Temos filas na Caixa e corpos em valas comunsRafael Galliez, professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da UFRJ
sábado, 9 de maio de 2020
A cara da morte
A marcha dos camisas pardas

A palavra “patifaria” não foi escolhida ao acaso. Resulta de uma irresponsável incitação. No dia 19 de abril, dirigindo-se a apoiares reunidos em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro exortou a súcia que pedia o fechamento das instituições democráticas a “lutar” com ele. “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. Acabou a patifaria!”, bradou Bolsonaro, como se estivesse prestes a descer da Sierra Maestra, e não de uma caminhonete transformada em palanque.
Segundo o portal Congresso em Foco, outro que está por trás da gravíssima ameaça de assalto ao Congresso e à Corte Suprema é Marcelo Stachin, um dos líderes da campanha de formação da Aliança pelo Brasil, partido que o presidente Jair Bolsonaro pretende criar para chamar de seu. Ainda não se sabe quando, e se, a Aliança pelo Brasil cumprirá os requisitos legais e será autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Fato é que a agremiação está muito mais próxima de um movimento golpista do que de um partido político.
Nos regimes democráticos, em especial em democracias representativas como é o caso do Brasil, os partidos políticos são as organizações por meio das quais os cidadãos participam da vida pública para contribuir na construção daquilo que em ciência política se convencionou chamar de “vontade do Estado”. Como se afigura, a Aliança pelo Brasil pretende o exato oposto, qual seja, eliminar qualquer possibilidade de diálogo para a formação daquela vontade. Assumindo a ação direta, como a criminosa intentona em Brasília, assemelha-se à tropa de segurança do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, criada em 1920 e precursora da temida Sturmabteilung (SA), a Seção de Assalto de triste memória. Quem duvida que veja as imagens das agressões dos camisas pardas a enfermeiras e jornalistas.
Na essência do movimento de formação da Aliança pelo Brasil, defendido e liderado por alguns dos que estão acampados em Brasília a ameaçar o Congresso e o STF, estão todos os elementos que identificam um movimento golpista, e não um partido político: a evocação a um passado mítico e glorioso; a propaganda (não raro disseminando informações falsas ou distorcendo fatos); o anti-intelectualismo; a vitimização de Jair Bolsonaro, tratado como um bom homem cercado de “patifes” por todos os lados, o “sistema”; o apelo a uma noção de “pátria” por meio da apropriação dos símbolos nacionais; e, por fim, a ação pela desarticulação da União e da sociedade. O que pode ser mais desagregador do que um movimento que ameaça partir para a ação violenta com o objetivo de fechar a Casa de representação do povo e a mais alta instância do Poder Judiciário? Não por acaso, o STF tem despertado especial revolta entre os camisas pardas do bolsonarismo. Classificada pelo tal Paulo Felipe como uma “casa maldita, composta por onze gângsteres”, a Corte Suprema tem se erguido em defesa da Constituição contra os avanços autoritários do presidente Jair Bolsonaro.
Um ato golpista desse jaez, cujos desdobramentos são imprevisíveis, é repugnante por si só e merece imediata condenação por todas as forças amantes da lei e da liberdade no País, em especial as Forças Armadas, citadas nominalmente tanto pelo presidente como por alguns dos líderes da ação golpista. É ainda mais acintoso porque toma justamente o local que representa a essência desta República para urdir um ataque aos Poderes Legislativo e Judiciário. Terá esse episódio mais uma vez o apoio explícito do chefe do Poder Executivo?
Regina, fria, insensível e debochada
A entrevista que Regina concedeu aos repórteres Daniel Adjuto, Daniela Lima e Reinaldo Gottino, da CNN, mostrou o lado mais obscuro da atriz, a sua frieza e insensibilidade, o caráter tão deformado quanto o do seu antecessor Roberto Alvim. Debochada, a secretária zombou da morte, da tortura, fazendo uma dancinha patética na cadeira enquanto cantarolava “Pra Frente Brasil”, música-hino da seleção brasileira de 1970 mas que também serviu como propaganda do governo do general Emílio Médici, o mais brutal do ciclo militar que durou 21 anos.
Regina também protagonizou um episódio de incoerência explícita, atributo muito comum entre os radicais do bolsonarismo. Ao iniciar sua entrevista, disse que falava à CNN porque adora “essa ideia de dois lados”. A atriz quis sugerir que os demais veículos não dão os dois lados de uma história. Bobagem. O importante foi o que se viu mais adiante, quando a secretária produziu um faniquito ao vivo porque a emissora colocou um vídeo com Maitê Proença cobrando medidas da secretária de Cultura. Regina não quis ouvir o outro lado e chegou a tirar o fone de ouvido que usava.
Não preciso repetir aqui a confusão produzida ao vivo pela atriz ao perceber que um VT de Maitê estava entrando no ar para questioná-la. Mas é necessário lembrar um ponto pelo menos. Ao retirar o fone para não ouvir a colega de profissão, Regina cobrou dos jornalistas por terem colocado um contraditório na entrevista que ela imaginou ser propriedade sua. “Pra quê desenterrar uma mensagem da Maitê? Quem é você?”, perguntou a secretária para Daniela Lima, estufada de autoridade e claramente irada porque a emissora apresentou o que antes ela disse adorar, o outro lado.
Ontem, menos de 24 horas depois de a entrevista ir ao ar, os robôs do bolsonarismo começaram a torpedear Maitê e a CNN nas redes sociais. A emissora que entrou no ar há menos de dois meses passou a ser atacada pelos mesmos energúmenos habituais. Aqueles que confundem jornalismo com propaganda, os que só querem ler, ver e ouvir boas histórias. As ofensas foram as de sempre, mudando apenas o seu objeto. “Imprensa canalha, jornalismo comunista, CNN Lixo”. Bem-vinda ao clube.
Os morlocks
Muita gente agora repete a pergunta quando os militantes bolsominions saem às ruas, fantasiados de verde e amarelo, para mais uma marcha da insensatez e do orgulho nazi-fascista.
Os black blocs nada tinham ou têm a ver com os squadistri do duce brasiliense, esses belicosos gigolôs do patriotismo e do farisaísmo evangélico que nos fins de semana pressionam pelo fim da democracia e prometem deflagrar uma guerra civil, uns até já metidos em uniformes de campanha, como se viu num vídeo grotesco e criminoso veiculado nas redes sociais quarta-feira à noite.
Os black blocs – inesperados, incontroláveis e apenas visíveis no breve momento da baderna – vandalizavam símbolos materiais do capitalismo selvagem, atacavam vitrines de butiques, caixas eletrônicos, carros de luxo, jogavam pedras e outros objetos à mão; mas não agrediam pessoas física ou verbalmente; não faziam ameaças nem incitavam a intervenção de outras forças além das suas próprias, que nunca botaram para quebrar exigindo o fechamento do Congresso e do STJ, a reedição do AI-5 e o que mais pudesse resultar de um putsch militar.

De que trevas afinal vieram essas criaturas que se enrolam no pavilhão nacional e, destilando ódio e ostentando uma ferocidade homicida, agridem jornalistas e até enfermeiras, reverberando desejos trogloditas que ressentimentos incubaram, a ignorância exacerbou e o insano, narcisista e messiânico capitão-presidente não se cansa de insuflar?
Meu palpite é que saíram de lugar nada recomendável, onde, no mínimo, reina a escuridão. Como os Morlocks.
Taí um nome que lhes cai bem. Tem mais pedigree que os black blocs. Inventou-o o britânico H.G. Wells, no romance A Máquina do Tempo, a mais lida aventura sobre engenhocas que nos levam ao passado e ao futuro. Zumbis antropoides, que se homiziaram debaixo da Terra após uma guerra nuclear que quase destruiu o planeta, os morlocks viviam aterrorizando os Elois, os habitantes da superfície terrestre. As duas adaptações do livro ao cinema respeitaram sua configuração original: medonhas criaturas de aspecto simiesco (Darwin explica), inteiramente cegas (Platão explica) e canibalescas – os vilões da história.
Cinco décadas atrás, os quadrinhos dos X-Men os reciclaram como mutantes proscritos da sociedade por preconceitos físicos e raciais, que sobreviviam nos subterrâneos de Manhattan, em abandonados abrigos antiatômicos, grandes tubulações de ar refrigerado e esgotos ainda mais carregados de simbolismo. Ganharam outro status sociopolítico no auge da luta pelos Direitos Civis nos EUA, bem mais expressivo do que lhes dera Wells, ao paragoná-los, superficialmente, com a classe operária da Inglaterra vitoriana.
Nossos morlocks assemelham-se aos que nos aterrorizaram no romance e na tela: cegas e desatinadas criaturas incapazes de ver a luz.
*
Durante a ditadura militar, sempre que morria um grande artista reprimido pelo regime, alguém espanava o bordão “assassinato cultural” e o devolvia à prateleira da retórica elegíaca. Às vezes era mais uma hipérbole do que uma acusação fundamentada, um desabafo inflamado pela dor da perda e a certeza de que o autoritarismo também destrói vidas por vias tortas.Esta semana caiu na conta do governo Bolsonaro um binômio fadado a prosperar, “suicídio cultural”. Na carta em que justificou seu gesto extremo, o ator Flávio Migliaccio deixou claro que já não aguentava mais ser velho no Boçalnistão.
“Não deu mais”, desabafou. E prosseguiu: “A velhice neste país é o caos como tudo agora”. Migliaccio, que na juventude enfrentou com destemor, tenacidade e arte a ditadura cultuada pelos morlocks, no inverno do seu descontentamento, capitulou. “Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com este tipo de gente que acabei encontrando”, arrematou.
Como bem notou a jornalista Cynara Menezes, em sua página na internet, Migliaccio não escreveu uma carta de suicida, mas “um protesto, um apelo, uma súplica”. Mais: “um documento histórico dos tempos atuais”. Cynara foi quem melhor abordou, nas mídias sociais, a polêmica que se armou em torno da divulgação da carta, por alguns vista como uma invasão (ou evasão) de privacidade. Não confere: o ator a deixou na cabeceira da cama, para que todos a lessem.
Manifesto não se engaveta. O “caos” da velhice a que Migliaccio se refere é uma clara alusão à reforma da Previdência e ao contumaz desprezo dos atuais governantes pelos idosos, tidos como vítimas inevitavelmente preferenciais da covid-19 (uma doença que “só mata velho”) e pacientes a sempre serem preteridos por um jovem quando houver apenas um leito com respirador disponível.
Imagine-se na emergência de um hospital, com apenas um leito disponível e dois candidatos: Aldir Blanc, 73 anos, e um garotão qualquer, que não estuda, não trabalha, um inútil. A escolha esperada não é a de Sofia e merecia ser batizada com o nome do ministro da Saúde que a recomendou. Mas para que preservar a vida de um garotão, se ao que tudo indica, seu futuro é uma miragem dantesca?
Encenações
O Centrão, todo mundo sabe, é do tipo que vende a mãe mas não entrega. O Diário Oficial cheio de indicações da temporada não garante que, depois de um prazo regulamentar de governismo, os partidos do grupo não venham, lá na frente, a votar favoravelmente a um impeachment de Jair Bolsonaro e ainda vão dizer que são amigos de Hamilton Mourão desde criancinha. No primeiro ato desse teatro, porém, o Centrão vem desempenhando um papel importantíssimo para todas as forças do espectro político. Muito além do Planalto, o verniz de governabilidade que seus integrantes estão dando a Bolsonaro serve a gregos e troianos do mundo político, dando-lhes a desculpa que precisavam para não levar a sério neste momento um processo de afastamento do presidente da República.
Na prática, nem as forças de centro e de direita que até ontem se aglutinavam em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e nem as de esquerda que estão na oposição querem que Bolsonaro seja derrubado pelo ex-juiz Sergio Moro – algoz de muitos de seus integrantes na Lava Jato e, portanto, um adversário a ser varrido do cenário. Seu raciocínio - e seu maior temor - é de que, afastado o presidente por um processo de impeachment aberto com base nas acusações de interferência na PF do ex-ministro da Justiça, Moro pode recuperar a aura de herói e passar a ser personagem irremovível do palco de 2022.
Nas coxias, governadores como João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ) e outros pré-candidatos que se preparam para entrar em cena não querem disputar os votos do campo conservador com Moro. Não vão fazer força por esse impeachment, pois preferem brigar com um Bolsonaro desgastado pelo conjunto da obra das crises políticas de seu governo e pelo impacto da pandemia da Covid-19. Caso muito semelhante ao do PT de Lula e Fernando Haddad e de outras forças da oposição. Preferem ver Bolsonaro sangrar, mas ficar no cargo achando que pode se candidatar à reeleição e, com isso, dividir as forças de direita.
O establishment político sabe que as incertezas da pandemia do coronavírus - que nos levam a imaginar até se chegaremos vivos a - podem mudar fortemente esse enredo. Seus integrantes acreditam até que, em meio à forte recessão e aos atos insensatos quase diários que comete, Bolsonaro pode não conseguir mesmo concluir o mandato. Admitem, portanto, um impeachment no segundo ato dessa peça, lá para meados de 2021. Nesse cálculo, não seria, porém, um evento tão consagrador assim para Moro – que, além de tudo, vai estar desgastado por uma batalha perdida contra o Planalto se as investigações ora em curso não resultarem no afastamento, como parece.
Políticos – e juízes também – costumam ser excelentes atores. Dão a impressão de querer uma coisa quando às vezes o que querem é exatamente o oposto. Por isso, é bom ter olho vivo nessa função. Da euforia governista do Centrão aos indignados pedidos de CPI para investigar Bolsonaro com base nas revelações de Moro, é preciso dar o devido desconto ao que vem sendo dito e feito nessa encenação.
O fim do espetáculo ainda não foi escrito, e só teremos noção do desfecho a partir do comportamento da plateia – que, ao fim e ao cabo, é quem compra os ingressos e determina o sucesso ou não de uma montagem. Se ela continuar cochilando, meio apática, Bolsonaro fica no palco desempenhando seu papel canastrão. Mas se o pessoal, irritado e esfomeado, começar a vaiar, jogar ovos e tomates, porém, o The End promete ficar eletrizante.Helena Chagas
Na prática, nem as forças de centro e de direita que até ontem se aglutinavam em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e nem as de esquerda que estão na oposição querem que Bolsonaro seja derrubado pelo ex-juiz Sergio Moro – algoz de muitos de seus integrantes na Lava Jato e, portanto, um adversário a ser varrido do cenário. Seu raciocínio - e seu maior temor - é de que, afastado o presidente por um processo de impeachment aberto com base nas acusações de interferência na PF do ex-ministro da Justiça, Moro pode recuperar a aura de herói e passar a ser personagem irremovível do palco de 2022.
Nas coxias, governadores como João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ) e outros pré-candidatos que se preparam para entrar em cena não querem disputar os votos do campo conservador com Moro. Não vão fazer força por esse impeachment, pois preferem brigar com um Bolsonaro desgastado pelo conjunto da obra das crises políticas de seu governo e pelo impacto da pandemia da Covid-19. Caso muito semelhante ao do PT de Lula e Fernando Haddad e de outras forças da oposição. Preferem ver Bolsonaro sangrar, mas ficar no cargo achando que pode se candidatar à reeleição e, com isso, dividir as forças de direita.
O establishment político sabe que as incertezas da pandemia do coronavírus - que nos levam a imaginar até se chegaremos vivos a - podem mudar fortemente esse enredo. Seus integrantes acreditam até que, em meio à forte recessão e aos atos insensatos quase diários que comete, Bolsonaro pode não conseguir mesmo concluir o mandato. Admitem, portanto, um impeachment no segundo ato dessa peça, lá para meados de 2021. Nesse cálculo, não seria, porém, um evento tão consagrador assim para Moro – que, além de tudo, vai estar desgastado por uma batalha perdida contra o Planalto se as investigações ora em curso não resultarem no afastamento, como parece.
Políticos – e juízes também – costumam ser excelentes atores. Dão a impressão de querer uma coisa quando às vezes o que querem é exatamente o oposto. Por isso, é bom ter olho vivo nessa função. Da euforia governista do Centrão aos indignados pedidos de CPI para investigar Bolsonaro com base nas revelações de Moro, é preciso dar o devido desconto ao que vem sendo dito e feito nessa encenação.
O fim do espetáculo ainda não foi escrito, e só teremos noção do desfecho a partir do comportamento da plateia – que, ao fim e ao cabo, é quem compra os ingressos e determina o sucesso ou não de uma montagem. Se ela continuar cochilando, meio apática, Bolsonaro fica no palco desempenhando seu papel canastrão. Mas se o pessoal, irritado e esfomeado, começar a vaiar, jogar ovos e tomates, porém, o The End promete ficar eletrizante.Helena Chagas
Notas do anoitecer da crise
(...) Que poderia escrever um cronista, em dia assim? Todas as ordens foram traídas. Todas as promessas foram desfeitas. Já começo a sentir algum desgosto de ser brasileiro... e ter que continuar sendo, por todos os séculos, por todos os remorsos, por todas as insônias, pela minha pobreza, pelo meu amor. Haverá outro dia esperança? Quando?
Então, leitor, contente-se, por hoje, com estas notas escritas, sob um céu castanho. Feitas de uma melancólica preguiça de ser. Sim. De ser. Partilhe comigo desse perdoável desgosto pelas coisas paradas, pelos homens parados, por um deus parado. Há um desânimo geral, que nem a poesia salvará. A poesia, apenas, nos ensinaria a morrer. Assim seja.
Então, leitor, contente-se, por hoje, com estas notas escritas, sob um céu castanho. Feitas de uma melancólica preguiça de ser. Sim. De ser. Partilhe comigo desse perdoável desgosto pelas coisas paradas, pelos homens parados, por um deus parado. Há um desânimo geral, que nem a poesia salvará. A poesia, apenas, nos ensinaria a morrer. Assim seja.
O amor mascarado
As ruas de Lisboa, agora desertas, limpas e desafogadas, pareciam mais largas. A cidade inteira resplandecia, lavada e escovada, sob um doce sol de primavera. À porta da padaria encontrou uma fila de umas dez pessoas, a rigorosos dois metros de distância umas das outras, todas equipadas com máscaras e luvas. À frente dele postava-se uma mulher elegante. Pedro costumava vê-la ali. A máscara dela fora confecionada a partir de um tecido florido. Era como se tivesse o rosto afundado num ramalhete de flores. Cumprimentaram-se com um aceno alegre. Nunca haviam trocado mais do que duas palavras de circunstância. Porém, Pedro simpatizava com a mulher e ela parecia retribuir tal sentimento. Naquela manhã isso ficou evidente quando, saindo da padaria, ao cruzar-se com o homem, a desconhecida lhe passou para as mãos um papelinho rabiscado à pressa. Era um número de telefone. Mal chegou a casa, Pedro ligou para o número:
– Olá! Sou o tipo da fila da padaria. Chamo-me…
– Não preciso de saber o teu nome…
– E o teu, posso saber?
– Não. Tu também não precisas de saber o meu. Podes chamar-me, eu sei lá, Alfonsina. Tu vais ser Mário…

Pedro teve uma sensação de reconhecimento, como quando um perfume súbito a pastéis de massa tenra, a terra molhada, a goiabas maduras nos faz regressar aos lugares da nossa infância. Aquela voz acordava nele sentimentos atordoados e contraditórios.
– Posso saber o que fazes, quero dizer, profissionalmente? – perguntou, tropeçando nas palavras.
A mulher riu-se:
– Não. Prefiro inventar. O jogo é esse. A partir de agora só vale a ficção.
Disse-lhe que era cantora. Costumava cantar numa casa de fados. Cantou para ele. Cantava bem. Pedro, ou Mário, contou que era arquiteto. Tinha um atelier em Berlim. Fazia muitos projetos para países do Médio Oriente. Quando se despediram, três horas mais tarde, já se desconheciam muitíssimo bem. As conversas continuaram nos dias seguintes. Pedro foi-se tornando mais Mário a cada conversa. Nos intervalos sentia a falta de Alfonsina. Sozinho em casa, irritava-se com a presença de Pedro, que passava quase todo o tempo ocupado com as suas traduções. Sim, Pedro era tradutor. Sempre trabalhara em casa. O confinamento pouco alterara uma rotina invariável, acordar, lavar os dentes, comer um iogurte e uma fruta, e sentar-se depois a traduzir até à uma da tarde. Almoçava sempre na mesma tasca, na esquina, fazia uma sesta breve e voltava ao trabalho por volta das duas e meia.
Pela primeira vez em muitos anos, custava-lhe sentar-se para trabalhar. A cada frase se distraía. Deixava de ser Pedro, o tradutor, para ser Mário, o arquiteto. Deu por si a desenhar projetos de grandes edifícios de apartamentos enquanto pensava em Alfonsina. Ela não lhe dissera em que casa de fados costumava cantar. Procurou no Google, mas não encontrou uma única referência a uma fadista chamada Alfonsina. Lembrou-se então de que Alfonsina não era real, e isso doeu-lhe, como o fim de um grande amor. Logo a seguir, porém, ela ligou, e cantou para ele, e contou-lhe episódios divertidos da sua vida nas noites alfacinhas, e voltou a ser mais verdadeira do que qualquer mulher que ele alguma vez conhecera.
Pedro só costumava ir à padaria duas vezes por semana. Dois pães grandes davam-lhe para a semana toda. Depois que se começou a transformar em Mário, passou a ir todas as manhãs, na secreta esperança de encontrar Alfonsina. Como ela não aparecia à hora habitual, tentou outras. Chegava a ir à padaria três vezes no mesmo dia. O pão multiplicava-se. Guardou o excedente no congelador. Quando o congelador ficou cheio, passou a armazená-lo em caixas de sapatos, na despensa, na cozinha e até debaixo da cama.
– Preciso ver-te – implorou Mário, numa noite em que haviam conversado mais tempo do que o habitual, e ele terminara a última garrafa de bom vinho que guardava em casa. – Só quero ver o teu rosto.
Surpreendentemente, Alfonsina concordou. Prometeu que faria uma selfie, ao acordar, com a luz generosa do amanhecer, e que a enviaria para ele. Mário dormiu mal. Sonhou com uma mulher cujo rosto mudava ao longo do dia: de manhã era jovem e resplandecente; contudo, ia perdendo o brilho e a frescura à medida que o sol percorria o céu e depois declinava, até se transformar, finalmente, num ser opaco e murcho. Acordou por volta das sete da manhã, com o tilintar do telefone. Alfonsina cumprira a promessa: ali estava ela, desmascarada, posando diante de um vaso branco com orquídeas.
Pedro deixou cair o telefone. Sentou-se no soalho, encostado à parede, com o coração aos saltos: era Helena, a namorada de quem fugira, quinze anos antes, após vinte meses de uma relação tumultuosa. Vira-a pela última vez no casamento de uma irmã dela. A mulher quebrara-lhe uma jarra com orquídeas contra a cabeça, e ele tivera de ser levado para o hospital, coberto de sangue e de vergonha. Estava então no terceiro ano de arquitetura. Abandonara a faculdade, trocara de telefone e de cidade e recomeçara a vida como tradutor.
Olhou de novo o telefone. Era Helena, sem dúvida. E sorria.
Um governo deteriorado
À medida que os fatos políticos vão ocorrendo sem que as barreiras institucionais sejam eficazes para conter o ímpeto corrosivo do presidente Bolsonaro, preocupa que militares antes considerados capazes de incutir bom-senso ao governo estejam avalizando uma visão paranóica da situação política.
A mesma insensibilidade que o presidente Bolsonaro explicitou ao ir de supetão ao Supremo Tribunal Federal (STF) pressionar pelo fim da quarentena, num momento em que o país claramente entra na fase aguda da pandemia e tem o número de mortes diário aumentando dramaticamente.
A presença de seus ministros de origem militar na comitiva mórbida indica que eles pensam igual a Bolsonaro, ou se submeteram a seu desprezo pelo sofrimento alheio, numa visão utilitarista da vida em sociedade.
O estilo provocador do presidente já é conhecido de todos. Ele pretende constranger aqueles que lhe impõem limites, mesmo instituições como o Supremo, que tem o papel de indicar ao presidente quando ele saiu do que a Constituição determina.
Foi assim que assessores como o General Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ou o chefe do Gabinete Civil General Braga Neto, ou o Chefe da Secretaria de Governo, General Luiz Eduardo Ramos, transformaram-se em meros cumpridores de ordens, perdendo a qualidade de formadores de políticas governamentais.
Os três estão arrolados como testemunhas no inquérito do Supremo sobre a tentativa de interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal, e em conjunto sentiram-se afrontados pelos termos usados pelo ministro Celso de Mello ao convoca-los.
O que é uma formalidade burocrática, afirmar que os que não comparecerem na data marcada terão que fazê-lo “coercitivamente, ou debaixo de vara”, foi considerado uma afronta aos militares, que se consideram acima de qualquer suspeita.
O mesmo tratamento foi dado aos deputados que estão convocados e demais servidores públicos, sem que os termos fossem contestados. Esse sentimento de estar acima dos procedimentos normais em casos como esse desbordou em uma nota oficial do Clube Militar, que acusa o ministro decano do Supremo de ter ódio do governo federal, e considera “falta de habilidade, educação, compostura e bom-senso” o tratamento recebido pelos militares.
Esse sentimento alimenta as convocações para manifestações este fim de semana, contra o Supremo e o Congresso, e a favor da intervenção militar. Essa é uma demonstração de que os militares não deveriam participar da vida política do país, pois vestem ternos civis, mas se consideram uma casta diferenciada.
O recente balão de ensaio, que não prosperou diante da reação negativa, de colocar o General Luiz Eduardo Ramos no comando do Exército em lugar do General Edson Leal Pujol, faz parte dessa paranoia de Bolsonaro de só ter em seu entorno pessoas que digam amém sem contestar.
O General Pujol tem uma postura mais contida na relação com a política, e teria irritado o presidente ao dar o cotovelo para cumprimentá-lo em uma solenidade, deixando-o com a mão no ar. Uma demonstração de que segue as normas internacionais e nacionais de afastamento social, interpretada por Bolsonaro como uma atitude afrontosa. O que denota um governo deteriorado por uma visão autoritária do poder.
O General Vilas Boas, ex-comandante do Exército e figura icônica entre seus pares, encontrou palavras para elogiar a entrevista à CNN da ainda secretária de cultura Regina Duarte onde ela, em vez da “sensibilidade” que o general vislumbrou, demonstrou uma absurda indiferença diante das mortes pela Covid-19, das torturas e mortes na ditadura militar.
A mesma insensibilidade que o presidente Bolsonaro explicitou ao ir de supetão ao Supremo Tribunal Federal (STF) pressionar pelo fim da quarentena, num momento em que o país claramente entra na fase aguda da pandemia e tem o número de mortes diário aumentando dramaticamente.
A presença de seus ministros de origem militar na comitiva mórbida indica que eles pensam igual a Bolsonaro, ou se submeteram a seu desprezo pelo sofrimento alheio, numa visão utilitarista da vida em sociedade.
Ainda ontem, quando novo salto levou os óbitos à casa dos 700 diários, caminhando para a trágica marca de 10 mil mortes devido à Covid-19, Bolsonaro fez troça sobre uma churrascada que pretende realizar hoje no Palácio da Alvorada.
O estilo provocador do presidente já é conhecido de todos. Ele pretende constranger aqueles que lhe impõem limites, mesmo instituições como o Supremo, que tem o papel de indicar ao presidente quando ele saiu do que a Constituição determina.
Foi assim que assessores como o General Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ou o chefe do Gabinete Civil General Braga Neto, ou o Chefe da Secretaria de Governo, General Luiz Eduardo Ramos, transformaram-se em meros cumpridores de ordens, perdendo a qualidade de formadores de políticas governamentais.
Os três estão arrolados como testemunhas no inquérito do Supremo sobre a tentativa de interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal, e em conjunto sentiram-se afrontados pelos termos usados pelo ministro Celso de Mello ao convoca-los.
O que é uma formalidade burocrática, afirmar que os que não comparecerem na data marcada terão que fazê-lo “coercitivamente, ou debaixo de vara”, foi considerado uma afronta aos militares, que se consideram acima de qualquer suspeita.
O mesmo tratamento foi dado aos deputados que estão convocados e demais servidores públicos, sem que os termos fossem contestados. Esse sentimento de estar acima dos procedimentos normais em casos como esse desbordou em uma nota oficial do Clube Militar, que acusa o ministro decano do Supremo de ter ódio do governo federal, e considera “falta de habilidade, educação, compostura e bom-senso” o tratamento recebido pelos militares.
Esse sentimento alimenta as convocações para manifestações este fim de semana, contra o Supremo e o Congresso, e a favor da intervenção militar. Essa é uma demonstração de que os militares não deveriam participar da vida política do país, pois vestem ternos civis, mas se consideram uma casta diferenciada.
O recente balão de ensaio, que não prosperou diante da reação negativa, de colocar o General Luiz Eduardo Ramos no comando do Exército em lugar do General Edson Leal Pujol, faz parte dessa paranoia de Bolsonaro de só ter em seu entorno pessoas que digam amém sem contestar.
O General Pujol tem uma postura mais contida na relação com a política, e teria irritado o presidente ao dar o cotovelo para cumprimentá-lo em uma solenidade, deixando-o com a mão no ar. Uma demonstração de que segue as normas internacionais e nacionais de afastamento social, interpretada por Bolsonaro como uma atitude afrontosa. O que denota um governo deteriorado por uma visão autoritária do poder.
O que estamos esperando?
Hoje, indignada com o que via, concluí: será que Rodrigo Maia está esperando que Bolsonaro invada o Congresso, ocupe a mesa diretora, sente na cadeira da presidência da Câmara e tripudie sobre o Legislativo assim como tripudiou sobre o STF?
Seria um escândalo? Seria, mas isso não incomoda o Bolsonaro. Ele até gosta pois sem gastar um tostão furado, seu nome continua a ser repetido pela Imprensa diariamente, contribuindo para que ele mantenha os índices de popularidade que o convencem que vai ser reeleito em 2022.

Hoje, creio que talvez recordando o comentário esperto de seu filho Bananinha, no meio de uma reunião com empresários, Bolsonaro pensou: ‘dispenso o cabo e o tanque, vou só com nossos empresários’. E assim fez. O grupo animado saiu a pé do Planalto para o STF. Ele ocupou a mesa principal, abriu a reunião, deu voz ao seu ministro da Economia e só depois de ouvir aquilo que queria ouvir, passou a palavra ao presidente do STF que estava ali apenas como espectador interessado.
Um dos empresários fez o seguinte comentário:
(...)"durante reunião com o presidente, fomos convidados por ele a ir ao Supremo e não houve nenhum estresse. Foi importante termos ido ao STF. Se o Congresso estivesse funcionando, também teríamos ido até lá relatar os nossos problemas. Não teve constrangimento e o ministro Toffoli foi receptivo e sugeriu criar um comitê de avaliação. Achamos importante ter ido até lá mostrar o mundo real”.
Quer dizer, além de tratarem o STF como se fosse a Casa da Mãe Joana, ainda ofendem seus membros ao dizer que a invasão foi importante por mostrar aos juízes togados como é o mundo real, espaço que eles acreditam é ignorado pelo Supremo.
O que o presidente Rodrigo Maia achou disso tudo? Pelo menos nada que o faça abrir a santa gaveta onde guarda os pedidos de impeachment de Bolsonaro, que já são muitos.
Agora é esperar a próxima aglomeração no cercadinho do Alvorada e torcer para que a Imprensa saiba manter sua dignidade, não faça perguntas, só fotografe, sem permitir que Bolsonare a mande calar a boca. Deixem que ele fale sozinho. Afinal, o que ele tem a dizer, não se escreve.Maria Helena RR de Sousa
sexta-feira, 8 de maio de 2020
Tropa do genocídio
Guedes e Bolsonaro organizaram uma marcha da estupidez e da morte em direção ao STF, com um séquito de empresários, para coagir a Corte, colocar a crise no colo dos ministros e terceirizar suas responsabilidades. No caminho, pisaram nos 8,5 mil mortos que a Covid-19 já deixou.
O governo entrou no modo encenação. Só existe na forma. Finge preocupação, finge que a economia importa, finge liberar o auxílio emergencial, finge o socorro às empresas. Só não finge o desprezo pela vida e pelos mais pobres. Nisso, são autênticos
Roberto Freire, presidente do Cidadania
Brasil está perto da quebra democrática
Parafraseando o saudoso Aldir Blanc, morto pela covid-19 nesta semana, o Brasil dança na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar. Embora menor que na década de 1960, há um risco de quebra democrática que parece cada vez mais aterrorizante após as manifestações realizadas aos domingos em frente ao Palácio do Planalto, as chamadas “coronafest”, com pessoas louvando o autoritarismo e ignorando a pandemia. Qualquer leitura de todo o mandato até agora constataria que Bolsonaro e seus seguidores não vão diminuir o ímpeto radical. Quem apostou no contrário ficou no meio do caminho, como Bebianno ou o general Santos Cruz.
Como o perigo está batendo à nossa porta, é importante para o país construir um cenário em que o bolsonarismo chega de forma autoritária ao poder, comparando-o com o golpe de 1964. Para começar, Bolsonaro teria muito menos apoio social e teria de ser mais revolucionário, isto é, alterar mais profundamente as instituições e suas relações com a sociedade. A mídia, o grande empresariado nacional e internacional, parte da classe média mais escolarizada, os Estados Unidos e, sobretudo, a maioria dos políticos com mandato compunham os grupos que deram suporte à chegada de Castelo Branco à Presidência.
Haveria maiores dificuldades para a atuação do bolsonarismo golpista nos grandes centros urbanos, onde há mais movimentos e organizações sociais independentes e um conjunto grande da população pobre que rejeita Bolsonaro desde 2018. Além disso, as capitais e seu entorno têm sofrido mais com as mortes pela covid-19, e isso não será fácil de esquecer para milhares de famílias. De todo modo, mobilizações nas maiores cidades e regiões metropolitanas poderiam gerar um conflito não só entre posições políticas, mas com forte violência física.
O golpe de 1964 interrompeu a democracia, mas não foi feito sem o apoio de parte das principais elites políticas e econômicas da época. Importantes lideranças políticas apoiaram a queda de João Goulart. Os principais governadores participaram fortemente da conspiração, especialmente Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. São Paulo foi o epicentro econômico da queda do regime, com o apoio das maiores empresas brasileiras e estrangeiras. O comando da opinião pública majoritária estava no Rio, lugar que concentrava muitas das barreiras ao golpismo e, não obstante, onde também havia uma mídia e intelectuais que deram um suporte importante à quebra democrática.
Voltemos aos dias atuais. Quem daria o suporte político a um golpe organizado por Bolsonaro? No Congresso Nacional, nem a cúpula nem a maioria de deputados e senadores apoiaria esse processo autoritário. Os governos estaduais e das capitais têm se colocado cada vez mais contra as decisões de presidente. Dado esse conflito federativo, uma quebra democrática bolsonarista desorganizaria o sistema político-administrativo, uma vez que as principais políticas públicas são implementadas pelos governos subnacionais.
São Paulo não cumpriria a função de locomotiva de um regime autoritário como no passado. O governador João Doria, o prefeito Bruno Covas e as lideranças mais expressivas de sua economia, vindas da indústria, dos serviços e do sistema financeiro, não aceitariam esse papel. Sabe-se que algumas entidades empresariais têm sido governistas desde sempre, contudo, elas não conseguiriam atrair para uma aventura golpista o lado mais dinâmico da economia, que hoje tem fortes conexão com estruturas globalizadas. Em outras palavras, Bolsonaro teria que gerar uma guerra enorme com as elites paulistas e com o oposicionismo típico da região metropolitana que contém mais de 21 milhões de habitantes.
Quando comparado ao golpe de 1964, o bolsonarismo teria de fazer uma destruição institucional muito maior, porque grande parte do sistema está contra ele - sem que a maioria dos pobres apoie ou se mobilize pelo presidente. Seguindo sua lógica de atacar as instituições, Bolsonaro tenderia a cassar a maioria dos parlamentares. Ele também teria que, logo de cara, aposentar compulsoriamente todos os ministros do STF, pois todos são suspeitos para as hostes bolsonaristas, quando somente em 1969 começou o expurgo no Supremo feito pela ditadura.
Indo mais direto ao ponto: dada a atual correlação de forças e resistências institucionais, bem como em razão da visão ideológica do bolsonarismo, muito mais radical hoje do que em 1964, o AI-5 teria de ser o primeiro ato de um governo autoritário comandado por Bolsonaro. Não haveria espaços para acomodações iniciais com os políticos nem com o Judiciário, muito menos com a “accountability” vinda da sociedade ou do Ministério Público. Seria uma revolução desde cara, com grande desorganização do país e forte tendência de gerar violência por todos os lados.
Uma quebra democrática agora não teria apoio internacional algum. Muito pelo contrário: o mais provável seria sofrer represálias da Europa - seria o fim da entrada na OCDE. Trump não apoiaria Bolsonaro porque haverá eleições presidenciais neste ano, e ele prefere sua reeleição acima de tudo. Como os democratas têm um grande poder no Congresso americano, é bem provável que viessem sanções dos Estados Unidos ao Brasil. Todo esse imbróglio levaria bilhões de dólares para fora do país. No fundo, alguém precisa dizer ao presidente que acabou a Guerra Fria - e não será o ministro da Relações Exteriores que fará isso.
O pior é que a lógica radical do bolsonarismo, que depende de construir inimigos a todo momento, também levaria a um conflito explicito com a China. Aqui vale lembrar que o regime militar, afora um ou outro arroubo ideológico, no geral foi mais pragmático na política externa. Não se pode esperar pragmatismo político de Bolsonaro, menos ainda se ele ganhar um poder autocrático. Por isso, seria esperado que fosse reforçada a ideia do perigo do comunismo chinês e as exportações brasileiras do agronegócio sofreriam um enorme baque.
Se levado adiante, um golpe bolsonarista poderia ter a participação de parte dos militares no processo, todavia, a instituição militar perderia muito com tudo isso porque, ao contrário do outro regime, não seria ela a condutora do governo. Seria um governo de um líder carismático e extremista, que é ex-militar, usando os militares. Pior do que isso só a possibilidade de Bolsonaro tentar se segurar no poder por meio de milícias, compostas por civis recrutados, por policiais das forças subnacionais e por membros de patentes menores das Forças Armadas. Seria o fim de um projeto institucional construído desde o fim da Guerra do Paraguai, que daria lugar ao bolsonarismo como organizador da coerção estatal.
O tamanho do problema advindo de um golpismo seria muito maior diante do contexto atual, em que vivemos a maior crise do país desde a Segunda Guerra Mundial, com uma combinação terrível de pandemia, estagnação econômica, aumento da desigualdade social e da polarização política. Quem participasse de um processo como esse perderia muito não só no curto prazo, mas para sua imagem na história. Os militares estariam dispostos a isso?
Como dito no início do artigo, esse cenário, felizmente, não é o mais provável. Porém, montá-lo é útil para, em primeiro lugar, evitar de todo modo que a democracia seja rompida. Nossos filhos e netos não merecem que o destino do país seja entregue a um chavismo de extrema direita. Além disso, mostrar o que seria uma distopia bolsonarista realça o seu contrário, isto é, o que deveríamos fazer para sair democraticamente da imensa crise atual. Algo que exigirá não só ideias melhores, mas lideranças e acordos políticos acima da polarização que nos comanda desde 2013. Para essa tarefa, Bolsonaro não tem sido o líder adequado e nem parece querer ocupar esse papel. O modo bolsonarista de governar, em suma, é um problema com ou sem golpe, deixando-nos numa corda bamba de sombrinha - e agora sem a beleza da poesia de Aldir Blanc.Fernando Abrucio
Pandemia expõe “necropolítica à brasileira” e uma certa elite que não vê além do umbigo
O próprio Benchimol veio à público se desculpar pela frase “mal construída”, que, segundo ele, foi tirada do contexto e não representa o que acredita. Mas na medida em que a população mais rica começa a se sentir confiante de que a maior ameaça― para eles ― já passou, um movimento perigoso avança no Brasil, na visão do psicanalista e professor da USP, Christian Dunker. “Há uma negação do que se sabe de outros países: de que quando chega o ponto mais crítico, o ponto de saturação do sistema de saúde público e privado, não adianta você ter dinheiro ou ser de uma classe mais alta porque não haverá sistema disponível”, afirma. Segundo a Confederação Nacional de Saúde (CNS), em ao menos seis Estados já há saturação dos sistemas públicos e privados de atendimento.

O psicanalista afirma que a onda negacionista e a percepção de estar fora de perigo abrange, sim, uma parte importante da elite nacional, e tem como base uma crença dessas pessoas de que são excepcionais, fora de grupos de riscos, já que são privilegiados. Por isso, podem relaxar regras de isolamento e até promover encontros com amigos. “Escuto muito isso no consultório. Que as pessoas se sentem especiais, que são saudáveis, atletas como Bolsonaro e que isso é uma gripezinha. O presidente repetiu à exaustão esse discurso de negação da realidade assim com várias lideranças religiosas.”
Dunker ressalta que essa narrativa se instala mais fortemente na sociedade brasileira pela negação da desigualdade social já existente. “Esta é a realidade primeira da qual nós não queremos saber”, pontua. Em seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, o psicanalista explica como, há anos, as classes média e alta lidam com o conflito: com a construção de um muro e a designação de seus síndicos, responsáveis por manter em dia a dia de seu status quo. “Essa ideia de negação do conflito e da diferença já estava lá em 1970, quando inventamos um Brasil em que a gente aparta a diferença. E acho que agora estamos regredindo para uma maneira de ver o mundo, até favorecida pelas medidas sanitárias, em que o mundo é o tamanho do seu condomínio”, diz.
A vida privada dos condomínios é também uma janela que expõe abismos sociais —em geral, quanto maior a renda, maior a chance de realizar trabalho remoto. Em meio à escalada do coronavírus, os locais, em geral, mudaram regras de convivência, com restrições de acesso a visitas e entregadores. Áreas de lazer e academias de uso coletivo também foram interditadas, mas, já passadas algumas semanas de isolamento, embates começam a ser travados entre vizinhos para afrouxar as medidas, o que pode colocar em riscos moradores, mas também funcionários que seguem trabalhando. “Esse trabalhadores nunca deixaram de ser invisíveis, assim como os moradores de ruas, pedintes, os informais, os precarizados. Eles são formas de vidas que não fazem parte dos ‘outros’. Mas, no contexto da pandemia, são também elementos que transmitem o vírus, o que se choca muito com essa administração imaginária do mundo ”, lembra o psicanalista. Nesta quarta, provocou debate o fato de o serviço doméstico ter sido considerado essencial em Belém, que está em regime de bloqueio total de atividades não essenciais (lockdown), já que os profissionais ficariam impedidos de fazer a quarentena ou cuidar da própria família por causa da ausência de creches e escolas. O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB), argumentou que pessoas, como profissionais de saúde, "precisam, pela necessidade de trabalho essencial, ter alguém em casa”.
Na visão de Christian Dunker, a pandemia trouxe mais à tona a “equação obscena” da escolha entra a vida ou a economia fortemente martelada pelo empresariado. O grupo, por sua vez, tem respaldo ativo de Jair Bolsonaro. O psicanalista frisa que o movimento apenas escancara a ideia de ter vidas matáveis que já existia na necropolítica à brasileira, diz ele, citando um conceito desenvolvido em 2003 pelo intelectual camaronense Achille Mbembe, que questiona os limites da soberania do Estado na escolha de quem deve viver e quem deve morrer. “Neste momento de impasse e crise da economia, vai se comunicar com as classes mais elevadas e populares a ideia de que é melhor continuar trabalhando e ganhando do que morrer de fome. Apesar do aumento do sofrimento e da crise alimentar, obviamente a gente teria medidas de suporte para isso sem chegar a essa equação”, afirma.
A insistência no argumento de que é preciso privilegiar o funcionamento da economia em detrimento das medidas de isolamento social ficou evidente de novo nesta quinta-feira. Em mais um movimento para pressionar a retomada da atividade econômica, o presidente levou uma comitiva de empresários e ministros para a sede do Supremo Tribunal Federal (STF) para alertar o presidente da Corte, Antonio Dias Toffoli, sobre os impactos que o isolamento social tem gerado na iniciativa privada e como a paralisia econômica pode transformar o Brasil “em uma Venezuela”. “Nós devemos nos preocupar com economia, sim. Mas também com empregos”, declarou Bolsonaro. “Emprego é vida.” Na ocasião, empresários procuraram chamar a atenção dizendo que as “indústrias estão no UTI”, alheios às filas de pessoas que estão morrendo por falta de leitos em vários pontos do país.
Sairemos melhores da pandemia?
A disputa sobre o presente e como será o futuro pós-pandemia está por toda parte, não só na política. Se há os negacionistas, há também os que encaram a crise global econômica e sanitária como uma espécie de purgação, limpeza ou uma catarse que o mundo está atravessando. Na meio disso, as marcas e empresas tentam se sintonizar e se atrelar inclusive a ações positivas do combate à doença ou à crise econômica, mas nem sempre o objetivo é alcançado. Nesta semana, a marca carioca Osklen, do grupo Alpargatas, lançou uma campanha em que vendia duas máscaras de proteção por 147 reais. Para cada kit vendido, ela doaria uma cesta básica no valor de 70 reais para a comunidade do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. A campanha, no entanto, recebeu fortes críticas nas redes sociais, já que o preço foi considerado abusivo pelos usuários. Máscaras são tecido são vendidas por menos de dez reais em São Paulo. Muitos questionavam como a marca queria lucrar em um item essencial para prevenir a doença. A empresa justificou-se dizendo que o projeto foi pensado com uma margem de retorno “que apenas viabilizaria a operação”, além da doação de comida, mas a força da crítica a fez recuar e "repensar o projeto”.
Para o psicanalista Dunker, o momento poderá, de fato, levar as pessoas a dois caminhos. Um de progredir para uma super individualização. “Eu tenho recurso, eu preciso salvar meu lucro, eu pago respirador, eu sou especial e posso sair na rua”. E outro de maior solidariedade. “A situação impõe que as pessoas olhem para o lado, se organizem a ajudar quem está numa situação pior, de se importarem com a coletividade”. Dunker acredita que há esperança de que a sociedade saia “um pouquinho melhor” dessa nova realidade imposta, mas alerta que o discurso de que o mundo se transformará em outro muito melhor, reverberado por artistas e propagandas é falacioso. “Porque está dizendo que eu preciso de uma coisa muito grande para a verdadeira transformação acontecer. As pequenas transformações surgem das pequenas diferenças”.
Cale a boca, presidente
Com todo o respeito, por que não te calas? Não quero mais saber de Bolsonaro. O que o Brasil precisa agora é de um lockdown do presidente e de seus filhos. Que os genocidas sejam isolados no Palácio, sem acesso a seus robôs reais e virtuais. Já se comprovou que essa família não está nem aí para o total de mortos na pandemia: que sejam 10 mil, 100 mil ou muito mais, não lhes importa. Eles só querem a PF do Rio de Janeiro.
E isso para mim chegou no limite, tá ok? Não tem mais conversa. Acabou a paciência. Não negociamos com sequestradores da compaixão e da cordialidade brasileiras. Cale a boca, pelo amor de Deus, o senhor aí na rampa, tresloucado em mangas de camisa, porque eu não perguntei nada. Assim o senhor se dirigiu a jornalistas - mas no imperativo, várias vezes. Cala a boca! Cala a boca! De que adianta, depois, sob pressão, se desculpar por mais uma "grosseria" entre tantas? Patifaria! Canalhice!
O respeito à hierarquia e ao chefe do Executivo vai até um limite: o da desonra à vida. A Constituição será cumprida, Bolsonaro, a qualquer preço, e esse preço será mais alto do que o pago ao Centrão em troca de apoio. Lei e ordem não estão sendo respeitadas no Brasil. A incitação à violência vem de cima. Pior ainda, essa sublevação ocorre num país que já perdeu, no momento em que escrevo, mais de 8 mil brasileiros para a “gripezinha”. E daí?
O Brasil pode se tornar o recordista mundial de subnotificações, contágios e mortes. Não respeitou o isolamento horizontal como deveria – e sabemos o porquê. Mudar o comando da Saúde, por vaidade e disputa política, foi trágico. As previsões são apocalípticas. "Os mortos 'batem à nossa porta', enchem cemitérios, câmaras mortuárias e IMLs", disse ao GLOBO o infectologista Rafael Galliez. "Não há resposta de Estado que priorize a vida". Após tanto tempo perdido, até o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, aquele que só se expressa no futuro, já recomendou lockdown, o bloqueio total, em estados mais atingidos. Não diz claramente onde e quando. Papelão.
Diante da morte de artistas que ajudaram a construir nosso patrimônio cultural, não ouvimos nenhuma palavra federal, nem mesmo de Regina Duarte. Vergonha. O ator Lima Duarte falou pelo Brasil, em vídeo para Flávio Migliaccio, que se despediu desiludido da vida. Aos 90 anos, com a lucidez e emoção que faltam ao governo, referiu-se à fala de seu personagem em peça de Bertolt Brecht no Teatro de Arena: “Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue”. É o silêncio dos culpados. Não podemos nos calar.
E isso para mim chegou no limite, tá ok? Não tem mais conversa. Acabou a paciência. Não negociamos com sequestradores da compaixão e da cordialidade brasileiras. Cale a boca, pelo amor de Deus, o senhor aí na rampa, tresloucado em mangas de camisa, porque eu não perguntei nada. Assim o senhor se dirigiu a jornalistas - mas no imperativo, várias vezes. Cala a boca! Cala a boca! De que adianta, depois, sob pressão, se desculpar por mais uma "grosseria" entre tantas? Patifaria! Canalhice!
As Forças Armadas estão mesmo do seu lado? Desconfie. Os militares apoiam que o senhor insufle seguidores a agredir jornalistas, profissionais da saúde e fiscais do Ibama? Os generais não são estúpidos assim. Eles lembram bem que o capitão foi expulso do Exército por indisciplina, anarquia e planos incendiários.
O respeito à hierarquia e ao chefe do Executivo vai até um limite: o da desonra à vida. A Constituição será cumprida, Bolsonaro, a qualquer preço, e esse preço será mais alto do que o pago ao Centrão em troca de apoio. Lei e ordem não estão sendo respeitadas no Brasil. A incitação à violência vem de cima. Pior ainda, essa sublevação ocorre num país que já perdeu, no momento em que escrevo, mais de 8 mil brasileiros para a “gripezinha”. E daí?
Nossa curva acentuada de óbitos parece um foguete desgovernado. E isso se deve ao desrespeito a todos os alertas de infectologistas e pneumologistas, ao menosprezo à ciência. E a um líder populista, caricato e vil. A cada domingo, a rampa do Planalto serve a mais uma performance de desobediência civil. Que no Dia das Mães as bolsonaristas pensem em primeiro lugar na vida de seus filhos. Não se inspirem no guru que leva a filha sem máscara para aglomerações.
O povo não está com Bolsonaro. Está amedrontado. Sem água ou casa digna. Em filas por R$ 600. O povo quer comida, leitos, remédios, médicos e respiradores para seus parentes. O povo é conduzido à morte pelo fanfarrão. Bolsonaro cria crises, ignora o vírus e coloca a economia contra a vida. Aposta na ignorância. Até quando essa insensatez não será punida como um crime contra a humanidade? Qual o número aceitável de mortos antes de outros poderes intervirem? A lealdade é ao chefe direto ou à nação?
O Brasil pode se tornar o recordista mundial de subnotificações, contágios e mortes. Não respeitou o isolamento horizontal como deveria – e sabemos o porquê. Mudar o comando da Saúde, por vaidade e disputa política, foi trágico. As previsões são apocalípticas. "Os mortos 'batem à nossa porta', enchem cemitérios, câmaras mortuárias e IMLs", disse ao GLOBO o infectologista Rafael Galliez. "Não há resposta de Estado que priorize a vida". Após tanto tempo perdido, até o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, aquele que só se expressa no futuro, já recomendou lockdown, o bloqueio total, em estados mais atingidos. Não diz claramente onde e quando. Papelão.
Diante da morte de artistas que ajudaram a construir nosso patrimônio cultural, não ouvimos nenhuma palavra federal, nem mesmo de Regina Duarte. Vergonha. O ator Lima Duarte falou pelo Brasil, em vídeo para Flávio Migliaccio, que se despediu desiludido da vida. Aos 90 anos, com a lucidez e emoção que faltam ao governo, referiu-se à fala de seu personagem em peça de Bertolt Brecht no Teatro de Arena: “Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue”. É o silêncio dos culpados. Não podemos nos calar.
De volta a Canudos
Diz-se que a história só se repete como tragédia. Estamos no período das comemorações dos 130 anos da Proclamação da República, episódio que pôs fim ao Império e deu início a um novo regime político-institucional, onde os Poderes são separados e harmônicos e o presidente, eleito pelo povo. Os ventos da modernidade, que já haviam soprado sobre a Europa e os Estados Unidos, chegavam ao Brasil. Era o fim da escravidão, a consagração da liberdade de expressão e do voto popular, mesmo ainda que limitado. No entanto, à margem das mudanças, ficaram camadas expressivas da população, ex-escravos, trabalhadores rurais e tantos outros, excluídos das oportunidades que viriam com a expansão do liberalismo econômico. Esperava-se.
Multidões dessa gente juntaram-se, em Canudos, no sertão da Bahia, para seguir o Messias, nascido em Quixeramobim, que pregava a guerra contra a República, uma maldição do diabo. Antônio Conselheiro proclamava: “Há de chover uma grande chuva de estrelas, e aí será o fim do mundo. Em 1900 se apagarão as luzes. Deus disse no Evangelho: há rebanhos que andam fora deste aprisco, e é preciso que se reúnam porque há um só pastor e um só rebanho”. Em nome de Deus, contra os tempos modernos, o Messias agregava seus seguidores fanáticos, alimentados pela fé e pelo ódio.
Passado mais de um século, um novo Messias escolhido pela vontade popular chega para conduzir seu povo. Tem a força, que lhe foi concedida em eleição direta, mas nos limites legais da democracia, com os pesos e contrapesos do equilíbrio entre dos Poderes. Sente-se menos poderoso nessa República do que fora Antônio Conselheiro no seu império fictício.
O Messias dos dias de hoje vê a pandemia, trazida pelos ventos do Oriente, como uma obra do diabo, desgraça enviada pela China. Como o outro, crê que a República é sua inimiga e que precisa, pois, destruir os outros Poderes, que não lhe deixam governar. Querem derrubá-lo, insiste. Para “salvar” o seu povo do comunismo, da “podridão” do mundo moderno, das “indecências desses tempos de ateísmo e de pecado”, mobiliza seus seguidores com a força do ódio e das suas milícias nas redes sociais.
Aos domingos, como não há cultos, vai às ruas, com as bandeiras de Israel e dos Estados Unidos, para reunir seu rebanho e incitá-lo a descumprir as orientações de seu próprio governo, pedir o fechamento do Congresso Nacional e do STF e agredir fotógrafos e jornalistas. Sua predileção é a agressão verbal às jornalistas. Prega alucinado, enquanto seu povo vai morrendo, vítima da Covid-19, “praga disseminada pelo comunismo”.
Crendo na antevisão de Antônio Conselheiro, adverte seus súditos: “Em verdade vos digo: quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu exército”, para nos “salvar da doença do comunismo”.
Velhos generais
O bagulho está louco. Às vezes parece que a tática bolsonarista é tornar a vida no Brasil tão insuportável que dê saudades da ditadura militar. Mas sem ele. Não dá para compará-lo a Castello Branco ou Ernesto Geisel, que o chamou de “mau militar”, e até Figueiredo, que foi sempre o primeiro da classe nos cursos do Exército, e pareceria um estadista educado ao lado de Bolsonaro. Costa e Silva, que também foi sempre o primeiro da classe, tinha algumas dificuldades de expressão, mas seria um erudito diante do Jair.
O Exército respeitava a meritocracia, o preparo individual, a carreira, embora isso não garantisse um bom governo. Pelo menos na ditadura os filhos dos generais-presidentes não se metiam em política e não mandavam nada. Nesse tempo torturavam e matavam fisicamente, agora assassinam reputações e disseminam fake news com exércitos de robôs. A paranoia comunista volta aos tempos da Guerra Fria. Nenhum ministro da Educação da ditadura foi pior e mais ignorante do que Abraham Weintraub. Nenhum general-presidente condecorou milicianos ou tentou emplacar um filho sem qualificações para a embaixada em Washington. A censura de financiamentos públicos para filmes e peças,“em defesa da família”, é mais radical que na ditadura.
Pouco provável, mas, mesmo assim, mais do que a inviável candidatura de Bolsonaro quando foi lançada. O Brasil é muito louco. De tanto sofrer foi enlouquecendo.
Nelson Motta
O Exército respeitava a meritocracia, o preparo individual, a carreira, embora isso não garantisse um bom governo. Pelo menos na ditadura os filhos dos generais-presidentes não se metiam em política e não mandavam nada. Nesse tempo torturavam e matavam fisicamente, agora assassinam reputações e disseminam fake news com exércitos de robôs. A paranoia comunista volta aos tempos da Guerra Fria. Nenhum ministro da Educação da ditadura foi pior e mais ignorante do que Abraham Weintraub. Nenhum general-presidente condecorou milicianos ou tentou emplacar um filho sem qualificações para a embaixada em Washington. A censura de financiamentos públicos para filmes e peças,“em defesa da família”, é mais radical que na ditadura.
Não dá para ter saudades da ditadura, mas mesmo seus piores governos foram melhores que o de Bolsonaro em eficiência e compostura. O Exército sabe disso. O homem está descontrolado. Dá desculpas esfarrapadas e não explica seu xodó pela Polícia Federal do Rio de Janeiro. Pior do que ter o dele é ter o rabo do filho preso, vale tudo para salvá-lo. E se não der?
Imaginem um cenário em que Flávio Bolsonaro, depois do devido processo legal, é condenado por unanimidade no STF e vai preso. O que faria o capitão? Seu governo acabaria? O Exército apoiaria um golpe por causa de Flávio Bolsonaro?
Pouco provável, mas, mesmo assim, mais do que a inviável candidatura de Bolsonaro quando foi lançada. O Brasil é muito louco. De tanto sofrer foi enlouquecendo.
Nelson Motta
O Brasil está matando o Brasil
O Brasil abriu a semana com a morte de Aldir Blanc, o poeta que, em uma das canções mais pungentes contra a ditadura militar, escreveu: “a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. Morto aos 73 anos por covid-19, o show de Aldir Blanc não pôde continuar. A esperança já não consegue se equilibrar no Brasil e deslizou para o abismo. O país de Aldir Blanc e todo o seu imaginário foram mortos pelo perverso que se embriaga com a própria boçalidade, espirra e aperta com dedos lambuzados as mãos de seus seguidores. E então diz, diante das milhares de vítimas da pandemia e de sua irresponsabilidade: “E daí?”. A morte do poeta oficializa que o Brasil continental perdeu seu continente ―sua carne, sua alma e seus contornos― e a poesia já não nasce.
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| Bruno Itan, morador do Complexo do Alemão |
O Brasil não só é um gigante com 210 milhões de habitantes, tanto vítimas quanto transmissores potenciais do novo coronavírus, como um gigante liderado pelo vilão número um do mundo em pandemia. No domingo, mais uma vez, Jair Bolsonaro estimulou e compareceu a uma manifestação que clamava pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Os golpistas são minoria no país, mas estimulados pela família presidencial que tenta impedir o avanço das investigações sobre seu envolvimento com as milícias.
Enquanto as imagens de corpos empilhados e covas abertas se sucedem, Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro ensaiam um duelo sem honra: Moro, o herói decaído, tentando desinfetar sua biografia carregada de possíveis ilegalidades; Bolsonaro tentando sobreviver às revelações de seu ex-superministro, subitamente acometido por um surto de moralidade. Conta com o apoio dos generais encantados em voltar ao poder, algo até há pouco impensável num país em que milhares ainda não encontraram os corpos de seus familiares executados pela ditadura militar de 21 anos.
Ao mesmo tempo, a covid-19 vai devastando a Amazônia e converte cidades como Manaus em necrotério. Enquanto o vírus atinge o corpo dos indígenas, o corpo da floresta é destruído pelas motosserras. Os alertas mostram que o desmatamento da Amazônia explode, os caminhões enfileiram-se nas estradas carregados de cadáveres de gigantes.
Só algumas horas depois de Aldir Blanc, o Brasil perdia também Flávio Migliaccio, um dos atores mais queridos de gerações de brasileiros. Associado à alegria por milhões de fãs, ele se suicidou. Como Aldir Blanc escreveu: “O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil”.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
Não fosse a imprensa, o Congresso, o STF, a OMS e a PF, esse governo decolava
Ah, se o trabalhador soubesse como é duro ganhar mais de R$ 30 mil por mês e não ter com o que gastar porque tudo já está pago! E, pra piorar, ainda aparece o motorista e deposita R$ 40 mil pra sua mulher! Dura a vida do homem público.

Bolsonaro não consegue governar —segundo ele mesmo— por causa do STF, do Congresso, do Ibama, dos inimigos, dos aliados, da esquerda, do centrão, dos governadores, da OMS, do pessoal dos direitos humanos, da Polícia Federal, da Globo, da Folha e do Leonardo DiCaprio.
No futebol, faz parte do jogo atribuir a derrota ao juiz. Estranho, no entanto, atribuir a derrota à torcida adversária, ao formato da bola, ao tamanho do gol, ao tecido do uniforme e à cor verde da grama. “A gente tenta fazer gol, mas toda vez vem aquele cara e pega a bola com a mão.” “O goleiro?” “Isso.”
Antes da pandemia a gente já estava diante de um 7 a 1 —PIB estagnado, real desvalorizado, escândalos de corrupção na família e no partido. Com a situação atual, o presidente tinha que estar aos prantos implorando clemência, como David Luiz no Mineirão: “Eu só queria poder dar uma alegria pro povo”. Quem dera.
Bolsonaro é um tipo de zagueiro que, quanto mais leva gol, mais anima sua torcida, que não entende direito as regras do jogo e comemora qualquer bola na rede. Lembra Junior Baiano, que, segundo o próprio, não fazia gol contra: fazia golaço contra. Não achava tão relevante o fato da bola balançar a própria rede. Talvez não fosse, mesmo. Pra quem assistia a futebol pelo furdunço, era um zagueirão.
Pela lógica tradicional, Bolsonaro já teria sido derrubado. Nunca um presidente conseguiria escapar de um fracasso econômico aliado a acusações tão contundentes partindo de gente do próprio campo. Na lógica bizarra do rebanho, Bolsonaro acerta quando erra, ganha quando perde e renasce quando morre.
“Se todo o mundo está contra ele, é porque ele deve estar fazendo alguma coisa certa”. Nem sempre. Às vezes ele é só um psicopata oligofrênico e narcisista. E você gosta dele porque também é.
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