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domingo, 16 de dezembro de 2018
Créditos políticos um dia se esgotam
Jair Bolsonaro é essa espécie de técnico de futebol, ou melhor, presidente da República. É desde sempre um personagem controverso; foi um deputado beirando o folclórico e um candidato a quem as circunstâncias deram a vitória. Mesmo assim, venceu uma eleição improvável e fez a alegria de sua torcida quanto a felicidade de quem detestava seu adversário. Como o goleiro que faz milagres; fechou o gol e, na gíria do futebol antigo, garantiu o bicho.

Portanto, neste momento, tem crédito. Mas, é irresistível chamar Fernando Collor de Mello à memória. O ex-presidente praticou a maior intervenção no domínio econômico que se tem recordação e ainda assim, no dia seguinte à decretação de seu Plano (Collor), houve aceitação geral, em que pese os desespero de quem teve recursos sequestrados pelo governo. No Congresso Nacional, se disse "amém" ao tom imperial do então jovem presidente. O Plano Collor foi aprovado sem resistência e mesmo o Supremo Tribunal Federal se esquivou de julgar a inconstitucionalidade flagrante das medidas.
(Ao seu tempo, Dilma Rousseff teve igualmente momentos de glória: todos a cercavam, chamavam de presidenta, como preferia ser tratada, e apontavam elegância e sabedoria na resoluta (e suposta) faxina que realizava na base política que herdara de Lula)
É isso: no início de relacionamento, quase tudo é relevado e até o abuso é permitido. A popularidade inicial mistura-se à esperança e ambas se transformam em indulgência. Nesse período, o governante sente-se invulnerável. Sobretudo, o governante inexperiente. No auge de sua vaidade, tripudia adversários; com soberba, encara de peito aberto todos os interesses contrariados, sem precaução.
Abre, assim, múltiplas e simultâneas frentes de conflito, sem saber que seus passos são observados; seus erros, anotados e a soma dos ressentimentos que causou é colocada no módulo de espera, no freezer, para será descongelada em banho-maria, quando o tempo passar e a tolerância e a boa vontade se esvaírem. É, a tolerância é elástica, mas como barbante também arrebenta. O bom governo sabe disso e trata de não exceder limites.
***
Jair Bolsonaro passa por seu momento de inebriação. Sua autossuficiência inocente é tão humana quanto errar também é. Vive o melhor momento de seu governo antes de inicia-lo, concretamente. Tudo é mais ou menos festa; depende de sua vontade e as reações ainda não se fazem sentir na força bruta como de fato são. Depois é que virá o temporal.
Naquilo em que não foi obrigado a delegar — como ocorreu na Economia (Paulo Guedes), Justiça (Sérgio Moro) e na Defesa (General Fernando Azevedo e Silva) —, não se fez de rogado e atendeu exclusivamente sua prole e aliados de primeira hora; não contemporizou com o Congresso e nem com a sociedade de um modo geral. Itamaraty, Meio Ambiente, Educação, Direitos Humanos, Secretaria de Governo, Secretaria-Geral e Secretaria de Comunicação foram preenchidos de acordo com seu exclusivo entendimento e compromissos com o grupo mais próximo.
Não se importou se as escolhas que fez podem ou não afetar o comércio e a imagem exterior do Brasil; o futuro da formação e da capacidade produtiva do país, direitos individuais e de grupos que expressam a sociedade moderna e complexa de relações de gênero e orientação sexual secularizadas, relações com o Congresso Nacional, com a mídia e a imprensa tradicional.
Não se pode dizer que tenha enganado quem quer que fosse; o presidente eleito faz ou indica que fará o que prometeu na campanha eleitoral e ao longo de sua vida política. Mesmo assim, age com determinação desabrida, de modo áspero e rude; pouco prudente, às vezes pouco convincente. Nesse clima, constroem-se por si as armadilhas de logo mais à frente.
A princípio, o caso do ex-assessor do filho de Bolsonaro, que segundo o Coaf teria movimentação atípica de recursos, depositando valores — ditos, agora irrisórios — na conta da futura primeira-dama, é o "amendoin" do momento. Uma bobagem, quando tudo ainda é esperança e há crédito. Mas, pode ser também veneno guardado no freezer, esperando que Dalila do tempo corte os cabelos de Sansão.
Isto se deu com o cheque que pagou o Fiat Elba para o uso da família Collor e com as tais "pedaladas" de Dilma Rousseff. Pode não ser nada, mas pode vir a ser alguma coisa a se somar com outras tantas acumuladas no processo, transformada em tormenta no momento mais frio dos invernos que invariavelmente chegam para qualquer governo.
Como técnicos de futebol que perdem jogos ganhos, por pura teimosia ou goleiros que levam frangos por displicência, o crédito político se esvai em coisas assim: tropicões de hoje que serão cobrados como verdadeiros tombos, amanhã. O "timing" do Congresso Nacional é distinto do tempo do Poder Executivo: ao contrário da urgência de um governo na crise, os adversários podem esperar; cantar "não se afobe não, nada é pra já". No freezer, o erro político aguarda na fila o banho-maria; depois é que germina desastre.
Carlos Melo
Muita informação, falsas ideias
Desde Heinrich Heine, a figura histórica do intelectual ganhou importância junto com a esfera pública liberal em sua configuração clássica. No entanto, esta vive de certos pressupostos culturais e sociais inverossímeis, principalmente da existência de um jornalismo desperto, com meios de referência e uma imprensa de massa capaz de despertar o interesse da grande maioria da população para temas relevantes na formação da opinião pública.
E também da existência de uma população leitora que se interessa por política e tem um bom nível educacional, acostumada ao processo conflitivo de formação de opinião, que reserva um tempo para ler a imprensa independente de qualidade. Hoje em dia, essa infraestrutura não está mais intactaJürgen Habermas:
Falsas boas ideias
A que abre o livro já é histórica. Em 2017, Trump ameaçou pôr em risco a paz mundial ao planejar romper um acordo comercial de mais de 60 anos com a Coreia do Sul. E por que não conseguiu fazer isto? Porque gente de dentro da Casa Branca escondeu o rascunho da carta em que ele desfazia o acordo e “esqueceu-o” numa pasta até que Trump esquecesse efetivamente o assunto —o que afinal aconteceu.
“Não se trata de fazer algo pelo país”, disse um assessor, “mas de impedir que ele faça”. Trump tem essa vantagem: como sabe pouco do que fala, muda muito de ideia ou se esquece dela.
Se o Brasil tivesse esses canais e escaninhos, várias tragédias talvez pudessem ter sido evitadas, mesmo no tempo dos militares. O Ato Institucional nº 5, por exemplo. As torturas, as execuções, a bomba no Riocentro. Você dirá que eram atos de uma ditadura, que não precisava dar satisfações a ninguém. Sim, mas mesmo as ditaduras têm correntes internas em conflito —talvez alguém visse a barbaridade daquelas medidas.
Assim como o confisco da poupança por Collor, o mensalão e o petrolão nos governos Lula e Dilma, e até Temer recebendo gente fora da agenda e fora de horas. Ninguém os advertiu de que eram falsas boas ideias?
Agora temos Bolsonaro. Mas imagine se os ocupantes daqueles canais e escaninhos forem seus filhos, ministros e gurus.
O desafio dos direitos humanos
O tema dos direitos humanos, complexo a partir de sua conceituação, permeia há anos o debate público. A rigor, há séculos, desde que a Revolução Francesa os consignou – e os descumpriu.
Foi um dos carros-chefes da eleição de Jair Bolsonaro, que questiona os termos em que a esquerda o formula, e há de acompanhar, em ambiente controverso, o curso de sua gestão, que tem a segurança pública como um de seus eixos.
Há dias, numa entrevista a um canal de televisão, o general Augusto Heleno, futuro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, foi instado, mais uma vez, a falar sobre ele.
E reiterou seu ponto de vista de que “os direitos humanos são basicamente para os humanos direitos”. O dito se contrapõe à tendência, ainda dominante, de ver na polícia instituição violadora desses direitos, quando, a rigor, tem como missão garanti-los.
Qualquer direito pressupõe uma instância que os garanta – em regra, o Estado, via polícia. O direito humano fundamental é, por óbvio, o de garantir a vida, já que sem ele nenhum outro subsistirá: o da integridade física, o de ir e vir, o de propriedade etc. Quem os viola submete-se (ou pelo menos deveria) aos rigores da lei.
Mas, se, como quer parte dos militantes da causa, esses direitos são indistintamente para todos os humanos, deve-se, antes de mais nada, revogar o Código Penal, que, mediante determinadas práticas, suprime alguns deles, a começar pelo de ir e vir, podendo chegar ao da própria vida, em caso de legítima defesa.
A visão idealizada do bandido, como vítima da sociedade, e uma espécie de revolucionário em estado bruto, levou o Estado brasileiro, sobretudo no período PT, a nele focar prioritariamente sua ação humanitária. A vítima torna-se persona secundária, alguém no lugar errado, na hora errada. Um azarado, sem qualquer glamour.
Criou-se, entre outros direitos, o bolsa-bandido, que garante, aos delinquentes inscritos na Previdência, repasses de pensão à família, além de benesses como o “saidão” (que libera presos em datas festivas para visitas à família); progressão penal (que, por bom comportamento, reduz o tempo de prisão); e, até (caso do Rio de Janeiro), vale-transporte para que familiares dos presos os visitem.
O Estado garante ainda assistência psicológica à família e ao preso. E, como coroamento, há a audiência de custódia, criada pelo ministro Ricardo Lewandowski, quando na presidência do STF.
Ela obriga o policial a levar o preso em flagrante, 24 horas após a prisão, perante um juiz para que avalie o tratamento que recebeu. O réu passa a ser a autoridade coatora, que pode sofrer processo e ser até demitido, e não o infrator, que será liberado caso o juiz, por razões de ordem subjetiva, não considere o ato grave.
O STF professa a tese do desencarceramento para pequenos delitos (sem defini-los), ecoando princípio programático do PT.
Nesses termos, o banditismo prosperou e o Brasil ostenta o título de um dos mais violentos países do mundo, com mais de 60 mil homicídios anuais (contabilizados aí apenas os que morrem no local do crime), que ultrapassa os índices de países em guerra.
Há quem argumente que a leniência do Estado em relação ao crime decorre do desastre humanitário que é o sistema penitenciário, verdadeira sucursal do inferno. Em vez de humanizá-lo, o Estado opta por evitar o aumento de seus habitantes – não combatendo o crime, mas, inversamente, estimulando-o pela impunidade.
Foi um dos carros-chefes da eleição de Jair Bolsonaro, que questiona os termos em que a esquerda o formula, e há de acompanhar, em ambiente controverso, o curso de sua gestão, que tem a segurança pública como um de seus eixos.
Há dias, numa entrevista a um canal de televisão, o general Augusto Heleno, futuro ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, foi instado, mais uma vez, a falar sobre ele.
E reiterou seu ponto de vista de que “os direitos humanos são basicamente para os humanos direitos”. O dito se contrapõe à tendência, ainda dominante, de ver na polícia instituição violadora desses direitos, quando, a rigor, tem como missão garanti-los.
A frase do general, que está longe de ser mero jogo de palavras, pressupõe critério e hierarquia na aplicação desses direitos, a cuja plenitude só pode aspirar quem os respeita. Não é o caso dos bandidos, cujo ofício consiste exatamente em violá-los.
Qualquer direito pressupõe uma instância que os garanta – em regra, o Estado, via polícia. O direito humano fundamental é, por óbvio, o de garantir a vida, já que sem ele nenhum outro subsistirá: o da integridade física, o de ir e vir, o de propriedade etc. Quem os viola submete-se (ou pelo menos deveria) aos rigores da lei.
Mas, se, como quer parte dos militantes da causa, esses direitos são indistintamente para todos os humanos, deve-se, antes de mais nada, revogar o Código Penal, que, mediante determinadas práticas, suprime alguns deles, a começar pelo de ir e vir, podendo chegar ao da própria vida, em caso de legítima defesa.
A visão idealizada do bandido, como vítima da sociedade, e uma espécie de revolucionário em estado bruto, levou o Estado brasileiro, sobretudo no período PT, a nele focar prioritariamente sua ação humanitária. A vítima torna-se persona secundária, alguém no lugar errado, na hora errada. Um azarado, sem qualquer glamour.
Criou-se, entre outros direitos, o bolsa-bandido, que garante, aos delinquentes inscritos na Previdência, repasses de pensão à família, além de benesses como o “saidão” (que libera presos em datas festivas para visitas à família); progressão penal (que, por bom comportamento, reduz o tempo de prisão); e, até (caso do Rio de Janeiro), vale-transporte para que familiares dos presos os visitem.
O Estado garante ainda assistência psicológica à família e ao preso. E, como coroamento, há a audiência de custódia, criada pelo ministro Ricardo Lewandowski, quando na presidência do STF.
Ela obriga o policial a levar o preso em flagrante, 24 horas após a prisão, perante um juiz para que avalie o tratamento que recebeu. O réu passa a ser a autoridade coatora, que pode sofrer processo e ser até demitido, e não o infrator, que será liberado caso o juiz, por razões de ordem subjetiva, não considere o ato grave.
O STF professa a tese do desencarceramento para pequenos delitos (sem defini-los), ecoando princípio programático do PT.
Nesses termos, o banditismo prosperou e o Brasil ostenta o título de um dos mais violentos países do mundo, com mais de 60 mil homicídios anuais (contabilizados aí apenas os que morrem no local do crime), que ultrapassa os índices de países em guerra.
Há quem argumente que a leniência do Estado em relação ao crime decorre do desastre humanitário que é o sistema penitenciário, verdadeira sucursal do inferno. Em vez de humanizá-lo, o Estado opta por evitar o aumento de seus habitantes – não combatendo o crime, mas, inversamente, estimulando-o pela impunidade.
Guerra de religião
A fé não precisa de uma igreja para se manifestar. As igrejas, como os partidos, são sobre poder. No Ocidente medieval, a Igreja Católica exercia um poder absoluto sobre as sociedades: o papado legitimava os reis. Um paralelo apropriado é com os totalitarismos do século 20: os partidos de Stalin e Hitler identificavam-se com o Estado.
O partido é a expressão política de uma parte da sociedade que pretende representar, provisoriamente, a sociedade inteira. A meta é atingida por meio do voto majoritário, veículo da soberania popular, que sagra a verdade do partido como verdade geral provisória.
Mas o partido que chega ao governo continua a ser a parte, não o todo, e, por isso, corre o risco de ser apeado na eleição seguinte. A igreja, porém, qualquer que seja ela, define a sua verdade como Verdade eterna —e, por isso, não tem o direito de querer governar.
Os partidos exibem seus programas como soluções melhores para administrar as coisas (a economia, os serviços públicos) nas circunstâncias do presente. As igrejas, por outro lado, pretendem universalizar uma fé, um modo de entender a vida e a morte, um catálogo de preceitos sobre o comportamento dos indivíduos nas esferas pública e privada.
O governo do partido pode ser mudado; o “governo da igreja” é, por definição, imutável. Do ponto de vista da democracia, não existem diferenças essenciais entre Damares e os fundamentalistas islâmicos que governam a Arábia Saudita, o Irã, o Sudão e a Faixa de Gaza.
“Todo o poder aos sovietes!”. A exigência dos antigos comunistas de transferência de “todo o poder” à classe proletária deve ser interpretada: de fato, eles queriam o poder absoluto para seu próprio partido.
Os partidos comunistas proclamavam representar, com exclusividade, a classe trabalhadora. Por esse motivo, quando os bolcheviques chegaram ao poder na Rússia, começaram proibindo os “partidos burgueses”, inimigos da “ditadura do proletariado”, para proibir na sequência os demais partidos que juravam representar os interesses dos trabalhadores.
As igrejas são, sob esse aspecto, muito parecidas com os partidos comunistas. Deriva daí que a elevação de uma igreja ao governo é o que de mais perigoso pode acontecer para a liberdade de religião.
A seita de Damares vê, no cristianismo, a fé verdadeira exclusiva. O seu “governo da igreja” começaria proscrevendo as “religiões demoníacas” (ou seja, todas as não cristãs), mas não pararia por aí.
Tanto quanto as outras, a seita de Damares enxerga a si mesma como a única perfeita tradução da fé cristã. Depois de eliminar as “religiões demoníacas”, seu “governo da igreja” proscreveria as igrejas cristãs concorrentes. Todo o poder para Damares tem, como implicação lógica, a guerra de religião, primeiro contra os “infiéis” e, na sequência, contra os “falsos fiéis”.
No seu organograma de governo, Bolsonaro traçou um círculo em torno de quatro ministérios, criando uma reserva de mercado para o extremismo de direita.
Perto dos ministérios das Relações Exteriores, da Educação e do Meio Ambiente, a pasta de Damares parece um pátio de folguedos infantis entregue a meia dúzia de fundamentalistas cristãos. Engano: o governo que desafia o Estado laico está brincando com fósforo entre tambores de substâncias inflamáveis.
Fora das discussões, que faremos com o clima?
“O que aconteceu com você, Brasil?”, perguntavam os membros da reunião ao saberem que o presidente Bolsonaro indicou que o País pode abandonar os esforços de combate às mudanças climáticas, “que seriam parte de uma trama marxista para transferir o poder para a China”. O Brasil já decidiu também que não vai receber a cúpula do clima no ano que vem. Alegou dois motivos: restrições orçamentárias e a transição para um novo governo eleito, que herdaria o compromisso.
É lamentável. Basta lembrar o relatório da ONU segundo o qual o Acordo de Paris pode salvar 1 milhão de vidas por ano até 2050 (IHU, 11/12) . E impressionantes ganhos na saúde, segundo a OMS: só a poluição do ar por combustíveis fósseis causa 7 milhões de mortes anuais no mundo e custa cerca de US$ 5,11 trilhões, além de afetar o ar limpo, a água potável, alimentos e abrigos seguros.

Como enfrentar tudo isso, sabendo que 2018 está sendo o quarto ano mais quente da História desde 1850, perdendo somente para 2016, 2017 e 2015? E 2019 pode ser ainda mais quente com a provável chegada do El Niño. O teor de calor dos oceanos de janeiro a setembro foi o maior ou o segundo maior e o número de ciclones tropicais, maior do que a média. O gelo marinho no oceano Ártico teve a sua segunda menor extensão máxima.
A Organização Meteorológica Mundial computou os impactos socioeconômicos dos eventos extremos: de 2017 para cá, a fome associada a eventos climáticos afetou 59 milhões de pessoas só na África; no mundo todo, 2 milhões de pessoas dos 17,7 milhões forçados a abandonar suas casas o fizeram por causa de eventos climáticos.
Com o aumento das emissões nas atividades humanas, elas devem chegar este ano a 41,5 bilhões de toneladas, das quais 37,5 bilhões se devem à queima de combustíveis fósseis (as energias renováveis cresceram este ano 15%). O aumento das emissões de carbono fóssil aponta para uma trajetória de aquecimento que já está além de 1,5 grau Celsius. E não bastará apoiar as energias renováveis. È preciso descarbonizar toda a economia, segundo a pesquisadora Corinne Le Quéré, do Centro de Pesquisa Climática da Universidade of East Anglia (Plurale, 11/12).
E esse crescimento nas metas globais de dióxido de carbono (CO2) põe em risco as metas estabelecidas no Acordo de Paris. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), para chegar bem abaixo de 2 graus Celsius as emissões de CO2 devem baixar 20% até 2030 e chegar a zero em torno de 2075. Para limitar o aquecimento a 1,5 grau as emissões devem diminuir até 2030 e chegar a zero por volta de 2050.
O aumento contínuo das emissões globais é muito preocupante, diz a diretora executiva da Future Earth, Amy Luers. “Temos a tecnologia, o conhecimento e a visão de negócio para reduzir nossas emissões exponencialmente. Agora, trata-se de uma opção ganha-ganha. Mas é preciso começar o caminho vencedor” (o uso global de carvão está 3% abaixo do seu pico histórico). Glen Peters, diretor de pesquisa da Cicero, em Oslo, estudioso do tema, enfatiza que, olhando a taxa de crescimento do consumo, que deve ser de 4,7% nas China, conclui-se que não será fácil para esse país mudar de um rumo que siga na mesma trilha nas próximas décadas. A Índia, que responde por 7%das emissões globais, deve continuar com seu crescimento forte (6,3% em 2017), com aumento do uso de petróleo (2,9%), gás (6%) e carvão (7,1%). Na União Europeia, responsável por 10% da emissão global de gases, o último declínio foi de 2,6% para 1,3%, quando vinha baixando 2% ao ano. No resto do mundo, responsável por 42% das emissões, estas devem crescer 1,8% em 2018. Em 19 países (20% das emissões totais), elas caíram sem diminuição do produto interno bruto.
Na verdade, o aumento ou redução das emissões está nas mãos das quatro potências - China, EUA, União Europeia e Índia - que concentram quase 60% do CO2 do planeta. E em todas elas estão previstos fortes aumentos do consumo.
Mas não faltam otimistas, que lembram a redução do consumo a partir de 2013, inclusive com a capacidade instalada de energia renovável dobrando a cada quatro anos. Para esses, as emissões globais devem começar a cair antes de 2020, para permitir que se alcancem os objetivos do Acordo de Paris, de modo a que o aumento da temperatura no fim do século não passe de 1,5 a 2 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais (o planeta já sofreu aumento de 1 grau).
As emissões brasileiras de gases do efeito estufa (2,07 bilhões de gases carbônicos equivalentes) caíram 2,3% em 2017 , comparadas com o ano anterior (Folha de S.Paulo, 23/11). O principal motivo da queda foi a redução de 12% no desmatamento da Amazônia. O aumento de 11% no desmatamento no Cerrado impediu redução maior. E quase todos os outros setores da economia tiveram aumento nas emissões em 2017, quando o País começou a sair da recessão. A agropecuária responde por 70% das nossas emissões totais - 46% por mudanças no uso da terra e 24% por emissões diretas dos rebanhos.
Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas no Observatório do Clima, destaca (Folha de S.Paulo, 23/11) que as emissões brasileiras de hoje têm volume próximo do de 1990. Depois do agronegócio, transporte e indústria são os setores que mais contribuem para as emissões de gases-estufa. Mas é possível projetar que o Brasil chegue a 2020 perto do limite do cumprimento das metas de redução de emissões - um panorama que pode ser promissor.
Sob as sombra do laranjal dos Bolsonaro
No clima primaveril de diplomação e festejos, o novo governo desabrocha exalando um odor inconfundível de laranja podre, com suspeitas de velhas práticas, esquemas condenáveis e descaso pela verdade a imolar uma gestão que se pretendia, desde o início, incorruptível. A movimentação atípica de uma pequena fortuna por parte do motorista policial Fabrício de Queiroz, amigo dileto, de longa data, dos Bolsonaro, e os depósitos que entravam e saiam de sua conta na mesma velocidade dos pagamentos dos salários da Alerj (a Assembleia Legislativa do Rio), deixam um rastro imenso de dúvidas sobre a lisura das práticas dessa turma. Estaria a dinastia Bolsonaro reeditando a fórmula de um “mensalinho”, usual entre parlamentares que costumam cobrar uma espécie de mesada ou pedágio dos funcionários em cargos comissionados devido ao emprego concedido? Ao menos sete assessores da equipe do então deputado e agora senador eleito, Flávio Bolsonaro, efetuaram transferências para a conta do ex-PM, dublê de motorista Queiroz, que recebia de salário à época a quantia de R$ 8.517 por mês, de toda incompatível com os montantes que passearam por suas mãos. A troco de quê? O Coaf suspeita que essa seja uma movimentação típica de conta de passagem na qual o real destinatário do valor creditado não é o seu titular. Os saques e depósitos em dinheiro vivo, para não deixar rastros, reforçam a hipótese. As operações obedeciam a um padrão: entravam e saíam da conta em intervalos de tempo pequenos, às vezes no mesmo dia. Ao menos 176 saques do motorista titular obedeceram a essa rotina (precedidos de um depósito em espécie de valor em patamar semelhante), 50 deles em quantias acima de R$ 2.000, ao longo do ano de 2016. Não há como evitar os questionamentos. E as respostas, para afastar qualquer ranço de desconfiança de um dízimo ou de um caixa dois em gestação para o partido ou em benefício do parlamentar responsável – no caso, Flávio, digníssimo representante da estirpe Bolsonaro –, deveriam ter vindo de bate pronto. Não vieram. O presidente eleito, depois de um ensurdecedor período em silêncio, apareceu para falar do que entende ser a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Justificou um cheque de Queiroz para a conta de sua mulher, Michelle Bolsonaro, alegando tratar-se de um empréstimo no montante total de R$ 40 mil que ele estava devolvendo em prestações. Queiroz e Bolsonaro pai se conhecem há mais de 40 anos, compartilharam juntos diversos momentos de lazer, desde encontros para churrascos até pescarias, devidamente registrados. E esse vínculo do servidor com a família o colocou na inevitável condição de constranger os futuros detentores do poder em Brasília. Não são apenas os R$ 24 mil depositados na conta da primeira-dama. Nem os alegados R$ 40 mil dados em empréstimo pelo mandatário em pessoa – que, de resto, sequer declarou a quantia ao Fisco. O que dizer dos inúmeros repasses na conta desse assessor, da dinheirama de mais de R$ 1,2 milhão que ele gerenciou com precisão diligente, tal qual um tesoureiro, ao longo de quase um ano? Queiroz saiu estrategicamente dos holofotes para evitar cobranças. De todo modo, seria só ele a ter de prestar esclarecimentos, como pretendem os Bolsonaro irritadiços, que atribuem a revelação do caso a perseguições indevidas da imprensa, do Coaf, da oposição, de forças ocultas e do diabo a quatro? Naturalmente que não. Essa reação – tão igual e previsível entre autoridades costumeiramente flagradas em situações duvidosas – é típica de quem tem dificuldades de passar da condição de atirador de pedras à posição de vidraça. Os Bolsonaro e seus asseclas se portam como senhores da verdade que não devem satisfações a ninguém. Ou, no mínimo, acreditam que o assunto está resolvido, e ponto. O motorista que se vire para explicar. Não é razoável aceitar que alguém tão próximo do clã, que conseguiu pendurar no gabinete de Flávio a mulher e duas filhas, além dele próprio – e colocar uma outra herdeira em um cargo de confiança junto ao mandatário eleito –, reforçando laços de confiança duradoura com os Bolsonaro, tenha operado todo esse esquema de repasses de forma voluntariosa, sozinho e sem conhecimento superior. Queiroz, com rendimentos que jamais justificariam tamanho desprendimento pecuniário, não virou da noite para o dia um exímio financista, capaz de angariar recursos fartos. Naturalmente, é de se supor que agiu com o beneplácito dos chefes, tal qual um laranja, como tantos outros que se prestaram ao papel na putrefata política dessas paragens. O histórico laranjal brasileiro, que serve de fachada aos poderosos, parece não encontrar limites. Como uma praga, brota por todo o lugar, nas diversas vertentes partidárias, sem preconceito ideológico à direita ou à esquerda. Teria, agora, tomado também os novos titulares do Planalto? Essa é a dúvida que precisa ser imediatamente dissipada. Não tem que reagir com raiva ou descaso os senhores do novo time. O futuro chefe da Nação, que foi eleito com a bandeira de moralização da atividade pública, “contra tudo que está aí”, não pode se furtar à missão de deixar tudo às claras, sem respostas pela metade. A imagem do futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, abandonando uma entrevista no meio, esbravejando destemperado diante das câmeras ao ser questionado sobre o tema, mostra a intolerância e inabilidade que ainda grassam com fervor entre os novos ocupantes do Planalto. Não vão terminar bem se insistirem nesse caminho. Carlos José Marques
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
Notas de um velho marinheiro
Este é o meu último artigo do período de transição. No ano que vem a coisa começa. É hora de a onça beber água, a cobra fumar, o tatu sair da toca. Termina uma longa experiência em que predominaram ideias de esquerda, começa uma experiência liberal conservadora, de certa forma inédita, pois sempre se definiu assim, sem subterfúgios.
Um dos truísmos mais presentes na política é afirmar que nem sempre as coisas acontecem como planejado por seus atores. Em alguns casos podem até se transformar no oposto do desejado.
Quando ouvia as pessoas repetirem o slogan cubano “até a vitória sempre”, costumava responder: sempre que possível.
Era uma abertura para o inesperado, no fundo uma rebeldia contra um mundo pré-desenhado, um cemitério da criatividade humana. Minhas críticas e revisões das ideias de esquerda me valeram algumas antipatias. Nada de grave. Foi possível continuar pensando e escrevendo num clima quase razoável.
Possivelmente, em alguns momentos, vou desagradar aos liberais conservadores. Mas o que fazer? A alternativa seria concordar com uma euforia que a longa experiência não autoriza.
De modo geral, faço perguntas, não acusações. Uma das perguntas-chave que faço aos conservadores que chegam ao poder com a esperança de propagar sua fé cristã é: não estão chegando tarde demais a um mundo secularizado, onde a tradição e a cultura não podem ser apoiadas numa fé transcendental compartilhada?
Uma das referências que tenho é a passagem de Margaret Thatcher pelo governo inglês. Além de sua firme decisão de enfrentar corporativismos, ela manifestou muita simpatia pela moral vitoriana, tempos mais íntegros e felizes, segundo ela. Ao deixar o poder, Thatcher deixou também uma Inglaterra bem mais permissiva do que encontrou.
Aos conservadores brasileiros, para quem o bolo dos costumes desandou, deverá ficar claro que é difícil cozinhá-lo de novo, restando apenas cuidar do que existe, olhando para o futuro. Dito assim, parece complicado. Mas, na prática, é o que está acontecendo. A ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, parece ter adotado esse caminho ao afirmar que a união civil gay é um direito adquirido e não vai questioná-la.
Depois de passar muitos anos criticando a miopia marxista diante das questões ambientais, terei a irônica tarefa de demonstrar aos conservadores que a preservação é uma ideia deles que foi introduzida de contrabando no marxismo. Karl Marx sempre partilhou com alguns pensadores burgueses a ideia de um progresso infinito, sem limites objetivos. Se saímos do árido campo das ideias e vamos de novo à prática, basta observar a catástrofe ambiental que foi o socialismo no Leste Europeu, a degradação da atmosfera nas cidades chinesas.
O PT em 2002 ainda acreditava, como os partidos comunistas da esfera soviética, que o principal problema era crescer, dar empregos, melhorar o padrão de vida dos trabalhadores. Estava aí, ainda que incipiente, a raiz das nossas principais divergências.
Compreendo que forças emergentes tenham uma linguagem de sonho, que no fundo almejem a felicidade de seus governados. Mas a História tem mostrado, exceto pelo idealismo do rei do Butão, que dificilmente a felicidade se conquista pela ação de governos.
Tudo o que se pode fazer é minorar suas dificuldades, ajudá-los a conviver, como diz o poema de Yeats, com a desolação da realidade.
Quando jovem de esquerda, alguns me irritavam por sua dose de realismo: Raymond Aron, Isaiah Berlin, George Steiner. Eles despiam a revolução de seus figurinos românticos e me deixavam só e desesperançado.
Neste momento em que o Brasil se prepara para viver uma experiência em que a religião tem grande peso, é necessário em primeiro lugar reconhecer a importância dos cristãos em nossa vida e cultura. Mas, ao mesmo tempo, questionar suas certezas políticas, como fazia com os slogans marxistas.
De novo um exemplo para atenuar a aridez. Por que mudar a Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém? O quase consenso internacional reconhece que ainda é uma cidade dividida.
Não foram grandes formulações de política externa que levaram Bolsonaro a essa saída. Há uma pressão evangélica, natural, válida, mas inadequada para comandar uma decisão nacional nesse campo. Para os evangélicos americanos e brasileiros, a extrema direita em Israel tem grande importância.
Os evangélicos não leem a Bíblia apenas como um documento sobre o passado. Confiam também em suas profecias, no seu roteiro para o futuro. E essas profecias dizem que uma das condições para a volta de Cristo é a recuperação pelos judeus da Terra Sagrada.
Não se trata de afirmar que isso seja um delírio, mesmo porque não tenho preconceitos contra delírios. Muitas de nossas políticas são um delírio. No entanto, quando se trata de política externa, é necessário, pelo menos, um delírio consensual.
A ideia de conformar o mundo à nossa fé cristã é de natureza diferente da criação de internacionais socialistas, Ursais e o escambau. Mas pode sofrer o mesmo destino melancólico das religiões laicas num mundo - até certo ponto, irreversivelmente - desencantado.
De qualquer forma, a aspereza do ano que vem vai nos levar a preocupações mais concretas do que as do período transitório, fluido por definição.
Um dos truísmos mais presentes na política é afirmar que nem sempre as coisas acontecem como planejado por seus atores. Em alguns casos podem até se transformar no oposto do desejado.
O projeto político iniciado em princípio de 2003, com a vitória de Lula, pretendia levar o Brasil a um novo patamar de liberdade e justiça social. Terminou em crise econômica, milhões de desempregados e alguns atores, o principal incluído, atrás das grades.
Durante muitos anos estudei o marxismo e constatei, na prática, a inadequação de suas teses. Talvez por temperamento, desde a juventude sempre tive um pé atrás com a ideia de que a História é regida por leis inflexíveis e obedece a um script inevitável.
Durante muitos anos estudei o marxismo e constatei, na prática, a inadequação de suas teses. Talvez por temperamento, desde a juventude sempre tive um pé atrás com a ideia de que a História é regida por leis inflexíveis e obedece a um script inevitável.
Quando ouvia as pessoas repetirem o slogan cubano “até a vitória sempre”, costumava responder: sempre que possível.
Era uma abertura para o inesperado, no fundo uma rebeldia contra um mundo pré-desenhado, um cemitério da criatividade humana. Minhas críticas e revisões das ideias de esquerda me valeram algumas antipatias. Nada de grave. Foi possível continuar pensando e escrevendo num clima quase razoável.
Possivelmente, em alguns momentos, vou desagradar aos liberais conservadores. Mas o que fazer? A alternativa seria concordar com uma euforia que a longa experiência não autoriza.
De modo geral, faço perguntas, não acusações. Uma das perguntas-chave que faço aos conservadores que chegam ao poder com a esperança de propagar sua fé cristã é: não estão chegando tarde demais a um mundo secularizado, onde a tradição e a cultura não podem ser apoiadas numa fé transcendental compartilhada?
Uma das referências que tenho é a passagem de Margaret Thatcher pelo governo inglês. Além de sua firme decisão de enfrentar corporativismos, ela manifestou muita simpatia pela moral vitoriana, tempos mais íntegros e felizes, segundo ela. Ao deixar o poder, Thatcher deixou também uma Inglaterra bem mais permissiva do que encontrou.
Aos conservadores brasileiros, para quem o bolo dos costumes desandou, deverá ficar claro que é difícil cozinhá-lo de novo, restando apenas cuidar do que existe, olhando para o futuro. Dito assim, parece complicado. Mas, na prática, é o que está acontecendo. A ministra de Direitos Humanos, Damares Alves, parece ter adotado esse caminho ao afirmar que a união civil gay é um direito adquirido e não vai questioná-la.
Depois de passar muitos anos criticando a miopia marxista diante das questões ambientais, terei a irônica tarefa de demonstrar aos conservadores que a preservação é uma ideia deles que foi introduzida de contrabando no marxismo. Karl Marx sempre partilhou com alguns pensadores burgueses a ideia de um progresso infinito, sem limites objetivos. Se saímos do árido campo das ideias e vamos de novo à prática, basta observar a catástrofe ambiental que foi o socialismo no Leste Europeu, a degradação da atmosfera nas cidades chinesas.
O PT em 2002 ainda acreditava, como os partidos comunistas da esfera soviética, que o principal problema era crescer, dar empregos, melhorar o padrão de vida dos trabalhadores. Estava aí, ainda que incipiente, a raiz das nossas principais divergências.
Compreendo que forças emergentes tenham uma linguagem de sonho, que no fundo almejem a felicidade de seus governados. Mas a História tem mostrado, exceto pelo idealismo do rei do Butão, que dificilmente a felicidade se conquista pela ação de governos.
Tudo o que se pode fazer é minorar suas dificuldades, ajudá-los a conviver, como diz o poema de Yeats, com a desolação da realidade.
Quando jovem de esquerda, alguns me irritavam por sua dose de realismo: Raymond Aron, Isaiah Berlin, George Steiner. Eles despiam a revolução de seus figurinos românticos e me deixavam só e desesperançado.
Neste momento em que o Brasil se prepara para viver uma experiência em que a religião tem grande peso, é necessário em primeiro lugar reconhecer a importância dos cristãos em nossa vida e cultura. Mas, ao mesmo tempo, questionar suas certezas políticas, como fazia com os slogans marxistas.
De novo um exemplo para atenuar a aridez. Por que mudar a Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém? O quase consenso internacional reconhece que ainda é uma cidade dividida.
Não foram grandes formulações de política externa que levaram Bolsonaro a essa saída. Há uma pressão evangélica, natural, válida, mas inadequada para comandar uma decisão nacional nesse campo. Para os evangélicos americanos e brasileiros, a extrema direita em Israel tem grande importância.
Os evangélicos não leem a Bíblia apenas como um documento sobre o passado. Confiam também em suas profecias, no seu roteiro para o futuro. E essas profecias dizem que uma das condições para a volta de Cristo é a recuperação pelos judeus da Terra Sagrada.
Não se trata de afirmar que isso seja um delírio, mesmo porque não tenho preconceitos contra delírios. Muitas de nossas políticas são um delírio. No entanto, quando se trata de política externa, é necessário, pelo menos, um delírio consensual.
A ideia de conformar o mundo à nossa fé cristã é de natureza diferente da criação de internacionais socialistas, Ursais e o escambau. Mas pode sofrer o mesmo destino melancólico das religiões laicas num mundo - até certo ponto, irreversivelmente - desencantado.
De qualquer forma, a aspereza do ano que vem vai nos levar a preocupações mais concretas do que as do período transitório, fluido por definição.
Mapa-múndi 1
O sistema:
Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.
Suas vitimas:
Quanto mais pagam, mais devem.
Quanto mais recebem, menos têm.
Quanto mais vendem, menos compram. Eduardo Galeano
Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.
Suas vitimas:
Quanto mais pagam, mais devem.
Quanto mais recebem, menos têm.
Quanto mais vendem, menos compram. Eduardo Galeano
A grande batalha
O principal adversário do futuro governo Bolsonaro, assim, será ele próprio. O problema real não estará na oposição dentro do Congresso, na mídia ou no meio político. Não estará nos intelectuais das universidades de “ciências humanas”. Não estará na comunidade internacional, na ONU e nos seus guerrilheiros de escritório com ar condicionado em Nova York ou Genebra. A grande batalha a ser ganha, a que vai resolver realmente as coisas, será em torno da capacidade concreta, por parte do governo, de executar os seus projetos. Ou ele tem essa capacidade ou não tem. Se tiver, haverá mudanças de verdade ─ e logo. Se não tiver, por motivos que podem ir de discórdias internas à simples incompetência, muito pouca coisa vai mudar.

Aí fica complicado. Não dará para engatar uma marcha-a-ré, pois o Brasil acaba de deixar claro que não quer voltar para onde esteve ─ pegou um “fartão” sério em relação ao esquerdismo inepto, burro e larápio dos governos Lula-Dilma. Também não vai dar para ficar atolado e dizer que a estrada está ruim. Em resumo: ou muda mesmo ou perde a parada.
A área econômica, como sempre, será decisiva. Depois da monstruosa recessão de três anos que o PT impôs ao Brasil, com 14 milhões de desempregados, a devastação nas contas públicas e uma opção mortal pelo subdesenvolvimento, as mudanças terão de ser muito claras e muito rápidas. Vive-se, hoje, um momento de fabricação intensiva de dúvidas ─ não se perde nenhuma oportunidade para anunciar desastres iminentes, ruinosos e definitivos. O foco, em grande parte, é colocado no anunciado ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele não se entende com outros barões da equipe. Vai viver em choque com o Congresso. Anuncia coisas contraditórias, ou desautorizadas por Bolsonaro. Fala demais. O novo governo, sem dúvida, não precisa ter no comando da economia um homem que funciona como armazém de ideias; precisa como ar e água, isso sim, de um operador, de alguém que resolva problemas práticos, de um produtor talentoso de resultados. Precisa de alguém que transforme em realidade prática as decisões econômicas do comando. Guedes pode dar certo? Vamos ver logo. Essas coisas costumam ficar claras bem rápido.
É um ótimo sinal, de qualquer forma, que praticamente todos os nomes apontados até agora para o primeiro escalão, a partir de Sergio Moro, sejam de primeira classe ─ não se viu uma equipe comparável, nem de longe, nos governos dos últimos 30 anos. Não resolve, claro. Mas é muito melhor que o contrário.
J.R. Guzzo
O Bolsonaro da Bíblia frente ao dilema de Abraão de sacrificar o seu filho
Como homem da Bíblia, Deus pôs Bolsonaro perante uma prova de fogo com motivo do suposto escândalo de corrupção que atinge seu filho Flávio através de um de seus assessores. Algo que lhe deve ter feito recordar um dos episódios mais enigmáticos e emblemáticos com que Javé quis provar a fé do patriarca Abraão, considerado como o “pai dos crentes”. Pediu-lhe, como prova de sua fé, que sacrificasse seu filho Isaac. É talvez a cena mais horripilante de todo o Antigo Testamento, narrada em Gênesis, 20. Abraão se encontrou frente ao dilema de oferecer a Deus o sacrifício do seu filho, que além do mais era inocente, ou quebrar seu pacto de fé nele. Escolheu ser fiel a Deus e decidiu sacrificar o seu “filho amado”. Deus premiou sua fé, e um anjo deteve seu braço antes da execução.
Bolsonaro está sendo posto à prova pelo Deus da Bíblia. Pede-lhe que, se for preciso, sacrifique seu filho Flávio ao invés de profanar sua fé na luta contra a corrupção, que ele jurou pôr acima de tudo. Como garantia de seu empenho, convidou para ser ministro o mítico fustigador da Lava Jato, o duro juiz Sérgio Moro. O presidente da Bíblia sabe que seu compromisso contra a corrupção foi fundamental para sua eleição. Quebrá-lo, antes ainda de tomar posse do cargo, equivaleria a uma traição sua a milhões de seguidores.
Tanto sabe disso que, na quarta-feira passada, dirigindo-se como de costume à sociedade através das redes sociais, o capitão confessou que não está disposto a ser “condescendente com nenhum erro”, custe o que custar. Confessa que “lhe dói o coração”, mas que “nem com ele nem com seu filho” pode ser "condescendente com o erro”. E isso porque, como para Abraão sua fé em Javé era inquebrável, a ponto de estar disposto a sacrificar seu filho, para Bolsonaro, afirmou ele, “o que há de mais firme é o combate à corrupção”, que havia sido um pacto de fé com seus eleitores.
Estará Bolsonaro, o presidente da Bíblia, disposto, se Deus pedisse, ou melhor, se a Justiça, desta vez a humana, pedisse, a sacrificar seu próprio filho em nome de seu compromisso de fé com seus eleitores? Ou espera que, como com Abraão, Deus acabe lhe fazendo o milagre de não precisar sacrificar o seu filho? A Bíblia, o talismã sagrado dos seguidores de Bolsonaro, colocou o novo presidente não só frente a um dilema bíblico, mas também diante de um hamtletiano ser ou não ser fiel a suas promessas e a sua consciência.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Deus tá na goiaba
Aconteceu algo extraordinário. Eu vi Jesus se aproximando de um pé de goiabaDamares Alves, pastora e futura ministra dos Direitos Humanos, da Mulher e da Família
Um cão no supermercado
De novo na estrada. Glória a Deus. Digo isso porque no período eleitoral entrevistei o Cabo Daciolo. No final da entrevista, me convidou para ser ministro de seu governo. Daciolo esperava vencer, no primeiro turno, com 51%. Aceitei o convite mas lembrei: “Olha, Daciolo, Deus costuma escrever certo por linhas tortas.” Tínhamos que estar preparados para a derrota.
Portanto, glória a Deus: de novo peregrinando pelo Brasil, constato o valor dessa escolha.
No meio da semana, telefonei para casa e soube de uma notícia triste: um cachorro foi morto a golpes de barra de ferro, no supermercado Carrefour. Logo na semana em que o cachorro do velho Bush comoveu o mundo deitado defronte ao caixão de seu dono.
Estava no meio de um trabalho com cachorros. Não podia fugir desse tema. Passei a tarde seguindo um cão-guia e seu dono pelas ruas de Camboriú, Itajaí e Navegantes.
É uma história sobre a escola de cães-guia Helen Keller, em Camboriú. A cadela se chama Alegria e é tão importante para o seu dono que ele tatuou no braço o nome e a pata de sua amiga. Impressionante segui-los, pois ela é muito concentrada, ignora latidos, paqueras e segue no caminho de casa perto do hospital de Navegantes.
Esta semana, conheci também Atobá, um labrador de cara grande. Ele é chamado de Doutor Atobá no Hospital Joana de Gusmão, onde faz um trabalho. Brinca com crianças com câncer e às vezes as acompanha nos seus dias finais.
Além disso, Atobá ajuda na terapia de crianças que sofreram paralisia cerebral ao nascer e ajuda os que têm problema de mobilidade.
Atobá vive na casa do cirurgião plastico Luís Augusto. É essencial para seu filho, que sofreu uma doença grave. Ele acredita que uma das qualidades terapêuticas do cão é despertar amor e lembra que na simbologia chinesa coração e cachorro se equivalem.
Foi uma longa conversa. Tenho espaço apenas para lembrar um detalhe essencial. Como cirurgião plástico num hospital infantil, ele conhece duas faces do cachorro, o amor da vida de seu filho, mas também as inúmeras reparações que teve de fazer em vítimas de mordidas de cão feroz.
Percorrer o Brasil atenua o impacto das más notícias. A imprensa não pode deixar de divulgá-las: são parte da realidade. Mas é animador ver experiências como a formação dos cães-guia, ainda tão poucos para a grande demanda nacional. É bom ver o país com seus lados diferentes, como o doutor Luís Augusto vê os cães. E continuar gostando muito.
Finalmente, numa semana dedicada a eles, não posso me esquecer dos cães farejadores de maconha no Colorado: foram aposentados com a legalização da cannabis. Espero, pelo menos, que tenham boas lembranças de seu longo período do labor olfativo.
De uma certa forma, voltarão à realidade assim como o Brasil no princípio do ano, quando o governo começa de fato. Por enquanto, as notícias dos bastidores são um pouco complicadas. Rusgas no partido do governo, intrigas entre generais e políticos. E as pautas-bomba no Congresso, ministro do STF prendendo gente em avião.
Uma nota sobre as atividades financeiras de um assessor do então deputado Flávio Bolsonaro: movimentou R$ 1,2 milhão em 12 meses e vive de salário.
Para os mais velhos, é uma cantiga que assombra, e esperamos que seja apenas uma alucinação de cães farejadores aposentados. O ano que vem trará as respostas. A cadela Alegria tem um método de trabalho que me encanta. É toda atenção quando é necessário. No momento de poupar energia, não vacila: encosta a cabeça no chão e olha demoradamente para o vazio, fecha os olhos, abre de novo.
Em termos políticos, pode ser um bom programa para as festas de fim de ano. Uma semana de trégua, se tanto, já bastaria.
A transição de governo foi um processo um pouco confuso. Os índios devem estar mareados com os balanços do barco da Funai. A nova ministra de Direitos Humanos declara que índio é gente. Pensei que isso estava resolvido há séculos, quando os religiosos perguntavam se índio tinha alma.
O ano que vem será quente mesmo para quem acha que o aquecimento global é uma invenção marxista.
Portanto, glória a Deus: de novo peregrinando pelo Brasil, constato o valor dessa escolha.
No meio da semana, telefonei para casa e soube de uma notícia triste: um cachorro foi morto a golpes de barra de ferro, no supermercado Carrefour. Logo na semana em que o cachorro do velho Bush comoveu o mundo deitado defronte ao caixão de seu dono.
Estava no meio de um trabalho com cachorros. Não podia fugir desse tema. Passei a tarde seguindo um cão-guia e seu dono pelas ruas de Camboriú, Itajaí e Navegantes.
É uma história sobre a escola de cães-guia Helen Keller, em Camboriú. A cadela se chama Alegria e é tão importante para o seu dono que ele tatuou no braço o nome e a pata de sua amiga. Impressionante segui-los, pois ela é muito concentrada, ignora latidos, paqueras e segue no caminho de casa perto do hospital de Navegantes.
Esta semana, conheci também Atobá, um labrador de cara grande. Ele é chamado de Doutor Atobá no Hospital Joana de Gusmão, onde faz um trabalho. Brinca com crianças com câncer e às vezes as acompanha nos seus dias finais.
Além disso, Atobá ajuda na terapia de crianças que sofreram paralisia cerebral ao nascer e ajuda os que têm problema de mobilidade.
Atobá vive na casa do cirurgião plastico Luís Augusto. É essencial para seu filho, que sofreu uma doença grave. Ele acredita que uma das qualidades terapêuticas do cão é despertar amor e lembra que na simbologia chinesa coração e cachorro se equivalem.
Foi uma longa conversa. Tenho espaço apenas para lembrar um detalhe essencial. Como cirurgião plástico num hospital infantil, ele conhece duas faces do cachorro, o amor da vida de seu filho, mas também as inúmeras reparações que teve de fazer em vítimas de mordidas de cão feroz.
Percorrer o Brasil atenua o impacto das más notícias. A imprensa não pode deixar de divulgá-las: são parte da realidade. Mas é animador ver experiências como a formação dos cães-guia, ainda tão poucos para a grande demanda nacional. É bom ver o país com seus lados diferentes, como o doutor Luís Augusto vê os cães. E continuar gostando muito.
Finalmente, numa semana dedicada a eles, não posso me esquecer dos cães farejadores de maconha no Colorado: foram aposentados com a legalização da cannabis. Espero, pelo menos, que tenham boas lembranças de seu longo período do labor olfativo.
De uma certa forma, voltarão à realidade assim como o Brasil no princípio do ano, quando o governo começa de fato. Por enquanto, as notícias dos bastidores são um pouco complicadas. Rusgas no partido do governo, intrigas entre generais e políticos. E as pautas-bomba no Congresso, ministro do STF prendendo gente em avião.
Uma nota sobre as atividades financeiras de um assessor do então deputado Flávio Bolsonaro: movimentou R$ 1,2 milhão em 12 meses e vive de salário.
Para os mais velhos, é uma cantiga que assombra, e esperamos que seja apenas uma alucinação de cães farejadores aposentados. O ano que vem trará as respostas. A cadela Alegria tem um método de trabalho que me encanta. É toda atenção quando é necessário. No momento de poupar energia, não vacila: encosta a cabeça no chão e olha demoradamente para o vazio, fecha os olhos, abre de novo.
Em termos políticos, pode ser um bom programa para as festas de fim de ano. Uma semana de trégua, se tanto, já bastaria.
A transição de governo foi um processo um pouco confuso. Os índios devem estar mareados com os balanços do barco da Funai. A nova ministra de Direitos Humanos declara que índio é gente. Pensei que isso estava resolvido há séculos, quando os religiosos perguntavam se índio tinha alma.
O ano que vem será quente mesmo para quem acha que o aquecimento global é uma invenção marxista.
Perfeitos latino=americanos

Bolsonaro e AMLO começam a governar com cacifes políticos diferentes. O brasileiro terá de atuar dentro de um sistema de governo conhecido como “presidencialismo de coalizão”, que obriga o chefe do executivo a se entender de alguma maneira com o legislativo. O mexicano já assumiu na invejável posição de comandar um partido forte (que o brasileiro não tem) dono de consistente maioria no Congresso e de importante número de governos estaduais.
Ambos – Bolsonaro e AMLO – são fenômenos políticos notáveis. Na memória política recente do México nunca houve tanta concentração de poder político como a que acaba de ser conquistada pelo atual presidente. Na memória política recente do Brasil não houve uma virada política tão pronunciada como a que se registrou nas eleições de outubro.
Mas é a plena consciência que tanto AMLO como Bolsonaro exibem de sua condição de fenômenos políticos que os faz começar a agir do mesmo jeito. Bolsonaro e AMLO foram percebidos como forças políticas capazes de “mudar o sistema”. Nesse sentido, pouco importam as notórias diferenças ideológicas: a mensagem central que Bolsonaro e AMLO empregaram com êxito foi dizer que a política não será mais como antes.
Ambos estão fascinados pelo que identificam como a possibilidade de “falar diretamente” com o eleitor (ou o povo, a sociedade, o País, como se quiser). AMLO assumiu no começo do mês e já deu uma demonstração do que entende por diálogo direto. Organizou como presidente eleito uma espécie de plebiscito no qual o “voto popular” optou por encerrar um gigantesco projeto de infraestrutura, um novo aeroporto junto da Cidade do México, no qual já haviam sido enterrados 13 bilhões de dólares.
Ao ser diplomado no começo da semana, Bolsonaro soltou a frase que parece mesmo orientar boa parte de seu pensamento político (pois não foi improvisada): o poder popular não precisa mais de intermediação, à medida em que novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes. É irresistível a tentação de julgar que o capital político acumulado na expressiva vitória eleitoral não só pode, mas “deve” ser transformado num instrumento de governo, por sua vez entendido como a concretização da “vontade popular” sem atravessadores.
Apenas como exercício teórico, vamos ignorar aqui os obstáculos institucionais, legais ou de coordenação política – no México como no Brasil – que inevitavelmente retardam, modificam ou mesmo impedem que se realize essa “vontade” direta, sem intermediação. Os fenômenos políticos de AMLO e Bolsonaro são em boa medida apostas contra o tempo, ou seja, eles não desfrutarão do prazo que esses mandatários gostariam de dispor para responder aos anseios de transformação, mudança e destruição do “sistema” que os levaram ao poder – fora o resto.
Não sei com que olhos AMLO e Bolsonaro enxergam um colega que os antecede por uns dois anos no posto, Mauricio Macri, da Argentina. Lembram-se? Ele também foi festejado como um fenômeno político relevante dado “el cambio” que representou ao se eleger. As reformas pretendidas por ele pararam a meio caminho. O sucesso político também. Será que Macri não foi “direto” o suficiente?
O doutor Chirinos
O mais extraordinário do espetáculo talvez não seja a esplêndida recriação que Héctor Manrique faz de tal personagem, vestindo-se e desvestindo-se, cantando, dançando e delirando sem trégua, exibindo sua egolatria e excesso até extremos disparatados, mas sim que tudo aquilo que o doutor Chirinos diz no palco ele disse de verdade a uma jornalista, Ibéyise Pacheco, que gravou e depois publicou o material em um livro que leva o mesmo título da peça teatral, adaptada e dirigida pelo próprio Héctor Manrique.
Conheci Héctor há muitos anos, em Caracas, porque dirigiu uma peça minha, Al Pie del Támesis – uma bela montagem, diga-se de passagem –, que depois levou à Colômbia. O comandante Chávez estava só começando a obra de demolição de uma Venezuela cuja vida cultural ainda fosforescia por sua diversidade e riqueza. Não só o teatro como também a dança, a pintura, a música e a literatura. Mas o país vivia um perigoso deslumbramento com o militar golpista, cujo levante contra o Governo legítimo de Carlos Andrés Pérez havia sido reprimido por um Exército leal às leis e à Constituição. Como é sabido, o comandante sedicioso, em vez de ser julgado, foi indultado pelo presidente Rafael Caldera e se tornou em pouco tempo um líder popular que arrasou nas eleições.
Custava-me entender isso. Como um país que tinha sofrido ditaduras tão ferozes no passado e que tinha lutado com tanta fidalguia contra o regime espúrio de um Marcos Pérez Jiménez podia cair rendido à demagogia de um novo caudilhozinho truculento, inculto e mal falado? Com uma exceção, entretanto: os intelectuais. Eles foram muito mais lúcidos que seus compatriotas. Com poucas exceções – praticamente caberiam numa só mão –, mantiveram-se na oposição ou pelo menos guardando uma distância prudente, sem participar do deslumbramento coletivo, da absurda crença, tantas vezes desmentida pela história, de que um homem forte poderia resolver todos os problemas sem as tramas burocráticas da inepta democracia.
A Venezuela daqueles anos, com suas grandes exposições, seus festivais internacionais de música e de teatro, com suas editoras flamejantes, seus museus e seus encontros e congressos que atraíam a Caracas os pensadores, escritores e artistas mais celebrados no mundo, agora está morta e enterrada. E levará muitos anos e enormes esforços para ser ressuscitada.
Os discursos que o delitivo doutor Edmundo Chirinos regurgita perante o público em "Sangre en el Diván" se parecem muito com os do comandante Chávez, lançando uma chuva de impropérios contra a morosa e corrupta democracia e prometendo o paraíso imediato a seus crentes. Os venezuelanos que acreditaram nele se deram tão mal quanto os iludidos pacientes do psiquiatra que terminavam deixando seu sangue no divã. Muitos deles agora comem só o que encontram no lixo.
A peça que Héctor Manrique interpreta não foi proibida na Venezuela – pelo contrário, acumula quatro anos em cartaz e muitas dezenas de milhares de espectadores –, talvez porque os censores sejam menos perceptivos do que seu triste ofício exigiria, e, também porque, à primeira vista, Sangre en el Diván poderia parecer um caso à parte, o de um indivíduo fora do comum, a tão famosa exceção à regra, a “mosca branca”.
Entretanto, não é assim. Muito do que depois viria a ocorrer na Venezuela é mostrado, de forma resumida sobre o palco, na sinistra odisseia do doutor Edmundo Chirinos, no seu poder acumulado a partir da fraude e sua loquacidade doentia. Renunciar à razão pode dar frutos extraordinários nos campos da poesia, a ficção e a arte, como sustentaram o surrealismo e outros movimentos de vanguarda. Mas entregar-se à injustiça, ao puramente emotivo e passional, é muito perigoso na vida social e política, um caminho seguro para a ruína econômica, a ditadura, enfim, para todos esses desastres que levaram um dos países mais ricos do mundo a se tornar um dos mais pobres e a ver milhões de seus habitantes se lançarem ao exílio, mesmo que seja andando, para não morrer de fome.
De nada disso falamos com Héctor Manrique quando desci aos camarins do teatro para lhe dar um abraço e parabenizá-lo. Perguntei-lhe se é verdade que não há uma palavra em seu monólogo que o doutor Chirinos não tenha dito de verdade, e me confirmou que é assim, e me apresentou ainda a Ibéyise Pacheco, que foi quem o entrevistou durante muitas horas na cela da prisão onde estava confinado pelo assassinato de uma paciente. Eu gostaria de ter recordado com Héctor aqueles lindos anos em que a literatura e o teatro nos pareciam as coisas mais importantes do mundo, e também toda a Venezuela parecia acreditar nisso, a julgar pelas revistas culturais que saíam a cada semana e pela quantidade de novos escritores, artistas e companhias de teatro e de concertos que surgiam e disputavam as noites de Caracas. Aquilo ocorria não só na capital, mas também no interior do país, onde apareciam novas universidades e novos artistas. A Venezuela inteira parecia tomada então por uma avidez frenética de cultura e criatividade. E de lembrar grandes amigos que já não estão mais aqui, como Salvador Garmendia e Adriano González León, o autor de País Portátil, um magnífico romance, que, dizem-me, caiu subitamente morto no bar onde sempre tomava a saideira, e daquele grupo revoltoso de jovens, El Techo de la Ballena, que semeou Caracas de escândalos anarquistas.
A única coisa boa das ditaduras é que, embora provoquem desastres, sempre morrem. Com o passar do tempo, sua lembrança vai se empobrecendo e, às vezes, os povos que as padecem chegam a se esquecer que as padeceram. Mas duvido que ocorra tão cedo com a que transformou a Venezuela num país que não é nem sombra daquele que conheci em meados dos anos sessenta. Tomara que o horror que viveu todos estes anos, transformada praticamente em um dos sanguinários delírios do doutor Edmundo Chirinos, a poupe de no futuro voltar a renunciar à razão e à sensatez, que na política são a única garantia de não perder a liberdade.
Bem-vinda, velha política!
Foi um verdadeiro feito de marketing que um deputado com 27 anos de Câmara, boa parte deles no PP, que loteou a política carioca com seus filhos, um membro do baixo clero do que há de mais velho na política nacional, tenha conseguido se vender como um renovador radical que veio para limpar tudo. Antes mesmo de iniciar o mandato, contudo, a imagem do "mito" já está se desfazendo, para revelar o que ele de fato sempre foi: um velho político.

As revelações do Coaf sobre as transações suspeitas do ex-assessor de Flávio Bolsonaro apenas ilustram o fato. É cedo para tirar qualquer conclusão, mas é uma possibilidade que Flávio Bolsonaro cobrasse mesada dos cargos comissionados de seu gabinete. Se for isso mesmo, ele apenas fez o que tantos políticos e partidos brasileiros sempre fizeram. É como a política brasileira funciona.
O caixa dois, o "dízimo" para o partido ou para o representante, o carguinho para amigos e familiares, a aliança com indivíduos suspeitos. Tudo isso é ruim, e o Brasil será um país melhor quando essas práticas forem menos abrangentes. Mas isso dependerá de reformas do sistema, e não da perseguição implacável a cada um dos que simplesmente jogaram o jogo e tiveram o azar de serem pegos. Não é, portanto, um motivo para demonizar o novo governo.
Bolsonaro surfou a onda jacobina dos que estão prontos a cortar a cabeça de qualquer pequena transgressão das regras, ou até de qualquer suspeita de transgressão. Seus militantes eram taxativos: o PT? Totalmente corrupto. Alckmin? Escândalo das merendas. Marina? Foi do PT. Se aplicássemos a mesma condenação inflexível ao governo Bolsonaro —a Onyx Lorenzoni, que já admitiu ter recebido caixa dois, ao ex-assessor de Flávio Bolsonaro, à contratação da Wal do Açaí, ao ministro do Meio Ambiente que é réu na Justiça—, ele próprio iria para a guilhotina.
A única dúvida agora é saber se ele governará como político ou se tentará ainda manter o discurso antipolítico da campanha. Bolsonaro diz que governará sem "toma lá dá cá". Fará diferente de Temer, que para aprovar suas medidas abriu as portas dos ministérios e as torneiras das emendas parlamentares?
Até agora, a promessa parece estar sendo cumprida, mas isso não é necessariamente bom. Bolsonaro tem, em suas nomeações, praticado apenas o "toma lá", sem nenhuma expectativa que as bancadas e partidos beneficiados "deem cá" qualquer contrapartida. Está entregando o país a ruralistas, militares, evangélicos e ideólogos da extrema direita sem exigir nada em troca (como apoio a medidas impopulares mas necessárias ao país). Não tem sido um espetáculo edificante ou particularmente virtuoso e arrisca nos deixar, por exemplo, sem uma boa reformada Previdência.
A política é o exercício de conciliar interesses e ideias contraditórios. Isso por vezes é feio e fere nosso purismo ético e ideológico, mas a única alternativa é a violência. Salvo um golpe, Bolsonaro ou governará fazendo política ou não governará. Melhor já ir se acostumando à realidade como ela sempre foi.
Joel Pinheiro da Fonseca
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