sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Tragédia americana

Até a semana passada eu nunca tinha ouvido falar em Charlie Kirk. Agora tenho a impressão de não ter ouvido falar em outra coisa ao longo de muitos e muitos dias, ou talvez meia dúzia de dias, mas extremamente longos. Eu preferia a versão anterior. Ignorance is bliss, dizem eles, e sabem do que estão falando: a ignorância é uma bênção.

Eu vi o vídeo do assassinato.

Foi uma das coisas mais horripilantes que já vi na internet, e olha que já vi muitas coisas horripilantes na internet. Cheguei no século passado, quando tudo era mato e ainda havia aberrações explícitas ao alcance de pessoas desavisadas. Vi venda aberta de drogas e de armas, vi vídeos de crimes medonhos e maldades inconcebíveis — coisas que hoje só se encontram procurando com cuidado (ou frequentando o X, esgoto da pior experiência humana). Carrego cicatrizes na alma.

Pouco depois o vídeo passou a circular desfocado, mas àquela altura já havia uma tempestade de ódio — a esquerda comemorando abertamente o assassinato, gente rindo e dançando, a direita promovendo uma caça às bruxas desenfreada, endossada oficialmente pelo vice-presidente e por uma quantidade de parlamentares e funcionários de alto escalão que deveriam ter mais juízo e compostura.

Um circo de horrores. Uma parada macabra. Uma exibição do pior que existe, Humanidade em estado bruto, sem freios nem verniz.


Uma página criada para denunciar quem festejou o crime recebeu mais de 60 mil queixas em apenas dois dias. Empresas foram assediadas, pessoas perderam contratos e empregos. O paradoxo, aliás, é gritante: a extrema direita, que prega a liberdade absoluta de expressão, mostrou-se de repente profundamente abalada com a liberdade de expressão alheia. A liberdade, pelo visto, só serve quando ecoa a própria voz.

Um chefe de Estado responsável estaria fazendo o possível e o impossível para pacificar o país, mas Trump sendo Trump sequestrou o funeral, marcado para o próximo domingo, e vai tirar o máximo proveito de cada centelha de indignação. A página da organização de Kirk, em tpusa.com, anuncia a cerimônia como se fosse um grande espetáculo, com line-up das principais atrações: fotos de Erika Kirk, Donald Trump e J.D. Vance, além da presença confirmada de Marco Rubio, Pete Hegseth, Tucker Carlson e mais meia dúzia de estrelas do firmamento trumpista. Um showmício travestido de despedida fúnebre.

É tudo horrível.

Violência política não é novidade, sobretudo nos Estados Unidos, onde pessoas públicas são assassinadas com certa regularidade. A novidade talvez seja a visão do horror em tempo real, a multiplicação instantânea de imagens capazes de amplificar ressentimentos e fúrias. Foi assim com o assassinato de George Floyd, que incendiou o país há cinco anos, e é assim agora com o de Charlie Kirk, cujas consequências mal começam a se desenhar. O tiro que o acertou não derrubou só um corpo: atingiu em cheio uma sociedade polarizada e já muito fragmentada, onde qualquer tentativa de diálogo deixou de existir.

O Congresso e o teatro do absurdo

Uma cena estarrecedora no Congresso Nacional. Deputados orando de mãos dadas, aos gritos, após aprovarem a PEC que os blinda de punições por qualquer crime. Qualquer um. Estupro, assassinato, corrupção. Estamos diante de uma das piores encenações do Congresso Nacional. É o teatro do absurdo em ação.

“Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos do mal. Améééém”. Gargalhadas.

Sempre achamos que já vimos tudo de hipocrisia e cinismo no nosso Congresso. Mas nos enganamos. É um escárnio o presidente da Câmara, Hugo Motta, com aquele cabelo engomadinho esticado para trás, dizer que a PEC da Bandidagem “fortalece a atividade parlamentar”.


Outra declaração pra lá de cínica: “ajuda a pacificar a sociedade” a urgência da anistia para os golpistas de 8 de janeiro, já condenados pelo STF. Seria cômico se não fosse trágico. “O Brasil precisa de pacificação. Não se trata de apagar o passado (...) mas o país precisa andar”.

Andar pra trás. Até a senadora Damares Alves, colega de Motta no Republicanos, e ministra “terrivelmente cristã” no governo Bolsonaro, é contra a PEC da Blindagem. Meu Deus, pela primeira vez uma fala de Damares faz total sentido. A senadora que viu Jesus na goiabeira teve um acesso de lucidez.

“Essa PEC será recepcionada pela sociedade com muito horror”, disse Damares. “Imagine um parlamentar acusado de pedofilia, a minha causa. E para que um inquérito seja aberto contra ele, a gente é que vai decidir? No voto secreto? Ah não... é só questão de improbidade. Não, será todo um rol de crimes”.

PEC da bandidagem aprovada com louvor a Deus. Voto secreto. Para autorizar ou barrar investigações de coleguinhas, pois covardes são todos. Votação de anistia para os golpistas vândalos do Congresso e do Supremo, incitados por Bolsonaro e generais. Tudo madrugada adentro. Brigalhada por privilégios deixa aceso o bando de preguiçosos de terno e gravata.

Manobra para manter o mandato de um deputado que se autoexilou nos EUA para conspirar contra o Brasil. Aliás, como explicar para o eleitor que um líder da minoria na Câmara pode faltar à vontade e receber fora do país sua gorda remuneração como parlamentar – mas um deputado não?

Se os nobres deputados empregassem um centésimo dessa energia votando pautas que interessam à população, a Câmara estaria no caminho certo. Mas o que vemos é uma casta já privilegiada legislando freneticamente e sem pudor pela própria impunidade. Dá vergonha alheia. E sensação de impotência.

Claro que esses votos na Câmara podem ser revertidos pelo Senado de Davi Alcolumbre, hoje o maior acossado do Congresso. Claro que há etapas e obstáculos à frente do rolo compressor comandado pelo Centrão. O grande responsável pelo país não andar é o tíbio Hugo Motta. O Brasil espera não Godot, mas Alcolumbre. Será em vão?

O porquê de associar nosso Congresso ao Teatro do Absurdo é claro. Esse movimento teatral, surgido após a Segunda Guerra, expressava a desolação, a falta de sentido e a dificuldade de comunicação da humanidade. O crítico Martin Esslin cunhou assim peças que usam situações ilógicas para refletir sobre a condição humana.

A Câmara se tornou o palco do absurdo, dando inveja a Beckett, Ionesco e Jean Genet. E nós? Espectadores indignados, mas passivos, nos limitando a abaixo-assinados digitais, enquanto o mundo protesta nas ruas.

domingo, 14 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Sombras ocultas do poder

Numa série sobre ovnis, em meio a depoimentos de cientistas e militares, um deles justifica o acobertamento do fenômeno até para presidentes americanos: "O que faria Trump com esse segredo..." Jimmy Carter, único publicamente interessado na matéria, foi bloqueado por George Bush, então diretor da CIA. Verdadeiras ou não, as informações seriam apanágio de uma camada específica de poder, composta por militares, empresários e especialistas em engenharia reversa.


A olhos públicos, esse assunto oscila entre o ridículo e teorias da conspiração. Mas é plausível a hipótese de uma esfera de conhecimento isolada e protegida no âmago de uma potência mundial. Longe de entidade unitária, o Estado é um sistema de mediações jurídicas, políticas, empresariais, uma das quais pode se erigir em contrapoder paralelo. Dwight Eisenhower, o 34º presidente americano (1953-61), já advertia contra a hipertrofia do complexo industrial-militar. As inovações mais decisivas nos domínios bélico, científico e comercial, vedadas ao público, resultam da imbricação de militares e indústrias. Big techs são aspirantes recentes à parceria.

É assim possível conceber um político chegando ao topo para descobrir que o poder total não está mais lá. Acontece na superpotência, também em países periféricos onde o capitalismo financeiro redefine o território nacional por quantificação da vida e extração de recursos naturais. Nas corporações e nos porões institucionais, tramam-se agendas paralelas que tentam reger a vida política.

Antitética ao princípio de representação democrática, a razão digital e algorítmica é uma nova forma de extrativismo, alheia a questões de soberania. Implica uma reordenação social em que a política partidária se afigura como letra morta, da qual as estruturas montadas ainda não conseguem se desvencilhar. Destituídos de poder real, os políticos programados para ocupar posições de governo encenam o roteiro formal das regras parlamentares, mas como simulação da legitimidade representativa perdida.

Desse modo, a corrupção preenche formas vazias: escudado na Constituição em torno de seus próprios interesses, um parlamento pode isolar-se como máquina pública de chantagem. Entre nós, articulada a golpismo e crime organizado. Aos governantes, sem o monopólio dos discursos de escolhas e decisões que mantêm o sistema social, abre-se a avenida do histrionismo: interpretação burlesca de si mesmo e demanda exibicionista de atenção, sem o senso de decência que ao menos aparentava a direita liberal. Mas com método: detrás da palhaçada, o caos institucional atende à camada das sombras, um consórcio conjuntural de interesses extrativistas.

Modelos ativos: Trump e Milei. Condenado Bolsonaro, fica o bolsonarismo como "uma mistura tóxica de conspiração, ressentimento, fervor religioso e nostalgia da ordem militar" (Andre Pagliarini, brasilianista). Trump, agora sem bravata, lamentou: "Uma coisa terrível, eu pensava que ele era um bom homem". A isso se agarram as sombras, sem pátria, com a mesma esperança crédula em disco voador.

O óbvio

Essa condenação é exemplar, independentemente dos esforços dos apoiadores de Jair Bolsonaro para aprovar uma lei de anistia. Ela recorda a todos o que deveria ser óbvio: o primeiro princípio da democracia é que o exercício do poder depende do veredicto das urnas, e certamente não do saque às instituições.
Le Monde 

A geopolítica do quintalismo e nós

A cada dia e cada vez mais, e com crescente dificuldade, percebemos que a realidade social e política muda e se transfigura. Tão depressa que até mesmo nossa alfabetização foi relativizada, o vocabulário inundado por uma enxurrada de palavras diferentes, muitas que dizem algo que já supúnhamos dizer com as velhas e costumeiras palavras ensinadas por nossos avós e pais.

Um sentimento desconfortável de ignorância se apossa dos que, como eu, foram educados na certeza de que o saber é progressivo e acumulativo. O de fato aprendido, supostamente aprendido está. Mesmo o nosso mundo cotidiano, tradicionalmente tão repetitivo, já não se repete. O mundo de cada manhã é uma surpresa. Além do mais, o nosso pequeno mundo de seres do dia a dia é regulado por um grande mundo que não conhecíamos.


Na manhã de sábado, dia 6, li na primeira página do “New York Times” que o ainda presidente dos EUA decidira mudar o nome do seu Departamento de Defesa para Departamento de Guerra. Nestes dias, tomou decisões quanto ao deslocamento de navios de guerra americanos para o Caribe. Um ataque americano seria retaliação a um possível ataque da Venezuela. Justificou-se com suspeitas sobre a Venezuela. O velho truque de provocar a guerra para ter o pretexto de fazê-la.

Trump anunciou também seu desapontamento com o Brasil na questão do tarifaço. Ou seja, não é a Venezuela que está na mira dos canhões do agora Departamento de Guerra. Ou não é apenas. Trump quer arrastar a América do Sul a um novo cenário de conflitividade. Ele muda a geografia do mundo com o que se pode chamar de sua geopolítica do quintalismo.

Essa é a palavra nova. Alguém nos EUA fez referência, há algum tempo, que repercutiu na mídia, de que a América Latina é o quintal dos americanos. Continua sendo.

Justificam no Brasil de hoje o que é próprio do fascismo e do nazismo, nem mesmo faltando a suástica em bandeiras e em trajes em várias manifestações públicas. Todos, no fundo, a achar que quem é fascista e direitista é, ao mesmo tempo, patriota.

Escandalosa e acintosa, a imensíssima bandeira americana no desfile bolsonarista do dia 7 de setembro na avenida Paulista para não comemorar o dia da pátria. No caminhão-palanque os astros das pretensões antipatrióticas e antidemocráticas: o pastor Malafaia, o governador Tarcísio de Freitas, o gerente do PL e os acólitos da trama e do disfarce.

No mesmo momento em que o golpe de Estado está em julgamento e as primeiras sentenças para a cúpula da trama são anunciadas, a exibição descarada de que o golpe continua na manifestação quinta-coluna da simbólica avenida. É a continuidade do golpe de 1964.

Os cidadãos democráticos do país cometeram grave erro ao julgarem que o fim da ditadura militar de fato acabava com ela. Faltou-nos aqui uma providência como a que a Universidade da Califórnia em Berkeley fez nos estados no imediato pós-guerra: a referencial pesquisa sociológica sobre o Fator F (Fascismo), de uma equipe de cientistas liderados por Theodor W. Adorno, sobre personalidade autoritária nos EUA. Um estudo sobre a disponibilidade dos americanos para a aceitação do discurso antidemocrático e fascista.

De fato, nos anos 1950 a América manifestou traços de personalidade como o racismo, a intolerância ideológica, a variedade de preconceitos antissociais. Só aos poucos os movimentos sociais provocaram alguma superação da anomalia e do perigo.

Aqui, não fizemos nada disso. Ingenuamente, julgamos que o fim formal da ditadura militar era suficiente para estabelecer a democracia. Os democratas não foram capazes de perceber que a ditadura não fora derrotada. Fora apenas disfarçada.

Não era o PSDB o inimigo do PT, nem era FHC o adversário de Lula. O inimigo da democracia era o obscuro e tosco Bolsonaro e sua enorme competência para agregar e tanger a imensa massa que lhe deu o poder de desgovernar para desconstruir a democracia e, embora já preso, para se comportar como se ainda estivesse no poder. Ele e os seus. A imensa tropa da geopolítica do quintalismo.

O surto fascista deste momento nem é surto. É desdobramento rítmico e cíclico de nossa ansiedade permanente pelo retorno ao mandonismo que tem seu centro na reciprocidade binária da casa-grande e da senzala. As elites, com óbvias e notáveis exceções, vivem a nostalgia dessa relação de servidão.

Como se nota no comportamento dos Bolsonaros e dos bolsonaristas no servilismo antibrasileiro e traidor aos EUA, a Trump e sua corte antidemocrática, indicam a nossa cumplicidade com a geopolítica do quintalismo de Trump. Nos servos ideológicos brasileiros, parasitas do próprio governo americano somos nós que queremos a dominação imperialista, e não eles.

Domingo com (bleargh!) Bolsonaro

Desde 2019, quando Bolsonaro tomou posse na Presidência, emporcalhei este espaço várias vezes por semana citando o nome dele. As primeiras referências ainda eram sutis, como ao comentar sua declaração de que dormia no Alvorada com um revólver na cabeceira. Escrevi: "Qual é o problema? [No Catete] Getúlio Vargas também dormia". Hoje, Bolsonaro deve estar se perguntando se aquele hábito de Getúlio não seria uma boa ideia. Quando ele disse que só sairia do Planalto "preso, morto ou deposto" e que "não seria preso", vê-se que as alternativas não lhe eram estranhas.


Nesses seis anos em que falei dele com crescente asco, decidi só fazer isto nas colunas de meio da semana —nunca aos domingos e segundas. Não queria contribuir para azedar o café da manhã do leitor nos dias dedicados à restauração de forças para o trabalho. Durante esse tempo, tive a felicidade de contar com a aprovação de 90% dos leitores, contra comentários de ódio dos outros 10%. Como fiel respeitador da opinião dos leitores, nunca me ofendi com esses últimos, mesmo quando me atribuíam crenças que respeito, mas a que nunca fiz jus, como a de comunista, petista ou torcedor do Vasco.

Cedo decidi também não mais me referir a Bolsonaro como "presidente Jair Bolsonaro", muito menos como "presidente Bolsonaro" e nem mesmo como "Jair Bolsonaro". O espaço numa coluna é sagrado. Passei a chamá-lo só de "Bolsonaro", e sempre tapando o nariz. Por fim, outra importante decisão foi a de só parar de falar dele quando ele fosse preso.

Hoje quebro uma das promessas. Escrevo sobre ele num fim de semana, na certeza de que os ditos 90% de leitores me perdoarão alegremente. Os outros 10%, que também me honram com sua fidelidade, saberão compreender —espero. Bolsonaro enfim condenado à prisão é uma vitória do Brasil. Pena que com tantos anos de atraso, graças a um procurador-geral e a um presidente da Câmara que devem repugnar até seus próprios espelhos.

Bolsonaro está perto de ser preso. Mas assunto não me faltará.

sábado, 13 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Gaza, a vila do apocalipse: fogo, espada e colapso da moralidade ocidental

Israel destruiu qualquer fé que as pessoas tinham em seus governos, suas instituições e nas leis acumuladas ao longo dos séculos para tornar o mundo um lugar mais seguro.

Israel está traumatizando milhões de pessoas ao redor do mundo. Talvez bilhões – os sociólogos começarão a trabalhar, um dia, e descobrirão. Esses milhões ou bilhões não conseguem acreditar no que estão vendo – o massacre diário em Gaza – mas precisam acreditar no que estão vendo.

Eles não conseguem acreditar que algum povo seja tão cruel, tão sádico, tão cheio de ódio e desprezo a ponto de querer aniquilar não apenas o povo, mas também suas casas, hospitais, escolas e universidades, até mesmo a grama e os campos sob seus pés. Sim, até o solo palestino é o inimigo.

Mas é isso que eles estão vendo e, portanto, precisam acreditar no que veem. O que eles também estão vendo é que esses assassinos estão se divertindo, estão felizes com sua destruição, se gabam disso e até mesmo alertam sobre mais por vir.

Esta não é uma minoria perturbada que talvez possa ser ajudada com cuidados psiquiátricos, mas o governo e – como as pesquisas mostram repetidamente – a maioria do povo israelense.


Até os nazistas escondiam o que estavam fazendo, mas esses assassinos de crianças, de idosos, de frágeis, de doentes e de deficientes, pessoas totalmente indefesas diante dessa violência, mostram ao mundo abertamente o que estão fazendo.

Eles se orgulham do seu trabalho. Nem um pingo de vergonha ao apontarem suas armas contra um povo desarmado. Eles nos dão tapas na cara todos os dias, como se dissessem, como o bandido comum de rua: "O que você vai fazer a respeito?"

Eles dizem isso com confiança porque sabem que têm muitos governos apoiando-os. Em vez de impedir o genocídio, esses governos estão impedindo as pessoas de se oporem a ele. Quase 900 pessoas foram presas no Reino Unido há poucos dias e mais de 400 poucos dias antes.

Não vivemos no terceiro milênio a.C. Vivemos no terceiro milênio após o início da era cristã. Não vivemos numa época em que pessoas seminuas e famintas acampavam em cavernas e perto de fogueiras, vigilantes dos predadores que as destruiriam. Ou será que vivemos? Não é coincidência que este mundo primitivo e predatório seja Gaza hoje, pois, na verdade, é o projeto de Netanyahu para o genocídio.

Israel destruiu toda a fé que as pessoas tinham em seus governos, suas instituições e as leis acumuladas ao longo dos séculos para tornar o mundo um lugar mais seguro. Seus "líderes" acabaram não sendo líderes, afinal, mas covardes e oportunistas.

A covardia total deles é extraordinária. Nem mesmo o genocídio é suficiente para que se mantenham de pé. Nem mesmo o assassinato de 20.000 crianças ou mais. Eles se encolhem diante desses assassinos em vez de enfrentá-los, confrontando-os com suas próprias armas, desafiando-os a vir e fazer o pior.

Eles poderiam acabar com isso amanhã sem precisar pegar em uma arma. Uma proibição total de todas as relações com Israel bastaria. Sem armas, sem dinheiro, sem relações diplomáticas e com suspensão da ONU, mas eles não ousam estender a mão, nem mesmo para pegar uma dessas armas.

Longe de qualquer tipo de boicote, o Reino Unido está prestes a receber o "presidente" da Palestina ocupada, também conhecido como "Israel", Isaac Herzog. Seu papel é descrito como "amplamente cerimonial", então não há problema em Starmer encontrá-lo caso ouse ir contra a opinião pública e parlamentar hostil.

Seu trabalho pode ser "em grande parte cerimonial", mas Herzog fala diretamente pelo regime e, até hoje, não repudiou a onda de sangue e violência em Gaza. O genocídio certamente não é "em grande parte cerimonial". Herzog é descrito como um "moderado", como qualquer um seria descrito, em comparação com Netanyahu e seus macabros ministros-chefes.

O "moderado" Herzog responsabiliza todos os palestinos pelo 7 de outubro e por tudo o que se seguiu. Ele exibe fotos de soldados israelenses emaciados mantidos em cativeiro em Gaza, mas nenhuma foto de crianças palestinas emaciadas ou de civis palestinos emaciados – não soldados – presos sem acusação em prisões israelenses.

Nos governos e instituições do supostamente civilizado "Ocidente", dificilmente há um homem que ouse desafiar Israel – mas há uma mulher, Francesca Albanese. No alto escalão internacional, ela é quase a única a ter a coragem de enfrentar esse regime genocida, apesar das ameaças de morte a si mesma e à sua família. Em uma ONU que está sendo constantemente destruída por Israel e Trump, ela é uma luz brilhante, a esperança de que nem tudo está perdido.

Israel avança a todo vapor rumo a um fim predeterminado. É claro que sempre venceu e, portanto, vencerá novamente. Vencer antes significa, axiomaticamente, que vencerá novamente, e novamente, e novamente. Vence por omissão, é claro, porque sem armas e dinheiro americanos, não poderia vencer nada.

Nesta fase completamente sombria e retrógrada da história humana, infinitamente pior que a selva de Hobbes por causa da tecnologia que permite aos poderosos massacrar os inocentes sem nenhum perigo para si mesmos, Israel está confiante de que nada pode detê-lo.

O bem-sucedido ataque com mísseis do Irã não é lido como um sinal para recuar e reconsiderar, mas para avançar e atacar o Irã novamente, como uma criatura cega que não sabe nada além de matar.

Fogo e espada entregaram a Palestina aos sionistas, não a moralidade e o respeito pelos direitos humanos e pelo direito internacional. Na verdade, foi o "Ocidente" que entregou a Palestina aos sionistas e depois os deixou escapar com a Nakba, mas, em sua visão autoinflada, os sionistas fizeram tudo sozinhos.

O que funcionou no passado – neste caso, fogo e espada – aparentemente sempre funcionará no futuro. Isso é uma ilusão, claro, já que o passado não é garantia para o presente, muito menos para o futuro, e porque o fogo e espada de Israel sempre foi fortemente subsidiado, primeiro pelo Reino Unido e pela França e, desde a década de 1960, em grande parte terceirizado dos EUA.

O que acontece se chegar o dia em que os EUA não forem capazes ou não estiverem dispostos a fornecer mais fogo e espada?

É preciso presumir que os planejadores de Israel levaram isso em consideração. Na visão deles, o "Grande Israel" acabará por lhes dar o território e os recursos – petróleo, gás natural e água, em particular – que permitirão a Israel finalmente prescindir de um "relacionamento especial". Mas os EUA precisam ser mantidos à disposição até que se chegue a esse ponto, pois é improvável que Israel encontre outro benfeitor.

A relação simbiótica entre os EUA e Israel tem servido bem a ambos, mas quando as rachaduras no "relacionamento especial" já estão aparecendo, Israel terá o apoio dos EUA até que seja capaz de se sustentar sozinho?

É comum que o povo americano ouça que os EUA e Israel compartilham valores e interesses, mas nenhum estado jamais compartilhou valores e interesses permanentemente, e os EUA e Israel não são exceção, apesar da retórica.

O genocídio de Gaza está agora transformando as rachaduras no "relacionamento especial" — expostas por Stephen Walt e John Mearsheimer em seu livro de 2007 sobre o lobby israelense — em uma divisão cada vez maior.

Mais políticos estão ousando se manifestar. O Congresso ainda está aprovando projetos de lei que apoiam totalmente Israel, mas houve uma pequena luz na votação de 27 senadores democratas a favor das resoluções de Bernie Sanders para bloquear duas vendas de armas a Israel. Elas não obtiveram apoio majoritário, mas são pelo menos uma brisa, significando uma mudança maior, à medida que mais congressistas e congressistas são incentivados a enfrentar o lobby.

Israel está apostando que, com o envolvimento dos EUA, poderá abrir caminho para uma paz de fogo e espada que lhe seja conveniente.

Esta será a concretização da "vila na selva" de Barak – em dois níveis, com todas as comodidades modernas, uma luz brilhante em meio a uma paisagem apocalíptica de aniquilação, para que a vila possa ser construída. O recente plano GREAT (Reconstituição, Aceleração e Transformação Econômica de Gaza) é a mais recente apoteose dessa loucura.

Israel age sem prudência e cautela, como se a "história" estivesse sempre do seu lado. Não estará, é claro, porque a história não funciona assim.

O tempo em que Israel era o filho favorito (do "Ocidente" e de mais ninguém) acabou há muito tempo.

A compaixão após o genocídio nazista foi substituída pelo poder duro do lobby, e o "Ocidente" terá dificuldade para se desvencilhar. Israel já está do lado errado da história, e a decadência nessa direção continuará.

O enigma

O espetáculo midiático foi bonito, cada um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) teve seu momento de grande exposição, mas a festa acabou. Surgiu um novo tempo, o ex-presidente e seus principais auxiliares serão presos, e há a perspectiva de a eleição de 2026 se transformar numa guerra de posições parecida com o que ocorre atualmente nos Estados Unidos, onde os divergentes se resolvem na base do tiro e da pancada. Todo mundo mata todo mundo.

O mundo está passando por um de seus períodos de loucura. A Rússia bombardeou a Polônia, que chamou os colegas da Otan a enfrentar o inimigo comum, o Exército de Moscou. A Europa está convulsionada. Israel bombardeou o Qatar para matar chefes do grupo Hamas. Nenhuma atenção foi dada ao fato de que as bombas caíram em país que não está em guerra com o país dos judeus. E Telaviv também já não dissimula que não pretende abrir espaço para um futuro país palestino. O mundo piorou nos últimos tempos, por consequência da atuação de líderes despreparados para exercer suas responsabilidades. O resultado dessa situação é a guerra, ou a política exercida por outros meios, seja chantagem econômico-financeira ou ameaça de conflito bélico.


Esse clima de confronto pesado chegou ao Brasil por intermédio de Jair Bolsonaro e seus auxiliares, civis e militares. Eles provocaram a população até um nível altíssimo com a reiterada convocação de militantes para invadir as sedes dos Poderes, a difusão da mensagem de que não haveria posse do presidente eleito, ou ao incentivo ao pessoal que participou da Festa da Selma. Todo o esforço teve como objetivo criar um clima de confusão administrativa e política dentro do país, que justificaria a adoção de medidas de Garantia da Lei e da Ordem, posteriormente. Ou seja, o golpe de Estado estava armado e preparado. Não se transformou em realidade porque os comandantes do Exército e da Aeronáutica não aceitaram participar da quartelada.

O Conselheiro Acácio, personagem inesquecível de Eça de Queiroz, só se manifestava para dizer o óbvio. Os bolsonaristas não vão desaparecer de um dia para o outro. Eles estarão presentes nas eleições de 2026, que terá como sujeito oculto o governo do presidente Trump. Os norte-americanos são capazes de articular golpes de Estado em qualquer lugar do mundo. A atuação do ministro Luiz Fux, que divergiu da maioria, foi melhor do que a encomenda, segundo relatos transcritos pela imprensa brasileira de comentários feitos em Washington. Ninguém esperava que ele fosse tão enfático na defesa de Bolsonaro e seus asseclas.

Fux, com seu voto, forneceu um precioso argumento para os advogados da defesa, que poderão buscar uma fórmula para reduzir as penas com base no voto divergente. O processo deverá tramitar ainda por longo período. Nada vai se solucionar, no curto prazo, mesmo porque os parlamentares deverão buscar uma solução dentro do Congresso. A festa midiática serviu para fazer com que o Brasil acredite na força de sua democracia. Mas Lula continua candidato à reeleição, e a direita ainda não encontrou o substituto de Bolsonaro. Os próximos tempos deverão desvendar esse enigma.

Mas doravante, qualquer um, civil ou militar, que venha a ser convidado para participar de alguma trama golpista vai pensar duas vezes. O risco de pegar uma cana dura é muito elevado. Ou a organização tem meios e modos de se impor com tiros e bombas, ou não vale a pena correr o risco. E o efeito colateral dessa situação é curioso. Os políticos estão descobrindo que o melhor caminho para buscar a hegemonia na convivência entre parlamentares é promover a vitalização dos partidos políticos. Partidos fortes significam representação forte e, nessa perspectiva, a tentação do golpe fica diluída.

A tentação da guerra civil

Quem entrou nas mídias sociais entre anteontem e ontem certamente deparou com o chocante vídeo do assassinato de Charlie Kirk. O ativista conservador americano participava de um debate num campus universitário em Utah quando foi atingido por um tiro no pescoço. Morreu poucas horas depois, no hospital. No momento em que escrevo esta coluna, não sabemos ainda a identidade do assassino, mas, segundo o Wall Street Journal, o FBI encontrou um rifle e munições marcadas com slogans antifascistas, reforçando a suspeita de motivação política.

O assassinato brutal de Charlie Kirk entra na assustadora sequência de atentados que tomaram a política americana nos últimos anos, incluindo a tentativa de assassinato de Donald Trump, em julho de 2024; a agressão ao marido da presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, em outubro de 2022; e o assassinato da presidente da Assembleia Legislativa de Minnesota, Melissa Hortman, e de seu marido, em junho deste ano.


O Brasil também tem sua sequência triste de episódios, incluindo a facada de Adélio Bispo em Bolsonaro em Juiz de Fora, em 2018; o assassinato de Marielle Franco no Rio de Janeiro, no mesmo ano; o assassinato do tesoureiro do PT, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu, em 2022; e a tentativa de assassinato da influenciadora de esquerda Laura Sabino pelo próprio irmão em Belo Horizonte, em junho deste ano.

O que todos esses episódios têm em comum é a incapacidade dos agressores de aceitar a existência de adversários políticos. Esse sentimento, infelizmente, não está circunscrito a uma franja politicamente extremista ou mentalmente desequilibrada. O grande risco nos tempos atuais é que a intolerância política e a crescente polarização afetiva — a aversão a quem adota identidades políticas contrárias — criem o ambiente para uma explosão de violência política. Um único crime chocante — ou uma sequência deles — pode levar atores políticos a acreditar que estão diante de um enfrentamento final, depois de anos de provocação e hostilidade política mútua.

No estudo mais importante sobre violência política nos Estados Unidos, Radical American Partisanship (University of Chicago Press, 2022), Nathan Kalmoe e Lilliana Mason argumentam que as identidades partidárias funcionam como identidades sociais, gerando favoritismo em relação ao próprio grupo e hostilidade ao grupo de adversários. Quando estes são desumanizados, vistos como malignos ou ameaças à nação, a violência política passa a ser vista como legítima, e seu uso começa a ser cogitado por gente com traços de personalidade agressivos, nos dois campos políticos.

No livro, Kalmoe e Mason mostram que cerca de um terço dos americanos considera aceitável, em alguma medida, o emprego de violência se acredita que o governo é corrupto ou proíbe que os cidadãos tenham armas.

Um estudo inédito que a ONG More in Common fez no Brasil com a Quaest mostra números um pouco menores, mas não menos assustadores: 18% dos brasileiros consideram em alguma medida justificado o uso de violência se entendem que um candidato ameaça a democracia, e 17% acham justificada a violência se entendem que a eleição foi roubada. Num momento em que a esquerda considera que os bolsonaristas ameaçam a democracia, e os bolsonaristas acreditam que as eleições foram roubadas, o potencial de violência é claro.

A escalada da intolerância política tem apenas um destino: uma guerra fratricida. Se não quisermos abrir caminho à barbárie, precisamos resgatar a política como espaço pluralista de resolução dos conflitos dentro da paz civil. Para isso, precisamos reaprender a conviver.

Da beleza de ser ingênuo

Entrevistado pelo jornal italiano La Repubblica, o escritor israelense David Grossman reconheceu que o governo do seu país está cometendo um genocídio em Gaza: “Quero falar como alguém que fez tudo o que pôde para evitar chamar Israel de Estado genocida. E agora, com imensa dor e o coração partido, tenho que constatar que está acontecendo diante dos meus olhos: Genocídio.”

Grossman disse ainda estar convencido de que “a maldição de Israel começou com a ocupação dos territórios palestinos em 1967.”

Alguns dias depois, o deputado Ofer Cassif foi retirado à força do pódio do parlamento israelense, o Knesset, por citar as declarações de David Grossman.


Sou um leitor atento de Grossman. As suas personagens costumam comover-me porque, sendo autênticas, demonstram uma humanidade pouco comum na grande literatura contemporânea.

Enquanto escrevo esta coluna uma flotilha composta por cerca de meia centena de embarcações, transportando 300 ativistas de 44 países diferentes, prossegue viagem com destino à Faixa de Gaza. O objetivo é levar alimentos e assistência médica à desesperada população do enclave. A iniciativa pretende também chamar a atenção para aquilo que pessoas como David Grossman e Ofer Cassif descrevem como um genocídio.

Uma das acusações mais repetidas contra os ativistas que integram a flotilha humanitária é a de ingenuidade. Quando alguém acusa um adversário de ingenuidade isso significa, quase sempre, que não foi capaz de encontrar nessa pessoa nenhum crime, nenhum vício, nenhum grave indício de imperfeição de caráter.

A palavra tem uma história curiosa. Ingênuo, no latim ingenuus, significava “nascido livre”. Mais tarde a palavra passou a ser usada para caracterizar alguém sincero — livre de malícia. Pouco a pouco foi ganhando um sentido negativo. Hoje, ingênuo é aquele que sofre de credulidade excessiva. Desloca-se a culpa dos mentirosos para os que acreditam neles — os ingênuos.

A jovem pacifista sueca Greta Thunberg — também ela a caminho de Gaza — tem sido repetida e furiosamente rotulada como ingênua. Os seus detratores juntam pessoas tão diversas quanto príncipes árabes, ligados à indústria petrolífera, Emmanuel Macron, Vladimir Putin e um sem-número de figuras da direita mais brutal. Além de ingênua e autista, Greta também já foi chamada de “santa do ambientalismo”. Ingênua, autista, santa e ambientalista são, para as pessoas que a odeiam, insultos pesados.

O jovem Assaf, do romance “Alguém para correr comigo” (Companhia das Letras, 2005) corre ainda pelas ruas de Jerusalém, mas agora leva consigo um cachorro que late diante dos tanques. Tamar, obstinada, embarca na flotilha, de guitarra às costas, como se fosse possível abrir o mar com uma canção. Shai, frágil, escreve melodias que ninguém ouvirá — salvo as crianças de Gaza. Todos eles — Assaf, Tamar, Shai, Greta, Grossman — formam a mesma tribo de ingênuos.

Ingênuos, sim: porque acreditam que a vida, como um cachorro perdido, sempre encontrará alguém para correr ao lado dela.

América Latina: democracias frágeis, liberdades em declínio

"A América Latina está em uma espécie de limbo. A maioria das democracias funciona, mas são de baixa qualidade", disse Kevin Casas-Zamora, secretário-geral do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA Internacional).

E tem suas razões: na quinta-feira, 11 de setembro, ao apresentar o Relatório Global do Estado da Democracia 2025, a International IDEA alertou para um declínio democrático global que também afeta a América Latina.

"A democracia em todo o mundo enfraqueceu", afirma o estudo. E ainda: " A liberdade de imprensa sofreu seu declínio mais acentuado nos últimos 50 anos", afirma a organização sediada em Estocolmo. "Nunca vimos uma deterioração tão grave em um indicador-chave da saúde democrática", afirma Casas-Zamora.

"O declínio da imprensa e da liberdade de expressão na região contribui para o enfraquecimento do espaço cívico", observa María Ángeles Morales González, consultora da Unidade de Avaliação da Democracia da IDEA International.

"O Estado de Direito é a área de maior desafio para a região", acrescenta a pesquisadora. Nessa categoria, a organização mede "ausência de corrupção", "aplicação previsível da lei", "independência judicial" e "segurança e integridade pessoal".


O estudo é realizado de forma meticulosa e complexa. "Não temos uma única medida de democracia", aponta Morales González, mas sim "quatro categorias principais de desempenho democrático", a saber: "representação", "direitos", "estado de direito" e "participação", explica.

Para quantificar as variáveis, o estudo utiliza bancos de dados, pesquisas, dados observacionais e registros de participação eleitoral dos diferentes países estudados.

El Salvador, Nicarágua e Haiti são responsáveis ​​por grande parte do declínio democrático do continente, com declínios significativos no acesso à justiça, eleições confiáveis ​​e partidos políticos livres, de acordo com a IDEA.

Os dois primeiros, junto com o Peru, também registraram os maiores retrocessos na liberdade de expressão.

"A situação em vários países latino-americanos é preocupante", disse Marcela Ríos Tobar, diretora para América Latina e Caribe da IDEA International. "Tanto pela profundidade dos reveses quanto pelo ritmo acelerado", acrescentou.

"Venezuela e Nicarágua consolidaram sua posição como regimes autoritários, enquanto El Salvador se tornou um laboratório para o autoritarismo do século XXI", conclui o sociólogo e cientista político chileno.

"Mas, além de casos específicos, estamos preocupados com a tendência geral de deterioração, mesmo em países com democracias mais estáveis", alerta.

No outro extremo do espectro, alguns países oferecem motivos para otimismo. "Não existem modelos únicos para a construção de democracias fortes", esclarece Ríos Tobar. "Mas há boas experiências", afirma.

"O Uruguai continua sendo uma democracia forte e saudável. O Brasil e a República Dominicana apresentaram melhorias muito significativas. O Chile conseguiu atravessar um período de alta instabilidade social utilizando mecanismos institucionais e democráticos", enfatiza.

O relatório também destaca o impacto da migração intrarregional no continente e como a crise política e econômica gerou fluxos significativos de países como Colômbia, Cuba, Haiti e Venezuela.

"O sentimento anti-imigração foi reforçado pela percepção de que a insegurança está ligada à transnacionalização do crime organizado", afirmam os resultados da pesquisa.

"As desigualdades étnicas, raciais, de gênero e de renda continuam a ampliar a desigualdade social na região. Combinadas com a discriminação estrutural contra povos indígenas, afrodescendentes e migrantes, elas acabam minando o desempenho democrático dos países", enfatizam.

Essa perspectiva é compartilhada por pesquisadores de todo o continente. A argentina Gabriela Agosto, reitora da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Comunicação da Universidade de Salvador, chega a afirmar que "todo o sistema democrático está em jogo".

"Na América Latina, a democracia está em crise devido à combinação de conflitos de larga escala ligados à desigualdade, à baixa produtividade e à violência", que, por sua vez, "são resultado da representação ineficaz dos partidos políticos na canalização e resolução das demandas dos cidadãos", enfatiza. "Estamos diante de uma mudança de era", prevê.

"É necessária uma ação urgente para proteger a democracia, as liberdades e os direitos", conclui Ríos Tobar.

Peixe fora d’água

O grande legado do século XX parecia ser a consagração absoluta da democracia como valor permanente, inegociável, amplo, universal. E aí estamos nós, com a cara do mundo contemporâneo estampada nas faces de Donald Trump, Vladimir Putin, Xi Jinping e Benjamin Netanyahu. Nem o mais radical pesadelo de um democrata pessimista poderia traçar roteiro pior.

Com o debacle da utopia socialista a convergência parecia se dar em torno do liberalismo com algum tempero social. Liberdade indivisível: individual, política, econômica. Combinada com políticas públicas eficientes, responsáveis e sustentáveis que contrabalançassem a inevitável produção, pela economia de mercado, de desigualdades sociais. Como pano de fundo: um mundo integrado, com economia globalizada e livre, paz permanente e sólida, governança compartilhada e multilateralismo no tratamento de questões comuns como meio ambiente, clima, fluxos migratórios e combate à miséria e à fome.


Nada mais distante do mundo atual. E as cartas embaralhadas. Enquanto o presidente dos EUA, suposta pátria do liberalismo, promove uma verdadeira balbúrdia desorganizadora em escala global, destruindo o livre comércio e a integração econômica, alimentando os conflitos da Ucrânia e de Gaza e atacando antigos aliados como Brasil e UE, Xi Jinping, líder da próspera e autoritária experiência de capitalismo de Estado chinês, discursa nos fóruns internacionais contra o protecionismo econômico e a favor do multilateralismo e da paz.

Capacidade de diálogo, construção de consensos na diversidade, sensatez, equilíbrio e ponderação parecem não terem morada na cena contemporânea. No Brasil e no mundo, predominam a intolerância e a radicalização. O ódio é disseminado com uma força inédita. A democracia pressupõe o mínimo de coesão social, pontes de diálogo, alguma unidade nacional, tolerância com os diferentes, aceitação da legitimidade dos atores políticos adversários e do direito de ocuparem o poder ao vencerem as eleições. Mas não.

Não é um fenômeno só nas elites. Há um ódio presente dos nativos contra imigrantes árabes, africanos e latino-americanos enraizado nas sociedades desenvolvidas. Há um ódio destrutivo entre adversários políticos transformados em inimigos de guerra.

Não há mediações. Não há percepção sobre as contradições da realidade. Não há equilíbrio e sensatez. Ou você está com o xenofobismo ou com as imigrações descontroladas. Ou você dá razão a Trump ou defende o regime chinês. Ou você defende integralmente Israel ou a Palestina, com Hamas e tudo. Ou você está com Alexandre de Moraes ou com Bolsonaro. Quem pensa criticamente e pondera os vários vetores da vida - que são tudo, menos lineares, líquidos e certos – é reduzido logo a um isentão claudicante que fica em cima do muro e não se posiciona.

A democracia contemporânea está dando mostras de disfuncionalidade frente a sociedade das bolhas radicalizadas e da guerra fraticida nas redes sociais. Vejam a dificuldade de formação de governos majoritários com boas condições de governabilidade na França e Alemanha, no Japão, Portugal e Brasil.

O sensato, o ponderado, é um quase ingênuo. Um peixe fora d’água. Minhas referências políticas, no Brasil e no Mundo, desde os idos de 1976, quando comecei na militância política e iniciei minha vida pública, eram Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Mário Covas, FHC, Felipe González, Mário Soares, Enrico Berlinguer, Bill Clinton, Tony Blair, Obama. Fico imaginando se chegassem hoje no Brasil, onde se situariam no atual quadro político-partidário? Acho que estariam como eu: perplexos, pessimistas e sem lugar.

Não quero ser nem o pessimista amargo, nem o otimista ingênuo de Ariano Suassuna. Quero seguir seu conselho e ser um realista esperançoso. Meu personagem predileto, Dom Quixote, me ensinou: “... pois não é possível que o mal, como tampouco o bem, durem para sempre. Assim, tendo o mal persistido por tanto tempo, o bem deve estar próximo”.

Fora isto, para o mundo que eu quero descer com minha isenção crítica, equilíbrio, dúvidas e pretensa lucidez.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Quem será o modelo da democracia agora?

Quando eu era adolescente e morava em Istambul, tive a sorte de fazer parte de uma geração que tinha modelos democráticos por perto. Países europeus como Reino Unido, França, Alemanha e Suécia alimentavam nossas aspirações de prosperidade e democracia, dando-nos esperança para o futuro de nosso próprio sistema político imperfeito. As experiências desses países nos mostraram que crescimento econômico, justiça social e liberdade política não só eram compatíveis, como também se reforçavam mutuamente.

Onde os jovens de hoje buscarão uma mensagem igualmente esperançosa? A democracia liberal parecia destinada a ser a onda do futuro. Agora, porém, o retrocesso democrático é um fenômeno global, com os EUA de Donald Trump sendo apenas o exemplo mais visível e dramático. Desde o início da década de 2010, as “autocracias eleitorais” - regimes que realizam eleições periódicas, mas sob condições de repressão generalizada - se tornaram a forma dominante de governo em todo o mundo. Hoje, quase 220 milhões de pessoas a menos vivem sob uma democracia liberal do que em 2012.


Além disso, as “democracias eleitorais” - forma de regime que pode abrir caminho para a democracia liberal - também perderam terreno, governando hoje 1,2 bilhão de pessoas a menos do que em 2012. Esses regimes foram substituídos por autocracias eleitorais ou absolutas, que agora governam 5,8 bilhões de pessoas (2,4 bilhões das quais foram adicionadas desde 2012).

Como um farol da democracia, a Europa não brilha mais com tanta intensidade. A União Europeia (UE) desempenhou um papel importante na consolidação da democracia durante a transição da Europa Oriental do socialismo, com a República Tcheca e a Estônia se tornando algumas das democracias liberais mais bem classificadas do mundo. Mas muitos outros - notadamente Polônia, Hungria e Eslováquia - regrediram de modo significativo, e a UE tem sido impotente para fazer algo a respeito. O premiê da Eslováquia, Robert Fico, recentemente se juntou ao presidente russo Vladimir Putin, ao ditador norte-coreano Kim Jong-un e a duas dúzias de outros líderes autoritários em Pequim para assistir o presidente Xi Jinping a celebrar o poderio militar chinês.

Os principais países europeus podem afirmar, com razão, que suas democracias não sofreram um golpe tão grande quanto os EUA. Mas a Europa hoje não projeta nem força econômica nem coesão política. Sua autoconfiança parece ter atingido o fundo do poço, como exemplificado pela forma como a UE cedeu às ameaças tarifárias de Trump.

Os líderes europeus esperaram durante muito tempo que a integração aumentasse o poder e a influência da região na cena global. Em vez disso, a UE dá a impressão de ter virado uma espécie de centro de reabilitação permanente que promove a paralisia. Suas instituições e processos desencorajam os países a agir de forma ousada por conta própria, mas não têm capacidade para formular e perseguir uma visão comum.

Enquanto a Europa democrática não consegue projetar influência além de suas fronteiras, aqueles que exercem poder no cenário global não são mais modelos a serem seguidos. Poucos esperavam que os EUA dessem uma guinada autoritária, ainda assim, Trump transformou o país num ator sem escrúpulos quase da noite para o dia. Ele também facilitou para a China se apresentar como o adulto na sala, e Xi assumiu de bom grado o manto da “igualdade soberana”, do “Estado de direito internacional” e do “multilateralismo”.

Mas ninguém deve se enganar sobre a natureza do regime chinês. Suas conquistas econômicas não são motivo para imitar sua política. A China continua sendo um país autoritário, onde minorias são reprimidas e a oposição política é estritamente proibida.

Para encontrar pontos positivos democráticos, precisamos procurar em lugares inesperados. Brasil e África do Sul, dois países de renda média, compartilham a rara distinção de terem chegado recentemente à beira do colapso autoritário e, em seguida, terem recuado

Para encontrar pontos positivos democráticos, precisamos procurar em lugares inesperados. Por exemplo, Brasil e África do Sul, dois países de renda média, compartilham a rara distinção de terem chegado recentemente à beira do colapso autoritário e, em seguida, terem recuado.

O mandato de Jacob Zuma como presidente da África do Sul (2009-2018) foi caracterizado por populismo autoritário e corrupção generalizada, e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro se recusou a aceitar a derrota eleitoral e planejou um golpe militar (bem como o assassinato de seu oponente) em 2022. Mas ambos foram sucedidos por líderes com sólidas credenciais democráticas - Cyril Ramaphosa na África do Sul e Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil.

O que torna esses sucessos extraordinários é que eles ocorreram em circunstâncias que os cientistas políticos consideram particularmente desfavoráveis à democracia. A África do Sul e o Brasil não só têm profundas divisões étnicas, como também estão entre os países mais desiguais do mundo. A ausência de grandes diferenças entre ricos e pobres é uma pré-condição para a sustentabilidade da democracia; mas as experiências brasileira e sul-africana pintam um quadro mais sutil - que é animador para os defensores da democracia.

Há boas notícias também noutros lugares. No fim de 2024, quando o presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol declarou lei marcial as forças democráticas e o Parlamento reagiram. Em poucas semanas, Yoon sofreu impeachment e foi destituído do cargo.

Algumas das democracias mais bem-sucedidas fora da Europa são pequenos países que permanecem fora do radar nas discussões sobre o declínio democrático. Taiwan, Uruguai, Costa Rica, Ilhas Maurício e Botsuana recebem notas altas no ranking de democracia da Economist Intelligence Unit (os dois últimos são particularmente notáveis como exemplos de democracias duradouras na África).

Talvez nossas esperanças de alimentar as chamas da democracia repousem sobre esses casos improváveis. Como tudo na vida, a democracia precisa de modelos a seguir. Embora os estudos de caso de costume já não sejam relevantes, ainda existem lugares onde os defensores da democracia podem achar inspiração.

Em meio à deriva da democracia.

Uma severa deriva democrática assola o mundo, o que coloca sérios questionamentos sobre a sustentação e permanência dos regimes democráticos, mesmo os mais consolidados. Se há décadas a questão democrática era fator essencial de legitimação do nexo entre liberdade, expansão dos direitos e desenvolvimento econômico, nos dias que correm tal legitimação parece não ser capaz de se sustentar como antes.

É um momento de claro sofrimento para a cultura política democrática. Simultaneamente avoluma-se a sensação de que o que dava sustentação à própria ideia de Ocidente – entendido como um valor universal produzido pela hegemonia democrática em contexto de avanço econômico – começa perigosamente a perder sua energia histórica. O que passou a acontecer depois do retorno ao poder de Donald Trump nos EUA espanta o mundo por se afastar intencionalmente dos valores que sustentavam a legitimação histórica da mais longeva democracia do Ocidente.


Sob Trump, os EUA abandonam a função hegemônica que desempenharam na maior parte do século XX. Por outro lado, seu maior contendor, a China, instalou-se no cenário geopolítico mundial por meio de uma agressiva estratégia econômica, ultrapassando definitivamente as anteriores visões territorialistas. Expressão de uma autocracia política até o momento irremovível, a China se apresenta, cultural e politicamente, como um polo questionador do nexo que, até agora, deu sustentação às democracias ocidentais.

Uma mirada histórica, mesmo que superficial, indica uma alteração substancial no panorama mundial. Desde o final da década de 1980, a democracia era um fim a ser almejado e conquistado – um valor universal, como se dizia à época. Nos dias que correm, a extrema direita foi capaz de hegemonizar o centro do espaço político, reduzindo a democracia a um simples “meio” de convivência. No discurso da extrema direita, caso os Estados democráticos permaneçam acionando cada vez mais mecanismos regulatórios, globais ou mesmo nacionais, visando civilizar a vida humana sobre o planeta, a democracia simplesmente pode ser descartada, com maior ou menor violência, com maior ou menor velocidade. É a isso que, nos textos dos mais conceituados cientistas políticos, se qualifica como processos de “erosão democrática”.

O Brasil sempre buscou um lugar no mundo conectando-se ao projeto moderno de transformações que o Ocidente assumiu a cada momento da História, como foi nossa adesão/tradução ao liberalismo, ao industrialismo e, por último, ao americanismo. A adesão a esses “modelos” nunca foi assumida como importação passiva ou mimetismo, importando disputas políticas reais entre as elites que buscavam impor sua direção à reestruturação das estratégias de desenvolvimento do país.

Está claro que as elites políticas brasileiras perderam o chão. A sensação de deriva da hora presente assume traços dramáticos como os que vemos nos embates que a atual polarização política carrega consigo e que acabou escalando com as iniciativas agressivas de Trump contra a democracia brasileira. Mas o problema é mais grave e enseja riscos significativos, especialmente pelo fato de que nem os EUA de Trump nem a China de Xi Jimping deixam de expressar uma sedutora adesão a um redivivo nacionalismo que há poucos anos era visto como uma opção anacrônica, desprovida de horizonte histórico.

Tudo parece estar suspenso no ar porque nossas elites políticas não possuem ou não se associam mais a nenhum projeto que esteja positivamente vinculado ao que há de mais avançado no mundo. O projeto globalista de FHC foi exitoso em seu tempo, mas ficou para trás em função da mudança do cenário mundial, especialmente em virtude da emergência da China ao impactar os termos da globalização em curso no final do século XX. Lula e o PT combateram externa e internamente esse projeto, deslocando-se para a contraposição entre o Sul “pobre” e o Norte “rico”. Estabeleceu essa clivagem sustentando uma abordagem puramente mercantil das relações internacionais em meio a uma época que, como nunca antes, demanda unificação do gênero humano e a paz. Como é sabido, essa estratégia redundou nos BRICS que, a despeito de êxitos parciais, articula países que buscam estruturar sua sustentação autônoma, mas que, pontificados por Rússia e China – duas autocracias modelares – não têm capacidade de formular uma visão cosmopolita que contemple o Brasil como civiltà democrática.

Diante desse cenário mundial, resta-nos poucas alternativas. Uma política de defesa da democracia, com postura e tom equilibrados, supõe tanto a exclusão de alinhamentos automáticos quanto protagonismos açodados. Com autonomia, a Nação demanda das nossas elites políticas um novo projeto articulado em três eixos fundamentais: uma

democracia política, social e culturalmente legitimada, uma economia expansiva de mercado, pensada como expressão de um “capitalismo popular” de médios e pequenos empreendedores, e um cosmopolitismo progressista sinalizador do nosso lugar no mundo, ou seja, de um povo inventivo e aberto a todo gênero humano.

O filosofo italiano Marcello Mustè, discutindo a relação entre cosmopolitismo e nacionalismo, num artigo publicado recentemente na revista Política Democrática n. 57 afirmou que há uma tarefa preliminar para os que buscam compreender e transformar o mundo em que vivemos. Para Mustè, é preciso “elaborar uma ‘leitura’ da ordem mundial, ‘traduzi-la’ na linguagem própria da sua nação e contribuir ativamente para a formação de uma ordem internacional de qualidade superior”. A proposição não se reduz ao nacional uma vez que nessa perspectiva, o nacionalismo não é mais do que “uma política que se funda unicamente na especificidade de uma situação nacional”.

No interior do argumento que estamos aqui desenvolvendo, mobilizar e instrumentalizar o nacionalismo (“o Brasil é dos brasileiros”), almejando êxito eleitoral futuro, por mais justo que seja como peça de resistência a Trump, é a evidência de que não se compreendeu que a questão democrática é o centro da luta política global, não apenas no Brasil.

Ganhar a próxima eleição presidencial somente terá função histórica de resistência, elevando o Brasil como protagonista de uma nova ordem global, com a afirmação da centralidade da questão democrática. Encerrar-se num discurso de cunho nacionalista não nos livrará do problema e apenas ensejará uma efêmera ilusão, entorpecida pelos números que possivelmente sairão das urnas – na melhor das hipóteses.

É sempre melhor compreender

Julgar é mais divertido do que querer perceber. Julgar provoca, faz rir, estimula a conversa.

É por causa da facilidade de julgar que compreender é menos popular. Perante cada acontecimento, é sempre mais fácil (e mais rápido, repito) ser-se a favor ou contra ou indiferente.

Querer compreender é lento e dá pouco jeito: não se pode interrogar os participantes, não há tempo para ir à procura de uma bibliografia, é difícil arranjar uma neutralidade, por muito provisória e artificial que seja.

Para querer compreender, corre-se sempre o perigo de perdoar um bocadinho, de complicar as coisas e, sobretudo, de ficar com uma opinião que não é carne nem peixe.


As perguntas básicas estão mais do que esquecidas: porque é que fizeram aquilo? O que é que procuravam conseguir? Para quê? Com que motivação? Com que antecedentes?

Muito ganhamos em olhar para os tribunais: os julgamentos são a criação humana mais aperfeiçoada ao longo dos séculos, adaptando-se a todas as culturas e épocas, e abarcando todo o comportamento e todas as condicionantes humanas.

Não são apenas o jornalismo e a investigação académica que nos devem inspirar, e que devemos tentar imitar à nossa pequena escala individual: é o trabalho dos juízes.

Os maiores crimes não deixam de ser crimes quando se compreende o que aconteceu. Compreender não é perdoar. E, acima de tudo, a curiosidade de compreender nada tem a ver com a vontade de avaliar os méritos ou os danos do que se pretende compreender.

Mas claro – se o que queremos fazer é avaliações sumárias e julgamentos instantâneos, o maior empecilho é tirar uns minutos para tentar perceber porque é que aquilo aconteceu.

Digamos o que dissermos, para satisfazer o tu-cá-tu-lá do mata-e-esfola dos cem casos por mês, é sempre melhor esquecer essa precipitação – e tentar compreender.

Tarcísio e o Brasil condenado a andar em círculos

Em todos os países atualmente governados de forma autocrática ou ditatorial, a destruição da democracia começou com ataques ao Judiciário. Foi assim na Hungria, bem como na Turquia e na Venezuela. Hoje se assiste, praticamente ao vivo, nos Estados Unidos.

A tomada de poder por homens como Viktor Orbán, Recep Tayyip Erdogan, Nicolás Maduro e Donald Trump só foi possível porque atacaram juízes, ignoraram sentenças e, por fim, lotaram os tribunais com aliados. O Judiciário (assim como todo o aparato estatal) foi esvaziado e alinhado, e a separação de poderes – base fundamental da democracia – praticamente extinta.

Caso o governo do Brasil volte às mãos da extrema direita – seja sob Tarcísio de Freitas ou um membro do clã Bolsonaro –, o país corre o mesmo risco. O presságio ficou evidente após as manifestações bolsonaristas do domingo, dia 7. Os protestos deixaram claro, por um lado, que o nome Bolsonaro ainda possui enorme força de mobilização, e o pensamento primitivo-vulgar continua amplamente disseminado, sobretudo entre os mais abastados. Por outro lado, ficou evidente que o Judiciário é o inimigo número um da extrema direita. Ele é difamado como politizado e parcial, até mesmo como ditatorial. Isso só pode significar, em última instância, que a extrema direita pretende acabar com o Judiciário como um poder independente.


É ainda mais alarmante que o governador de São Paulo agora bata nessa mesma tecla. Naquela manifestação, ele mostrou que não é um tecnocrata moderado da direita conservadora, mas um fanático – como a atuação agressiva da Polícia Militar de São Paulo sob sua gestão já deixava transparecer.

O candidato mais provável da oposição brasileira nas eleições de 2026 deslegitimou o Supremo Tribunal Federal diante de dezenas de milhares de apoiadores e deixou claro que não aceita o equilíbrio entre os poderes. Ele incendiou o ânimo no campo da extrema direita e polarizou ainda mais o país.
Perigo para a democracia

Pouco importa se fez isso por convicção profunda ou "apenas" por cálculo oportunista para garantir o apoio de Bolsonaro e de seus seguidores fanáticos. Seu vocabulário menos ordinário e sua postura de homem humilde de classe média já não podem mais disfarçar o perigo que ele representa para a democracia brasileira.

O fato é que Tarcísio de Freitas não reconhece como legítimo o processo contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, alegando que o julgamento teria se baseado em depoimentos manipulados. Para chegar a tal afirmação, é preciso um grau enorme de ignorância. O processo seguiu todas as regras de um julgamento regular e deu ampla oportunidade à defesa de apresentar sua versão dos fatos.

Ficou claro, após a análise das provas e a oitiva de todas as testemunhas, que os planos de Bolsonaro para tomar o poder não eram meras cogitações, mas propostas concretas que foram discutidas, elaboradas e registradas por escrito. O próprio Bolsonaro admitiu isso. Ele pessoalmente apresentou suas intenções aos comandantes do Exército, da Aeronáutica e da Marinha – como confirmaram em juízo –, e foi graças à recusa categórica dos dois primeiros em embarcar nessa aventura que os planos não avançaram.

O processo, portanto, baseou-se em muito mais do que apenas no depoimento do ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, como afirma Tarcísio de Freitas. Mas, ao fazer essa alegação, o governador segue uma típica estratégia do bolsonarismo: mentir, omitir e se colocar como vítima quando, na realidade, é o autor.

A postura de Tarcísio é ainda mais grave porque não ataca apenas o Supremo Tribunal Federal, mas contribui para deslegitimar todo o já disfuncional sistema de Justiça brasileiro. Numa sociedade em que quase ninguém assume responsabilidade por seus atos e todos colocam o interesse próprio acima do coletivo, o bolsonarismo envia o sinal fatal de que sentenças não valem nada e podem ser revertidas.

Poucos discordariam da frase de que a impunidade no Brasil tem proporções epidêmicas. Condenados a longas penas de prisão estão pouco tempo depois em liberdade, sobretudo políticos. Cria-se a impressão fatal de que lei e ordem nada valem e de que tudo é permitido. Certo e errado tornam-se negociáveis.

A preparação de uma anistia geral para os golpistas, como agora promovem Tarcísio de Freitas e o movimento bolsonarista antes mesmo de haver sentença, tem, evidentemente, um precedente. A anistia geral após a ditadura militar. Os crimes da ditadura não foram investigados, muito menos punidos judicialmente. Não houve acerto de contas, e o pensamento totalitário-militarista sobreviveu e mantém até hoje uma continuidade que ninguém encarna melhor do que o clã Bolsonaro e seus áulicos.

Se houver uma anistia geral, o Brasil continuará andando nesse círculo vicioso e repetirá mais uma vez sua história. Infelizmente, como tantas vezes, o Brasil parece condenado a andar sempre em círculos. Cada avanço, cada tentativa de escapar desse destino, é revertido pelas forças do passado.

O pesadelo ao chegar aos EUA

“Olha, nós dois sabemos por que você está aqui”, disse o agente da CBP (Customs and Border Protection). Quando eu disse que não sabia, ele pareceu surpreso. “É pelo que você escreveu online sobre os protestos na Universidade Columbia”, disse ele. Eles estavam me esperando quando desembarquei do avião em Los Angeles.

O oficial Martinez me interceptou na fila da Alfândega e me levou para uma sala de interrogatório nos fundos, onde pegou meu celular e exigiu minha senha. Quando recusei, me disse que voltaria imediatamente para casa se não cooperasse. Eu deveria ter aceitado esse acordo e optado pela deportação rápida. Mas cedi, pelo cansaço, após um voo de 14 horas.

Esses dois parágrafos acima não são de um relato meu. Com o país grudado no julgamento histórico da tentativa de golpe de Estado, após Fux ter atentado contra ele mesmo e contra a verdade, contorcendo-se para justificar o injustificável, resolvi hoje ceder este espaço ao australiano que viveu um pesadelo nos EUA de Trump.

O depoimento de Alistair Kitchen foi publicado na íntegra pela revista New Yorker. Ele se identifica como “um escritor mediano” com um blog que “praticamente ninguém, exceto, aparentemente, o governo dos EUA, parecia ler”. No mestrado em Columbia, publicou relatos sobre os protestos estudantis pela paz. Em Gaza e outras regiões.

Segue um resumo, mínimo e adaptado, do drama que Kitchen viveu. Antes de sair da Austrália, tomou precauções. Hoje percebe como foi ingênuo. Já havia um dossiê contra ele.

“Optei por não levar um celular descartável – medida recomendada por juristas na imprensa –, acreditando que isso provocaria suspeita, e simplesmente decidi dar uma limpeza superficial no meu telefone e nas minhas redes sociais.

“Achava que teria de ser extremamente azarado para ser revistado. Por ter sido estudante em Columbia, talvez um oficial pedisse para ver meu telefone. Se o examinasse, encontraria a vida digital confusa e pessoal de um homem de 33 anos perigosamente solteiro. Mas não encontraria fotos de protestos, retiradas na semana anterior ao voo.

“Martinez perguntou minha opinião sobre Israel, sobre o Hamas. Perguntou se eu tinha amigos judeus. Perguntou minhas visões sobre uma solução de um Estado ou de dois Estados. Perguntou quem era o culpado: Israel ou Palestina. Perguntou o que Israel deveria fazer de diferente.

“Me pediu para citar nomes de estudantes envolvidos nos protestos. Perguntou quem me passava ‘as informações sobre os protestos. Pediu que eu entregasse as identidades das pessoas com quem eu ‘trabalhava’. Infelizmente para o oficial Martinez, eu não trabalhava com ninguém. Era um jornalista estudantil independente.

“Eu estava totalmente despreparado para o que aconteceu na sala de interrogatório. Embora eu não soubesse na hora, eu estava participando de uma entrevista em que nunca seria aprovado.

“Quando ele ficou sem perguntas sobre Israel, desapareceu na sala dos fundos para baixar o conteúdo do meu celular. Ele demorou bastante. Imaginei-o a vasculhar todos os detalhes sórdidos da minha vida. Embora eu tivesse apagado os protestos, mantive conteúdo pessoal – Martinez via o embaraçoso, o vergonhoso, o sexual.

“Martinez disse que eu precisava desbloquear a pasta Oculta do meu álbum de fotos. (...) Senti que não tinha escolha. Eu tinha, claro: a escolha de não cooperar e ser deportado. Mas minha coragem já tinha ido embora. Eu estava com medo desse homem e do poder que ele representava. Então, desbloqueei a pasta e assisti enquanto ele percorria todo o meu conteúdo mais pessoal. Nós olhamos juntos uma foto do meu pênis.

“Eu fiquei sentado, tentando entender por que me senti tão violado. Tenho orgulho da minha vida, de quem eu sou. Isso não pareceu ajudar. Percebi então que não restava privacidade alguma para eles invadirem.

“Martinez desapareceu novamente na outra sala. Quando finalmente voltou, ele se aproximou saltitante, animado como uma criança com um pirulito. Disse que haviam encontrado provas de uso de drogas no meu telefone. Perguntou se eu tinha consciência de que não havia reconhecido um histórico de uso de drogas no meu formulário de entrada.

“Na zona cinzenta entre o portão de desembarque e o controle de passaporte, você está além do alcance da Constituição dos EUA. Tem menos proteções do que um criminoso a poucos metros dali, dentro da fronteira. Na sala de interrogatório, eu não tinha caído ao nível de um apátrida, mas já estava abaixo do criminoso.

“Se eu não estivesse exausto do voo longo e um interrogatório prolongado, e se não estivesse estressado e assustado, teria me lembrado de que meu telefone não tinha provas claras de uso de drogas. Uma versão melhor de mim teria desmascarado esse blefe. Mas eu não conseguia dar conta de cada uma das mais de quatro mil fotos no meu celular. Imaginei imagens e mensagens que não existiam.

“Então admiti que já tinha usado drogas no passado — em outros países, bem como nos EUA, onde comprei balas de THC em Nova York. A maconha é legal em Nova York, mas não é legal em nível federal e, portanto, parece que, aos olhos dos oficiais, eu havia violado a lei ao comprar maconha legal em Nova York. Martinez, efervescente de empolgação, disse que eu seria colocado no próximo voo de volta para a Austrália.

“Martinez e outro agente me levaram para os fundos, me empurraram contra a parede e me revistaram. Martinez se certificou de que eu não carregava nenhuma arma entre o pênis e o escroto. Tiraram os cadarços dos meus sapatos e o cordão da minha calça de elástico, para que eu não pudesse me enforcar. Eu não sabia então se sairia dali em uma hora, um dia ou um mês.

“Quando fui levado para a sala, encontrei uma jovem em lágrimas, implorando ao guarda por informações. Ele disse que não tinha nada a lhe dar e que nenhuma informação seria fornecida. ‘Aquela mulher’, disse ele, apontando para um monte de cobertores no canto, ‘está aqui há quatro dias.’

“Comecei a entrar em espiral. Havia comida – basicamente miojo – e uma máquina de vendas com M&M’s e Coca-Cola que poderíamos usar ‘se tivéssemos trazido dinheiro’, como um guarda me disse. A sala era tão fria que todos estávamos enrolados em cobertores. As lâmpadas zumbiam e o ar-condicionado roncava ao longo do dia, ou da noite. O horror era que ninguém sabia onde estávamos, e não tínhamos como avisar. Estávamos isolados uns dos outros e também do mundo.

“Eventualmente, fui autorizado a falar com o consulado e fui colocado em um avião. Só me permitiram entrar quando acabou o embarque. O chefe da escolta entregou um envelope com meu passaporte e meu telefone ao comissário-chefe de bordo. A companhia aérea Qantas reteve meu telefone e passaporte até o pouso em Melbourne”.

O depoimento do australiano é muito mais longo. Um pesadelo interminável e pungente. Me deu arrepios. Eu já decidira não ir aos EUA no governo Trump. Não apenas por ter horror às decisões arbitrárias contra os direitos humanos. Não irei porque nem me deixariam entrar. Não irei porque seria deportada pela democracia americana. Já pensou sofrer tortura psicológica na Alfândega de Trump, o campeão da liberdade de expressão?