressar na coalizão governista, dependendo de quem seja eleito para o Planalto.
Demais candidatos a presidente, quando chegaram a ser competitivos, não conseguiram ultrapassar os 20% dos votos.
O eixo bipartidário, de vocação presidencial, se rompeu com o estilhaçamento do PSDB pela onda Bolsonaro. O espaço vazio deixado pelo ocaso dos tucanos complica bastante as relações governo-oposição. Não está claro que legenda o substituirá na disputa nacional com o PT. Se esse eixo não se refizer, as eleições presidenciais podem se tornar mais voláteis, com impacto negativo na formação das bancadas, na estabilidade política e na governabilidade.
A ruptura eleitoral também deixou o eixo multipartidário instável. Os partidos estão na fase de desalinhamento de um possível processo de realinhamento. Isso muda a correlação de forças no sistema.
O realinhamento partidário acompanha as mudanças no processo eleitoral. A proibição de coligações proporcionais e a cláusula de desempenho mais exigente reduziram a fragmentação partidária. Ela havia atingido seu ápice em 2018, quando o índice de partidos efetivos, medida tradicional de fragmentação, chegou a 17,4 para a Câmara. Em 2022, caiu para 9,2, retornando ao patamar de 2006.
É provável que a fragmentação caia ainda mais. Não por acaso todos os partidos estão fazendo campanha na TV para aumentar sua filiação e capilaridade.
A queda, contudo, não foi acompanhada pelo crescimento dos partidos mais competitivos, que perdem cadeiras desde 2010. As siglas relevantes estão com números medianos, da ordem de 35-40 deputados. Somente o PL, com 99 cadeiras, e o PT, com 68, têm bancadas relativamente robustas.
A redução do tamanho médio das bancadas, de 2014 a 2022, fez com que o MDB, antigo PMDB, perdesse a efetividade como partido-âncora da coalizão encabeçada pelo PT nos dois primeiros governos Lula, ajudando a ampliar as alianças petistas de agora ao centro.
Os partidos-âncoras servem como nódulos de atração no espaço "ideológico" da coalizão. Fernando Henrique teve o PFL como âncora de centro de sua base. Alcançava maioria de quase 70% do Congresso apenas com o PSDB, PFL e MDB.
Depois o PFL renomeou-se Democratas e, em colapso, fundiu-se com o PSL, virando União Brasil, que não reúne as condições mínimas de liderança e composição para atuar como âncora de centro numa coalizão.
No início dos anos 2000, Lula formava maioria com seis partidos. O PT era o âncora à esquerda, e o MDB, ao centro. No governo Dilma, o MDB continuou como âncora ao centro da coalizão, mas foi se deslocando para fora e para a direita, até o rompimento, em 2016, e o impeachment.
Com essas mudanças estruturais, a governabilidade ficou mais penosa e mais dependente do desempenho macroeconômico do governo. Neste terceiro mandato de Lula, já se vê que o MDB não tem mais a mesma musculatura política para ter eficácia como âncora. Dividido, não consegue equilibrar a coalizão, abrindo seu escopo para partidos ao centro —e a coalizão, assim, tende a pesar para a esquerda, perdendo apoio.
Afora isso, o Legislativo ficou mais poderoso. Outro conjunto de mudanças estruturais alteraram as relações do Executivo com o Congresso. As restrições à edição e reedição de medidas provisórias, assim como o prazo para perda de validade, reduziram o poder de decreto do presidente.
A pressão do prazo sobre o governante para que ceda ao Legislativo é maior do que o incentivo aos parlamentares para que votem as MPs. Foi o que vimos na votação que definiu a nova composição de ministérios.
A faixa impositiva das emendas parlamentares ao Orçamento tem aumentado, diminuindo a margem de manobra presidencial no manejo da coalizão. O orçamento secreto, uma deformação das emendas de relator que tinham objetivo meramente contábil, criou a demanda dos parlamentares por liberações mais discricionárias e ágeis de recursos orçamentários. A estrutura de preferências dos parlamentares na busca de recursos e cargos mudou e ficou mais exigente.
Nesse cenário, partidos medianos e pequenos, para melhorar o acesso a recursos de poder distribuídos proporcionalmente ao tamanho das bancadas, uniram-se em grandes blocos. A eles se juntam as federações, formadas como alternativa às coligações proibidas nas eleições proporcionais.
Blocos e federações são, tecnicamente, coalizões. Se um bloco ou federação passa a fazer parte da coalizão de governo, a chamada "base do governo", surgem coalizões dentro de coalizões. Aumentam a heterogeneidade e a complexidade do manejo da base, assim como as diferenças na hora de votar.
Os blocos partidários diferem das frentes temáticas, como a Frente da Agropecuária. As frentes são capazes de votar unidas nos projetos que afetam diretamente os interesses ligados a seu tema. No mais, tendem a dispersar o voto. Já os blocos têm maior dificuldade para encontrar temas de interesse comum e costumam se dividir internamente com maior frequência.
Outra consequência das transformações é o aumento do poder do presidente da Câmara e, em menor escala, do presidente do Senado. A articulação entre o presidente da República e os presidentes das Casas do Congresso passou a fazer parte necessária do instrumental da governança. As lideranças no Congresso dizem ao presidente que ele precisa ter uma base mais sólida. Não é tarefa fácil no contexto atual —e talvez nem seja factível.
As coalizões se tornaram muito líquidas com as mudanças, o que exige mais do governo, tanto sob a forma de mais cargos e verbas, quanto em moedas simbólicas, que os políticos definem como "prestigiar". Por exemplo, dar demonstrações de apreço e criar a imagem de que o parlamentar tem influência junto ao Planalto.
Isso reforça a relação do parlamentar com os cabos eleitorais. Para o Planalto, é preciso conversar muito, mostrar comprometimento com prioridades bem definidas e abrir espaço para compromissos nos demais campos.
Também aumentou o número de parlamentares com pautas antagônicas às do governo. O centrão e a extrema direita têm muitos representantes de grileiros, garimpeiros e madeireiros, por exemplo. Outros estão ligados a empreiteiras com interesses em hidrelétricas, linhões e rodovias que podem condenar a Amazônia ao colapso ecossistêmico. Em suma, coalizões líquidas representam mais pressão e mais risco para os governos.
Lula parece ainda não ter entendido a natureza da frente democrática que o elegeu. Ela não se limita às forças que subiram em seu palanque. A frente se estende aos partidos que estão na sua coalizão no Congresso.
O governo conta com maioria nominal de cerca de 280 deputados, mas isso é uma miragem. O tamanho real da coalizão de Lula, a que lhe é fiel, está perto de 150 deputados. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), tem insistido neste ponto, em declarações públicas e em suas conversas com Lula.
Nos partidos que já compunham seus governos anteriores, a correlação de forças internas mudou. Há lideranças novas com tanta ou mais influência do que aquelas com as quais Lula conviveu no passado.
O colégio de líderes ficou muito poderoso. A agenda de Lula terá que ser compacta, algumas prioridades que consiga negociar, além dos poucos projetos que Arthur Lira considera "de interesse do Brasil".
O ministério não reflete, nem representa, a frente que se dispôs a apoiá-lo. Lula não parece ter entendido a maior complexidade do cenário atual, em relação aos anos de seus dois primeiros mandatos. O Brasil e o mundo mudaram muito, e os problemas globais e nacionais aumentaram e se tornaram mais difíceis de resolver.
A continuidade de coalizões líquidas e disputas presidenciais voláteis, sem um eixo partidário sólido, pode comprometer a governabilidade. Se estivermos em transição para uma nova configuração do sistema partidário, esta pode ser uma crise conjuntural.
Quando o novo sistema se estabilizar, os partidos tendem a ficar mais fortes, a fragmentação cairá mais, as bancadas aumentarão de peso. O realinhamento partidário e a recomposição do eixo de disputa presidencial produziriam novo equilíbrio dinâmico, reduzindo os riscos para a governabilidade, no médio prazo.
Estudo português explora relação entre redes sociais e solidão
A missão: perceber a prevalência de sentimentos de solidão num mundo “apinhado” em que se torna cada vez mais fácil contactar com outras pessoas através da esfera digital. Sem acompanhamento, a solidão torna-se um “factor de risco para distúrbios mentais, doenças físicas e mortalidade precoce”, realçam os investigadores.
"Os utilizadores de redes sociais não estão mais protegidos de sentimentos de solidão e, inclusivamente, até estão mais em risco de se sentirem sós, principalmente se a utilização for muito frequente e compulsiva”, explica ao PÚBLICO o investigador Rui Miguel Costa, que é um dos autores do trabalho do Centro de Investigação William James, no ISPA. "É válido dizer que, em média, as pessoas que utilizam as redes sociais estão mais sós."
Os resultados baseiam-se em inquéritos online respondidos por cinco mil participantes portugueses. A amostra final inclui uma proporção de participantes semelhante à população portuguesa em termos de sexo, idade e área de residência. Apenas 218 (4,4%) das pessoas inquiridas não utilizavam algum tipo de rede social.
O nível de solidão foi avaliado com base na Escala de Solidão da Universidade de Los Angeles (UCLA – Loneliness Scale), desenvolvida nos anos 1990 para avaliar a frequência com que uma pessoa se sente “desligada” de outros com base em 20 questões, como “Com que frequência se sente excluído?” ou “Com que frequência se sente parte de um grupo de amigos?”
Além das tradicionais redes, como o Facebook ou o Instagram, os investigadores consideraram plataformas de trabalho, como o Linkedin, fóruns online como o Reddit, sites de partilha de vídeos e canais de mensagens.
“Todas têm em comum porem em contacto um grupo de pessoas que assim podem comunicar entre si. São precisamente algumas características desta comunicação que poderão levar à solidão”, justifica Rui Miguel Costa. “Mais do que uma rede social em particular, são as características da utilização que podem levar à solidão”, continua o especialista. “Por exemplo, muita exposição a conteúdos que levam a pessoa a sentir-se inferior, ou então uma grande ânsia de ter uma atenção por parte de outros nas redes sociais que nunca chega.”
O cérebro humano evoluiu para sentir conexão social quando os outros estão fisicamente presentesRui Miguel Costa - ISPA
As próprias características da comunicação online, como a falta de contacto físico, também são relevantes. “O cérebro humano evoluiu para sentir conexão social quando os outros estão fisicamente presentes; por isso a comunicação via ecrãs nunca preencherá totalmente a nossa necessidade de afiliação”, teoriza o investigador do ISPA. “Um grupo só pode ajudar na sobrevivência dos seus membros se estes estiverem fisicamente presentes. Tal como o medo evoluiu para nos afastar do perigo, a solidão evoluiu para nos motivar a estar junto de outros”, continua Rui Miguel Costa. “Com a comunicação por ecrãs, o sinal de alarme da solidão continua a tocar.”
As conclusões do estudo do ISPA não são ímpares – há anos que vários investigadores tentam explorar a relação entre redes sociais e a solidão. Uma revisão de literatura de 2021, com base em 52 estudos sobre o tema, publicada na revista académica Computer in Human Behaviour Reports, nota que um maior uso das redes sociais está associado a sentimentos de ansiedade social e a solidão. Um pequeno estudo de 2018 da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, nota mesmo que estudantes que reduziram o uso de redes sociais (como o Facebook, Instagram e Snapchat) para 30 minutos diários apresentaram uma redução nos sintomas de isolamento e depressão.
“Há alguma investigação que mostra que reduzir o uso das redes sociais leva a melhorias do estado de humor, mas ainda é pouca; é necessária mais, incluindo em Portugal, onde ainda não foi realizado nenhum estudo deste género”, reflecte o investigador Rui Miguel Costa. No futuro, a equipa espera perceber que outros sentimentos negativos estão associados às redes sociais e o que os desencadeia. “São necessários estudos que nos permitam clarificar mais em detalhe quais os mecanismos que fazem com que as redes sociais possam levar à solidão e porque é que podem fazê-lo mesmo em pessoas que relatam que têm relações pessoais satisfatórias.”
Educação é um negócio da China
Naquele dia, ele sentiu na pele o que já havia apreendido após a mudança para o país asiático, onde vive há nove meses: o profundo respeito que os chineses nutrem pelos profissionais da educação, em especial, professores universitários. No Brasil, ao entrar em um táxi ou carro de aplicativo trajando terno e gravata, o motorista provavelmente perguntaria se ele era advogado, executivo de empresas ou político.
“A China revelou-se para mim e para minha família uma sociedade muito educada, são acolhedores, gentis”, disse Nússio em conversa com a coluna. “Estamos aprendendo sinais importantes da cultura chinesa: um deles é o respeito ao professor universitário”.
Segundo o professor, que é engenheiro agrônomo de formação, esse respeito às vezes soa excessivo, mas está relacionado com princípios que a China segue, como o de que “uma pessoa sábia tem valor na sociedade”.
O professor é uma figura tão respeitada na China, que Mao Tsé-Tung, líder da revolução chinesa e fundador da República Popular da China, declarou ao jornalista americano Edgar Snow, em 1965, que passara a deplorar o culto à personalidade. Disse que todos os títulos concedidos à sua pessoa deveriam ser erradicados, mas gostaria de conservar apenas um: o título de “professor”.
É fato que durante a Revolução Cultural na China, nos anos de 1960, sob a liderança de Mao, o governo fechou universidades, exilou professores e queimou livros. Mas essa página foi virada, e a realidade atual deveria inspirar o Brasil, que vivencia o outro extremo na educação.
Na semana passada, brasileiros assistiram perplexos às cenas em que um adolescente de 13 anos matou a facadas uma professora da escola estadual Thomazia Montoro, em São Paulo.
Não foi um caso isolado. Um levantamento de pesquisadores da Unicamp e da Unesp mostrou que a média de ataques a escolas que era a cada dois anos, passou a ser mensal.
Num ambiente de violência que se agravou com a pandemia, a maioria das escolas públicas agoniza com estrutura deficiente, salários humilhantes e ausência de assistência psicológica. Nesses locais, alunos de famílias vulneráveis tendem a reproduzir o clima de agressividade que vivenciam em casa.
Espera-se que nesse momento de estreitamento dos laços do Brasil com a China, mais do que acordos comerciais, um saudável intercâmbio também viabilize mais troca de experiências na área de educação. Não apenas em conteúdo, mas no aspecto cultural, na valorização dos professores.
Luiz Gustavo Nússio coordena uma “joint college” entre a Esalq-USP e a China Agricultural University - duas das cinco melhores escolas de agronomia do mundo. Trata-se de uma pós-graduação em nível de mestrado, de dupla titulação, onde os alunos brasileiros e chineses recebem aulas em inglês de professores das duas nacionalidades. São duas linhas de pesquisa: agronomia e melhoramento de plantas, e administração pública ligada à agricultura.
O êxito da parceria entre a USP e a escola de agricultura chinesa levou o governo chinês, principal financiador do programa, a expandi-lo, de modo que as duas linhas de pesquisa devem se transformar em quatro a partir de 2024.
Num cenário de intensificação dos negócios na área de agricultura e pecuária entre Brasil e China, Nússio aponta a oportunidade e a estratégia do programa entre a instituição brasileira e a chinesa: “esse programa busca treinar pessoas para um ambiente qualificado no futuro, fazendo com que as negociações entre Brasil e China, especialmente na área de agricultura, possam ser melhoradas com a chegada de um pessoal que tem treinamento qualificado para esse ambiente”.
Em paralelo, outro projeto em funcionamento em Pequim reúne a Coppe - Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e a Universidade de Tsinghua, que mantêm o China-Brazil Center na capital chinesa.
Na semana passada, o acordo de cooperação entre as duas instituições, em vigor desde 2010, foi renovado pela quarta vez. Trata-se deu um acordo de cooperação científica e tecnológica, que envolve áreas como transferência de tecnologia, mudança climática, cidades inteligentes, mobilidade, entre outros. O enfoque para os próximos quatro anos é preservação de florestas, clima, bioenergia e bioeconomia.
Dois projetos se destacam: a criação de uma escola internacional para capacitação de profissionais na área de mudanças climáticas. E o desenvolvimento da cadeia do bambu, lembrando que o Brasil possui uma das maiores florestas dessa planta do mundo.
Nússio explica que o convênio entre USP e a escola de agricultura chinesa também implica a troca cultural. “A China e o Brasil se importam que o aluno seja qualificado tecnicamente em alto nível, mas querem que ele também consiga entender a outra cultura, e isso seja um facilitador, uma espécie de linguagem universal”, observou. Segundo Nússio, compreendendo a cultura, a gente tem facilidade de entender uma série de valores do outro lado”.
Em suma, Brasil e China têm uma pauta de acordos comerciais que talvez seja a mais profícua do mundo. Mas do ponto de vista de integração cultural, científica e acadêmica, ainda fazem pouco juntos. “A distância geográfica é um problema, mas quando brasileiros e chineses se conhecem, paulatinamente, vão entendendo que são países amigos e têm muito em comum”, concluiu o professor.
domingo, 11 de junho de 2023
Lutar para respirar
Thunberg não é mais a atrevida pirralha de tranças que, com pouco mais de 15 anos, passou a ser ouvida em constrangido silêncio pelos adultos do poder mundial. “Vocês não são maduros o suficiente para falar a verdade [sobre a extensão da crise climática]”, admoestou diplomatas e negociadores presentes à COP24 na Polônia, em 2018. No ano seguinte, em Davos, escoriou a nata dos que acorrem anualmente ao encontro para sentir-se importantes, com um: “Vocês precisam agir como se a casa estivesse pegando fogo, porque ela está”. Tinha razão a pirralha assumidamente autista que deu escala global e amplitude geracional ao movimento em defesa do clima. A casa está pegando fogo.
O planetinha de fato está a arder. Ano após ano, chamas selvagens destroem vastidões cada vez maiores, atravessam fronteiras e tornam mais tóxico o ar que respiramos. Um historiador e professor da Universidade do Arizona, Stephen J. Pyne, especializado em meio ambiente e na História do fogo, chegou a criar um termo para essa escalada: pirocênio.
Nesta semana foi a vez de a Costa Leste dos Estados Unidos sentir nos olhos, pulmões, narinas e boca as consequências da fumaça cuspida por incêndios florestais no Canadá. Por um dia, foi como se um espesso cobertor de partículas acres tivesse coberto a cidade de Nova York, que chegou a ultrapassar a capital da Índia, Nova Délhi, em péssima qualidade do ar. Respirar deixou de ser banal. “Senti a garganta como se tivesse engolido um bombom de carvão”, escreveu David Wallace-Wells, autor do inquietante “A terra inabitável”, sobre aquecimento global.
Apesar de o verão ainda não ter começado no Hemisfério Norte, a província canadense do Québec, sozinha, já registrou mais de cem incêndios florestais fora de controle. Mais de 90 milhões foram afetados pelos gases tóxicos respirados, uma vez que não existem muros nem barreiras capazes de evitar o tráfego aéreo das partículas abrasivas. Segundo Wallace-Wells, 60% da fumaça poluente gerada por incêndios na Costa Oeste dos EUA afeta quem mora fora dos estados em chamas. Isso vale para o resto do mundo. Que morador de São Paulo não lembra a sinistra escuridão que envolveu a cidade numa tarde de agosto de 2019, e novamente em setembro do ano seguinte, proveniente de queimadas na Amazônia e no Pantanal? Parecia prenúncio de apocalipse. Com um agravante trágico em relação aos incêndios no Canadá ou na Califórnia: mais de 80% das queimadas e incêndios florestais brasileiros são intencionais, obra de predadores brasileiros, gente de carne e osso, mas desprovida de um pensar minimamente coletivo.
Pastos, fazendas improdutivas, mineração selvagem, madeireiras ilegais, exploração de terras indígenas — os agentes destrutivos de nossos solo, floresta e ar são conhecidos. Por isso mesmo, pelo menos em tese, também mais fáceis de cercear que os horrendos incêndios naturais do “Verão Negro” australiano de 2019/2020.
Naquele ano, um céu apocalíptico tragou a cintilante Baía de Sydney. As mundialmente imaculadas praias do sudeste do país se viram transformadas em pontos de evacuação para refugiados do fogo. Mais de 8 mil integrantes da Defesa Nacional Australiana, em conjunto com 76 mil voluntários do Corpo de Bombeiros Rurais, não deram conta dos 15 mil incêndios que arderam durante seis meses. Um apanhado conservador daquela tragédia fala em pelo menos 3 bilhões (sim, com b...) de animais mortos e 100 mil colmeias de abelhas destruídas. A saúde dos rios, lagos, bacias e parques nacionais do país passa por reavaliações constantes desde então.
Seguiram-se anos de investigação e pesquisa até o governo elaborar um relatório que oferece estratégias para qualquer nação interessada em combater incêndios florestais naturais. Também a ONU se debruçou sobre o tema. Em relatório elaborado por mais de 50 especialistas globais, a entidade prevê aumento de 30% no número de incêndios extremos até 2050.
Contra incendiários de biomas para proveito próprio, contudo, o único remédio ainda é o antigo: vontade política dos governantes, aplicação rigorosa da lei e pressão da sociedade. “Não creio que as mudanças de que precisamos virão dos que detêm o poder”, disse Greta Thunberg em entrevista a Wallace-Wells. “Isso terá de vir de fora, quando um número suficiente de vozes exigir a grande mudança.”
Acorda, Brasil, o mundo precisa de ar.
Escolha é sua
Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolherWoody Allen
Aqui jaz o Brasil
Parte significativa do estoque de obras paradas tem origem no Programa de Aceleração do Crescimento, criado por Lula em 2007, e que ele pretende reeditar.
Coordenado à época pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que Lula apelidou como “mãe do PAC” para embalar a vitoriosa campanha dela à sua sucessão, a iniciativa teve baixíssima execução. No primeiro biênio, alcançou apenas 9,8% de obras concluídas e mais de 60% dos projetos nem mesmo saíram do papel, de acordo com a ONG Contas Abertas. Em 2016, quase 10 anos depois, o PAC sucumbia com menos de 17% de empreendimentos terminados dos 29 mil previstos. Naquele ano, o TCU informou que o número de obras públicas paradas batia em 14 mil, o mesmo que Lula diz ter hoje à sua frente.
Lula tem insistido que concluir obras é uma das prioridades de seu governo. O ex Jair Bolsonaro batia no mesmo bordão. E nada. Herdou cerca de 8 mil esqueletos e adicionou mais 600, muitos deles oriundos de emendas parlamentares do orçamento secreto. Há casos, como os denunciados pelo jornal O Estado de S. Paulo, de lançamento de pedras fundamentais para erguer novas creches ao lado de escombros abandonados de construções de prédios escolares.
Em meados de março, Lula 3 lançou um aplicativo para auxiliar no mapeamento de obras paralisadas. Em maio, editou Medida Provisória com investimentos de R$ 4 bilhões para concluir mais de 3,5 mil escolas e creches inacabadas, parte delas com estruturas em estado avançado de degradação ou apenas um terreno baldio já sem sinal nem mesmo da terraplanagem.
Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória que reestabelece o Minha Casa, Minha Vida, lançado por Lula em 2009 e destroçado por sua sucessora. Na era Bolsonaro, o programa foi substituído por um arremedo batizado de Casa Verde-Amarela, acentuando os erros da proposta original: conjuntos de péssima qualidade construtiva erguidos em regiões periféricas dos centros urbanos, sem transporte, água e esgoto.
Pelo menos no papel, a nova versão tenta corrigir essas falhas. Inclui financiamento para infraestrutura, permite adequações e reformas em imóveis usados e – ufa! – prevê a conclusão de obras já iniciadas. Ainda que não exista risco de rejeição, mais uma vez o governo descoordenado tem pressa: a MP tem de ser votada celeremente no Senado, e sem emendas, na quarta-feira, dia 14, sob pena de caducar.
Ainda que existam boas intenções – e os governos sempre dizem tê-las -, elas esbarram na morosidade da execução. Não por ausência de competência técnica ou de recursos, mas no troca-troca da política. Agora, a escolha de que obra será tocada e o ritmo de cada uma delas serão ditados pelas eleições municipais de 2024. Depois, por 2026.
Muitos políticos vão continuar preferindo escolas ou postos de saúde novos à conclusão de obras iniciadas pelo adversário local; governantes prosseguirão na ação insana de recomeçar do zero projetos de administrações anteriores.
Um dos ícones do desperdício é o trem-bala entre São Paulo e Rio. O projeto iniciado em 2007 teria consumido mais de R$ 1 bilhão até 2013, quando foi abandonado por Dilma. Dele, restou a Empresa de Planejamento e Logística, estatal criada para pôr a megalomania nos trilhos, e que, acintosamente, continua pendurada nos cofres públicos com previsão orçamentária de R$ 83 milhões para este ano. Lula 3, dizem, pretende retomar a ligação férrea, orçada em módicos R$ 50 bilhões.
Outro caso bastante ilustrativo é a ligação Santos-Guarujá. Uma travessia cuja balsa já foi substituída por viaduto de quatro pistas, túnel de seis pistas, viaduto de novo, túnel de novo. Cada governo, nova ideia e novo dispêndio. A briga agora é entre o ministro dos Portos, Márcio França, e o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas. Enquanto isso continuam as balsas e as filas.
Sem contabilizar os prejuízos de projetos que sequer deixaram as gavetas, o TCU informa que R$ 8,2 bilhões foram enterrados nos esqueletos de obras públicas paradas. Seriam necessários R$ 32,2 bilhões para ressuscitá-las. Sem dar cabo a esses fantasmas vem aí um novo PAC.
Mais obras serão iniciadas e abandonadas, outras tantas nem vão sair do papel; mais placas vão ser fincadas pelos interesses eleitorais. Pela lei, as placas têm de expor o custo da obra e a data de conclusão. Nas milhares inacabadas seria didático incluir o epitáfio: aqui jaz o Brasil.
Tirando as máscaras
Atualizadas, as historinhas ensejam ponderação sobre a realidade artificial (agora "computação espacial") formadora de cidadania e até sobre a corrosão do caráter que, entre nós, vem caracterizando a esfera pública. São funcionais as máscaras sociais construídas pelo tecnomercado, mas o preço é a neutralização dos "miolos", isto é, da autonomia de pensar e de discernir moralmente. Trocam-se fatos pelo mascaramento deslumbrante da tecnologia, em que verdade e mentira se equivalem automaticamente.
Com esse fundo, cabe perguntar como é possível que, num curto prazo, maiorias silenciosas tenham se convertido em irascíveis bolhas falantes nas redes sociais. Hipótese de Umberto Eco: "A internet deu voz aos imbecis". Na verdade, deu voz a todo mundo.
A comunicação eletrônica é revolucionária quanto à locução, mas com uma mediocridade reveladora do pior no humano. Sem autonomia elocutiva, confunde-se fala de papagaio com liberdade de expressão. A função mensageira, que as mitologias atribuíam aos anjos, parece hoje assumida pelo Psicopompo, mítico condutor dos mortos: a tecnologia desnorteada extermina o diálogo.
O que se entrevê de imediato nas redes deixa perceber que, não só meros instrumentos do homem, são objetos psiquicamente refletidos. Quer dizer, demandam, além de racionalidade funcional, sensações e sentimentos, presentes nas regiões da consciência e do subconsciente. Dão margem a certa descoberta de si mesmo. E a uma tosca interpretação de liberdade.
Descobrir-se implica desnudamento pessoal, da juventude ao amadurecimento. Mas nem todos vivem essa reinvenção de si mesmo, não amadurecem. É que na recomposição de imagens do corpo próprio, a máscara ("persona", em latim, daí personalidade), componente moral do caráter, modula-se dialeticamente: imbecil é o que não se descobre.
Mas, a rede, como objeto psiquicamente refletido, democratiza e acelera o processo, ao modo de um piloto automático de almas mortas. Tal é o êxtase do desnudamento digital: o imbecil exibe-se com descaramento, enquanto o deslumbre da tecnosfera o prende no loop de zeramento do caráter, na máscara sem miolos. Moralmente nu, abre-se à liberdade egóica de odiar, ofender, destruir. E, atraído pela sombra perdida de si mesmo, vota nos inomináveis, não por pacto deliberado com o mal, mas por colapso humano.

















