sábado, 22 de março de 2014

O país obscuro


Detalhe Hieronymus Bosch, pseudônimo de Jeroen van Aeken (1450/1516)

O meu país foi uma pátria morta
Que só sabia fechar as portas.

O meu país não me deu conhecimento.
Na escola estudávamos silêncio.

O meu país não soube soletrar meu afeto,
Me matou que eu ainda era feto.

O meu país não foi um país,
Foi um estado de sítio.

E eu vivi em seu coração
Como quem morre no exílio


Miguel Sanches Neto, no livro “Venho de um país obscuro”

sexta-feira, 21 de março de 2014

Frase do dia

"Pessoas com medo não mudam o pais"
Ricardo Boechat, jornalista e âncora de TV

Máquina de compra de votos

Já foi o tempo de se garantir a boquinha nos governos e legislativos com dentadura, saco de cimento, caixão e outras fórmulas bem mais bizarras. A Republiqueta Estrelada solucionou muito bem a compra de votos descarada. Resolveu acionar a máquina pública para se fantasiar de projeto social, principalmente a partir de ano pré-eleitoral. Nada daqueles cabides de emprego e de doações particulares. Agora doam-se, ou melhor, são entregues às prefeituras maquinários para se fazer obra que nunca sairá do papel, mas garantem propaganda forte junto às massas. São agrados eleitoreiros que passam na cara da Justiça, que como sempre fica de olhos vendados. Como pode proibir uma “doação” tão impactante junto à população? Vai condenar o beneficiado na ponta? Para não dar tiro no pé, prefere se restringir a ser mais uma estátua.
Assim o kit Máquina está tratorando em quatro de cada cinco prefeituras com a distribuição de 7.326 veículos. E antes das eleições está prevista a entrega de mais 11 mil entre motoniveladora, retroescavadeira e caminhão-caçamba.

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E falando de máquina, eis uma historinha de tempos bem mais recentes do que se pensa. Ilustra o que os simpatizantes da Republiqueta Estrelada são capazes de fazer com máquinas. São as mágicas orgias para engambelar o povo. Governo de Vila dos Patos anunciou com toda pompa um convênio (leiam-se cifrões pagos com dinheiro do povo) com uma organização, sediada a léguas de distância, para desenvolver a piscicultura na região e até conseguiu a doação de uma máquina para cavar os tanques. Poucos anos são passados, nem se fala do convênio que custou um bom dinheiro e não deu em nada, nem sequer sabe-se da tal máquina em que buraco se enfiou, ou foi enfiada. E de peixe criado nem barrigudinho.
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Ainda não se esqueça daquele “presente” recebido, por coincidência, também por Vila dos Patos. O governo da época soltou foguetório, anunciou por seca e meca o fim da falta de água na cidade. Enfim tinham uma perfuratriz especialíssima para acabar com o sofrimento da população. A máquina chegou e aí descobriram que não era para qualquer um operar. Saíram atrás de contratar um operador. Como era especialista, ganhava mais do que o governo podia pagar. E lá se foi a solução por água abaixo, pois tinha-se o veículo, mas ninguém para fazê-lo funcionar. Nenhum poço foi perfurado e a máquina tomou chá de sumiço. A seca também continuou.     

quinta-feira, 20 de março de 2014

É bom avisar aos governos

"Todo mundo tem absoluto direito de expressar a sua opinião e acho que cada um de nós, além de ter o direito de expressar sua própria opinião, tem também o dever de respeitar a opinião dos outros, mesmo não sendo concorde com ela"
Dilma Rousseff

quarta-feira, 19 de março de 2014

Futuro escrito no passado


Há uma história perdida por esses cantões que fala de um sábio pensador, pois pensar não é atributo de sabedoria. O futuro nunca tinha mistérios para ele. Profetizava com categoria e acertava na mosca. Mais incrível é não estar nas redes sociais, não ter computador, nem ler jornais ou ver televisão. Bastava ser informado sobre o que acontecia e logo vinha a resposta com comentários sobre as conseqüências. Sempre exatos. A pergunta que não se calava era em que bola de cristal adivinhava o futuro. Era preciso descobrir o segredo de seus acertos. Nem se imagina o poder dos políticos e dos governantes com a fórmula mágica nas mãos. De tanto procurarem descobrir o segredo, por qualquer meio, e certo de que chegariam a qualquer ação para saber como desvendava o futuro, resolveu falar. – Não há o que esconder, pois tudo está escrito há séculos nos livros. Basta a cada um ler com olhos de ver e pensar sobre o que lê. E não mais falou para sempre.    

Frase do Dia

"O que há no governo é mais do que má gerência, É uma fé infinita na empulhação, ofendendo a inteligência alheia"
Elio Gaspari, "O comissariado destruidor" 

segunda-feira, 17 de março de 2014

As plantas e os porcos

Planta viçosa nunca se viu. Imensa ramaria, folhas aveludadas e coloridas, imensas flores perfumadas. Maciços delas tomavam os campos. Era uma festa cada floração e uma alegria a cada manhã. Até os porcos chegarem.
Focinhavam em tudo. Se refestelavam sobre as moitas macias. As belas flores eram pasto para uma fome incomensurável. Os dias perderam a beleza. E o que era perfume pelo ar passou a ser impregnado fedor de bosta, de sujeira. Os campos estavam sendo arrasados pelas patas insanas e bocas famintas de destruição.
Se era preciso fazer alguma coisa, foram as próprias plantas que decidiram agir. Ninguém mais se manifestou contra a porcaria que se implantou naquela terra. Das moitas coloridas, restaram toquinhos. E deles, com esforço, as plantas passaram a lançar espinhos. Aos poucos cada uma foi se recuperando.
Espinhentas, se tornaram um tormento para os porcos, que já não faziam delas pasto e repasto. Puderam começar a crescer e a reflorir, exalando pelos caules um cheiro ácido só sentido pelos porcos. Nenhum deles se arriscava a enfrentar plantas tão fedidas e espinhentas.
Foi só quando voltou a Primavera que novamente surgiram os campos renovados, esplendorosos. A voracidade dos animais foi para outros prados, os porcos nunca mais voltaram para comer e espezinhar a felicidade, que refloriu perfumada de flores.    

domingo, 16 de março de 2014

Frase do dia 

'O nosso povo conhece a pior forma de escravidão: ser cativo da própria pátria. Cativo da impotência e da injustiça. Escravo do desprezo dos que mandam. Pátria grande de dores. De todas, a mais terrível, que não para de crescer, é a das desigualdades'
(Thiago de Mello, em "Cinco séculos de dores")

Lição de sobrevivente

Tokapi é um sobrevivente. A tribo milenar dos Mentawai, em Java, na Indonésia, está hoje restrita a quase mil pessoas, depois de quase exterminada por pressões religiosas, contrárias ao animismo e à prática da tatuagem, a qual foram os primeiros a fazerem. Esses aborígenes só não sumiram do mapa devido curiosamente ao turismo. Encantados com a cultura, os estrangeiros garantem a sobrevivência deles, e o governo logicamente não é bobo de pensar em acabar com a fonte de riqueza. Nem também burros são os Mentawai sobre sua sobrevivência: "Por dinheiro, o governo faz qualquer coisa", diz o xamã Tokapi. Sabem eles muito bem o que é governo. Entre eles, todas as decisões são colegiadas por cada integrante adulto da tribo. Assim não fazem nada por dinheiro, dando lição a muito governante por aí que faz tudo por uns trocados.

sábado, 15 de março de 2014

Só idiota acredita

Mipin, maior feira imobiliária realizada em Cannes (França), teve como destaques, segundo revista inglesa, Barcelona,m Paris Milão e... Vila dos Patos. Esses seriam os melhores locais de investimento no momento. É de se admirar que uma insignificante cidadezinha sem água, sem esgoto, sem ruas asfaltadas, sem transporte público digno, sem recolhimento de lixo, sem policiamento, sem saúde, e sem muitos outros etcs, possa se igualar àquelas cidades. Acreditam em tamanha importância da rastaquera vila de beira de estrada só os imbecis mais bem pagos da região ou quem é semianalfabeto.