segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A reeleição e a arte de tocar a vida sobre a morte

“Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, disse o presidente Jair Bolsonaro, depois de mencionar as quase 100 mil mortes confirmadas até a noite de quinta-feira. Além de agredir o idioma com aquele pronome “se”, ele voltou a exibir uma caixinha de cloroquina e culpou governadores e prefeitos pelo aumento do desemprego. Não especulou sobre quantas pessoas mais teriam morrido se tivesse havido menor empenho no distanciamento social. Disse lamentar as mortes e talvez alguém tenha acreditado nisso. “Tocar a vida”, no caso de Bolsonaro, significa retomar a atividade sem levar em conta o risco sanitário. Durante mais de um ano ele havia ignorado o mau estado da economia, deixando o assunto para seu “posto Ipiranga”. Terá havido uma súbita iluminação, talvez causada por algum vírus ainda desconhecido?

Cuidar da vida significa também cuidar da reeleição. Mortos são excluídos do colégio eleitoral, pelo menos quando a lei prevalece. “Não sou coveiro”, respondeu o presidente ao ser confrontado, numa entrevista, com a mortandade causada pela pandemia. “Empatia”, palavra muito repetida nos últimos meses, parece continuar fora do vocabulário presidencial. Não faltou atenção, no entanto, a negócios e votos.

Políticas emergenciais foram implantadas em dezenas de países, nos últimos meses, para atenuar os efeitos da pandemia. Centenas de bilhões de dólares foram rapidamente canalizados no mundo rico para ações de saúde, apoio às empresas, defesa do emprego e socorro aos pobres. Planos mais modestos foram adotados nas economias emergentes e em desenvolvimento.

Nem os países mais pobres ficaram sem proteção. O Fundo Monetário Internacional (FMI) mobilizou cerca de 1 trilhão de dólares para ajuda. Em pouco tempo foram aprovados desembolsos para cerca de uma centena de países. Parte desses empréstimos provavelmente nunca será quitada, mas isso é parte do jogo. Em todos os casos a ajuda foi vinculada a ações de saúde e de sustentação econômica.


As medidas aplicadas no Brasil são parecidas, em pontos essenciais, com aquelas encontradas em muitos outros países. De modo geral, houve estímulos ao crédito e aumento do gasto público. Esse aumento foi combinado, em alguns casos, com alívio temporário de impostos. Um levantamento dessas políticas foi divulgado há semanas pela OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

A maioria das pessoas, no Brasil e provavelmente em muitos outros países, desconhece esses fatos. Ignora, da mesma forma, o sentido econômico do auxílio emergencial. Essa ajuda é vital para as famílias, obviamente, mas é também muito importante para as empresas, pequenas, médias e grandes, produtoras e distribuidoras de bens essenciais.

A estratégia econômica torna-se interpretável por milhões de pessoas como ato de bondade. Isso facilita faturar politicamente, como se fosse um gesto humanitário, um ato explicável pela mais prosaica racionalidade econômica. Repetido por alguns meses, um auxílio de R$ 600 pode converter-se em fonte de gratidão e de votos. Erros cometidos no combate à doença – e até agravados pelo desprezo à vida de milhares – tornam-se irrelevantes ou invisíveis. Lucra, portanto, quem se ocupa prioritariamente da reeleição em 2022.

Muitos talvez nem tenham percebido os erros e as falhas de liderança, embora possam ter ocasionado a morte de pessoas próximas. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, onde os programas de ajuda emergencial foram muito amplos, erros no combate à pandemia saíram menos baratos para os chefes de governo. Serão menos dotados de gratidão os europeus e americanos?

Especialmente notável, no caso brasileiro, é o repentino interesse do presidente pela economia e pela sorte dos trabalhadores. Esse interesse, nunca manifestado nos primeiros 14 ou 15 meses de mandato, só apareceu depois de reconhecida a presença do novo coronavírus.

Em 2019 a economia cresceu 1,1%, menos que em qualquer dos dois anos anteriores, mas o assunto jamais pareceu preocupar o presidente da República. No trimestre móvel encerrado em fevereiro os desempregados eram 11,6% da força de trabalho, mais que o dobro da média da OCDE, e a aparente indiferença permaneceu. Ainda em fevereiro, a produção industrial, embora 0,5% maior que a do mês anterior, continuou 0,4% inferior à de um ano antes e 16,6% abaixo do recorde de maio de 2011, no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

A crise industrial vem de longe e se agravou nos últimos oito anos, mas permanece invisível na agenda presidencial e na da equipe econômica. Não se resolverá esta crise com a mera redução de encargos sobre a folha de salários e com a eliminação de direitos trabalhistas, bandeiras do ministro da Economia. Sem cuidar de temas essenciais para a prosperidade do País, o presidente, centrado em objetivos pessoais, pressiona pela retomada imediata dos negócios, mesmo com o risco de mais mortes. Na sua contabilidade, esse deve ser um preço razoável pela reeleição. O lema é tocar a vida sobre os mortos.

Fúnebre marcha dos 100 mil

Desde o início da quarentena escrevo um diário. Nele, apesar da pressa, incorreções e algumas bobagens, analiso os fatos desses meses de coronavírus.

Não sinto tanta necessidade de escrever sobre isto, mais do que faço diariamente. Mas, no momento em que alcançamos a marca de 100 mil mortos, é importante dizer algo fora dos limites. O número redondo lembra-me dos anos 60, quando marchávamos orgulhosamente contra o governo militar.

Os 100 mil de hoje representam também um protesto, só que desta vez contra o descaso e retumbante fracasso de nossa política nacional contra a Covid-19.

O ideal seria sairmos às ruas, os sobreviventes, para protestar por eles. A natureza da pandemia nos obrigou a uma quarentena. Escrevi no diário algumas vezes como isso não apenas entorpeceu nossos músculos, mas mudou a maneira como nos vemos.

O país se transformou num imenso centro espírita, e nós baixamos nos computadores para sessões de conversa que chamamos de lives, mas poderiam também ser chamadas de deads.



Parece que muitos de nós vivem numa parte mal iluminada da eternidade, aparecemos para a conversa, desligamos o aparelho e evaporamos. Não se acaba mais em pizza como antigamente, quer dizer, num descontraído jantar após a reunião, o debate ou conferência.

Leio no livro de Churchill que os piores momentos de nossa vida são aqueles que não aconteceram, aqueles que nos mantiveram preocupados, levaram nosso sono e nunca se apresentaram de fato em nossas vidas.

Isso corresponde ao que diz um personagem de Borges diante da morte: é menos duro enfrentar um perigo do que imaginá-lo e aguardá-lo durante muito tempo.

A Covid-19, nesse sentido, é a pior doença que nunca tive. Certamente há outras mais graves e devastadoras, mas nunca perdi um minuto preocupado com elas.

Os índios no Amapá a consideram uma espécie de doença espiritual, por causa da invisibilidade do vírus. Mas nem por isso deixam de temê-la.

Desde o princípio, luta-se contra a negação do governo. Era apenas uma gripezinha e afirmávamos que, ao contrário, era uma perigosa pandemia. Surgiram os mortos, e o governo achou que seu número estava superdimensionado, diante de todas as evidências de que havia subnotificacão.

Um dos luminares do governo calculou que morreram apenas 800 pessoas e continuou duvidando dos fatos, mesmo quando os mortos já eram 80 mil.

Duvidaram dos caixões, que para eles estavam vazios ou cheios de pedras. Duvidaram do número de covas, vetaram uma dezena de artigos na lei de proteção aos povos indígenas.

Seguimos fazendo lives como ectoplasmas que reaparecem no território virtual para puxar a perna dos vivos que, sem máscara, montados a cavalo, celebravam seu escandaloso idílio com a morte. E daí?

Os tribunais de dentro e de fora do Brasil terão material por muito tempo. A suposição de que essas coisas acontecem e são esquecidas é falsa. Uma política de negação que produziu milhares de mortos, índios, grávidas, é algo que ficará na história e acabará desabando sobre seus autores, por mais velhos e combalidos que estejam no momento em que forem alcançados.

Vivemos num país de curandeiros. Bolsonaro passa seus dias mostrando a cloroquina para todos os seres humanos e animais que encontra pela frente. O ministro da Ciência e Tecnologia gasta 8 milhões para pesquisar um vermífugo chamado Annita, e até audiências foram anunciadas para discutir o poder do alho cru.

E se você perde a paciência, elegância, e pergunta: e naquele lugar, não vai nada? Eles responderão com tranquilidade:

— Algumas doses de ozônio e um cateter bem fino.

Aos poucos vamos saindo da toca, meio ressabiados, contentes em ver quem sobreviveu. Mas a maneira como tratamos a pandemia, as condições de desigualdade em que a vivemos, uns com água e esgoto, outros não, uns com casa confortável, outros espremidos nos barracos, tudo isso coloca em questão o próprio sentido da sobrevivência.

Apesar da solidariedade, do desprendimento dos trabalhadores em saúde, a resposta brasileira à pandemia nos convida a repensar o país.

E responder em conjunto a essa fúnebre marcha dos 100 mil.

Vegetarianos não praticantes

Jonathan Safran Foer escreveu dois dos romances mais inteligentes, surpreendentes e divertidos que li nos últimos anos: “Tudo se ilumina” (Rocco, 2002) e “Extremamente alto e incrivelmente perto” (Rocco, 2005). Depois disso, publicou um livro de não ficção, “Comer animais” (Rocco, 2009), sobre a crueldade da indústria alimentar e as virtudes do vegetarianismo. Recentemente, surgiu no Brasil mais um título de Jonathan: “Nós somos o clima — Salvar o planeta começa no café da manhã” (Rocco, 2020), no qual o escritor americano regressa à sua obsessão preferida: a comida. A tese de Jonathan é de que o mundo tal como o conhecemos está à beira do colapso devido ao aquecimento global, e de que esta tragédia tem sobretudo a ver com a agroindústria.

Sem surpresa, há diversas referências ao Brasil e a Jair Bolsonaro. Jonathan lembra que Bolsonaro fez campanha por um plano para explorar extensões anteriormente protegidas da Amazônia, acrescentando que tal política libertará 13,2 gigatoneladas de carbono, mais do que o dobro das emissões totais dos Estados Unidos. O agronegócio é responsável, segundo Jonathan, por 91% da destruição da Amazônia.


Para o romancista americano, bastaria deixarmos de comer carne e produtos lácteos ao almoço e café da manhã para impedir uma catástrofe maior. Jonathan, portanto, não está a exigir à Humanidade que se converta ao vegetarianismo puro e duro. Pede apenas uma redução no consumo de carne. Não me parece um sacrifício insuportável — é apenas uma questão de bom senso.

Estudei agronomia e silvicultura no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, há mais de 30 anos. Lembro-me de um professor que já nessa época defendia teses semelhantes às de Jonathan, demonstrando, através de cálculos muito simples, o absurdo energético que representa a criação de gado bovino. Também ele achava que a pecuária industrial iria destruir o planeta. Desde essa época que simpatizo com os ideais vegetarianos, embora, como Jonathan, não esteja disposto a abandonar por completo o consumo de carne. Sou, digamos assim, um vegetariano não praticante. 

O livro de Jonathan, além de discutir questões urgentes, tem o mérito adicional de ser escrito por um excepcional romancista. As pequenas histórias que servem a Jonathan para reforçar as suas ideias, são preciosas peças literárias que, só por si, já justificariam a compra do livro.

A causa vegetariana tem no romancista sul-africano J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, outro apaixonado defensor. Coetzee chegou a criar uma personagem, a escritora australiana Elizabeth Costello, que aparece pela primeira vez no romance “A Vida dos animais” (1999), e depois em “Elizabeth Costello” (2002), a qual percorre o mundo palestrando contra a crueldade dos homens para com os outros animais. Costello é uma vegetariana radical, mas com mais sentido de humor do que Coetzee, e isso salva-a. Não sendo os títulos mais interessantes do escritor sul-africano são, ainda assim, bastante bons e, de certa forma, completam os dois ensaios de Jonathan.

O livro de Jonathan, além de discutir questões urgentes, tem o mérito adicional de ser escrito por um excepcional romancista. As pequenas histórias que servem a Jonathan para reforçar as suas ideias, são preciosas peças literárias que, só por si, já justificariam a compra do livro.

A causa vegetariana tem no romancista sul-africano J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, outro apaixonado defensor. Coetzee chegou a criar uma personagem, a escritora australiana Elizabeth Costello, que aparece pela primeira vez no romance “A Vida dos animais” (1999), e depois em “Elizabeth Costello” (2002), a qual percorre o mundo palestrando contra a crueldade dos homens para com os outros animais. Costello é uma vegetariana radical, mas com mais sentido de humor do que Coetzee, e isso salva-a. Não sendo os títulos mais interessantes do escritor sul-africano são, ainda assim, bastante bons e, de certa forma, completam os dois ensaios de Jonathan.

Gosto de escritores com causas. Um escritor sem causas não produz literatura, mas entretenimento. Nada contra o entretenimento. Mas nos dias que correm precisamos mesmo é de literatura. 
José Eduardo Agualusa"

Pra frente, Brasil...

 

A nova direita

Nasce e começa a ganhar volume no Brasil a nova direita, uma das estacas do bolsonarismo. O que vem a ser essa tendência, quem a integra e qual a possibilidade de se transformar em força decisiva no arco partidário? Para começar, este país não é seu principal habitat. É o nome de um partido criado em 1918 em Israel, expande-se pela Europa e finca raízes nos Estados Unidos e na América Latina, incorporando fenômenos como autoritarismo, nacionalismo, conservadorismo, populismo e xenofobia, principais eixos de sua identidade.

Por aqui, é diferente da direita clássica que amparou o golpe de 64, apesar de agregar remanescentes, porém sem se comprometer com golpes ou ditadura militar. Há quem pense nisso, mas a nova direita se espelha no conservadorismo, com traços de populismo e autoritarismo. Poderia ser adotada tanto por um ex-integrante das Forças Armadas – Jair Bolsonaro – como por um civil. O importante é o que, não o quem.



Nos Estados Unidos e na Europa, agrupa a defesa nacionalista de produtores rurais e outros segmentos que se sentem prejudicados pela invasão de “alienígenas”, outros centros mundiais de produção barata, como a China, imigrantes que desformam culturas locais com sua forma de pensar e de viver. Nos EUA, o conservador Donald Trump assumiu o ideário. Na Europa, alguns países se retraem ante o fracasso de governantes de esquerda e os efeitos deletérios da globalização.

Na Hungria, Victor Orban ameaça com uma cerca de arame farpado para evitá-los. A islamofobia ganha corpo a partir dos conflitos do Oriente Médio. Na Alemanha, três partidos nazifascistas se formaram. A crise econômica mundial aponta para essa direita, como se fosse o caminho adequado. Ao mesmo tempo, desenvolve-se o ideário da alternância de poder, oxigênio para vitaminar regimes.

No Brasil observamos uma insatisfação desde o topo da pirâmide social até as margens, que ainda elegem governantes segundo o custo/benefício. No meio, estão contingentes que exigem mudança, saturados da carga de impostos, dos serviços precários, da corrupção deslavada, do dinheiro para alguns e escassez para os demais. A nova direita conta ainda com a adesão de micros e pequenos produtores, comerciantes e prestadores de serviço oprimidos por tributos e burocracia.

Representantes da velha direita, saudosos do autoritarismo, encontram no capitão uma janela. Grande parcela prefere a defesa da ordem, da disciplina, do direito de propriedade, contra a baderna e a devastação.

Por aí se estende a nova direita e o posicionamento contra o “status quo”. Seu sucesso dependerá de circunstâncias como alavancagem da economia, melhoria dos serviços públicos – saúde e educação –, atenuação da violência. Fato é que a índole brasileira tende a se afastar dos extremos e a optar pela conciliação, harmonia e paz social. Logo, uma jornada em direção ao meio se apresenta como a melhor solução. Não somos um país beligerante. In médium virtus, a virtude está no meio.

O amanhã poderá nascer com um sol brilhante ou nuvens plúmbeas. Na escuridão, veremos a polarização dos extremos. Na claridade, nossa democracia será revigorada. E mais, a angústia trazida pela pandemia precisa ser sair de nossas mentes. Esse peso terá efeito na balança de 15 de novembro.

Consciência do inconsciente

Existe um inconsciente coletivo, ou melhor, um consciente coletivo, de que a ditadura no Brasil foi boa. Isso foi construído por uma narrativa baseada em fontes militares

Eduardo Reina, autor do livro "Cativeiro sem fim: as histórias dos bebês, crianças e adolescentes sequestrados pela ditadura militar no Brasil"

Vergonha amazônica

Defender-se acusando os críticos por danos idênticos ou piores dos que os seus é arma costumeira de quem não tem explicação para erros deliberados e escandalosos. Na política, o “todo mundo faz” é usual para amenizar delitos como caixa 2 ou a tal da “rachadinha”, apelido que ameniza a apropriação indébita de dinheiro público. Age-se como se o passado abonasse o crime presente e futuro.

Coube ao ministro Paulo Guedes internacionalizar esse perverso conceito. Na tentativa de se livrar das cobranças sobre a desastrosa política ambiental do governo Jair Bolsonaro no fórum promovido pelo Aspen Institute, disse entender a preocupação dos norte-americanos porque “eles desmataram suas florestas” e “mataram seus índios”. E implorou: “sejam mais amáveis como somos amáveis”.

Entre irritação e cinismo, Guedes expôs a desfaçatez do governo que integra. Pela sua perversa teoria, o mundo desenvolvido que cobra do Brasil a preservação da Amazônia e atenção aos povos indígenas não poderia fazê-lo porque, no passado, teria aniquilado florestas e nativos. Uma lógica que impediria, por exemplo, que o Brasil e outros países condenassem a escravidão por ter usado e abusado dela.

O que se quer com esse discurso? Licença para desmatar? Para dizimar índios?


No ano passado, Bolsonaro já havia desafiado europeus, com direito à gafe de trocar a Noruega pela Dinamarca ao divulgar nas suas redes sociais foto de caça de baleias. Tentativa vergonhosa de associar práticas ilegais ao país nórdico que, em retaliação ao desgoverno ambiental brasileiro, anunciara o corte do auxílio milionário ao Fundo Amazônico. Quanto ao desmate, a Europa é hoje o continente com os melhores índices de recuperação de suas matas, com 42% de cobertura florestal, boa parte resultado de mais de 50 anos de recomposição contínua.

Ao expor o país a mais um vexame internacional, Guedes o fez com requintes de crueldade para a já combalida imagem do Brasil lá fora. Um misto de reinvenção da história e mentira deslavada.

Os Estados Unidos desmataram florestas e mataram seus índios. Tentam replantar matas – hoje já refizeram cerca de 30% delas. Mas nunca conseguirão apagar da sua história o extermínio de 18 milhões de nativos.

A conta no Brasil é numericamente muito inferior, mas não menos grave: mais de 2,5 milhões de índios escravizados e mortos nos primeiros 100 anos após o desembarque de dos portugueses e outros quase 1 milhão entre 1900 e 1950. Como o Brasil prefere esconder essa catástrofe, Guedes se sentiu protegido para omiti-la.

Dados do IBGE apontam que a população indígena brasileira hoje gira em torno de 800 mil, quase metade deles aculturados. Com baixa imunidade, mais de 12 mil foram infectados e outros 240 morreram na pandemia.


Nem a tragédia da mortandade de índios nem a do desmatamento acelerado encontrarão guarita na história de governos anteriores e, muito menos, de outros países. Ou seja, além de absurdo, imoral e irresponsável, o discurso do ministro é inócuo, vazio. Só serve para aprofundar a vergonha nacional.

Não há qualquer hipótese de o governo Bolsonaro se safar da responsabilidade pelo desmatamento recorde, pela grilagem amazônica, pelas invasões de terras e apoio descarado e escancarado ao garimpo ilícito.

É patética a tentativa de defender o garimpo em terras demarcadas como direito e até reivindicação dos índios. A lavra a céu aberto, com maquinário pesado, poluindo rios e devastando a floresta, é proibida. Simples assim.

O governo quer mudar esses parâmetros. Como dificilmente conseguirá aprovar uma lei autorizando mineração em terras indígenas, estimula o liberou geral. Não à toa, os alertas de desmate amazônico atingiram números de calamidade, crescendo 34,5% nos últimos 12 meses. O resultado é Bolsonaro na veia – uma droga que faz o país retroceder décadas.

Diferentemente das canalhices políticas, como os vícios do “todo mundo faz” que acabam protegendo safadezas, a regressão na política ambiental pode não ter conserto.

Se confirmada, a rachadinha em favor do então deputado estadual e hoje senador Flávio, filho do presidente, pode ser punida, com ressarcimento aos cofres públicos e pena para os infratores. A floresta nativa abatida e incendiada para dar lugar a pasto e os veios de água poluídos pelos dejetos da mineração exigiriam esforços gigantescos para ser recompostos. Não raro, dão lugar a terrenos desérticos, imprestáveis. Mais: assim como os Estados Unidos não conseguirão jamais se purgar dos mortos do genocídio cometido contra os nativos, o Brasil não ressuscitará seus índios.

O STF parou parcialmente a política anti-indigenista de Bolsonaro. A pressão dos investidores internos e externos também tem funcionado. Mas é preciso marcação cerrada. Do contrário, não haverá desculpa capaz de impedir que os gravíssimos danos de hoje detonem o futuro.

Mary Zaidan

Militares, mensalão, Michelle e milícias

Um agregado das milícias, se não ele mesmo miliciano, pagava contas dos Bolsonaros e punha ainda mais dinheiro na conta de Michelle Bolsonaro, como mostrou a revista Crusoé nesta sexta-feira.

O senador Flávio, o filho 01, enrola-se a cada vez que fala do seu caso com Fabrício Queiroz, motorista, segurança e contato da família com pistoleiros e milicianos, elogiados em público e condecorados pelos Bolsonaros.

Parece tudo tão velho e sabido desde pelo menos 2018. Portanto, é cada vez mais impressionante que o país se acomode a uma família presidencial relacionada com o crime organizado e acusada de fazer seu pé de meia com o furto de dinheiro público à boca pequena, pois sempre foi marginal na política, sem acesso à roubança em grande escala.

Acomodar-se é a palavra a que se deve prestar atenção.

A ameaça hoje mais direta à sobrevivência política de Jair Bolsonaro vem do Supremo Tribunal Federal. Mas no conjunto do Judiciário há um jogo de morde e assopra, de sufoco e alívio. Manipula-se um cabresto para manter o presidente na raia que fica entre o golpe e o impeachment.

 


Os generais, por sua vez, não têm pudor algum de apoiar uma família presidencial associada a agregados da milícia, no mínimo, além de se juntarem às ameaças golpistas do presidente e lançarem manifestos subversivos oficiais.

Negociam eles mesmos o arreglo de Bolsonaro pai com presidiários do centrão, de que faziam troça ainda na campanha de 2018.

Agora mais abertamente do que qualquer casta da alta burocracia, buscam salários maiores, prebendas, aposentadorias gordas, boquinhas para amigos e parentes ou verbas para suas armas. Buscam também reconhecimento, iniciativa que morre mesmo antes mesmo de sair da lama das trincheiras, dados o desastre administrativo, vide o caso do almoxarifado da Saúde, e a apologia de ignorância ou de barbaridades como a tortura.

Parece agora claro que não se pode ter ilusão alguma a respeito do governo militar, do sentido do que fazem os generais do Exército e seus comandados.

Seja pela popularidade restante de Bolsonaro, seja pela possibilidade de cavar rendas, verbas e cargos, “business as usual”, o Congresso acomoda-se ao governo. A cabeça dos lava-jatistas é servida como acompanhamento desse acordão.

Causa cada vez menos escândalo a intervenção de Bolsonaro nos órgãos de controle, que começou no falecido Coaf, passou pela Polícia Federal, estabeleceu-se na Procuradoria-Geral da República e agora pode ser minada de dentro, com a renovação dos órgãos de espionagem.

Rasgou-se a fantasia grotesca de moralidade. Fizeram picadinho do lacerdismo tardio da Lava Jato, o morismo. Tão ao gosto dos Bolsonaros e Queiroz, agora faz-se um rolo a fim de dar um jeito no teto de gastos, teto que era a justificativa limpinha restante daquelas que o establishment e tantos de seus economistas deram para se associar a Bolsonaro.

O presidente precisa de um Bolsa Família para chamar de seu; parte de seus ministros e do centrão quer dinheiro para investimento em obras. Nada disso é possível sem que ao menos se abra um buraco no teto de gastos ou, muitíssimo improvável, se dê um talho imenso no salário dos servidores (“não passará!”).

É a isso que as elites brasileiras se prendem? Uma promessa fiscal precária vale uma sociedade com golpistas, milícia, rachadonas, razia no ambiente e na educação, inércia criminosa na saúde, disseminação da ignorância, de ódio, mentiras sórdidas e vexame diplomático?

Uma palavra agradecida ao governo Bolsonaro

Só quem parece satisfeita com mais de cem mil mortos, a corrupção viva por todos os cantos, é a palavra “descalabro”. Ninguém mais a amava, ninguém mais a escrevia. Ela estava entregue à sanha das traças dos dicionários, abandonada à própria infelicidade por sua decadência e som de bolero. “Descalabro” voltou.

A palavra foi reincorporada aos jornais, na tentativa de exprimir com ênfase polissílaba o estupor nacional. “Vergonha”, “pouca vergonha”, “bando de sem vergonha”, todas essas veemências da língua fracassaram. 


A pobre coitada estava no limbo vernacular, amaldiçoada pelo excesso cafona de seu alvoroço denunciatório. Pior. Carregava a necessidade constrangedora de se fazer acompanhar a cada citação por um outro escorraçado da boa escrita moderna - o infeliz do ponto de exclamação.

Breguerérrima, a dupla “descalabro!” era uma espécie de porta bandeira e mestre sala das escolas de texto ruins. Zero, nota zero. Mas, com a floresta amazônica em chamas e os terraplanistas no poder, ficou claro que para nomear o horror não havia no mercado uma palavra razoável – “negacionistas”, “milicianos” e “assassinos” soavam fracas. “Descalabro” agradeceu a lembrança. Pôs-se às ordens.

Ela parecia para sempre excomungada, junto com o ioiô da Coca-Cola e as perucas Lady, nos almanaques da nostalgia furreca. Está vivinha da silva. Humilde, diz entrar em campo para somar. Ao lado de “não é possível”, “onde vamos parar”, “genocídio” e outras expressões cúmplices do mesmo assombro, quer contar a verdadeira história do país em 2020.

A palavra era a queridinha dos editoriais udenistas da Tribuna da Imprensa (brandida num esquema saia-e-blusa, “descalabro moral”). Nunca desapareceu das páginas. De vez em quando, à sorrelfa, burlava o esquema de segurança do copydesk e dava os ares de sua antiguidade. Surgia em alguma carta de leitor que denunciava o prefeito da cidade e precedia o fecho invariável de “até quando?!”.

“Descalabro” – com o “a” tônico parecendo gritar “pega ladrão” - embute o som de safadeza larga a ser investigada. É a língua afetiva que falava vovó. Ilustra também a crença nacional de que quanto mais sílaba tiver uma palavra, melhor e inconstitucionalissimamente mais culta ela soará. O deputado barroco baiano não saía de casa sem a sua.

Pois aqui, diante dos gastos com quatro milhões de comprimidos de cloroquina, está a “descalabro” de novo. Sempre despenteada, ela põe a cabeça para fora da janela, nem aí para o que vão dizer de sua histeria. Faz a doida, na esperança de que alguém ouça a gritaria que vem do editorial e chame a autoridade competente.

Ao lado de “crime contra a humanidade”, “ignorância” e “quadrilha organizada”, ela reage como pode quando os fatos já não bastam, os cheques na conta da Michele não são suficientes, e é preciso aos observadores do país se boquiabrir com um espanto tão tradicional.

Pode ser muita semântica numa hora dessas, mas “descalabro” tem sido termômetro seguro para medir crises. Quando os mais finos redatores se lembram dela é sinal que a coisa está quedando peluda e urge deixar de lado o bom gosto exigido pelo manual de redação. Sempre foi um “J’accuse” do português ruim, uma pedrada nos vitrais do palácio. Por enquanto, infelizmente, tem a mesma eficácia curativa da cloroquina, esse imenso descalabro.

domingo, 9 de agosto de 2020

Brasil visto pelo mundo

 

O poder da cidadania

A cidadania é o princípio e o fim da democracia. A palavra vem do civis latino, equivalente do grego polites, o membro da polis, de onde deriva nossa “política”. De um modo geral, a cidadania é o conjunto de prerrogativas e responsabilidades dos membros de uma comunidade política.

O cidadão grego era alternadamente um soldado, servidor, legislador, juiz e administrador, dedicado em tempo integral ao interesse público. Mas a cidadania era o privilégio de uma minoria definida por gênero, raça e classe. Roma, em seus inícios, era similar, mas à medida que a cidade se alargava em um império, a cidadania foi gradualmente estendida. Indivíduos de diferentes etnias, culturas e religiões podiam se dedicar aos seus interesses privados em igualdade de condições sob leis comuns, mas em contrapartida eram alheios à deliberação e execução destas leis. Construída sobre estes protótipos, a cidadania nos Estados nacionais modernos herdou deles esta tensão entre proteção legal e participação política – entre o cidadão como recipiente passivo de garantias individuais e como membro ativo da gestão pública.




No pós-guerra, consolidou-se a concepção da cidadania composta por três categorias de direitos sucessivamente acumulados nos últimos três séculos: direitos civis (como propriedade ou liberdade de expressão), direitos políticos (de eleger e ser eleito) e direitos sociais (como educação, saúde ou previdência).

Os críticos deste modelo apontam sua excessiva ênfase nos direitos e a necessidade de suplementá-los com o exercício das responsabilidades e virtudes cívicas. Por outro lado, há os que acusam a insuficiência do mero reconhecimento formal da igualdade entre todos os cidadãos e demandam medidas especiais para incluir grupos vulneráveis. Correntes feministas, por exemplo, criticam estruturas de perpetuação da subordinação das mulheres e os multiculturalistas pedem mecanismos de legitimação das identidades culturais, religiosas ou étnicas minoritárias. Na era da globalização, há ainda quem demande uma cidadania “cosmopolita” que transcenda as fronteiras nacionais.

No século 21, enquanto crescem as apreensões dos ambientalistas em relação a um modelo econômico baseado na expansão contínua da produção e do consumo, o colapso das suas bases financeiras, em 2008, assim como o impacto das novas tecnologias sobre a cadeia de trabalho, engrossaram o coro dos descontentes com este sistema e com os mecanismos de representação política, desencadeando soluções populistas e autoritárias.

O choque da pandemia expôs e agravou as disfunções da democracia contemporânea, e, passado o pânico inicial, vai inflamar estes debates. Com os negócios parcial ou totalmente paralisados e as pessoas confinadas em suas casas aterrorizadas por um inimigo comum invisível, seria cínico duvidar da sinceridade de expressões generalizadas como “estamos todos juntos”. Mas o fato é que as disparidades no interior dos países e entre eles aumentarão, intensificando os conflitos políticos e sociais.

A antiga tensão no seio da cidadania parece mais retesada do que nunca. Para a tradição liberal individualista, a cidadania é primariamente um status legal de garantias das liberdades individuais que permitem aos indivíduos empreenderem e se associarem em busca de sua prosperidade privada. Por sua vez, a concepção cívica republicana vê a cidadania como um processo ativo de participação na esfera pública.

A pedra angular para a reconstrução do contrato social em nosso tempo é o reconhecimento de que estas duas concepções não são antagônicas, mas dialeticamente complementares. As liberdades passivas são a base da democracia, mas a participação ativa é a sua perfeição – se as primeiras estão na raiz da árvore da democracia, é a segunda que gera os seus frutos. Dito de outro modo: o modelo liberal é a saúde da democracia, mas o modelo republicano é a sua virtude. Uma nova concepção de cidadania que sirva de coração a uma democracia a um tempo sadia e virtuosa, próspera e justa é o maior desafio da política no pós-pandemia.

Ainda há esperança?

Espero que a gente tenha conseguido mostrar nesta pandemia que a ciência é necessária e que as pessoas levem isso em conta na hora de elegerem seus representantes
Ester Sabino,. professora da Faculdade de Medicina da USP

 

Amazônia em transe

Dirigentes de três dos maiores bancos brasileiros apresentaram, ao vice-presidente da República, um plano para a Amazônia. Mas um plano que está muito longe de reconhecer e enfrentar os aspectos mais graves da problemática realidade econômica e social da região, de seus habitantes e do país, no que a Amazônia nele é ou pode ser.

Convém lembrar que, na perspectiva do que já foi chamada de Amazônia Legal, aquela região constitui bem mais da metade do território brasileiro. As personagens e os destinatários da proposta, no entanto, nela correspondem a muito menos do que é a população da Amazônia problemática e em crise.


 


Nada diz de significativo aos nossos compatriotas indígenas e aos desvalidos da economia tradicional e camponesa, cuja situação de risco e abandono é o que tem motivado as restrições econômicas ao que da Amazônia devastada e excludente buscam os mercados dos países ricos. Das pranchetas do economismo ideológico nunca saiu nada socialmente inteligente, embora lucrativo para poucos a curto prazo e destrutivo para a nação a prazo longo.

Num país como este, suas peculiares características sociais e humanas são muito diferentes do que se pode ver, compreender e interpretar desde as estreitezas neoliberais e monetaristas de Chicago. A boa vontade dos bancos ganharia sentido se temperasse o poder dos economistas dessa corrente com o bom senso investigativo e interpretativo dos cientistas sociais, que há mais de meio século têm estudado sistematicamente a Amazônia e os problemas sociais dos amazônidas.

São esses cientistas que podem apontar na realidade social e econômica o que de fato é problema para o país. Além do que, sem ouvir e compreender as vítimas, dificilmente se chegará a uma proposta que convença os inquietos e desconfiados lá fora e aqui dentro. O Brasil está sendo colocado diante do falso dilema de civilização ou lucro.

Os que dizem agora que querem salvar a Amazônia, com as ciências sociais enxergariam uma Amazônia também indígena, cuja cultura é estigmatizada pelos leigos e improvisadores que menosprezam os seres humanos e suas alternativas para as estreitezas mentais do primado do lucro e da lucratividade. Os que menosprezam porque pensam o mundo e a vida na perspectiva estéril da mentalidade das classes ociosas, como as definiu Thorstein Veblen (1857-1929).

A proposta apresentada é para acalmar os que, nos países desenvolvidos, inquietam-se com os desdobramentos políticos na opinião pública interna de restrições significativas, de natureza social e moral, à importação de produtos originários de uma economia suspeita porque delinquente e socialmente incorreta.

Faltou na proposta o remédio para as ilegalidades na realidade amazônica, da grilagem ao trabalho análogo ao do escravo. Os poderes das economias dominantes têm medo das consequências políticas da consciência social crítica comprometida com a primazia da condição humana.

O que os proponentes, aparentemente, não perceberam é que as objeções e restrições aos produtos da Amazônia não têm a ver somente com queimadas e com o modo de produzir de uma economia retrógrada, ainda que aparentemente moderna.

Fala-se na necessidade de uma boa propaganda que diga ao mundo que o Brasil cuida do ambiente e cuida dos indígenas. A fumaça da floresta queimada e o grito dos que padecem os efeitos da predação e da iniquidade lucrativas dizem que não. O interesse pela Amazônia tem sido, historicamente, limitado aos imediatismos do capitalismo rentista. Não se trata de usar a terra e a natureza, mas de consumi-las, o que é a negação do próprio capitalismo.

O problema da Amazônia já havia chegado à consciência das pessoas esclarecidas de diferentes países há meio século. A questão indígena, a da violência fundiária e a ambiental brasileiras já estavam em debate na Europa e mesmo nos anos 1970, quando a voracidade da economia neoliberal tentou impor-se com base na falsa premissa de que a Amazônia estava disponível para ser ocupada predatoriamente.

Há décadas, indígenas brasileiros têm comparecido a debates, conferências e manifestações na Europa para expor a situação em que se encontram. O eminente e lúcido cacique Raoni Metuktire, do grupo linguístico kaiapó, tem sido ali recebido como herói da humanidade, com seu imponente e belo diadema plumário e seu solene batoque labial e ritual, impondo respeito e acatamento. Coisa que o governo atual não consegue.

Raoni é um dos melhores diplomatas populares brasileiros, porque entre os que têm poder tem o que falar e sabe falar a quem sabe ouvir O interlocutor do verdadeiro Brasil. Significativamente, foi depreciado pelo presidente brasileiro na assembleia-geral da ONU em 2019.

O maior inimigo do Líbano é seu governo

O Líbano já passou por muita coisa: guerra, crises, catástrofes. Mas o que aconteceu na terça-feira no porto de Beirute supera tudo o que os libaneses poderiam imaginar. A explosão deixou boa parte da cidade em ruínas, desalojou 300 mil pessoas e tirou delas a esperança de um país melhor. Uma esperança que era compartilhada sobretudo pelos jovens.

Apesar de tudo o que país já vivera até então, ninguém podia imaginar até que ponto a incompetência do governo libanês pode ser fatal e até onde vai o fracasso do Estado.

Mahmoud Rifai (Jordânia)


Desde então prosseguem as buscas por desaparecidos, muitas pessoas reviram elas mesmas os escombros nas suas ruas – tudo na ausência de um Estado que não merece esse nome. Nenhum pedido de desculpas por parte da elite política corrupta, ninguém renunciou até agora. Em vez disso, eles elogiam a resistência dos libaneses.

Pelo jeito ninguém se sente responsável pelo armazenamento, durante seis anos, do altamente explosivo nitrato de amônio no porto de Beirute, e isso em galpões deteriorados, próximos da população, no meio da cidade. Em vez disso, prenderam alguns funcionários do porto.

Como é comum nessa cidade do Mar Mediterrâneo, quando alguma coisa dá errado, ninguém é culpado.

Mas, por mais voltas que se dê, o fato é que essa explosão violenta é resultado da corrupção mesquinha de sucessivos governos libaneses. Ao longo de anos, políticos de todas as bancadas saquearam o país e o levaram à ruína.

Mesmo políticos adversários apoiaram uns aos outros nesse sistema corrupto com o propósito de enriquecer. Quando se tratava do próprio bem-estar, eles sempre estavam de acordo.

Essa catástrofe é o exemplo mais recente e mais terrível de que um governo depois do outro simplesmente ignorou sua tarefa mais básica de cuidar das necessidades e do bem-estar da população.

Há anos que falta luz por horas todos os dias – por quê? Porque a assim chamada máfia dos geradores – empresários ricos que ou estão eles mesmos na política ou têm ligações próximas com políticos – lucram quando a população repentinamente precisa comprar mais energia elétrica.

Ou as montanhas de lixo: há anos que se acumulam enormes lixões nas proximidades do aeroporto, nas praias há plástico por todos os lados, resíduos químicos não são corretamente tratados e oferecem riscos para a população. A isso soma-se o comércio, já há décadas, com lixo importado ilegalmente e que não é corretamente eliminado.

Quando, em outubro de 2019, os piores incêndios florestais em décadas se alastraram, o governo não tinha nenhum avião disponível para apagar as chamas: esqueceram de fazer a manutenção e de reabastecê-los. Dizer o que disso?

A crise econômica, a depreciação da moeda? Todos esses problemas foram criados domesticamente. Pois, no fim das contas, a elite governante nunca esteve interessada no país, mas apenas no próprio lucro às custas da população. E nunca um único deles teve que temer consequências.

Além de uma guerra civil, muitos libaneses tiveram que vivenciar, por anos, uma ocupação síria, duas guerras com Israel, várias crises econômicas, um enorme desemprego e atentados políticos. Desde outubro que manifestantes exigem a renúncia da classe política corrupta. "Todos, mas realmente todos" devem renunciar, exigem.

Em várias regiões do país, quem continua no poder são os mesmos senhores da guerra que conduziram a guerra civil, ao final selaram a paz, desde então enriquecem e insuflam os conflitos entre as confissões religiosas.

O trauma dos libaneses é profundo. "Se não são os nossos corpos que morreram, então são os nossos corações", escrevem muitos deles nas redes sociais. Quantas vezes um povo pode reconstruir seu país?

Enquanto o problema não for atacado na raiz, enquanto os mesmo senhores da guerra continuarem nos cargos, o risco de que o Líbano venha a passar de novo por uma situação tão ruim vai continuar.

Com certeza ainda não se sabe tudo sobre a catástrofe de terça-feira passada. Mas uma coisa deveria estar clara: aqueles que permitiram que uma quantidade enorme de material altamente explosivo ficasse durante anos armazenada no porto não podem agora ser os que vão esclarecer como isso se deu.

Isso deve ser o trabalho de uma investigação internacional, que deve expor toda a cadeia de responsabilidades. Este é o momento em que a impunidade deve finalmente acabar no Líbano. Este é o momento da justiça.

Brasil adoece enquanto Bolsonaro releva a pandemia e se mantém em eterno palanque eleitoral

O presidente Jair Bolsonaro não faltou ao seu estilo seco para falar da iminência das 100.000 vidas perdidas para a pandemia do coronavírus. Em live, já na quinta-feira, mencionou o número assombroso já se descolando dele. “A gente lamenta todas as mortes. Já está chegando ao número de 100.000, talvez hoje (em referência à quinta, quando somavam oficialmente 98.493 vidas perdidas). Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar deste problema”, disse ele, ao lado do general Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde. Ao invés de usar a pandemia de covid-19 para mostrar alguma capacidade de liderar e unificar um país Bolsonaro (sem partido), continua a se expressar com palavras duras, como “se safar”.

Depois de um ano e sete meses de Governo, o presidente só faz manter-se fiel ao seu personagem em eterno ritmo de campanha eleitoral, rebatendo qualquer possibilidade de crítica. Desde que o primeiro caso foi registrado no Brasil, em fevereiro, o mandatário oscilou discursos autoritários e negacionistas com raríssimos momentos de serenidade. Seu principal objetivo tem sido o de retirar de si sua responsabilidade na crise, transferi-la para governadores, prefeitos e para outras instituições, como o Supremo Tribunal Federal. Além disso, faz um movimento de tensionamento constante com os poderes, promove medicamento sem eficácia comprovada no combate à doença – a cloroquina –, debocha do distanciamento social e surfar na onda de aprovação entre os mais pobres trazida pelo auxílio emergencial de 600 reais.


Enquanto os números de infectados no Brasil dispararam — mais de 2,9 milhões de pessoas têm ou já tiveram a doença, segundo dados oficiais – o presidente testemunhou seu entorno adoecer. O Palácio do Planalto passou a ser chamado de “covidário”. Dos 3.400 servidores que frequentam a sede presidencial, 178 tiveram covid-19 até 31 de julho passado. Dos 23 ministros de Bolsonaro, 8 anunciaram terem sido infectados. Os mais recentes foram Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e Walter Braga Netto (Casa Civil). Ambos têm gabinete no Planalto. Todos na sequência de Bolsonaro, que confirmou ter contraído o vírus no dia 7 de julho. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também teve a doença.

Se fosse um país, o Planalto teria a taxa de 5.235 contaminados para cada 100.000 habitantes. A taxa do Brasil é de 1.374. “Durante esse processo, o presidente não teve o interesse ou a capacidade de assumir que errou nesse negacionismo constante e teve de construir uma narrativa política de que foi impedido de atuar pelas instituições”, diz o cientista político e advogado Valdir Pucci, diretor da Faculdade Republicana. Contra Bolsonaro, há acusações no Tribunal Penal Internacional de Haia, queixas no STF e ao menos 40 pedidos de impeachment na Câmara dos Deputados por causa de sua postura omissa na pandemia de covid-19.

Nem mesmo ter sido infectado pelo novo coronavírus fez com que o presidente arrefecesse a temperatura de seus discursos radicais. Em apenas uma ocasião desde que anunciou ter se curado da doença, em 25 de julho, Bolsonaro disse a apoiadores no Palácio da Alvorada que deveria manter distância deles e seguir usando máscara facial. Dias depois, entretanto, viajou para o Nordeste e para o Sul do país para inaugurar obras e promover aglomerações. Na ida a Bagé (RS), disparou mais uma de suas frases cortantes. Perguntado se havia negligenciado a doença, afirmou: “Eu nunca negligenciei. Eu sabia que um dia ia pegar. Infelizmente, acho que quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê? Enfrenta”. Suas frases de efeito para minimizar a doença ganharam as manchetes no mundo. “Não sou coveiro”, em abril quando o país ia em mais de 2.000 mil mortes. “E daí?”, quando o país superou 5.000 mortos no final daquele mesmo mês, e o famoso “é só uma gripezinha”, um mês antes.

Bolsonaro ficou preso à narrativa do enfrentamento e assim deve ficar até o fim de sua gestão, não apenas por causa da pandemia. “A estratégia política do Bolsonaro comporta a ideia de ter uma campanha eleitoral permanente. É parte do DNA do bolsonarismo. Principalmente para ter seus apoiadores fervorosos cada vez mais próximos”, diz o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper.

Não só o presidente, mas sua rede de apoio, e até uma fração da classe médica se lançaram a questionar a ciência, confundindo o Brasil num momento de fragilidade diante da doença, com a economia parada, e um futuro incerto. “Bolsonaro testa os limites das instituições e da sociedade civil”, diz o historiador Odilon Caldeira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e membro do Observatório da Extrema Direita. “Quando ele passa a radicalizar, ele tenta buscar um processo de naturalização de seu discurso”, completa.

Nessa cruzada, instalou interinamente o general Eduardo Pazuello no cargo de ministro da Saúde, depois da queda de braço com dois ministros médicos, que deixaram o posto por discordar dos protocolos de recomendação para o uso da hidroxicloroquina, como queria Bolsonaro, para o tratamento de pacientes com covid-19. O mandato de Pazuello, que deveria ser tampão, já chega aos três meses. Tempo suficiente para acomodar as demandas do presidente, como o próprio endosso à cloroquina, mesmo sem comprovação científica. Em suas aparições públicas, Bolsonaro não perde a chance de erguer uma caixinha do remédio para seus seguidores e até para as emas que vivem no Palácio da Alvorada. Incensa também o uso do vermífugo Ivermectina, outro medicamento sem comprovação de eficácia para os efeitos da covid-19.




Enquanto investe no marketing do confronto a quem o questiona, Bolsonaro abaixou a guarda em um campo sensível para os bolsonaristas radicais. Em sua relação com o Congresso Nacional durante a pandemia, o presidente fez acenos ao Centrão, um grupo fisiológico de partidos de centro direita. Começou a povoar os segundo e terceiro escalões do Governo com indicados por esse grupo de olho em dois movimentos. O primeiro é de impedir que prospere um dos mais de 40 pedidos de impeachment contra ele que tramitam na Câmara. O segundo, tentar preparar o terreno para a eleição da Mesa Diretora da Casa que definirá como será a segunda metade do mandato de Bolsonaro.

Apesar de estar distribuindo cargos, Bolsonaro não tem se deparado com dias fáceis no Legislativo. A sua base de apoio ainda não está organizada. Uma prova disso é que estão em tramitação no Legislativo, 43 vetos presidenciais, sendo que 19 deles se referem a leis ou trechos de leis voltadas para ajudar no combate da crise sanitária provocada pela covid-19. Entre esses vetos, que é quando um governante não concorda com o que foi aprovado pelos congressistas, estão um que trata da concessão de auxílio emergencial em dobro para mães que criam sozinhas seus filhos e outro que impede novas inscrições nos cadastros de empresas de análises de crédito enquanto a calamidade pública estiver vigente.

Entre quem acompanha o dia a dia do Congresso Nacional, a sensação é que o presidente está mais preocupado em garantir caixa para alçar sua popularidade acima dos 30% e reforçar seu discurso para a longínqua campanha eleitoral de 2022 do que em amenizar os efeitos humanos da pandemia. Uma das estratégias seria estourar os gastos públicos, confrontando o seu ministro da Economia, Paulo Guedes, para garantir o programa que sucederá o Bolsa Família, o Renda Brasil.

Após pagar o auxílio emergencial aprovado pelo Congresso de 600 reais até setembro, o presidente pretende estendê-lo a dezembro, ainda que em um valor inferior – de 200 reais. Uma alternativa para garantir mais recursos é aprovar a reforma tributária que enviou no fim de julho, e que sugere a recriação de um novo imposto. “A reforma tributária do Governo é uma simplificação malfeita com a volta da CPMF. A justificativa é a de irrigar os cofres para garantir o Renda Brasil e anabolizar a sua reeleição”, diz o professor Consentino, do Insper.

sábado, 8 de agosto de 2020

É proibido não buscar a felicidade

100 mil mortos

No limiar dos 100 mil óbitos da covid-19 e dos 3 milhões de casos da pandemia, que deve ser transposto no sábado, o Brasil vive a sua pior guerra, no sentido literal ou figurado, desde sua independência. A hecatombe atual guarda semelhança com episódios já muito distantes no tempo, como a gripe espanhola e a onda de fome que assolou o Nordeste na seca de 1877.

Um observatório para se contemplar a desgraça é o portal da transparência do registro civil, uma iniciativa dos cartórios. Segundo o portal, houve em 2020, no período entre 16 de março e 6 de agosto, um total de 507.097 óbitos por causas naturais. No mesmo período, em 2019, foram 474.287.

A razão evidente é a covid-19 e a Síndrome Respiratória Aguda Grave, responsáveis por uma em cada cinco mortes registradas no período - cerca de 90% da soma de 98.985 casos correspondem à doença provocada pelo coronavírus (88.298).

Ainda que quase a metade desta cifra seja compensada pela queda do número de anotações de causas mortis que podem ser atribuídas ao vírus, como septicemia e pneumonia - elas somaram 165 mil no período em 2019 e agora somam 119 mil- há alguma defasagem nos dados, o que sugere que a situação presente é algo mais grave do que aparece. Pela lei, o falecimento de uma pessoa precisa ser comunicado às autoridades em 24 horas e a lavratura do atestado de óbito deve ser feita em cinco dias. O envio do dado para a central nacional deve ser feito em mais oito dias. Com a pandemia, alguns Estados dilataram este prazo em até dois meses. Ou seja, esta fotografia é piso, e não teto. É incontroverso que está morrendo mais gente este ano do que em 2019.


A catástrofe no Brasil, à qual o mundo se curva em números absolutos, não é a pior do continente em termos proporcionais. É uma observação que pode refletir alguma condição excepcional do brasileiro ou apenas a debilidade dos nossos registros estatísticos, uma vez que é impossível atribuir o fenômeno à gerência governamental que está sendo feita em relação à crise. De acordo com o jornal chileno “La Tercera”, entre 1º de maio e 29 de julho uma em cada três mortes no Chile estava relacionada à covid-19, sendo que na região metropolitana de Santiago esta cifra subia à metade. Em magnitude de mortes, no entanto, os dois países se equivalem. A população chilena é dez vezes menor que a brasileira. Multiplicado por este fator, o número de óbitos lá é semelhante ao daqui.

Desde o início da crise, do ponto de vista político, o presidente Bolsonaro abdicou do papel de liderança no enfrentamento do vírus e busca transferir a fatura. A crise caiu no colo dos governadores a quem se cobra a responsabilidade pelas consequências econômicas das quarentenas e a quem se transforma as políticas emergenciais de compras para a saúde em casos de polícia, de maneira justificada ou não. O caso do secretário de Doria é mais um, é banal. Nesse contexto, Bolsonaro é apenas uma pessoa que sai atrás de uma ema com uma caixinha de cloroquina.

A pandemia deixará cicatrizes no Brasil, mas está sendo driblada pelo bolsonarismo. O presidente não está em situação absolutamente segura, pode perder a reeleição de 2022, pode até se inviabilizar no Congresso, mas nada disso deverá ter relação com a macabra contabilidade cotidiana da peste que assola o mundo.

“Com a pandemia, o futuro saiu do circuito. Ninguém está olhando para frente”, observou em conversa com esta coluna o ex-deputado federal Saulo Queiroz, fundador do PSDB e do PSD, antigo hierarca do DEM, o que se convencionava chamar antigamente de uma velha raposa felpuda.

Queiroz refere-se a um problema para o qual o mundo partidário deve acordar no próximo ano. As coligações proporcionais estarão proibidas em 2022. O universo político está polarizada. É um erro tomar pelo valor presente o estrondoso fracasso dos organizadores do Aliança Pelo Brasil em coletar assinaturas para a criação da nova sigla. A hora decisiva será em 2021, em que os acólitos do presidente serão impulsionados pelo projeto de poder claro que significa a continuidade bolsonarista.

Do outro lado, o PT tem uma longa história de sobrevivência no isolamento, ganhando ou perdendo eleições. No meio do caminho estarão siglas como DEM, PSDB, Cidadania, PDT, PSB que, ou se aglutinam em torno de candidaturas viáveis, ou perecerão. Na janela partidária do começo de 2022, deputados de partido sem projeto de poder irão medir quem passa na peneira do voto sem coligação. Quantos deputados poderá eleger o DEM, concorrendo sem parceria? E o PCdoB? O furacão que passará pela janela partidária não será trivial.

No meio do vendaval o futuro presidente da Câmara, a ser eleito em fevereiro, será um ativo estratégico. O biênio final de uma legislatura costuma ser mais tenso que o inicial por se misturar com a sucessão no Palácio do Planalto.

Não é por acaso que a sucessão de Rodrigo Maia está em muito antecipada ao normal. “Já é o assunto do dia nos corredores”, diz um dos pretendentes ao cargo, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), para quem há o risco importante da disputa travar a agenda da Casa.

“A Câmara hoje está dividida em três terços: Bolsonaro, Rodrigo Maia e oposição. Impeachment está fora de cogitação e quem se une a um bloco derrota o outro”, diz Ramos. Como somente Maia pode se combinar tanto a um bloco como a outro, ele tende naturalmente a fazer seu sucessor.

Ramos não crê que um tema polêmico como a reforma tributária seja concluido na Câmara ainda antes da eleição de novembro, sobretudo se estiver vinculado com a nova proposta do governo de renda básica. Ainda assim, não subestima a capacidade de Maia de ditar o processo.

Sem candidato natural à presidência, os partidos de centro poderão ter no comando da Câmara dos Deputados uma reserva de poder, que poderá ser muito útil, inclusive, para mudar as regras da eleição de 2022. Há quem pense que a formação de uma nova sigla poderia aprumar o caminho. Queiroz tem pronta a minuta de uma consulta ao Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da norma que impediu que um novo partido possa receber uma fatia do fundo partidário equivalente ao total de deputados que ele consiga atrair.

A construção de uma tragédia

Há cerca de um mês e meio, este jornal lamentava nesta página o fato de o País ter atingido a marca de 50 mil mortes por covid-19 (ver editorial Lições de uma tragédia, publicado em 21/6/2020). Pior do que a dor causada por tantas perdas de vidas, histórias e possibilidades, um prejuízo incalculável para o Brasil, era a constatação, já àquela altura, de que um novo marco lúgubre era questão de tempo, só não se sabia quanto. Pois agora passamos das 100 mil mortes ocasionadas pelo novo coronavírus e, mais uma vez, nada assegura que outras 50 mil vidas, ou mais, não serão perdidas em um futuro próximo.

Não se trata de um exercício de futurologia macabra, mas sim da constatação de um fato: os graves desdobramentos da pandemia no Brasil são frutos de uma metódica construção por ações e omissões. Não há como imaginar que melhores resultados hão de vir à frente quando comportamentos que os ensejariam não se mostram presentes, tanto no governo como na sociedade.

Construiu-se essa tragédia porque desde a eclosão da pandemia no País o presidente Jair Bolsonaro adotou um comportamento aviltante diante da maior dor sofrida pelos brasileiros em mais de um século. Por tudo o que se viu e ouviu, infortúnio maior não houve para a Nação do que ter na Presidência um líder tão incapaz e indiferente em momento tão grave da história nacional. Não se sabe se Jair Bolsonaro um dia sofrerá sanções políticas ou jurídicas por seu descaso. Mas ele deveria temer pelo que pode vir a sofrer se acaso experimentar um despertar de consciência adiante.

Construiu-se essa tragédia porque a todo tempo Bolsonaro se mostrou preocupado exclusivamente com seus interesses particulares, em especial seu inoportuno projeto de reeleição, pondo-se a afrontar as orientações das autoridades sanitárias por temer que reveses econômicos ocasionados por medidas protetivas, como o isolamento social, pudessem afetar a sua popularidade. Ao presidente da República cabia coordenar os esforços nacionais para o enfrentamento da crise.

Construiu-se essa tragédia porque o governo não soube aproveitar a janela de cerca de um mês para aprender com a experiência de outros países que já enfrentavam a covid-19 e, assim, preparar o Brasil para o que estava por vir. O Brasil é referência em planejamento e ação diante de emergências epidemiológicas, como H1N1, dengue e zica vírus, mas não se coordenou de pronto todo esse cabedal de conhecimento para preparar o SUS para lidar com a nova emergência.

Construiu-se essa tragédia porque, pelo mau exemplo dado pelo chefe do Executivo, milhões de brasileiros se sentiram seguros para furar a quarentena e provocar aglomerações porque, acreditando nele, não acreditaram na gravidade da doença ou confiaram no curandeirismo presidencial. O que dizer de um presidente que demitiu dois ministros da Saúde em meio à pandemia apenas porque ambos tiveram a ousadia de contrariar suas perigosas posições por prescrições com argumentos baseados na melhor ciência? O que dizer de um presidente que anda com uma caixa de cloroquina a tiracolo – medicamento ineficaz contra a covid-19 – ofertando-a até para uma ema como a panaceia de todos os males? Jair Bolsonaro pôde contar com o apoio do STF e do Congresso Nacional para adotar as melhores medidas de combate à pandemia, mas não o fez por cálculo político, frieza ou birra. Ou tudo isso junto.

Construiu-se essa tragédia porque muitos governadores e prefeitos sucumbiram às pressões de toda sorte para reabrir o comércio e espaços públicos antes que houvesse segurança para isso. Uns por negarem a gravidade da pandemia, como o presidente. Outros pelo receio das implicações eleitorais da manutenção das restrições.

Por fim, construiu-se essa tragédia porque falta a muitos cidadãos um espírito de coletividade, o reconhecimento do passado formador comum e a comunhão de aspirações ao futuro. Com tristeza, viu-se que não raras vezes a fruição imediata de alguns se sobrepôs ao recolhimento exigido para o bem de todos. Aí está o resultado.

A marcha dos mortos

Queria começar dizendo do meu horror por estar escrevendo esse texto sobre os 100.000 mortos enquanto algumas centenas deles estão vivos e lutando pela vida. Todos nós já sabemos que chegaremos aos 100.000 mortos. E este é o horror. E ultrapassaremos os 100.000 mortos, e este é o horror. E não sabemos em quantos milhares de mortos chegaremos, porque não há nenhum controle no Brasil sobre a disseminação da covid-19. Eu ainda sentiria horror se estivesse lidando apenas com a fatalidade de um vírus. Mas tenho convicção de que não é disso que se trata.

 Uma convicção baseada em fatos, como deve ter uma jornalista que emite sua opinião. Uma convicção fundada em acompanhamento do Diário Oficial da União e da comunicação do Governo. Meu horror é infinitamente maior justamente porque testemunhamos um genocídio praticado por Jair Bolsonaro e todos os funcionários ― fardados ou não, peito estrelado ou não ― que têm poder de decisão. 

Meu horror é por escrever sabendo que chegaremos aos 100.000 mortos e perceber que não encontramos força para barrar o genocídio e ainda não encontramos gente suficiente ― no Brasil e no mundo ― para se somar à luta para barrar um crime contra a humanidade. Eu peço perdão aos mortos por nossa fraqueza como povo. Eu peço perdão em nome dos juristas e dos intelectuais que preferem não, porque, afinal, Bolsonaro seria só incompetente ― e não um matador deliberado e sistemático. 

Quase 100.000 vítimas do Governo Bolsonaro e somos covardes ao ponto de normalizar um crime contra a humanidade que é feito em nosso nome

Alguns ainda fazem bochecho com a palavra “banalização”, denunciando que se estaria vulgarizando o termo, sem perceber que são eles que banalizam mais de 1.000 mortes por dia. Eu peço perdão em nome da parcela dos jornalistas que prefere ser “imparcial” diante de um massacre, como se a suposta imparcialidade fosse justificativa para sua omissão como ser humano. Eu peço perdão em nome daqueles que aprovam Bolsonaro porque recebem 600 reais por mês do Governo, porque conheço muitas pessoas em situação de pobreza que exigem seus direitos de serem assistidas pelo Estado numa situação de emergência, mas não compactuam com a morte do outro. Eu peço perdão em nome daqueles que acreditam ser suficiente colocar seu nome em abaixo-assinado enquanto os mortos se enfileiram. Eu peço perdão por essa porção das elites intelectuais voluntariamente pueril em política e destituída de coragem pessoal para assumir seu papel histórico de barrar o extermínio. Eu peço perdão por por essa parcela pusilânime da população que, com as mais variadas desculpas, delega ao outro a tarefa de enfrentar o mais difícil. Eu peço perdão em meu próprio nome por não ser capaz de fazer o mínimo suficiente. 

Todos os dias eu acordo e durmo pensando qual é o papel de uma jornalista, de uma cidadã, de uma pessoa humana quando testemunha um genocídio e me horrorizo porque já não sei o que fazer, porque há pelo menos quatro petições no Tribunal Penal Internacional mas, diante da magnitude da destruição, ainda é pequeno o movimento de mobilização em torno das denúncias. Ainda são muito poucos usando seu espaço para dar nome ao horror. E então, mais uma vez, eu peço perdão para o que não tem perdão. 



Eu peço perdão a você, grande Aritana, cacique do Xingu, por sua voz de tantas línguas ter sido silenciada porque Bolsonaro deixou a floresta aberta aos agentes do vírus, muitos deles atendendo pelo nome de grileiros e garimpeiros ― e fez isso com o apoio dos generais de sua corte, herdeiros de uma ditadura que matou mais de 8 mil indígenas ― impunemente. Eu peço perdão porque tantos brancos acham que negar medidas emergenciais e até mesmo água potável aos indígenas na pandemia, como o Governo fez, é “incompetência” ou “fracasso da política de enfrentamento à covid-19”. 

Eu peço perdão a você, seu Bié, Manoel da Cruz Coelho da Silva, quilombola de Frechal, no Maranhão, porque gente demais acha que morrer mais pretos que brancos é “normal”. Eu peço perdão a você, Tia Uia, Clarivaldina Oliveira da Costa, quilombola da Rasa, no Rio de Janeiro, porque depois de tantos séculos de luta para existir num país fundado sobre os corpos dos escravos, você morreu por racismo. Eu peço perdão a você, Carlilo Floriano Rodrigues, que criou sete filhos com tanto carinho, e caminhou com coragem mesmo sem uma perna. Eu peço perdão a você, Alayde Antônia Rossignolli Abate, que não se desgrudava de seu cachorro de nome Paçoca. Eu peço perdão a você, Roosevelt Guimarães Soares, que enquanto viveu acordava as três horas da madrugada para vender melancia na feira. Eu peço perdão a você, Delcides Maria Oliveira, que na infância enganou a fome com colheradas de café mas não conseguiu vencer a indiferença do Governo diante dos mortos pela covid-19. Eu peço perdão a você, adolescente Yanomami morto aos 15 anos e enterrado em terra estranha como se coisa fosse. 

Eu peço perdão a todos os 100.000, cada um com seu nome, sua história, seus desejos, suas fraquezas, seus sonhos e seus amores. Seus gestos que o crime imobilizou. Peço perdão aos Inumeráveis que foram convertidos em estatística e aos Vagalumes que tiveram sua luz apagada pela indiferença de Bolsonaro diante de suas vidas. “E daí?”, disse o genocida, quando eram 5 mil mortos pela “gripezinha”. Eu peço perdão pela vida interrompida pela fome de morte daquele que disse, na última quinta-feira, diante da proximidade dos 100.000 brasileiros mortos: “Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”. 

Eu peço perdão porque Bolsonaro só pode ser presidente porque há milhões iguais a ele, com a mesma indiferença pela vida do outro, andando sem máscara para que você morra sem ar. Eu peço perdão por aqueles que foram enterrados em covas sem nome. Eu peço perdão por aqueles que foram enterrados em caixas de papel porque faltou caixão. Eu peço perdão por aqueles que sofreram a indignidade de começarem a se decompor em casa porque não havia serviço público para buscar seus corpos, submetendo suas pessoas queridas à tortura de sentir aversão pelo cheiro de quem amavam. Eu peço perdão a você, bebê Yanomami, que foi sepultado longe da sua terra e do seu mundo, sem o lamento de seus pais, sem as homenagens de seu povo, e portanto, não terá paz nem deixará os vivos em paz. 

Eu peço perdão a todos aqueles que não foram chorados na sepultura, aos enterrados por um coveiro que os desconhecia, submetendo seus vivos ao flagelo de não se despedir e portanto não fazer luto. Eu peço perdão aos coveiros submetidos à brutalidade do Estado. Eu peço perdão aos profissionais da saúde que arriscam sua vida dia após dia e são agredidos nas ruas por incitação do presidente da República. Eu peço perdão ao bebê Xavante que, ao morrer, contaminou parte do seu povo que não recebeu nenhuma orientação para se proteger de mais um vírus. Eu peço perdão aos indígenas que, por viverem na cidade, tiveram suas identidades arrancadas pelo mesmo Estado que os expulsou de suas terras. Como suas mortes não são computadas como aquilo que são ― indígenas ― são mortos uma segunda vez. Eu peço perdão por permitirmos que gente seja tratada como coisa e por nos coisificar ao normalizar o extermínio. Eu peço perdão não porque tenho “culpa cristã”, como já fui “acusada” em outros momentos. 

Eu peço perdão porque tenho “responsabilidade coletiva”, porque sou responsável pelo que fizeram e pelo que fazem no meu e no seu nome. Bolsonaro está perpetrando um genocídio em nosso nome quando substitui profissionais da saúde experientes em epidemias por militares inexperientes em saúde, está perpetrando um genocídio em nosso nome quando distribui cloroquina e hidroxicloroquina até mesmo para povos indígenas, medicamentos cuja ineficácia para combater a covid-19 já foi cientificamente comprovada, assim como seus riscos. Está perpetrando um genocídio em nosso nome quando retém os recursos destinados ao enfrentamento da pandemia enquanto faltam até mesmo sedativos nos hospitais para aplacar a dor das vítimas. Está perpetrando um genocídio em nosso nome quando veta medidas de segurança e estimula que as pessoas vão às ruas sem máscaras.

É possível seguir empilhando atos de Bolsonaro que comprovam sua intenção de matar. E também de deixar morrer, o que é uma outra forma de matar, já que um governante tem a responsabilidade constitucional de proteger a população do país que governa. Eu peço perdão. E digo também que, ainda que sejamos poucos, resistiremos. 

Os povos que estão sendo massacrados, como os indígenas, estão produzindo suas próprias estatísticas e seus memoriais. É a maneira de reconhecer a vida dos que morreram e lhes dar a dignidade da verdade na morte. Diante de crimes contra a humanidade, os obituários ganharam o significado da resistência. Contar a história e as histórias tornou-se insurgência – para que os mortos possam viver como memória e seus assassinos não escapem da justiça. Resistimos contando os mortos em mais de um sentido ― como estatística confiável, como identidade reconhecida, como história contada. Nos insurgimos fazendo viviários dos que foram mortos, porque diante das ações e das omissões de Bolsonaro e de seu Governo, morrer de covid-19 não é morte morrida, é morte matada. 

Nós, os que Bolsonaro e seu Governo ainda não conseguiram matar, lembraremos e faremos lembrar. E, quando morrermos, nossos filhos lembrarão. E quando nossos filhos morrerem, nossos netos lembrarão. Caro Jair Bolsonaro, caros generais, caros civis envolvidos nos crimes contra a humanidade relacionados à covid-19: eu espero que vocês sejam assombrados pelos 100.000 mortos. Eu espero que um dia alguém faça um filme da marcha dos mortos à Brasília, marcando a volta do realismo fantástico em nosso continente, já que a realidade que vocês impuseram nos roubou até mesmo a possibilidade da fantasia. Então, liderados pelo grande Aritana, que carregará em seus braços os corpos mortos dos bebês Yanomami insepultos, 100.000 dedos apontarão para seus rostos. Vocês poderão, talvez, escapar dos tribunais. Não escaparão da memória.