quarta-feira, 9 de julho de 2025

Imigração é necessária para o mundo

O nacionalismo é a base do mundo contemporâneo. Ser um país com instituições, identidade cultural e um projeto de desenvolvimento tem sido objetivo de todos os povos que se organizam politicamente. Mas a maioria das nações só se desenvolveu graças ao contato com o exterior e pelo fluxo migratório, enviando ou recebendo pessoas. A despeito disso, os imigrantes se tornaram um dos grandes bodes expiatórios da política atual, especialmente por meio do discurso da extrema direita, que ganha votos assim e encurrala a maioria dos adversários, hoje perdidos nesse debate. O que se vê como risco, no entanto, é a melhor solução civilizatória para o século XXI.

Preconceitos contra o estrangeiro, pessoas de outras culturas ou cor sempre estiveram presentes na humanidade. Guerras foram geradas por esse sentimento, bem como a separação entre as sociedades. Só que o contato entre os povos tem se tornado mais global. Primeiro, a partir do projeto colonista europeu, depois com as independências nas Américas, que receberam milhões de imigrantes, particularmente da Europa e da Ásia, e continuou ainda no pós-guerra até os dias atuais, agora com um fluxo imigratório preponderantemente dos países mais pobres aos mais ricos.


A hipocrisia atual frente à imigração se deve à mudança do fluxo imigratório. Enquanto africanos escravizados foram barbaramente levados para o continente americano, o discurso ocidental foi majoritariamente omisso, com raras exceções. Quando europeus ou japoneses em busca de uma vida melhor vieram para as Américas, ajudando no desenvolvimento dos Estados Unidos, Argentina e Brasil, essa belíssima aventura da humanidade foi aplaudida e reverenciada. Exilados políticos vindos de ditaduras do pós-guerra foram acolhidos por nações ocidentais, seja em nome de ideais democráticos, seja para incorporar capital humano de alta qualidade.

O fluxo de pessoas foi aceito, com discordâncias pouco expressivas eleitoralmente, até o início do século XXI. De lá para cá, o cenário se modificou profundamente. O problema agora não é necessariamente receber e incorporar estrangeiros às sociedades desenvolvidas. A questão que gera a demagogia política liderada pela extrema direita é sobre quem está indo para esses países. É um supremacismo civilizatório - quando não racial - travestido de defesa da pátria.

A crítica à imigração esconde-se numa pretensa defesa da população local, que estaria perdendo empregos e sendo afetada pela cultura estrangeira, pois os imigrantes seriam incapazes de assimilarem o modo de vida do seu novo país. Evidentemente que há por vezes choques culturais e que a entrada de novos habitantes precisa ter algum controle. Porém, o que tem predominado não é, em geral, essa incompatibilidade congênita.

Sem os imigrantes atuais, os Estados Unidos teriam problemas para preencher diversos postos de trabalho, aumentar a produtividade e reduzir o efeito do envelhecimento sobre a Previdência e as contas públicas. A Europa perderia também no terreno econômico, mas vale citar outro âmbito no qual a imigração tem sido um sucesso: os esportes. Seleções nacionais europeias, em várias modalidades, têm ficado cada vez mais fortes com o acréscimo de jogadores nascidos ou filhos de pessoas de outras nacionalidades. E as atividades esportivas são hoje tanto uma forma de fortalecimento da identidade coletiva - com reflexos sobre a felicidade individual e nacional - como uma atividade extremamente poderosa no plano econômico.

É revoltante ver o presidente Trump defendendo a deportação em massa de imigrantes levando em conta sua própria trajetória. Sua família veio de fora para enriquecer e ajudar o desenvolvimento dos Estados Unidos. O império familiar na construção civil e afins foi erigido com a ajuda de milhares de trabalhadores imigrantes. O sucesso na TV, fundamental para catapultar sua futura carreira política, foi muito vinculado ao ideal do “self-made man”, visão que sempre atraiu estrangeiros para os EUA. O conservadorismo cristão que ancora o trumpismo tem muito a ver com a visão de mundo dos católicos latinos, eleitores do atual presidente.

As incongruências do discurso de Trump com sua história são várias. Mas ele, como outras lideranças de extrema direita pelo mundo, está mais preocupado em construir narrativas para convencer - ou iludir - os cidadãos que acreditam ter perdido status social com a globalização. A ideia de que o mundo europeu e norte-americano, ao se livrar dos incômodos imigrantes, terá mais empregos e prosperidade aos locais é um engodo. Muitos empregos industriais, do agronegócio e, mais ainda, no comércio ou serviços que lidam diretamente com o público não serão mais preenchidos por jovens americanos. O que a população que tem votado na extrema direita sonha no plano econômico é ter um salário alto, mas com outro tipo de atividade. Provavelmente isso não será possível se não tiverem a formação escolar adequada e/ou se não aceitarem trabalhar em jornadas longas em empresas hipercompetitivas.

O mais complicado é que as decisões antimigratórias atuais estão hipotecando o futuro de seus países. Isso porque o envelhecimento populacional no mundo desenvolvido vai cobrar um preço em termos de escassez de mão de obra - na verdade, esse processo já estaria ocorrendo agora se não fossem os imigrantes. A redução do dinamismo econômico vai afetar a qualidade de vida de europeus e americanos, e é provável que nem a inteligência artificial dê conta dessa tarefa. Assim, em vez de gerar um renascimento da economia, como afirma o slogan “Make America Great Again”, essas decisões pretensamente patriotas podem iniciar um ciclo de decadência e dificuldades.

O ataque à imigração terá um outro efeito negativo às nações desenvolvidas: a geração de um sentimento negativo em muitos países, especialmente naqueles que têm enviado pessoas em busca de sucesso para os países ricos. São milhões de homens e mulheres que estão sendo maltratadas e escorraçadas nos lugares onde sonharam prosperar e criar suas famílias. São humilhações cotidianas que ao final deságuam numa deportação por vezes até perigosa. Ninguém esquece isso. O pior é que muita gente que vive na América Latina, na África ou na Ásia continua sonhando em morar nos EUA ou na Europa.

Muitos imigrantes que vivem no mundo desenvolvido, sobretudo nos Estados Unidos, sustentam famílias em seus países de origem. É um fluxo de recursos fundamental para reduzir a pobreza global e que gera um elemento de legitimidade para o sistema internacional. Antes de expulsar a maioria dos imigrantes dos EUA, Trump quer cortar boa parte dessa transferência de recursos. Isso será o maior estímulo para dizer que tais pessoas, especialmente latinas, não são bem-vindas à terra do Tio Sam.

Se esse processo de deportação se intensificar nos próximos anos, os povos que receberão de volta seus compatriotas não perdoarão essa humilhação. O soft power americano que foi fundamental para sua hegemonia vai se desgastar e enfraquecerá os EUA no plano geopolítico e na economia internacional. A própria extrema direita perderá muita força em todos os lugares em que os cidadãos locais se revoltarem com a soberba trumpista e de seus aliados pelo mundo desenvolvido. No fundo, os Estados Unidos terão de aumentar seu hard power, a imposição do poder pela força, o que será muito difícil de sustentar a não ser com um altíssimo grau de violência. É desse modo que se inicia o declínio dos impérios.

Um caminho diferente pode ser adotado pelas lideranças políticas do mundo desenvolvido. Estados Unidos e Europa podem ganhar com a imigração para realizar tarefas em que há cada vez mais escassez de mão de obra. Estados Unidos e Europa podem ganhar com a obtenção de talentos em várias das esferas da vida social que talvez não estejam à sua disposição. Estados Unidos e Europa podem ganhar com a incorporação de capital humano muito qualificado, que terá a Ásia como destino futuro se o discurso da extrema direita vencer. Por fim, Estados Unidos e Europa nunca foram populações puras e superiores: seus sucessos se devem à mistura e à incorporação de muitas culturas.

Um modelo que opta pelo livre fluxo de pessoas é mais realista do ponto de vista econômico, além de muito mais civilizado, pois o pluralismo e a tolerância entre as culturas produzem melhores sociedades. Pactos multilaterais e diálogos parcimoniosos entre os países podem produzir um equilíbrio imigratório, evitando excessos. O que não se pode perder de vista é que os imigrantes serão solução para as nações no século XXI. Cair na armadilha do discurso da extrema direita é um problema para cada uma das sociedades nacionais que sejam dominadas por formas de trumpismo, mas é um problema também para a esfera internacional, porque o ódio derivado desse movimento só vai causar um caos geopolítico maior.

Aqui, o passado traz boas lições: temos orgulho dos estrangeiros e seus descendentes que trouxeram muitos progressos à sociedade brasileira, inclusive pela mistura que propiciaram. O Brasil, mesmo não sendo desenvolvido, também precisará mais deles no futuro, como já mostra nossa pirâmide demográfica.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Pensamento do Dia


 

Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

Sophia de Mello Breyner Andresen

IA e Congresso reacendem a luta de classes

E quem diria que a luta de classes voltaria ao centro do debate político. Os privilégios históricos da concentração de renda através das cobranças de impostos foram impulsionados por vídeos de IA e pela segunda vez a esquerda consegue viralizar nas redes sociais – a primeira foi o debate do fim da escala 6×1. Lula, nosso conciliador-mor, com baixa popularidade e acuado pelas sabotagens do centrão no Congresso, vai flertando com os discursos mais à esquerda pensando em 2026.

A militância de esquerda deve, em parte, agradecer a Alcolumbre e Motta, presidentes do Senado e da Câmara, por reavivar o debate da justiça social. Tentaram humilhar e paralisar o governo com a derrubada do decreto que aumentava o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Viralizaram a hashtag “inimigos do povo”.

É apenas uma pequena batalha vencida nas redes sociais. A direita ainda predomina e com larga vantagem. Segundo O Globo, os vídeos sobre a injustiça dos impostos alcançaram cerca de 20 milhões de pessoas. A última peça de desinformação de Nikolas Ferreira atingiu um número 10 vezes maior de usuários.

Muitos analistas tentam comparar os ataques ao Congresso com os ataques do bolsonarismo ao STF. Fiam-se na estratégia de eleger um inimigo e dizem que é uma ameaça às instituições. Balela. Primeiro: enquanto o ex-presidente Bolsonaro fez uma sistemática campanha contra o Supremo, Lula já avisou que o “presidente não governa de costas para o Congresso” e alguns ministros defenderam Hugo Motta.


Segundo, o cálculo do bolsonarismo era impedir a Corte de julgar seus crimes e atrapalhar seus planos políticos – controlar o Judiciário faz parte da cartilha básica da extrema-direita mundial. Já a esquerda usa o IOF para debater justiça social e o assalto do Legislativo ao orçamento e o desequilíbrio entre os Três Poderes. Enfim, ninguém pediu cassação de Motta e Alcolumbre até o momento, certo? O conflito é parte do jogo político e só isso.

Isenção para quem ganha menos de R$ 5 mil, taxação dos super-ricos, fim da escala 6×1. Aos poucos os direitos dos trabalhadores e a luta contra as desigualdades vai fortalecendo o discurso de esquerda. É a aproximação dos problemas do dia-a-dia da maioria da população ao invés de cair na armadilha das pautas de costumes ou outras questões ideológicas. Foi o que fez o vencedor das primárias democratas em Nova Iorque Zohran Mamdani.

Com uma campanha com afiada nas redes sociais, ele debateu o sofrimento dos trabalhadores: o preço do aluguel, transporte gratuito, aumento do salário-mínimo, transparência dos gastos, sem fugir de temas espinhosos como o genocídio na Palestina – é uma esquerda que não arreda pé de suas ideias restituir com medo de perder votos.

Outro caso foi o de Gustavo Petro. O presidente da Colômbia sancionou sua reforma trabalhista após aprovação do Senado. Após meses de discussões com parlamentares, a proposta estava travada, já que Petro não tem maioria em nenhuma das Casas. Partiu para o ataque e defendeu uma consulta popular. Os congressistas cederam: aprovaram a reforma trabalhista e de aposentadorias, mas rejeitaram a consulta.

Durante muitos anos as pautas identitárias superaram as questões de classe. Elas devem ser defendidas, mas dentro do guarda-chuva da justiça social. Falta muito, entretanto, para as críticas ao neoliberalismo e a soberania popular serem o mote principal da esquerda, e que desatem em mobilização coletiva – e digital.

Trump legisla para os ricos

O presidente dos EUA, Donald Trump, comemorou o Dia da Independência em 4 de julho exatamente como esperava: assinando a “grande e bela” lei que consagra um enorme corte de impostos que beneficia particularmente os mais ricos e é financiado por cortes em programas de proteção social e aumento da dívida. Ao mesmo tempo, reverte grande parte dos esforços do ex-presidente Biden para levar o país a uma economia de energia limpa. Embora os efeitos da lei possam acabar custando-lhe as eleições de meio de mandato de 2026, apenas dois membros conservadores do Congresso negaram seu apoio, demonstrando o domínio de Trump sobre o Partido Republicano.


No plano político, trata-se de uma vitória inegável para Trump, que cumpriu algumas de suas promessas de campanha: eliminar impostos sobre gorjetas, financiar uma campanha massiva de deportação de imigrantes e aumentar os gastos com defesa. E, ao contrário do que aconteceu com sua política tarifária, ele também conseguiu isso sem causar um terremoto no mercado. Tudo isso em pouco mais de cinco meses desde seu retorno à Casa Branca, e apesar das dúvidas que surgiram em suas próprias fileiras sobre aspectos de uma lei que deixará sua marca na economia americana na próxima década.

O principal objetivo da lei era garantir a extensão dos cortes de impostos introduzidos por Trump em 2017, durante seu primeiro mandato, que expiram no final deste ano. Nessa perspectiva, a lei reforça a política tradicional de Reagan de cortes de impostos para empresas e ricos, mas desta vez sem fornecer um novo estímulo ao crescimento, visto que a maior parte desses cortes já está em vigor. Apesar de suas palavras grandiloquentes, o impacto da Trumponomics estará muito distante do New Deal de Roosevelt ou da Grande Sociedade de Johnson.

Outra questão é o aspecto orçamentário da nova legislação, que coloca as finanças da maior economia do mundo em um caminho dificilmente sustentável. Os cortes de impostos somam US$ 4,5 trilhões, enquanto os cortes em programas sociais — especialmente o Medicaid (seguro de saúde público para os mais pobres) e a assistência alimentar para os mais desfavorecidos — somam US$ 1,1 trilhão. Isso significa que o déficit aumentará em US$ 3,4 trilhões nos próximos 10 anos e que, apesar da arrecadação de tarifas, o déficit ficará em torno de 6% do PIB e a dívida pública subirá para 120%. O FMI já alertou sobre os riscos desse megaprojeto fiscal, que está pressionando ainda mais os títulos do Tesouro e o dólar.

O Escritório de Orçamento do Congresso decidiu que, em sua versão inicial, a lei proposta por Trump era indubitavelmente regressiva, visto que os 30% mais pobres da população veriam sua situação piorar, enquanto a renda dos 10% mais ricos aumentaria em mais de 2%. Esse viés só foi acentuado pelas concessões adicionadas durante o processo de sua aprovação. Entre cortes e novas exigências burocráticas, cerca de 12 milhões de americanos podem perder seu seguro saúde. A mudança é tão significativa que exigirá vigilância constante das autoridades econômicas para evitar um aumento generalizado nos custos de financiamento da economia americana e de suas empresas . A “bela” lei de Trump representa uma mudança que terá efeitos muito negativos a longo prazo sobre a coesão social e a estabilidade fiscal nos Estados Unidos.
El Pais

É perigoso consultar-se com a doutora IA

Desde o tempo do Google, costumo consultar a plataforma a qualquer pequena doença, incômodo físico ou ziquizira. Com o advento da inteligência artificial, as consultas se tornaram mais frequentes. As respostas, copiosas, oferecem mais dados, indicam novos exames, novos caminhos de pesquisa. Na aparência, um superconsultório médico.

Em contato com a médica Adrienne Moreno, que me atende já há alguns anos, comentei o desempenho da inteligência artificial e ouvi o que, de certa forma, desconfiava: as coisas não são tão positivas quanto parecem. Na opinião dela, o uso dessas consultas sem treinamento especial traz vários perigos, mesmo para os médicos.


Os modelos de linguagem dos robôs de IA — conhecidos como large language models, ou LLMs — , quando usados de forma descuidada, implicam alguns problemas. É um hábito que expõe o usuário a diferentes vieses: da automação (o paciente substitui sua opinião pela da máquina); da confirmação (ele se satisfaz quando a máquina concorda com ele); da bajulação (a máquina elogia o usuário de forma exagerada). Esses vieses têm sido estudados na prática médica, e já se provou que têm o potencial de diminuir a precisão.

Posso confirmar alguns deles, sobretudo a bajulação. Faço um curso de pronúncia inglesa usando IA. Ao cabo de cada aula, os elogios são abundantes:

— Muito bem, você é ótimo, sua insistência mostra seriedade.

E daí por diante, até o ponto de dizer:

— Seu trabalho mostra bem quem você é.

A pessoa fica se achando, quando, na verdade, é apenas uma aula diária de 15 minutos.

Adrienne ressalta outro aspecto importante na qualidade da máquina no cenário médico: a ética. Máquinas, segundo ela, não carregam valores humanos ou códigos de ética. Podem dar respostas objetivas. Se o algoritmo mostra que um paciente com mais de 80 anos tem poucas chances de sobreviver a uma internação em CTI, um gestor pode decidir não investir recursos nos mais velhos. Outro aspecto destacado por ela é a questão da responsabilidade. Se substituímos a força de trabalho humana pela máquina, quem responde pelos eventuais erros que ela possa cometer? Há uma proporção de laudos da máquina que pode ser revisada por um especialista. Quando esses laudos são muito numerosos, isso excede a capacidade do revisor e pode ser uma fonte de erros.

O mais interessante nisso tudo é a falta de regulamentação. Adrienne foi surpreendida com o anúncio de um aplicativo que se dispõe a fazer um diagnóstico de leucemia apenas com um hemograma. Ela acha que esse é um diagnóstico complexo, e, se alguém descobre uma maneira de abordá-lo apenas com o hemograma, primeiro tem de validá-lo por meio de publicações, e não usar um aplicativo sem qualquer regulamentação.

Tudo isso, segundo ela, indica um caminho mais sério no uso da IA: treinar médicos para que sejam capazes de entender as limitações da máquina. E as empresas de IA precisam introduzir filtros éticos em seus modelos, para que sejam alinhados aos valores de cada país, evitando que as máquinas sejam preconceituosas ao mostrar os dados.

Para Adrienne, é preciso endereçar o problema da responsabilidade da IA antes que a máquina seja incorporada ao cotidiano médico. Médicos — diz ela — conhecem seres humanos em níveis que a máquina ainda não consegue alcançar. Mesmo se a máquina conseguir ser melhor do que nós, será que precisamos que ela substitua as pessoas? O que não estaríamos perdendo com essa substituição?

O interessante em toda a argumentação é que ela não tem um enfoque nostálgico. A ideia é aproveitar ao máximo o uso da IA, exigindo das empresas transparência no raciocínio da máquina em relação a questões médicas — e reconhecendo a superioridade humana quando a questão é cuidar da vida do outro.

Leite para gatinhos, nada de pão para nós em Gaza – Um lugar de generosidade

Enquanto eu acendia o fogo e lutava contra a fumaça preta e espessa, ouvi minha irmãzinha gritar: "Tem uma gata que deu à luz gatinhos aqui!" Fui dar uma olhada e descobri que a gata da vizinhança tinha dado à luz uma ninhada dentro de uma caixa de sapatos colocada na nossa porta.

Meu primeiro instinto foi removê-los antes que a mãe retornasse, temendo que ela pudesse nos atacar, pensando que estávamos tentando machucar seus filhotes.

Mas minha irmãzinha gritou em protesto, horrorizada com minha crueldade: "Eles podem morrer ou se machucar!" Senti a frieza do meu próprio coração por um momento, então disse a ela para fazer o que achava certo e voltei para o fogo.


Minha prioridade era garantir que a sopa de lentilhas não queimasse, principalmente porque mal tínhamos o suficiente para nos manter vivos, não o suficiente para saciar nossa fome.

Não havia pão, um dos ingredientes essenciais deste prato. A farinha custava mais de US$ 700 o saco numa cidade onde a maioria das pessoas vive abaixo da linha da pobreza – desempregadas há meses, sem condições de comprar nem um punhado de farinha!

Cerca de uma hora depois, terminei de preparar a sopa, sem cebola ou pimentão para acompanhar, pois eles não estão disponíveis nos mercados ou são vendidos a preços astronômicos, muito além do nosso alcance.

Fui verificar o que Aya tinha feito com os gatinhos. Para minha surpresa, ela tinha preparado um "banquete" para os padrões da fome em Gaza: serviu-lhes leite, recolheu as sobras de atum e carne enlatados da cozinha e serviu-os.

Fiquei paralisada. Minha língua não conseguiu repreendê-la nem perguntar se ela sabia que aquilo era comida para o dia todo.

Olhei em seus olhos, uma mistura de raiva e descrença em meu próprio olhar, mas tudo o que vi nos dela foi determinação e convicção completa no que ela tinha feito.

Aya não suportava ver gatinhos famintos, mesmo eu tendo contado a ela, e ela sabia que a mãe deles os alimentaria de uma forma ou de outra. Mas eu não a culpo. Aliás, talvez eu devesse culpar o gato por ter instintos tão ruins! Mesmo assim, as coisas mudaram desde o início da guerra.

Naquela época, os gatos conseguiam encontrar comida nas estradas: sobras e sacos de lixo.

Agora, eles têm concorrência: as crianças de Gaza vasculham o mesmo lixo em busca de roupas esfarrapadas, pedaços de madeira ou plástico para queimar e se aquecer, já que não têm dinheiro para lenha. Ou até mesmo para ver se há algum resto de comida deixado por agências internacionais de ajuda humanitária.

Muitos pensamentos passaram pela minha cabeça.

Não me importava que comêssemos tão pouco, mas fiquei indignado que as crianças da minha cidade estivessem catando lixo em busca de comida enquanto os gatos eram alimentados com refeições adequadas.

Mas, novamente, a comparação não era justa. Por que crianças e gatos não deveriam comer comida boa?

Mesmo quando éramos crianças, costumávamos alimentar gatas prenhes e depois seus filhotes para que as mães pudessem se recuperar. Meus pensamentos oscilavam entre desespero e amargura e perguntas raivosas: Que tipo de ocupação desumana pode testemunhar a fome em um ser vivo e ainda assim negar-lhe comida? Quão vil deve ser alguém que deixa passar fome crianças, doentes, pobres?

Quem lhes deu o direito de isolar uma cidade inteira — quase invisível no mapa — diante dos olhos do mundo? Quem lhes permitiu controlar a vida, a fome, as crianças da minha cidade e até mesmo seus gatos?

Tudo isso passou pela minha cabeça enquanto eu olhava nos olhos de Aya.

Aya não fez nada de errado. Somos de Gaza, uma cidade conhecida pela sua generosidade — é o que sempre disseram sobre nós.

Foi assim que fomos criados. Então, eu mataria esse espírito nela agora? Eu extinguiria o que resta da nossa humanidade?

Só consegui falar quando encontrei as palavras certas. Elogiei Aya pelo que ela havia feito e até lhe dei uma porção maior da sopa, em detrimento da minha. Coragem e generosidade devem ser honradas, e o egoísmo deve ser humilhado.
Sem chance de sobrevivência

Os dias se passaram e, infelizmente, todos os gatinhos morreram. Dois deles desapareceram — provavelmente foram comidos pela mãe. Os três restantes foram abandonados por ela e deixados para morrer, apesar de nossas tentativas desesperadas de alimentá-los. Mas sem o leite da mãe, eles não tiveram chance.

Desde então, sempre que penso naqueles gatinhos, sinto um profundo ressentimento em relação a este mundo pelo que ele permitiu que acontecesse.

Desde quando pessoas, animais, árvores — até mesmo gatinhos — famintos são justificados sob a desculpa de “combater o terrorismo”?

Ou foi culpa do gato? Não vejo terrorismo nos olhos de gatinhos famintos — nem nos olhos de crianças famintas. Vejo terrorismo apenas nas mãos de um ocupante que sitiou uma cidade antes conhecida por aquilo que agora mais lhe falta: generosidade.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


O tédio do fim do mundo

Enquanto escrevo esta coluna a Europa tira a roupa, e lota praias, lagos e piscinas, sufocando de calor. E, atenção, o verão estreou há poucos dias — 21 de junho para ser preciso.

França começou por sofrer uma série de tempestades violentas. Numa única noite caíram 17 mil raios. Logo a seguir veio a atual onda de calor, com as temperaturas a ultrapassar os 40 graus. As autoridades foram forçadas a fechar escolas, monumentos e pontos de interesse turístico.

Barcelona registrou o seu junho mais quente desde 1914. No Reino Unido, as altas temperaturas já estão provocando incêndios.

É outra vez o fim do mundo. O problema é que ao repetir-se todas as semanas, ainda que em diferentes formatos e geografias, o apocalipse acaba por se tornar fastidioso.

Lembra-me um episódio que a minha avó costumava contar, sobre um elefante cor-de-rosa que, lá pelos anos 1950, foi visto a passear-se pelas ruas da Chibia, uma pequena cidade do sul de Angola. No primeiro dia, a notícia do avistamento do paquiderme foi recebida com incredulidade e extraordinária comoção. Acontece que o animal gostou da cidade e passou a visitá-la, primeiro semana sim, semana não, e, finalmente, quase todos as manhãs. Em pouco tempo deixou de ser um fenômeno extraordinário. Era apenas um estorvo de colossais dimensões.

Mesmo a cor rosada — que lhe dava uma aparência onírica, quase milagrosa — foi explicada prosaicamente pelos caçadores locais: o animal banhava-se num lago próximo, ficando coberto de lama avermelhada.

As crianças passaram a persegui-lo, gritando obscenidades e atirando-lhe pedras. A velhinhas expulsavam-no dos quintais à vassourada. Deram-lhe até um apelido, Rosinha — o que, definitivamente, arrasou com o que ainda pudesse restar da reputação, e do orgulho, do infeliz animal.

Por este andar, acabaremos tratando o fim do mundo com idêntica impaciência. Caem 17 mil raios numa mesma noite?! O povão encolhe os ombros, entediado:

— Pô que tu é chato, ó Finzinho!

A temperatura chegou aos 46 graus no Alentejo, em Portugal? Os alentejanos estendem-se à sombra das oliveiras — e aproveitam para dormir uma sestinha.

O fim do mundo virou boletim meteorológico: “Céu parcialmente apocalíptico, com possibilidade de dilúvios à tarde, rios de sangue, pragas de gafanhotos, e um ligeiro colapso civilizacional ao entardecer”.

Em Israel assassinam-se crianças por fome, a tiro, de todas as formas possíveis, num interminável exercício de crueldade, porque, no entendimento dos seus assassinos, não são crianças mas terroristas em gestação.

E nós? Nós prosseguimos impassíveis. Tomando alguma bebida gelada, de preferência na praia, enquanto comentamos o colapso civilizacional como quem discute um filme de ação.

Rosinha, o elefante cor-de-rosa, dança nos salões dos palácios presidenciais, nos parlamentos, nos quartéis, nas redações dos jornais, nas igrejas, nas ruas, praças e jardins de todas as grandes cidades — mas já ninguém o vê. Ninguém o quer ver. Habituamo-nos a tudo. Inclusive, ao fim de tudo.
José Eduardo Agualusa

O lento avanço da razão sobre as tribos

Nos anos mais sombrios da Idade Média, a conformidade era imposta. A Igreja pontificava e todos seguiam. Pensava-se igual, porque apenas isso era admitido. A individualidade era asfixiada. A tribo unida era forçada a pensar unida.

O Renascimento começa a romper essa masmorra intelectual. Os descobrimentos abrem horizontes. O indivíduo floresce. Apesar de acidentes de percurso, podia-se pensar e agir com a própria cabeça.

No Iluminismo, proclama-se o Império da Razão. Chegaríamos mais longe, pensando certo e com rigor. Sob a tutela da razão, as nossas concepções seriam ordenadas e o progresso viria. Que se enxotem os preconceitos e superstições. As emoções e valores tinham que achar os seus lugares, mais modestos.


No último século e tanto, entra em cena a abundância de resultados da pesquisa científica, com seus dados contundentes. No que é observável, ela deveria ter a palavra final. Doenças ou vacinas, a verdade passa a ser definida pelos critérios da ciência.

Avanço definitivo? Nem tanto, as vitórias foram mais modestas do que se esperava. Avançamos, é verdade. Mas o Império da Razão é periclitante. Para muitos, é uma nova moda, rechaçada ou não entendida. Há os que têm um pé nas verdades tribais e outro na razão científica, uma esquizofrenia intelectual.

Com grande consternação, temos que reconhecer os limites nos avanços da razão. Acreditamos no que acreditam as gentes da nossa tribo. Os intelectualmente mais refinados escolhem aqueles fatos e eventos, até verdadeiros, que melhor reforçam as crenças que já tinham. Os outros, nem isso. Lembra-nos Galbraith: “Diante da escolha entre mudar de opinião e provar que isso não é necessário, quase todos se dedicam a demonstrar a segunda opção”.

Façamos um exercício mental – os filósofos chamariam isso de solipsismo. Em sistemas econômicos ou em políticas sociais, será que as opiniões da nossa própria tribo não influenciam escandalosamente o que pensamos? Nossos amigos não pensam como nós? E não lemos os mesmos autores? O que dizem os nossos gurus, não é o que pensamos nós?

Algo começamos a entender, já existe alguma pesquisa nesse assunto. Demonstrou-se que as nossas opiniões e percepções são profundamente influenciadas pelas tribos a que pertencemos. A cartilha do Iluminismo prescreve que a razão nos auxiliaria a formar nossas opiniões. Mas, num número embaraçoso de situações, primeiro vem as crenças que trazemos de nossas tribos. Pespegada por fora, vem o verniz da razão.

Mais iniciativa individual ou mais Estado? Mais liberdade ou mais ordem? Mais autonomia ou a proteção oferecida pelas políticas públicas? Essas proposições estão além do alcance da ciência, são juízos de valor. Mas não fazem sentido no vácuo.

Por exemplo, é legítimo o direito do Estado de obrigar alguém a tomar uma vacina? A ciência nada pode dizer. Todavia, em casos reais, as discussões têm por trás o risco da doença e de seus efeitos colaterais. Conta a eficácia das vacinas, a transmissibilidade da doença e vários outros critérios. Tudo isso é ciência e é indispensável para tomar decisões inteligentes, ainda quando envolvem juízos de valor. Contudo, o que vemos é uma cacofonia de opiniões desencontradas.

As grandes revoluções na tecnologia da informação escancaram, cada vez mais, os dados e os fatos. Tudo está no Google. Porém, tendemos a encontrar nele aquilo que confirma o que já acreditávamos. Os próprios algoritmos do Google já exacerbam uma tal endogenia intelectual, pois na próxima busca virão sites com ideias na mesma linha.

Na Idade Média, todos tinham que pensar igual. Passamos a viver num mundo em que a variedade de gentes e de crenças se multiplicou. Terreno fértil para o Iluminismo.

Porém, nesse particular, a revolução das redes sociais teve um efeito deletério, competindo com seus imensos ganhos. Elas recriaram uma nova Idade Média. Passamos a nos relacionar por meio delas, apenas com gente que pensa igual. Geograficamente, estão hoje todos misturados. Mas, intelectual e emocionalmente, iguais estão conectados com iguais, pelos seus celulares. Que lástima, apesar de utilíssimos. Os celulares se prestam para isso! E quando se encontram os diferentes, não há diálogo produtivo. São “eles” contra “nós”.

O que está dito acima, pelo menos parcialmente, pode explicar a grande polarização política e ideológica dos dias de hoje. As mídias sociais contribuem grandemente para juntar os iguais e dar-lhes confiança e força, por sentirem-se solidamente acompanhados, tenha ou não cabimento o que proclamam. Qualquer imbecilidade pode virar uma crença grupal, como eram as superstições na Idade Média. E como naquela época, não se sabe lidar com o contraditório – que fertiliza as mentes.

Acreditava-se que a Grande Peste resultava da ira dos deuses ou coisa equivalente. Saíam todos em procissão, rezando e pedindo misericórdia. E as pulgas das ratazanas, infectadas, passavam de um devoto para o que estava ao lado. Será que igual não acontece hoje, sendo as pulgas os celulares?

Superganância


O tempo livre do animal laborans (animal trabalhador) nunca é gasto em nada a não ser no consumo e, quanto mais tempo ele adquire, mais gananciosos e vorazes se tornam seus apetites.
 
Hannah Arendt , "A Condição Humana"

O esporte sem grandeza de Trump

Se há um espécime humano incapaz de compreender a essência do esporte olímpico, ou ver grandeza no esporte em geral, esse espécime se chama Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos prefere a pancadaria crua de uma luta de MMA, a que assiste presencialmente na boca do octógono. Fora isso, só mesmo a prática do golfe — e, mesmo assim, apenas num dos 15 clubes e resorts de sua propriedade (11 nos Estados Unidos, dois na Escócia, um na Irlanda, um nos Emirados Árabes — e algum dia, quem sabe, sonhe com um em Gaza?), onde é de bom-tom dos convidados deixá-lo ganhar. A ideia de competir sem vencer lhe é existencialmente indigesta. A ponto de, em 2018, ainda no primeiro mandato, referir-se aos soldados americanos tombados na Primeira Guerra e enterrados no cemitério francês de Aisne-Marne como “otários e perdedores”. Dificilmente teria tido empatia pelo maratonista John Stephen Akhwari, da Tanzânia, que na Olimpíada de 1968, no México, celebrou cruzar a linha de chegada em último lugar, mais de uma hora depois do vencedor. Questionado por que não desistira da prova quando sofreu uma queda e deslocou o joelho, Akhwari respondeu com naturalidade:

— Meu país não me enviou de 8 mil quilômetros de distância para começar a corrida; me mandaram até aqui para terminar a corrida.


Pois quiseram o destino e o calendário esportivo fazer desse presidente viciado em Big Macs e Coca-Cola o anfitrião da Copa do Mundo, no próximo ano, e da Olimpíada de Los Angeles, em 2028. Os primeiros sinais de incompatibilidade entre esses megaeventos de afluência global e seu combate à “invasão de nossas fronteiras” já vão se fazendo sentir. Por um excesso de zelo colateral ao decreto que proíbe a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de 12 países e impõe restrições parciais a sete outros (entre os quais Cuba), o mesa-tenista brasileiro Hugo Calderano se viu proibido de viajar para os Estados Unidos a tempo de disputar a importante competição desta semana, o WTT Grand Smash.

Justo Calderano, caramba, que tem dado tantas alegrias ao Brasil num esporte em que a China reina absoluta. A bordo de um passaporte português, o mesa-tenista brasileiro se vale das facilidades oferecidas a cidadãos da União Europeia (UE) quando viaja, inclusive para os Estados Unidos. Em 2023 disputou um Pan-Americano em Cuba, conseguindo ali a vaga para a Olimpíada de Paris, e dela saiu em inédito quarto lugar. Desde então, só vem empilhando sucessos. Terceiro lugar no ranking mundial, é o único atleta não asiático entre os cinco melhores do planeta. Sua recente vitória na Copa do Mundo de 2025 sobre o até então imbatível Lin Shidong foi um estrondo. No mês passado, pôde comemorar os 29 anos levando pela segunda vez o WTT na Eslovênia e pretendia nova conquista agora em Las Vegas.

Minuciosa, sofrida e rigorosa, a preparação de um atleta de alto rendimento para uma competição permite poucos imprevistos. Um empecilho de última hora, então, é desconcertante. No caso, sua inócua viagem a Cuba levou algum burocrata übertrumpista a ver vermelho (no caso, vermelho de comunista) e a dificultar sua entrada automática em solo americano. Até ele obter a retificação do erro já não havia mais tempo de competir em Vegas.

O episódio pode ser o prenúncio de confusões futuras. Em princípio, os decretos de Trump vetando a entrada de cidadãos de determinados países também contemplam exceções para atletas e equipes participantes dos grandes eventos. Mas a própria sanha com que o governo tem procurado cumprir a meta de 3 mil deportações por dia, somada ao orçamento recém-aprovado de US$ 150 bilhões para políticas de imigração e segurança da fronteira, pode levar pequenos burocratas a valorizar seus pequenos poderes e a multiplicar confusões. Difícil prever o estado do país de Trump em seu último ano de mandato, quando hordas de turistas e olímpicos descerão sobre Los Angeles. Vale lembrar que os Jogos de Seul foram decisivos para a abertura do regime sul-coreano em 1988. E que a Olimpíada de Moscou em 1980 permitiu uma primeira espiada no regime soviético até então blindado por Leonid Brejnev.

Por ora, o olimpismo que Donald Trump mais incentiva atende pelo nome de Enhanced Games (jogos turbinados, em tradução livre). Estão programados para maio de 2026, serão disputados em Las Vegas com patrocínio de um fundo de capital de risco capitaneado por Donald Jr. e já contam com mais de cem atletas inscritos nas três modalidades programadas: natação, atletismo e levantamento de peso. A novidade dessa “Olimpíada do século XXI” é que os participantes competirão turbinados por tudo o que o doping tem de mais moderno. Tudo o que é proibido pelo COI estará liberado. As premiações já anunciadas incluem um bônus de US$ 1 milhão para quem quebrar o recorde mundial na prova de 100 metros e 50 metros nado livre.

— Nosso negócio está em destravar o potencial humano. Estamos criando a vanguarda da super-humanidade — diz o fundador da ideia, o australiano Aron D’Souza.

Os jogos juntam fraude, tudo por dinheiro e violência (contra o corpo humano), as práticas preferidas de Donald Trump.

Palestinos são mortos na fila para pegar comida

Mahmoud Qassem perdeu o filho Khader no final de junho. O jovem de 19 anos tentava chegar a um centro de distribuição de alimentos na Faixa de Gaza operado pela Gaza Humanitarian Foundation (GHF), entidade apoiada por EUA e Israel.

"A última vez que a mãe dele e eu falamos com ele foi às 23h daquela noite. Ele disse que estava em um lugar seguro – ele tinha ido ao centro de distribuição de Netzarim –, e eu disse para ele se cuidar", contou Qassem à DW de uma tenda na Cidade de Gaza onde a família está abrigada.

"À 1h da manhã, tentei ligar de novo, mas o telefone dele não estava recebendo chamadas. Comecei a ficar ansioso. Não houve notícia todo o tempo, e esperei até as 14h do dia seguinte. Sentia como se um fogo queimasse dentro de mim", disse o homem de 50 anos.

No dia 27 de junho, Qassem foi ao centro da Faixa de Gaza e procurou nos hospitais até descobrir que Khader havia sido morto. Quando o corpo foi finalmente recuperado, após coordenação com o exército israelense, viu-se que ele exibia diversas marcas de tiro.

"Um garoto de 19 anos que nem sequer tinha começado a viver a vida, tudo por buscar uma caixa [de alimentos]", disse Qassem, mal contendo as lágrimas. Khader fizera a jornada contra a vontade do pai, por sentir que precisava sustentar a família.

"A situação aqui é indescritível. As pessoas estão se sacrificando para sobreviver. Só Deus sabe o que estamos passando. Ninguém sente por nós – nem o Hamas, nem Israel, nem os países árabes, ninguém."


Relatos quase diários de violência, feridos e mortos ligados à distribuição de alimentos e ajuda humanitária expõem as condições insuportáveis enfrentadas pelos 2,3 milhões de habitantes de Gaza, que se tornaram quase totalmente dependentes dos suprimentos que entram pelos postos controlados por Israel.

Quase toda a população do enclave foi deslocada pelo conflito, que já deixou cerca de 57 mil vítimas no lado palestino desde outubro de 2023, segundo contagem do Ministério da Saúde em Gaza, e 93% da população está em situação de insegurança alimentar aguda, segundo uma análise recente das Nações Unidas.

Alimentos e outros suprimentos se tornaram extremamente escassos em Gaza, mesmo com a retomada das entregas de ajuda da ONU e a abertura de novos centros de distribuição operados pela GHF – dos quais três atualmente em funcionamento, após quase três meses de bloqueio israelense.

Autoridades israelenses justificaram o bloqueio alegando que o Hamas está desviando ajuda e usando-a para financiar suas operações. A alegação foi rejeitada pela ONU e por outras organizações de ajuda internacionais e locais, que há muitos anos mantêm uma rede e um mecanismo de distribuição bem estabelecidos em Gaza.

Mas os caminhões que entram com essa ajuda têm sido repetidamente saqueados, seja por gangues armadas ou por pessoas comuns desesperadas por comida. Enquanto isso, o exército israelense tem intensificado seus ataques aéreos, emitindo ordens de evacuação para grandes áreas do norte e sul de Gaza.

A situação é difícil de ser averiguada de forma independente, já que Israel não permite o acesso de jornalistas estrangeiros ao enclave palestino.

Pai de cinco filhos, o palestino Saeed Abu Libda, de 44 anos, disse à DW que conseguiu recentemente pegar um saco de farinha quando um caminhão passou perto de Khan Younis. "Sei que era arriscado, mas precisamos comer", afirmou por telefone.

Segundo ele, havia milhares de pessoas esperando pelos caminhões. De repente, ele ouviu dois projéteis sendo disparados. "Vi pessoas no chão, algumas estavam feridas; outras, despedaçadas. Fui atingido por estilhaços no abdômen, mas por sorte foi um ferimento leve."

O Ministério da Saúde em Gaza afirma que mais de 500 pessoas foram mortas nas últimas semanas por bombardeios, ataques aéreos e tiros. A maior parte das vítimas estava na fila para buscar comida nos centros de distribuição de ajuda ou próxima a caminhões que transportavam esses mantimentos.

O Ministério do Exterior isralense refutou essas alegações na terça-feira passada (01/07) e acusou o Hamas de atirar em civis, afirmando que o grupo palestino "espalha falsas alegações culpando as FDI [Forças de Defesa de Israel], infla números de mortos e divulga imagens falsas".

No mesmo dia, cerca de 130 das maiores entidades de caridade e ONGs, dentre elas Oxfam e Save the Children, pediram o fechamento da GHF alegando que a fundação força milhares de famintos a transitar por zonas militarizadas, correndo risco ao tentar acessar ajuda humanitária vital.

O presidente da GHF, Johnnie Moore, reagiu dizendo que a fundação não encerraria suas operações, que o grupo distribuiu mais de 55 milhões de refeições e que está disposto a trabalhar com a ONU e outras agências de ajuda.

Moore sugeriu ainda que o Ministério da Saúde de Gaza estaria inflando o número de mortes associadas à distribuição de ajuda humanitária. Segundo ele, o órgão divulga "todo dia uma estatística de vítimas civis e, simultaneamente, atribui 100% dessas mortes civis à espera por ajuda – praticamente sempre, à espera da nossa ajuda".

O exército isralense admitiu em várias ocasiões ter disparado "tiros de advertência" contra indivíduos que se aproximavam de posições militares próximas aos locais de distribuição de ajuda, mas não divulga informações sobre o número de vítimas.

No final de junho, reportagem publicada no jornal israelense Haaretz afirmou que soldados israelenses foram autorizados a abrir fogo contra multidões perto de centros de distribuição de alimentos, com o objetivo de mantê-las afastadas de posições israelenses dentro das zonas militarizadas.

Soldados não identificados citados pelo Haaretz relataram ter usado força letal contra pessoas desarmadas que não representavam ameaça. O caso estaria sob investigação interna por suspeita de violação do direito internacional e crimes de guerra.

Em nota conjunta, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa Israel Katz rejeitaram a denúncia, acusando o Haaretz de divulgar mentiras que visam "difamar as FDI, o exército mais moral do mundo".

As FDI também rejeitaram as acusações, afirmando em comunicado que não houve ordens para "atirar deliberadamente contra civis, incluindo aqueles que se aproximam dos centros de distribuição".

Mas três dias depois da publicação da reportagem, o exército isralense anunciou a reorganização de estradas de acesso e centros de distribuição de ajuda humanitária, com a criação de novos checkpoints e sinalizações para "reduzir a fricção com a população e manter a segurança das tropas que operam ali".

A GHF tem repetidamente negado relatos de violência em seus centros de distribuição e acusado veículos estrangeiros de mentir. "Não tivemos um único incidente violento em nossos locais de distribuição. Não houve incidentes violentos nas proximidades dos nossos centros", sustentou Moore.

No entanto, após as denúncias levantadas pelo Haaretz, a GHF declarou que elas eram "graves demais para serem ignoradas" e pediu uma investigação.

Neste sábado (05/07), a GHF anunciou que dois funcionários americanos teriam sido feridos num "ataque terrorista direcionado" com granadas. A entidade culpou o Hamas.

Enquanto isso, palestinos desesperados muitas vezes precisam caminhar por horas através de zonas devastadas pela guerra para alcançar os centros de distribuição, localizados em áreas militarizadas designadas por Israel. Esses centros costumam funcionar apenas por um curto período, e muitas vezes não está claro onde as pessoas podem se reunir com segurança enquanto esperam pela ajuda.

"A estrada até lá é muito perigosa, e eu tento ao máximo não desviar da estrada principal", contou Ahmed Abu Raida por telefone à DW. Como outros tantos, ele também vive em um barraco improvisado com a família, em Mawasi, no sul de Gaza. "Esperamos o anúncio da abertura dos centros, e durante as longas horas de espera, há tiros intensos vindos de várias direções."

Abu Raida disse que foi a um centro da GHF em Rafah várias vezes e conseguiu pegar uma caixa contendo farinha, lentilhas, macarrão, chá e óleo de cozinha. "Quando entramos no local, há um grande caos por causa da enorme quantidade de pessoas", relatou.

Segundo ele, o processo de distribuição é aleatório. "Não há fiscalização nem limite para a quantidade de caixas que alguém pode pegar." E, assim como outros ouvidos pela DW, ele disse também considerá-lo humilhante e injusto: idosos, mulheres, pessoas vulneráveis não têm chance.

"O que podemos fazer? Não temos comida suficiente nem renda para comprar nos mercados, onde os preços estão absurdamente altos", lamentou. "Tudo o que recebemos é apenas o suficiente para nos manter vivos."

Sobre gatos e jabutis

Um dos meus grandes amigos de infância foi um gato. Fofura branca de rabo preto, manso e pacífico, chamado de “pechincha”, não sei exatamente por quê. Presente de um vizinho, um achado pelo valor da gentileza. Sempre que me via triste, choroso pelos cantos da casa, penalizado “pelas trelas” cometidas, ele se achegava e ronronava na linguagem afetiva dos felinos domésticos (família dos “felidae”) que miam quando insatisfeitos ou rugem quando ameaçadores.

Quando ele se foi, sofri e prometi a mim mesmo que não em apegaria a nenhum animal doméstico. Senti, faz muitos anos, que cães e gatos, conhecidos, atualmente, como “pets”, são capazes de exercer na sociedade humana as funções de companheirismo, divertimento e os benefícios menos visíveis, porém não menos importantes, preencher nossos vazios e estimular nossos afetos.


A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: que papo é esse quando a agenda esteve e está repleta conflitos e incertezas e, no plano nacional o Congresso reina sobranceiro, impondo reveses ao Executivo que, ao fim e ao cabo, têm o custo suportado pela população brasileira?

Por coincidência, no centro da questão política Governo x Congresso está o setor energético, conta de luz e dois representantes da nossa fauna: o gato e o jabuti. Aí entram em cena o Código Penal e o criativo senso de humor do brasileiro. O parágrafo terceiro do artigo 155 estabelece: “Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico”. E a esperteza delinquente encontra uma forma de subtrair a energia da rede elétrica sem o devido pagamento à distribuidora com ligações clandestinas (furto) e adulterações de medidores ou dispositivos equivalentes (estelionato).

Ora, a ação delituosa é uma prática que, no caso da energia elétrica, exige habilidades, movimentos silenciosos e furtivos para não serem notados, à semelhança dos gatos, “gatunos”, um felino, ao mesmo tempo, ágil e sensual, capaz de inspirar a denominação de “gato” ou “gata” às pessoas atraentes.

Mas não fica por aí. O bichano concorrente é “o gato de água” obedece ao mesmo padrão de comportamento delituoso. Em ambos os casos, os prejuízos do crime afetam o patrimônio público, prejudicam as políticas de distribuição e abastecimento, agravam os danos da infraestrutura e afrontam respeito à lei cuja observância assegura a manutenção do estado de direito.

No mundo da política, porém, o representante mais importante da fauna brasileira é “um réptil de carapaça convexa” conhecido como jabuti. Como entrou e por que entrou na cena, em especial, no Congresso Brasileiro? Na sua origem, está a expressão “Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente ou foi mão de gente”.

A linguagem popular consagrou um significado especial: quando, ao longo do processo legislativo, os parlamentares se defrontam com um dispositivo estranho ao tema principal do projeto de lei: é um jabuti! A prática é mais comum do que se imagina. Ele está ali quietinho que, em grande medida, contraria legítimos interesses republicanos. Hoje, é um frequente personagem nos embates congressuais

Em recente episódio, a derrubada dos vetos presidenciais significa a ressureição de robustos jabutis que haviam sido incluídos enquanto tramitava o projeto de lei do marco legal das eólicas offshore. Segundo a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), os jabutis vão custar, aproximadamente, R$ 197 bilhões ao consumidor longo de 25 anos e, por igual período, um aumento de 3,5% a 9% na conta de luz

Neste sentido, cabe salientar que uma parte do ônus se alastra pela economia e pune a sociedade com a alta inflacionária. De outra parte, este tipo decisão tem sérios efeitos sobre expectativas e sobre a visão estratégica que apontam o Brasil como um grande protagonista da questão ambiental com a autoridade de quem construiu uma matriz energética limpa, atualmente, ampliada pelas fontes renováveis de energia.

A rigor, o jabuti é produto da “esperteza” brasileira que ao beneficiar poucos, prejudicam, seriamente, uma população inteira. Não dá para obter a vantagem de poucos representados pela pressão fraudulenta em prejuízo de muitos cujos direitos são difusos e destituídos da força dos grupos de pressão organizados. Os jabutis são inocentes. Culpados são os fraudadores da vontade popular.

Cabe, ao final, reagir, politicamente, para que “gatos” e “jabutis”, bípedes e engravatados, não comprometam vocação ambiental do país, caso as escolhas políticas se distanciem da dimensão estratégica que o Brasil representa para um mundo em profundas transformações.

sábado, 5 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


O discurso dos grandes ditadores

Sim, quero ser imperador, cacique, líder supremo, dono do mundo, do pedaço, da parte que — por voto, concurso ou apadrinhamento — me cabe neste latifúndio.

Quero ser tratado por Meritíssimo, Excelência, Vossa Senhoria. É meu ofício: governar, legislar, fazer cumprir as leis — em causa própria, e, bem sabeis, a meu bel-prazer. Quero ajudar os meus — e que se danem ucranianos, ianomâmis e aposentados, contribuintes, motoristas de aplicativo e judeus. Prendei os que vandalizam palácios e ignorai os que deixam ruir igrejas, arder museus. Quero que negros odeiem brancos, pobres se insurjam contra ricos — e eu, rico e branco, fomentador de antagonismos e mestre em demonizar o diálogo, seja reverenciado como um deus.

Eu degusto lagosta à vossa custa, enquanto em 21,6 milhões de lares, em “insegurança alimentar”, comeis o pão que o diabo amassou. Eu presenteio lenços e gravatas de seda com o que retiro, compulsoriamente, do bolso onde mal tendes o suficiente para vos agasalhar.

Com o suor do vosso rosto, bobinhas, eu pago maquiadores que me mantêm a pele clara e imaculada para que eu possa defender vossa dignidade e vossas necessidades com meu afronte e minha bolsa (três anos e meio de Bolsa Família, uma pechincha) e denunciar o avanço da extrema direita —em Paris.

Eu liberto réus confessos, anulo condenações justas, perdoo multas bilionárias. Trabalhais oito horas por dia, seis dias por semana, 11 meses por ano para que pinguem o mínimo na vossa conta — eu tenho 60 dias de descanso remunerado, horário flexível, encho de penduricalhos meu supersalário (os pagamentos acima do teto constitucional passaram de R$ 10 bilhões em 2024) — e processo quem divulgar as remunerações ilegais.

Eu gasto muito e mal; e vos empurro goela abaixo mais e mais impostos e mordomias e má gestão. Visito ex-presidente presa por corrupção e mando buscar, em jatinho da FAB (bancado por vós, que íeis andar de avião e jamais decolastes), a ex-primeira-dama condenada à prisão por lavagem de dinheiro. Apoio agressores e ditaduras, corruptos e tiranias — mas me outorgo autoridade moral de defensor da paz, da ética e das minorias.

Acho que 513 deputados são pouco, que é pouco gastar mais de R$ 24 milhões por ano com cada um e voto por elevar esse número para 531. Quero mais fundo eleitoral e mais emendas parlamentares e menos transparência e mais privilégios. Com vossos recursos, eu pago meus procedimentos estéticos, meus jantares superfaturados e asfalto as ruas do meu condomínio de luxo.

Por isso, vos peço: lutai pela censura, pelo controle dos meios de comunicação, por mais taxação; pela anistia aos que tentaram golpear a democracia, pelos que a corroem por dentro simulando defendê-la. Afinal, quem sois vós na fila do pão? Uma das 196 mulheres violentadas por dia. Uma vítima de feminicídio a cada seis horas. Um dos 35.365 que sofreram morte violenta em 2024. Um dos 3,9 milhões de pedintes esperando Godot nos guichês do INSS. Um dos 59 milhões de incapazes de atender às próprias necessidades básicas de sobrevivência.

Não sois cidadãos: 213 milhões de pequenos tiranos é que sois. Segui, pois, odiando-vos uns aos outros — e ignorando que todo poder emana de vós, e em vosso nome deveria ser exercido.
Eduardo Affonso

Tempos de profetas e charlatães

Hoje, numa época em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatães usam as mesmas fórmulas com mínimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redações dos jornais são constantemente incomodadas por gente que acha que é um gênio, é muito difícil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pés diante da porta da redação são suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porém, o gênio passa a outra condição. Deixa de ser matéria fútil da crítica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tão pouco a sério como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de fatos concretos, com todas as consequências que isso tem.

Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância.

Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem, e é por isso que sobram sempre muitos atributos. Foram criados um dia por algum homem importante para outro homem importante, mas esses homens há muito que morreram, e os conceitos que lhes sobreviveram têm de ser utilizados. Por isso andamos sempre à procura do homem certo para um determinado adjetivo. A "portentosa plenitude" de Shakespeare, a "universalidade" de Goethe, a "profundidade psicológica" de Dostoievski e muitas outras imagens que uma longa tradição literária deixou atrás de si andam às centenas nas cabeças dos que escrevem, e essa sobrelotação de reservas leva-os a dizer hoje que um estratega do tênis é "insondável" ou um poeta em moda "grandioso". É compreensível que se sintam gratos quando conseguem aplicar sem desperdício a sua reserva de palavras. Mas terá sempre de se tratar de um homem cuja importância já é um fato aceite, de maneira a que se compreenda como as palavras se ajustam bem a ele, ainda que não se diga exatamente a que qualidades. 
Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

Sociedade de massa e financismo

A tendência marcante do nosso tempo é a crescente submissão da política aos ditames dos mercados financeiros. Não se trata do poder dos operadores, aqueles que se empenham na busca do melhor resultado. Em suas opiniões econômicas, esses funcionários da finança exprimem os consensos impessoais que os submetem aos mandamentos da sociedade de massa. Não são agentes racionais, mas escravos das concepções que os dominam.

Em delírio subpositivista, um economista do mainstream sugeriu que as narrativas (ideologias?) não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Desgraçadamente para a matilha de cães raivosos que emitem latidos na economia, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.


Os consensos dos mercados deploram o peso excessivo do Estado munificente e investem contra as tentativas de disciplinar as forças simultaneamente criadoras e destrutivas do capitalismo. A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, tem sido contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do orçamento equilibrado. As massas enriquecidas contestam qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza e da renda.

A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos servos das finanças afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo que ordena restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.

A ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. As duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder administrativo e na desvalorização da política. A resposta esperançosa às incertezas do futuro depende da capacidade de mobilização democrática e radical dos deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlados pela hegemonia das banalidades.

Um exemplo de procedimentos duvidosos está na ideia de superávit fiscal estrutural que trata de eliminar os efeitos do ciclo econômico nas receitas do governo. Nesse procedimento estão embutidas ideias peregrinas. Nas catacumbas do pensamento mercadista esconde-se o conceito de equilíbrio. Esse conceito dominante na teoria econômica obscurece a compreensão do capitalismo como economia monetário-financeira em permanente movimento.

Por rádio, televisão e jornal a população é “informada” que precisa se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais e menos direitos e benefícios trabalhistas, ou encarar a destruição da economia, tudo em nome da ciência econômica. Diante dessa configuração, a esfera pública e democrática sucumbe descaradamente à degradação dos Parlamentos. No Brasil de 2025, o Legislativo está contaminado pela peste dos interesses abrigados nas emendas parlamentares, para não falar das vergonhas do orçamento secreto. Esses processos visíveis e simultâneos de crescente putrefação do “público” e de celebração do “privado” decorrem da sociabilidade peculiar imposta pelo movimento “invisível” da mão que guia o curso dos mercados.

Para o cidadão afetado, parece inteiramente fantástica a ideia de controlar as causas desses golpes do destino. As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das Bolsas de Valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir suas condições de vida. Mas o consenso dominante trata de explicar que se não for assim sua vida pode piorar ainda mais.

A formação desse consenso é, em si, um método eficaz de bloquear o imaginário social, comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas de um ponto de vista negativo, no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade, mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa, primordialmente, o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente. 

Blowin’ in the wind

Uma amiga me perguntou se eu sempre me entendi antissionista. Respondi: “Nunca fui sionista e, em algum momento, me transformei em antissionista (cada vez mais radical). Fiz o ensino fundamental em colégio judaico no Bom Retiro (Renascença). A certa altura, me dei conta do sionismo e de que os judeus deveriam ir para Israel, a Terra Prometida. Então pensei comigo mesmo, ‘Nossa! Eu então aqui sou o rei, porque nasci lá’ (eu sempre acho que sou o rei da cocada preta… até cair do cavalo).

“Ingressei no ensino médio em colégio público (o Estadual do Parque D. Pedro II), em plena ‘guerra triunfal’ de Israel em 1967, e foi lá que ouvi as primeiras alusões antissionistas. Em 1968, comecei a militar na Polop e me posicionava a favor do povo palestino.

“Em 2012, depois que meus pais deixaram este mundo, comecei a escrever as suas memórias do Holocausto… e foi assim que eu caí do cavalo. Descobri que eu não era o rei porque nasci na Terra Prometida, eu, na verdade, era um traidor. 

“Em Returnees, consta ‘Haim Yahil, do Ministério das Relações Exteriores de Israel, que estava na Alemanha trabalhando no Acordo de Reparações, disse que os judeus brasileiros, ao invés de imigrarem para Israel, manifestavam o seu sionismo sendo hostis aos returnees.’”

Minha amiga, que não é judia, respondeu: “Acho que a queda é um mito que nem todos têm a sorte de viver. Minha queda desse cavalo – eu cresci entre sionistas de esquerda, centro e direita – veio bem mais tarde, em 2019, e levou uns anos até se consolidar em 2023. Fico chocada como são poucos os que se atrevem a cair desse cavalo.”

Outro amigo, este de ascendência judia, que acompanhava de perto a minha trajetória antissionista, ao ler o artigo A violência dos sionistas, postado após o 7 de outubro de 2023, escreveu em 22 de novembro do mesmo ano: “Não posso concordar com um artigo que começa com a frase ‘A violência dos sionistas em relação aos palestinos não começou em 7 de outubro de 2023…’ Não concordo com o inteiro teor do texto, ou seja, com a seleção de fatos e argumentos que se encaixam teleologicamente na concepção do autor. Com a omissão, por exemplo, do fato de que centenas de milhares de judeus foram expulsos de países árabes do Oriente Médio e do Magreb depois da vitória de Israel na guerra de 1948. Não concordo especialmente com o final do texto, que usa como recurso retórico a posição alucinada de judeus fundamentalistas que são contra a existência de Israel porque acreditam que tal advento só poderia ocorrer com a chegada de um suposto messias. Aí já se ingressa no terreno do aluamento. Vai quem quiser. Eu, não. Espero que você reconheça o direito à divergência. Saudações.” 

Três meses depois, o mesmo amigo me encaminhou um email com o título “Crise”: “Teu relato sobre os returnees foi um primeiro sinal de que havia alguma (ou muita) coisa errada com Israel. Hoje digo para você que estou horrorizado não apenas com o governo israelense e a maioria que o levou ao poder, não apenas com a trajetória histórica do Estado de Israel, não apenas com os setores fascistas, reacionários e todo tipo de picaretas da Diáspora, mas com a própria imagem da judeidade formada na minha cabeça ao longo de mais de 70 anos. Como você pode imaginar, Israel, na minha infância, adolescência, juventude, idade madura e bem depois era uma entidade acima das críticas que poderiam ser feitas a certos aspectos daquela sociedade. Acho que funcionava assim para a maioria dos judeus fora de Israel. Tudo isso desabou em semanas. Compreendo melhor, agora, as tuas posições. Deixou de existir a imagem de um conjunto de valores morais pelos quais supostamente se guiariam os filhos do ‘povo eleito’. Era uma premissa entranhada que alimentei (ou com que fui alimentado) década após década, apesar dos pesares e mesmo reconhecendo os direitos dos palestinos. Nunca imaginei me ver num contexto tão adverso. Acho que só existe saída na luta pela paz, que ainda estará engatinhando, se tanto, quando nós tivermos morrido. Mas não vejo outro caminho. Sem isso só restará amargura e, no limite, desespero. Abração.”

Quantas mortes serão necessárias até que se saiba que muitas pessoas já morreram?

Quantos anos pode um povo existir até que permitam que ele seja livre?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind.
Samuel Kilsztajn

Congresso “chora” com onda de críticas e ganha defesa de 7 minutos

Com a crise política entre Congresso e Governo – por mais que neguem, ela existe – tomando conta do noticiário nos últimos dias e tendo uma participação ativa da população no debate, não deveria ser surpresa para ninguém a onda de memes criticando o Legislativo, principalmente na figura do atual presidente da Câmara, Hugo Motta.

Até aí, tudo como sempre foi desde que o debate começou a existir nas redes sociais. Mas as críticas incomodaram – e todos sabemos que, meme é igual apelido: quando o alvo não gosta, aí que pega. Falando nisso, as sátiras ganharam mais força ainda após reportagem no Jornal Nacional com ilustres 7 minutos de duração.


Não é possível comparar o espírito constante das eleições brasileiras, o bom humor como crítica, às campanhas de desinformação de cunho golpista, com ataques agressivos às instituições. Desde a época do impresso, a indignação do cidadão é expressada desse jeito “moleque” – no bom sentido – como uma forma de atingir mais pessoas e se fazer ouvido pelo Poder.

“Esses coronéis não querem pressão, eles querem proteger seus privilégios, impedir avanços sociais, sem dar satisfação ao povo, sem pressão política em cima deles. Em hipótese alguma nós podemos aceitar isso”, disse o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ) em sua rede social.

A verdade é que a boa criatividade do eleitor brasileiro na forma de conteúdos humorísticos que denunciam uma atuação de um parlamentar ou figura pública sempre foi e deveria ser hoje muito bem-vinda: é o que mede a temperatura da população, o desgaste político e, portanto, os rumos do país. O personagem criado para Motta, “Hugo Nem se Importa”, fala sobre a defesa de medidas que beneficiam a parcela mais rica, privilegiada da sociedade brasileira – a partir da derrubada do IOF após quebrar acordo feito com o Governo. Uma campanha que nasceu de forma orgânica através de internautas que empolgaram a militância da esquerda.

Salvo engano, Hugo Motta não gostou nadinha, se sentiu responsabilizado pela derrota do governo e ganhou uma matéria no Jornal Nacional em sua defesa, com termos como “risco à democracia” e “agressões”. O governo Lula chegou a precisar declarar que não foi um movimento engatilhado por eles e toda sorte de acusação foi levantada contra os criadores da “campanha Congresso da Mamata”.

“É só um bando de chantagista querendo mais grana. E aí, quando faz um ‘meme do mamateiro’, vão lá dizer que isso é um ataque antidemocrático, um ataque à política. Isso é ridículo, ataque à política é você sequestrar o Orçamento, é você acabar com o presidencialismo. Isso sim é um ataque à Democracia”, diz Guga Noblat.