segunda-feira, 28 de abril de 2025
É impossível perdoar um pecado eterno contra a Constituição
Há pecados imperdoáveis, blasfemar contra o Espírito Santo, por exemplo, pois quem os comete põe a si mesmo fora do alcance das leis de Deus. Um pecado imperdoável nega frontalmente a autoridade de Deus, como fez Satanás, cujo destino já está traçado. Ao cometer tal pecado a pessoa escolhe, livremente, ficar fora do alcance da infinita misericórdia do Senhor, tomando uma atitude da mais extrema arrogância.
Por assim dizer, perdoar um pecado imperdoável não pode depender da boa vontade, da misericórdia, do amor de Deus ou de seus sacerdotes. Fazer isso seria uma impossibilidade absoluta. Afinal, não se pode perdoar quem não reconhece, no fundo do seu coração, a autoridade de quem tem poder de perdoar e a gravidade dos atos cometidos. Um sacerdote que insistisse em uma ideia satânica como essa estaria contribuindo para o descrédito, para a destruição de Lei de Deus aos olhos dos homens.
Neste caso, o sacerdote estaria falando falsamente em nome Dele para falsamente perdoar alguém que não se arrependeu, que não reconhece Sua autoridade. Desta forma, estaria expondo a Deus e toda a Cristandade ao escárnio da multidão ao dizer, ainda que falsamente, que Deus perdoaria a quem não aceita Sua autoridade; que Deus se curva diante dos arrogantes que não se submetem à sua Lei.
Não é preciso nem dizer que Deus jamais faria ou autorizaria que alguém fizesse algo que contrariasse Sua autoridade. Dizer ou pensar algo assim é evidentemente ridículo, não faz sentido algum. Se é verdade que a vontade de Deus será sempre misteriosa, a sua autoridade não pode ser. Ela deve aparecer clara, cristalina, inequívoca para os crentes. Aceitar a autoridade de Deus e de sua Lei é imprescindível para quem tem fé, e a fé é a condição necessária para a salvação.
Há outros casos em que as leis se preocupam como o problema da sua própria destruição, leis divinas e leis humanas. Casos que podem nos ajudar a compreender o problema da anistia, pois exigem um raciocínio semelhante para serem plenamente compreendidos.
Por exemplo, há faltas de um pai ou de uma mãe de família, as quais nem o Judiciário, nem ninguém tem o poder de perdoar. Apontar tais faltas e puni-las é de interesse público, pois estamos falando de menores que merecem proteção de todos nós, inclusive contra violências ocorridas no seio das famílias. O servidor público, o Juiz que deixasse de tomar providências para responsabilizar os infratores estariam traindo seus deveres e poderia, inclusive, ser punido por isso.
Nesse caso, também não se trata de boa vontade, de misericórdia, de amor ou de senso de justiça. O perdão se torna impossível porque o pai ou a mãe destruiu a sua própria autoridade e colocou em risco a autoridade da instituição da família diante de toda a sociedade.
Tais pais ou mães, com suas ações ilegais, deixam claro que renunciam de fato à sua condição de pai ou mãe, destruindo a própria autoridade e negando as leis que regulam as famílias em geral. Manter filhos ou filhas sob o poder de alguém que, por exemplo, os abandonou, significaria oferecer ao escárnio público todos os demais pais e mães que cuidam bem dos seus filhos e ameaçar a autoridade dos chefes de todas as famílias que existem.
Além de um poder moral e religioso, o poder do pai e da mãe sobre filhos e filhas também é regulado pelo direito, tal é a importância da família para a nação brasileira. Assim, diz o Código Civil brasileiro em seu artigo 1.638 que, por exemplo, perderá por ato judicial o poder familiar, o pai ou a mãe que castigar imoderadamente o filho (inciso I), deixar o filho em abandono (inciso II) e entregar de forma irregular o filho a terceiro para fins de adoção (inciso V).
Como se vê, o direito protege tanto as crianças, quanto a autoridade de pais e mães e da família em geral. Não se pode permitir que um falso pai ou uma falsa mãe permaneça juridicamente exercendo poder sobre seus filhos depois de praticar atos que negam a sua autoridade. Fazer tal coisa, no limite, poderia destruir a autoridade de todo o pai e de toda mãe de família. Afinal, quem respeitaria o direito de um país que permitisse que pais e mães abandonassem seus filhos e continuassem a gozar do status jurídico de pai e mãe?
Também nesse caso, o que poderíamos chamar, por comparação, de pecados eternos contra o poder da família, são impassíveis de perdão. Perdoar colocaria em risco a proteção da família como instituição e as leis do país, que se tornariam ridículas aos olhos de todos.
E vale insistir nesse ponto: o Juiz, o servidor público que se deixasse levar pela boa vontade, pela misericórdia, pelo amor, pelo senso de justiça para perdoar, neste caso, estaria cometendo uma violência inominável contra todos os bons pais e mães de família, contra a instituição da família e contra as leis do seu país. E estaria incentivando a arrogância de falsos pais e falsas mães que poderiam se sentir acima das leis, autorizados a fazer as maiores barbaridades com seus filhos.
Em seu depoimento à justiça brasileira, a cabeleireira Débora Rodrigues, que participou dos atos no dia 8 de janeiro passado e pichou a estátua da Justiça localizada diante do STF, não se refere a si mesma como cidadã brasileira. Ela fala de si mesma como patriota. Faz questão de se identificar como patriota para mostrar que faz parte de um grupo que atribui a si mesmo uma qualidade que, aparentemente, essas pessoas julgam que nós, que eu, José Rodrigo Rodriguez, simples cidadão brasileiro, não possuo. Mas, se eles e ela são os patriotas nós, que não fazemos parte deste grupo, seremos por lógica simples, os não-patriotas.
É verdade que em seu depoimento, disponível no Youtube, Débora pede perdão ao estado de direito. Mas, ao mesmo tempo, diz que o Juiz está errado: ela não teria cometido crime algum. Fala de seus filhos, fala de sua família, chora para comover o juiz, afinal, pois está encarcerada, imersa no desespero da salvação, mas não nega nenhum dos fatos que lhe foram atribuídos. Em atitude soberba, julga saber melhor do que o Judiciário o que eles significam.
Uma pessoa arrogante, que fala de maneira arrogante para se colocar, na condição de patriota, acima das instituições. Uma pessoa que acredita saber mais do que o Juiz e pede… Pede não, exige, o perdão de nossas instituições.
Débora não está fazendo nada de diferente da liderança maior dos patriotas, Jair Messias Bolsonaro. Ele também não pede, ele exige anistia. Jamais demonstra arrependimento, também não nega os fatos que lhe foram atribuídos, apenas acredita saber melhor do que o Judiciário o que eles significam. Ele também alega não ter cometido crime algum, portanto, a anistia no fundo, não seria exatamente um perdão. Aos seus olhos e aos olhos de Débora Rodrigues, trata-se exigir do Estado de um julgamento pelo Congresso no lugar dos Juízes.
O ex-presidente quer que a anistia funcione como um julgamento que substitua o julgamento dos Juízes, aos quais ele não atribui autoridade competente para julgá-lo. Ele pede perdão, mas em atitude de afronta ao estado democrático de direito. Jair Bolsonaro primeiro, julga estar acima das leis, segundo acredita ser capaz de interpretá-las melhor do que as autoridades competentes e, terceiro, exige escolher o Juiz que deveria poder julgá-lo.
Será que ser patriota significa isso? Significa manter a soberba para colocar em risco, três vezes, para negar, três vezes, a autoridade de nossas leis?
O ex-presidente e a cabeleireira não foram investigados por qualquer crime. Foram investigados e serão julgados por um pecado eterno contra o estado de direito brasileiro. Os fatos que praticaram negam frontalmente a autoridade do estado de direito e, como no caso da blasfêmia contra o Espírito Santo e dos pecados eternos contra a família, não podem ficar impunes. Mais do que isso, são materialmente impassíveis de perdão.
O que está em jogo não é o ser humano Jair Messias Bolsonaro, o ser humano Débora Rodrigues ou qualquer outra pessoa acusada de participar da trama golpista e dos atos de 08 de janeiro. Está em jogo a autoridade das leis. É evidente que estamos diante de uma mãe, de um pai, é evidente as famílias, os filhos estão sofrendo com tudo isso. No entanto, infelizmente, nesse caso, as autoridades não podem se deixar levar pela boa vontade, pela misericórdia, pelo amor, pelo senso de justiça e simplesmente resolver perdoar.
Se houver alguma injustiça no cálculo da pena de Débora, que seja corrigida pelo Judiciário: é evidente que sua participação nos fatos não pode ser jamais comparada com a participação do ex-presidente. É fundamental que ela e Jair Bolsonaro sejam julgados com amplo direito de defesa. Dito isso, cabe observar, totalmente inadequado utilizar a anistia, esse favor do Estado que pode ser concedido a alguém, com a finalidade de substituir uma sentença que é de competência do Judiciário.
Ainda mais para perdoar pessoas arrogantes que não se apresentam como cidadãos brasileiros, mas como patriotas, e exigem um tratamento especial da República. Exigem um perdão que deveriam estar pedindo humildemente. Seguem negando a autoridade do Estado e das leis em uma atitude aberta de afronta.
Estas pessoas arrogantes, Débora Rodrigues e Jair Messias Bolsonaro, este, que ainda não reconheceu sua derrota nas urnas, que não respeita a autoridade da Presidência da República, que nega a autoridade da Polícia Federal para investigá-lo, que nega a autoridade dos Juízes para julgá-lo, que exige, não pede, anistia. Estas pessoas que exigem o perdão de autoridades que, no fundo de seus corações, consideram desprezíveis.
Não faz sentido algum perdoar quem nega a autoridade daqueles que são competentes, que têm o poder de perdoar. Insistir na ideia da anistia, neste caso, significaria premiar a soberba e expor o estado de direito ao mais completo ridículo. Ademais, por sua impossibilidade material, o perdão seria um fato juridicamente inexistente, irrelevante para o direito. Perdoar, nesse caso, é impossível.
A Constituição brasileira, evidentemente, não utiliza a linguagem do perdão, mobilizada neste texto apenas para facilitar a compreensão do instituto. No entanto, é claro — não é sequer preciso dizer — que não faria sentido algum conceder anistia a pessoas que negam a autoridade do Estado e acreditam que conspirar contra a Constituição e agir nesse sentido não constitui crime. A possibilidade de concessão de anistia, prevista na Constituição, só pode ter como objetivo preservar a lei — e não promover a sua destruição.
Assim como perdoar a blasfêmia contra o Espírito Santo contribuiria para destruir a autoridade da Lei de Deus diante de seus fiéis; assim como perdoar um falso pai e uma falsa mãe por atos violentos cometidos contra os seus filhos contribuiria para destruir a autoridade da lei da família diante da comunidade, anistiar pessoas que arrogantemente desafiam a autoridade do Estado, ou seja, das pessoas competentes para conceder a anistia, contribuiria para destruir a autoridade da Constituição e do estado democrático de direito brasileiro. Na verdade, essa proposta de lei de anistia não passa de uma proposta de lei do golpe.
“Em verdade vos digo: todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, e também todas as blasfêmias que proferirem; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais terá perdão, é réu de pecado eterno.”
Marcos 3:28-29; cf. Mateus 12:31-32 e Lucas 12:10
Por assim dizer, perdoar um pecado imperdoável não pode depender da boa vontade, da misericórdia, do amor de Deus ou de seus sacerdotes. Fazer isso seria uma impossibilidade absoluta. Afinal, não se pode perdoar quem não reconhece, no fundo do seu coração, a autoridade de quem tem poder de perdoar e a gravidade dos atos cometidos. Um sacerdote que insistisse em uma ideia satânica como essa estaria contribuindo para o descrédito, para a destruição de Lei de Deus aos olhos dos homens.
Neste caso, o sacerdote estaria falando falsamente em nome Dele para falsamente perdoar alguém que não se arrependeu, que não reconhece Sua autoridade. Desta forma, estaria expondo a Deus e toda a Cristandade ao escárnio da multidão ao dizer, ainda que falsamente, que Deus perdoaria a quem não aceita Sua autoridade; que Deus se curva diante dos arrogantes que não se submetem à sua Lei.
Não é preciso nem dizer que Deus jamais faria ou autorizaria que alguém fizesse algo que contrariasse Sua autoridade. Dizer ou pensar algo assim é evidentemente ridículo, não faz sentido algum. Se é verdade que a vontade de Deus será sempre misteriosa, a sua autoridade não pode ser. Ela deve aparecer clara, cristalina, inequívoca para os crentes. Aceitar a autoridade de Deus e de sua Lei é imprescindível para quem tem fé, e a fé é a condição necessária para a salvação.
Há outros casos em que as leis se preocupam como o problema da sua própria destruição, leis divinas e leis humanas. Casos que podem nos ajudar a compreender o problema da anistia, pois exigem um raciocínio semelhante para serem plenamente compreendidos.
Por exemplo, há faltas de um pai ou de uma mãe de família, as quais nem o Judiciário, nem ninguém tem o poder de perdoar. Apontar tais faltas e puni-las é de interesse público, pois estamos falando de menores que merecem proteção de todos nós, inclusive contra violências ocorridas no seio das famílias. O servidor público, o Juiz que deixasse de tomar providências para responsabilizar os infratores estariam traindo seus deveres e poderia, inclusive, ser punido por isso.
Nesse caso, também não se trata de boa vontade, de misericórdia, de amor ou de senso de justiça. O perdão se torna impossível porque o pai ou a mãe destruiu a sua própria autoridade e colocou em risco a autoridade da instituição da família diante de toda a sociedade.
Tais pais ou mães, com suas ações ilegais, deixam claro que renunciam de fato à sua condição de pai ou mãe, destruindo a própria autoridade e negando as leis que regulam as famílias em geral. Manter filhos ou filhas sob o poder de alguém que, por exemplo, os abandonou, significaria oferecer ao escárnio público todos os demais pais e mães que cuidam bem dos seus filhos e ameaçar a autoridade dos chefes de todas as famílias que existem.
Além de um poder moral e religioso, o poder do pai e da mãe sobre filhos e filhas também é regulado pelo direito, tal é a importância da família para a nação brasileira. Assim, diz o Código Civil brasileiro em seu artigo 1.638 que, por exemplo, perderá por ato judicial o poder familiar, o pai ou a mãe que castigar imoderadamente o filho (inciso I), deixar o filho em abandono (inciso II) e entregar de forma irregular o filho a terceiro para fins de adoção (inciso V).
Como se vê, o direito protege tanto as crianças, quanto a autoridade de pais e mães e da família em geral. Não se pode permitir que um falso pai ou uma falsa mãe permaneça juridicamente exercendo poder sobre seus filhos depois de praticar atos que negam a sua autoridade. Fazer tal coisa, no limite, poderia destruir a autoridade de todo o pai e de toda mãe de família. Afinal, quem respeitaria o direito de um país que permitisse que pais e mães abandonassem seus filhos e continuassem a gozar do status jurídico de pai e mãe?
Também nesse caso, o que poderíamos chamar, por comparação, de pecados eternos contra o poder da família, são impassíveis de perdão. Perdoar colocaria em risco a proteção da família como instituição e as leis do país, que se tornariam ridículas aos olhos de todos.
E vale insistir nesse ponto: o Juiz, o servidor público que se deixasse levar pela boa vontade, pela misericórdia, pelo amor, pelo senso de justiça para perdoar, neste caso, estaria cometendo uma violência inominável contra todos os bons pais e mães de família, contra a instituição da família e contra as leis do seu país. E estaria incentivando a arrogância de falsos pais e falsas mães que poderiam se sentir acima das leis, autorizados a fazer as maiores barbaridades com seus filhos.
Em seu depoimento à justiça brasileira, a cabeleireira Débora Rodrigues, que participou dos atos no dia 8 de janeiro passado e pichou a estátua da Justiça localizada diante do STF, não se refere a si mesma como cidadã brasileira. Ela fala de si mesma como patriota. Faz questão de se identificar como patriota para mostrar que faz parte de um grupo que atribui a si mesmo uma qualidade que, aparentemente, essas pessoas julgam que nós, que eu, José Rodrigo Rodriguez, simples cidadão brasileiro, não possuo. Mas, se eles e ela são os patriotas nós, que não fazemos parte deste grupo, seremos por lógica simples, os não-patriotas.
É verdade que em seu depoimento, disponível no Youtube, Débora pede perdão ao estado de direito. Mas, ao mesmo tempo, diz que o Juiz está errado: ela não teria cometido crime algum. Fala de seus filhos, fala de sua família, chora para comover o juiz, afinal, pois está encarcerada, imersa no desespero da salvação, mas não nega nenhum dos fatos que lhe foram atribuídos. Em atitude soberba, julga saber melhor do que o Judiciário o que eles significam.
Uma pessoa arrogante, que fala de maneira arrogante para se colocar, na condição de patriota, acima das instituições. Uma pessoa que acredita saber mais do que o Juiz e pede… Pede não, exige, o perdão de nossas instituições.
Débora não está fazendo nada de diferente da liderança maior dos patriotas, Jair Messias Bolsonaro. Ele também não pede, ele exige anistia. Jamais demonstra arrependimento, também não nega os fatos que lhe foram atribuídos, apenas acredita saber melhor do que o Judiciário o que eles significam. Ele também alega não ter cometido crime algum, portanto, a anistia no fundo, não seria exatamente um perdão. Aos seus olhos e aos olhos de Débora Rodrigues, trata-se exigir do Estado de um julgamento pelo Congresso no lugar dos Juízes.
O ex-presidente quer que a anistia funcione como um julgamento que substitua o julgamento dos Juízes, aos quais ele não atribui autoridade competente para julgá-lo. Ele pede perdão, mas em atitude de afronta ao estado democrático de direito. Jair Bolsonaro primeiro, julga estar acima das leis, segundo acredita ser capaz de interpretá-las melhor do que as autoridades competentes e, terceiro, exige escolher o Juiz que deveria poder julgá-lo.
Será que ser patriota significa isso? Significa manter a soberba para colocar em risco, três vezes, para negar, três vezes, a autoridade de nossas leis?
O ex-presidente e a cabeleireira não foram investigados por qualquer crime. Foram investigados e serão julgados por um pecado eterno contra o estado de direito brasileiro. Os fatos que praticaram negam frontalmente a autoridade do estado de direito e, como no caso da blasfêmia contra o Espírito Santo e dos pecados eternos contra a família, não podem ficar impunes. Mais do que isso, são materialmente impassíveis de perdão.
O que está em jogo não é o ser humano Jair Messias Bolsonaro, o ser humano Débora Rodrigues ou qualquer outra pessoa acusada de participar da trama golpista e dos atos de 08 de janeiro. Está em jogo a autoridade das leis. É evidente que estamos diante de uma mãe, de um pai, é evidente as famílias, os filhos estão sofrendo com tudo isso. No entanto, infelizmente, nesse caso, as autoridades não podem se deixar levar pela boa vontade, pela misericórdia, pelo amor, pelo senso de justiça e simplesmente resolver perdoar.
Se houver alguma injustiça no cálculo da pena de Débora, que seja corrigida pelo Judiciário: é evidente que sua participação nos fatos não pode ser jamais comparada com a participação do ex-presidente. É fundamental que ela e Jair Bolsonaro sejam julgados com amplo direito de defesa. Dito isso, cabe observar, totalmente inadequado utilizar a anistia, esse favor do Estado que pode ser concedido a alguém, com a finalidade de substituir uma sentença que é de competência do Judiciário.
Ainda mais para perdoar pessoas arrogantes que não se apresentam como cidadãos brasileiros, mas como patriotas, e exigem um tratamento especial da República. Exigem um perdão que deveriam estar pedindo humildemente. Seguem negando a autoridade do Estado e das leis em uma atitude aberta de afronta.
Estas pessoas arrogantes, Débora Rodrigues e Jair Messias Bolsonaro, este, que ainda não reconheceu sua derrota nas urnas, que não respeita a autoridade da Presidência da República, que nega a autoridade da Polícia Federal para investigá-lo, que nega a autoridade dos Juízes para julgá-lo, que exige, não pede, anistia. Estas pessoas que exigem o perdão de autoridades que, no fundo de seus corações, consideram desprezíveis.
Não faz sentido algum perdoar quem nega a autoridade daqueles que são competentes, que têm o poder de perdoar. Insistir na ideia da anistia, neste caso, significaria premiar a soberba e expor o estado de direito ao mais completo ridículo. Ademais, por sua impossibilidade material, o perdão seria um fato juridicamente inexistente, irrelevante para o direito. Perdoar, nesse caso, é impossível.
A Constituição brasileira, evidentemente, não utiliza a linguagem do perdão, mobilizada neste texto apenas para facilitar a compreensão do instituto. No entanto, é claro — não é sequer preciso dizer — que não faria sentido algum conceder anistia a pessoas que negam a autoridade do Estado e acreditam que conspirar contra a Constituição e agir nesse sentido não constitui crime. A possibilidade de concessão de anistia, prevista na Constituição, só pode ter como objetivo preservar a lei — e não promover a sua destruição.
Assim como perdoar a blasfêmia contra o Espírito Santo contribuiria para destruir a autoridade da Lei de Deus diante de seus fiéis; assim como perdoar um falso pai e uma falsa mãe por atos violentos cometidos contra os seus filhos contribuiria para destruir a autoridade da lei da família diante da comunidade, anistiar pessoas que arrogantemente desafiam a autoridade do Estado, ou seja, das pessoas competentes para conceder a anistia, contribuiria para destruir a autoridade da Constituição e do estado democrático de direito brasileiro. Na verdade, essa proposta de lei de anistia não passa de uma proposta de lei do golpe.
Subterrâneos das redes sociais revelam riscos à sociedade
Três homens foram presos no Domingo de Páscoa. Planejavam matar um morador de rua, no Rio, e transmitir o crime ao vivo pela rede Discord. A notícia passou um pouco batida. Para mim, que acompanho algumas pesquisas, como as de Michele Prado sobre extremismo na internet, foi mais um sinal do tenebroso subterrâneo das redes sociais.
Por coincidência, um órgão da ONU, o Instituto Inter-Regional de Pesquisa sobre Crime e Justiça das Nações Unidas (Unicri), lançou um documento sobre o abuso das tecnologias digitais, focando na América Latina, África e Ásia. É um texto de 84 páginas que recomenda aumentar o investimento em investigações, a intensidade das pesquisas e a responsabilidade das big techs.
Os esforços de pesquisa sobre extremismo sempre se concentraram no Oriente Médio. As lentes se voltam para outros cantos. Ficamos sabendo de organizações de extrema esquerda, como a Individualistas que Tendem ao Selvagem, que atua no México. O texto passa também por supremacistas brancos da África do Sul e organizações na Índia voltadas para defender a “essência” do hinduísmo.
O Brasil tem destaque no relatório. Somos um país muito presente na internet, espaço onde se articulam os crimes que passam por atentados em escolas, assassinatos e outros típicos da rede, como o ataque DDoS, que consiste em inundar com chamadas um endereço para que pare de funcionar.
O destaque brasileiro no relatório é uma organização chamada Nova Resistência Duginista. Quase totalmente desconhecida da mídia, é uma organização muito falada no mundo clandestino. Ela diz seguir os ensinamentos de Alexander Dugin, intelectual russo cujo livro mais conhecido se chama “A quarta teoria política”. Ele defende a expansão do poderio russo e propõe um novo tipo de fascismo revolucionário, que poderia também encontrar algum eco na extrema esquerda preocupada em destruir o sistema.
A Nova Resistência recrutou nas redes voluntários para lutar ao lado dos russos contra a Ucrânia. Foi acusada pelos Estados Unidos de disseminar fake news em favor da Rússia. Essas organizações atuam na internet com dispositivos de comunicação interna e externa. Usam crowdfunding para se financiar e trabalham também com criptomoedas. Os textos da Nova Resistência afirmam que a organização levou brasileiros para Donbass, na Ucrânia, com fins humanitários e jornalísticos, e que atua de acordo com as leis brasileiras.
Esse é o lado mais intelectualizado. Há aspectos mais abertamente violentos nos subterrâneos das redes. São grupos que atuam em plataformas menores, mas constantemente enveredam pelo TikTok.
Um deles se intitula Ordem dos Nove Ângulos e propaga a violência de forma irrestrita, inclusive automutilação. O instrumento de trabalho também são os games. O Center on Extremism da Liga Antidifamação identificou, recentemente, uma grave ameaça na plataforma Roblox. Um grupo chamado Active Shooter Studios cria jogos para a Roblox simulando massacres escolares reais, como o de Columbine, e atentados com motivação racista. A ideia é se colocar no papel de atirador ou de vítima, com gritos, sangue e simulação de suicídio.
As organizações abordadas pelo relatório da ONU são principalmente as que têm mensagem política, como o fascismo da Nova Resistência, a supremacia branca dos sul-africanos, o hinduísmo radical na Índia. No subterrâneo atuam grupos com uma mensagem de pura violência como a True Crime Community. Funcionam na verdade como porta de entrada para todas as ideologias que propõem o colapso social pela violência.
No Brasil, há vigilância social por meio de sites como o Stop Hate Brasil e estruturas de investigação na Polícia Federal e em alguns estados. Tudo ainda é muito pouco para dar conta desse universo subterrâneo, mas em contato permanente com a superfície onde as big techs investem pouco no controle e, em certos casos, mal compreendem outro idioma que não seja o inglês.
Por coincidência, um órgão da ONU, o Instituto Inter-Regional de Pesquisa sobre Crime e Justiça das Nações Unidas (Unicri), lançou um documento sobre o abuso das tecnologias digitais, focando na América Latina, África e Ásia. É um texto de 84 páginas que recomenda aumentar o investimento em investigações, a intensidade das pesquisas e a responsabilidade das big techs.
Os esforços de pesquisa sobre extremismo sempre se concentraram no Oriente Médio. As lentes se voltam para outros cantos. Ficamos sabendo de organizações de extrema esquerda, como a Individualistas que Tendem ao Selvagem, que atua no México. O texto passa também por supremacistas brancos da África do Sul e organizações na Índia voltadas para defender a “essência” do hinduísmo.
O Brasil tem destaque no relatório. Somos um país muito presente na internet, espaço onde se articulam os crimes que passam por atentados em escolas, assassinatos e outros típicos da rede, como o ataque DDoS, que consiste em inundar com chamadas um endereço para que pare de funcionar.
O destaque brasileiro no relatório é uma organização chamada Nova Resistência Duginista. Quase totalmente desconhecida da mídia, é uma organização muito falada no mundo clandestino. Ela diz seguir os ensinamentos de Alexander Dugin, intelectual russo cujo livro mais conhecido se chama “A quarta teoria política”. Ele defende a expansão do poderio russo e propõe um novo tipo de fascismo revolucionário, que poderia também encontrar algum eco na extrema esquerda preocupada em destruir o sistema.
A Nova Resistência recrutou nas redes voluntários para lutar ao lado dos russos contra a Ucrânia. Foi acusada pelos Estados Unidos de disseminar fake news em favor da Rússia. Essas organizações atuam na internet com dispositivos de comunicação interna e externa. Usam crowdfunding para se financiar e trabalham também com criptomoedas. Os textos da Nova Resistência afirmam que a organização levou brasileiros para Donbass, na Ucrânia, com fins humanitários e jornalísticos, e que atua de acordo com as leis brasileiras.
Esse é o lado mais intelectualizado. Há aspectos mais abertamente violentos nos subterrâneos das redes. São grupos que atuam em plataformas menores, mas constantemente enveredam pelo TikTok.
Um deles se intitula Ordem dos Nove Ângulos e propaga a violência de forma irrestrita, inclusive automutilação. O instrumento de trabalho também são os games. O Center on Extremism da Liga Antidifamação identificou, recentemente, uma grave ameaça na plataforma Roblox. Um grupo chamado Active Shooter Studios cria jogos para a Roblox simulando massacres escolares reais, como o de Columbine, e atentados com motivação racista. A ideia é se colocar no papel de atirador ou de vítima, com gritos, sangue e simulação de suicídio.
As organizações abordadas pelo relatório da ONU são principalmente as que têm mensagem política, como o fascismo da Nova Resistência, a supremacia branca dos sul-africanos, o hinduísmo radical na Índia. No subterrâneo atuam grupos com uma mensagem de pura violência como a True Crime Community. Funcionam na verdade como porta de entrada para todas as ideologias que propõem o colapso social pela violência.
No Brasil, há vigilância social por meio de sites como o Stop Hate Brasil e estruturas de investigação na Polícia Federal e em alguns estados. Tudo ainda é muito pouco para dar conta desse universo subterrâneo, mas em contato permanente com a superfície onde as big techs investem pouco no controle e, em certos casos, mal compreendem outro idioma que não seja o inglês.
Isto é simples
Muda é a força (me dizem as árvores)
e a profundidade (me dizem as raízes)
e a pureza (me diz o trigo).
Nenhuma árvore me disse:
“Sou mais alta que todas”.
Nenhuma raiz me disse:
“Eu venho de mais fundo”.
E nunca o pão me disse:
“Não há nada como o pão”.
João Guimarães Rosa
e a profundidade (me dizem as raízes)
e a pureza (me diz o trigo).
Nenhuma árvore me disse:
“Sou mais alta que todas”.
Nenhuma raiz me disse:
“Eu venho de mais fundo”.
E nunca o pão me disse:
“Não há nada como o pão”.
João Guimarães Rosa
O papa Francisco e a extrema direita no catolicismo
Sem dúvida, o papado de Francisco foi um grande contraponto à ascensão de lideranças de extrema direita e regimes autoritários. Seu legado para a Igreja Católica e para o mundo foi de extrema importância para a defesa das igualdades e para a ampliação das vozes do Sul Global dentro da Igreja, vindas da Ásia, África e América Latina.
Atualmente, a América Latina está na liderança no número de fiéis com mais de 40% dos católicos do mundo, e o Brasil segue sendo o país com o maior número absoluto, com 182 milhões devotos, o maior rebanho do mundo.
Não à toa, dentre os líderes religiosos mais influentes do país estão padres católicos. O padre Fábio de Melo é o mais popular de todos, com 26 milhões de seguidores no Instagram, seguido pelo padre Marcelo Rossi, com 10,3 milhões, mesmo número de seguidores do perfil oficial do papa Francisco.
Porém, ao contrário do papa Francisco, Fábio de Melo e Marcelo Rossi jamais se posicionaram abertamente contra o crescimento da extrema direita no país. Sem citar nomes, o papa disse, durante as eleições de 2022: "Peço a Nossa Senhora Aparecida que proteja e cuide do povo brasileiro, que o livre do ódio, da intolerância e da violência", causando descontentamento entre eleitores do ex-presidente de extrema direita.
É justamente a oposição aberta ao papa Francisco que aglutinou e mobilizou setores da extrema direita católica no país nos últimos anos. De acordo com o teólogo Venâncio Romero, professor da Universidade Federal do Sergipe, a expansão das redes sociais, em conjunto com o abandono da formação de base e da piora da qualidade da preparação do clero brasileiro, influenciou a popularização da extrema direita católica no país e a atração de padres pelo tradicionalismo.
Para além de figuras populares nas redes sociais, como o padre Paulo Ricardo, que já soma 2,5 milhões de seguidores no Instagram, movimentos como os Arautos do Evangelho vêm crescendo rapidamente. Fundado em 1999 por João Clá Dias, o grupo está ligado à Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade, mais conhecida como TFP, que atuou em prol do golpe de 1964 e da ditadura militar no país.
Em 2011, os Arautos passaram a ser uma associação com caráter pontifício, aceitos pelo papa Bento 16 em 2011, mas que estavam sob intervenção do papa Francisco por conta do tratamento dispensado a seus internos. Os jovens que integram os Arautos do Evangelho usam pesadas vestes medievais a despeito do clima tropical e já foram alvo de agressões físicas, verbais, assédio sexual, alienação parental, tortura, estupro e até homicídio, segundo uma série de denúncias junto à Igreja e à Justiça brasileira.
Porém, a ampla exposição negativa na mídia e o conflito com o Vaticano parecem não ter tido maior impacto na atuação dos Arautos, que hoje já possuem 3.000 membros e já se espalharam por mais de 70 países.
No clima político atual, o crescimento de seitas como os Arautos do Evangelho tornou-se uma questão séria a ser enfrentada pela Igreja e pela sociedade. E a escolha do próximo papa pode fazer a diferença entre um futuro mais ou menos parecido com a distopia escrita por Margaret Atwood, "O Conto de Aia". Basta uma visita à sede dos Arautos do Evangelho para confirmar que a comparação está longe de ser exagerada.
Atualmente, a América Latina está na liderança no número de fiéis com mais de 40% dos católicos do mundo, e o Brasil segue sendo o país com o maior número absoluto, com 182 milhões devotos, o maior rebanho do mundo.
Não à toa, dentre os líderes religiosos mais influentes do país estão padres católicos. O padre Fábio de Melo é o mais popular de todos, com 26 milhões de seguidores no Instagram, seguido pelo padre Marcelo Rossi, com 10,3 milhões, mesmo número de seguidores do perfil oficial do papa Francisco.
Porém, ao contrário do papa Francisco, Fábio de Melo e Marcelo Rossi jamais se posicionaram abertamente contra o crescimento da extrema direita no país. Sem citar nomes, o papa disse, durante as eleições de 2022: "Peço a Nossa Senhora Aparecida que proteja e cuide do povo brasileiro, que o livre do ódio, da intolerância e da violência", causando descontentamento entre eleitores do ex-presidente de extrema direita.
É justamente a oposição aberta ao papa Francisco que aglutinou e mobilizou setores da extrema direita católica no país nos últimos anos. De acordo com o teólogo Venâncio Romero, professor da Universidade Federal do Sergipe, a expansão das redes sociais, em conjunto com o abandono da formação de base e da piora da qualidade da preparação do clero brasileiro, influenciou a popularização da extrema direita católica no país e a atração de padres pelo tradicionalismo.
Para além de figuras populares nas redes sociais, como o padre Paulo Ricardo, que já soma 2,5 milhões de seguidores no Instagram, movimentos como os Arautos do Evangelho vêm crescendo rapidamente. Fundado em 1999 por João Clá Dias, o grupo está ligado à Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade, mais conhecida como TFP, que atuou em prol do golpe de 1964 e da ditadura militar no país.
Em 2011, os Arautos passaram a ser uma associação com caráter pontifício, aceitos pelo papa Bento 16 em 2011, mas que estavam sob intervenção do papa Francisco por conta do tratamento dispensado a seus internos. Os jovens que integram os Arautos do Evangelho usam pesadas vestes medievais a despeito do clima tropical e já foram alvo de agressões físicas, verbais, assédio sexual, alienação parental, tortura, estupro e até homicídio, segundo uma série de denúncias junto à Igreja e à Justiça brasileira.
Porém, a ampla exposição negativa na mídia e o conflito com o Vaticano parecem não ter tido maior impacto na atuação dos Arautos, que hoje já possuem 3.000 membros e já se espalharam por mais de 70 países.
No clima político atual, o crescimento de seitas como os Arautos do Evangelho tornou-se uma questão séria a ser enfrentada pela Igreja e pela sociedade. E a escolha do próximo papa pode fazer a diferença entre um futuro mais ou menos parecido com a distopia escrita por Margaret Atwood, "O Conto de Aia". Basta uma visita à sede dos Arautos do Evangelho para confirmar que a comparação está longe de ser exagerada.
Mao, Trump e a confusão sob os céus
Se bem observarmos, nem tão amalucada assim é a insólita aproximação entre Mao Zedong e Donald Trump, que diferentes observadores passaram a fazer. “Há uma grande confusão sob os céus, a situação está excelente” – sob este lema paradoxal, o primeiro daqueles dois se lançou à destruição das velharias que supostamente atravancavam o processo revolucionário em seu país na década de 1960. Trump, o seguidor inesperado, esmera-se hoje em lançar sua própria versão do caos: uma espécie de guerra econômica de todos contra todos, esperando com isso refazer unilateralmente a primazia norte-americana, com base no medo e na chantagem.
Em ambos os casos, o pressuposto da ação política vem a ser uma revolução cultural que não deve deixar pedra sobre pedra. A burocracia do partido e do Estado chinês era o inimigo declarado do voluntarismo extremado de Mao, tal como, agora, o deep State se tornou o alvo do radicalizado partido trumpista. Assim, China e Estados Unidos voltam a ocupar a atenção geral, ainda que com sinal invertido. Antes, a China do camarada Mao pretendia ocupar o posto de vanguarda da revolução comunista, com o cerco das cidades (capitalistas) pelo mundo rural sublevado. Neste momento, contudo, revolucionária seria a América ultraconservadora, com o projeto de fazer retroagir a roda da História e moldar o mundo à imagem e semelhança de um passado irretocável – e inexistente.
Certa de que o século 21 será mais cedo ou mais tarde asiático, a China age, calcula e enriquece com sabedoria, valendo-se das regras do jogo até há pouco jogado para realizar, desta vez com inegável êxito, seu grande salto para a frente. A arrancada econômica serve de biombo ou álibi, para esconder o evidente déficit democrático.
Estimula, ainda, a noção de um Ocidente em declínio, com sociedades irremediavelmente dilaceradas e grupos dirigentes particularmente incapazes de se moverem num contexto de “policrise”, para usar a inquietante expressão de Adam Tooze.
Mais nebulosa, porém, é a certeza de que uma ambição hegemônica, no sentido alto do termo, possa se concretizar a partir de uma sociedade controlada digitalmente por um partido único totalizante e onipotente como poucos. Um sistema de “créditos sociais”, atribuídos a cada indivíduo, tem o potencial de degenerar rapidamente em controle e repressão aberta ou silenciosa, com um desfecho de tipo orwelliano – se é que já não degenerou. A tímida liberalização chinesa estancou com a ascensão de Xi Jinping, o strongman requerido por estruturas sociais desta natureza, tão ou mais poderoso do que Mao a seu tempo.
A sedução dos strongmen também habita corações e mentes da extrema direita ocidental. É preciso qualificar um pouco mais o caos que ela celebra e em que prospera.
Impressiona antes de mais nada o tom apocalíptico usado por Trump – a figura típica por excelência – para descrever a realidade que percebe no seu país. Invadidos por imigrantes indesejáveis e manipulados pelo inimigo interno, que toma corpo em intelectuais, professores e demais camadas e classes de orientação cosmopolita, os Estados Unidos são ainda por cima sistematicamente espoliados e oprimidos por todos os demais países, aliados ou não, numa espécie de imperialismo às avessas. Trata-se, por isso, de mobilizar a enorme e confusa massa de ressentimentos contra um ambiente visto como universalmente hostil.
A economia, por exemplo, deve voltar a produzir bens palpáveis e empregar mão de obra masculina, de baixa qualificação relativa. A revolução dos costumes, que altera papéis tradicionais, é vivida como fonte de decadência moral e corrosão de valores. O líder tem, ou afirma ter, procuração para simplificar autoritariamente a complexidade da sociedade civil e as mediações institucionais da sociedade política, buscando a concentração de poderes. Neste ponto – Orwell de novo –, ignorância é força, as universidades são cerceadas, as pesquisas reprimidas, as liberdades públicas golpeadas – em detrimento, inclusive, do homem comum, o suposto beneficiário deste conjunto de arbitrariedades que se acumulam e terminam por anulara riqueza das formas ocidentais de vida.
Homens fortes se entendem e até se respeitam à sua maneira, por mais diversas que sejam as motivações, os contextos de origem e os antagonismos, que encenam ou realmente vivem. Entre Trump, Xi e Putin(o sócio menor que os dois primeiros disputam, coma óbvia vantagem de Xi), há um fio que os liga, uma secreta correspondência de que alternadamente se socorrem em benefício pessoal ou dos sistemas de poder que encarnam. Por trás da guerra comercial desatada e dos conflitos militares correntes ou potenciais, existe, na verdade, uma grande questão democrática a ser enfrentada e desenvolvida. Para tanto, os democratas e a própria democracia deverão saber se reinventar sob fogo cerrado, reafirmando tanto quanto possível sua vocação cosmopolita e retomando contato com medos e esperanças da gente comum, hoje demagogicamente explorados em sentido regressista.
Em ambos os casos, o pressuposto da ação política vem a ser uma revolução cultural que não deve deixar pedra sobre pedra. A burocracia do partido e do Estado chinês era o inimigo declarado do voluntarismo extremado de Mao, tal como, agora, o deep State se tornou o alvo do radicalizado partido trumpista. Assim, China e Estados Unidos voltam a ocupar a atenção geral, ainda que com sinal invertido. Antes, a China do camarada Mao pretendia ocupar o posto de vanguarda da revolução comunista, com o cerco das cidades (capitalistas) pelo mundo rural sublevado. Neste momento, contudo, revolucionária seria a América ultraconservadora, com o projeto de fazer retroagir a roda da História e moldar o mundo à imagem e semelhança de um passado irretocável – e inexistente.
Certa de que o século 21 será mais cedo ou mais tarde asiático, a China age, calcula e enriquece com sabedoria, valendo-se das regras do jogo até há pouco jogado para realizar, desta vez com inegável êxito, seu grande salto para a frente. A arrancada econômica serve de biombo ou álibi, para esconder o evidente déficit democrático.
Estimula, ainda, a noção de um Ocidente em declínio, com sociedades irremediavelmente dilaceradas e grupos dirigentes particularmente incapazes de se moverem num contexto de “policrise”, para usar a inquietante expressão de Adam Tooze.
Mais nebulosa, porém, é a certeza de que uma ambição hegemônica, no sentido alto do termo, possa se concretizar a partir de uma sociedade controlada digitalmente por um partido único totalizante e onipotente como poucos. Um sistema de “créditos sociais”, atribuídos a cada indivíduo, tem o potencial de degenerar rapidamente em controle e repressão aberta ou silenciosa, com um desfecho de tipo orwelliano – se é que já não degenerou. A tímida liberalização chinesa estancou com a ascensão de Xi Jinping, o strongman requerido por estruturas sociais desta natureza, tão ou mais poderoso do que Mao a seu tempo.
A sedução dos strongmen também habita corações e mentes da extrema direita ocidental. É preciso qualificar um pouco mais o caos que ela celebra e em que prospera.
Impressiona antes de mais nada o tom apocalíptico usado por Trump – a figura típica por excelência – para descrever a realidade que percebe no seu país. Invadidos por imigrantes indesejáveis e manipulados pelo inimigo interno, que toma corpo em intelectuais, professores e demais camadas e classes de orientação cosmopolita, os Estados Unidos são ainda por cima sistematicamente espoliados e oprimidos por todos os demais países, aliados ou não, numa espécie de imperialismo às avessas. Trata-se, por isso, de mobilizar a enorme e confusa massa de ressentimentos contra um ambiente visto como universalmente hostil.
A economia, por exemplo, deve voltar a produzir bens palpáveis e empregar mão de obra masculina, de baixa qualificação relativa. A revolução dos costumes, que altera papéis tradicionais, é vivida como fonte de decadência moral e corrosão de valores. O líder tem, ou afirma ter, procuração para simplificar autoritariamente a complexidade da sociedade civil e as mediações institucionais da sociedade política, buscando a concentração de poderes. Neste ponto – Orwell de novo –, ignorância é força, as universidades são cerceadas, as pesquisas reprimidas, as liberdades públicas golpeadas – em detrimento, inclusive, do homem comum, o suposto beneficiário deste conjunto de arbitrariedades que se acumulam e terminam por anulara riqueza das formas ocidentais de vida.
Homens fortes se entendem e até se respeitam à sua maneira, por mais diversas que sejam as motivações, os contextos de origem e os antagonismos, que encenam ou realmente vivem. Entre Trump, Xi e Putin(o sócio menor que os dois primeiros disputam, coma óbvia vantagem de Xi), há um fio que os liga, uma secreta correspondência de que alternadamente se socorrem em benefício pessoal ou dos sistemas de poder que encarnam. Por trás da guerra comercial desatada e dos conflitos militares correntes ou potenciais, existe, na verdade, uma grande questão democrática a ser enfrentada e desenvolvida. Para tanto, os democratas e a própria democracia deverão saber se reinventar sob fogo cerrado, reafirmando tanto quanto possível sua vocação cosmopolita e retomando contato com medos e esperanças da gente comum, hoje demagogicamente explorados em sentido regressista.
domingo, 27 de abril de 2025
Em 100 dias, o fim de 100 anos de domínio
À medida que o governo Trump inunda a zona do euro com sucessivas mudanças radicais, suas tarifas têm recebido mais atenção. Mas a política que pode acabar custando ainda mais aos EUA a longo prazo é o ataque da Casa Branca às universidades e à pesquisa em geral.
Os EUA lideram o mundo em ciências há tanto tempo que é fácil acreditar que este recurso sempre foi uma das forças naturais do país. Na realidade, no século 19 e no início do século 20, Washington foi mais seguidor do que líder. Industriais britânicos frequentemente reclamavam que empresas americanas lhes roubavam tecnologias e violavam suas patentes. Nas primeiras décadas do século 20, o país que conquistou o maior número de Prêmios Nobel em Ciências foi a Alemanha – com um terço de todas as premiações. Em seguida, veio o Reino Unido, com quase 20%. Os EUA receberam apenas 6% dos Prêmios Nobel em Ciências.
Três forças poderosas transformaram o cenário científico em meados do século 20. A primeira foi Adolf Hitler, que levou uma geração das melhores mentes científicas da Europa – muitas delas judias – a buscar refúgio nos EUA (cerca de um quarto dos laureados com o Nobel em Ciências pela Alemanha até 1932 era de judeus, enquanto menos de 1% da população alemã era judia). Muitos desses cientistas vieram para os EUA e constituíram a espinha dorsal do establishment científico americano. Após a reforma imigratória de 1965, os EUA continuaram a atrair as melhores mentes do mundo, muitas da China e da Índia, que vinham estudar, ficavam e erguiam laboratórios de pesquisa e empresas de tecnologia.
GUERRAS. As duas guerras mundiais foram a segunda força. Em 1945, o Reino Unido, a França e, principalmente, a Alemanha estavam devastados, com milhões de cidadãos mortos, cidades reduzidas a escombros e governos incapacitados por montanhas de dívidas. A União Soviética saiu-se vitoriosa da 2.ª Guerra, mas perdeu cerca de 24 milhões de pessoas no conflito. Os EUA, por outro lado, emergiram da guerra com domínio absoluto em termos econômicos, tecnológicos e militares.
A terceira força que impulsionou os EUA foi a decisão visionária do governo americano de se tornar um grande financiador de ciência básica. Durante a década de 50, o gasto total com pesquisa e desenvolvimento nos EUA atingiu quase 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), a maior fatia de gasto com esse tipo de investimento no planeta. E isso foi possível graças à criação de um modelo inovador. Universidades de todo o país, públicas e privadas, competiam por verbas governamentais para pesquisas. O governo federal assinava os cheques, mas não tentava controlar os programas. Essa competição e essa liberdade criaram o establishment científico americano moderno, o mais bem-sucedido da história da humanidade.
Essas três forças estão sendo revertidas. O governo Trump está em guerra com as principais universidades do país, ameaçando-as com mecanismos de controle hostis e retendo bilhões de dólares em financiamento para pesquisas. Os Institutos Nacionais de Saúde e a Fundação Nacional de Ciências, as joias da coroa da ciência americana, estão sendo evisceradas.
CHINA. A segunda vantagem dos EUA, se destacar em relação a todos os países do mundo, obviamente diminuiu desde 1945. Mas vale ressaltar que, na última década, a China se tornou líder mundial em muitas métricas importantes no campo da ciência. A China tem uma participação maior do que os EUA em artigos publicados nos 82 principais periódicos científicos monitorados pelo Nature Index. Em artigos sobre engenharia e tecnologia, a China também está bem à frente dos EUA. Em pedidos de patentes, não há mais competição: a China recebe quase metade de todos os pedidos no mundo. E mesmo em termos de universidades de ponta a China passou de 27 instituições entre as 500 melhores em 2010 para 76 em 2020, segundo uma métrica. Os EUA foram na direção oposta, de 154 para 133.
IMIGRANTES. A vantagem final dos americanos, que a China não conseguiu igualar, é que os EUA atraem os melhores e mais brilhantes indivíduos do mundo. Entre 2000 e 2014, mais de um terço dos americanos que ganharam Prêmios Nobel em Ciências era imigrante. Em 2019, quase 40% de todos os desenvolvedores de software eram imigrantes e, nos principais centros de câncer, em 2015, a porcentagem de imigrantes variava entre cerca de 30% (no Fred Hutchinson) e 62% (no MD Anderson).
Mas isso está mudando rapidamente. Centenas de vistos estão sendo revogados, estudantes estão sendo detidos para ser deportados e estudantes de pós-graduação e pesquisadores chineses agora estão diante da perspectiva de ser foco de constantes investigações do FBI. A China criou incentivos generosos para receber seus melhores e mais brilhantes indivíduos de volta ao país. Muitos outros estão optando por ir para outros lugares – como Europa, Canadá e Austrália. No mês passado, a revista Nature perguntou a leitores pesquisadores americanos se eles estavam pensando em deixar o país. Dos mais de 1,6 mil que responderam, impressionantes 75% disseram que consideravam a ideia.
Estamos falando dos elementos fundamentais da força extraordinária dos EUA, que se formaram ao longo dos últimos 100 anos e agora estão sendo desmantelados em apenas 100 dias.
Os EUA lideram o mundo em ciências há tanto tempo que é fácil acreditar que este recurso sempre foi uma das forças naturais do país. Na realidade, no século 19 e no início do século 20, Washington foi mais seguidor do que líder. Industriais britânicos frequentemente reclamavam que empresas americanas lhes roubavam tecnologias e violavam suas patentes. Nas primeiras décadas do século 20, o país que conquistou o maior número de Prêmios Nobel em Ciências foi a Alemanha – com um terço de todas as premiações. Em seguida, veio o Reino Unido, com quase 20%. Os EUA receberam apenas 6% dos Prêmios Nobel em Ciências.
Três forças poderosas transformaram o cenário científico em meados do século 20. A primeira foi Adolf Hitler, que levou uma geração das melhores mentes científicas da Europa – muitas delas judias – a buscar refúgio nos EUA (cerca de um quarto dos laureados com o Nobel em Ciências pela Alemanha até 1932 era de judeus, enquanto menos de 1% da população alemã era judia). Muitos desses cientistas vieram para os EUA e constituíram a espinha dorsal do establishment científico americano. Após a reforma imigratória de 1965, os EUA continuaram a atrair as melhores mentes do mundo, muitas da China e da Índia, que vinham estudar, ficavam e erguiam laboratórios de pesquisa e empresas de tecnologia.
GUERRAS. As duas guerras mundiais foram a segunda força. Em 1945, o Reino Unido, a França e, principalmente, a Alemanha estavam devastados, com milhões de cidadãos mortos, cidades reduzidas a escombros e governos incapacitados por montanhas de dívidas. A União Soviética saiu-se vitoriosa da 2.ª Guerra, mas perdeu cerca de 24 milhões de pessoas no conflito. Os EUA, por outro lado, emergiram da guerra com domínio absoluto em termos econômicos, tecnológicos e militares.
A terceira força que impulsionou os EUA foi a decisão visionária do governo americano de se tornar um grande financiador de ciência básica. Durante a década de 50, o gasto total com pesquisa e desenvolvimento nos EUA atingiu quase 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), a maior fatia de gasto com esse tipo de investimento no planeta. E isso foi possível graças à criação de um modelo inovador. Universidades de todo o país, públicas e privadas, competiam por verbas governamentais para pesquisas. O governo federal assinava os cheques, mas não tentava controlar os programas. Essa competição e essa liberdade criaram o establishment científico americano moderno, o mais bem-sucedido da história da humanidade.
Essas três forças estão sendo revertidas. O governo Trump está em guerra com as principais universidades do país, ameaçando-as com mecanismos de controle hostis e retendo bilhões de dólares em financiamento para pesquisas. Os Institutos Nacionais de Saúde e a Fundação Nacional de Ciências, as joias da coroa da ciência americana, estão sendo evisceradas.
CHINA. A segunda vantagem dos EUA, se destacar em relação a todos os países do mundo, obviamente diminuiu desde 1945. Mas vale ressaltar que, na última década, a China se tornou líder mundial em muitas métricas importantes no campo da ciência. A China tem uma participação maior do que os EUA em artigos publicados nos 82 principais periódicos científicos monitorados pelo Nature Index. Em artigos sobre engenharia e tecnologia, a China também está bem à frente dos EUA. Em pedidos de patentes, não há mais competição: a China recebe quase metade de todos os pedidos no mundo. E mesmo em termos de universidades de ponta a China passou de 27 instituições entre as 500 melhores em 2010 para 76 em 2020, segundo uma métrica. Os EUA foram na direção oposta, de 154 para 133.
IMIGRANTES. A vantagem final dos americanos, que a China não conseguiu igualar, é que os EUA atraem os melhores e mais brilhantes indivíduos do mundo. Entre 2000 e 2014, mais de um terço dos americanos que ganharam Prêmios Nobel em Ciências era imigrante. Em 2019, quase 40% de todos os desenvolvedores de software eram imigrantes e, nos principais centros de câncer, em 2015, a porcentagem de imigrantes variava entre cerca de 30% (no Fred Hutchinson) e 62% (no MD Anderson).
Mas isso está mudando rapidamente. Centenas de vistos estão sendo revogados, estudantes estão sendo detidos para ser deportados e estudantes de pós-graduação e pesquisadores chineses agora estão diante da perspectiva de ser foco de constantes investigações do FBI. A China criou incentivos generosos para receber seus melhores e mais brilhantes indivíduos de volta ao país. Muitos outros estão optando por ir para outros lugares – como Europa, Canadá e Austrália. No mês passado, a revista Nature perguntou a leitores pesquisadores americanos se eles estavam pensando em deixar o país. Dos mais de 1,6 mil que responderam, impressionantes 75% disseram que consideravam a ideia.
Estamos falando dos elementos fundamentais da força extraordinária dos EUA, que se formaram ao longo dos últimos 100 anos e agora estão sendo desmantelados em apenas 100 dias.
Precisamos dar voz aos invisíveis
Nos últimos meses, venho liderando uma ampla pesquisa que investiga a natureza da polarização política no Brasil. Aproveito o espaço desta coluna para compartilhar alguns entendimentos e resultados preliminares desse trabalho, que ajudam a desenhar um retrato mais preciso do conflito que atravessa nossa sociedade.
A polarização política parece envolver toda a sociedade, mas o antagonismo, na verdade, é puxado por pequenas minorias, grupos ativistas de no máximo 5% da população, ladeados por segmentos “semiativistas”, que compõem outros 15%. Entre esses dois polos, há uma grande maioria silenciosa, silenciada, de aproximadamente 60% do Brasil — são os invisíveis.Essa maioria — moderada e um pouco desinteressada de política — se torna invisível pela agitação ativista dos polos nas mídias sociais, que terminam se fazendo passar pelo todo. Quando dividimos mentalmente o Brasil entre petistas e bolsonaristas, não apenas representamos o país de maneira imprecisa, mas bloqueamos também qualquer discussão de propostas matizadas e independentes, porque acreditamos que não contemplariam grupos que erroneamente acreditamos majoritários.
No entanto, mesmo nos temas divisivos das guerras culturais, há mais antagonismo afetivo — hostilidade pelo adversário —do que propriamente divergência de opinião. Embora os grupos antagônicos se imaginem radicalmente diferentes, eles muitas vezes secretamente convergem. Progressistas e conservadores razoavelmente convergem no respeito às mulheres e na defesa da família — ao mesmo tempo que conservadores desconfiam e desgostam das feministas, e progressistas desconfiam e desgostam dos conservadores. O que afasta os dois grupos não é tanto a divergência, mas a animosidade contra o grupo adversário, uma animosidade que tende à violência.
O polo conservador é um pouco maior e demograficamente mais próximo do Brasil médio: pardo e com escolaridade de ensino médio. O polo progressista, embora se veja como porta-voz dos grupos oprimidos, é muito mais branco, muito mais escolarizado, muito mais sudestino e muito mais rico que o resto do país. Não se trata apenas de uma contradição entre o conteúdo do discurso progressista e a condição social de quem o enuncia. Essas características demográficas são a base material de sustentação ao discurso populista conservador que apresenta as elites intelectuais como alienadas, empenhadas em predicar para um povo majoritariamente conservador.
Como atribuem ao progressismo o domínio do establishment e dos aparelhos culturais, os conservadores têm muito pouca confiança em instituições como a Justiça, as universidades públicas e a grande imprensa. O inverso é verdadeiro: os progressistas, que outrora se viam como revolucionários, se acomodaram na defesa do statu quo.
Não devemos confundir a polarização política com a disputa eleitoral. Elas influenciam uma à outra, mas são essencialmente diferentes. A liderança do presidente Lula amplia muito o apelo eleitoral da esquerda, para além do progressismo. A memória das melhorias econômicas passadas faz com que parte do eleitorado conservador vote em Lula. Quando o presidente finalmente deixar o jogo eleitoral, deveremos ver com mais frequência o antagonismo eleitoral entre elites urbanas escolarizadas e o povo comum, a que assistimos nas eleições municipais do Rio e de São Paulo, com Marcelo Freixo e Guilherme Boulos. Apesar disso, sempre que a esquerda apelar para o discurso da proteção social, poderá equilibrar o jogo eleitoral.
Há ainda muito a estudar, mas os resultados iniciais impõem uma agenda. Nosso desafio é dar visibilidade à maioria silenciosa, ainda não polarizada, e resgatar o espaço dos consensos possíveis, abafados pelo barulho das margens. Se não conseguirmos desarmar o antagonismo afetivo entre esses pequenos grupos, corremos o risco de assistir a uma espiral crescente de hostilidade que pode precipitar o país na violência política — ou na ruptura institucional.
A polarização política parece envolver toda a sociedade, mas o antagonismo, na verdade, é puxado por pequenas minorias, grupos ativistas de no máximo 5% da população, ladeados por segmentos “semiativistas”, que compõem outros 15%. Entre esses dois polos, há uma grande maioria silenciosa, silenciada, de aproximadamente 60% do Brasil — são os invisíveis.Essa maioria — moderada e um pouco desinteressada de política — se torna invisível pela agitação ativista dos polos nas mídias sociais, que terminam se fazendo passar pelo todo. Quando dividimos mentalmente o Brasil entre petistas e bolsonaristas, não apenas representamos o país de maneira imprecisa, mas bloqueamos também qualquer discussão de propostas matizadas e independentes, porque acreditamos que não contemplariam grupos que erroneamente acreditamos majoritários.
A divisão da sociedade brasileira, induzida pelos polos, está concentrada nos temas das guerras culturais, batalhas em torno dos valores morais relacionados à família e à sexualidade. Sob essas disputas, há blocos de quase consenso em torno do papel do Estado, da punição a criminosos e do combate ao racismo. Há amplo consenso de que o Estado deve prover serviços públicos, mas divergimos cada vez mais sobre temas como o ensino de questões de gênero nas escolas e o direito de portar armas.
No entanto, mesmo nos temas divisivos das guerras culturais, há mais antagonismo afetivo — hostilidade pelo adversário —do que propriamente divergência de opinião. Embora os grupos antagônicos se imaginem radicalmente diferentes, eles muitas vezes secretamente convergem. Progressistas e conservadores razoavelmente convergem no respeito às mulheres e na defesa da família — ao mesmo tempo que conservadores desconfiam e desgostam das feministas, e progressistas desconfiam e desgostam dos conservadores. O que afasta os dois grupos não é tanto a divergência, mas a animosidade contra o grupo adversário, uma animosidade que tende à violência.
O polo conservador é um pouco maior e demograficamente mais próximo do Brasil médio: pardo e com escolaridade de ensino médio. O polo progressista, embora se veja como porta-voz dos grupos oprimidos, é muito mais branco, muito mais escolarizado, muito mais sudestino e muito mais rico que o resto do país. Não se trata apenas de uma contradição entre o conteúdo do discurso progressista e a condição social de quem o enuncia. Essas características demográficas são a base material de sustentação ao discurso populista conservador que apresenta as elites intelectuais como alienadas, empenhadas em predicar para um povo majoritariamente conservador.
Como atribuem ao progressismo o domínio do establishment e dos aparelhos culturais, os conservadores têm muito pouca confiança em instituições como a Justiça, as universidades públicas e a grande imprensa. O inverso é verdadeiro: os progressistas, que outrora se viam como revolucionários, se acomodaram na defesa do statu quo.
Não devemos confundir a polarização política com a disputa eleitoral. Elas influenciam uma à outra, mas são essencialmente diferentes. A liderança do presidente Lula amplia muito o apelo eleitoral da esquerda, para além do progressismo. A memória das melhorias econômicas passadas faz com que parte do eleitorado conservador vote em Lula. Quando o presidente finalmente deixar o jogo eleitoral, deveremos ver com mais frequência o antagonismo eleitoral entre elites urbanas escolarizadas e o povo comum, a que assistimos nas eleições municipais do Rio e de São Paulo, com Marcelo Freixo e Guilherme Boulos. Apesar disso, sempre que a esquerda apelar para o discurso da proteção social, poderá equilibrar o jogo eleitoral.
Há ainda muito a estudar, mas os resultados iniciais impõem uma agenda. Nosso desafio é dar visibilidade à maioria silenciosa, ainda não polarizada, e resgatar o espaço dos consensos possíveis, abafados pelo barulho das margens. Se não conseguirmos desarmar o antagonismo afetivo entre esses pequenos grupos, corremos o risco de assistir a uma espiral crescente de hostilidade que pode precipitar o país na violência política — ou na ruptura institucional.
Obrigado, Francisco: Se Papa pareceu radical, problema é do mundo de hoje
Quando o papa Francisco dizia que é impossível ser cristão e não dar prioridade aos excluídos, só estava citando o fundador da empresa milenar de que foi CEO nos últimos 12 anos.
Mesmo o então cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento 16), em seu combate à Teologia da Libertação, deixava claro que "o escândalo das gritantes desigualdades entre ricos e pobres – quer se trate de desigualdades entre países ricos e países pobres, ou de desigualdades entre camadas sociais dentro de um mesmo território nacional – já não é tolerado" ("Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação", 1984).
Não é coincidência que tenha vindo da América Latina, a região mais desigual da cristandade moderna, um papa que desse prioridade à luta contra esse escândalo específico.
Francisco também promoveu um salto na reflexão católica sobre o meio ambiente, que papas recentes (citados na encíclica) já vinham enfatizando.
Contra os que interpretam a instrução de Gênesis 1:28 como licença para o homem fazer o que quiser com a natureza, a Laudato Si lembra que Deus colocou o homem no Éden "para cultivá-lo e guardá-lo" (Gênesis 2:15). O documento final do Sínodo da Amazônia terminou com um apelo a "Maria, mãe da Amazônia", para que "a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo chegue a todos, especialmente aos pobres", e para que a igreja tenha "rosto amazônico" e "saída missionária".
Francisco também realizou um ajuste pequeno, mas importante, na discussão da igreja sobre a comunidade LGBT. Admitiu a possibilidade de padres católicos abençoarem casais LGBT e casais formados por pessoas divorciadas. Em repetidos pronunciamentos, pediu que os católicos não julgassem os LGBT, mas procurassem antes de tudo amá-los.
Não foi a aceitação plena dos LGBT que católicos de esquerda como eu desejariam. Mas foi importantíssimo por mostrar qual exatamente é o tamanho dessa questão dentro do cristianismo. Quando Francisco disse "quem sou eu para julgar?" sobre os homossexuais, não estava se declarando incapaz de condenar algo que, oficialmente, ainda é pecado. Afinal, Francisco julgou muita coisa: a miséria, a degradação ambiental, a desigualdade.
Estava tirando o foco de uma pauta que ocupa um lugar completamente desproporcional no discurso de movimentos políticos que se dizem cristãos. A homofobia como política funciona porque vende ao eleitor uma forma de se afirmar cristão condenando o desejo dos outros, não o próprio. E os LGBT são convenientemente minoritários na sociedade, de modo que o voto que se ganha entre a maioria hipócrita mais do que compensa o voto que se perde na minoria perseguida.
A maior parte da Bíblia é sobre pecados que todos cometemos, mas é difícil se eleger lutando contra os pecados da maioria. É melhor mentir, como faz a bancada fundamentalista, que a Bíblia é basicamente um livro falando mal da Pabllo Vittar.
Francisco fez uma bem-vinda mudança de foco para os pecados da maioria, o consumismo, a indiferença diante da miséria, a depredação da criação. Defendeu os pobres, e os mais pobres entre os pobres; os excluídos, e os mais excluídos entre os excluídos. É o que o Evangelho manda fazer. Se isso pareceu radical no mundo de hoje, o problema é do mundo de hoje.
Mesmo o então cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento 16), em seu combate à Teologia da Libertação, deixava claro que "o escândalo das gritantes desigualdades entre ricos e pobres – quer se trate de desigualdades entre países ricos e países pobres, ou de desigualdades entre camadas sociais dentro de um mesmo território nacional – já não é tolerado" ("Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação", 1984).
Não é coincidência que tenha vindo da América Latina, a região mais desigual da cristandade moderna, um papa que desse prioridade à luta contra esse escândalo específico.
Francisco também promoveu um salto na reflexão católica sobre o meio ambiente, que papas recentes (citados na encíclica) já vinham enfatizando.
Contra os que interpretam a instrução de Gênesis 1:28 como licença para o homem fazer o que quiser com a natureza, a Laudato Si lembra que Deus colocou o homem no Éden "para cultivá-lo e guardá-lo" (Gênesis 2:15). O documento final do Sínodo da Amazônia terminou com um apelo a "Maria, mãe da Amazônia", para que "a vida plena que Jesus veio trazer ao mundo chegue a todos, especialmente aos pobres", e para que a igreja tenha "rosto amazônico" e "saída missionária".
Francisco também realizou um ajuste pequeno, mas importante, na discussão da igreja sobre a comunidade LGBT. Admitiu a possibilidade de padres católicos abençoarem casais LGBT e casais formados por pessoas divorciadas. Em repetidos pronunciamentos, pediu que os católicos não julgassem os LGBT, mas procurassem antes de tudo amá-los.
Não foi a aceitação plena dos LGBT que católicos de esquerda como eu desejariam. Mas foi importantíssimo por mostrar qual exatamente é o tamanho dessa questão dentro do cristianismo. Quando Francisco disse "quem sou eu para julgar?" sobre os homossexuais, não estava se declarando incapaz de condenar algo que, oficialmente, ainda é pecado. Afinal, Francisco julgou muita coisa: a miséria, a degradação ambiental, a desigualdade.
Estava tirando o foco de uma pauta que ocupa um lugar completamente desproporcional no discurso de movimentos políticos que se dizem cristãos. A homofobia como política funciona porque vende ao eleitor uma forma de se afirmar cristão condenando o desejo dos outros, não o próprio. E os LGBT são convenientemente minoritários na sociedade, de modo que o voto que se ganha entre a maioria hipócrita mais do que compensa o voto que se perde na minoria perseguida.
A maior parte da Bíblia é sobre pecados que todos cometemos, mas é difícil se eleger lutando contra os pecados da maioria. É melhor mentir, como faz a bancada fundamentalista, que a Bíblia é basicamente um livro falando mal da Pabllo Vittar.
Francisco fez uma bem-vinda mudança de foco para os pecados da maioria, o consumismo, a indiferença diante da miséria, a depredação da criação. Defendeu os pobres, e os mais pobres entre os pobres; os excluídos, e os mais excluídos entre os excluídos. É o que o Evangelho manda fazer. Se isso pareceu radical no mundo de hoje, o problema é do mundo de hoje.
Alianças entre a extrema-direita e o agronegócio ameaçam o planeta
A posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, no início deste ano, reacendeu debates que partem de suas alianças com os bilionários das Big Techs, a exemplo de Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Elon Musk – este último que se referiu a posse do atual presidente como um “ponto de virada para a civilização humana” -, como também em relação às políticas racistas contra imigrantes que se estendem para o chamado “ecofascismo”. Entre as principais discussões da política trumpista está a sua postura em relação à emergência climática, marcada por discursos que incentivam a exploração de petróleo e gás, a expansão de mineradoras e a reformulação de políticas ambientais que favorecem as grandes corporações.
O ecofascismo ganha espaço à medida que o colapso ambiental é reconhecido por segmentos da extrema-direita como uma oportunidade de reorganizar a sociedade sob lógicas autoritárias. Combinando discursos ambientalistas com manifestações racistas e nacionalistas, o ecofascismo se manifesta por meio da proposição de políticas que tratam da preservação dos recursos naturais — compreendida aqui segundo o discurso neoliberal da “economia verde”, “capitalismo verde” e “desenvolvimento sustentável” —, mas apenas para seu “grupo referente”: masculinista, rico e branco. Isso ocorre em detrimento da inclusão de pessoas racializadas, mulheres, corpos dissidentes e pessoas LGBTQIAPN+. Nesse contexto, a emergência climática é instrumentalizada para justificar restrições migratórias e negar a responsabilidade histórica dos países mais ricos nas emissões de carbono.
A ascensão da extrema-direita na última década é um fenômeno global, especialmente nas democracias ocidentais. Esses movimentos compartilham características como a construção de um “Outro” – um inimigo a ser combatido – e a defesa de ideias masculinistas e supremacistas brancas. Por outro lado, existem características específicas deste avanço no contexto brasileiro, onde a extrema-direita emerge a partir de um histórico que combina a consolidação de um liberalismo escravocrata, regimes autoritários recorrentes e o pacto das elites em torno da branquitude. Essa herança molda os valores da extrema-direita brasileira, que identifica como inimiga dos povos originários, comunidades tradicionais, mulheres, movimentos sociais, pessoas negras e LGBTQIAPN+.
Enquanto nos EUA e na Europa o “Outro” a ser enfrentado é frequentemente representado pelo imigrante – figura que ameaça a estabilidade econômica e cultural ao ser percebida como parasitária ao Estado de bem-estar e portadora de valores incompatíveis com as democracias ocidentais -, no Brasil, a ascensão ecofascista assume contornos próprios. Aqui, ela opera como uma articulação mais profunda entre a masculinidade enquanto regime de poder, o capitalismo extrativista e a exploração da natureza e seus povos. A dominação da natureza, neste contexto, não é apenas prática econômica, mas uma tecnologia de controle territorial e social, impulsionada pelo agronegócio, que funciona como expressão da lógica produtivista e extrativista, transformando a destruição ambiental em um símbolo de afirmação supremacista e masculinista.
O ecofascismo à moda brasileira, portanto, consolida-se não só pela política, mas pela captura dos desejos frustrados em uma sociedade precarizada, oferecendo ordem, potência e pertencimento por meio da exploração violenta da terra e dos corpos que dela dependem. A conexão entre o agronegócio e a extrema-direita não é recente, antes mesmo da ascensão de Jair Bolsonaro (PL), o setor já liderava ataques às políticas de reforma agrária e às alianças com o Estado para desarticular os movimentos sociais. No entanto, é a partir do governo Bolsonaro que essas alianças se fortalecem, consolidando-se e se institucionalizando por meio da aprovação de projetos como o marco temporal e o “pacote do veneno”.
Em verdade, o governo Bolsonaro não apenas fortaleceu uma nova direita brasileira – em que pautas ultraneoliberais e autoritarismo se mesclam – como também consolidou um ecossistema cultural que se expressa na figura do “homem do agro”: um arquétipo masculinizado, armado, viril e produtor. Essa estética de força e controle territorial não é apenas retórica, ela opera como dispositivo de poder simbólico e material, articulando desejo, identidade e violência. O ressentimento, antes sustentáculo afetivo da extrema-direita, cede lugar a uma performatividade bélica e produtivista, que naturaliza a devastação como ato de soberania. A imbricação entre a masculinidade como regime de poder e o capitalismo gore movimenta uma economia libidinal, através da mobilização dos desejos e dos corpos para essa nova zona de engajamento.
Nesse rearranjo, o agronegócio atua como aparelho ideológico de dominação, produzindo uma masculinidade branca, cristã hegemônica que se afirma pela violência contra a natureza e seus povos. Essa estética, sustentada por símbolos como o chapéu de cowboy, o rifle, trator, e até mesmo motosserra, performa uma promessa de pertencimento diante da precariedade social e subjetiva. Não por acaso, supremacistas como Trump, Milei e Bolsonaro apresentam discursos que enaltecem o “plano motosserra”. Bolsonaro se autointitulou como “capitão motosserra”, já Milei frequentemente aparecia em comícios portando um motosserra. Em fevereiro deste ano, Musk, convocado a reduzir o tamanho do governo trumpista, apareceu no palco da Conferência de Ação Política Conservadora em National Harbor, com a motosserra que ganhou de Milei, cujo slogan gravado no instrumento registrava “Viva la libertad, carajo”.
O agronegócio também desempenhou um papel crucial no financiamento de movimentos golpistas, como há muito tempo denuncia o site de olho nos ruralistas, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff – também chamado de “Agrogolpe”-, onde mais de 50% dos votos favoráveis vieram da Bancada Ruralista, além da admissão/recusa da abertura de processos contra o ex-presidente Michel Temer, e campanhas eleitorais, incluindo a de Bolsonaro, que recebeu R$1,2 milhão de reais de 4 fazendeiros nas últimas eleições presidenciais. Já, em relação à intentona golpista do 8 de janeiro, especula-se através das investigações realizadas pela Polícia Federal que empresários do setor foram citados como financiadores dos atos golpistas, evidenciando o vínculo entre os interesses econômicos do agronegócio e os ataques à democracia.
É por meio desta aliança entre o agronegócio e os interesses da extrema direita que a exploração de territórios e seus povos é executada, mesmo diante da emergência climática, evidenciada por mudanças drásticas de temperatura, alternando entre períodos de grandes secas e chuvas intensas. Essas alterações extremas, provocadas pela intensificação do aquecimento global causado pela atuação de atores poderosos (Estados e corporações ligadas ao agronegócio), resultaram em inundações devastadoras que causaram danos ao redor do mundo, destruindo casas e vidas humanas e mais-que-humanas. Um exemplo recente ocorreu no Rio Grande do Sul, onde as enchentes de 2024 afetaram 95% dos municípios do estado, resultando em prejuízos estimados em R$ 88,9 bilhões, com impactos significativos nos setores produtivo, social, infraestrutura e meio ambiente. As chuvas intensas causaram 183 mortes e deixaram 27 pessoas desaparecidas. Além disso, mais de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas, com milhares de desabrigadas e danos extensivos à infraestrutura local.
No cenário global, o Brasil ocupa a sexta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Enquanto a indústria de combustíveis fósseis é o principal vilão nas discussões climáticas globais, aqui o agronegócio lidera as emissões, especialmente devido ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiro, e à criação intensiva de gado. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG), 74% das emissões brasileiras estão diretamente ligadas ao setor.
As redes sociais, por sua vez, tornaram-se o terreno fértil para a disseminação de desinformação ambiental e climática, com o apoio direto de líderes globais da extrema-direita. A pressão crescente pela flexibilização de políticas de controle nas grandes plataformas contribui para amplificar discursos de ódio e narrativas negacionistas sobre o clima. Apesar disso, entretanto, o negacionismo não é algo novo, mas um resquício do colonialismo que ganha força no projeto político da extrema-direita ao promover a destruição humana e ambiental. Essa lógica reflete o desprezo pelo saber e pelas múltiplas existências, que se infiltram nos mais variados setores e grupos da sociedade.
Como diz Ailton Krenak “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos”.
A citação de Krenak revela como a lógica colonial e capitalista destrói não apenas territórios e vidas, mas também sentidos, experiências e sonhos. Essa “humanidade zumbi”, que rejeita a diversidade e a vitalidade da existência é a mesma que impulsiona a guerra colonial contra a natureza, promovida pela extrema-direita em aliança com o agronegócio e grandes corporações. Essa é uma luta desigual, que despreza saberes ancestrais, territórios e diferenças, criminalizando, perseguindo e atacando os verdadeiros defensores da vida.
É por isso que o conceito de “guerra colonial contra a natureza”, inspirado na expressão de Eliane Brum, se torna tão importante neste estado atual de coisas. A palavra colonial situa a forma pela qual a destruição massiva da natureza e seus povos são mobilizados pelos interesses econômicos dos atores poderosos. Quando falamos em natureza, ratificamos a ideia de que ela está interconectada e integrada aos povos e seus territórios, sem os quais ela não poderá se manter em pé, e, consequentemente, manter as possibilidades de vida e existência na Terra em pé.
Nesta guerra, os principais “inimigos” a serem combatidos são os grupos que contrariam a lógica do capitalismo neoliberal e de mercantilização da natureza, todos aqueles e aquelas que lutam pela proteção das florestas, rios, montanhas, árvores e animais. Sem eles, não há futuro para o planeta. Em tempos de emergência climática, resistir a essa lógica colonial é um passo fundamental para reimaginar formas mais justas de coexistir no planeta, enfrentando os negacionismos, e lutando contra a continuidade da exploração de seres humanos e mais que humanos.
O ecofascismo ganha espaço à medida que o colapso ambiental é reconhecido por segmentos da extrema-direita como uma oportunidade de reorganizar a sociedade sob lógicas autoritárias. Combinando discursos ambientalistas com manifestações racistas e nacionalistas, o ecofascismo se manifesta por meio da proposição de políticas que tratam da preservação dos recursos naturais — compreendida aqui segundo o discurso neoliberal da “economia verde”, “capitalismo verde” e “desenvolvimento sustentável” —, mas apenas para seu “grupo referente”: masculinista, rico e branco. Isso ocorre em detrimento da inclusão de pessoas racializadas, mulheres, corpos dissidentes e pessoas LGBTQIAPN+. Nesse contexto, a emergência climática é instrumentalizada para justificar restrições migratórias e negar a responsabilidade histórica dos países mais ricos nas emissões de carbono.
A ascensão da extrema-direita na última década é um fenômeno global, especialmente nas democracias ocidentais. Esses movimentos compartilham características como a construção de um “Outro” – um inimigo a ser combatido – e a defesa de ideias masculinistas e supremacistas brancas. Por outro lado, existem características específicas deste avanço no contexto brasileiro, onde a extrema-direita emerge a partir de um histórico que combina a consolidação de um liberalismo escravocrata, regimes autoritários recorrentes e o pacto das elites em torno da branquitude. Essa herança molda os valores da extrema-direita brasileira, que identifica como inimiga dos povos originários, comunidades tradicionais, mulheres, movimentos sociais, pessoas negras e LGBTQIAPN+.
Enquanto nos EUA e na Europa o “Outro” a ser enfrentado é frequentemente representado pelo imigrante – figura que ameaça a estabilidade econômica e cultural ao ser percebida como parasitária ao Estado de bem-estar e portadora de valores incompatíveis com as democracias ocidentais -, no Brasil, a ascensão ecofascista assume contornos próprios. Aqui, ela opera como uma articulação mais profunda entre a masculinidade enquanto regime de poder, o capitalismo extrativista e a exploração da natureza e seus povos. A dominação da natureza, neste contexto, não é apenas prática econômica, mas uma tecnologia de controle territorial e social, impulsionada pelo agronegócio, que funciona como expressão da lógica produtivista e extrativista, transformando a destruição ambiental em um símbolo de afirmação supremacista e masculinista.
O ecofascismo à moda brasileira, portanto, consolida-se não só pela política, mas pela captura dos desejos frustrados em uma sociedade precarizada, oferecendo ordem, potência e pertencimento por meio da exploração violenta da terra e dos corpos que dela dependem. A conexão entre o agronegócio e a extrema-direita não é recente, antes mesmo da ascensão de Jair Bolsonaro (PL), o setor já liderava ataques às políticas de reforma agrária e às alianças com o Estado para desarticular os movimentos sociais. No entanto, é a partir do governo Bolsonaro que essas alianças se fortalecem, consolidando-se e se institucionalizando por meio da aprovação de projetos como o marco temporal e o “pacote do veneno”.
Em verdade, o governo Bolsonaro não apenas fortaleceu uma nova direita brasileira – em que pautas ultraneoliberais e autoritarismo se mesclam – como também consolidou um ecossistema cultural que se expressa na figura do “homem do agro”: um arquétipo masculinizado, armado, viril e produtor. Essa estética de força e controle territorial não é apenas retórica, ela opera como dispositivo de poder simbólico e material, articulando desejo, identidade e violência. O ressentimento, antes sustentáculo afetivo da extrema-direita, cede lugar a uma performatividade bélica e produtivista, que naturaliza a devastação como ato de soberania. A imbricação entre a masculinidade como regime de poder e o capitalismo gore movimenta uma economia libidinal, através da mobilização dos desejos e dos corpos para essa nova zona de engajamento.
Nesse rearranjo, o agronegócio atua como aparelho ideológico de dominação, produzindo uma masculinidade branca, cristã hegemônica que se afirma pela violência contra a natureza e seus povos. Essa estética, sustentada por símbolos como o chapéu de cowboy, o rifle, trator, e até mesmo motosserra, performa uma promessa de pertencimento diante da precariedade social e subjetiva. Não por acaso, supremacistas como Trump, Milei e Bolsonaro apresentam discursos que enaltecem o “plano motosserra”. Bolsonaro se autointitulou como “capitão motosserra”, já Milei frequentemente aparecia em comícios portando um motosserra. Em fevereiro deste ano, Musk, convocado a reduzir o tamanho do governo trumpista, apareceu no palco da Conferência de Ação Política Conservadora em National Harbor, com a motosserra que ganhou de Milei, cujo slogan gravado no instrumento registrava “Viva la libertad, carajo”.
O agronegócio também desempenhou um papel crucial no financiamento de movimentos golpistas, como há muito tempo denuncia o site de olho nos ruralistas, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff – também chamado de “Agrogolpe”-, onde mais de 50% dos votos favoráveis vieram da Bancada Ruralista, além da admissão/recusa da abertura de processos contra o ex-presidente Michel Temer, e campanhas eleitorais, incluindo a de Bolsonaro, que recebeu R$1,2 milhão de reais de 4 fazendeiros nas últimas eleições presidenciais. Já, em relação à intentona golpista do 8 de janeiro, especula-se através das investigações realizadas pela Polícia Federal que empresários do setor foram citados como financiadores dos atos golpistas, evidenciando o vínculo entre os interesses econômicos do agronegócio e os ataques à democracia.
É por meio desta aliança entre o agronegócio e os interesses da extrema direita que a exploração de territórios e seus povos é executada, mesmo diante da emergência climática, evidenciada por mudanças drásticas de temperatura, alternando entre períodos de grandes secas e chuvas intensas. Essas alterações extremas, provocadas pela intensificação do aquecimento global causado pela atuação de atores poderosos (Estados e corporações ligadas ao agronegócio), resultaram em inundações devastadoras que causaram danos ao redor do mundo, destruindo casas e vidas humanas e mais-que-humanas. Um exemplo recente ocorreu no Rio Grande do Sul, onde as enchentes de 2024 afetaram 95% dos municípios do estado, resultando em prejuízos estimados em R$ 88,9 bilhões, com impactos significativos nos setores produtivo, social, infraestrutura e meio ambiente. As chuvas intensas causaram 183 mortes e deixaram 27 pessoas desaparecidas. Além disso, mais de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas, com milhares de desabrigadas e danos extensivos à infraestrutura local.
No cenário global, o Brasil ocupa a sexta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Enquanto a indústria de combustíveis fósseis é o principal vilão nas discussões climáticas globais, aqui o agronegócio lidera as emissões, especialmente devido ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiro, e à criação intensiva de gado. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG), 74% das emissões brasileiras estão diretamente ligadas ao setor.
As redes sociais, por sua vez, tornaram-se o terreno fértil para a disseminação de desinformação ambiental e climática, com o apoio direto de líderes globais da extrema-direita. A pressão crescente pela flexibilização de políticas de controle nas grandes plataformas contribui para amplificar discursos de ódio e narrativas negacionistas sobre o clima. Apesar disso, entretanto, o negacionismo não é algo novo, mas um resquício do colonialismo que ganha força no projeto político da extrema-direita ao promover a destruição humana e ambiental. Essa lógica reflete o desprezo pelo saber e pelas múltiplas existências, que se infiltram nos mais variados setores e grupos da sociedade.
Como diz Ailton Krenak “Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos”.
A citação de Krenak revela como a lógica colonial e capitalista destrói não apenas territórios e vidas, mas também sentidos, experiências e sonhos. Essa “humanidade zumbi”, que rejeita a diversidade e a vitalidade da existência é a mesma que impulsiona a guerra colonial contra a natureza, promovida pela extrema-direita em aliança com o agronegócio e grandes corporações. Essa é uma luta desigual, que despreza saberes ancestrais, territórios e diferenças, criminalizando, perseguindo e atacando os verdadeiros defensores da vida.
É por isso que o conceito de “guerra colonial contra a natureza”, inspirado na expressão de Eliane Brum, se torna tão importante neste estado atual de coisas. A palavra colonial situa a forma pela qual a destruição massiva da natureza e seus povos são mobilizados pelos interesses econômicos dos atores poderosos. Quando falamos em natureza, ratificamos a ideia de que ela está interconectada e integrada aos povos e seus territórios, sem os quais ela não poderá se manter em pé, e, consequentemente, manter as possibilidades de vida e existência na Terra em pé.
Nesta guerra, os principais “inimigos” a serem combatidos são os grupos que contrariam a lógica do capitalismo neoliberal e de mercantilização da natureza, todos aqueles e aquelas que lutam pela proteção das florestas, rios, montanhas, árvores e animais. Sem eles, não há futuro para o planeta. Em tempos de emergência climática, resistir a essa lógica colonial é um passo fundamental para reimaginar formas mais justas de coexistir no planeta, enfrentando os negacionismos, e lutando contra a continuidade da exploração de seres humanos e mais que humanos.
Inteligência planetária: melhor que a artificial
Desde que surgiu na Terra, o ser humano tem sido um agente poderoso de transformação do meio em que vive. Durante mais de 99% de seu tempo neste planeta, buscava adaptar o meio para satisfazer suas necessidades de alimentação, abrigo, convívio e segurança. No tempo restante o atendimento destas necessidades foi substituído pela tentativa de satisfazer desejos criados pela propaganda para alcançar outro objetivo: o lucro. Com isso, alterou-se a relação do ser humano com os demais seres vivos com quem dividimos essa nossa única casa.
A inteligência artificial – IA vem prometendo gerar novas benesses, assim como, em 1776, Adam Smith vaticinou que a busca do lucro privado levaria bem-estar à toda a comunidade. Não tivesse ele advertido que prováveis conluios e a formação de monopólios alterariam tal resultado, teria errado feio, pois ainda hoje, dois séculos e meio mais tarde, 80% da comunidade humana não vive, apenas aguenta, com menos de US$10,00 por dia! Menos que do aumento populacional, a degradação dos únicos meios de que dispomos para sobreviver – água, ar e solo – decorre de a busca do lucro privado ter se tornado mais importante que a solidariedade, que o atendimento das necessidades de alimentação, abrigo e convivência de todos. Temos, pois, que alterar profundamente a nossa economia, nossos hábitos e desejos, se quisermos sobreviver como espécie.
O Papa Francisco bem sabia disso e nos advertiu, seja com sua encíclica Laudato Si, seja com o lançamento da “Economia de Francisco”, que seria uma que não deixaria ninguém para trás.
A IA está sendo desenvolvida com o objetivo de gerar lucros para os grandes monopólios que têm dinheiro para desenvolvê-la. Quanto mais poderosas forem, maiores os riscos de tais sistemas buscarem objetivos próprios, distintos daqueles que orientaram os humanos na quase totalidade do seu tempo na Terra. As consequências da possível “independência” de máquinas com capacidades sobre-humanas são debatidas e temidas nos mais diversos locais e ocasiões.
Enquanto isso, uma análise isenta mostra que há muitas décadas já somos conduzidos, de fato, por sistemas artificias inteligentes, que têm objetivos próprios que não são a busca por bem-estar para todos: tais sistemas chamam-se “corporações”, que dominam a economia, a política, a cultura, as eleições, o esporte e muito mais; são sistemas cuja principal responsabilidade, segundo Milton Friedmam, é aumentar seus lucros! Apesar dos frequentes modismos que atribuem às empresas outros objetivos, no fundo sua gestão busca aumentar os lucros e, se não o fizerem, será substituída. Nessa busca vale, com frequência, subornar e guerrear, pois elas também dominam as máquinas de fazer guerra.
A verdadeira inteligência, no entanto, é a inteligência planetária, uma que leve em conta a necessidade de todos os elementos – rios, florestas, mangues, mares, solos, ar, geleiras, …- de cujo bem-estar depende o bem-estar dos humanos. O objetivo central tem de ser ampliar o bem-estar, e não esperar que este decorra do aumento do PIB!
A inteligência artificial – IA vem prometendo gerar novas benesses, assim como, em 1776, Adam Smith vaticinou que a busca do lucro privado levaria bem-estar à toda a comunidade. Não tivesse ele advertido que prováveis conluios e a formação de monopólios alterariam tal resultado, teria errado feio, pois ainda hoje, dois séculos e meio mais tarde, 80% da comunidade humana não vive, apenas aguenta, com menos de US$10,00 por dia! Menos que do aumento populacional, a degradação dos únicos meios de que dispomos para sobreviver – água, ar e solo – decorre de a busca do lucro privado ter se tornado mais importante que a solidariedade, que o atendimento das necessidades de alimentação, abrigo e convivência de todos. Temos, pois, que alterar profundamente a nossa economia, nossos hábitos e desejos, se quisermos sobreviver como espécie.
O Papa Francisco bem sabia disso e nos advertiu, seja com sua encíclica Laudato Si, seja com o lançamento da “Economia de Francisco”, que seria uma que não deixaria ninguém para trás.
A IA está sendo desenvolvida com o objetivo de gerar lucros para os grandes monopólios que têm dinheiro para desenvolvê-la. Quanto mais poderosas forem, maiores os riscos de tais sistemas buscarem objetivos próprios, distintos daqueles que orientaram os humanos na quase totalidade do seu tempo na Terra. As consequências da possível “independência” de máquinas com capacidades sobre-humanas são debatidas e temidas nos mais diversos locais e ocasiões.
Enquanto isso, uma análise isenta mostra que há muitas décadas já somos conduzidos, de fato, por sistemas artificias inteligentes, que têm objetivos próprios que não são a busca por bem-estar para todos: tais sistemas chamam-se “corporações”, que dominam a economia, a política, a cultura, as eleições, o esporte e muito mais; são sistemas cuja principal responsabilidade, segundo Milton Friedmam, é aumentar seus lucros! Apesar dos frequentes modismos que atribuem às empresas outros objetivos, no fundo sua gestão busca aumentar os lucros e, se não o fizerem, será substituída. Nessa busca vale, com frequência, subornar e guerrear, pois elas também dominam as máquinas de fazer guerra.
A verdadeira inteligência, no entanto, é a inteligência planetária, uma que leve em conta a necessidade de todos os elementos – rios, florestas, mangues, mares, solos, ar, geleiras, …- de cujo bem-estar depende o bem-estar dos humanos. O objetivo central tem de ser ampliar o bem-estar, e não esperar que este decorra do aumento do PIB!
sexta-feira, 25 de abril de 2025
Trump, prejuízo além das tarifas
Desde que Trump anunciou suas tarifas, o debate central é sobre as perdas do Brasil. Perdas na exportação de aço e alumínio, em potencial.
É natural que o debate siga esse curso, o comércio mundial está em vias de regredir e isto implica empobrecimento e desemprego.
No entanto, não se pode reduzir o impacto da ascensão de Trump a uma queda no comércio internacional. As perdas são de uma dimensão maior e mais profunda.
Não contabilizamos ainda o grande impacto na política ambiental do planeta. A saída dos EUA do Acordo de Paris, firmado em 2015, tira da mesa de negociação um dos atores principais e arrisca a levar alguns coadjuvantes, como a Argentina e El Salvador.
As perdas são de toda a humanidade, mas afetam especialmente o Brasil. Desde seu primeiro discurso no exterior, Lula afirmou em Sharm El-Sheikh que o Brasil iria assumir sua responsabilidade no combate às mudanças climáticas, reduzindo desmatamento e queimadas.
Nesse impulso de recuperar a importância na política ambiental, perdida no período Bolsonaro, o Brasil decidiu abrigar a COP-30, que será realizada em Belém.
Só em termos de investimentos para organizar o evento, o País gastará em torno de R$ 5 bilhões.
O problema é que ele acontecerá num clima de baixas expectativas.
Os EUA não devem participar. O nível de emissões continua alto, assim como a perda da superfície gelada da Antártica, segundo o National Snow Data Center. O aumento de temperatura já é de 1,5°C, meta prevista para 2030 pelo Acordo de Paris.
Os recursos para ajudar países pobres a mitigar os efeitos e se adaptar ao aquecimento global já não fluíam. Será orçado em mais de US$ 1 trilhão o valor desse esforço. Como conseguir o dinheiro sem os EUA e com a Europa voltada para reforçar sua capacidade militar, precisamente pela resistência de Trump à Otan?
Na vida dos brasileiros, as coisas também pioram. Milhares de imigrantes já estão expatriados e muitos deles voltam para cá, tendo de reiniciar a vida. O turismo ficou mais áspero. Há quem tema entrar com sua agenda telefônica nos EUA. Existe uma tendência de repressão às grandes universidades americanas. Há cerca de 1 milhão de estudantes estrangeiros no país, inclusive brasileiros.
Alguns que participam de movimentos pró-Palestina foram expulsos. De todas as partes do mundo, estudantes são enviados para os EUA por causa da qualidade do ensino e da atmosfera de livre circulação de ideias.
Se a expressão de ideias é de certa forma punida, qual a vantagem de se deslocar para os EUA? Censura e medo existem em muitos países e, em certos casos, os alunos são mandados para o exterior para se beneficiarem de uma livre troca de ideias.
Há uma outra dimensão na qual o cotidiano das pessoas também é afetado. Duas deputadas brasileiras solicitaram visto para os EUA. São mulheres trans e o visto no passaporte as classifica como do gênero masculino.
Os EUA, a partir de Trump, têm uma visão clara de reconhecer apenas o gênero masculino ou feminino. É uma decisão presidencial com o apoio dos seus eleitores. Embora não se concorde, o direito de definir essa questão internamente é irretocável.
No entanto, os passaportes emitidos pelo Brasil refletem a legislação brasileira e deveriam ser respeitados tal como foram impressos. É voluntarismo querer definir uma política de gênero para toda a humanidade. Os processos de escolha são feitos em cada país e devem ser respeitados.
Em síntese, se nos limitarmos aos importantes aspectos comerciais, deixaremos de ver grande parte das dificuldades que Trump traz ao mundo.
O enfraquecimento do universo científico americano terá influência geral. A retração da política humanitária, como mostrei no artigo anterior no Estadão ( O dedo de Trump no mapa da fome, 11/4, A5), produz mortes, porque os EUA eram responsáveis por um terço da ajuda mundial contra a fome.
Estamos apenas nos primeiros meses do segundo governo Trump. Ele já fala em reeleição e alguns de seus apoiadores mencionam a necessidade de ultrapassar a democracia.
Possivelmente é um projeto autoritário, que pode ser chamado de não liberal ou qualquer outro nome.
Mark Lilla, numa entrevista a este jornal, afirmou que a alma americana está doente. É tarefa urgente determinar os contornos dessa “doença” e encontrar os meios de deter a marcha autoritária, seja pela ação popular, resistência dos intelectuais ou mesmo da própria justiça americana.
O mundo pode colaborar discretamente. Os chineses já contestaram a visão de que são camponeses que lucram com os EUA. Os latino-americanos certamente não aceitarão que seu espaço seja definido como quintal dos EUA. Desde a posse de Trump, o mundo corre atrás do prejuízo.
É natural que o debate siga esse curso, o comércio mundial está em vias de regredir e isto implica empobrecimento e desemprego.
No entanto, não se pode reduzir o impacto da ascensão de Trump a uma queda no comércio internacional. As perdas são de uma dimensão maior e mais profunda.
Não contabilizamos ainda o grande impacto na política ambiental do planeta. A saída dos EUA do Acordo de Paris, firmado em 2015, tira da mesa de negociação um dos atores principais e arrisca a levar alguns coadjuvantes, como a Argentina e El Salvador.
E não se trata apenas de um retrocesso nos esforços mundiais, mas também de uma regressão na política interna, desde a sede por petróleo contida no slogan drill, baby, drill, a detalhes como a volta dos canudinhos de plástico, tudo na esteira da anulação das normas e desmontagem dos órgãos de controle.
As perdas são de toda a humanidade, mas afetam especialmente o Brasil. Desde seu primeiro discurso no exterior, Lula afirmou em Sharm El-Sheikh que o Brasil iria assumir sua responsabilidade no combate às mudanças climáticas, reduzindo desmatamento e queimadas.
Nesse impulso de recuperar a importância na política ambiental, perdida no período Bolsonaro, o Brasil decidiu abrigar a COP-30, que será realizada em Belém.
Só em termos de investimentos para organizar o evento, o País gastará em torno de R$ 5 bilhões.
O problema é que ele acontecerá num clima de baixas expectativas.
Os EUA não devem participar. O nível de emissões continua alto, assim como a perda da superfície gelada da Antártica, segundo o National Snow Data Center. O aumento de temperatura já é de 1,5°C, meta prevista para 2030 pelo Acordo de Paris.
Os recursos para ajudar países pobres a mitigar os efeitos e se adaptar ao aquecimento global já não fluíam. Será orçado em mais de US$ 1 trilhão o valor desse esforço. Como conseguir o dinheiro sem os EUA e com a Europa voltada para reforçar sua capacidade militar, precisamente pela resistência de Trump à Otan?
Na vida dos brasileiros, as coisas também pioram. Milhares de imigrantes já estão expatriados e muitos deles voltam para cá, tendo de reiniciar a vida. O turismo ficou mais áspero. Há quem tema entrar com sua agenda telefônica nos EUA. Existe uma tendência de repressão às grandes universidades americanas. Há cerca de 1 milhão de estudantes estrangeiros no país, inclusive brasileiros.
Alguns que participam de movimentos pró-Palestina foram expulsos. De todas as partes do mundo, estudantes são enviados para os EUA por causa da qualidade do ensino e da atmosfera de livre circulação de ideias.
Se a expressão de ideias é de certa forma punida, qual a vantagem de se deslocar para os EUA? Censura e medo existem em muitos países e, em certos casos, os alunos são mandados para o exterior para se beneficiarem de uma livre troca de ideias.
Há uma outra dimensão na qual o cotidiano das pessoas também é afetado. Duas deputadas brasileiras solicitaram visto para os EUA. São mulheres trans e o visto no passaporte as classifica como do gênero masculino.
Os EUA, a partir de Trump, têm uma visão clara de reconhecer apenas o gênero masculino ou feminino. É uma decisão presidencial com o apoio dos seus eleitores. Embora não se concorde, o direito de definir essa questão internamente é irretocável.
No entanto, os passaportes emitidos pelo Brasil refletem a legislação brasileira e deveriam ser respeitados tal como foram impressos. É voluntarismo querer definir uma política de gênero para toda a humanidade. Os processos de escolha são feitos em cada país e devem ser respeitados.
Em síntese, se nos limitarmos aos importantes aspectos comerciais, deixaremos de ver grande parte das dificuldades que Trump traz ao mundo.
O enfraquecimento do universo científico americano terá influência geral. A retração da política humanitária, como mostrei no artigo anterior no Estadão ( O dedo de Trump no mapa da fome, 11/4, A5), produz mortes, porque os EUA eram responsáveis por um terço da ajuda mundial contra a fome.
Estamos apenas nos primeiros meses do segundo governo Trump. Ele já fala em reeleição e alguns de seus apoiadores mencionam a necessidade de ultrapassar a democracia.
Possivelmente é um projeto autoritário, que pode ser chamado de não liberal ou qualquer outro nome.
Mark Lilla, numa entrevista a este jornal, afirmou que a alma americana está doente. É tarefa urgente determinar os contornos dessa “doença” e encontrar os meios de deter a marcha autoritária, seja pela ação popular, resistência dos intelectuais ou mesmo da própria justiça americana.
O mundo pode colaborar discretamente. Os chineses já contestaram a visão de que são camponeses que lucram com os EUA. Os latino-americanos certamente não aceitarão que seu espaço seja definido como quintal dos EUA. Desde a posse de Trump, o mundo corre atrás do prejuízo.
Uma nova luta de classes se formando
Uma questão central, hoje, tem que ver com a montagem de novos instrumentos para a plena compreensão do que se apresenta diante de nós. Isto é, uma realidade marcada pela crise ambiental, pelas mutações que abalam o mundo do trabalho e pelos impasses vividos pela Democracia Representativa.
Assim, será preciso repensar muitos aspectos da prática política anterior, daquele período que vai dos socialistas utópicos ao chamado socialismo real.
Separar as partes vivas das partes mortas. Justiça social, Democracia como componente do processo civilizatório e Ética são valores inegociáveis; são as partes vivas do passado. Contrariamente ao que propugnava Maquiavel, não penso que os representantes do Estado tenham que ter uma lógica ou uma Ética diferente daquela do cidadão comum. Talvez tenhamos aí um bom caminho para justamente aproximar as ruas das instâncias de decisão.
Agora é preciso trabalhar as questões novas ou as partes do presente, como o necessário aprofundamento da representação democrática (que não pode ser confundida com a criação de assembleias gerais permanentes), o alastramento do trabalho por conta própria e o entendimento de que há uma revolução tecnológica em curso (automação, robotização, inteligência artificial), e que tudo isso é irreversível. A Inteligência Artificial (IA), por exemplo, já atingiu um estágio em que deixa de ter uma dimensão complementar ou de apoio às atividades industriais para adquirir um caráter de força capaz de substituir parte do trabalho humano diretamente produtivo. Na primeira Revolução Industrial, uma parte da capacidade muscular do homem era transferida para a máquina. Na atual, uma parte da sua criatividade é acumulada nas máquinas.
Formas de gestão mais ousadas também precisam ser implementadas, entre elas a autogestão. Outra possibilidade é revolucionar o modelo de propriedade das empresas, por intermédio de um sistema de ações, de propriedade de cada trabalhador, como Friedrich Engels sugeriu ainda no final do século XIX.
Além disso, caberá aos sindicatos traçar novas linhas de ação frente a todas essas mudanças, o que não tem acontecido com muita frequência até agora, tanto no que tange aos novos contratos de trabalho quanto no tocante à regulamentação da Inteligência Artificial. Algumas lutas sindicais travadas na indústria automobilística dos Estados Unidos começam a apontar para algo próximo a uma compreensão de que é necessário se dotar de uma visão coletiva do trabalho, inclusive com a tomada de consciência frente aos desequilíbrios ecológicos provocados pela indústria. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) já vem se manifestando a respeito da necessidade de os países se valerem de normas sobre o trabalho nas plataformas digitais.
Toda tecnologia depende de uma correlação de forças. A Inteligência Artificial, por exemplo, pode ser usada para a obtenção de grandes avanços científicos como também pode ser empregada na vigilância das pessoas dentro das grandes corporações. Uma Inteligência Artificial a serviço da proteção política do grande capital já pode estar se tornando uma realidade. Assim sendo, uma nova luta de classes pode estar apenas começando.
Não estamos mais na fase artesanal da indústria, aquela que teve como expressão o movimento anarquista. Como tampouco estamos mais na fase do chão da fábrica, aquela que teve, por sua vez, como expressão maior o comunismo da Terceira Internacional. Estamos, isso sim, entrando em uma nova fase, a da Revolução da Automação, da Inteligência Artificial e da Robótica. Trata-se de construir uma política nova a partir dela. As cooperativas e o trabalho por conta própria terão, forçosamente, um importante papel nesse processo. Esse é o momento de o trabalhador ser o dono do seu trabalho e dos instrumentos de trabalho.
Em artigo datado de 2019, o economista e militante marxista grego Yanis Varoufakis escreveu, a propósito das novas formas de organizar o mundo do trabalho:
“Imaginemos que as ações fossem como um direito a voto, que não se pode comprar, nem vender. Assim como ao entrar na universidade recebe-se o carnê da biblioteca, umas equipes novas nas empresas receberiam uma única ação por pessoa que garantisse o direito a emitir um voto em eleições abertas a todos os acionistas, nas quais se decidirão todos os assuntos da corporação: desde as questões de gestão e planejamento até a distribuição de lucros líquidos e bonificações”.
Está mais do que na hora de o Campo Democrático reinventar as suas formas de intervir na realidade, para melhor transformá-la.
Assim, será preciso repensar muitos aspectos da prática política anterior, daquele período que vai dos socialistas utópicos ao chamado socialismo real.
Separar as partes vivas das partes mortas. Justiça social, Democracia como componente do processo civilizatório e Ética são valores inegociáveis; são as partes vivas do passado. Contrariamente ao que propugnava Maquiavel, não penso que os representantes do Estado tenham que ter uma lógica ou uma Ética diferente daquela do cidadão comum. Talvez tenhamos aí um bom caminho para justamente aproximar as ruas das instâncias de decisão.
Agora é preciso trabalhar as questões novas ou as partes do presente, como o necessário aprofundamento da representação democrática (que não pode ser confundida com a criação de assembleias gerais permanentes), o alastramento do trabalho por conta própria e o entendimento de que há uma revolução tecnológica em curso (automação, robotização, inteligência artificial), e que tudo isso é irreversível. A Inteligência Artificial (IA), por exemplo, já atingiu um estágio em que deixa de ter uma dimensão complementar ou de apoio às atividades industriais para adquirir um caráter de força capaz de substituir parte do trabalho humano diretamente produtivo. Na primeira Revolução Industrial, uma parte da capacidade muscular do homem era transferida para a máquina. Na atual, uma parte da sua criatividade é acumulada nas máquinas.
Formas de gestão mais ousadas também precisam ser implementadas, entre elas a autogestão. Outra possibilidade é revolucionar o modelo de propriedade das empresas, por intermédio de um sistema de ações, de propriedade de cada trabalhador, como Friedrich Engels sugeriu ainda no final do século XIX.
Além disso, caberá aos sindicatos traçar novas linhas de ação frente a todas essas mudanças, o que não tem acontecido com muita frequência até agora, tanto no que tange aos novos contratos de trabalho quanto no tocante à regulamentação da Inteligência Artificial. Algumas lutas sindicais travadas na indústria automobilística dos Estados Unidos começam a apontar para algo próximo a uma compreensão de que é necessário se dotar de uma visão coletiva do trabalho, inclusive com a tomada de consciência frente aos desequilíbrios ecológicos provocados pela indústria. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) já vem se manifestando a respeito da necessidade de os países se valerem de normas sobre o trabalho nas plataformas digitais.
Toda tecnologia depende de uma correlação de forças. A Inteligência Artificial, por exemplo, pode ser usada para a obtenção de grandes avanços científicos como também pode ser empregada na vigilância das pessoas dentro das grandes corporações. Uma Inteligência Artificial a serviço da proteção política do grande capital já pode estar se tornando uma realidade. Assim sendo, uma nova luta de classes pode estar apenas começando.
Não estamos mais na fase artesanal da indústria, aquela que teve como expressão o movimento anarquista. Como tampouco estamos mais na fase do chão da fábrica, aquela que teve, por sua vez, como expressão maior o comunismo da Terceira Internacional. Estamos, isso sim, entrando em uma nova fase, a da Revolução da Automação, da Inteligência Artificial e da Robótica. Trata-se de construir uma política nova a partir dela. As cooperativas e o trabalho por conta própria terão, forçosamente, um importante papel nesse processo. Esse é o momento de o trabalhador ser o dono do seu trabalho e dos instrumentos de trabalho.
Em artigo datado de 2019, o economista e militante marxista grego Yanis Varoufakis escreveu, a propósito das novas formas de organizar o mundo do trabalho:
“Imaginemos que as ações fossem como um direito a voto, que não se pode comprar, nem vender. Assim como ao entrar na universidade recebe-se o carnê da biblioteca, umas equipes novas nas empresas receberiam uma única ação por pessoa que garantisse o direito a emitir um voto em eleições abertas a todos os acionistas, nas quais se decidirão todos os assuntos da corporação: desde as questões de gestão e planejamento até a distribuição de lucros líquidos e bonificações”.
Está mais do que na hora de o Campo Democrático reinventar as suas formas de intervir na realidade, para melhor transformá-la.
O bom Papa Francisco
Morreu um homem bom, um homem com a coragem de mostrar a bondade e de lutar por ela: o Papa Francisco. Só espero que estas palavras, tão distantes do Vaticano, se diluam nas palavras de quem o conheceu. Acho que era este o espírito de Francisco: por que não?
Queria chegar a toda a gente — e chegou.
Sei de pessoas que ele trouxe para a Igreja Católica. Não era esse o dever dele? Cumpriu-o em beleza. Tornou a Igreja atraente — até como lugar onde as idéias se combatem, à procura da luz que só a discussão traz.
É um grande erro dizer que a Igreja não muda. Muda, mas devagar, com cuidado, com segurança, com respeito.
Francisco foi um humanista, um inovador e um espírito aberto, numa instituição que aprendeu a desconfiar dessas qualidades e a ser recompensada por essa desconfiança.
Conseguiu ser eleito e, uma vez eleito, teve a coragem e a honestidade de lutar dentro da Igreja, que é um sinal de confiança no futuro dela, para não dizer uma garantia.
Era um Papa insatisfeito, frustrado, desiludido pelo mundo. Mas não desistiu dele. Não se refugiou. Falou. Lutou. Enfrentou. Não se deixou consolar pela própria bondade. Não ficou deslumbrado. Não se inibiu. Não foi fingido.
Bem sei que os últimos papas, pelo menos desde João XXIII, têm sido todos muito bons. (Deveríamos estudar melhor o processo de eleição dos papas.) Mas este era mesmo diferente. Era do povo. Era da rua. Era um Francisco. Era um argentino. Era um dos nossos.
O fato de ter inimigos só diz bem dele. É esse o preço inevitável de lutar pela felicidade humana: é um preço que os inimigos dele também pagam.
Como é que um rebelde como o Francisco conseguiu ser eleito como Papa? O mérito é tanto dele como da própria Igreja.
Tudo tem sido muito bem conduzido. A imagem da Igreja como distante e ossificada tornou-se uma memória distante e ossificada.
O que o Papa Francisco nos trouxe foi isto: foi a felicidade. Foi a hipótese de felicidade, a esperança de felicidade.
É muito.
Miguel Esteves Cardoso
Queria chegar a toda a gente — e chegou.
Sei de pessoas que ele trouxe para a Igreja Católica. Não era esse o dever dele? Cumpriu-o em beleza. Tornou a Igreja atraente — até como lugar onde as idéias se combatem, à procura da luz que só a discussão traz.
É um grande erro dizer que a Igreja não muda. Muda, mas devagar, com cuidado, com segurança, com respeito.
Francisco foi um humanista, um inovador e um espírito aberto, numa instituição que aprendeu a desconfiar dessas qualidades e a ser recompensada por essa desconfiança.
Conseguiu ser eleito e, uma vez eleito, teve a coragem e a honestidade de lutar dentro da Igreja, que é um sinal de confiança no futuro dela, para não dizer uma garantia.
Era um Papa insatisfeito, frustrado, desiludido pelo mundo. Mas não desistiu dele. Não se refugiou. Falou. Lutou. Enfrentou. Não se deixou consolar pela própria bondade. Não ficou deslumbrado. Não se inibiu. Não foi fingido.
Bem sei que os últimos papas, pelo menos desde João XXIII, têm sido todos muito bons. (Deveríamos estudar melhor o processo de eleição dos papas.) Mas este era mesmo diferente. Era do povo. Era da rua. Era um Francisco. Era um argentino. Era um dos nossos.
O fato de ter inimigos só diz bem dele. É esse o preço inevitável de lutar pela felicidade humana: é um preço que os inimigos dele também pagam.
Como é que um rebelde como o Francisco conseguiu ser eleito como Papa? O mérito é tanto dele como da própria Igreja.
Tudo tem sido muito bem conduzido. A imagem da Igreja como distante e ossificada tornou-se uma memória distante e ossificada.
O que o Papa Francisco nos trouxe foi isto: foi a felicidade. Foi a hipótese de felicidade, a esperança de felicidade.
É muito.
Miguel Esteves Cardoso
Suicídio coletivo
Se continuarmos golpeando a base dessa coluna instável sobre a qual estamos apoiados, a própria espécie humana estará ameaçada. No ano passado, emitimos 54,6 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente na atmosfera, um aumento de quase 1% em relação ao ano anterior. A concentração atmosférica de CO₂ não só está aumentando, como está aumentando de forma cada vez mais acentuada.
Hugh Montgomery, diretor do Centro de Saúde e Desempenho Humano da University College London
Tarefas para nos salvar do extremismo
A extrema direita contemporânea é a força política mais perigosa do mundo desde o fim da União Soviética. No interior dos países, põe em risco a liberal-democracia e a garantia dos direitos humanos (especialmente dos grupos mais vulneráveis), ao mesmo tempo em que reduz a possibilidade de um pacto internacional baseado na cooperação geopolítica e no regramento multilateral do comércio. Os extremistas têm um projeto claro e não reduzirão suas pretensões se puderem passar como um trator sobre seus inimigos. Será necessário ter uma estratégia para enfrentá-los, alimentada por muita energia e comunicação.
Antes de examinar os elementos da estratégia contra a extrema direita, vale ressaltar a necessidade da energia e da comunicação. Um dos mais importantes cientistas políticos da história, o americano Robert Dahl, dizia que tão importante quanto a quantidade de apoio é a intensidade das preferências. Os extremistas não são a maioria no mundo, mas manifestam suas posições com máxima força, como um exército em nome de uma causa. Quem quiser combatê-los terá de igualar ao máximo esse ímpeto.
Um dos elementos que aumentam a intensidade de um movimento político é o papel das lideranças. Os líderes do extremismo contemporâneo, tais quais seus congêneres da década de 1930 (Mussolini e Hitler), sabem energizar parcela importante da população, que fica constantemente mobilizada. A luta contra a extrema direita precisará contar também com lideranças capazes de entusiasmar e inspirar a maioria das pessoas, para que elas resistam aos cânticos fascistas que têm ganhado cada vez mais força.
Só que não bastam lideranças fortes e inspiradoras para energizar os cidadãos pelo mundo afora. É fundamental lutar no campo dos valores. Aliás, foi isso que os ideólogos da extrema direita perceberam antes dos outros: a democracia tinha se tornado muito morna para grande parte da população e seria preciso dar um novo sentido à vida das pessoas. Descobrir quais ideias e sentimentos podem se contrapor com sucesso aos extremistas é uma das perguntas mais relevantes para os democratas responderem nos próximos anos.
Quaisquer estratégias que sejam escolhidas para combater o extremismo dependem, ademais, de boa comunicação. Este é outro terreno onde a vantagem está do lado da extrema direita. Em parte, por seus méritos de ter encontrado novas linguagens para lidar com o século XXI, marcadas pela rapidez dos enunciados, a escolha de poucas e fortes ideias a comunicar um modelo maniqueísta, além do uso intensivo da tecnologia.
Há uma outra parte nessa história, contudo. A vitória comunicativa da extrema direita está igualmente vinculada à forma como funcionam as principais redes sociais, dominadas por grupos monopolistas que produzem algoritmos capazes de delimitar fortemente o universo no qual nos comunicamos. A liberdade de escolha e de confronto é restrita num modelo tecnológico como esse, ao contrário do que pensam alguns analistas que ainda acreditam que a internet é uma ágora grega. Pior do que isso: a grande maioria dos donos das big techs não quer a democracia e, por isso, têm apoiado grupos extremistas e/ou a autocratas por meio da interferência nos próprios meios que comandam.
Juntando os dois pontos da batalha comunicativa, o desafio é adequar a comunicação às linguagens do século XXI e lutar contra o modelo que predomina hoje nas redes sociais. O desempenho no jogo comunicativo, no entanto, dependerá de conteúdos presentes nas estratégias contra a extrema direita.
A estratégia de enfrentamento do extremismo passa por cinco tarefas. A primeira é se contrapor às suas políticas, mostrando de forma clara e cotidiana os seus danos. É preciso realçar os erros cometidos nas políticas negacionistas, na saúde ou no meio ambiente, como ocorreu na época da covid-19 e depois arrefeceu com o passar do tempo - e agora crescem as mortes por sarampo nos Estados Unidos e poucos se levantam contra isso.
É imprescindível ressaltar o efeito perverso da destruição da administração pública, o que leva inexoravelmente ao enfraquecimento na oferta de serviços e bens públicos, como a redução do acesso dos mais pobres à educação ou ao sistema de seguridade social. Ainda, gritar bem alto contra a barbeiragem na política econômica trumpista, que não deve ser tratada nem como estratégia de negociação nem como mero capricho narcisista do presidente Trump. Sua origem e resultado advêm da fragilidade da extrema direita em produzir políticas públicas.
Eis um caminho central na estratégia de defesa da democracia: colar na extrema direita a imagem de incompetência que causa sofrimento em muita gente, com mortes, perdas de emprego e abandono. Trata-se de um mantra que deveria ser falado todos os dias por quem combate os extremistas.
A segunda tarefa dessa estratégia é fortalecer e acionar os mecanismos de “checks and balances” (freios e contrapesos) no controle dos governantes e partidos extremistas. A democracia precisa proteger a sociedade do arbítrio e se autoproteger de quem quer derrubá-la. Esse é um trabalho contínuo que envolve instituições políticas, como o Legislativo e o Judiciário, como também estruturas sociais, econômicas e internacionais que podem frear a insanidade totalitária do projeto da extrema direita.
Assim, organizações da sociedade civil, universidades, empresas, lideranças culturais do universo pop e até o papa devem ser mobilizadas continuamente porque os extremistas destroem o regime democrático como cupins (ou traças), comendo cada pedacinho dia após dia. Pode até haver um momento de tomada do poder como golpe, mas isso só ocorrerá se os diques democráticos forem rompidos muito tempo antes.
Entender a angústia de uma parcela enorme da população que tem acreditado e votado em lideranças de extrema direita, mas cujos valores não são extremistas, é uma terceira tarefa central na estratégia de combate ao extremismo. Houve muitas mudanças na sociedade contemporânea e novas carências surgiram. Obviamente é necessário ter políticas para combater a pobreza e as desigualdades no seu sentido mais clássico. Todavia, há preocupações concentradas em grupos que se sentem abandonados e ressentidos, bem como existem novas insatisfações difusas que precisam ser mais bem compreendidas. O trabalho aqui é de conversar mais com esses estratos populacionais e pensar em arranjos diferentes de intervenção estatal e/ou organização econômica.
Políticas públicas baseadas em evidências, boa governança e princípios humanistas constituem um quarto antídoto ao extremismo contemporâneo. A qualidade da gestão pública é um alicerce essencial, só que insuficiente se não for direcionado às demandas sociais que hoje não estão sendo respondidas pelo Estado e pelo modelo econômico. Melhorar a ação governamental, entregando os bens, direitos e serviços desejados pela população, é das maiores armas em prol da democracia.
O rol de tarefas se completa com a montagem de alianças amplas nos planos político e social. Não há uma maioria ou uma hegemonia prévia contra a extrema direita. A luta contra ela vai exigir muita articulação e diálogo entre grupos que não são do mesmo partido e/ou professam visões ideológicas com alguma diferenciação. Encontrar os interesses comuns, alimentar a tolerância e a capacidade de aprender com o outro são elementos centrais na construção de um bloco contra o extremismo, capaz de controlar governantes extremistas, de ganhar eleições e, sobretudo, de propor uma nova visão de futuro.
A luta contra o extremismo é, primeiramente, internacional, pois ele se espalhou pelo mundo e tem grande força em países muito relevantes na ordem mundial. Além disso, a dimensão global está no fato de que será necessário fazer alianças e criar modelos de cooperação entre as nações para resistir às políticas destruidoras montadas por governos de extrema direita. Do mesmo modo que houve Internacionais socialistas e hoje há uma Internacional ultradireitista (ou fascista), é preciso construir uma Internacional pela democracia, que seria caracterizada pela amplitude de forças que estão dentro dela, unidas contra as barbáries políticas contemporâneas.
A forma pela qual a extrema direita se expressa em cada país tem singularidades. Desse modo, o fortalecimento da energia e da comunicação antiextremista, bem como o cumprimento das cinco tarefas estratégicas listadas anteriormente, têm tonalidades diferentes em cada lugar. Seguindo essa linha de raciocínio, os democratas brasileiros precisam encontrar sua forma de atuação nesse processo de defesa da democracia e de um modelo justo e produtivo de desenvolvimento.
Muitas perguntas concluem essa reflexão olhando para o Brasil. Que lideranças podemos formar para lutar contra o extremismo? Quais valores podem se contrapor às ideias extremistas e conquistar mais corações e mentes dentro de um novo modelo de comunicação? Como construir políticas públicas capazes de aumentar a crença da população no sistema? De que maneira alianças políticas e sociais amplas e plurais podem se tornar mais perenes na luta contra a extrema direita, e não serem apenas um slogan de campanha? Uma resposta coletiva a tais questões é essencial para que o país não embarque no futuro em alguma aventura perversa e totalitária.
Antes de examinar os elementos da estratégia contra a extrema direita, vale ressaltar a necessidade da energia e da comunicação. Um dos mais importantes cientistas políticos da história, o americano Robert Dahl, dizia que tão importante quanto a quantidade de apoio é a intensidade das preferências. Os extremistas não são a maioria no mundo, mas manifestam suas posições com máxima força, como um exército em nome de uma causa. Quem quiser combatê-los terá de igualar ao máximo esse ímpeto.
Um dos elementos que aumentam a intensidade de um movimento político é o papel das lideranças. Os líderes do extremismo contemporâneo, tais quais seus congêneres da década de 1930 (Mussolini e Hitler), sabem energizar parcela importante da população, que fica constantemente mobilizada. A luta contra a extrema direita precisará contar também com lideranças capazes de entusiasmar e inspirar a maioria das pessoas, para que elas resistam aos cânticos fascistas que têm ganhado cada vez mais força.
Só que não bastam lideranças fortes e inspiradoras para energizar os cidadãos pelo mundo afora. É fundamental lutar no campo dos valores. Aliás, foi isso que os ideólogos da extrema direita perceberam antes dos outros: a democracia tinha se tornado muito morna para grande parte da população e seria preciso dar um novo sentido à vida das pessoas. Descobrir quais ideias e sentimentos podem se contrapor com sucesso aos extremistas é uma das perguntas mais relevantes para os democratas responderem nos próximos anos.
Quaisquer estratégias que sejam escolhidas para combater o extremismo dependem, ademais, de boa comunicação. Este é outro terreno onde a vantagem está do lado da extrema direita. Em parte, por seus méritos de ter encontrado novas linguagens para lidar com o século XXI, marcadas pela rapidez dos enunciados, a escolha de poucas e fortes ideias a comunicar um modelo maniqueísta, além do uso intensivo da tecnologia.
Há uma outra parte nessa história, contudo. A vitória comunicativa da extrema direita está igualmente vinculada à forma como funcionam as principais redes sociais, dominadas por grupos monopolistas que produzem algoritmos capazes de delimitar fortemente o universo no qual nos comunicamos. A liberdade de escolha e de confronto é restrita num modelo tecnológico como esse, ao contrário do que pensam alguns analistas que ainda acreditam que a internet é uma ágora grega. Pior do que isso: a grande maioria dos donos das big techs não quer a democracia e, por isso, têm apoiado grupos extremistas e/ou a autocratas por meio da interferência nos próprios meios que comandam.
Juntando os dois pontos da batalha comunicativa, o desafio é adequar a comunicação às linguagens do século XXI e lutar contra o modelo que predomina hoje nas redes sociais. O desempenho no jogo comunicativo, no entanto, dependerá de conteúdos presentes nas estratégias contra a extrema direita.
A estratégia de enfrentamento do extremismo passa por cinco tarefas. A primeira é se contrapor às suas políticas, mostrando de forma clara e cotidiana os seus danos. É preciso realçar os erros cometidos nas políticas negacionistas, na saúde ou no meio ambiente, como ocorreu na época da covid-19 e depois arrefeceu com o passar do tempo - e agora crescem as mortes por sarampo nos Estados Unidos e poucos se levantam contra isso.
É imprescindível ressaltar o efeito perverso da destruição da administração pública, o que leva inexoravelmente ao enfraquecimento na oferta de serviços e bens públicos, como a redução do acesso dos mais pobres à educação ou ao sistema de seguridade social. Ainda, gritar bem alto contra a barbeiragem na política econômica trumpista, que não deve ser tratada nem como estratégia de negociação nem como mero capricho narcisista do presidente Trump. Sua origem e resultado advêm da fragilidade da extrema direita em produzir políticas públicas.
Eis um caminho central na estratégia de defesa da democracia: colar na extrema direita a imagem de incompetência que causa sofrimento em muita gente, com mortes, perdas de emprego e abandono. Trata-se de um mantra que deveria ser falado todos os dias por quem combate os extremistas.
A segunda tarefa dessa estratégia é fortalecer e acionar os mecanismos de “checks and balances” (freios e contrapesos) no controle dos governantes e partidos extremistas. A democracia precisa proteger a sociedade do arbítrio e se autoproteger de quem quer derrubá-la. Esse é um trabalho contínuo que envolve instituições políticas, como o Legislativo e o Judiciário, como também estruturas sociais, econômicas e internacionais que podem frear a insanidade totalitária do projeto da extrema direita.
Assim, organizações da sociedade civil, universidades, empresas, lideranças culturais do universo pop e até o papa devem ser mobilizadas continuamente porque os extremistas destroem o regime democrático como cupins (ou traças), comendo cada pedacinho dia após dia. Pode até haver um momento de tomada do poder como golpe, mas isso só ocorrerá se os diques democráticos forem rompidos muito tempo antes.
Entender a angústia de uma parcela enorme da população que tem acreditado e votado em lideranças de extrema direita, mas cujos valores não são extremistas, é uma terceira tarefa central na estratégia de combate ao extremismo. Houve muitas mudanças na sociedade contemporânea e novas carências surgiram. Obviamente é necessário ter políticas para combater a pobreza e as desigualdades no seu sentido mais clássico. Todavia, há preocupações concentradas em grupos que se sentem abandonados e ressentidos, bem como existem novas insatisfações difusas que precisam ser mais bem compreendidas. O trabalho aqui é de conversar mais com esses estratos populacionais e pensar em arranjos diferentes de intervenção estatal e/ou organização econômica.
Políticas públicas baseadas em evidências, boa governança e princípios humanistas constituem um quarto antídoto ao extremismo contemporâneo. A qualidade da gestão pública é um alicerce essencial, só que insuficiente se não for direcionado às demandas sociais que hoje não estão sendo respondidas pelo Estado e pelo modelo econômico. Melhorar a ação governamental, entregando os bens, direitos e serviços desejados pela população, é das maiores armas em prol da democracia.
O rol de tarefas se completa com a montagem de alianças amplas nos planos político e social. Não há uma maioria ou uma hegemonia prévia contra a extrema direita. A luta contra ela vai exigir muita articulação e diálogo entre grupos que não são do mesmo partido e/ou professam visões ideológicas com alguma diferenciação. Encontrar os interesses comuns, alimentar a tolerância e a capacidade de aprender com o outro são elementos centrais na construção de um bloco contra o extremismo, capaz de controlar governantes extremistas, de ganhar eleições e, sobretudo, de propor uma nova visão de futuro.
A luta contra o extremismo é, primeiramente, internacional, pois ele se espalhou pelo mundo e tem grande força em países muito relevantes na ordem mundial. Além disso, a dimensão global está no fato de que será necessário fazer alianças e criar modelos de cooperação entre as nações para resistir às políticas destruidoras montadas por governos de extrema direita. Do mesmo modo que houve Internacionais socialistas e hoje há uma Internacional ultradireitista (ou fascista), é preciso construir uma Internacional pela democracia, que seria caracterizada pela amplitude de forças que estão dentro dela, unidas contra as barbáries políticas contemporâneas.
A forma pela qual a extrema direita se expressa em cada país tem singularidades. Desse modo, o fortalecimento da energia e da comunicação antiextremista, bem como o cumprimento das cinco tarefas estratégicas listadas anteriormente, têm tonalidades diferentes em cada lugar. Seguindo essa linha de raciocínio, os democratas brasileiros precisam encontrar sua forma de atuação nesse processo de defesa da democracia e de um modelo justo e produtivo de desenvolvimento.
Muitas perguntas concluem essa reflexão olhando para o Brasil. Que lideranças podemos formar para lutar contra o extremismo? Quais valores podem se contrapor às ideias extremistas e conquistar mais corações e mentes dentro de um novo modelo de comunicação? Como construir políticas públicas capazes de aumentar a crença da população no sistema? De que maneira alianças políticas e sociais amplas e plurais podem se tornar mais perenes na luta contra a extrema direita, e não serem apenas um slogan de campanha? Uma resposta coletiva a tais questões é essencial para que o país não embarque no futuro em alguma aventura perversa e totalitária.
A revolução Francisco
No momento em que a fé dos cristãos se transformou em cristianismo — primeiro, quando ganhou o estatuto de religião oficial do Império Romano, depois com quatro concílios que combateram as heresias e definiram o essencial do credo cristão, nos séculos IV e V —, muito se ganhou e muito se perdeu. O que se ganhou foi a Igreja que chegou até aos nossos dias, com o seu imenso poder, a sua dimensão planetária e a sua capacidade disciplinadora. O que se perdeu, com frequência excessiva, foi a fidelidade à mensagem de Jesus e à letra dos Evangelhos, que são textos revolucionários sobre tesouros, campos, lírios e aves, mas também sobre espadas, espinhos, sangue e cruz, que nenhum catecismo consegue realmente domesticar.
Há, por isso, uma tensão histórica entre aquilo que são as parábolas de Jesus em estado natural e aquilo que são os dogmas disciplinadores da Igreja. As parábolas abrem o texto a múltiplas interpretações. Os dogmas tentam fechá-lo. Percebe-se porquê: não há instituições fortes sem regras claras; nem pode haver cristianismo sem ordem e uma doutrina vigiada. Infelizmente, com o correr do tempo, qualquer religião demasiado ordenada corre o risco de se petrificar, transformando-se numa mera manifestação cultural, estéril e ritualizada. O Evangelho de Mateus tem um excelente nome para isso: “Sepulcros caiados.” São “formosos por fora, mas por dentro cheios de ossos de mortos e toda a espécie de imundície” (Mt 23, 27). As pessoas vão à missa por hábito social, batizam-se e casam-se em cerimônias religiosas, mas sem estarem realmente comprometidas com a dimensão evangélica da Igreja. Esta dimensão nunca desapareceu ao longo de dois mil anos, mas por vezes tornou-se muito difícil encontrá-la, sobretudo entre as paredes do Vaticano.
Existe, por isso, um cristianismo cultural, que serve perfeitamente para algumas pessoas se agarrarem a ele enquanto reflexo do mundo que conhecem desde a infância e no qual desejam continuar a viver. E existe um cristianismo essencial, visceral, que se agarra às entranhas do Evangelho e procura levá-lo a sério. Jorge Bergoglio foi um cristão visceral. Escolheu em 2013 ficar com o nome de Francisco de Assis — uma daquelas figuras que ao longo da História obrigaram a Igreja a dar guinadas evangélicas no seu percurso — e o melhor que se pode dizer é que viveu 12 anos à altura do nome que elegeu.
Não se trata aqui de opor católicos conservadores a católicos progressistas e proclamar que Francisco era o inimigo n.º1 dos primeiros e o grande Papa dos segundos. Isso seria caricaturar o seu pontificado. Além de a dicotomia conservador/progressista só servir hoje para distrair dos maiores desafios da Igreja, convém notar que foi o conservador Bento XVI que teve a coragem de abdicar e que, ao humanizar o papado, abriu caminho à ascensão do progressista Francisco, um argentino leve, desbocado e cheio de humor.
Francisco foi a maior revolução na Igreja desde o Concílio Vaticano II, sem mudar a doutrina. O casamento homossexual não passou a ser permitido, nem as mulheres passaram a ser ordenadas. Mas Francisco mudou o olhar e o tom sobre as mulheres e sobre a comunidade LGBT graças à sua saudável obsessão com o “todos, todos, todos”. Ele não fez nada de mais, no sentido em que é impossível ler os Evangelhos e sair de lá a achar que a Igreja deve ser uma colecção de crentes engomadinhos. Mas ninguém foi tão inclusivo antes dele. Parecendo que não é nada, no que à fé cristã diz respeito é quase tudo.
Há, por isso, uma tensão histórica entre aquilo que são as parábolas de Jesus em estado natural e aquilo que são os dogmas disciplinadores da Igreja. As parábolas abrem o texto a múltiplas interpretações. Os dogmas tentam fechá-lo. Percebe-se porquê: não há instituições fortes sem regras claras; nem pode haver cristianismo sem ordem e uma doutrina vigiada. Infelizmente, com o correr do tempo, qualquer religião demasiado ordenada corre o risco de se petrificar, transformando-se numa mera manifestação cultural, estéril e ritualizada. O Evangelho de Mateus tem um excelente nome para isso: “Sepulcros caiados.” São “formosos por fora, mas por dentro cheios de ossos de mortos e toda a espécie de imundície” (Mt 23, 27). As pessoas vão à missa por hábito social, batizam-se e casam-se em cerimônias religiosas, mas sem estarem realmente comprometidas com a dimensão evangélica da Igreja. Esta dimensão nunca desapareceu ao longo de dois mil anos, mas por vezes tornou-se muito difícil encontrá-la, sobretudo entre as paredes do Vaticano.
Existe, por isso, um cristianismo cultural, que serve perfeitamente para algumas pessoas se agarrarem a ele enquanto reflexo do mundo que conhecem desde a infância e no qual desejam continuar a viver. E existe um cristianismo essencial, visceral, que se agarra às entranhas do Evangelho e procura levá-lo a sério. Jorge Bergoglio foi um cristão visceral. Escolheu em 2013 ficar com o nome de Francisco de Assis — uma daquelas figuras que ao longo da História obrigaram a Igreja a dar guinadas evangélicas no seu percurso — e o melhor que se pode dizer é que viveu 12 anos à altura do nome que elegeu.
Não se trata aqui de opor católicos conservadores a católicos progressistas e proclamar que Francisco era o inimigo n.º1 dos primeiros e o grande Papa dos segundos. Isso seria caricaturar o seu pontificado. Além de a dicotomia conservador/progressista só servir hoje para distrair dos maiores desafios da Igreja, convém notar que foi o conservador Bento XVI que teve a coragem de abdicar e que, ao humanizar o papado, abriu caminho à ascensão do progressista Francisco, um argentino leve, desbocado e cheio de humor.
Francisco foi a maior revolução na Igreja desde o Concílio Vaticano II, sem mudar a doutrina. O casamento homossexual não passou a ser permitido, nem as mulheres passaram a ser ordenadas. Mas Francisco mudou o olhar e o tom sobre as mulheres e sobre a comunidade LGBT graças à sua saudável obsessão com o “todos, todos, todos”. Ele não fez nada de mais, no sentido em que é impossível ler os Evangelhos e sair de lá a achar que a Igreja deve ser uma colecção de crentes engomadinhos. Mas ninguém foi tão inclusivo antes dele. Parecendo que não é nada, no que à fé cristã diz respeito é quase tudo.
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