sexta-feira, 4 de julho de 2025

Os humanos e as 'subespécies'

Numa brincadeira que circula nas redes sociais, o professor pergunta num teste: “Que nome se dá à Ciência que classifica os seres vivos?” E o aluno responde: “Racismo.” Somos todos Homo sapiens sapiens e não coexistimos com mais nenhuma subespécie humana. Para a Ciência, não existem raças, uma vez que os seres humanos partilham 99,9% do ADN, não justificando a sua divisão.

Certamente haverá uns mais sapiens do que outros, uns mais altos e outros mais baixos, uns com a pele mais clara e outros com a pele mais escura – são as diferenças de fenótipos que estão nos 0,1% restantes do ADN. As raças são uma construção social altamente influenciada pelo contexto em que vivemos.

Ainda que sem nenhuma base genética nem biológica, o facto é que a classificação do ser humano por raças, feita pelo antropólogo alemão Johann Friedrich Blumenbach, no século XIX, ainda permanece no imaginário dos povos europeus. Eram cinco, dizia ele, a caucasoide, a mongoloide, a etiópica, a americana e a malaia. Sendo que o “tipo” humano perfeito, para o alemão, se encontrava nas montanhas do Cáucaso.


Mas se a Ciência nos conta uma história, a de que partilhamos 99,9% do ADN, a política sempre nos contou outra e seguimos num mundo em que a partilha de 99,9% dos direitos humanos é ainda uma miragem. No nosso país, por exemplo, encontramos várias “subespécies” de pessoas que não têm direito a algo tão básico como a família.

O Governo quer alterar a Lei de Estrangeiros, que permite o reagrupamento familiar de quem cá está com título de residência, desde que tenha entrado no País de forma legal – a proposta do Executivo de Luís Montenegro é a de que tenham de esperar dois anos, com título de residência, para poderem ter consigo a família.

O mundo é feito de fronteiras e podemos deixar de lado a utopia cristã de que somos todos filhos de Deus – “crescei e multiplicai-vos”, uma conta que não fala em divisões – para ter uma conversa séria e moderna sobre a necessidade de criar uma política de imigração regulada dentro dos muros europeus. Mais difícil de entender é a proposta governamental de que, entre a “subespécie imigrante”, haja Homo sapiens sapiens que podem trazer a família e outros não.

Como é que se faz esta distinção? Quem é profissional altamente qualificado ou quem tenha um Visto Gold pode trazer a família de imediato. E aqui está a principal “característica” que não aparece nos 0,1% do ADN que não partilhamos, mas é um fator distintivo definitivo e universal: já nem é a cor da pele, mas o tamanho dos bolsos.

Já dizia Durão Barroso, nosso ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia: “Há limites para o multiculturalismo.” Uma coisa são as grandes multinacionais que espalham pelo mundo a sua monocultura – como o Goldman Sachs, o banco de investimento do qual Durão Barroso foi presidente não executivo –, outra é juntar mais línguas a esta Torre de Babel que já é a Europa.

O que mina a discussão sobre a imigração – que se quer séria, responsável, gentil, para não semear ódios nem incitar à violência e ao racismo – é o reino da hipocrisia.

Como ter agora o Chega a fazer a defesa das mulheres, outra “subespécie” humana, contra o uso de burkas. Como se os seus deputados não fossem dos maiores bullies contra as mulheres na Assembleia da República. O que sobra disto para a sensatez?

Número de mortos em Gaza é 65% maior que oficial, diz estudo

Com a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza severamente restrita pelos israelenses, a fonte de dados sobre o número de vítimas da guerra costuma ser o Ministério da Saúde local, controlado pelo Hamas – e Israel sempre rejeitou esses números, alegando que eles seriam exagerados. Agora, um estudo independente mostra que a contagem real de mortos é provavelmente ainda maior que os números oficiais.

Uma pesquisa conduzida pelo economista Michael Spagat, do Royal Holloway College, da Universidade de Londres, estimou que, até o início de janeiro deste ano, mais de 80 mil palestinos haviam sido mortos na guerra de Israel em Gaza, 65% a mais do que os nomes que constam nas listas do Ministério da Saúde local.

Para Spagat, especializado em guerras contemporâneas e na contagem de vítimas de conflitos, um dos aspectos importantes do seu trabalho é "lembrar-se de cada vítima". Que os nomes dos mortos estejam pelo menos escritos em listas, como o Ministério da Saúde de Gaza faz atualmente.

Ele considera as listas oficiais "amplamente corretas" – mesmo que o ministério seja controlado pelo Hamas, classificado como uma organização terrorista pela União Europeia (UE), pelos Estados Unidos e outros países.

"O Ministério da Saúde de Gaza lista os nomes dos mortos com seu número de identificação, idade e sexo. Isso pode ser facilmente verificado", afirma.


Isso já foi feito: em fevereiro, pesquisadores publicaram um estudo na revista científica The Lancet que comparou obituários publicados em redes sociais com as listas do Ministério da Saúde palestino, e chegaram à conclusão que alguns nomes não haviam sido adicionados à lista oficial – ou seja, havia nomes faltando. E concluiu que o número de mortos era provavelmente maior do que o divulgado.
Pesquisadores em campo em Gaza

Agora, pela primeira vez, foi apresentado um estudo realizado de forma independente sobre as listas de mortos publicadas pelo Ministério da Saúde em Gaza. Os pesquisadores, liderados por Spagat, perguntaram aos moradores do território palestino sobre os membros falecidos de suas famílias.

Para fazer isso, eles estabeleceram uma colaboração com colegas do Centro Palestino para Políticas e Pesquisas de Opinião (PCPSR), uma organização independente de pesquisa, liderada pelo cientista político Khalil Shikaki, financiada por fundações privadas e pela UE, entre outros. Ela é sediada em Ramallah, na Cisjordânia, mas também conta com uma equipe experiente na Faixa de Gaza.

"Não precisamos ser autorizados a entrar em Gaza. Já estávamos lá", diz Spagat, explicando como os dados foram coletados na zona de guerra, onde – com exceção de algumas organizações humanitárias – a autoridade israelense responsável dificilmente permite a entrada de alguém. Israel vem proibindo a entrada de jornalistas internacionais desde o início da guerra. "Felizmente, nenhum de nossos pesquisadores em campo foi morto até agora. Todos os funcionários do estudo estão vivos."

Os pesquisadores em campo conversaram com uma amostra de 2 mil famílias, representativa da população de Gaza antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que levou à guerra conduzida por Israel.

Eles não puderam entrar em áreas isoladas pelo exército israelense como zonas de combate. No entanto, como grande parte da população de Gaza foi deslocada, os pesquisadores puderam conversar com pessoas em locais como o acampamento de Al-Mawasi, onde estão ex-moradores do norte da Faixa de Gaza ou de Rafah.

O estudo concluiu que, de 7 de outubro de 2023 a 5 de janeiro de 2025, o número de mortes diretas pela guerra foi de cerca de 75.200. No mesmo período, o número de mortos segundo o Ministério da Saúde de Gaza foi de 45.650. A pesquisa indica, portanto, que o número real de mortes é 65% maior do que o registrado nas listas oficiais.

Isso significa que cerca de uma em cada 25 pessoas foi morta na Faixa de Guerra, que tinha uma população de cerca de 2,3 milhões de habitantes no início da guerra.

A isso se soma o número das chamadas "mortes indiretas da guerra", ou seja, todas as pessoas que morreram em consequência da desnutrição ou de doenças provocadas pelas circunstâncias da guerra – menos o número de pessoas que teriam morrido de velhice ou doença independentemente da guerra. Os pesquisadores estimam que as mortes indiretas da guerra somam 8.540 para o período mencionado.

Esse número é significativamente menor do que o anteriormente estimado. Um estudo publicado na revista The Lancet em julho de 2024 havia projetado que, para cada morte contabilizada, quatro mortes indiretas adicionais da guerra teriam que ser adicionadas. As organizações humanitárias vêm alertando há meses que os civis em Gaza podem morrer de desnutrição e doenças – falou-se em dezenas de milhares de mortes indiretas da guerra.

Spagat atribui o número mais baixo de "mortes indiretas" ao fato da população de Gaza ser, em média, jovem e, antes da guerra, em grande parte bastante saudável, devido a um bom sistema de saúde e à alta taxa de vacinação "graças à ONU e a muitas organizações humanitárias".

Esse número não é baixo em comparação com outras zonas de guerra. "Nossos números mostram que as organizações humanitárias têm feito um ótimo trabalho em manter a população viva até agora", afirma.

Ele ressalta que o estudo foi realizado antes do bloqueio total de onze semanas imposto por Israel às entregas de ajuda humanitária a Gaza. "A população de Gaza está desnutrida. Quando surgem doenças, as coisas podem acontecer muito rapidamente. Mesmo que houvesse um cessar-fogo na próxima semana e ele fosse mantido, o número de mortes indiretas cresceria novamente. Nossos números não são definitivos."

O estudo ainda não foi revisado de forma independente por pesquisadores que não estiveram envolvidos nele. Trata-se de uma pré-impressão. Por esse motivo, os números também não podem ser considerados definitivos. Mas as conclusões coincidem com o estudo publicado anteriormente na Lancet, que verificou a lista de nomes fornecida pelo Ministério da Saúde de Gaza.

A equipe de pesquisa de Spagat e Shikaki utilizou métodos diferentes, mas tinha um objetivo semelhante. Eles queriam verificar se a instituição que conta diariamente as novas mortes na Faixa de Gaza pode ser usada como referência confiável.

"Mostramos claramente que eles não estão exagerando o número de mortos. O estudo também indica que eles fornecem um quadro realista da demografia das vítimas fatais. A porcentagem de mulheres, crianças e idosos que calculamos corresponde com bastante precisão aos números do Ministério da Saúde em Gaza."

De acordo com o estudo, mais de 30% das mortes diretas são de crianças e adolescentes menores de 18 anos. Outros 22% são mulheres e cerca de 4% são pessoas com mais de 65 anos. A maioria dos mortos são homens de 15 a 49 anos. Isso significa que os combatentes foram realmente alvos?

"Não", responde Spagat. "Nas guerras, os jovens são sempre os mais propensos a serem mortos." Assim como o Ministério da Saúde de Gaza, o estudo não faz distinção entre combatentes e civis.

"Teríamos colocado nossos pesquisadores de campo em risco se eles tivessem perguntado se havia membros do Hamas morando na casa." Eles poderiam ser considerados suspeitos de serem agentes do serviço secreto israelense, de acordo com Spagat. Portanto, esses dados não foram coletados.

Ele enfatiza: "Temos um número muito grande de crianças pequenas mortas, o que é fora do comum". Ele hesita em fazer comparações, mas "em Gaza, 4% da população foi morta. Não vimos isso em nenhuma outra guerra no século 21".

Se extrapolarmos os números do estudo de Spagat e Shikaki para os dias de hoje, chegaríamos rapidamente a 100 mil mortos. Um número difícil de imaginar, por trás do qual estão os nomes e as histórias de pessoas.

Conhecemos algumas delas, como a família al-Najjar. As crianças Yahya, Rakan, Ruslan, Jubran, Eve, Rivan, Saydeen, Luqman e Sidra foram mortas em 23 de maio em um ataque aéreo israelense em Khan Yunis. Sua mãe sobreviveu porque estava de plantão no hospital como médica. O único sobrevivente do ataque foi seu filho Adam, de onze anos. O pai das crianças, o também médico Hamdi al-Najjar, morreu alguns dias depois.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Os inteligentes construíram o mundo, os estúpidos vivem à grande

Nas "hierarquias de poder" a mesma ordem burocrática que sufoca a criatividade e a originalidade estabelece a escala dos "méritos pressupostos", da qual não se pode discordar a não ser pondo em causa os próprios alicerces da sociedade. A estrutura hierárquica elimina a necessidade de distinguir os seres humanos na base das suas qualidades, dos seus talentos.

Numa burocracia, o chefe é o chefe, porque ocupa a posição de chefe, e não porque seja o melhor. Pode perfeitamente ser o mais estúpido que o último moço de fretes: isso não quer dizer nada, é ele quem manda – porque ele é o chefe. Os sargentos não são necessariamente mais imbecis que os simples soldados ; mas são os distintivos que lhes enfeitam as mangas ou os ombros que lhes conferem a autoridade de comando.

Os juízos de valor brilham pela mais completa ausência nos sistemas burocráticos, porque a estrutura hierárquica os tornou inúteis e consagrou assim o fim da vantagem constituída pela inteligência.

A imbecilidade está no poder. E o poder não precisa de génio.

Mas trabalha em seu próprio benefício, tende a imprimir a sua própria imagem no mundo circundante e a multiplicar a estupidez, da qual extrai a sua razão de ser. 

Todos os regimes cuidam de sufocar a inteligência, que não só é desnecessária nos termos de seja que forma for de organização, mas constitui, além disso, um fator adverso e, por conseguinte, uma ameaça. As pessoas de bom senso, por exemplo, põem-se interrogações assustadoras, subversivas. Do tipo : "É possível que logo seja este cretino o meu chefe?". ( Possível e mais que possível ). "Mas não haveria ninguém mais capaz para uma missão tão delicada ?" ( Havia, é quase certo, mas não era isso que interessava ). As ditaduras suprimem a liberdade de pensamento ( e, com frequência, também o pensador ). Em democracia cada cabeça vale um voto, ainda que se trate de uma cabeça oca. Todas as formas de domínio procuram impor a uniformidade dos pensamentos, dos desejos, do mesmo modo que visam massificar os indivíduos e vinculá-los a um modelo comum de imbecilidade.

Tal é a essência do poder. Que resulta das escolhas evolutivas e culturais da nossa espécie. O "homem-massa" da moderna sociedade industrial ( dissuadido de pensar, ensinado a alimentar desejos idênticos aos dos seus semelhantes, porque impostos por sistemas de condicionamento extremamente eficazes ), o homem que se limita a saber desempenhar uma função, é o produto de um processo evolutivo que dura há milénios e se orienta para a repressão da inteligência. Quem diz: "não me agrada, considera" : "a evolução confundiu tudo." "será verdade ?"
Pino Aprile, “Elogio do imbecil“

Nada é impossível de mudar

Nada é impossível mudar.
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

Sentir, acreditar e compartilhar. A pós-verdade em tempos de guerras

Recentemente, me vi numa situação inusitada que me causou estresse e até um sentimento de culpa. Partilhei um vídeo feito com deepfake no close friends do Instagram. Alguns minutos depois do impulso, resolvi analisar melhor as imagens e notei que o vídeo havia sido feito com Inteligência Artificial e, no áudio, constavam informações de uma suposta pesquisa científica que, com alguns cliques, logo se descobre que não existe, tampouco a veracidade da informação que lá constava. Senti-me traída pelo perfil que publicou o vídeo, sobretudo por eu considerá-lo uma fonte de informação segura.

Na hora, pensei: se eu, que sou treinada para identificar conteúdos com informações falsas e tenho um olhar atento e crítico, caí numa armadilha vinda de um perfil de um veículo de comunicação supostamente sério, o que será que acontece com quem não tem o mesmo repertório que eu, nos caóticos grupos de WhatsApp?

A questão é que o impulso de partilhar o tal vídeo veio de uma emoção muito pessoal: meses atrás, recebi a notícia de que uma amiga havia falecido em decorrência do tipo de doença que o vídeo abordava. Ou seja, instantaneamente, aquele conteúdo acolhia a minha dor e, assim, tornou-se uma verdade a ponto de eu querer que outras pessoas acreditassem e, por isso, o partilhei.

O conceito de pós-verdade (post-truth) surge na filosofia contemporânea para explicar como a desonestidade e a mentira tornaram-se socialmente aceitas e como a verdade passou a ser relativizada em nome do conforto emocional. Na era da pós-verdade, somos condicionados a valorizar mais o que acolhe e respeita o que sentimos do que aquilo que, de fato, é real. Só o fato de nos tocar já é suficiente para acreditarmos mais do que em dados concretos.


Com isso, vivemos uma profunda crise de confiança, em que já não sabemos no que ou em quem confiar. E daí vem o maior e mais complexo risco: as emoções suprimem o debate racional, e tudo o que requer calma, escuta, análise e contexto perde-se num emaranhado de nós, numa vida digital cada vez mais saturada.

Vivemos em tempos em que a verdade, essa bússola civilizatória, parece ter sido sequestrada por algoritmos, renderizada em pixels e vendida em tempo real por um batalhão de pessoas e empresas que pouco se importam com as consequências de se publicar uma mentira. Entramos num terreno onde os fatos importam menos do que as emoções que provocam, e onde a credibilidade se constrói não pela veracidade, mas pela viralidade, instantaneidade e imediatismo.

Se antes a mentira precisava de um esforço para se sustentar, hoje ela é automatizada. Vídeos hiper-realistas gerados por Inteligência Artificial circulam como munição em guerras híbridas, confundindo a opinião pública, manipulando afetos, distorcendo narrativas e criando um exército de pessoas incapazes de pensar. É como se cada um escolhesse as verdades que lhes causam menos desconforto, em vez de confrontar a realidade, mesmo que as evidências estejam ali, escancaradas.

Na política, discursos que apelam ao medo ou ao orgulho nacional são frequentemente baseados em afirmações jogadas ao vento, mas emocionalmente poderosas. É o que vemos nos discursos anti-imigração, presentes nas últimas eleições portuguesa e norte-americana.

Ao mencionar números e fatos comprovadamente inverídicos, lideranças de extrema-direita inflamaram ainda mais os ânimos do cidadão comum, fortalecendo e ampliando discursos xenófobos que, no fim das contas, só acirram disputas ideológicas que distanciam as nações do próprio conceito de democracia. Não quero nem imaginar o quão complexo serão as eleições 2026 no Brasil…

No contexto geopolítico, em que assistimos dos nossos telefones diariamente ao genocídio de crianças palestinas, há quem acredite e defenda o discurso de que aquelas vidas nada importam. Nestes casos, a emoção é despertada não pelo fato de serem crianças em desespero, feridas e famintas, o que certamente me comove mais, e espero que a você também. Mas sim porque há, por trás, um discurso estruturado de que aquelas crianças “têm de morrer” para se combater um único inimigo.

Neste caso, o inimigo é constituído de várias “verdades”, que perpassam a compreensão de boa parte das pessoas aqui no Ocidente, por envolverem períodos históricos aos quais muitos sequer tiveram acesso nas aulas de História na escola. E, talvez por isso, há quem acredite que tudo começou em outubro de 2023.

Em uma guerra ou numa eleição, minutos de desinformação podem significar perdas irreparáveis. O problema não está só nas tecnologias, mas na estrutura de poder que as molda. Empresas que desenvolvem essas ferramentas de IA operam sob uma lógica de lucro e disputa por atenção. Governos, por sua vez, ora se omitem, ora se aproveitam.

Estamos vendo o nascimento de um novo complexo militar-informacional, em que vídeos falsos podem ser mais letais do que mísseis reais. Seja na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Sudão, em Israel, no Irã ou nos vídeos de 30 segundos que invadem nossos imaginários quotidianamente, o campo de batalha já não é territorial, mas sobre qual verdade será escrita na história da humanidade.

A pós-verdade redefine também a forma como pensamos o jornalismo. Não basta mais reportar os fatos; é preciso disputar a realidade. Checagem, curadoria, transparência e neutralidade, princípios básicos do jornalismo, tornam-se armas de resistência. Mas será suficiente?

Arrisco dizer que boa parte dos leitores dos jornais não acessa o link na bio do Instagram para tentar procurar a notícia na íntegra, abrir o link, ler e assimilar a informação, para então voltar aos comentários. Parte das pessoas baseia-se apenas na imagem e sequer lê a legenda. Não será a hora de o jornalismo repensar como apresenta as notícias no feed?

A pós-verdade, ao contrário do que se pensa, não é apenas sobre mentir. É sobre criar um ambiente em que a verdade se torna irrelevante. E isso, talvez, seja o maior risco para a democracia global: um mundo onde não importam as evidências dos fatos, mas o que cada um tem para si como verdade.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Futebol é regido por igualdade que falta na sociedade

Convidado pelos professores Carmen Rial e Fábio Machado Pinto, realizarei, gratificado, a conferência de abertura do Terceiro Colóquio Internacional INCT/Futebol. Saliento a coincidência do diálogo de pesquisadores do antigo “esporte bretão” no mesmo ano de uma Copa do Mundo de Clubes, no contexto de um espetáculo jurídico deprimente, em que se discutem culpabilidades causadas pelo rompimento de leis por golpistas. No STF discute-se a aplicação de leis por ministros e juristas, exato oposto da universal jurisprudência futebolística.

Na política, a lei tem espaço para anistia e burla. No futebol, a política é vencer seguindo as regras que legitimam vitória, empate ou derrota, porque valem para nós e — eis a novidade — para eles!

O futebol se mundializou pela capacidade de produzir igualdade democrática, ao lado da experiência de vitória e excelência em competições. Nada mais gratificante para sociedades colonizadas, marcadas pela autodepreciação, do que dar “um banho de bola” nos branquelos invencíveis. O roubo do futebol pelo Brasil e por outros povos periféricos é uma façanha revolucionária justamente porque não é definitiva e porque nega o determinismo.


Se as leis legitimavam a escravidão e sustentavam um sistema político com notável vocação para tirar vantagem de tudo, as do esporte e do futebol são universais. Valem para o campeão e para o lanterninha. Valem para os craques e para os “pernas de pau”. Essa é a grande lição do esporte em nossa sociedade elitista e aristocrática, marcada pela possibilidade de jogar nos dois times...

A aceitação de leis fixas torna o futebol um milagre para os tidos como “pobres” e para quem tem sofrido a permanente desonestidade dos governos. Vencer ou ganhar seguindo regras revela talento e trabalho, coisas raras na vida política. No futebol, não há como anular ou anistiar jogadores ou times desonestos e derrotados. Eis um contraste que, por si só, explica a paixão pelo futebol.

É essa substância democrática que atrai na esfera esportiva. Foi essa experiência com a liberdade e a igualdade que promoveu a forte reação de intelectuais que não suportavam mulheres torcendo livremente, ao lado da igualdade que associou brancos riquinhos a seus ex-escravos nos verdes campos da justiça social embutida no futebol!

Não tenho espaço para seguir, mas saliento que o futebol é hoje um tema acadêmico legítimo. Numa época em que ele, como o carnaval, era considerado o “ópio do povo” e assunto para reacionários, como Nélson Rodrigues, promovi o seu estudo no Museu Nacional. Ali, orientei Simoni Guedes e tive a satisfação de ler os ensaios sobre futebol de José Sérgio Leite Lopes, bem como do saudoso Afrânio Garcia, organizador de um pioneiro encontro para discuti-lo em Paris.

Recusando o reducionismo, examinei como o Brasil jogava futebol e como o futebol jogava o Brasil. Esse Brasil que, pelo menos no futebol, era obrigado a seguir as suas regras, sob pena de assassinar o jogo.

Aprofundei tal postura no livro “A bola corre mais que os homens”, publicado em 2006. Ensaio hoje vencido pela gloriosa fúria analítica de Antonio Risério em seu “Pelé: o negão planetário”. Um estudo importante porque, como o ensaio de Leite Lopes sobre Garrincha, concentra-se nos craques e introduz um campo burocratizado, o carisma. Aquele talento de “comer a bola” que os abençoados possuem. Donos desse dom — como, no Brasil, Ademir Menezes, Didi, Zico, Orlando, Nílton Santos, Garrincha ou Pelé — que representam o sumo do futebol em sua variante brasileira.

O imponderável na política

Na política há um fator incontrolável que não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o imponderável. Pode ocorrer a qualquer momento em qualquer lugar. Acidentes ou incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem na caixa das coisas imponderáveis.

Começo contando o caso do jumento no Piauí. Eleições de 1986, comício de encerramento de Freitas Neto, do antigo PFL, na Praça do Marquês. Desde a manhã os carros de som convidavam o povo para o monumental show de Elba Ramalho. Às 18h, praça lotada, a massa urrava:

— Queremos Elba, queremos Elba!

Os caminhões com os equipamentos de som só chegaram em cima da hora do comício. Começou a cair um toró. Pipocos e faíscas. Os cabos, em curto-circuito, queimaram. Comício sem som? Elba mostrou o contrato:

— Sem som não canto.

Sob insistente apelo do candidato, propôs cantar uma música. Arrumaram um banjo para acompanhá-la. Nem mesmo começara a cantar, passou a vociferar:

— Imbecis, ignorantes, não façam isso.

No meio da multidão, a cena constrangedora: alguns bêbados abriam a boca de um jumento, derramando nela uma garrafa de cachaça. Sob apupos, acabava o comício.

As pesquisas nos davam, às vésperas do dia das eleições – em 15 de novembro de 1986 – entre 3% e 5% a mais que o adversário. Garantia do Instituto Gallup, por meio de Carlos Matheus, seu diretor, estabelecido em São Paulo. “Fiz e refiz”, dizia ele. Vibramos. No dia da eleição, senti em Teresina um clima de velório. Acompanhei Freitas Neto às urnas. Pouco aclamado. Perdemos a campanha por 1%. Concluí que um evento infeliz contribuiu para nossa derrota. Um showmício, que acabou sendo um caso de reversão de expectativas. O caso foi contado de boca a boca.

Às vezes, em minhas palestras, surge a pergunta:

— Professor, não pode haver um imponderável na política?

Respondo:

— Pode, sim. Por exemplo, um jumento embriagado no Piauí.

O fato é que a imponderabilidade permeia a história brasileira. Quem imaginaria que um presidente, idolatrado pelo povo, viria a cometer suicídio? O suicídio de Getúlio Vargas é um dos mais emblemáticos da lista de casos imponderáveis de nossa história. Em 24 de agosto 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Vargas se matou com um tiro no coração, deixando uma carta-testamento na qual expressou suas razões. O evento teve grande impacto na política brasileira, levando a mudanças e reconfigurações no cenário político nacional.

A renúncia de Jânio Quadros, na tarde de 25 de agosto de 1961, foi outro ato surpreendente e inesperado que deixou a nação em choque. Conhecido por sua postura populista e seu discurso contra a corrupção, Jânio assumiu o cargo com grande expectativa, mas seu governo foi marcado por medidas controversas e por uma série de divergências com as Forças Armadas.

O Congresso Nacional aceitou rapidamente a renúncia, mas a situação política se tornou ainda mais turbulenta. Os ministros das Forças Armadas se opuseram à posse do vice-presidente João Goulart, alegando que ele não seria capaz de governar. Em resposta, uma mobilização popular, conhecida como Campanha da Legalidade, ocorreu em diversas cidades do Brasil, defendendo a posse de João Goulart. A renúncia de Jânio Quadros e a crise que se seguiu marcaram um momento crucial da história brasileira.

Outro evento que chocou o País ocorreu em 13 de agosto de 2014, quando um avião caiu em Santos, no meio da cidade. A população ficou chocada ao descobrir que dentre as vítimas estava Eduardo Campos, que havia sido governador de Pernambuco por duas vezes e, em 2014, era o candidato à presidência da República com a terceira maior intenção de voto do País.

O mais recente caso de imponderabilidade foi o atentado contra Jair Bolsonaro. Em 6 de setembro de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro sofreu um atentado durante um comício que promovia sua campanha eleitoral para a presidência do Brasil. Enquanto era carregado em meio a uma multidão de apoiadores, o deputado sofreu um golpe de faca na região do abdômen desferido por Adélio Bispo de Oliveira.

Ao todo, Bolsonaro realizou quatro cirurgias relacionadas aos danos causados no atentado, que tem sido usado para a transmissão de teorias conspiratórias, tanto por apoiadores quanto críticos de Bolsonaro, e até por ele mesmo. Apesar da facada e da abrupta mudança de rumos na campanha do candidato, que ficou impedido de ir às ruas e de comparecer a diversos eventos e debates, o ex-capitão foi o candidato mais votado no primeiro turno, em 7 de outubro de 2018, com 46,03% dos votos válidos, à frente de Fernando Haddad (PT) com 29,28% dos votos. Os dois disputaram o segundo turno em 28 de outubro, no qual Bolsonaro foi eleito presidente com 55,13% .

Em 30 de outubro de 2022, domingo, data do segundo turno do pleito, sob um clima tenso, repleto de expectativas e margem pequena para conceder a vitória a um dos dois candidatos representados por ideologias opostas, Lula venceu Bolsonaro com 2,1 milhões de votos de vantagem, alcançando votação recorde na eleição mais disputada da história do Brasil. De lá para cá, o País vivencia intenso ciclo de polarização política. E assim deverá continuar nos próximos tempos.

Sob essa moldura, resta torcer para que não sejamos surpreendidos com o Fator Imponderável, que, vez ou outra, costuma nos visitar.

Genocídio: dimensões e limites

Um dos termos mais utilizados atualmente, não apenas no cenário jurídico, mas também nos debates em curso na esfera das políticas ambiental, cultural e internacional, além da sociologia, é a palavra genocídio, criada pelo jurista Raphael Lemkin quando publicou sua obra Axis Rule in Occupied Europe (1944), a partir da junção dos termos grego “genos” (clã, tribo, grupo) e latino “cides” (matar, destruir).

Lemkin, de formação jurídica e linguística, buscava criar uma categoria jurídico-penal para preencher uma lacuna injustificável nas leis internacionais (e também nacionais), propondo assim a tipificação de uma conduta que, no dizer de Winston Churchill, constituía “um crime sem nome”, ao se referir aos primeiros dias do Holocausto na Europa.

Mais do que isso, os estudos sobre os trabalhos desenvolvidos e, ainda que não publicados, dos documentos deixados por Lemkin, que morreu em 28 de agosto de 1959, na cidade de Nova York, onde passou a residir após fugir da Europa tomada pelo nazifascismo (Lemkin era judeu), demonstram que foi objetivo do jurista criar um termo forte e marcante, que chamasse a atenção pela gravidade do delito (a respeito, a obra de Samantha Power intitulada Genocídio – A Retórica Americana em Questão, pela Editora Companhia das Letras, 2004).

Assim, o crime de genocídio surge de uma concepção jurídica inserida na seara do Direito Penal e, ainda mais especificamente, do Direito Penal Internacional e atualmente projetada pela Convenção Para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, de 9 de dezembro de 1948 e pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, de 1998, além de previsto por leis criminais domésticas, como a lei brasileira nº 2.889, de 1º de outubro de 1956. É essa sua origem e a base a partir da qual foram delineados pelo jurista os aspectos estruturais do tipo penal, seus elementos objetivo e subjetivo (mens rea).


Lemkin, a partir de sua percepção privilegiada sobre as intersecções que caracterizam o extermínio de um povo, propôs uma versão mais ampla do que aquela afinal abraçada pelo Direito Penal Internacional a partir das normas acima mencionadas, uma vez que o período pós-Segunda Guerra Mundial foi marcado pelas determinações políticas impostas pelas duas superpotências que, à época, despontaram: a União Soviética Stalinista e os Estados Unidos da América, sob Harry S. Truman. A visão do jurista não cabia nas novas equações geopolíticas dominantes. Por força de tal contexto, as ideias de genocídios causados por motivações políticas ou, ainda, o etnocídio (ou genocídio cultural), foram excluídos.

Para Raphael Lemkin: o crime de genocídio apresenta uma acepção mais ampla, isto é, não significa estritamente a destruição imediata de uma nação, exceto quando realizado por meio do assassinato em massa de todos os membros de um país. Em vez disso, deve ser entendido como um plano coordenado de diferentes ações cujo objetivo é a destruição dos fundamentos essenciais da vida de grupos de cidadãos, com o objetivo de aniquilar os próprios grupos1.

Aliás, o jurista concebeu em sua clássica obra distintas técnicas para consecução de um genocídio, ressaltando que este crime, na verdade, representa um ataque concentrado e coordenado contra todos os elementos do “nacionalismo” (ao nosso ver o termo “nacionalismo” deve ser aqui interpretado como os referenciais que compõem uma nação, tais como língua, cultura, costumes, crença, composição étnico-racial, bases relacionais etc.).

Assim, cuidamos, pela visão ‘lemkiana’, de elementos objetivos que vão além da existência física do grupo Aliás, o próprio pensador polonês alertou no sentido da visão restrita e limitada sobre o crime de genocídio ou do etnocídio circunscrita ao imediato extermínio de uma nação, uma vez que a figura penal proposta também indicaria o plano coordenado de distintas ações em direção à destruição das bases essenciais da vida de grupos nacionais, visando a sua aniquilação.

Sobre tal proposição, Martin Shaw, Professor Pesquisador no Institut Barcelona d’Estudis Internacionals (IBEI) e Professor em Relações Internacionais e Direitos Humanos na Universidade de Roehampton, defende que um estudo sério sobre o crime de genocídio impõe a recuperação às lições de Raphael Lemkin, uma vez que muitos autores posteriores atribuem à Convenção de 1948 o conceito de genocídio, afastando-se das proposições lemkianas mais amplas, que o concebiam não apenas como uma conduta fruto da violência organizada mas, ainda, também como a destruição econômica e a perseguição; a ameaça à existência de uma coletividade e à própria ordem social.

Lemkin defendeu, originariamente, que o genocídio implica no conjunto de ações encetadas com o escopo de eliminar, por meio de um planejamento coordenado, as bases essenciais da vida de grupos nacionais. Seria, assim, um ataque voltado às searas física, econômica, biológica, política, social, cultural (etnocídio), religiosa e, ainda, à moralidade de um povo.

Para Shaw, o crime de genocídio constitui exatamente um processo exaustivo pelo qual se ataca e se destrói de forma ampla o modo de vida e as instituições do grupo humano oprimido. Logo, uma perspectiva mais estendida, próxima aos cânones lemkianos.

Trata-se da corrente “sociológica” do genocídio que defende certa reaproximação interpretativa com o modelo original proposto por Raphael Lemkin em 1944, não observado, por razões especialmente políticas, pelo Direito Internacional quando da aprovação da Convenção Para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, de 1948, mais restrita em sua concepção e definição de genocídio, assim como também pelo Estatuto de Roma, de 1998.

Nomes como Leo Kuper, o genocide scholar precursor; o próprio Martin Shaw; Daniel Feierstein, Dirk Moses, Helen Fein, Vahakn Dadrian, Tony Barta, Adam Jones dentre outros, inclusive autores e autoras brasileiros/as, como Heitor de Andrade Carvalho Loureiro, Mariana Boujikian e Nathalia Hovsepian (genocide scholars da nova geração e especialistas na temática do genocídio do povo armênio), representam parte da mencionada visão mais ampla e sociológica do genocídio.

A jurisprudência internacional vem também alargando tal conceito, porém com os cuidados necessários para não violar os princípios do Direito Penal, especialmente o Princípio da Legalidade. Afinal, o Direito Penal é, historicamente, instrumento ao qual recorrem regimes autoritários como arma de perseguição política diante de tipos penais abertos. A via assim percorrida pelas Cortes internacionais vem consagrando novos referenciais interpretativos para o reconhecimento do crime de genocídio. A própria ONU, na sua origem, propunha uma tipificação mais ampla para a caracterização do crime.

Assim, no ano de 1946, as Nações Unidas aprovaram Res. n° 96/1946 pela qual estabelecia a necessidade de que os Estados-membros aprovassem uma convenção para prevenir e reprimir o crime de genocídio. Para tanto, definiu em seu texto tal crime internacional como “a negação do direito à existência de grupos humanos inteiros, que impõe perdas no plano cultural e de outras contribuições dos grupos vitimados, cometido pela destruição total ou parcial de grupos raciais, religiosos, políticos e outros, além de quanto aos seus autores, cúmplices, sejam eles cometidos por agentes públicos, privados ou por estadistas”.

Como se nota, a proposição das Nações Unidas em 1946 para a tipificação do crime de genocídio era ampla, sugerindo a inserção das perdas no plano cultural, além da caracterização do crime por razões políticas “e outros”, logo, um tipo legal consideravelmente mais aberto, menos restrito.

Entretanto, em 9 de dezembro de 1948, a versão final o crime de genocídio aprovada restringiu demasiadamente a tipificação do genocídio, sob os seguintes termos: “entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional étnico, racial ou religioso, como tal: matar membros do grupo; causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submeter intencionalmente o grupo a condição de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio de grupo; efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”.

O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (1998) manteve as restrições acima comentadas ao definir o crime de genocídio em seu artigo 6º. E, como se nota, ao menos dois fatores restringem a incidência de tais normas internacionais: a) não foram previstas as hipóteses de genocídio praticado por razões políticas e culturais; e, b) como elemento subjetivo, somente pode ser reconhecido o crime de genocídio quando provada a presença do chamado dolo específico, ou seja, a demonstração inequívoca de que o único escopo do perpetrador é erradicar a existência coletiva de um grupo humano.

Em relação ao primeiro ponto, as críticas afirmam, em síntese, que a definição dos critérios “nacionalidade”, “religião”, “raça” e “etnia” como únicos fatores para caracterização do crime de genocídio, hierarquiza ou categoriza os seres-humanos. Assim, por exemplo, por qual motivo a orientação sexual não poderia ser inserida no citado rol? Recorde-se que a população LGBTQIAP+, uma das mais violentadas em seus direitos em diversos países e sob distintos regimes políticos e culturas, foi também perseguida, enclausurada e assassinada nos campos de concentração nazistas. 

A exigência de prova da intenção constitui o principal foco das críticas quanto à suposta ineficácia das normas destinadas à prevenção e repressão do genocídio. Afinal, como demonstrar com segurança aquilo que se passa na mente do perpetrador? A Convenção de 1948, ao estabelecer a obrigatoriedade da prova específica da intenção em se cometer o extermínio (dolo específico), elemento subjetivo inspirado na experiência histórica do Holocausto, demasiadamente documentado pelos próprios nazistas perpetradores, tornou-se norma de difícil aplicabilidade. “Provar” perante uma Corte Internacional aspectos de ordem psicológica, como a intenção específica do extermínio de um grupo humano, é normalmente uma tarefa muito difícil.

Normalmente os debates judiciais ocorrem sobre a necessidade da prova do dolo específico, como ocorreu no caso Al Bashir (The Prosecutor v. Omar Hassan Ahmad Al Bashir) no âmbito do Tribunal Penal Internacional.

A jurisprudência dos tribunais internacionais vem estabelecendo, pouco a pouco, a possibilidade da prova indireta da intenção em se cometer o genocídio por meio da consideração a alguns elementos circunstanciais: a violência extrema; a extensão do número de vítimas; a sistematização das ações e dinâmicas e a escala sistemática dos crimes, o padrão de violência seletiva etc.

A prova indireta da intenção genocida, quando não possível a prova direta do dolo, já foi reconhecida pelo Tribunal Criminal Internacional Para Ruanda – ICTR (Anzinga. Nahimara et al. Appeal Judgment, paragraph 524, dentre outros), assim como pela Corte Internacional de Justiça, no caso Croácia vs. Sérvia, em voto vencido do Juiz brasileiro Antonio Augusto Cançado Trindade.

Outros casos conhecidos também reconheceram a possibilidade da prova indireta da intenção genocida, como o caso Prosecutor v. Krstić no Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia. (ITCY).

De fato, trata-se de um aspecto dentre os que mais geram debates entre os estudiosos do genocídio. Ainda que se possa criticar as restrições consagradas pelo Direito Internacional, é importante que sejam considerados, de outro lado, os seguintes fatores: o genocídio é uma categoria jurídica; foi concebido como um “crime” e, portanto, ainda que seja atualmente um instituto presente nas discussões entre sociólogos, historiadores, antropólogos etc., quando se trata de casos concretos que chegam aos tribunais, o desafio maior gira em torno da prova da presença dos requisitos legais impostos pelo tipo penal vigente.

O alargamento dos elementos que tipificam o genocídio, de outro lado, podem gerar riscos aos princípios da legalidade, da anterioridade da lei penal e ao princípio da ampla defesa com todos os meios a ela inerentes. A ampliação na interpretação dos seus elementos caracterizadores requer cuidados, como já destacado acima, sob pena de comprometer o princípio do direito ao julgamento justo cunhado pelos julgamentos de Nuremberg.

Não é raro, inclusive, que contextos próprios de crimes de guerra e crimes contra a humanidade sejam equivocadamente interpretados como genocídio. Contudo, aqueles não exigem a prova do dolo específico. Aliás, para William Schabas, um dos grandes especialistas atualmente reconhecido e Professor da Middlesex University London, o crime contra a humanidade é a versão expandida do crime de genocídio.

Os requisitos atualmente necessários para a sua caracterização geram dificuldades quando considerados os genocídios cujas dinâmicas não correspondem exatamente aos modelos considerados pelo Direito Internacional vigente. É o caso do extermínio dos povos indígenas nas Américas, inclusive no Brasil. Os processos e os veículos desenvolvidos na eliminação das culturas autóctones não necessariamente correspondem, em alguns aspectos, à visão convencional internacional (por exemplo, ONU e TPI), ainda que eliminem a existência das bases essenciais para a existência de tais povos.

Seria, assim, importante, que o crime de genocídio tivesse por seu elemento tipificador também os aspectos essenciais e relacionais de suas culturas. O contexto cosmológico dos povos indígenas e as referências, que, por vezes, condicionam suas existências e identidades, devem ser considerados para que se possa identificar o cometimento do genocídio.

Se o genocídio destrói os corpos, o etnocídio elimina o espírito livre; ambos condicionam a existência coletiva. No genocídio o extermínio é meio; o fim é erradicar a identidade.

Povos sem sorte

As pessoas podem sentir pena de um homem que está a passar por tempos difíceis, mas quando um país inteiro é pobre, o resto do mundo assume que todos os seus cidadãos são desmiolados, preguiçosos, sujos, tolos e desajeitados. Em vez de pena, provocam o riso. É tudo uma anedota: a sua cultura, os seus costumes, as suas práticas. Com o tempo o resto do mundo pode, parte dele, começar a ficar envergonhado por ter pensado dessa maneira, e quando olham em volta e vêem os imigrantes desse pobre país a esfregar o chão e a fazerem os trabalhos pior pagos, eles naturalmente preocupam-se sobre o que poderia acontecer se um dia estes trabalhadores se insurgissem contra eles. Assim, para manter as aparências agradáveis, começam a interessar-se pela cultura dos imigrantes e às vezes até fingem que pensam neles como se fossem seus iguais.

Orhan Pamuk

O impacto social da mineração de bitcoins nos EUA

No pacato vilarejo de Dresden, na margem ocidental do Lago Seneca, no estado de Nova York, o apito de incêndio soa todos os dias, ao meio-dia. Os cerca de 300 moradores não ligam: é um som familiar que já faz parte do cotidiano do lugar.

Mas há um barulho que alguns deles não conseguem mais aguentar: o zumbido constante da usina Greenidge Generation, uma antiga usina a carvão que hoje é uma usina de energia de pico movida a gás natural e que fornece eletricidade para Nova York durante os períodos de pico, ou seja, de alta demanda. Desde 2019, ela também alimenta uma fazenda de mineração de bitcoins que consome muita energia.

Os moradores dizem que, em alguns dias, o som se parece com o de uma geladeira zumbindo ao fundo, mas, quando o vento muda de direção, lembra mais um rugido. Winton Buddington, que tem uma casa em Dresden, disse que a vila era uma comunidade agradável e tranquila até 2017, quando a empresa Atlas Holdings comprou a propriedade.

A enfermeira aposentada Beth Cain afirma que pesquisas já mostraram que um ruído constante afeta as pessoas e cria estresse. "É como ter zumbido no ouvido [tinnitus]." E o som desagradável nem é a única preocupação dos moradores em relação à usina, que também despeja água quente no lago e emite dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa.

Muitos na comunidade, incluindo Yvonne Taylor, vice-presidente do grupo de defesa ambiental Guardiões do Lago Seneca, temem que a usina Greenidge represente uma ameaça à região, onde vinícolas e fazendas menonitas são grandes atrações turísticas. "A produção de vinho e o turismo são nosso motor econômico, e todos esses empregos dependem muito de ar e água limpos", diz Taylor.


A mineração de criptomoedas em larga escala, como em Dresden, usa milhares de computadores e consome enormes quantidades de energia. Em 2021, a planta de Greenidge gerava cerca de 44 megawatts para a mineração de bitcoins, o que, dependendo do nível de consumo, é suficiente para abastecer até 40 mil residências.

Muita energia também gera muitas emissões. Com os dados da própria Greenidge, o grupo de direito ambiental Earthjustice calculou que a planta emitiu quase 800 mil toneladas de dióxido de carbono e equivalentes de CO2 em 2023, o que equivale às emissões de mais de 170 mil automóveis.

De acordo com a agência Energy Information Administration (EIA), que coleta dados do setor de energia, 137 plantas de criptomineração estavam em operação nos Estados Unidos no início de 2024. Não há números mais atuais disponíveis, mas é de se esperar que, sob o governo de um autoproclamado "presidente das criptomoedas", as empresas de bitcoins enfrentem menos barreiras na busca por novos locais de mineração.

"Trump facilitará a vida das grandes mineradoras de bitcoins nos EUA, especialmente no oeste do Texas", diz o professor de filosofia Troy Cross, do think-tank Bitcoin Policy Institute. O Texas é um dos principais produtores de carvão e gás natural e também está entre os principais estados em geração de energia solar e eólica nos EUA.

O presidente já formou um grupo de trabalho para elaborar regulamentações a favor das criptomoedas e anunciou uma reserva nacional de ativos digitais. Numa reversão drástica de sua posição anterior de que bitcoin "não é dinheiro", mas "fraude", ele até lançou sua própria moeda meme.

Taylor diz que as fazendas de mineração de bitcoin estão "se espalhando pelo país como um câncer" e que "corporações de criptomoedas espertas" estão aparecendo em comunidades rurais carentes com promessas de geração de empregos e lucros.

Em Dresden, porém, a fazenda de mineração de bitcoins de Greenidge empregava 48 pessoas em tempo integral em 2022, ou quase o mesmo número de um restaurante do McDonald's, o que mostra que essas promessas estão longe da realidade, argumenta Taylor.

A especialista Margot Paez, do Bitcoin Policy Institute, afirma que a decisão da Greenidge de colocar sua fazenda de mineração de bitcoins junto com uma usina de gás natural é uma ideia "terrível". Mas ela acrescenta que a planta é "só uma maçã podre", sugerindo que os mineradores de bitcoin deveriam recorrer a energias renováveis ou apoiar o balanço energético da rede elétrica.

O estado de Nova York, numa avaliação preliminar de impacto ambiental das 11 instalações de criptomoedas dentro de suas fronteiras, afirmou que o consumo de energia dessas plantas pode dificultar o cumprimento de suas metas de transição para energias renováveis.

Outra preocupação de moradores e ambientalistas é consumo de água pela usina da Greenidge. Evitar o superaquecimento dos computadores de mineração de criptomoedas requer enormes quantidades de água. A instalação tem permissão para extrair até 525 milhões de litros por dia do Lago Seneca e despejar até 507 milhões de litros.

No entanto, como é usada para resfriamento, a água devolvida ao lago é muito mais quente do que a retirada. A temperatura varia entre 30 graus no inverno e 42 graus no verão, o que, segundo moradores, torna o lago quente demais para a diversão dos banhistas.

Os moradores também temem que a água quente possa afetar a vida aquática e desencadear florações de algas nocivas. Em 2024, as autoridades ambientais estaduais registraram 377 florações de algas no lago. Em 2023 haviam sido apenas 50. A exposição a essas florações pode causar erupções cutâneas, tosse, dor de garganta, dor de estômago e vômitos.

Os moradores têm participado de ações judiciais. Até o momento, elas não deram em nada. Eles também fazem parte de uma rede de especialistas e ativistas de comunidades afetadas em 17 estados que entrou em contato com o grupo de trabalho de criptomoedas de Trump para explicar os impactos das políticas de criptomoedas em áreas rurais. Eles não receberam nenhuma resposta.
Ruim para o turismo

Entre os moradores de Dresden que alugam suas propriedades para visitantes que vêm conhecer o lago, há temores de que a proximidade com a usina de Greenidge prejudique os aluguéis para turistas.

E também na cidade vizinha de Geneva, a 16 quilômetros de Dresden, os moradores estão preocupados com os potenciais impacto da mineração de bitcoin. O proprietário da vinícola Billsboro, Vinny Aliperti, diz que a usina ainda não afetou seus negócios – mas ele acredita que afetará. "Lagos limpos são uma parte importante do agroturismo. Eles são a razão pela qual as pessoas visitam a área e as vinícolas", comenta.

A Greenidge, que no seu site se descreve como "líder ambiental em geração de energia e mineração de bitcoins", não respondeu aos contatos.

A administração da cidade de Torrey, que governa a vila de Dresden, disse que a usina cumpriu todos os requisitos, incluindo um estudo independente de ruído. "A usina de Greenidge tem sido uma parte importante da cidade de Torrey desde a década de 1930, permanecendo assim até hoje como uma valiosa empregadora e parceira da comunidade."

A empresa fez doações ao corpo de bombeiros voluntários de Dresden e ao parque infantil da vila, além de apoiar empresas da região durante a pandemia de covid-19.

"Eles fizeram essas coisas, mas não é algo que consideramos que valha a pena, considerando a poluição e o impacto que estão causando no meio ambiente", diz Buddington.
Gaea Katreena Cabico

Cúpula de calor

A obsessão dos britânicos com o tempo provavelmente antecede em muito as discussões sobre mudanças climáticas — é quase um passatempo nacional. Ao longo dos anos trabalhando com eles, percebi que falar sobre o clima funciona como um “aquecimento” antes de qualquer reunião.

Mas o que antes era apenas small talk virou assunto sério no verão de 2022, quando o Reino Unido registrou, pela primeira vez, temperaturas acima de 40 °C. Agora, em 2025, o país se prepara para reviver o drama.

A nova onda de calor chegou não só à Inglaterra, mas também à Europa Ocidental e aos Estados Unidos, onde cerca de 150 milhões de pessoas enfrentam temperaturas extremas neste momento.

Na Itália, cidades como Nápoles e Palermo se preparam para temperaturas de até 39 °C. Na Sicília, foram impostas restrições ao trabalho ao ar livre nos horários mais quentes do dia, devido ao risco à saúde.


Tudo indica que, entre os eventos climáticos extremos, as ondas de calor são os que os cientistas conseguem relacionar de forma mais consistente às mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis. À medida que o planeta aquece, a probabilidade de ocorrências de calor extremo cresce de maneira significativa.

Hoje, essas ondas de calor já acontecem em um cenário de aquecimento global de 1,2 °C, com a perspectiva de eventos ainda mais severos nas próximas décadas, à medida que as médias globais continuam subindo. O prognóstico sombrio tem sido pauta constante na mídia internacional.

Fredi Otto, climatologista que lidera o projeto World Weather Attribution, não hesita ao classificar as ondas de calor como verdadeiras “assassinas silenciosas”. Segundo dados do Programa Copernicus, a mortalidade relacionada ao calor aumentou 30% nos últimos 20 anos na Europa.

Vale lembrar que em julho de 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou, pela primeira vez na história, a crise climática e os eventos extremos como emergências de saúde pública.

A argentina Celeste Saulo, secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, afirmou ontem: “Precisamos aprender a viver com o calor extremo.” Ela sabe, assim como os cientistas, que a tendência é de piora se as mudanças climáticas não forem contidas. E a mensagem é clara: a única forma real de frear o aquecimento global é reduzir as emissões de gases de efeito estufa em todo o mundo. Provavelmente, o maior desafio que humanidade já enfrentou.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Canetas ainda podem mais que as bombas

O debate sobre a eficácia militar dos ataques aéreos dos EUA contra o Irã deixa de lado um ponto mais profundo: o sucesso brilhante no campo de batalha, por si só, não garantirá um Irã livre de armas nucleares.

Os ataques dos EUA encerraram uma campanha israelense de mais de um ano que expôs totalmente o “eixo de resistência” do Irã como um tigre de papel. Os ataques foram altamente eficazes. As instalações de enriquecimento de urânio dependem de maquinário elaborado, fornecimento constante de energia e ambientes estruturalmente robustos.

É provável que tudo isso tenha sido comprometido pelas 14 bombas destruidoras de bunkers que atingiram seu alvo com precisão. Mas, mesmo supondo que os danos tenham sido graves, a maioria dos especialistas com quem conversei estima que os ataques teriam atrasado o programa nuclear do Irã em um ou dois anos. Por outro lado, o acordo nuclear com o Irã de 2015 colocou o programa nuclear do país sob controle por 10 a 15 anos.


Os ataques israelenses podem, na verdade, ter feito mais para atrasar o programa nuclear do Irã do que as bombas antibunker dos EUA. Em menos de duas semanas, Israel matou pelo menos 14 dos principais cientistas nucleares iranianos, oficiais militares de alto escalão e destruiu cerca de metade de todos os seus lançadores de mísseis, segundo o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu. As defesas aéreas do Irã estão quase neutralizadas e o país está vulnerável a um ataque a qualquer momento.

Atômica (AIEA), Rafael Grossi, o Irã tem know-how para reconstruir. O Irã parece ter transportado grandes quantidades de urânio enriquecido que, se intactas, poderiam ser facilmente transformadas em armas. Esse urânio não pode ser bombardeado sem causar vítimas em massa.

Isso significa que a única maneira de garantir que o Irã não se torne um país com armas nucleares seria por meio de negociações e inspeções – em outras palavras, assinando outro acordo. Às vezes, a caneta é realmente mais poderosa do que a espada.

Apesar de toda a sua fanfarronice, Donald Trump parece entender isso e agora está pedindo diplomacia. Ele está em uma posição crucial: tem o capital político nos EUA e em Israel para fazer um pacto. O Irã pode e deve ser solicitado a fazer mais do que foi solicitado pelo governo Obama em 2015.

A república islâmica está em uma posição muito mais fraca do que esteve em décadas. As exigências devem incluir restrições reais a um programa nuclear que fornece apenas cerca de 2% da eletricidade do Irã, mas também restrições ao apoio a milícias no Oriente Médio. Os iranianos se beneficiariam muito se seu governo se concentrasse em apoiar seu próprio povo em vez de suas credenciais revolucionárias.

URÂNIO. A questão crucial será o enriquecimento de urânio. O Irã, com base no Tratado de Não Proliferação (TNP), diz que tem direito ao enriquecimento para fins pacíficos. Israel quer que o Irã não tenha nenhuma capacidade de enriquecimento.

Inicialmente, Trump propôs um consórcio regional que poderia enriquecer urânio enquanto estivesse sendo monitorado e fornecer aos iranianos urânio de grau muito baixo para ser usado em armas.

Mas, quando Trump viu o sucesso dos ataques de Israel, decidiu endurecer sua posição. Ele deveria considerar voltar à posição anterior. A maioria dos especialistas diz que o consórcio regional seria viável e seguro. A diplomacia que terminasse em um acordo teria outra grande vantagem. Independentemente do que se especule sobre as futuras intenções do Irã, o país não tinha um programa que funcionasse como arma. A inteligência dos EUA tem sido clara quanto a isso.

Portanto, os EUA lançaram um ataque não provocado contra um Estado soberano, sem a sanção da ONU ou do Congresso. Esse tipo de ação unilateral não deve ser realizado levianamente. É fácil aplaudir quando Washington faz isso, mas como nos sentiremos quando a China fizer o mesmo? Ou com relação à Rússia na Ucrânia?

A ordem internacional baseada em regras é um palavrão, uma abstração estranha sobre a qual a maioria das pessoas nunca pensa. Mas estamos vivendo o mais longo período de paz e estabilidade da história moderna entre os principais países do mundo. Essa paz é o que permitiu a construção de uma economia global, de comércio e viagens, e de um mundo no qual as rivalidades nacionalistas não terminam em uma guerra nuclear.

A ação militar contra o Irã poderia ser justificada se levasse a um fortalecimento da não proliferação nuclear – um aviso para aqueles que poderiam cruzar a linha. Mas isso requer uma solução política para a questão, de forma estável e aceitável para ambos os lados, caso contrário, teremos apenas um cessar-fogo.

O plano dos EUA para se livrar dos indesejáveis

Dia sim, outro também, tanto no Oriente Médio como na Europa prossegue a selvagem “exibição fálica de armas”, expressão cunhada pelo sociólogo Muniz Sodré. Nada de novo no front além dos 408 kg de urânio enriquecido iraniano que escapuliram do tonitruante bombardeio americano de dias atrás, da obliteração de mais famintos em Gaza e da devastação contínua na Ucrânia. É o horror a céu aberto.

Bem mais opaco é o negócio que o governo Donald Trump decidiu oferecer a dezenas de países para fazer sumir levas de imigrantes não documentados e “liberar” os Estados Unidos desse sangue indesejável. Segundo investigação do jornalista americano Nick Turse publicada no Intercept, o plano resultaria na criação de uma espécie de gulag global onde despejar essa gente.


Tudo com o beneplácito da Suprema Corte americana, que decidiu, na semana passada, permitir deportações sem aviso prévio ou oportunidade para a defesa do migrante. Foi ligeirinha e sem maiores explicações a decisão da maioria conservadora (6 votos a 3), quase ao estilo de um Hugo Motta — ela simplesmente reverteu uma ordem federal anterior que suspendia a prática. As opiniões discordantes se concentraram em três das quatro magistradas mulheres — Sonia Sotomayor, Elena Kagan, Ketanji Brown Jackson. Para elas, a decisão majoritária constituiu uma clara violação dos direitos constitucionais e humanos em solo americano, além de representar um “grosseiro abuso de poder” da Suprema Corte. Tricia McLaughlin, porta-voz do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (o temido ICE), cujos agentes têm se notabilizado por truculência perversa, qualificou a decisão como “vitória para a segurança do povo americano”.

A investigação empreendida por Turse parte de um memorando interno de Marco Rubio, chefe do Departamento de Estado, datado de 14 de junho passado e obtido originalmente pelo Washington Post. Estava endereçado a diplomatas postados em 36 países do terceiro e quarto mundos, cujos cidadãos foram recentemente ameaçados de ser barrados ao entrar nos Estados Unidos. A ação punitiva, dizia o documento, se baseava em justificativas variadas: desde o país em questão “não dispor de autoridade central competente nem cooperativa no fornecimento de documentos confiáveis” até ser patrocinador de terrorismo. Contudo o Departamento de Estado oferecia ao país infrator uma forma de mitigar a adoção da penalidade — aceitar deportados de outras nacionalidades.

Foi assim que 53 nações, muitas das quais ostentam os piores índices sociais, econômicos e democráticos do mundo, já foram, de acordo com a reportagem, submetidas em sigilo a convencimento para virar depósitos de deportados. Ou, como escreve Turse, um “arquipélago de injustiças”, composto justamente por países acusados pelos próprios Estados Unidos de violar direitos humanos ou por nações à beira de guerras civis. De Angola a Zimbábue, passando por Djibouti, República do Congo e Sudão do Sul, a lista preenche um alfabeto inteiro formando um gulag global para migrantes desenraizados à força — até mesmo do continente em que nasceram ou viviam.

Na mesma semana do voto a favor da deportação em massa de Trump, o noticiário digital jorrou detalhes sobre um grupo de migrantes mais rarefeito. Expatriaram-se temporária e voluntariamente como convidados à stravaganza de três dias numa Veneza alugada por US$ 20 milhões, onde se comemorou o “casamento do século”, de Jeff Bezos com Lauren Sánchez. Alguns chegaram de iate, outros em avião particular. Falcões foram alugados pelo noivo para que pombos não perturbassem o cenário idílico. Na Ilha de San Giorgio Maggiore, local da cerimônia propriamente dita, perto de 30 ex-fuzileiros navais haviam sido contratados para garantir a segurança dos 200 convivas — Bezos tem seu próprio plantel de dez guarda-costas em tempo integral, tão prontos a agir quanto agentes do ICE. Lady Gaga e Elton John formaram um dueto, ao preço de US$ 1 milhão para cada um. Difícil não evocar a obra-prima de F. Scott Fitzgerald, até porque Leonardo DiCaprio, que interpretou “O Grande Gatsby” no cinema, foi uma das estrelas da festança.

No romance ambientado na decadência dos anos 1920, o sonho corrompido pela fortuna de Jay Gatsby foi inatingível. O dos magnatas no poder em 2025 será diferente?

É a economia, estúpido!

Os intelectuais fazem a teoria, as massas a economia. Finalmente, os intelectuais utilizam as massas e através deles a teoria utiliza a economia. Por isso é-lhes necessário manter o estado de sítio e a servidão económica - para que as massas continuem a ser massas manobráveis. É bem certo que a economia constitui a matéria da história. As ideias contentam-se com conduzi-la.

Albert Camus, "Cadernos"

A descivilização

Outro dia conversando com um amigo fiz referência a outro amigo comum e ouvi, em tom de elogio, a seguinte expressão “Fulano é um cara civilizado”. A expressão cuja raiz etimológica vem do latim “civilis”, palavra derivada de “civis” que significa “cidadão”, aquele que vive na cidade e se relaciona com a ideia de civilização.

Do ponto de vista pessoal, ser civilizado significa não apenas pertencer a uma civilização, mas adotar padrões de comportamentos respeitosos; demonstrar obediência às regras de convivência pacífica; e revelar, assim, que faz parte de um grupo humano em estágio avançado de desenvolvimento social, político, econômico e cultural sob o império das leis e instituições que deem suporte a um processo de longa duração.


No entanto, essa definição estaria incompleta caso não atentasse para o que diz Norbert Elias (1897-1990), autor de vasta bibliografia, inclusive, o clássico, O Processo Civilizador Vol. 2, 1939. Edição brasileira. ZAHAR, Rj, 1993: “A civilização a que me refiro nunca está completa, e está sempre ameaçada. Corre perigo porque a salvaguarda dos padrões mais civilizados de comportamento e sentimento em sociedade depende de condições específicas. Uma dessas é a autodisciplina, relativamente estável por cada pessoa isto, por sua vez, está vinculado a estruturas sociais específicas” (Esta citação está na página 99 do livro excepcional “10 lições sobre Norbert Elias” de autoria das cientistas sociais Andréa Borges Leão – Professora do Departamento de Ciências Sociais e do programa de Pós-Graduação em sociologia e Tatiana Savoia Landim, professora-associada do Departamento de Ciências Sociais, EFLCH-UNIFESP).

De outra parte, Elias, sempre com o olhar interdisciplinar, identifica a correlação da tensão permanente entre a civilização, sua capacidade de pacificar, aprimorar sentimentos e a violência no seu mais alto grau de destruição, a guerra que não é, segundo ele, um acidente histórico, nem um incidente isolado, mas uma condição humana.

A partir dessa perspectiva, o autor passa a discutir a descivilização ou o colapso da civilização com ênfase no que diz respeito ao Holocausto na Alemanha nazistas. Este terrível episódio da humanidade carregava a bandeira de um projeto de descivilização que o mundo enxergou tardiamente. Que lições podem ser extraídas do momento histórico em que vivemos?

Basicamente, duas lições: a primeira é que os processos civilizatórios e descivilizatórios são construídos a partir de movimentos e contramovimentos, forças centrífugas e centrípetas que alimentam uma dúvida existencial: quais as forças ganham a frente no curto ou longo prazo? Por consequência, a segunda lição é ficar atento para os sinais do grau de controle estatal sobre o monopólio da violência; o nível de coesão dos laços sociais; a firmeza ou enfraquecimento das cadeias de interdependência; e a permanente atenção para as tendências que afetam a convivência entre pessoas e nações a exemplo da ameaça da violência, a insegurança e um sentimento difuso do medo.

Neste sentido, é importante destacar que o fenômeno da globalização alterou radicalmente paradigmas e segue alterando por conta de vertiginosos avanços no campo da ciência, da tecnologia com desafios da realidade-mundo e suas interações com o que Manuel Castells, na trilogia seminal, O Poder da Identidade, O Fim do Milênio, denomina de A Sociedade em Rede, um fenômeno que muda a vivência do espaço e do tempo.

Nessa nova moldura, emerge a civilização contemporânea junto com sua irmã siamesa, a barbárie e o cenário dantesco: de um lado, uma afluência nunca vista e, de outro, a profunda desigualdade marcada por uma concentração de poder político, econômico e bélico, também, jamais presenciada na história.

Sem tonalidades dramáticas, nos deparamos, de fato, numa encruzilhada da tragédia bélica ou da implosão climática, caso o ser humano capaz de construir uma grandeza gigantesca, não seja capaz de alcançar uma dimensão ética que preserve a vida das futuras gerações.

A natureza da crise não é econômica

O governo decidiu judicializar a questão do IOF por entender que houve, por parte do Congresso, uma invasão de suas competências. O Executivo pode mudar a alíquota do IOF. O Projeto de Decreto Legislativo só seria cabível caso o governo tivesse indo além das suas prerrogativas. A ideia de que isso pode aumentar a temperatura do conflito não faz muito sentido, pois já está elevada e há pouco que o governo possa fazer para amenizar o clima. Normalmente, esse ambiente político surge quando a economia está em crise. Não é o caso agora, considerando que há uma série de indicadores bons.

A inflação vem desacelerando, e os bancos têm reduzido suas projeções para o índice no ano. No Boletim Focus, a estimativa do IPCA caiu pela décima vez em 11 semanas. Está em 5,2%. O Bradesco projeta um número menor, de 5%. Embora acima do teto da meta, a trajetória é de queda, puxada em parte pelo dólar, que recuou 12,08% no primeiro semestre. Os alimentos também registram alívio nos preços, com reduções expressivas em itens simbólicos. No último IPCA-15, por exemplo, o ovo caiu 7%. O desemprego está em 6,2%, menor percentual da série histórica. A previsão do PIB está em torno de 2,2%.

A natureza da crise não está nos indicadores econômicos de emprego, crescimento, câmbio, inflação. Há um grave problema fiscal estrutural que leva ao aumento da dívida. Em maio, houve déficit público e a dívida subiu; no acumulado dos cinco primeiros meses do ano, houve superávit. O problema fiscal não se explica pelo número nosso de cada dia. O desequilíbrio não é de hoje, nem vai se resolver amanhã, precisa haver um plano de enfrentamento do problema.

A crise é política e tem sido exacerbada pelo Congresso. Com o valor extravagante das emendas, que escalaram a níveis insustentáveis desde a gestão Jair Bolsonaro, e com os fundos partidário e eleitoral em valores altos, os políticos não precisam mais das negociações com o governo para atingir seus objetivos. Isso cria uma anomalia no balanço entre os poderes no Brasil.

O Bradesco, no cenário divulgado ontem, diz que “desde o fim do ano passado, houve mudança positiva na percepção de riscos, especialmente por conta dos vetores externos”. A apreciação do câmbio, a redução das pressões inflacionárias e da curva de juros explicam essa melhora. O banco diz que o quadro fiscal permanece incerto, mas continua apostando no cumprimento das metas do arcabouço deste ano e do próximo. Projeta que, no fim do ano, haverá corte na taxa de juros. Para 2026, a previsão de inflação é de 3,8%, dentro do intervalo da meta, embora ainda não no centro da meta. Ou seja, nada há de desesperador, como se vê, que justifique tamanha gritaria política e esse clima de fim de mundo.

Ontem, o presidente da Câmara, Hugo Motta, acusou o governo de instalar um ambiente de “nós contra eles” no país. Na semana passada, Motta inesperadamente colocou em votação o projeto de aumento do IOF, e o governo perdeu de lavada. Pode-se perguntar a Motta quem fez o primeiro ataque do “nós contra eles”. Todo o ambiente no Congresso é de “vamos derrotar o governo”. Conseguiram. Agora, Motta diz que o clima azedou por culpa do Executivo.

O Caged divulgou ontem que o mercado de trabalho formal no Brasil criou, em maio, 149 mil vagas com carteira assinada. Os números do IBGE até maio mostram o mercado de trabalho no melhor patamar dos últimos dez anos. No trimestre de março a maio, houve uma queda de 644 mil de pessoas desempregadas. O total das pessoas empregadas aumentou em 1,2 milhão. A população desalentada caiu 10% no trimestre. Esse é um indicador sensível. Mostra o número de pessoas que nem procuram emprego porque acham que não vão encontrar. Hoje são 2,9 milhões de pessoas, porém foram seis milhões em 2021.

O estresse fiscal exigirá do governo uma proposta ousada, com fim de indexações de despesas. Mas como apresentar projetos assim se o Legislativo não aprova nem medidas mais cosméticas? Propostas de reformas devem ser feitas em qualquer contexto. A reforma monetária que nos trouxe o real foi apresentada e executada num ano eleitoral, e num mandato curto, o de Itamar Franco. O governo precisa formular uma saída para a crise fiscal ainda que seja realizada só na próxima administração. Qualquer que seja o grupo político que se eleja no ano que vem, o país só será governável se o problema das emendas parlamentares puder ser enfrentado.
Míriam Leitão

Fascismo sionista e a fantasia de um Grande Oriente Médio

Muitas vezes, precisamos nos ater ao passado para entender o presente. A urgência do "agora" exige isso. Precisamos de sabedoria histórica para sobreviver.

A sabedoria coletiva do passado emanava de uma carta publicada em 4 de dezembro de 1948 no New York Times, protestando contra a iminente visita aos Estados Unidos do sionista polonês Menachim Begin. A carta foi assinada por vários dignitários judeus, incluindo o físico teórico Albert Einstein e a teórica política Hannah Arendt. Além de protestar contra a visita, os 27 signatários denunciaram o partido Herut (Liberdade) de Begin, alegando que era como escreveram:

"Entre os fenômenos políticos mais perturbadores de nossos tempos está o surgimento, no recém-criado Estado de Israel, do 'Partido da Liberdade' (Taunt Haherut), um partido político muito semelhante em organização, métodos, filosofia política e apelo social aos partidos nazista e fascista... É inconcebível que aqueles que se opõem ao fascismo em todo o mundo, se corretamente informados sobre o histórico político e as perspectivas do Sr. Begin, pudessem adicionar seus nomes e apoio ao movimento que ele representa. Hoje, eles falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, enquanto até recentemente pregavam abertamente a doutrina do Estado fascista."

Os signatários ficaram indignados com os relatos de crimes de guerra cometidos pelas forças sionistas durante a guerra de 1947-48. Ficaram particularmente perturbados com o relato do massacre de centenas de pessoas na aldeia palestina de Deir Yassin pelos paramilitares do Irgun e do Lehi (Gangue Stern) em abril de 1948.

Deve-se notar que, após a declaração de estado de Israel em maio de 1948, todos os grupos terroristas como o Irgun, comandado por Menachim Begin (futuro primeiro-ministro, 1973-83) e o Lehi sob outro primeiro-ministro, Yitzhak Shamir, (1983-84; 1986-1992) foram absorvidos pelas brutais Forças de "Defesa" de Israel (IDF).

O que Arendt, Einstein e outros reconheceram no Estado sionista foi, em suas palavras , a "mais recente manifestação do fascismo". A ideologia e a conduta violentas da Haganah, do Irgun e da Gangue Stern não desapareceram com o fim da guerra de 1948. Elas floresceram e, por fim, metastatizaram-se no regime fascista de direita israelense atual.

As correntes de imperialismo, etnonacionalismo e racismo que permearam a Alemanha nazista encontraram terreno firme no atual Israel.

Décadas atrás, o ativista político judeu marroquino, Abraham Serfaty , em seus ensaios na prisão sobre a libertação palestina, observou que há uma "lógica fascista no cerne do projeto colonial de desapropriação, dominação e deslocamento dos colonos sionistas". O fascismo está inserido na ideologia e na lógica do projeto expansionista colonial de Israel.

O Israel sionista, auxiliado e instigado pelos Estados Unidos, ressuscitou a selvageria da qual o mundo queria salvar as gerações futuras após a Segunda Guerra Mundial.

O expansionismo israelense, por exemplo, assemelha-se muito à ideologia extremista do Lebensraum (espaço vital em alemão), que se tornou o principal objetivo da política externa do regime nazista. O estabelecimento de um Grande Reich Alemão era seu objetivo final.

O plano diretor nazista para o Leste especificava que a Alemanha precisava do Lebensraum para sua sobrevivência. Para suprir sua necessidade de espaço vital e recursos, a maioria das populações indígenas não arianas (eslavos e judeus) da Europa Central e Oriental teria que ser removida, escravizada ou exterminada. As terras tomadas seriam então repovoadas com colonos germânicos "superiores".

Israel, assim como a Alemanha nazista, está comprometido com a expansão territorial, apropriando-se de terras para estabelecer o que eles chamam de “Eretz Yisrael”, um “Grande Israel”.

As semelhanças entre a "Grande Alemanha" do Lebensraum e o "Grande Israel" do sionismo são inconfundíveis. Ambos abrangem etnonacionalismo, ultranacionalismo, expansionismo militar agressivo e genocídio.

Desde que se estabeleceu ilegalmente em terras palestinas habitadas em 1917, o projeto de longo prazo de Israel de anexar vastas áreas de Estados soberanos vizinhos nunca cessou. Em seus diários (mantidos de 1895 a 1904), o pai do sionismo político moderno, Theodor Herzl, registrou sua visão de Eretz Yisrael — terra que, como ele escreveu, se estenderia do "riacho do Egito ao Eufrates", no Iraque.

Portanto, Israel nunca estabeleceu fronteiras definidas. Propositalmente vago em suas declarações, mas claro em sua missão, continua a expandir agressivamente suas fronteiras. Cometeu genocídio na Faixa de Gaza ocupada, ocupou, colonizou e anexou ilegalmente a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, destruiu grande parte do sul do Líbano, bombardeou o Iêmen e invadiu e ocupou a Síria. Agora, trabalha para enfraquecer e dividir o Irã.

Os defensores do conceito do Grande Israel afirmam que toda a Palestina, Líbano e Síria pertencem ao Estado sionista. Alguns interpretam o Grande Israel como abrangendo o domínio não apenas sobre toda a Palestina, Líbano e Síria, mas também sobre partes do Egito, a maior parte do Iraque, a Jordânia, uma grande área da Arábia Saudita e partes do sul da Turquia.

Nos últimos 21 meses, Israel e seus apoiadores imperiais travaram uma campanha devastadora de guerra e genocídio em busca de seu objetivo de criar um “Novo Oriente Médio”.

Há quase dois anos, em 22 de setembro de 2023, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se apresentou perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, exibiu um mapa rudimentar intitulado "O Novo Oriente Médio" e apregoou a crescente normalização das relações entre Israel e os países árabes. Ele apresentou uma visão sionista de transformação regional que envolvia o apagamento da Palestina e a legitimação do "Grande Israel".

Tel Aviv tem contado com as famílias árabes do petróleo do Golfo Pérsico para permanecerem passivas e submissas à vontade dos Estados Unidos e, por extensão, de Israel. Ela não vê nenhuma ameaça vinda do Egito. O carro-chefe do mundo árabe, governado por um regime autoritário brutal, é fraco, corrupto e economicamente dependente de US$ 1,3 bilhão em ajuda anual de Washington.

A Jordânia, governada por uma monarquia repressiva, tem sido cliente e pilar americano da hegemonia EUA-Israel há mais de 75 anos; dependente da ajuda externa americana estimada em US$ 1,5 bilhão anualmente. A Turquia, outro importante Estado muçulmano, vinculou seu sucesso ao Ocidente e ao seu tratado de defesa com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Quase todos os países da região foram derrotados, restando apenas o Irã e o Iêmen. Na noite de 21 de junho de 2025, os Estados Unidos lançaram um ataque sem provocação ao Irã para ajudar Israel a dar o xeque-mate.

A arrogância impulsiona a agenda de Washington e Tel Aviv. Eles estão convencidos de que podem criar uma região submissa à sua agenda hegemônica.

O termo "fascista" é um rótulo político usado por historiadores judeus, ex-membros e atuais membros do gabinete israelense, bem como por críticos dentro de Israel. No entanto, é um termo que outros têm medo de usar. A seguir, alguns exemplos entre muitos:

O jornal diário mais antigo de Israel, o Haaretz, escreveu frequentemente que “o neofascismo israelense ameaça seriamente israelenses e palestinos”. Ele descreveu o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e o Ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, como fascistas e racistas.O Ministro das Finanças Smotrich referiu-se a si mesmo como um “ homofóbico fascista ” .
Os ex-primeiros-ministros israelenses Ehud Barak e Ehud Olmert alertaram sobre o fascismo.


O ex-ministro da Defesa, Moshe Yaalon, chamou o assassinato de palestinos por Israel de "uma ideologia messiânica, nacionalista e fascista".

A Ministra da Cultura Miri Regev declarou com orgulho: “Estou feliz por ser fascista”.

O Partido Comunista de Israel (Maki) e o partido Hadash (novo) escreveram em 7 de outubro de 2023 que “Os crimes do governo fascista de direita para perpetuar a ocupação estão levando a uma guerra regional que deve ser interrompida”.

O historiador de extrema direita, Ze'ev Sternhell, escreveu sobre “o crescente fascismo e um racismo semelhante ao do nazismo inicial”.

O falecido jornalista/ativista pela paz, Ari Avnery, declarou que “a discriminação contra os palestinos em praticamente todas as esferas da vida pode ser comparada ao tratamento dado aos judeus na primeira fase da Alemanha nazista”.

Em 24 de abril de 2025, o renomado historiador Avi Shlaim declarou que “Israel está a caminho do fascismo”. Ele argumentou que os atributos políticos do Estado israelense se assemelham aos da extrema direita na década de 1930.

Lamentavelmente, as características do fascismo que o Dr. Shlaim usou para descrever Israel também definem os Estados Unidos sob o regime Trump: "a crença de que o mais forte faz o certo, a confiança no militarismo, o militarismo integral, a indiferença ao direito internacional, a indiferença total à opinião pública mundial".

O Primeiro-Ministro Netanyahu proclamou com orgulho em junho de 2021: "Estamos mudando a face do Oriente Médio. Estamos mudando a face do mundo". A mudança na mentalidade israelense sempre significou a remoção violenta de toda oposição à sua contínua expansão e domínio da região rica em recursos, custe o que custar.

Netanyahu, Ben-Gvir, Smotrich e seus semelhantes não são anômalos. São produtos de um sistema colonial racista e fascista que se desenvolveu desde 1917, quando Israel foi implantado no coração da Palestina.

Assim como seus colegas intelectuais que estavam preocupados com as atrocidades sionistas que começaram na Palestina em 1947-48, os professores da Universidade Birzeit, na Cisjordânia ocupada, na Palestina, sentiram-se obrigados a usar suas palavras — como eles disseram, embora fúteis — para expor mais de 80 anos de brutalidade sionista e registrar a determinação palestina de viver, resistir e não ser silenciado.

O Sindicato dos Professores e Funcionários de Birzeit , em carta aberta de 12 de outubro de 2023, escreveu:

“2023 ficará registrado historicamente como o ano em que os palestinos se ergueram corajosamente diante do fascismo colonial e gritaram em defesa de seus lares, humanidade e vidas... É nosso dever registrar este momento não como suas vítimas, mas como as pessoas que se lembrarão, registrarão, sobreviverão e resistirão a ele [a barbárie sionista]. Permanecemos apegados à nossa terra e à nossa humanidade como árabes palestinos — não precisamos provar nossa humanidade àqueles que perderam a deles...”