quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Não se deixem cegar pela raiva

Joe Biden tentou refrear a sede de vingança do Estado de Israel pelos ataques do Hamas de 7 de outubro. “Não se deixem cegar pela raiva.” Biden recordou que na reação aos ataques do 11 de setembro foi isso que aconteceu aos Estados Unidos e que, por isso, admitiu, cometeram erros. Nestas palavras está implícito um mea culpa pelas decisões do pós-11 de setembro, que culminaram na invasão do Afeganistão com o apoio das forças aliadas, mas à revelia da ONU.


O Afeganistão foi um banho de sangue. Morreram quase 50 mil civis com a invasão e durante a ocupação. Em nome de quê? Desmantelar a organização terrorista Al Qaeda e tirar do poder o regime talibã. Correu muito mal. Nada foi conseguido. Sobretudo, para o que interessa aqui, os civis afegãos nada sabiam da Al Qaeda e pouco sabiam das duas torres que tinham colapsado. Foram bombardeados e foram vítimas de uma ação militar pensada e organizada sem os considerar como sujeitos de quaisquer direitos, nem sequer do direito à vida.

Robert Fisk foi o jornalista ocidental que ficou no Afeganistão, mesmo depois dos primeiros bombardeamentos. Relatou as mortes, a destruição de aldeias e o total desrespeito pelas vidas daquelas pessoas. Foi o grande defensor do povo afegão. E, por isso, foi penalizado e até ridicularizado publicamente. Fisk, no seu livro A Grande Guerra pela Civilização, relatou em detalhe o que vos estou a contar e relatou até a forma como foi alvo de chacota impiedosa por ter sido o único a sentir empatia pelo sofrimento afegão. Não cedeu à pressão da lógica que estava estabelecida: os Estados Unidos tinham sido vítimas de um ataque terrorista sem precedentes e estavam, por isso, legitimados a agir da forma que entendessem ser a adequada. Robert Fisk deu conta de outros jornalistas que ainda assistiram a ataques aos civis afegãos, mas nenhum deles estava disposto a denunciá-los.

O livro de Robert Fisk é importante para a justiça histórica e para que não esqueçamos tudo aquilo que somos capazes de fazer, de apoiar ou, simplesmente, aquilo a que somos capazes de fechar os olhos. Ficar calado perante uma injustiça é participar nela.

Fiquei surpreendida com o mea culpa de Biden. Não esperava que reconhecesse que a sua nação cegou com a raiva e que aquilo que fez a seguir não deve servir de exemplo para outras nações em situações que possam ser comparadas, como é o caso de Israel agora. Esteve bem Joe Biden. Nada disto é suficiente para fazer pazes com a política externa dos Estados Unidos, nem nada que se pareça, mas o que é justo é justo. Neste caso, Biden fez duas coisas que merecem elogio: deu um bom conselho e fez uma autocrítica.

Metemos a cabeça debaixo da areia quando os nossos aliados violam o direito internacional e a seguir apagamos da memória coletiva que tenha acontecido. Eternizamos o luto pelo sofrimento daqueles que, de alguma forma, nos são próximos e assumimos que é causa legítima para quase tudo.

Não se diga que a nossa seleção daqueles que são próximos assenta em distâncias ou geografia. Os israelitas e os palestinianos estão à mesma distância e na mesma geografia. É outra coisa muito mais inconfessável. Uma coisa que atira os mortos afegãos, iraquianos, palestinianos e tantos outros para um saco sem fundo. Cabem lá imensos e o saco nunca rebenta.

Preço 'barato'


Não tenho a menor ideia de que os palestinos estão dizendo a verdade sobre o número de mortos... Tenho certeza de que inocentes foram mortos, e esse é o preço de se travar uma guerra...
Joe Biden

'Tudo está acabando'

Não há nada em seu rosto que dê sinais sobre as tragédias recentes que ele viu.

Os corpos sem vida de crianças retirados dos escombros; as tendas cheias de mortos envoltos em panos brancos; edifícios indo abaixo pela força devastadora dos ataques aéreos.

O médico Mahmoud Badawi tem visto a humanidade ser destruída diante de seus olhos.


"Há muitas situações difíceis", diz ele. "Como motorista de ambulância, você se acostuma com o que está acontecendo. Quer sejam mãos, cabeças ou corpos cortados... estamos acostumados com isso."

"Não descansamos."


A ambulância em que ele trabalha corre de uma cena de carnificina para outra. Num beco estreito em Gaza, ele recolhe os corpos de duas crianças vítimas de um ataque aéreo. Um homem se aproxima segurando nos braços um menino que foi gravemente ferido.

Badawi chama um amigo que está ajudando a equipe de emergência a socorrer as vítimas e lhe pede que tome cuidado especial com o menino.

"Nasser, a cabeça dele está aberta."

No entanto, Mahmoud mantém a compostura. Não é que ele não se comova diante de tudo o que vê, mas a necessidade exige que ele se concentre naqueles que podem ser salvos.

Enquanto ele fala com um jornalista da BBC, ouve-se o som de um míssil explodindo.

"Não descansamos muito, com tudo o que está acontecendo. A situação está muito ruim. Agora vamos tentar localizar uma área bombardeada para chegar aos feridos e aos mortos."

Questionado sobre qual é a situação dos suprimentos médicos, Mahmoud diz em tom grave: "Tudo está acabando".

De acordo com a autoridade de saúde liderada pelo Hamas em Gaza, mais de 6 mil palestinos foram mortos nas últimas duas semanas. Cerca de 40% seriam crianças.

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que quase um terço dos hospitais e dois terços dos centros de atendimento primário tiveram de fechar "devido a danos causados pelos ataques ou pela falta de combustível".

A ONU diz que o seu estoque de combustível está se esgotando e que "escolhas difíceis" terão de ser feitas nos próximos dias sobre quais serviços priorizar.

Israel recusa-se a permitir a entrada de combustível na Faixa de Gaza porque afirma que o produto pode ser levado pelo Hamas — grupo que o país acusa também de estar acumulando combustível.

Em Gaza, os dias e as noites misturam-se impiedosamente. A guerra é constante e está por todo lado desta pequena faixa de terra — a área total da Faixa de Gaza é de apenas 365 km².

Israel ordenou que cerca de um milhão de moradores na parte norte de Gaza evacuassem para o sul, para que suas forças ataquem o Hamas. Mas há contínuos ataques aéreos israelenses no sul de Gaza, para onde milhares de pessoas fugiram.

Fugir ou não, para onde fugir, onde se abrigar — todos os dias e noites em Gaza estão repletos de escolhas difíceis.

A situação faz também com que, para os trabalhadores de emergência, não haja como voltar para casa — para um local seguro.

Quando está trabalhando, Mahmoud se preocupa com a esposa e os seis filhos, assim como eles se preocupam com o médico. Quando o bombardeio é intenso, ele tenta ligar de hora em hora. Mas a comunicação telefônica é difícil em meio à guerra.

"A conexão com a família é muito difícil. Mal temos serviço para poder ligar e saber se eles estão bem ou não."

Mahmoud se esforçou para criar uma família com preocupações sociais. Ele tem orgulho de seus filhos. Uma filha está estudando para ser médica — ela se inspira no trabalho do pai e em sua própria experiência de guerra em Gaza quando criança. Há também um filho que é enfermeiro; outro se qualificou como professor.

À medida que a noite chega, há uma pausa no bombardeio. Mahmoud faz também uma pausa e fica entre a ambulância e uma pilha de escombros. Ele segura uma maca na mão esquerda, aguardando a próxima emergência. A adrenalina diminui. Ele fica brevemente imóvel e seus olhos olham para longe.

Estão cheios de tristeza por tudo o que viram.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


O tempo vale muito mais do que o dinheiro

Perder tempo não é como gastar dinheiro. Se o tempo fosse dinheiro, o dinheiro seria tempo.

Não é. O tempo vale muito mais do que o dinheiro. Quando morremos, acaba-se o tempo que tivemos. Quando morremos, o que mais subsiste e insiste é a quantidade de coisas que continuam a existir, apesar de nós.

O nosso tempo de vida é a nossa única fortuna. Temos o tempo que temos. Depois de ter acabado o nosso tempo, não conseguimos comprar mais. Quando morreu o meu pai, foi-se com ele todo o tempo que ele tinha para passar connosco. As coisas dele ficaram para trás. Sobreviveram. Eram objectos. Alguns tinham valor por fazer lembrar o tempo que passaram com ele - a régua de arquitecto naval, os relógios - quando ele tinha tempo.

As pessoas dizem «time is money» para apressar quem trabalha. A única maneira de comprar tempo é de precisar de menos dinheiro para viver, para poder passar menos tempo a ganhá-lo. E ficar com mais tempo para trabalhar no que dá mais gosto e para ter o luxo indispensável de poder perder tempo, a fazer ninharias e a ser-se indolente.

A ideologia dominante de aproveitar bem o tempo impede-nos de perder esses tempos. Quando penso no meu pai, todas as minhas saudades são de momentos que perdi com ele. Uma noite, numa cabana no Canadá, confessou-me que o único filme de que gostava era «Um Peixe Chamado Wanda«. Todos os outros eram uma perda de tempo. Perdemos a noite inteira a falarmos e a rirmo-nos disso. Ainda hoje tem graça.
Miguel Esteves Cardoso

Guerra paga em dólar


Isto é guerra. Isto é combate. É feio e vai ser confuso, e civis inocentes serão feridos. Um cessar-fogo neste momento só beneficia o Hamas
John F. Kirby, porta-voz da Casa Branca

O homem, a guerra, o desastre e o infortúnio

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego coletivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em ação. Da paz se diz que é podre, porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inatividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.

Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.

Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz. Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de fato é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.

Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente IV"

A humanidade de uma mulher sequestrada causa polêmica em Israel

E no sexto dia, diz a Bíblia, Deus criou o homem e os demais animais terrestres, reservando ao descanso o sétimo dia. Foi seu erro. Deus é amor. O homem não saiu à imagem do Criador.

Os historiadores Will e Ariel Durant, coautores da monumental obra “História da civilização” em quase 20 volumes, calculam que em toda a história vivemos apenas 27 anos sem guerra.

“Guerras não são, portanto, uma aberração. Apenas expõem um lado da natureza humana mascarado por convenções de civilidade que moldam a sociedade”, observa a jornalista Dorrit Harazim.


Ainda bem que existem pessoas como Yocheved Lifshitz, libertada pelos seus captores do Hamas. Tendo visto imagens aterradoras da violência do 7/10, israelenses se chocaram com o que ela disse.

Yocheved tem 85 anos, é mãe de muitos filhos e avó de muitos netos. Seu marido também foi sequestrado e permanece preso em algum porão de Gaza. Os dois são ativistas da paz de longa data.

Em uma cadeira de rodas, à saída do Hospital Ichilov, de Tel Aviv, ela contou que depois de sua captura foi espancada e levada para o sistema de túneis de Gaza que se parece com uma teia de aranha.

Uma vez lá, os membros do Hamas a trataram com gentileza. Eles a alimentaram com a mesma comida que comiam, deram-lhe água, assistência médica e até xampu. Os banheiros eram limpos.

Temendo doenças, os captores trabalhavam para higienizar a área que abrigava parte dos mais de 200 prisioneiros. Médicos os visitavam com frequência para saber como se sentiam.

Yocheved criticou os militares israelitas, dizendo que eles e o serviço de segurança interna da colônia Shin Bet, onde ela mora, ignoraram os sinais de alerta da ameaça às cidades perto de Gaza.

De fato, na semana passada, o chefe do Estado-Maior militar israelita reconheceu, após os ataques, que os militares não cumpriram a sua missão de proteger os cidadãos de Israel.

Semanas antes dos ataques, os palestinos se revoltaram e dispararam balões explosivos perto da cerca da fronteira de Gaza, provocando incêndios no Sul de Israel. Disse Yocheved:

“O exército israelense não levou isso a sério”.

Os comentários de Yocheved foram considerados por funcionários do governo de Israel como prejudiciais aos interesses israelitas. Bateu “barata voa” no gabinete do primeiro-ministro.

Foi dito ali que a Direção Nacional de Diplomacia Pública deveria ter tomado conta da situação antes da entrevista à imprensa concedida por Yocheved na noite de segunda-feira.

“Teria sido apropriado, no mínimo, deixar claro para Yocheved que mensagens com esse espírito servem ao inimigo em um momento delicado,” comentou uma fonte do governo.

O gabinete do primeiro-ministro reclamou da entrevista. A família de Yocheved disse que rechaçou o pedido do governo para que ela não dissesse que havia sido bem tratada no cativeiro.

A direção do hospital chegou a interromper a entrevista ao perceber o rumo ela tomava e prometeu ao governo que no futuro não deixará mais que reféns libertados falem com jornalistas.

Sobre o aperto de mão de Yocheved com um membro do Hamas quando ela foi entregue aos cuidados da Cruz Vermelha, um parente dela explicou com simplicidade:

“Se um médico trata você por duas semanas, você aperta a mão dele”.

Ronen Tzur, diretor de comunicações do Fórum de Reféns e Famílias Desaparecidas, aborreceu-se com Yocheved::

“Ao mesmo tempo que há esforços tremendos para convencer o mundo de que os reféns devem ser libertados o mais rápido possível, chega alguém e diz que estão sendo bem tratados.”

Uma colunista do jornal Haaretz, o mais importante de Israel, saiu em defesa de Yocheved:

“Yocheved Lifshitz acabou de passar por um trauma que poucos no mundo conseguem compreender. Especialmente nestes primeiros dias como mulher livre, não devemos julgá-la.

Mas podemos maravilhar-nos com o que parece ser a sua empatia sobre-humana. Ela não está provando que o Hamas é humano; ela está provando que é humana”.

Louvada seja.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

The Guardian: 'liberdade de expressão ameaçada em Israel'

Dois ativistas de um movimento de paz árabe-judaico foram recentemente detidos em Israel por colocarem cartazes com uma mensagem que a polícia considerou ofensiva. A mensagem era: “Judeus e Árabes, vamos ultrapassar isto juntos”.

Membros do Standing Together, os ativistas tiveram seus cartazes confiscados, bem como camisetas estampadas com slogans de paz em hebraico e árabe. Não foi um incidente isolado. Em todo Israel, pessoas estão a ser detidas e despedidas dos seus empregos.

E até atacadas por expressarem sentimentos interpretados por alguns como demonstração de simpatia pelo Hamas após o ataque assassino do grupo em 7 de Outubro.


A definição de pró-Hamas é frequentemente alargada para incluir expressões de simpatia pela situação das crianças palestinianas presas em Gaza, ou apelos à paz, especialmente se expressos em árabe e hebraico.

Na semana passada, após 15 anos de serviço num hospital de Petah Tikva, o diretor da unidade de terapia intensiva cardíaca foi suspenso do cargo. A aparente ofensa de Abed Samara foi a sua fotografia de perfil nas redes sociais – uma pomba carregando um ramo de oliveira e uma bandeira verde com a declaração de fé muçulmana:

“Não há Deus senão Alá e Maomé é o seu profeta”.

A repressão é dirigida principalmente pelo governo de Benjamin Netanyahu. Desde o ataque, a polícia teve ampla liberdade para determinar o que se aplica como apoio ao terrorismo. Ela não precisa mais recorrer aos promotores estaduais.

Diz o advogado de direitos humanos Michael Sfard:

“Estamos vendo um tsunami de investigações policiais. As pessoas visadas passam por uma experiência muito assustadora e mesmo que termine sem acusações, ainda assim é horrível. Há uma onda de silenciamento de qualquer tipo de crítica ou de compaixão.”

Protestos em solidariedade a Gaza foram dispersados com força e o chefe da polícia de Israel, Yaakov Shabtai, afirmou:

“Qualquer pessoa que queira identificar-se com Gaza é bem-vinda. Vou colocá-la nos ônibus que vão para lá e ajudá-la a chegar lá.”

No início da semana passada, o gabinete do procurador-geral de Israel anunciou que tinha instruído universidades e faculdades a encaminharem à polícia casos de estudantes que tivessem publicado “palavras de elogio ao terrorismo”.

O grupo de direitos legais Adalah informou que cerca de 50 estudantes palestinos foram convocados para comitês disciplinares por causa de suas postagens nas redes sociais e alguns foram suspensos de seus estudos.

O dever de rejeitar o ódio

Os monstruosos massacres cometidos pelo Hamas contra os judeus israelenses em 7 de outubro causam-me profundo horror. Nada justifica esses ataques fanáticos, muito menos a questão do povo palestino, cuja justa causa é dissimulada por esses atos bárbaros. O terrorismo do Hamas ocultou e está ocultando para muitos o terror de um Estado que respondeu a esses impiedosos fanáticos de forma impiedosa contra dois milhões de habitantes de Gaza, causando já três mil mortes. E como Netanyahu anunciou, isso é apenas o começo.

O ódio não é novo. Mas agora está vindo de ambos os lados. Gera o delírio da culpa coletiva do povo inimigo, que conduz às piores crueldades e aos massacres, atingindo também mulheres, idosos e crianças.

A contextualização dos horrores do 7 de outubro, indispensável para qualquer entendimento, coloca-os, em primeiro lugar, na longa história do povo israelense, vítima milenar do antijudaísmo cristão, depois do antissemitismo racial que visava o seu extermínio, e cuja pátria israelense viu-se por muito tempo ameaçada por Estados hostis. Israel não foi um oásis de refúgio, mas uma cidadela em guerra.

Essa história trágica criou a tragédia do povo palestino. Depois da Guerra da Independência de Israel (1948), o povo palestino foi parcialmente expulso de suas terras e acabou em campos de refugiados no Líbano, na Jordânia e na Cisjordânia, onde ainda está estacionado. Depois da Guerra dos Seis Dias de 1967, toda a Cisjordânia, chamada por Israel de Judeia-Samaria, viu-se ocupada e colonizada não apenas por um Estado, mas ainda hoje por centenas de milhares de colonos israelenses.

A consequência do Holocausto, palavra que significa catástrofe, foi a Naqba, palavra palestina com o mesmo significado, que foi de fato a catástrofe da Palestina árabe.


Assim como é necessário manter viva a memória dos milhões de vítimas do nazismo, também é necessário o respeito por essa memória que não pode justificar o domínio de Israel sobre o povo palestino, que é inocente em relação aos crimes de Auschwitz.

A maldição de Auschwitz deve ser o privilégio que justifica toda repressão israelense?

A colonização da Cisjordânia, que começou precisamente no século da descolonização em África e na Ásia, assemelha-se em muitos aspectos àquelas em que as revoltas e as repressões multiplicaram sangrentos assassinatos de civis entre os opressores e os oprimidos. A diferença não é apenas no agravamento da colonização, mas também no conflito originário entre duas sacralizações antagônicas em relação a Jerusalém e à Palestina.

Séculos de antijudaísmo cristão, depois antissemitismo racista e três anos de extermínio nazista alimentaram o mito sionista do retorno à pátria original.

De fato, Israel mudou a condição judaica. A humilhação secular do judeu sem-terra, submisso e medroso, deu lugar ao orgulho judaico pelas façanhas militares do povo judaico e pelos empreendimentos agrícolas dos kibutzim. Os intelectuais judeus universalistas diminuíram a favor de intelectuais essencialmente sensíveis ao destino de Israel, e para alguns deles a Torá substituiu o Manifesto Comunista.

A noção de "confissão israelita", uma pertença puramente religiosa, foi substituída pela noção de povo judeu, presente tanto na França como em Israel.

Esse apego radical, que deve ser compreendido, levou à justificação incondicional de todas as ações de Israel, incluindo a opressão dos palestinos. Os ocidentais, principalmente os europeus, sentindo-se culpados pelas devastações genocidas do antissemitismo, mostraram-se favorável à nação judaica.

Israel, filho do antissemitismo europeu e ocidental, tornou-se o posto avançado privilegiado da presença ocidental num perigoso mundo árabe. O recente pró-judaísmo (que reduziu, mas não eliminou o antigo antissemitismo) favorece Israel, enquanto ao mesmo tempo a existência de Israel despertou um imenso antijudaísmo no mundo árabe-muçulmano. A isso se somaram, a partir de 1948, considerações estratégicas e militares. Israel obteve a independência graças à vitória sobre os estados árabes que tentavam aniquilá-lo pela raiz e desenvolveu uma força militar superior àquela dos estados vizinhos que há tempo se mantinham hostis. Impôs-se um Israel imperioso, que ignora inúmeras resoluções da ONU para a criação de um Estado palestino. Houve um momento privilegiado em que Arafat e Rabin apertaram as mãos e foram assinados os acordos de Oslo, que previam os dois estados. Mas o assassinato de Rabin por um fanático judeu é o desaparecimento da esquerda israelense levaram ao domínio de uma coalizão nacionalista-religiosa que visa a anexação de toda a Cisjordânia e segue por seu caminho.

Nessas condições, é difícil ver a possibilidade de um Estado palestino com centenas de milhares de colonos israelenses que lhe são radicalmente hostis e é difícil imaginar que Israel retire seus assentamentos. As perspectivas são sombrias; as violências tendem a se intensificar de ambos os lados, com ataques indiscriminados e repressões em massa igualmente indiscriminadas. As verdades unilaterais triunfam, mascarando as verdades contrárias. Ódios e medos dominam os espíritos.

Não é impossível, mas é duvidoso, que uma ação conjunta das Nações Unidas e dos Estados Ocidentais e árabes possa levar a um resultado decisivo.

Não é impossível que o conflito se alastre, abrangendo e incendiando uma nação após outra. Há que se temer o pior.

Que pelo menos as nossas mentes possam resistir aos delírios. A nossa missão não é apenas rejeitar o ódio, mas fazer todo o possível para chegar a um início de compreensão mútua, não só entre Israel e Palestina, mas também entre os apoiadores franceses de ambos os povos, sem abandonar ao esquecimento uma causa justa.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


A telecracia

Entre as pragas que devastam a política, uma é típica da civilização do consumo e abriga o campo do simbolismo. É conhecida como marketing. Origina-se na liturgia do poder, fazendo-se presente na História da Humanidade como sistema de tintura, pintura, estética para lapidar a imagem de governantes, sejam eles reis, presidentes, políticos ou celebridades do mundo dos divertimentos.

Quinto Túlio já o experimentava em 64 A.C. quando aconselhava o irmão Marco Cícero, famoso tribuno romano, candidato ao consulado, a se apresentar como um “homem novo preparado para conseguir a adesão entusiasmada do povo”.

César calculava os gestos públicos. Maquiavel ensinava o Príncipe a divertir o povo com festas e jogos. Luís XIV desfilava em seu cavalo branco nos espetáculos que promovia. Napoleão parecia um pavão vestido de púrpura quando se coroou para receber a benção do papa em Notre-Dame. Hitler foi treinado em aulas de declamação para agitar as massas, aprendendo a arte da oratória com um artista chamado Basil. O marketing político ganhou status profissional sob o comando de Joseph Goebbels, o “publicista” de Hitler.


Essa engenharia de encantamento das massas aportou, há décadas, no Brasil para agravar as mazelas de nossa incipiente democracia. Nos anos 60 tivemos as primeiras campanhas marqueteiras. Começou com a mobilização das massas nas ruas. Passou pela adoção de símbolos, cores e cantos até ganhar, hoje, dimensão pirotécnica, quando elege a forma em detrimento de valores. Políticos são transformados em bonecos.

Slogans se antecipam a programas. Brasil, Pátria Amada; Brasil, União e Reconstrução. Fincam-se no território as estacas do que podemos chamar de telecracia – extravagância sob a pilotagem da mídia eletrônica –, em que atores canhestros são ensinados a engabelar a fé dos tele-eleitores. Não é de admirar que a representação política, plasmada pela cosmética do apelo mercadológico, tem criado imenso vácuo no meio social. Poucas pessoas acreditam nos políticos. A transformação da política em extensão do show business tem sido o ofício de uma classe treinada para ampliar os limites do Estado-Espetáculo a fim de extrair dele grandes negócios.

Nos Estados Unidos, essa atividade está consolidada. Ocorre que os norte-americanos, mais racionais, se agrupam em torno de dois grandes partidos e não se deixam enganar facilmente. Ademais, lá não se vê o desperdício de tempos eleitorais gratuitos servindo de trampolim para a atividade circense da política. Aqui, o povo paga (com impostos) para ser enganado. E ainda compra gato por lebre. A varinha de condão é usada para empetecar atores pelo país afora, embalando candidatos com o lema vivaldino: “Fulano fez, fulano fará melhor”.

Como os resultados são parcos, instala-se na consciência social um processo de desmoronamento dos falsos “feitores”. Prefeituras e governos, incluindo o federal, estão encostados no monumental paredão de pasteurização construído com a argamassa do marketing. Profunda distância se forma entre a imagem dos entes governativos e a realidade social.

A degradação da política é um processo em curso e resulta da antinomia entre o interesse individual e os interesses coletivos. Essa pertinente observação de Maurice Duverger, quando estabelece comparação entre o liberalismo e o socialismo, explica bem a crise. A democracia liberal abriu grandes comportas para a corrupção e o socialismo revolucionário se arrebentou sob os destroços do Muro de Berlim. Estamos à procura de um novo paradigma capaz de resgatar a velha utopia expressa por Aristóteles, em sua Política, a de que o homem, como animal político, deve participar ativamente da vida da polis (cidade) para servir ao bem comum.

Crônica seca


Eu não mato crianças, mas eles matam, logo nós matamos.
Alexandre Brandão

Bairro inteiro de Gaza é destruído

Os contínuos ataques aéreos israelenses em Gaza destruíram a maior parte de um bairro localizado no centro do enclave. Autoridades do ministério da saúde administrado pelo Hamas dizem que o número total de mortos em toda a região aumentou para mais de 4.300 pessoas.

Mais da metade dos mortos são mulheres e crianças, afirma o ministério.

Cerca de 1,4 milhões de habitantes de Gaza foram deslocados, com mais de meio milhão de pessoas em 147 abrigos da ONU, afirma a própria organização.

Grande parte de al-Zahraa no centro de Gaza foi arrasada

No sábado, caminhões com doações de alimentos, medicamentos e outros itens básicos começaram a entrar na Faixa de Gaza pela fronteira com o Egito.

O Exército de Israel disse que a ajuda se destinava apenas à parte sul do enclave palestino.

Os militares também pediram que todos os moradores do norte da Faixa de Gaza deixem a região e se desloquem para o sul da reserva de Wadi Gaza, no centro do território.

No entanto, os ataques aéreos israelenses também continuaram no sul de Gaza. Algumas pessoas se recusaram a sair das suas casas, afirmando que nenhum lugar é seguro.

Israel cortou o fornecimento de combustível, eletricidade e água a Gaza depois que o braço militar do Hamas invadiu a fronteira com Israel, matando mais de 1.400 pessoas e fazendo mais de 200 reféns.

O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) disse que "bombardeios intensivos" continuavam em Gaza, assim disparos indiscriminados de foguetes contra centros populacionais israelenses" de grupos armados palestinos.

Funcionários da ONU descrevem a situação em Gaza como catastrófica. Já o porta-voz militar israelense, Daniel Hagari, disse que as condições humanitárias em Gaza estavam “sob controle”.

Os últimos ataques aéreos israelenses destruíram o bairro de al-Zahraa, no centro de Gaza. Mais de 20 blocos de apartamentos foram arrasados durante a noite de sexta-feira.

Imagens e vídeos postados nas redes sociais mostraram nuvens de fumaça subindo acima do bairro e fileiras de prédios destruídos ao longo de ruas repletas de escombros.

Moradores disseram à BBC que não esperavam o bombardeio porque a área estava relativamente calma. Eles disseram que foram instruídos a evacuar na noite de quinta-feira, por volta das 20h30, no horário local.

"Corremos pelas ruas. Então Israel começou a bombardear esta área sem parar, das 21h às 7h desta manhã", disse uma mulher à BBC na sexta-feira.

O bombardeio deixou milhares de pessoas sem ter para onde ir. Na sexta-feira, outro morador disse à BBC que pessoas ainda estavam presas sob os escombros de suas casas.

"As ambulâncias não podem chegar aqui. As pessoas estão gritando, mas não podemos retirá-las", disse ele.

No norte de Gaza, a organização humanitária Crescente Vermelho disse que as forças israelenses ordenaram a evacuação do hospital Al-Quds.

O hospital abriga atualmente mais de 400 pacientes e 12 mil civis deslocados, segundo a instituição.

A Crescente Vermelho apelou à “comunidade internacional para agir com urgência”.

Um grupo de médicos, Médicos pelos Direitos Humanos de Israel, disse ter apresentado uma petição ao Supremo Tribunal israelense alertando que o hospital Al-Quds não poderia ser esvaziado.

“Na sua resposta, o Estado anunciou que não atacaria o hospital por enquanto”, disse o grupo, que afirmou que um ataque ao local poderia colocar civis em perigo, representar uma violação do direito internacional e causar danos aos serviços médicos.

Já a ONG Save the Children alertou que a vida de um milhão de crianças em Gaza “está em jogo”.

A agência humanitária pediu a evacuação médica urgente de crianças doentes e feridas de Gaza e alertou para o aumento de mortes como resultado direto da grave escassez de suprimentos médicos e dos apagões de energia.

Israel disse que abriu investigações sobre um ataque aéreo que danificou o complexo de uma igreja em Gaza durante uma investida contra o Hamas na quinta-feira.

Um edifício próximo à Igreja de São Porfírio, na cidade de Gaza, desabou parcialmente no ataque.

Autoridades do Hamas disseram que 16 pessoas morreram, enquanto Israel apenas disse estar ciente de relatos de vítimas.

O ex-deputado americano Justin Amash disse que vários de seus parentes que estavam abrigados no complexo da igreja foram mortos como resultado do ataque aéreo israelense.

“A comunidade cristã palestina sofreu muito. Nossa família está sofrendo muito”, escreveu ele no X (antigo Twitter).

As Forças de Defesa de Israel (IDF) disseram que seus caças atingiram um centro de comando e controle do Hamas, que estava sendo usado para realizar ataques com foguetes, nas proximidades da igreja.

"Como resultado do ataque das FDI, o muro de uma igreja na área foi danificado. Estamos cientes de relatos de vítimas. O incidente está sob revisão", afirmou o Exército.

“As IDF podem afirmar inequivocamente que a igreja não foi o alvo do ataque.”

Com base nas imagens divulgadas na sexta-feira, parece que embora o edifício principal da igreja tenha sofrido alguns danos, foi um edifício adjacente , que fica dentro do complexo, que desabou.

Fotos analisadas pela BBC Verify, a unidade de checagem de fatos da BBC, mostram uma grande quantidade de detritos caindo na estrada.

O Patriarcado Ortodoxo de Jerusalém, chefe da principal organização cristã palestina, expressou a sua “mais forte condenação ao ataque aéreo israelense que atingiu o complexo da sua igreja”.

São Porfírio é a igreja mais antiga ainda em uso em Gaza, cuja estrutura atual remonta ao século 12. Existem cerca de 1.000 cristãos em Gaza, a maioria dos quais são ortodoxos gregos.

O Hamas disse que cerca de 500 pessoas estavam abrigadas no local, mas a BBC não foi capaz de confirmar a informação.

domingo, 22 de outubro de 2023

Com olhos em Gaza

O mundo está doente, sem muito onde esconder esta dor cortante que se chama guerra. Ela, a guerra dos tempos atuais, gosta de se exibir, de se mostrar na tela de qualquer celular. Ela adentra agora a terceira semana de uma escalada de matanças iniciada pelo grupo terrorista Hamas e respondida por Israel com punição coletiva máxima à vida em Gaza. Esse horror poderia ser pior? Sim, e muito — tanto para nossos compatriotas como para o resto do mundo. Basta imaginar o Brasil e os Estados Unidos ainda em mãos de Jair Bolsonaro e Donald Trump, com ambos encorajando os piores instintos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A remota eventualidade de o congressista de extrema direita Jim Jordan ocupar a presidência da Câmara dos Representantes americana, atualmente acéfala, já dá calafrios. Se eleito, Jordan se tornaria o terceiro na linha de sucessão, portanto logo atrás de Kamala Harris, em caso de afastamento do presidente Joe Biden por algum motivo. Integrantes do próprio Partido Republicano designam Jordan como “legislador terrorista”, golpista e partidário de uma política de terra arrasada.


Os historiadores Will e Ariel Durant, coautores dos quase 20 volumes de “História da civilização”, calcularam que, em toda a história da humanidade, vivemos apenas 27 anos sem que alguma guerra estivesse ocorrendo em algum canto do planeta. Guerras não são, portanto, uma aberração. Apenas expõem um lado da natureza humana mascarado por convenções de civilidade que moldam a sociedade. Nunca é demais dar um Google ou fazer uma imersão física na obra-prima de Goya, “El 3 de mayo en Madrid”, exposta no Museu do Prado, de Madri. Na monumental tela de 2,6 x 3,4 metros pintada em 1814, a vítima anônima a ser fuzilada passou a representar todas as vítimas inocentes de todas as guerras. É terrivelmente bela.

Ao longo da semana passada, assistiu-se a um esforço concentrado do Conselho de Segurança da ONU, sob a presidência do Brasil, para chegar a um acordo mínimo capaz de interromper a asfixia, por fome, sede, deslocamento, enfermidades ou bombardeios ininterruptos, de palestinos amontoados no que resta de vida em Gaza. Joe Biden deu o único voto contra, chamando para si a primazia de dizer ao mundo (e a seu eleitorado americano) quando e como arranjos humanitários teriam o aval dos Estados Unidos. Entrementes mais vidas palestinas iam se apagando. Até a sexta-feira, já havia mais de 1.600 crianças palestinas envoltas em mortalhas brancas, choradas por quem ainda podia chorar.

Até hoje, nenhuma negociação envolvendo o Estado de Israel e a Palestina conseguiu superar uma disparidade semântica criada propositalmente quase cinco décadas atrás. No dia 22 de novembro de 1967, com o Oriente Médio mal refeito da Guerra dos Seis Dias, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 242, que exigia a retirada de Israel “de territórios ocupados no conflito recente”. Na versão oficial em francês, contudo, à preposição se acrescentou o artigo definido: retirada “dos territórios ocupados”, de todos eles (Cisjordânia, Deserto do Sinai, Colinas de Golã, Gaza). Enquanto a versão em inglês permitia flexibilidade para negociações futuras, a francesa não dava espaço a interpretações. Ambas foram referendadas à época, sobreviveram aos Acordos d Paz de Camp David (1978), Oslo (1993) e continuam a reger essa diferença intransponível.

Não por acaso, “Vai pra Gaza” tornou-se expressão coloquial israelense, usada por quem quer mandar o outro ao inferno. Entrou para o léxico por força do statu quo, não muito diferente do “Vai pra Cuba” dirigido por “brasileiros de bem” a comunistas imaginários. Não dói, mas diz muito sobre o que está subjacente. Quando o atual ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, classifica os palestinos de Gaza de “animais desumanos”, recorre à mesma linguagem atiçada do terror.

A trágica história do povo judeu criou a tragédia atual do povo palestino, resumiu o pensador francês Edgar Morin com lucidez centenária (está com 102 anos). Morin talvez seja um dos últimos adeptos do universalismo, a convicção de que determinados princípios e ideias trazem embutidos um valor universal que transcende nações, fronteiras e laços de sangue. Mas como tomar conta do mundo, perguntaria Clarice Lispector, se não encontramos a quem prestar contas?

Guerra contra todos

O mundo responsável segue preocupado com o ataque do Hamas ao sítio israelense e à resposta dos atacados. Os mortos já passam de 5 mil mil cidadãos, cidadãs e crianças. A cidade de Gaza e o resto da Faixa de Gaza já estão quase totalmente destruídos, como não podia deixar de ser. Só vemos fotos na imprensa onde tudo se encontra em restos de paredes e estruturas pelo chão.

No meio da tragédia somos informados de que os palestinos libertaram duas pessoas sequestradas por razões humanitárias. Estão livres, podem voltar para o seio da família, o contrário do que os sequestradores anunciavam quando começaram a entrar em ação.

Ótimo. Claro que nos sentimos solidários à alegria da dupla, que aplaudimos a decisão dos sequestradores. Mas de onde vem essa decisão? O que ela significa? A que ela nos leva? Que brincadeira é essa com os nossos corações?

Quando essa guerra começou, há duas semanas, nos manifestamos contra sua natureza e sobretudo quanto aos motivos e às disposições dos dois lados dela. Considerávamos que não havia por que ambos afirmarem tal ódio ao “inimigo” por tão pouco. Nosso mundo não justificava mais (nem nunca justificou) uma oposição racial ou religiosa tão intensa quanto a que eles sempre afirmaram sentir um pelo outro. Uma oposição capaz de gerar um nível de ódio impossível de ser explicado, a não ser pela simples e inexplicável estupidez humana.

Na eleição de Joe Biden à presidência americana, nos unimos ao que havia de melhor nos Estados Unidos e no mundo em um elogio à derrota de Donald Trump, cuja vitória significaria um sucesso da extrema direita violenta, guerreira, inimiga dos fundadores libertários do século XIX.


Hoje vemos que estávamos enganados. Ou seja, que Biden não era muito melhor que Trump. Será que não podemos ter esperança alguma num futuro do planeta?

Há pouco o Brasil estava assumindo a presidência do Conselho de Segurança da ONU por um mês, como é de praxe, com o governo enfrentando os “amigos” do Congresso que queriam que se declarasse apoio a Israel e ao bombardeio de Gaza. O Itamaraty e o ministro do Exterior, Mauro Vieira, apresentaram uma proposta adulta, que deixava esse apoio a critério de cada país. E que, ao mesmo tempo, pregava a paz. Pois o representante dos Estados Unidos não quis saber de nada, recusou-se a assinar a moção brasileira. Foi o único membro do Conselho a adotar essa posição e como tem direito a veto, junto com mais cinco nações igualmente poderosas, acabou neutralizando a pacífica intenção da proposta.

Talvez seja também a prova de uma ingenuidade brasileira, o não entendimento de que a paz não seria um bom negócio para os poderosos. Mas, se estamos sós, a sós ficaremos!

Quem sabe isso não será também um recado para nós todos que desejamos antes de tudo o fim das guerras. No fundo, talvez seja o que os países membros do Conselho da ONU com direito a veto desejem nos dizer, para não nos metermos nesses assuntos que são da alçada deles.

O fato é que a maldição dessa guerra insana (insana como toda guerra) impediu que as vítimas da Faixa de Gaza recebessem um pouco de água e comida, além dos serviços médicos de que devem estar precisando tanto.

Gaza — que, na definição de um político europeu, foi chamada de a maior prisão a céu aberto do mundo — continuará recebendo os líderes da guerra de braços dados com o desorientado Benjamin Netanyahu a fim de comemorar as “vitórias” no combate contra palestinos e israelenses.

Pensamento do Dia

 


Vingança não muda o mundo


Quando mataram meu filho no Líbano, quis me vingar. Mas vingança não muda nada
David Grossman, escritor israelense

A caixa de Pandora

Na Mitologia Grega, o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus e deu aos homens, para eles serem superiores aos outros aninais. Zeus, em retaliação, pediu a Hefesto, Deus do Fogo, e a Atena, Deusa da Sabedoria, para criar Pandora, dotada de beleza, graciosidade e curiosidade. Para se vingar dos homens, Zeus fez chegar à Pandora uma caixa onde estavam todos os males do mundo, como a guerra, a doença, a mentira, e o ódio, mas também a esperança, com a recomendação de que ela nunca deveria ser aberta. Pandora abre a caixa, espalhando todos os males do mundo, fechando-a com a esperança dentro. Pandora tenta destruir a caixa, mas ela tem um feitiço para não ser destruída. Triste, Pandora se suicida.

Os limites dos homens são complicados. Maquiavel, filósofo e historiador Italiano e um dos fundadores pensamento político Ocidental, diz que na guerra, “não se deve humilhar o vencido, pois a humilhação leva ao ódio, e o ódio à vingança”. Sun Tzu, general e estrategista da China antiga e de suma importância no pensamento militar do Oriente, diz que “ao cercar o inimigo deve-se deixar uma possibilidade de fuga, não para que ele fuja, mas para que não lute com a força de um leão enfurecido”. E Carl von Clausewitz, general Prussiano e o mais importante e influente teórico militar contemporâneo, diz que “as guerras modernas raramente são travadas sem ódio entre as nações; isso serve mais ou menos como um substituto para o ódio entre indivíduos”. Erros recíprocos podem levar ao ódio, que se retroalimenta.


O homem é um animal que compartilha a emoção, boas e más, com a razão. Quando a emoção se deteriora, surgindo a raiva, pode-se perder a razão por completo, no império do ódio.

Nos Sete Pecados Capitais, estão a inveja, a ira, e a soberba, em contraposição à empatia, à generosidade, e à humildade.

Em sua excelente análise sobre os limites a que o homem pode chegar, Edson de Oliveira Nunes, em seu artigo recente, diz-nos sobre a banalidade do mal, evocando Hannah Arendt, quando as causas se perdem, e surge o mal pelo mal, o mal puro, “aquela hora na qual desaparece a humanidade das pessoas”, como escrito em seu artigo.

No Oriente Médio, a guerra se acirra. No Brasil, o rio Solimões seca. Na Sibéria, “vírus zumbis” se renascem após 50 mil anos, pelo degelo. Perdem-se momentos históricos em decisões equivocadas. Que alguém reabra a caixa de Pandora onde ainda se encontra a esperança, nas atitudes altruístas da humildade e do bem-querer, para que o homem sobreviva, hoje à beira do precipício.

A contribuição da mídia para o ciclo de violência

Uma vez mais, a exemplo do que acontece há décadas, é um ataque a Israel o elemento a ativar uma cobertura jornalística exaustiva da mídia comercial brasileira sobre o conflito israelo-palestino. Claro, a magnitude sem precedentes (sob o ponto de vista israelense) dos atentados terroristas cometidos pelo grupo palestino Hamas contra civis em 7 de outubro – muitos dos 1.300 mortos – mais do que justifica a atual repercussão. Porém, é inescapável a constatação de que, via de regra, ofensivas contra palestinos não são suficientes para tanto, à exceção de quando são realizadas a modo de “retaliação” – nesse caso, novamente a partir da perspectiva de Israel.

Já nos períodos entre tais ataques, ou entre as “guerras”, o interesse jornalístico sobre a região cessa. A impressão, portanto, é de normalização. Só que o “normal” e corrente é a opressão sistemática do Estado de Israel sobre os palestinos, há décadas submetidos a uma política de militarização, segregação institucionalizada, roubo de terras, demolição de casas, violências físicas e morais, encarceramento em massa e assassinatos. Nesse alinhamento editorial quase
automático à narrativa israelense e das potências ocidentais sobre os fatos, a vida dos palestinos parece valer menos.

Tal postura é compreensível. Afinal, os israelenses “são pessoas como todos nós”, como disse um jornalista brasileiro. Esquece-se, talvez, que os palestinos também são. A identificação e, logo, empatia com o “similar” e a desumanização do “outro” não é novidade entre a mídia hegemônica no Brasil e no Ocidente. Em relação aos árabes e muçulmanos, tal desumanização ganhou muita força, especialmente, após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Na BBC, enquanto os israelenses são mortos, os palestinos morrem. Na CNN Brasil, a legenda do noticiário diz que o Hamas “ataca” Israel, mas bombas aparentemente sem dono “atingem” Gaza.

Em Jenin, ingleses destruíram um quarteirão da cidade com dinamite, em 1938

O foco desproporcional das e dos jornalistas brasileiros (mas também os de fora) em, por um lado, repetidamente proclamar os atos do grupo palestino em 7 de outubro como terroristas – com razão – mas, por outro, sonegar ao público o contexto estrutural e conjuntural em que se inserem contribui, conscientemente ou não, para justificar (ou, no mínimo, tornar mais palatável) a “retaliação” israelense, historicamente carregada de crimes de guerra e números de assassinatos de civis flagrantemente mais graves. Mesmo nos minoritários comentários críticos sobre as consequências dos bombardeios israelenses à Faixa de Gaza (os de agora ou os anteriores), a carga emotiva fica muito longe de ser a mesma. As vítimas palestinas raramente têm nome, rosto, histórias como “de todos nós”. Jornalistas ávidos a chamar “as coisas pelo seu nome” no caso do Hamas não se esforçam tanto assim para nomear de forma contundente o caráter e as ações de Israel – um agente estatal, vale lembrar.

Até 16 de outubro, o atual bombardeio a Gaza já havia matado mais de 2.800 pessoas, incluindo mais de mil crianças, e deslocado forçosamente ao menos 1 milhão. Já havia evidências de ataques a hospitais, ambulâncias e escolas, assassinatos de funcionários da ONU e Cruz Vermelha, utilização de fósforo branco, arma química proibida pela legislação internacional, além do bloqueio total da entrada de alimentos, água e combustível. Elementos que configuram claramente a prática de punição coletiva. Contudo, com raríssimas exceções, as expressões “crimes de guerra” ou “terrorismo de Estado”, assim como as palavras “crueldade” ou “atrocidades”, não são ditas nem escritas pelas bocas e mãos dos jornalistas brasileiros. Pelo menos não com o mesmo destaque. Pelo contrário: na escalada do “Jornal das Dez” de 12 de outubro, da GloboNews, por exemplo, o âncora anunciou: “Funcionários da ONU e da Cruz Vermelha morrem em Gaza em meio ao fogo cruzado”. Comentaristas dizem sem meias palavras serem contrários a um cessar-fogo. Em meio ao amplamente denunciado desrespeito absoluto às leis internacionais por parte de Israel, não faltam entrevistas com soldados e sua linguagem desumanizadora. E não são raros os momentos em que notícias sobre os ataques a Israel são atualizadas tendo como imagens de fundo as vítimas do bombardeio israelense.

Além disso, o foco desproporcional na natureza do Hamas escamoteia o verdadeiro debate que a maioria dos profissionais dos meios de comunicação se recusa a fazer: quais as causas do estopim de mais esse ciclo de violência? Buscar entender as condições conjunturais e estruturais que levam a essa situação não exclui a condenação das atrocidades cometidas pelo grupo islâmico palestino. Não compreendê-las, por outro lado, necessariamente contribui para a perpetuação do ciclo de violência e da flagrante situação de injustiça (e violência cotidiana) sofrida pelos palestinos.

Em editorial, o Haaretz, mais importante jornal israelense, afirma de forma categórica: o responsável pelo mais recente ciclo de violência é o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. No mesmo veículo, o respeitado jornalista Gideon Levy argumenta que Israel não poderia aprisionar 2 milhões de pessoas sem pagar um preço cruel. Não se viu elaborações do tipo partindo de jornalistas brasileiros da mídia corporativa – no mínimo, não ganharam destaque. Aparentemente, mesmo na imprensa israelense há mais espaço para o contraditório sobre… Israel.

Se exercessem de maneira minimamente equilibrada sua função, os jornalistas da imprensa comercial não sonegariam a informação crucial de que Israel promove um regime de apartheid contra os palestinos. Essa não é uma classificação bradada “apenas” por palestinos ou apoiadores da causa há décadas: além da respeitada organização de direitos humanos palestina Al-Haq, o entendimento de que o Estado de Israel adota políticas, práticas e leis cujo objetivo é consolidar a supremacia de judeus sobre palestinos é compartilhado pelas amplamente reconhecidas Anistia Internacional e Human Rights Watch, além da ONU e da B-Tselem, principal organização de direitos humanos de… Israel. À mesma conclusão chegaram, entre outros, dois ex-embaixadores israelenses na África do Sul e ninguém menos do que o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, um dos mais proeminentes opositores da segregação institucional que existiu por décadas em seu próprio país.

O apartheid também é a realidade dos cerca de 20% de palestinos que vivem dentro de Israel e que possuem cidadania israelense. Em 2018, a imprensa brasileira não repercutiu exaustivamente a aprovação no Knesset (o parlamento local) da Lei do Estado-Nação, que definiu oficialmente Israel como “Estado-Nação do povo judeu”, reservou o direito à autodeterminação apenas a esse povo e estabeleceu o hebraico como única língua oficial. Não se fala também que na “única democracia do Oriente Médio” existem 65 leis discriminatórias contra palestinos que vivem nos territórios palestinos ocupados e/ou em Israel e que estes últimos, longe de gozarem de condições iguais a qualquer cidadão, ocupam a base da pirâmide da sociedade.

Mesmo diante de tamanho volume de evidências, a palavra “apartheid” não aparece nos comentários sobre o conflito na imprensa comercial. Não seria sequer preciso pronunciá-la com a mesma contundência adotada sem hesitação para definir o Hamas; bastaria, simplesmente, informar que as mais do que respeitadas entidades internacionais o fazem – e expor suas motivações. No máximo, menciona-se a “ocupação” do Estado israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, mas sempre de forma quase etérea, anódina, sem que se detalhe o que isso significa na prática para milhões de palestinos.

A afirmação de que os palestinos de Gaza “vivem sob a ditadura do Hamas” é repetida à exaustão, mas nunca se explica que a população palestina da Cisjordânia e Jerusalém Oriental está submetida à ditadura israelense. Um regime militar colonial de apartheid que, como testemunhei durante três semanas em maio deste ano, confina palestinos em bantustões, mata civis sistematicamente (incluindo crianças), encarcera em massa sem acusação formal (de novo, incluindo centenas de crianças), confisca terras e poços de água, ergue check-points e centenas de quilômetros de muros – violando o direito de ir e vir –, demole casas e escolas, impede a construção de novas residências palestinas e promove a expansão de assentamentos israelenses sobre as terras roubadas, boa parte deles habitada por colonos religiosos ultranacionalistas fortemente armados que realizam ataques praticamente diários a palestinos, seus lares e seus cultivos, resultando, por vezes, no desaparecimento completo de vilas palestinas. Entretanto, enquanto os ocupados e principais vítimas da violência estão sob a jurisdição da Justiça militar de Israel, os israelenses dos assentamentos respondem à Justiça civil. Em 12 de outubro, a GloboNews chegou ao ponto de entrevistar um militar israelense-brasileiro, morador de um assentamento na Cisjordânia, e ouvi-lo dizer que as “tensões” nessa região são comuns sem contestá-lo em nenhum momento sobre a ocupação.

Outro discurso amplamente repetido por jornalistas brasileiros é o famoso clichê de que “Israel tem o direito de se defender”. A não ser que a intenção seja cumprir a função de assessoria de comunicação dos governos de Israel, Estados Unidos e Reino Unido, entre outros, do ponto de vista jornalístico uma afirmação como essa é um atestado de falta de profissionalismo. Em primeiro lugar, porque, como é regra na cobertura da mídia comercial sobre o assunto, posiciona o início da linha temporal do conflito sempre no momento em que Israel é atacado, “escondendo”, assim, o contexto em que tal incidente se insere. A máxima isenta o Estado de Israel de sua responsabilidade como potência colonizadora de poder e força infinitamente superiores, promotora de segregação e violência cotidiana contra os palestinos não desde 1967, como frequentemente se imagina, mas desde 1947.

Pois, de dezembro desse ano até meados de 1949, milícias sionistas puseram em marcha uma operação militar, planejada com antecipação, que resultou na expulsão de cerca de 700 mil palestinos, na destruição de centenas de vilarejos e na realização de dezenas de massacres, com milhares de mortos. Em vez dos 56% do território determinados pela questionável proposta de partilha da ONU, o novo Estado se apoderou de 78%. Esse evento ficou conhecido como Nakba (catástrofe, em árabe). Sempre denunciada pelos palestinos e apagada pelos sionistas, foi “corroborada” a partir dos anos 1980 pelos chamados “novos historiadores” israelenses, com base na abertura dos arquivos militares de Israel referentes aos acontecimentos.

O clichê “Israel tem o direito de se defender” ignora mais esse fato histórico. A limpeza étnica de palestinos como base fundacional de Israel não é mencionada na imprensa nem mesmo nas matérias e comentários sobre o histórico do conflito, muito menos a informação de que 70% da população da Faixa de Gaza é formada justamente por refugiados da Nakba. Ou seja, são originários de vilarejos destruídos para dar lugar ao Estado sionista.

Oculta, ainda, a extrema desproporção de mortes dos “dois lados” do conflito resultante dessa absoluta assimetria de força e razão. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), somente de 2008 a 19 de setembro de 2023, 6.407 palestinos haviam sido mortos, entre eles, nada menos do que 1.437 crianças. Do lado israelense, esse número era de 308; destes, 177 eram civis, entre eles, 25 crianças. Ou seja, apenas a quantidade de crianças assassinadas de um lado foi oito vezes maior do que a do total de civis do outro. Do total de mortos, 95% são palestinos. Reconhecer que não existe uma “guerra”, mas sim uma entidade flagrantemente opressora – Israel – e outra flagrantemente oprimida – o povo palestino, é exercício de pura objetividade jornalística.

Até 18 de setembro, somente na Cisjordânia, 2023 já era o ano em que mais palestinos haviam sido mortos pelas forças de segurança israelenses desde 2005: 181, incluindo 38 crianças, superando 2022, o mais letal até então. Desde o ano passado, colonos israelenses, não raro sob a proteção do Exército, vêm realizando um número sem precedentes de ataques a vilas e vilarejos palestinos na mesma região, com assassinatos, queima de casas e cultivos, mortes de animais e cortes de oliveiras, a árvore-símbolo da Palestina e de importância crucial para a geração de renda de sua população. Por diversas vezes, invadiram o complexo da mesquita de Al Aqsa, terceiro local mais sagrado para os muçulmanos – de novo, sempre sob a proteção do Exército de Israel. A crescente violência empregada por esses colonos fez a própria Agência de Segurança de Israel, a Shin Bet, a classificá-los como terroristas cujos atos levam a um aumento da resistência contra a ocupação, conclusão que descontentou profundamente integrantes do governo de extrema-direita israelense.

Todavia, nem o terrorismo dos colonos israelenses nem boa parte de todo esse contexto relatado acima foram noticiados por aqui. Não se destaca, também, o fato de que a violência contra palestinos na Cisjordânia explodiu desde o dia do atentado do Hamas de 7 de outubro: em apenas oito dias, ataques de colonos e soldados israelenses já haviam matado 58 pessoas, incluindo 14 crianças, e causado a evacuação total de dois vilarejos. As forças de segurança de Israel estão instalando novos check-points e bloqueios de estradas, realizando prisões arbitrárias em massa e intensificando as violações contra prisioneiros palestinos, submetendo-os a medidas de punição coletiva.

O segundo motivo pelo qual nenhum jornalista deveria afirmar que Israel tem o direito de se defender deveria ser óbvio: ao longo da história do “conflito” já está mais do que demonstrado que tal “defesa” sempre (sem exceção) resulta no assassinato de uma maioria assustadora de civis – homens, mulheres, crianças. Investigações realizadas por respeitadas organizações de direitos humanos – como Anistia Internacional, a israelense B-Tselem e a Euro-Med Monitor – sobre os bombardeios anteriores à Faixa de Gaza atestam que o Estado israelense invariavelmente comete uma série de crimes de guerra, como a prática de punição coletiva e o lançamento intencional de ataques desproporcionais.

Nem manifestações e iniciativas pacíficas são poupadas. Entre março e dezembro de 2018, milhares de manifestantes desarmados de Gaza realizaram semanalmente a Marcha do Retorno, que reivindicava o retorno dos palestinos deslocados desde a criação de Israel. Segundo uma investigação da ONU, mais de 6 mil civis desarmados foram atingidos por disparos vindos dos militares israelenses, dos quais 189 foram mortos. Entre eles, 35 eram crianças. Já na madrugada de 31 de maio de 2010, navios da Marinha do Estado judeu abordaram e dispararam contra a pequena frota internacional que levava ajuda humanitária a Gaza, matando oito turcos e um estadunidense de origem turca. Sem falar na repressão absolutamente desproporcional contra os levantes populares que ficaram conhecidos como Primeira e Segunda Intifada, que causou a morte de milhares de civis palestinos.

Jornalistas que cobrem ou comentam o conflito israelo-palestino têm a obrigação de conhecer todo esse contexto – e informar seu público a respeito. Deveriam, também, saber que o próprio bloqueio terrestre, aéreo e marítimo à Faixa de Gaza, que dura dezesseis anos, configura em si um crime de guerra. Uma punição coletiva que condena boa parte de sua população a uma morte “lenta” ao não ter acesso adequado a água potável e serviços de saúde e ao depender de autorizações nem sempre concedidas para realizar tratamentos fora da região, entre outros fatores. Uma crueldade promovida por um Estado, não por uma agente não estatal, que faz que virtualmente todas as crianças nascidas ali não conheçam outra realidade que não a do bloqueio e dos bombardeios e sofram, assim, um trauma continuado, que especialistas afirmam não se enquadrar na categoria do transtorno de estresse pós-traumático em razão do fato de que o evento traumático não se encerra, não se dando chance, portanto, para que se inicie o processo de cura. O bombardeio atual é o quinto de grandes proporções à Faixa de Gaza desde 2009.

É nesta realidade estrutural e conjuntural que se inserem não somente os ataques dos Hamas em território israelense, como também sua própria criação, em 1987 – financiada, aliás, por Israel, com o intuito de enfraquecer os seculares Organização pela Libertação da Palestina (OLP) e o partido Fatah, liderados por Yasser Arafat. Compreender que esse tipo de ação é consequência da violência estrutural imposta pelo Estado de Israel sobre os palestinos há 76 anos não significa deixar de condenar as atrocidades cometidas contra civis israelenses em 7 de outubro.

Enquanto a ocupação militar e o apartheid israelenses continuarem existindo e se expandindo, a resposta militar legitimada e justificada por grande parte da imprensa brasileira e ocidental – de forma velada ou explícita – nunca será verdadeiramente vitoriosa. No entanto, o jornalismo hegemônico se recusa a fazer esse debate. De nada serve, também, o discurso pretensamente mais ponderado de condenar a brutalidade dos “dois lados” se não se ressalta que um deles é, de longe, o mais brutal. De nada serve performar timidamente a defesa da criação do Estado palestino se não se aponta que o principal obstáculo para isso é a postura do Estado de Israel de manter a ocupação e promover ininterruptamente a expansão territorial sobre terras palestinas. Que tipo de país seria viável em um território cada vez mais reduzido e fragmentado?

Não é a falta de diálogo ou o “ódio” entre dois povos que impedem o fim do ciclo de violência, mas sim a persistência de uma terrível injustiça que nem as potências ocidentais nem a mídia empresarial desses países e do Brasil têm interesse de denunciar ou condenar.