segunda-feira, 21 de junho de 2021

O Brasil no quintal da superclasse

Em 2008 o norte americano David Rothkopf, ex-subsecretário de Relações Internacionais do governo Bill Clinton, publicou seu provocador SuperClasse – A Elite que Influencia a Vida de Milhões de Pessoas ao Redor do Mundo.

Uma década depois, revisitá-lo no cenário do Brasil de 2021 registra a má notícia, para aqueles que consideramos ricos ou poderosos no noticiário nacional, que sua influência na cena internacional não para de cair.

Nossa elite está cada vez mais alijada dos ambientes de decisão mundiais. Alguns decaindo de coadjuvantes históricos para figurantes no teatro globalizado da geopolítica e dos negócios.


Riqueza, poder e influência em escala global são os ingredientes que constituem a superclasse. Entre esses três, a influência é a medida de maior peso. Trata-se de um clube restrito no qual só é aceito quem figura entre “aqueles capazes de determinar regularmente a vida de milhões de pessoas em muitos países ao redor do mundo”.

O termo superclasse não guarda juízo de valor em relação a seus membros. Apesar de se referir aos mil bilionários que concentram uma riqueza maior que o dobro dos 2,5 bilhões de seres mais pobres do mundo, muitos desses poderosos são responsáveis por realizações que tornam nossa vida mais segura e confortável.

Quando li SuperClasse pela primeira vez, chamaram-me a atenção as estatísticas, análises e narrativas acerca do grau crescente de desigualdade social, vinculado exatamente à capacidade de os super influentes afetarem o fluxo de riqueza por meio de seu acesso aos centros de decisão pelo mundo afora.

Relendo agora o livro, por algum motivo interessei-me mais pelos aspectos comportamentais da SuperClasse. Este grupo seleto de influencers globais, dos mais diversos países e origens, se relaciona internamente com muito mais naturalidade do que convivem com seus conterrâneos menos importantes na formação do PIB mundial.

Trafegam em super iates, helicópteros e jatos executivos com configurações palacianas. Frequentam regularmente restaurantes, leilões de arte, casas de festa e endereços residenciais que fariam corar de inveja os farialimers e de constrangimento o baronato da avenida Paulista.

Conversam em escritórios exclusivos no Fórum de Davos. Discutem reservadamente temas como mudança climática, terrorismo, cidades, pandemias, bioeconomia, desigualdade, tecnologia quântica, democracia, Amazônia, oceanos, filantropia, artes, energias renováveis, esportes, startups, inteligência artificial, geopolítica, segurança etc.

Rothkopf não se refere a empresários em geral, políticos, militares, artistas, acadêmicos, executivos, servidores públicos, líderes religiosos e dirigentes de Ongs que nos parecem importantes e poderosos, mas cuja influência é limitada no espaço, no tema e no tempo.

Como diz o ditado, “se você não está no seu projeto, está no projeto de alguém”. O Brasil ficou para trás. Na falta de um projeto próprio, mergulhamos de vez no projeto dos outros. Nossas elites ainda se contentam com influência local.

Enquanto Jeff Bezos decola rumo a Marte e o chinês Ma Huanteng acumula uma fortuna pessoal de US$ 57 bilhões com mídias de internet, brasileiros tentam passar boiadas típicas do século XVIII, planejando negócios com base no esgotamento do meio ambiente e no apadrinhamento do Estado.

O atraso se repete nos demais segmentos brasileiros seja no governo, empresas, defesa ou tecnologia. Não conseguindo lugar no salão nobre do clube exclusivo da superclasse global, a elite brasileira perde as vagas que ocupava até mesmo na sua cozinha.

Terceira via, salada de egos e um tomate para a neta

Todos aqueles que odeiam um duelo nas próximas eleições presidenciais entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva e buscam soluções novas e criativas para tirar o Brasil do inferno que está vivendo defendem uma candidatura chamada de “terceira via”. Alguém novo com novas ideias para refazer a convivência quebrada deste país. Ao mesmo tempo, até aqueles que defendem a possibilidade de uma terceira via parecem convencidos de que isso está se tornando cada vez mais difícil. Quando se pergunta o porquê dessa dificuldade, todos respondem da mesma forma: porque é uma salada de egos. Entre os cinco ou seis candidatos que já estão sendo considerados —alguns já estão descendo do trem e os que ainda podem ser acrescentados— nenhum parece capaz de competir com êxito.

Isso favoreceria Lula e Bolsonaro, os candidatos do duelo por serem também os mais conhecidos. Além disso, teria o ingrediente da torcida entre dois mitos. Ao lado deles, uma salada de egos teria pouco espaço. O Brasil é, de fato, um país com uma democracia jovem e não consolidada. É um país com mais de 50 milhões de pessoas na pobreza. Eleitores que mal ganham para comer e que buscam alguém que lhes faça, nem que seja por um curto período, o milagre de tornar a sua vida um pouco menos dura e sacrificada. Isso pode pesar mais que o resto das análises políticas e ideológicas. Sem falar que ainda se ouve dizer, principalmente de idosos, que na ditadura se vivia melhor.

Entre os que rejeitam Lula e Bolsonaro o fazem menos por motivos ideológicos do que pessoais, dizendo como eles e suas famílias enriqueceram. Pergunte às pessoas humildes, que no Brasil são maioria, as diferenças entre os políticos dos 35 partidos do Congresso.



Elas estão interessadas em seus problemas de subsistência, como pagar a luz ou o gás, ou como enfrentar a inflação. Dias atrás um trabalhador me pediu para explicar quanto é um milhão, porque ouvia na televisão que os políticos roubavam milhões e não conseguia entender quanto era. Expliquei-lhe dizendo quantos anos ele teria de trabalhar com seu salário-base para ganhar um milhão. Tudo isso? Não queria acreditar.

Como explicar a essas pessoas o que é a terceira via e quais são as vantagens da democracia? Se falo com elas sobre a liberdade de imprensa e de expressão, imediatamente me dizem que os jornais mentem. E se eu acrescento que Bolsonaro é um golpista que gostaria de fechar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso, me dizem que faz bem porque não servem para nada.


O que entendem de Bolsonaro é que deixou muita gente morrer ao rir da pandemia e não comprar a vacina a tempo, ou que sua família também é corrupta. E isso poderia custar-lhe a reeleição porque o quase meio milhão de mortes é uma dor que chega direto ao coração dos mais pobres que, além disso, são os que mais morrem. E sobre Lula dizem que ajudou os pobres, que puderam comprar eletrodomésticos e seus filhos foram estudar na universidade, mas também que se corrompeu.

Assim tão simples? Sim. Que não se iludam os que suspiram por uma terceira via para derrubar Bolsonaro ou Lula. Eles podem ser amados ou odiados, mas continuam sendo para a grande maioria dois Davis bíblicos capazes de ganhar batalhas.

Desprezar a sabedoria popular acumulada por duras experiências e desilusões políticas é o caminho para que até mesmo os maiores especialistas em política se equivoquem em suas análises. A realidade é aquela que está intimamente ligada à vida, ao de cada dia, àquele que sofre discriminação, violência, pobreza e desemprego. E são milhões.

Essas pessoas não sabem o que é um milhão, mas sabem melhor do que os ricos quanto vale uma passagem de metrô, um quilo de arroz ou um botijão de gás. Não sabem quanto vale a fruta porque dizem que é melhor nem olhá-la pois está muito cara. É um luxo. Dias atrás, uma trabalhadora me disse que de vez em quando compra “um tomate” para a neta de quatro anos, que é louca por eles. Compra um porque, diz, “estão muito caros”.

Para esses milhões de trabalhadores é mais importante poder continuar comprando um tomate para a neta do que as divagações sobre a terceira ou quarta via, se é que sabem o que é. Não seria mau que os candidatos conversassem mais com esses milhões de trabalhadores, mas depois de terem se informado a quanto estão os tomates, a passagem de ônibus ou a gasolina.

A democracia, como um conceito etéreo e pouco concreto, para esses milhões de brasileiros pode vir depois porque, em muitos aspectos, não sentem que tenham acesso a ela. Adianta reclamar de uma polícia violenta em seu bairro? Para muitos ricos, que têm toda a educação conceitual do mundo, deliberadamente não lhes importa quão democrata um candidato é porque só querem saber quem lhes traria mais dinheiro ou preservaria seus privilégios. No caso dos mais pobres, muitas vezes não lhes sobra tempo para pensar, apenas para sobreviver, eles e seus filhos. Eles têm outros problemas mais urgentes. Como não lhes dar razão?

Tente sempre ser feliz

Na minha juventude de movimento estudantil, Daniel Ortega era um jovem revolucionário da Nicarágua, país caribenho vítima da longa e cruel ditadura entreguista de Anastasio Somoza. Membro da Frente Sandinista de Libertação Nacional, Ortega era um de nossos heróis, guerreiros que lutavam pela libertação da América Latina. Como o mito histórico Augusto Cesar Sandino, morto nos anos 1930, na luta contra a ocupação americana da Nicarágua. Ou como Fidel Castro, cuja vitória da revolução cubana se dera no final da década de 50, num dia de Ano Novo que comemoramos nas ruas, triunfante Reveillon anti-colonial. Hoje, Daniel Ortega é o chefe de um governo de violência e crimes, que elimina seus adversários políticos ou impede que se manifestem, seja de que natureza for a oposição. Dos herdeiros de Violeta Chamorro, sua parceira contra Somoza, a combatentes sandinistas de esquerda.

Se nossos heróis do passado revolucionário fazem desse jeito, de que jeito vamos nós fazermos para permanecermos fiéis a nossas ideias? 
Talvez só a união, até mesmo dos contrários, garanta a sobrevivência de nossas ideias.

O mundo foi tomado por uma onda fascista que nem sei,eles se empenham em encerrar a liberdade, como um mel que adocica bocas, num pote de abelhas carnívoras.




Vamos fazer como fez Israel, se unindo contra um poder de 12 anos,exercido por falcatruas, sem consultas e com chicote nas mãos, nem que para isso misturemos par e ímpar na mesma mão.

Vamos tentar acreditar na doçura retroativa de Joe Biden, na confiança que nos dá sua vice linda, cheia de pureza esperta, na possibilidade, mesmo que longínqua, de ele estar dizendo a verdade e que a verdade hoje seja uma metafísica distinta dos axiomas literários que sempre defendemos, acima de tudo se escritos do cárcere ou na certeza do raciocínio dialético. O único que reconhecemos, porque lemos muito sobre tudoe é sobretudo o que mais se parece com o jeito humano original de pensar, sei lá desde quando, li isso em algum lugar de respeito.

Quero agora que meu país se pareça com um equilibrado e reto Canadá ou com a Nova Zelandia, onde não morreu quase ninguém de Covid 19, porque eles tomaram providências desde cedo, quando ainda não havia morrido ninguém. Ou quase ninguém, não sei.

Estamos sozinhos no mundo, nem velhos esquerdistas se defendem mais e,se defendem, escondem das multidões, ninguém quer virar gargalhada do resto.

Fecho os livros e a sabedoria deles arranco por enquanto da lembrança.

Vamos chamar os centristas e mesmo uma certa, fina e culta direita para defendermos com todos o direito de sermos livres e pensarmos do jeito que melhor acharmos por bem, como se nossas vozes fossem uma só, mesmo que tão dissonantes, porque o mundo será sempre um só, se livre.

Quando não tem mais saída, é preciso tentar sempre do que temos e está aí, para não sermos obrigados a fracassar sempre, por nada. “Tente”, me dizia sempre Lucy Barreto, minha querida, rigorosa e imaginosa produtora de “Bye Bye Brasil”, única a quem devo esse filme, que me fazia experimentar dentro do que havia a nosso alcance.

Tente. Tente sempre. Ao menos, ser menos sofredor. Tente sofrer menos para que a vida não lhe seja necessariamente  um desastre. Quem me lê, sabe o quanto já me decepcionei com Lula. Não acho que ele fosse de roubar, mas está na cara que fez que não via. Talvez não estivesse de acordo, mas deixou Dilma fazer toda a besteirada que fez. E, o que é pior, conhecendo a peça a escolheu para lhe suceder. Minha implicância se agravou com o discurso de ódio, logo que saiu da absurda prisão. Mas agora não. Desde que começou a visitar todo tipo de líder para discutir o Brasil e quem vai tomar conta dele, Lula tem se comportado como o líder que esperávamos, sabendo exigir o indispensável ou abrir mão de exigência tola. Dá até vontade de sorrir para a sucessão e que 22 chegue logo. 

Paisagem brasileira

 


Muito além de 500 mil mortes

Imagine se toda a população de uma cidade como Florianópolis desaparecesse em pouco mais de um ano. Segundo estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a capital de Santa Catarina tem 508 mil habitantes —pouco mais do que os 500 mil mortos por causa da covid-19 em todo o país em 15 meses.

O Brasil é o segundo país a ultrapassar a marca de meio milhão de mortes —os Estados Unidos alcançaram este número em fevereiro. A contagem impressiona (veja mais abaixo).

Em meio ao luto —hoje, são cerca de 2 mil mortes por dia, em média—, nosso país também enfrenta os efeitos colaterais da pandemia do coronavírus, como o aprofundamento da desigualdade social.

Nunca tantos brasileiros estiveram na extrema pobreza —de acordo com o Ministério da Cidadania, 14,5 milhões de famílias estão em situação de miséria (com renda per capita de até R$ 89 mensais). Há ainda 2,8 milhões de famílias vivendo em pobreza (com renda entre R$ 90 e R$ 178 per capita mensais).

Com 14,8 milhões de pessoas sem trabalho, a taxa de desemprego bateu recorde e os mais afetados foram os mais pobres.

Mesmo com a criação de novas vagas e com o aumento do PIB, a renda média domiciliar caiu 10%, na comparação entre os primeiros trimestres de 2021 e 2020. Foi o quarto trimestre seguido de queda.

Para o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, o começo deste ano pode ser considerado "o pior ponto da crise social".

As vítimas da covid no Brasil são, segundo a Central de Informações do Registro Civil (Arpen):

* 56% homens e 44% mulheres

* 50,3% brancos; 28,4% pardos; 6,5% pretos; 0,9% amarelos; 0,2% indígenas (e 13,7% de raça ignorada)

* 70,4 % com idade entre 60 e 90 anos; 27,9%, entre 30 e 59 anos; 1,7% com menos de 29 anos

Por causa da vacinação, algumas mudanças começaram a ocorrer nestes registros —no começo deste mês, pela primeira vez, as mortes de pessoas com menos de 60 anos por covid superaram a de idosos.

Mas a pandemia nunca atingiu da mesma forma os diferentes grupos sociais. Os primeiros casos no Brasil foram de pacientes que viajaram para o exterior. Rapidamente, a doença se espalhou também entre os mais pobres.

Em junho do ano passado, a mortalidade de internados por covid em UTIs de hospitais públicos era o dobro da registrada nas unidades privadas (38,5% contra 19,5%). Hoje, a taxa é de 53,7% nas UTIs públicas e 30,2% nas particulares. Para a sanitarista Bernadete Perez, números como esses mostram o "abismo" entre as classes sociais no que se refere ao acesso a serviços de saúde.

No dia a dia do trabalho, a vulnerabilidade das classes mais baixas também é exposta. Enquanto muitos escritórios adotaram o home office e os funcionários podem trabalhar de casa, profissionais com remuneração mais baixa, mas que exercem atividades essenciais, como motoristas de ônibus e caixas de supermercado, permaneceram trabalhando fora e não entraram nos grupos prioritários de vacinação.

A pandemia impactou as pessoas em maior situação de vulnerabilidade, como a população em situação de rua, que teve maior exposição e menor capacidade de proteção. Eles têm menor acesso à testagem, a serviços, a leitos de UTI e menor possibilidade de proteção individual e coletiva.

Bernadete Perez, sanitarista e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva

Rachadinha da morte

O presidente Bolsonaro idealizou a sua mais ousada e infame rachadinha: dividir o país entre cloroquina e vacina. A rachadinha do negacionismo é a aposta que gerou resultado: meio milhão de mortos. Até agora
Renan Calheiros, (MDB-AL), senador relator da CPI da Covid

Nossos 500 mil

Você se lembra se em algum momento da sua vida você usou a expressão "500 mil" para alguma coisa. Quando foi que meio milhão fez algum sentido na sua vida? (Se é que um dia isso aconteceu).

Um número tão grande quanto abstrato...

500 mil. 500 vezes mil, 5 mil vezes 100, 50 mil vezes dez, 500 mil vezes um.

E aí, chegamos ao átomo da questão. Por 500 mil vezes, uma pessoa morreu. Um indivíduo, como eu e você. Um ser humano que tinha sua própria historia, sua própria forma de estar no mundo, sua família, seus amores e dissabores.

Muitos dirão que pessoas morrem todos os dias, no mundo inteiro. E essa é a mais pura verdade. Na realidade, a morte é a única certeza que todos nós temos, e ainda que seja possível morrer de formas distintas – a depender da crença, da cor da pele e da situação sócio-econômica da pessoa em jogo –, é possível afirmar que na humanidade nada é mais democrático do que a morte, mesmo ela sendo tão plural.


No Brasil, 2020 foi o ano mais letal dos últimos tempos. Um pouco mais de 1,4 milhão de pessoas morreram, muitas delas de doenças já conhecidas, como as cardíacas, o câncer, as doenças respiratórias, o derrame cerebral, o diabetes.

Mas os números mostram que no ano de 2020 houve um crescimento de 8,6% nas mortes no Brasil. Percentual este que tem nome e sobrenome: covid-19. Quando ainda tínhamos um pouco menos de 200 mil mortos, a pandemia do novo Coronavírus foi responsável não só por compor o ano de maior letalidade no Brasil, mas também por aumentar significativamente o percentual de mortes de um ano para outro.

Até então, a média do crescimento do número de mortes girava em torno de 1,8%. Esse percentual mais do que quadruplicou. Uma característica que deve se agravar neste ano, já que entre janeiro e abril de 2021, a covid matou mais gente do que no ano anterior – que vale repetir, foi o de maior mortandade em terras brasileiras.

E na sua conta própria, a covid ceifou 500 mil vidas no Brasil. Uma história que ainda não acabou. E, o pior, que está longe de acabar. 500 mil vidas que foram interrompidas na decisão desesperada de ficar em casa; no vazio gelado das UTIs; no medo da solidão; no olhar exausto e repleto de compaixão de médicos e enfermeiros; no peito arfando, pedindo ar, pedindo sopro, pedindo vida. 500 mil mortes. 500 mil pessoas. Mas nem na pandemia, o morrer deixa de ser plural. O vírus é o mesmo, mas mata de formas diferentes.

O que torna esses 500 mil ainda mais dilacerantes é o fato de que, mesmo se tratando de uma pandemia, um percentual desse número não precisava existir. Muitos desses 500 mil deveriam ter sido vacinados; outros tantos poderiam não ter contraído o vírus, caso tivessem condições de ficar em casa, ou consciência da importância do isolamento social, do uso da máscara, da ineficácia de tratamentos precoces. E tais constatações fazem com que tenhamos que encarar os fatos: esses 500 mil são nossos.

Esse meio milhão de pessoas mortas pela covid-19 são espelho do que é o Brasil. Não só porque são brasileiros mortos. Mas porque são brasileiros que morreram de covid no Brasil, neste Brasil. Não estamos diante apenas de uma tragédia: estamos enfrentando nossa história e nossas escolhas da pior maneira possível. E, infelizmente, mantemos esse nosso "jeitinho apaziguador" de transformar o horror em estatística.

Porém, como a própria palavra diz, a pandemia é algo que afeta "todo o povo" – essa, inclusive, é a origem grega do termo. As 500 mil pessoal mortas deixaram saudade em quantos outros milhões de pessoas? Quantas mães sem filhos? Quantos filhos sem pais? Quantas irmandades se perderam? Quantos avós se foram? E o peso disso tudo? Como continuar vivendo e acreditando num país em que 500 mil pessoas morreram numa pandemia, de uma doença para qual já existe vacina eficaz e cientificamente comprovada? Como lidar com as 500 mil mortes sabendo que serão muitas mais, ao mesmo tempo que poderiam ser tantas menos?

Uma característica que marca a existência da espécie humana é o enterramento de seus mortos. O ato em si, e toda a liturgia que o acompanha, toda a memória que ele carrega da vida que foi, do ciclo que se completa. No Brasil, a pandemia nos roubou até isso: a dignidade, a humanidade de nossas mortes. Foram despedidas caladas, atravessadas e sobrepostas por mais e mais mortes. Precisamos chorá-las, precisamos carpi-las. Por um bom tempo.

500 mil vidas. 500 mil mortes. 500 mil covas, muitas delas rasas. Afinal, qual o tamanho do nosso buraco?

Silêncio de Bolsonaro sobre os mortos por Covid-19 destoa de discursos históricos

“De todos os talentos concedidos aos homens, nenhum é tão precioso como a graça da oratória. Quem dela desfruta possui um poder mais duradouro do que o de um grande rei” – relembrada por livros como “Discursos que Mudaram a História”, a célebre pensada de Winston Churchill, primeiro-ministro britânico e líder no combate ao nazismo durante a Segunda Guerra, ecoou por toda a segunda metade do século 20 e determinou a forma como alguns presidentes passaram a se expressar em público, especialmente diante de tragédias. Incluindo-se líderes brasileiros.

Mas isso aconteceu até Bolsonaro chegar ao poder, porque que até a noite deste domingo ele ainda não se manifestara sobre os mais de 500 mil mortos por Covid-19 no país.

O silêncio do presidente da República diante desta marca —número levantado pelo consórcio de imprensa e não reconhecido oficialmente pelas autoridades do governo federal— causa forte ruído inclusive ao ser comparado com tragédias de proporções menores que comoveram o país.

Abaixo, leia o que disseram governantes que estavam no poder quando o país assistiu a quedas de aviões e incêndios, entre outras fortes lembranças de acontecimentos marcados pela morte em massa e a tristeza decorrente sentida não só pelos entes, mas por toda a população

INCÊNDIO DO CIRCO, MAIS DE 500 MORTES (1961)

“Meu deus, que tragédia, que tragédia. Não é possível. Vi o espetáculo mais triste da minha vida”, João Goulart.

QUEDA DE AVIÃO DA TAM EM SP, 99 MORTOS (1996)

“O que é importante é expressar que, realmente, todos nós, todos mesmo, sem exceção, nos sentimos constrangidos e irmanados com o sofrimento dos familiares e pensando naqueles que se foram”, Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

ACIDENTE EM CONGONHAS, COM 199 MORTOS (2007)

“Sei que nada é igual ao sofrimento das famílias que perderam seus entes queridos no acidente. Mas quero dizer que sentimos suas perdes como se fossem nossas”, Lula da Silva (PT).

INCÊNDIO NA BOATE KISS, TEVE 242 MORTOS (2013)

“Nesse momento de tristeza, nós estamos juntos, necessariamente, e iremos superar, mantendo a tristeza”, Dilma Rousseff (PT).

ROMPIMENTO DE BARRAGEM EM MARIANA (2015)

“A ação irresponsável de empresas provocou o maior desastre ambiental na história do Brasil na grande bacia hidrográfica do rio Doce”, Dilma Rousseff (PT).

ACIDENTE COM A CHAPECOENSE, 71 MORTOS (2016)

“Eu quero, mais uma vez, lamentar o infausto acontecimento que gerou o falecimento de uma equipe de futebol e vários que a acompanhavam. Para nós, é um fato tristíssimo e a única coisa que podíamos fazer era tomar providências para dar apoio às famílias que se enlutaram neste momento”, Michel Temer (MDB).l

Como a pandemia piorou (ainda mais) a vida dos escravizados no Brasil

Quando participou da abertura da Expozebu 2021, no Primeiro de Maio, Jair Bolsonaro (sem partido) declarou: "O homem do campo é um forte, não parou na pandemia". O presidente estava certo. Parte deles não podia parar. Literalmente.

Também em maio, mês do trabalhador, mês dos 133 anos da Lei Áurea, uma operação resgatou 71 pessoas da escravidão contemporânea de uma fazenda de café, em Vila Valério, no Espírito Santo. Dessas, 65 estavam trabalhando mesmo contaminadas com a covid-19: apresentavam sintomas sem que fossem isoladas ou recebessem assistência por parte do empregador.

No momento em que o Brasil chega ao marco das 500 mil mortes em decorrência da covid-19, ainda não é possível mensurar o impacto da pandemia sobre a escravidão contemporânea.

 Casas destruídas em reintegração de posse na zona norte de SP

Se, por um lado, o tráfico de pessoas que alimenta a exploração se beneficia da vulnerabilidade social e econômica — que cresceu em todo o mundo durante os últimos 18 meses —, por outros a escravidão está diretamente relacionada ao aumento da demanda por mão de obra, ou seja, ao crescimento econômico — afetado pela pandemia.

Mas a continuidade da agropecuária, aquecida pela necessidade básica de alimentação e pelo recente boom de commodities, manteve a demanda por força de trabalho em determinadas atividades.

Da mesma forma, a construção civil também foi considerada atividade essencial e não parou. Esses setores estão entre os principais utilizadores desse tipo de mão de obra no país.

Isso significa que o trabalho de auditores fiscais, procuradores do Trabalho e da República, policiais federais e rodoviários federais, defensores públicos, entre outros envolvidos nos Grupos de Fiscalização Móvel que, desde 1995, verificam denuncias e resgatam pessoas, continuou sendo solicitado.

De acordo com o auditor fiscal do trabalho Rodrigo Carvalho, coordenador da operação que resgatou os 71 no café, o grupo havia sido aliciado no Vale do Jequitinhonha, região pobre do norte de Minas Gerais, sob promessas de boa remuneração e boas condições.

Já no local, viram que receberiam bem menos que o prometido, além de terem sido submetidos a longas jornadas e encararem descontos ilegais de transporte e alimentação. A situação de endividamento acabou configurando servidão por dívida.

Não foi o único caso de libertações e covid-19. Por exemplo, um trabalhador com a doença foi resgatado da escravidão no plantio de cana-de-açúcar nos municípios de Guará e Ituverava (SP) em abril. De acordo com os auditores fiscais que participaram da ação, ele relatou que teve febre, dores no corpo, tosse, chegando ao ponto de apresentar dificuldade para andar. Também não contou com assistência médica do patrão.

Junto com ele, foram 22 libertados em uma operação iniciada no dia 9 de abril. O grupo, que havia sido "vendido" de um empregador para outro, também foi vítima de tráfico de seres humanos, passava fome e tinha que fazer suas necessidades fisiológicas no mato.

Os trabalhadores foram aliciados em Vitória do Mearim, no Maranhão, mediante falsas promessas, como a garantia de salários de até R$ 4.200 por mês, alojamentos dignos e boas condições de serviço. Contudo, chegando ao local, verificaram que a realidade era bem diferente.

O auxílio emergencial, conforme aprovado pelo Congresso Nacional no primeiro semestre de 2020, contribuiu para manter pessoas longe da rede de tráfico para o trabalho escravo. Contudo, a sua diminuição de R$ 600/R$ 1.200 mensais para R$ 300/R$ 600 e, depois, sua interrupção em 31 de dezembro, permitiram o aumento da vulnerabilidade de famílias e, com isso, a escravização.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais importante organização da sociedade civil que atua no acolhimento de escravizados, critica o valor pago da nova etapa do auxílio emergencial (R$ 150, R$ 250 ou R$ 375 por domicílio), o que, segundo eles, não garante tranquilidade para grupos vulneráveis.

"Muitos trabalhadores gostariam de ficar em casa para se proteger da pandemia, mas não têm como. Eles têm que sair buscando qualquer serviço. Com esse auxílio mixaria que foi oferecido, não tem como sustentar a família", afirma o frei Xavier Plassat, coordenador da campanha de combate à escravidão da CPT.

O trabalho escravo no Brasil se adapta continuamente desde 13 de maio de 1888. Também se adaptou à pandemia. A ponto de o auxílio emergencial ser usado para permitir que empregadores não paguem o salário de escravizados.

Duas crianças de nove e dez anos e uma adolescente de 13 anos foram encontradas, junto dos pais, em condições análogas às de escravo em uma fazenda de café e eucalipto em Minas Novas (MG), região do Vale do Jequitinhonha, em fevereiro deste ano. De acordo com a fiscalização, eles passaram fome e a situação só não foi pior porque, na falta de salário, conseguiram receber o benefício.

De acordo Hélio Ferreira Magalhães, auditor fiscal do trabalho responsável pela ação, o empregador havia prometido um salário mínimo por mês ao trabalhador, mas ele recebeu entre R$ 300 e R$ 600 nos meses em que ganhou algo. Às vezes, vinha apenas uma "feira" de alimentos. A esposa e os três filhos nada recebiam.

Com a chegada da pandemia, caiu a frequência de visitas do empregador e, não raro, ficavam sem dinheiro ou alimento. Segundo a fiscalização, a família se manteve porque conseguiu acesso ao auxílio emergencial.

"Sem isso, eles teriam passado fome direto", avalia o auditor. Isso foi possível porque o patrão nunca assinou sua carteira de trabalho.

Com a interrupção do pagamento do benefício, em dezembro, a fome voltou a rondar a casa. No momento da fiscalização, havia um pouco de arroz, macarrão, sal e feijão e açúcar misturado a pó de café. Questionado sobre a razão dessa mistura, o trabalhador explicou que era para evitar que as crianças comessem o açúcar. Elas iam atrás do produto porque estavam com fome.

A relação entre o desmatamento ilegal e o trabalho escravo é bem documentado e tem sido objeto de amplas pesquisas, mostrando um duplo crime. Atividades ilegais não se importam com regras sanitárias, pelo contrário, aproveitam-se das dificuldades de fiscalização impostas pela pandemia (e das dificuldades de fiscalização impostas pelo próprio Ministério do Meio Ambiente) para florescerem.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento da Amazônia aumentou 67% em maio em relação ao mesmo mês do ano passado. Nos primeiros cinco meses de 2020, o desmatamento subiu 25% em comparação ao ano anterior: foram 2.548 quilômetros quadrados destruídos.

Não foi, portanto, surpresa auditores fiscais do trabalho e policiais federais terem resgatado 12 escravizados em atividades de derrubada da floresta amazônica às margens do rio Guariba, em Novo Aripuanã, no Amazonas, também no mês de maio.

"Havia um trabalhador ferido com corte profundo na mão em razão de acidente na frente de trabalho, sem nenhuma assistência do empregador", afirmou a auditora fiscal, Adriana Figueira, coordenadora da operação.

O grupo estava em condições degradantes, com alojamento precário, coberto com lona plástica, sem instalações sanitárias. O "gato", como é chamado o contratador de mão de obra a serviço do patrão, foi preso durante a operação por conta do aliciamento.

Dois dos resgatados, segundo os auditores fiscais, nunca tiveram nem certidão de nascimento, ou seja, não existiam para o Estado brasileiro.

Os grupos de fiscalização móvel, responsáveis por verificar denúncias e libertar trabalhadores, completaram 26 anos em maio. Eles chegaram a paralisar as atividades entre março e julho do ano passado para evitar disseminação do vírus devido ao deslocamento.

Porém, as operações continuaram através das superintendências nos estados. A fiscalização trabalhista acabou sendo considerada pelo decreto 10.282/2020 uma das atividades essenciais durante a crise da covid-19.

Enquanto os servidores públicos continuaram a cumprir seu papel, o presidente aproveitou o Primeiro de Maio para atacar uma emenda constitucional criada, em 2014, para combater o trabalho escravo contemporâneo.

Ela prevê o confisco de imóveis rurais e urbanos flagrados com esse tipo de crime. Jair Bolsonaro votou a favor da emenda quando era deputado federal em 2004.

"Quando o momento se fizer oportuno, melhor, juntamente com a [ministra da Agricultura] Tereza Cristina, que está do meu lado aqui, nós devemos sim rever a emenda constitucional 81, de 2014, que tornou vulnerável a questão da propriedade privada. É uma emenda que não foi regulamentada e com toda certeza não será regulamentada em nosso governo. Nós precisamos alterar isso que foi feito em 2014, tornando vulnerável a questão da propriedade privada", afirmou em um pronunciamento, em vídeo, para empresários do agronegócio.

Ele não conseguiria revogar, pelo menos não neste governo, a emenda. A promulgação da PEC do Trabalho Escravo, que deu origem à emenda constitucional, em 2014, repercutiu em todo o mundo como um sinal de que o Brasil não tolera escravidão contemporânea. O seu discurso foi visto, portanto, como um aceno a uma parte de sua base.

O presidente já havia afirmado, em live na noite de 12 de novembro do ano passado, que, enquanto deputado federal, votou contra o confisco de propriedades rurais e urbanas de quem utilizou trabalho escravo. Mas os registros da Câmara dos Deputados mostram que ele votou a favor da proposta no primeiro turno, em 2004, e estava ausente no segundo, em 2012.

Mesmo sem a regulamentação, o Ministério Público do Trabalho já vem pedindo sua aplicação em casos como de empresas de vestuário no Estado de São Paulo mesmo sem a regulamentação.

Tomoya Obokata, relator especial das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão, afirmou à 45ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU que, combinado com redes de segurança fracas e um desmantelamento dos direitos trabalhistas e regulamentos de proteção social em alguns países, existe um risco agudo de que os mais pobres sejam empurrados para formas contemporâneas de escravidão.

"Os países podem ver o desmantelamento dos direitos trabalhistas como uma solução rápida à luz da crescente pressão sobre as empresas como consequência da recessão econômica global", disse Obokata. "No longo prazo, no entanto, esses mesmos Estados pagarão um alto preço por remover a proteção e a dignidade das pessoas no trabalho."

Para o Ministério Público do Trabalho, é exatamente isso o que está acontecendo.

De acordo com o procurador Italvar Medina, vice-coordenador da área responsável pelo enfrentamento ao trabalho escravo do MPT, o governo federal e setores do Congresso aproveitaram o momento para reduzir proteções e direitos dos trabalhadores.

"No início da pandemia, sob o pretexto de prever medidas trabalhistas para enfrentá-la, o governo criou a inconstitucional Medida Provisória 927, que trazia precarização das relações de trabalho e reduções de direitos que poderiam levar ao empobrecimento dos trabalhadores", explica Medina.

Ele destaca a suspensão temporária de normas de saúde e segurança do trabalhador, a tentativa de afastar a possibilidade de considerar covid-19 como doença profissional e entraves à fiscalização. Em julho de 2020, a MP caducou.

Entre os projetos de lei com impactos diretos sobre o trabalho escravo, o que traz risco mais eminente, segundo o procurador, é o PL 3.097/2020.

O PL busca alterar as regras de parcerias agrícolas, retirando o caráter obrigatório das contrapartidas do proprietário da terra com relação ao trabalhador parceiro, como fornecimento de moradia digna. O MPT divulgou nota, em 10 de junho, pedindo ao Congresso que rejeite a proposta por considera-la uma ameaça à política pública de erradicação do trabalho escravo.

O projeto permite cobranças e descontos inclusive de equipamentos de proteção. De acordo com o procurador, também deve submeter trabalhadores a dívidas crescentes em troca de serviços que hoje o dono da terra é obrigado a fornecer no contrato de parceria.

"Na prática, uma pessoa poderá usar o trabalho de outra entregando em troca apenas a permissão de usar sua terra para morar e plantar cultura de subsistência. Isso é uma servidão medieval", avalia Italvar Medina. Para ele, sua aprovação seria a legitimação da escravidão contemporânea no campo.

A Lei Áurea aboliu a escravidão formal, o que significou que o Estado brasileiro não mais reconhece que alguém seja dono de outra pessoa. Persistiram, contudo, situações que transformam pessoas em instrumentos descartáveis de trabalho, negando a elas sua liberdade e dignidade.

Desde a década de 1940, o Código Penal Brasileiro prevê a punição a esse crime. A essas formas dá-se o nome de trabalho escravo contemporâneo, escravidão contemporânea, condições análogas às de escravo.

Uma análise dos dados de fiscalização do governo federal entre 1995 e hoje aponta que há muito mais negros entre os mais de 56 mil trabalhadores libertados da escravidão contemporânea do que sua proporção na sociedade, dada à vulnerabilidade histórica desse grupo.

Os descendentes daqueles trabalhadores escravizados do final do século 19 continuam a apresentar indicadores sociais e econômicos muito abaixo dos brancos. Por exemplo, recebem menos pela mesma função de acordo com dados da ONU e do IBGE.

Ao mesmo tempo, os negros são a maioria dos mortos por covid-19 no país numa proporção maior que sua participação na população.

A questão não é genética, mas de falta de saneamento básico, insegurança alimentar, dificuldade de acesso à assistência médica, o que torna essa população mais vulnerável, pois a pobreza tem cor. Aliás, a pandemia, ao demonstrar letalidade maior entre negros e pobres, torna-se aliada da estatística de violência policial em cidades como o Rio de Janeiro.

Um estudo da Vital Strategies com a Afro-Cebrap apontou que houve um excesso de 11,5% de mortes entre os brancos, considerando o que seria esperado para 2020, enquanto o de negros foi de 25,1%.

A mesma vulnerabilidade que leva ao trabalho escravo também facilita a morte por covid-19. O que não é coincidência, mas mostra a robustez de nossa concentração de renda e desigualdade social.

domingo, 20 de junho de 2021

Crimes em série

Não importa se é para (re)inaugurar um viaduto já entregue no ano passado, como ocorreu em Alagoas, ou uma ponte de madeira em uma estrada de terra do Amazonas, que custou infinitamente menos do que se gastou para chegar lá. O vale tudo eleitoral do presidente Jair Bolsonaro começou no primeiro dia de mandato e se acelera na proporção da queda de sua popularidade. E sem qualquer contestação sobre a autopromoção, proibida pela Constituição, e a flagrante campanha extemporânea, cuja regulação precisa deixar de ser tão troncha.

O artigo 36 da Lei 9.504/97, que impede a propaganda antecipada, foi sendo afrouxado ao longo dos anos, chegando-se a um entendimento bambo de que a única proibição seria a de “pedir voto”. Um absurdo que fere a premissa que inspirou a lei: a isonomia entre os pretendentes. Especialmente se um deles é presidente da República, tem o aparato público à sua mercê e seus deslocamentos custeados pelos impostos dos cidadãos.

Bolsonaro não é o primeiro a transformar o cargo em palanque. Muitos o fizeram e ainda o fazem nos estados e prefeituras. Lula praticamente não desceu dele nos oito anos de Presidência. Dilma, mesmo tendo embocadura frágil, tentou o mesmo. Mas ambos parecem aprendizes diante dos abusos do capitão.


A desculpa, não raro esfarrapada, é da participação em eventos de interesse público. Mas não há o que justifique mobilizar equipe precursora e aparato de segurança para ir, por exemplo, a um culto evangélico em Anápolis. Muito menos para as motocadas de fim de semana no Rio de Janeiro e em São Paulo que, somadas, custaram R$ 1,7 milhão aos cofres públicos, só para garantir a segurança do presidente.

Em nome do quê? Pode o presidente do país, que em tese preside a todos, se dedicar a eventos exclusivos para seus apoiadores, recheados de bandeiras alusivas a 2022 e com palanque “improvisado” ao final?

No caso das motociatas, cuja motivação é escancaradamente eleitoral – só o comandante do Exército fingiu não ver ao aceitar as desculpas do ex-ministro Eduardo Pazuello de que não era evento político porque o presidente não tem partido -, Bolsonaro teve o cuidado de não incluí-las em sua agenda oficial. Mas os custos foram pagos pelo país, a maior parte por fluminenses e paulistas. Mais: fotos e mentiras das motocadas – a maior do mundo, Guinness e outras baboseiras do gênero – foram inseridas em canais do presidente nas redes sociais.

Na sexta-feira, o abuso alcançou mais uma vez a instituição Presidência da República, com a distribuição oficial de fotos em que Bolsonaro, durante evento em Marabá, mostra ao público uma camiseta alusiva a 2022, afrontando o princípio da impessoalidade previsto na Constituição. A peça de campanha foi entregue a ele pelo presidente da Caixa, Pedro Guimarães, como mimo de um grupo de apoiadores.

Durante a pandemia, de março de 2020 para cá, as viagens de Bolsonaro custaram R$ 18,4 milhões, R$ 16,6 milhões em agendas com aglomerações, muitas delas encomendadas, com ônibus levando “apoiadores” para as recepções. Neste ano, ele visitou 29 cidades, com peso no Norte e Nordeste, regiões que quer conquistar. Nos palanques, repete a ladainha contra o lockdown que na verdade nunca existiu no Brasil, empenhando-se na luta contra o distanciamento social e o uso de máscara, pregando a cloroquina. Em tom efusivo, ergue o braço e fecha o punho, agradece a Deus e, em pausa ensaiada, espera os gritos de “mito”. Campanha ilegal praticada semanalmente. E impune.

Uma impunidade que pode custar caro à democracia. Não só pela vantagem diante de outros pretendentes, mas pela diabólica mensagem que tem repetido contra a legitimidade das eleições, colocando em dúvida a credibilidade das urnas eletrônicas que há 25 anos funcionam no país – inclusive para elegê-lo. Sem apresentar provas que ele diz ter mas nunca mostrou, insiste na tese de fraude. Pior: instado pelo presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, a apresentar qualquer indício, ficou mudo. Mas a direção da Polícia Federal, na qual Bolsonaro finalmente conseguiu intervir, rapidamente se ajoelhou, disparando comunicados para as 27 regionais na tentativa enlouquecida de dar lastro às acusações inconsequentes e criminosas do chefe.

Nos palanques de Bolsonaro veem-se crimes em série: o incentivo a práticas em favor do vírus que já matou mais de meio milhão de brasileiros, o uso do cargo para autopromoção, a ilegalidade da campanha antecipada e a insistente agressão à lisura das urnas. Urge impedi-lo.

Pensamento do Dia

 


O recado dos mortos

Quantos milhares de mortos mais teremos que enterrar antes que nos convençamos de que um governo que, por incúria ou projeto, deixou morrer mais de 500 mil pessoas, não pode continuar tendo o comando do país em meio a essa verdadeira guerra que estamos perdendo por falta de comando ?. Em pouco mais de um ano, o Brasil perdeu para a COVID-19 o equivalente ao número de vidas que perde para violência a cada dez anos, um dos nossos maiores problemas sociais.

Somos também o segundo país, atrás só do Peru, com maior número de mortes por milhão entre os com população acima de dez milhões de habitantes, o que tira da classificação distorções por questão de escala. Mas corremos o risco de passar o numero de mortos dos Estados Unidos, que tem uma população maior.

Um gráfico com base nos dados do Our World in Data mostra que a vacinação começou em 15 de dezembro de 2020 em países como Israel, Canadá, Rússia e China. O Brasil só começou a vacinar quando Estados Unidos e China já tinham vacinado cerca de 30 milhões de doses cada um, Reino Unido já alcançava 10 milhões e Israel e Índia chegavam a cerca de 5 milhões de doses.


O Brasil aparece no dia 1º de fevereiro com cerca de 2 milhões de doses, logo abaixo de Rússia e Alemanha. No dia 14 de junho, o Brasil já surge nas estatísticas em quarto lugar, com perto de 79 milhões de doses, atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Mas esse número representa apenas cerca de 11% da população vacinada, menos que o Reino Unidos (45%), Estados Unidos (45%), Chile (48%) e República Dominicana (20%).

A CPI da Covid-19, apesar de excessos em alguns momentos e de uma certa desorganização nos interrogatórios, está conseguindo montar um quebra-cabeças que revela um quadro aterrador. Todos os 14 nomes incluídos na lista de investigados da CPI da COVID recentemente, depois de depoimentos pífios, mentiram muito, esconderam deliberadamente ações internas do ministério da Saúde, como o “gabinete paralelo”, as decisões para forçar a imunidade de rebanho e de atrasar a compra das vacinas, a insistência no tratamento precoce com cloroquina e outros medicamentos, mesmo depois que a polêmica sobre suas validades no combate à pandemia foi encerrada por declaração oficial da Organização Mundial da Saúde.

Mas, para os bolsonaristas, todos os organismos internacionais são dominados por comunistas, e a orientação da OMS não tem valor, pois a soberania do país deve prevalecer sobre as regras gerais. A política de governo, contra o distanciamento social, contra o uso de máscara, contra a vacinação em massa, matou mais do que o número de mortes inevitáveis pela pandemia.

Enquanto o presidente Bolsonaro, irresponsavelmente, chancela um estudo paralelo desqualificado em termos científicos que apontava para uma superestimação do número de mortes, estudos acadêmicos apontam em outra direção. Haveria, na realidade, uma subnotificação de mortes, que pode chegar a 20%. Esse é um caso exemplar de improbidade administrativa. Essas decisões conjuntas representam um erro de avaliação, ou uma política criminosa ?

É uma definição que a CPI pode ajudar a dar. Se um governo tem projeto de combate a uma pandemia que vai contra todas as recomendações dos órgãos oficiais, desde a OMS até organizações cientificas internas e externas, não é um simples erro. É um projeto político, uma atitude criminosa. As autoridades tinham todas as informações e sabiam o que poderia acontecer.

Pode-se dizer que não é um crime doloso, com a intenção de matar, mas pode ser enquadrado como dolo eventual, que é aquele em que o autor conhece o risco, e mesmo assim age temerariamente. Ou, no mínimo, crime culposo. Que houve crime, já não há dúvida.

O caminho para a abertura do processo de impeachment é amplo, as mais de 500 mil mortes exigem ações urgentes, e as ruas estão advertindo o presidente da Câmara, Arthur Lira, de que não há mais tempo a ganhar à espera de uma melhora econômica, que não recuperará nossos mortos.

Solução para a fome não é dar lixo aos pobres

Em 2017, o então prefeito da cidade de São Paulo, João Doria Jr, chegou a suscitar mudar o regime de alimentação escolar das crianças paulistas que naquele período comiam alimentos orgânicos, boa parte proveniente de produção agroecológica, da agricultura familiar, para o oferecer a Farinata, um lixo superprocessado, sem nutrientes vivos, que mais lembrava ração de cachorro.

Quatro anos depois, em plena pandemia, quando já morrera mais de 500 mil pessoas neste país, a população brasileira é obrigada a ouvir dos dois principais ministros deste governo genocida, Paulo Guedes e Tereza Cristina, que a solução pra fome no Brasil é mudar os critérios de vencimento dos alimentos nas prateleiras. Onde vamos parar?

Primeiro é importante ressaltar que alimento de prateleira é aquele que já possui um nível inferior de nutrientes, muitos deles produzidos com as commodities do agronegócio num processo intenso de industrialização, que praticamente elimina a energia vital do que vem da terra. A população precisa mesmo é de alimento saudável, de gôndola de feira, nutritivo, natural e que tenha sido produzido sem as exorbitantes quantidades de agrotóxicos que o agronegócio, em consórcio com as grandes transnacionais enfiam no nosso prato de comida sem nenhuma vergonha.

Recentemente o IDEC (Instituto de Defesa do Consumidor), em pesquisa, apontou a existência de glifosato nos alimento superprocessados das prateleiras. Ou seja, além de serem ricos em açúcar, sal e carboidratos simples, ainda possuem resíduo de um veneno que é relacionado a carcinogenidade no mundo inteiro, responsável pela crise da Monsanto que está tendo que pagar bilhões de dólares aos usuários que adoeceram em diversos lugares do mundo. Vejam que ironia: nesse ínterim, a Monsanto foi comprada pela Bayer, enquanto uma adoece, a outra oferece o “remédio”. É a promiscuidade da indústria química no Brasil brincando com a saúde e com a vida dos brasileiros!

O nosso país já vive uma pandemia grave de saúde por conta de hábitos alimentares mal estimulados pela grande indústria. Se retirou o alimento fresco pra inserir o superprocessado, muito por conta da falta de tempo das famílias em relação ao preparo das refeições. Vivemos a geração do fast-food, a mesma com diversas comorbidades crônicas, como a pressão alta, diabetes, baixa imunidade, isso pra não citar os casos mais graves. Os superprocessados não são alimentos, são fórmulas alimentares, que imitam sabores reais com aditivos, como conservantes e corantes que impregnam no nosso corpo afetando nossa saúde a médio e longo prazo.

É preciso dizer que a saída pra enfrentar a fome não é oferecer lixo vencido aos brasileiros. A saída é vacinar a população contra o vírus, tirar esse governo genocida feito de lobistas, retomar a democracia e taxar os agrotóxicos, que são os responsáveis pelas externalidades ambientais tão graves que estamos vivendo. É preciso criar fundos para a agroecologia e dar condições do povo se alimentar com comida fresquinha, produzida na roça, em circuitos curtos de produção, relembrar os aromas e sabores da nossa cultura alimentar, estimulando a agricultura familiar a produzir alimentos saudáveis.

A agroecologia é forma de se produzir alimentos em consonância com a sustentabilidade ambiental. Através do consórcio de árvores com espécies agrícolas, como leguminosas, hortaliças, frutíferas e até animais, é possível reconfigurar o sistema agrícola e a paisagem, preservando também os bens comuns da natureza, como a água, equacionando a questão climática.

Porém, só se faz agroecologia com terra partilhada, não é possível fazer agroecologia em grandes extensões de terras concentradas, com monocultura. A pauta da Reforma Agrária nunca foi tão necessária como nos tempos de hoje. A fome que está assolando o país nos grandes centros urbanos pode ser revertida com a massificação da agricultura periurbanas, dando oportunidade ao próprio povo plantar, se alimentar por suas próprias mãos e reconfigurar a economia com desenvolvimento local.
 Carla Bueno

‘Isto tem que acabar’

Lee Bollinger é o mais longevo presidente da centenária Universidade Columbia, em Nova York, fundada muito antes de os Estados Unidos terem um 4 de Julho para comemorar a Independência. Ocupante do cargo há duas décadas, Bollinger, que não é de falar abobrinha, define assim a função da instituição: “Uma universidade não consegue sobreviver numa sociedade que não leva a sério os elementos básicos da vida cívica — o respeito à verdade, o respeito à razão como meio de busca da verdade e o compromisso com o princípio fundamental da igualdade humana”. Se substituirmos “universidade” por “país” ou “imprensa independente”, a frase também vale.

Steve Bannon, o trevoso conselheiro do ex-presidente Donald Trump e inspiração para a extrema-direita mundial, baseou sua estratégia na identificação do inimigo a bater — não a oposição democrata, que Bannon desdenhava e considerava peso leve. “A verdadeira oposição é a mídia. E a melhor forma de lidar com ela é inundá-la de merda”, sustentava o guru, em citação tirada do livro “Hoax” (embuste), do jornalista Brian Stelter.

Nos Estados Unidos de Trump, a tática deu certo até a 25ª hora de seus quatro anos na Casa Branca. Cada nova afirmação deliberadamente falsa do presidente obrigava a mídia a correr atrás, apontar a desinformação, retificá-la às pressas, fazer do jornalismo um cansativo exercício de fact-checking que, por sua vez, adquiria vida própria, também manipulável. Fatos e decência se tornaram divisores ideológicos, partidários, destruíram ou deixaram destruir a confiança nas Cortes e na ciência, nas eleições e nas instituições. Até hoje, passados sete meses desde o pleito de 2020, 75% dos eleitores republicanos acreditam na versão trumpista de fraude eleitoral.


O aprendiz Trump fez escola ao usar e abusar da mídia. E esta demorou a reagir, movida em parte por um convencional respeito e deferência ao chefe da nação democraticamente eleito. Acordou tarde e raivosa por ter se deixado insultar — tinha virado alvo de escárnio oficial e agressões de apoiadores trumpistas. Foi somente em novembro de 2020 que grandes emissoras de TV dos EUA (com exceção da Fox) ousaram interromper a transmissão de um discurso em que Trump lançava acusações infundadas contra o processo eleitoral. Decidiram, assim, não mais transmitir informações falsas capazes de colocar em risco as instituições do país. Só mais recentemente, e pelo mesmo motivo, Twitter e Facebook cancelaram a conta do hoje cidadão, mas sempre conspirador, Donald Trump.

No Brasil de Bolsonaro, o início não foi diferente. Basta lembrar o humilhante papel a que repórteres foram expostos diariamente no “cercadinho” do Palácio da Alvorada, por ordem de seus chefes. Recebiam insultos a rodo do presidente e aguentavam a chacota de bolsonaristas participantes. Tudo com transmissão ao vivo e retransmissões infinitas à guisa de jornalismo testemunhal. Não era jornalismo. Foi um erro de avaliação das chefias quanto à eficácia manipuladora do capitão. Só não foi fatal porque a imprensa se recalibrou. Graças ao jornalismo investigativo, seja de grandes jornais, TVs, mídias ou redes independentes, a terraplenagem de fatos e a disseminação de mentiras do governo encontram barreiras, conseguem ser esmiuçadas, apuradas e contraditas.

Ainda assim, não há imprensa livre, em país algum do mundo, capaz de impedir que um presidente eleito faça um convite público de risco à vida. Em sua live semanal das quintas-feiras, Bolsonaro dirigiu-se a esta nação-cemitério de mais de 500 mil mortos por Covid-19 nos seguintes termos: “Todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina, porque você pegou o vírus pra valer. Quem pegou o vírus está imunizado, não se discute”.

Discute-se, sim, em qualquer nação democrática, o comportamento criminoso de um presidente, e não apenas pela imprensa. É das instituições nacionais e da sociedade, das ruas e da vontade de existir que precisa brotar o basta à insânia presidencial. Como diz o vice-presidente da CPI da Covid, senador Randolfe Rodrigues, “isto tem que acabar”.

Para tanto, convém não contar com a neutralidade das Forças Armadas. Ainda nesta semana, mais um oficial da ativa achou oportuno dar pitaco público. Em entrevista a Rafael Moraes Moura, na revista Veja, o general Luis Carlos Gomes Mattos, presidente do Superior Tribunal Militar, não apenas defendeu o presidente: “É um democrata. Tomou todas as providências cabíveis [contra a pandemia]”. Também afirmou que a oposição ao governo “está esticando demais a corda”. E argumentou, entre outros disparates, que “o povo brasileiro tem de saber votar”.

Pitaco por pitaco, melhor ouvir Mark Twain: “Seres humanos são o tipo de espécie que nasceu sem saber evitar sua extinção”. Temos, em solo brasileiro, vários desses espécimes.

O mundo enfrenta uma peste; o Brasil, duas

Meio milhão de brasileiros morreram de covid-19. É como se a população de Florianópolis tivesse sido dizimada. Isso faz do Brasil um dos dez países com a maior taxa de mortalidade do mundo, ou seja, o número de mortes em proporção ao tamanho da população. E a mortandade ainda não terminou. Atualmente, uma média de 2 mil pessoas são vítimas do vírus todos os dias. A sociedade brasileira se habituou um pouco à morte e à violência: entre 40 mil e 50 mil pessoas são assassinadas aqui todos os anos, e entre 30 mil e 40 mil morrem no trânsito.

Mas meio milhão de mortes de covid-19 em apenas pouco mais de um ano deveria levar à reflexão. Especialmente porque o verdadeiro número de mortos é provavelmente maior do que isso. O Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME), sediado em Seattle, acredita que existe uma significativa subnotificação de mortes por covid-19 no Brasil. Os cientistas estimam que mais de 600 mil brasileiros podem ter morrido do vírus.

Culpar apenas o governo Jair Bolsonaro por isso seria simplista. Muitos brasileiros aproveitaram todas as oportunidades para desafiar as regras pandêmicas mais simples: o uso de máscara, o distanciamento social, evitar aglomerações, especialmente em locais fechados. Festas eram recorrentes, assim como praias, bares e restaurantes lotados.


Ao mesmo tempo, é impossível não responsabilizar o governo pelo desastre no Brasil. Com uma gestão pandêmica desastrosa, ele não é apenas culpado por inúmeras mortes de covid-19, mas também pelo fato de que a pandemia simplesmente não vai acabar.

É importante lembrar, neste momento, o absurdo e desumano espetáculo que Bolsonaro deu ao longo do curso da pandemia. Ele negou, xingou, semeou dúvidas, sabotou. Ele chamou a covid-19 de "gripezinha"; instou as pessoas a resistir às ações dos governadores; até hoje ele promove a hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz contra a doença; repetidamente gerou aglomerações sem usar máscara; recusou a entrega antecipada de vacinas; depois espalhou dúvidas sobre a eficácia das vacinas; agora ele afirma que o número de mortes foi inflado. Após 15 meses da pandemia, é difícil pensar em alguém que teria levado o Brasil a um patamar pior.

É claro que se pode discutir se a esquerda ou a direita tem melhores propostas de soluções para os desafios do Brasil. O que é inquestionável é que o governo deve ser liderado por alguém que leve o povo a sério e tente evitar danos a ele. Mas a única coisa que Bolsonaro leva a sério é ele mesmo. A única coisa que ele protege são os interesses de seu clã familiar. A pandemia, por outro lado, ele não só não conseguiu conter – ele ativamente agiu para acelerá-la. É por isso que é correto que uma CPI esteja atualmente lançando luz sobre o que aconteceu dentro do governo. Já está claro que a gestão da pandemia por Bolsonaro tem características criminosas. Rejeitou a perícia científica e promoveu a ineficaz hidroxicloroquina, que pode causar graves efeitos colaterais.

Quem conhece o presidente sabe que ele não encontrará frases apropriadas sobre as 500 mil mortes por covid-19. Ele não vai achar uma única palavra sincera de simpatia, arrependimento ou compaixão. Se falar, seu discurso provavelmente servirá para propagar mentiras e meias verdades. Como a que ele levou a pandemia a sério desde o início; ou que foi o seu governo que levou vacinas aos brasileiros. Também é possível que Bolsonaro afirme que sempre queria manter a economia brasileira funcionando. Mas, para isso, ele tinha que ter combatido a pandemia, em vez de estendê-la sem parar.

Dizem que é nas crises que se revela a verdadeira grandeza de uma pessoa ou de um governo.

Mais de sete em cada dez brasileiros conhecem agora alguém que morreu de covid-19. Era impossível evitar que pessoas morressem do vírus. As condições econômicas e sociais, especialmente dos pobres, eram propensas à propagação do vírus, e a estrutura deficitária dos hospitais públicos fez aumentar a letalidade, ou seja, o número de mortos em relação aos infectados.

Mas o fato de meio milhão de pessoas já terem sido enterradas e de o Brasil não só enfrentar uma possível terceira onda, mas também correr o risco de produzir novas variantes do vírus, deve-se a um governo que não serve a ninguém, senão a si mesmo.

sábado, 19 de junho de 2021

Pensamento do Dia

 


Atração pelo abismo

“Durante anos, puseram-se a fitar a superfície do mar. Aí, resolveram atirar-se à sua última ousadia: ir aos confins do mundo, para ver o abismo. Partiram em viagem, num barco muito pequeno. Entendiam como um sinal de esperança o fato de as aves marinhas seguirem o barco até mar alto” Werner Herzog

Dias atrás (9/6), o presidente argentino, Alberto Fernández, causou revolta ao afirmar: “Os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas nós, os argentinos, chegamos em barcos”. Essa declaração foi feita em entrevista ao lado do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

Em sua inoportuna e disparatada comparação, ao afirmar que seu povo veio para a América do Sul “em barcos”, o presidente argentino omitiu um detalhe importante. Esqueceu-se de que a Argentina se destaca no mundo inteiro como o país que durante décadas e décadas mais cedeu a atração fatal do retrocesso. A atração pelo abismo. Tendo praticamente chegado ao Primeiro Mundo, fez questão de regredir ao subdesenvolvimento. Não sob a pressão de algum fator externo, como uma guerra, ou de alguma catástrofe natural, mas movido apenas por seus desacertos domésticos, regrediu e acomodou-se à pobreza comum em nosso triste Hemisfério.

Mas abstenha-se o roto de rir do esfarrapado. Também no Brasil a atração pelo abismo existe e se manifesta de forma notavelmente sistemática. Temos consciência de nossa estagnação, mas tudo indica que não queremos sair dela.

Nosso desempenho no combate à covid-19 é bem menos que mediano. Tratada com indiferença nas primeiras semanas, a “gripezinha” já ceifou cerca de 500 mil vidas. Temos alguns bons laboratórios e um excelente serviço de atendimento – o SUS –, mas sem os insumos que o resto do mundo relutantemente nos fornece o que eles podem fazer é pouco. Pior ainda é o bate-boca diário entre as autoridades governamentais – encabeçadas pelo sr. Jair Bolsonaro – e os agentes de saúde – médicos, enfermeiros e outros – que se expõem diretamente aos riscos dessa terrível emergência.

No âmbito das elites, públicas e privadas, querelas rigorosamente desprovidas de conteúdo sucedem-se dia após dia, levando o cidadão comum a supor que são apenas uma ópera-bufa concebida para ocultar a apropriação do público pelo privado. Falar de corrupção é chover no molhado. A verdade nua e crua é que os integrantes da atual geração política parecem ignorar a urgência das tarefas que lhes são afeitas, a missão que juraram cumprir e até os elementos litúrgicos que lhes incumbe observar. Na hora atual, o que mais vemos é a esgrima pré-eleitoral, a mais de um ano da data prevista para o pleito.


A incapacidade de sustentar políticas econômicas racionais remonta, no mínimo, ao ciclo militar, notadamente ao “crescimento em marcha forçada” projetado pelo governo do general Ernesto Geisel. A única exceção a fazer é a contenção da inflação, levada a cabo pelos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Comentar os seis anos da sra. Dilma Rousseff é perda de tempo. Na área educacional, a insensibilidade que sucessivos governos têm demonstrado beira o inexplicável. No atual governo, é cabível duvidar se o presidente da República já escolheu um ministro para a pasta. Acrescento, por dever de ofício, que nosso sistema político – em particular o sistema partidário - já de há muito adentrou o escorregadio terreno da galhofa. Assim, o que nos resta é exaltar nossa posição como “uma das maiores economias do mundo”, um biombo para o retrocesso.

Infelizmente, depois da comédia geralmente vem a tragicomédia, que por sua vez costuma anteceder a tragédia. A imprensa não se cansa de falar em golpe, e não é por falta de assunto. No que se refere às Forças Armadas, temos a segurança do artigo 142, que as define como “instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina”, tendo como destinação “a defesa da Pátria, a garantia dos poderes constitucionais e da lei e da ordem”. Mesmo assim, vez por outra surgem motivos de preocupação. O número de oficiais da ativa recrutados pelo presidente Jair Bolsonaro para funções na administração não tem precedente em nossa História. Pior ainda, vimos outro dia o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, participar de uma bizarra demonstração política ao lado do presidente da República. Episódio, convenhamos, só aceitável nas mais infelizes republiquetas deste Hemisfério.

As aparências podem enganar, mas nem sempre enganam. Cá da planície, tentando entender o que se passa em Brasília, o que muitos leigos julgam enxergar é um negaceio entre o sr. Bolsonaro e o Exército, ambos se movendo taticamente no ringue, cada um esperando a hora de assestar um golpe decisivo. O leigo não tem culpa, porque, na verdade, todos os golpes se parecem. Começam com arruaças, evoluem (ou involuem) para a convulsão social e, cedo ou tarde, desembocam na violência. E os atores do drama, como sói acontecer, consolados, contemplam as aves marinhas que os acompanham até mar alto.

500 mil mortos: o Brasil vai acordar?

Jair Bolsonaro promove o caos no País. Não há dia sem que ele não faça alguma ação que leva à desorganização de alguma peça na estrutura do Estado ou na relação entre os Poderes ou, ainda, jogando incerteza na população. É um bombardeio ininterrupto desde o início do seu desgoverno e que se acentuou com a pandemia. A tensão passou a fazer parte do nosso dia a dia, como se fosse algo natural, e não uma ação planejada de uma mente doentia.

O Brasil está chegando ao limite da tolerância. Como não temos uma tradição histórica de enfrentamento político, há uma tendência de suportar o insuportável. Sempre é encontrada alguma justificativa para explicar uma situação inexplicável. Diferentemente de outras crises, a de 2020-2021 (2022 também?) tem um componente adicional – e que componente! -, a pandemia do coronavírus. É o teste definitivo da paciência do cidadão, algo para entrar na galeria da tipologia da definição do que é ser brasileiro.


Em alguns momentos da história do Brasil, a passividade foi atribuída às benesses econômicas. O bolso com algum dinheiro justificava o desinteresse pela política. Em outras, era imputada à nossa formação histórica e a “culpa” era atribuída à herança ibérica. Também, na busca incessante de explicação, o ufanismo sistematizado pelo Conde de Afonso Celso identificava na fusão das raças a nossa peculiar formação.

Temos uma enorme dificuldade de entender (e ter) o sentimento de coletividade. Pode ser que o temor de ruptura e a busca de conciliação em momento de crise política tenham levado à constituição de uma sociedade civil peculiar. Como tudo pode ser acordado, não há necessidade da afirmação de eventuais antagonismos, que poderiam conduzir a uma formação social que tivesse em diferentes visões de mundo pontos de explicação (e não de justificação para a inércia política) e de ações na construção da cidadania.

Em diversos momentos da nossa história isto foi relevado a plano secundário. Foi possível – a um alto custo para a consolidação da democracia – buscar uma saída indolor, que preservasse na nova situação boa parte da antiga ordem. E a vida seguia. Agora vivemos uma situação agônica. Não é possível encontrar uma alternativa conciliatória. Jair Bolsonaro levou ao limite do esgarçamento institucional e, principalmente, da paciência nacional. Meio milhão de mortos deve fazer o Brasil acordar.

Os crimes estão aí

Chamou a atenção o forte aplauso da plateia quando o presidente Bolsonaro disse que o “tal de Queiroga” estava preparando um parecer para dispensar o uso da máscara para vacinados e pessoas que já tiveram a Covid.

O aplauso denunciou o que o presidente e sua turma pensam da máscara: um símbolo de fraqueza, frouxidão e de oposição ao seu governo. Por pouco Bolsonaro não atirou no chão a máscara que não usava.

Radicalizou de novo. Ciência deixada de lado – o que não é novidade – a situação se encaminha para um conflito social e nas ruas: bolsonaristas não usam máscara; quem usar, pois, é inimigo.

Exagero?

Seguramente não. O presidente ostensivamente aglomera sem máscara. E reclama quando encontra algum seguidor com a máscara.


Comete crime duas vezes. Primeiro, porque ele mesmo pode infectar os que estão por perto. Já se sabe que as pessoas podem pegar a doença mais de uma vez. O fato de Bolsonaro já ter adoecido não o torna imune. E segundo, porque incita as pessoas a saírem por aí infectando outras. Também se sabe que vacinados podem pegar formas leves da Covid, tornando-se, nesse momento, fonte de transmissão do vírus.

Também nesta semana ficamos sabendo de outra grave irregularidade cometida pelo presidente. Documentos obtidos pela CPI mostram que Bolsonaro telefonou ao premier da Índia, Narendra Modi, para solicitar a liberação de cargas de insumos de cloroquina para duas empresas, a EMS e a Apsen.

Não sei se é crime, os juristas dirão, mas o presidente não pode usar de seu cargo para atender interesses particulares de empresas. Tem mais: o presidente de uma das empresas, Renato Spallicci, da Apsen, é seguidor de Bolsonaro desde antes de 2018.

Tudo errado. Inclusive a primeira declaração da Apsen, feita na quinta-feira, quando a história foi divulgada na CPI. Em nota, a empresa jurou que não tinha nada a ver com o presidente, que atuava no mercado e tal.

Já contei aqui aquele ensinamento da psicanálise. Quando uma pessoa, sem ser perguntada, nega veementemente ter feito algo, pode cravar: é falso.

Mais ainda: o presidente está em campanha direto. Aliás, parece que não gosta muito de trabalhar, não parece? Viaja toda hora. Está inaugurando até bica de água, como se diz na velha política.

Verdade que às vezes dá azar: sem ter nada a fazer ali, resolveu entrar em um avião da Azul que estava estacionado no aeroporto de Vitória. Pretendia apenas cumprimentar os passageiros. Tomou vaia.

A questão é: quem vai colocar o guizo no gato?

Como o presidente aparelhou órgãos policiais e de investigação – estão sendo processados os investigadores – sobra a CPI. E esta vai bem.

Na semana que se encerra, a Comissão passou dos depoimentos mediáticos – mas com alguns bem reveladores – para a fase de análise dos documentos sigilosos, já devidamente vazados.

Também determinou a quebra do sigilo telefônico e telemático de diversas autoridades, membros e ex-membros do governo Bolsonaro. Por essa via, se verá como foram tomadas as decisões de atrasar a compra das vacinas, de inventar o tratamento precoce, de tentar a imunidade de rebanho. Terá sido um programa organizado?

É muito provável que nessas quebras de sigilo apareçam diálogos com o presidente. E se ele, em público, fala o que fala, imaginem em privado. Lembram-se daquela reunião ministerial que era para ficar em segredo?

Tudo considerado, parece que já temos crimes bem definidos. O que falta à CPI, seu próximo trabalho, é ouvir os juristas para saber como tipificar os delitos. Isso vai para o relatório final e daí para as autoridades que podem agir, legalmente, bem entendido, contra o presidente.

O clima político vai esquentar. A recuperação desigual da economia pode amortecer alguma coisa, mas não tudo isso que vai aparecendo.

A ver.