segunda-feira, 11 de maio de 2020

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O ano do Estado da morte

Os mortos de 2020 não são os da ditadura, enfiados em valas desconhecidas e assassinados por torturadores ocultos em registros escondidos ou destruídos. Os de hoje têm cara, identidade e local identificado. Também seus algozes - no momento livres, leves e soltos brincando com o sofrimento nacional - são por demais conhecidos para tentarem se eximir da mortandade.

Os corpos não serão jogados no colo apenas de um desvairado, que instituíram como salvador da pátria, para expurgar a corrupção, reorganizar a economia e redemocratizar o existente Estado Democrático.

Muitos, bem mais do que se pensa, também serão responsabilizados pelo ano da peste brasileira. Há os que protagonizaram a tragédia e seus coadjuvantes por todo o Executivo e mesmo grande parte do Legislativo e Judiciário. Não estão limpas as mãos na saúde, na cultura, na agricultura, nos direitos humanos (argh!), na economia, na educação, nas instituições de Estado, em todos os gabinetes que se tornaram de ódio. Nem as fardas sairão incólumes, sujas com a terra de cemitério. Sejam os que gargalham sobre caixões, ou silenciam coniventes, serão os mortos-vivos que perambularão pela história marcando com sal suas descendências.

Poderá não existir um julgamento de Nuremberg, mas no futuro nenhum taifeiro vai jogar as ossadas para debaixo do tapete. As fotos estarão lá e as valas comuns receberão monumentos de homenagem aos traídos pelos tais patriotas.

Nunca se matou tanto no país sob a desorganização governamental e a orientação inconsequente de um ex-capitão, como o ex-cabo austríaco Adolf Hitler quase dizimou a Alemanha. Ainda nunca na história deste país toda a população sofreu tanto de desemprego, fome e miséria, em meio a estrondosa ganância de privilegiados funcionários de Estado. Entra para a história 2020 como o ano em que o Brasil matou o Brasil.
Luiz Gadelha

O retorno da ‘Aischrópolis’, a cidade feia, e sua democracia agonizante


Corriam os anos do Século de Ouro de Atenas, entre 461 e 429 a.C., quando Péricles, arconte eleito pela Assembleia do Povo (Ekklesía), fez prosperar na polis a arte, a filosofia, a literatura e, especialmente, a política, como “a arte de discernir”. Era a época da chamada Callípolis ateniense, a “cidade bela”, regida pela beleza (kallos), a razão (logos), a justiça (díke) e a democracia (demos, povo – krátos, governo).

Péricles se preocupava não só em proteger Atenas de futuras invasões bárbaras, como também em promover o florescimento civil, artístico e intelectual da polis. Por isso, encomendou a seu amigo Fídias a construção dos principais monumentos e obras arquitetônicas, como o Partenon, os Propileus e as estátuas de Atena, senhora da cidade. Nesse então, Anaximandro e Sócrates se encarregavam da paideía (educação) no ginásio, enquanto que no théatron, Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes refletiam a vida do demos na tragédia e na comédia. Esses espaços cívicos constituíam o acesso ao conhecimento dos politēs (cidadãos ou homens livres) nesta democracia primordial. Contudo, era fundamentalmente no teatro, e durante as Grandes Dionisíacas, que não só os homens livres tinham o direito de participar, mas também os metecos (estrangeiros), as mulheres e os escravos. Era ali onde se exercia a verdadeira democracia, em que todos podiam se sentir parte da isonomia, que procuraram em seus inícios Sólon e Clístenes, graças ao fato de que o Estado custeava os ingressos para quem não podia pagar, garantindo assim que todos pudessem ter acesso a essa necessária e rica cultura intelectual.

No entanto, para realizar essas obras, Atenas cobrava onerosos impostos de seus aliados da Liga de Delos, que pagavam para evitar um eventual ataque inimigo. Foi assim que começou, em meados do século V a. C., uma moléstia nas colônias pelo alto custo de sua proteção. Isso provocou, em 431 a. C., a ruptura da liga e o rompimento com Esparta, começando assim a Guerra do Peloponeso, que durou até 404 a. C.

Esparta via com maus olhos a política de “direitos iguais” que Péricles promovia em Atenas, pois seu sistema de governo era o oposto, uma severa oligarquia na qual poucos tinham direitos. Mas a polis espartana temia, sobretudo, sucumbir ante o poderio dessa Callípolis democrática, porque algumas colônias da Liga do Peloponeso também começavam a se sublevar, pretendendo se unir a Atenas. O rei de Esparta, Arquidamo, pressionou por todas as vias os atenienses até que entraram em guerra, pois não podia permitir que a arrogante Atenas tomasse o controle da Hélade.

Péricles, sabendo os riscos que corria, aceitou a guerra com a convicção de que Atenas “devia ser a escola da Grécia” (Tucídides, II: 41), convencendo com essas palavras a Ekklesía, apesar do eclipse solar que aterrorizou os habitantes da Ática em agosto de 431 a. C. O arconte teve que aproveitar seus conhecimentos astronômicos –ensinados por Anaximandro– para convencer os atenienses de que o fenômeno não era presságio de desgraça e que a polis seguia sendo a favorita do Olimpo.

A intenção de Péricles não era fazer uma estratégia ofensiva, mas defensiva: atacaria só se fosse atacado. Para isso, transferiu todos os habitantes rurais da Ática para a cidade amuralhada para protegê-los do ataque terrestre dos espartanos, mas não se preocupou em lhes dar um teto onde viver na polis. Estes, amontoados nas ruas e nos templos, sofreram em pouco tempo as inclemências de uma epidemia sem igual, que pôs em xeque a poderosa Callípolis, transformando-a na feia e espantosa Aischrópolis (de aischrótes, feiúra, e polis, cidade-estado).

Embora Atenas ganhasse as primeiras escaramuças da guerra, ao começar o verão de 430 a. C., teve de batalhar em uma guerra muito mais cruenta, com um inimigo invisível e imprevisível, do qual só se sabia que provinha da Etiópia. “Chegou a Atenas de um modo inesperado e atacou primeiro os habitantes do Pireu. De repente as pessoas padeciam de febres intensas, (...) depois sobrevinham espirros e tosse, para logo atacar o estômago. (...) Exteriormente, o corpo não resultava nem muito quente nem muito frio (...), com uma erupção de pequenas pústulas e chagas. No entanto, os doentes sentiam uma queimação, que não aguentavam vestir túnicas leves, (...) só podiam andar nus e com vontade de mergulhar em água fria, não só pelo excesso de calor, mas também pela sede insaciável que sentiam. (...) O mais terrível do mal em seu conjunto era o desânimo quando se adoecia ―pois entregues ao desespero se abandonavam muito mais, sem vontade de melhorar― e o fato de que ao se contagiar por cuidar uns dos outros, morriam como rebanhos”, descreveu Tucídides fala, no Livro II de A História da Guerra do Peloponeso, sobre a epidemon nosema (epi, sobre, demon, povo e nosema, doença).

Com seu relato histórico, Tucídides visa possibilitar um maior conhecimento sobre esse contágio no futuro, por isso é minucioso em suas observações médicas tanto a respeito dos infectados como dos sobreviventes, pois ele mesmo resistiu à doença. Assinala que os que morriam em maior número eram os médicos, que, por desconhecer o tipo de mal, não dispunham de meios para curar nem os outros nem a si mesmos, e assim a epidemia se propagou como o fogo ateado nos campos pelos espartanos. E sem que as orações nos santuários pudessem salvá-los tampouco. Ao contrário, ao se aglomerar nos templos, muitos dos suplicantes morriam, ficando seus corpos ali caídos. Foi então que os atenienses mais antigos lembraram da profecia que advertia: “Virá a guerra dos dórios e a peste com ela.” (II: 54) Francisco Romero Cruz, tradutor de Tucídides, menciona como hipóteses muito discutidas para a epidemia ateniense uma variante do tifo ou até mesmo o sarampo, por causa das pústulas nos doentes. Mas estudos recentes se inclinam pela hipótese de febre tifoide.

A imagem da doença, aponta Tucídides, é mais impressionante do que é possível narrar, e o mais inusitado é que nem as aves de rapina se aproximavam dos cadáveres espalhados por toda parte em Atenas e em seus arredores, tanto que naquele ano os espartanos suspenderam os ataques para não se contagiarem. “Junto com a epidemia, o que mais angustiou [os atenienses] foi a concentração das pessoas do campo na cidade (…), houve um estrago que não respeitava regras, pois os cadáveres se empilhavam uns sobre os outros, e os moribundos se arrastavam pelas ruas e em volta de todas as fontes pela ânsia da água. (…) Os homens, sem saber o que fazer, tenderam a abandonar por igual o sagrado e o humano. Todo o ritual de que se serviam antes para os funerais ficou alterado e enterravam como podiam", descreve (II: 52).

Já não havia vestígio da Callípolis de Atena, daquela cidade bela que tinha abrigado os valores que os atenienses mais respeitavam: o bem, a verdade e a justiça. Com a chegada da epidemia, a polis se transformou no mais espantoso para o homem grego, a Aischrópolis, a cidade feia e obscena, onde o espírito se corrompe, a maldade e a falsidade correm soltas pelas ruas, e os vícios e excessos abrem os portões da polis para a temida Hybris, a senhora do mal da Idade de Ferro que, para Hesíodo, incitava nos homens a arrogância, a ambição, a ignorância e a injustiça. Assim narra Tucídides como os atenienses iam perdendo a honra e a virtude, pois já não respeitavam os deuses nem as leis: “Ninguém estava disposto a se esforçar pelo que parecia belo ante a incerteza de se pereceria antes de lográ-lo.” (II: 53)

O descontrole e a desmesura se espalharam ainda mais pela cidade quando o strategos Péricles morreu, com seus filhos, devido à epidemia em 429 a. C. A partir desse ano, a Assembleia do Povo foi vítima dos demagogos (de demos, povo, e ago, conduzir) ―que, corrompendo a ideia fundamental de que na vida política (politéia) deve primar o interesse pela maioria, ou seja, pelo público, viram na compra e venda do voto a possibilidade de enriquecer e satisfazer seus interesses privados. “Vereis que tudo é vendido junto no mesmo lugar em Atenas: Figos, testemunhas para atender a convocações, cachos de uvas, nabos, (...) fornecedores de provas, rosas, nêsperas, sopas, (...) processos legais... Máquinas de demarcação, íris, lâmpadas, clepsidras, leis, denúncias...”, descreveu o o estado da Aischrópolis ateniense o poeta Eubolo.

Atenas ia sendo destruída não só pela Guerra do Peloponeso e pela epidemia, mas também pela ação dos aduladores e demagogos que arruinaram a política com seus abusos e manipulações. Ante esse panorama desolador, Aristófanes escreveu, em 414 a. C., a comédia As Aves, como protesto pelos abusos cometidos pelos atenienses, que insistiam em lutar contra os espartanos, e como desejo utópico de construir seu próprio mundo ideal. Para Aristófanes, os atenienses tinham se transformado em comerciantes do dinheiro e do engano, “vivendo pendurados na burocracia, à custa dos impostos que os cidadãos pagavam”, inventando empregos inúteis que terminaram por saturar a polis, como o “mercador de decretos”, que trabalhava na Assembleia vendendo “leis novas por preços bem baratinhos”, ou vendendo “os mesmos decretos que eram impostos às colônias de Atenas”. Ou como o sicofanta (sykophanta), o “delator profissional”, a figura mais repudiada por Aristófanes no livro: “Sou um sicofanta (...). Recebo dinheiro pra acusar as pessoas... Trabalho muito e preciso ter asas. Assim poderei delatar mais rápido. (...) Sou um sicofanta que trabalha pro bem público! Fiscalizo as cidades e denuncio estrangeiros.”

Aristófanes é lapidar ao concluir que Atenas tinha se convertido em uma “árvore de mentiras e violências”, em uma cidade nas trevas, cujos habitantes acabaram sucumbindo ao “lado escuro da vida humana”.

A democracia de Atenas, que Sólon, Clístenes e Péricles ajudaram a criar, terminou em ruínas ante uma oligarquia corrupta, ignorante e despótica, que começou a desacreditar deliberadamente a outrora florescente “cultura das ideias”. Dessa forma, a manipulável Assembleia do Povo condenou ao ostracismo o arquiteto e escultor Fídias, o filósofo Anaxágoras e o sofista Protágoras, acusando-os de ímpios, mas sua decisão mais brutal foi sentenciar Sócrates à morte por considerá-lo uma ameaça à polis, acusando-o de não acreditar nos deuses e de corromper os jovens com seus ensinamentos, já que para o filósofo sua missão era ajudar a dar à luz o conhecimento, tal como sua mãe que era parteira (maieutike). A morte de Sócrates, em 399 a. C., marcou o perigeu dessa Aischrópolis doente, que terminou subjugada, juntamente com Esparta, em 338 a. C. por Felipe II da Macedônia.

A história, como pensava Tucídides, serve não só para examinar o que ocorreu em um momento determinado, como também para que a humanidade extraia lições dos episódios do passado. A filosofia serve para compreender que não estamos dissociados da natureza, que somos parte dela formando um todo; a literatura, para examinar onde falhamos como humanidade e como podemos corrigir o rumo; e a política, para saber escolher com discernimento os mais capacitados para governar a vida pública.

Contudo, 2.450 anos depois daquela epidemia, a humanidade, nem com toda a tecnologia e todo o conhecimento alcançados, pôde evitar que se repetisse a história de Atenas, e enfrenta novamente uma epidemia em que, além de lutar contra um vírus imprevisível, tem de combater a hybris, a arrogância e ignorância, dos que hoje governam alguns demos. Mostrando o pouco que se importam com o bem da maioria e pondo em perigo mais uma vez a democracia, pois muitos desses líderes demagogos corromperam seus eleitores com manipulações de todo tipo para chegar ao poder por meio do voto inconsciente, seja criando fake news e inimigos imaginários, exacerbando os discursos de ódio e o fanatismo religioso ou ―devido à própria ignorância― vilipendiando a ciência, a arte e o conhecimento.

As analogias com a Aischrópolis ateniense estão à vista, já que desde o surgimento da atual emergência sanitária fomos testemunhas da infâmia de tais governantes ao negar a gravidade da pandemia e boicotar recomendações vitais como a de quarentena, menosprezando assim os próprios povos que os elegeram. Também vimos como, por ambição, foi atropelado o respeito à vida das pessoas, consideradas apenas como números, como estatísticas, que devem se sacrificar para manter a todo custo “a economia” que beneficia os oligos, os poucos que se favorecem com ela. E fomos testemunhas da miséria em que se encontram alguns demos, onde a convivência com os mortos é cotidiana, porque não há como sepultá-los, ficando abandonados em qualquer lugar. Portanto, permanecem vigentes as observações de Tucídides sobre a doença, que já naquela época evidenciavam que é preciso ignorar as ambiguidades e demências dos demagogos, que desinformam os habitantes e os expõem ao contagio, e evitar as aglomerações até que o surto acabe. Assim como os espartanos perceberam a seriedade do contagio em Atenas e suspenderam naquele ano a guerra, é necessário que os líderes de hoje enxerguem a gravidade da pandemia. Já é hora de abrir os olhos para a realidade e aceitar que o mundo não deve ser regido pela ideologia, e sim pelo bem comum.

Lutamos contra um vírus complexo que coloca à prova toda a humanidade, mas até mesmo este iós microscópico veio nos mostrar aquilo que ainda podemos mudar; veio para nos dar a oportunidade, como advertiu Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias, de corrigir nossas ações, tomar consciência e compreender que para poder viver na Idade de Ouro devemos escolher o caminho de Díke, da justiça. Recuperando a humildade e a confiança e aprendendo a viver em harmonia não só com o próximo, mas também com o mundo em que habitamos; mundo que ainda pode se transformar, graças ao amor, à arte e ao saber, em uma autêntica Callípolis.
Paula Vera-Bustamante

É preciso reconstruir o que destruímos

Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente. O cataclismo já aconteceu e nos encontramos em meio às ruínas, começando a construir novos pequenos habitats, a adquirir novas pequenas esperanças. É trabalho difícil: não temos mais pela frente um caminho aberto para o futuro, mas contornamos ou passamos por cima dos obstáculos. Precisamos viver, não importa quantos tenham sido os céus que desabaram
D.H. Lawrence,  “O amante de Lady Chatterley”

Cinco letras que odeiam

O escritor português Mário de Carvalho anotou no Facebook: "Deve ser da palavra escrita. Pouco acostumadas a escrever, as pessoas deixam-se levar pelo embalo. Tenho verificado que criaturas, na vida real (notem: vida real!) razoavelmente delicadas e cordatas, perdem as estribeiras aqui no FB. E é vê-las, para meu espanto, a irritar-se, a cotovelar e, pior, a chamar nomes às outras. E às vezes basta uma trivial e natural diferença de opinião ou de perspectiva".

Autor de mais de 30 livros, alguns publicados no Brasil, como o romance "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde", Carvalho conclui: "Os profissionais da escrita, 'et pour cause', são mais comedidos e controlados. O que me parece justo sugerir é que pensem duas (ou três) vezes antes de se saírem com uma formulação mais grosseira, ou com um insulto".


Nem sempre os profissionais são mais ajuizados ou corretos. Ficou famoso, na memória do jornalismo, um artigo de Paulo Francis: "Tônia sem peruca". Atuando como feroz crítico de teatro no fim dos anos 50, ele desancou Tônia Carrero, sugerindo que a atriz ascendera ao estrelado usando o sexo.

A reação não foi menos feroz: o diretor Adolfo Celi, então marido de Tônia, e o ator Paulo Autran trocaram sopapos e engalfinharam-se com Francis. Este, mais tarde, se arrependeu do que havia escrito ("o artigo é sórdido", "me portei como um idiota") e de não ter ouvido no calor da hora o conselho de Rubem Braga: "Deixa o texto dormir um dia na gaveta. Se amanhã você quiser publicá-lo, publica".

Hoje as pessoas não pensam um segundo (três vezes, como sugere Mário de Carvalho, seria uma eternidade) antes de responder nas redes sociais a qualquer comentário. Entre os bolsonaristas, o comum é o uso de apenas duas palavras como resposta-padrão: "Teu c...". Frase que consegue a façanha de ter uma letra a mais do que o "E daí?" presidencial.

Sonhos impossíveis

O presidente Jair Bolsonaro não é mais apenas um trambolho em nossas vidas. Nesses meses de coronavírus, ele se tornou um pesadelo do qual está difícil acordar, ele não deixa. Assim que começamos a rir da desgraça que ele disse ou fez na semana passada, o presidente capricha na próxima besteira e não nos deixa esquecer a importância que ele tem, pelo que ele é, em nossas vidas. De minha parte, esbarro sempre nessa ideia de que ele foi eleito democraticamente, dentro das regras democráticas do país. Só nos resta, portanto, esperar pacientes e atentos pelos dois anos e meio que faltam para que ele complete seu mandato. A não ser que congressistas e juízes nos apareçam com motivos sérios e legais, para que ele sofra um impedimento. Mas não sei se um terceiro impeachment, em tão pouco espaço de tempo, fará bem ao país. Não sei.

Nunca vivi período político tão insuportável como este. Mesmo durante a ditadura militar, que durou 21 anos, nós sempre alimentamos alguma esperança e a fluida sensação, inventada talvez por necessidades psíquicas, de que o pior já tinha passado. E ainda havia, muito de vez em quando, inesperados sinais de que alguma coisa, afinal de contas, marchava em boa direção. Como foi, por exemplo, o tratamento dado ao cinema, durante o governo do general Ernesto Geisel, promovido pelo ministro Reis Velloso. Era como se o país estivesse ocupado por quem não devia; mas a nação estava lá, esperando que um dia a tomássemos nos braços.

Não acredito muito nessas classificações morais muito fechadas. Mas, às vezes, tenho quase certeza de que o presidente é um homem mau, que pratica a maldade social para compensar a consciência culpada da bananice com seus filhos, que podem quase tudo. Desde querer ser embaixador nos Estados Unidos, porque sabe fritar hambúrgueres; até nomear o diretor-geral da Polícia Federal. Como se PF fosse um acrônimo para Polícia da Família, da qual os Bolsonaro podem fazer gato e sapato.

Entre uma e outra gaiatice do mal, o presidente ainda promove ou apoia, no que julga ser seus domínios em Brasília, animadas domingueiras contra a Constituição, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, seus três inimigos jurados, exatamente os que o impedem de se soltar no Planalto, fazendo o que bem entender. Como ele não acredita no vírus (ou, quem sabe, já o pegou, está nos escondendo e pouco se lixando), a turma dele agora tem nova diversão endiabrada. Eles passam a noite em carreatas, na porta dos hospitais públicos, em buzinaço impiedoso, chamando os doentes infectados para sua campanha pelo fim do isolamento social.

Mesmo antes de a campanha eleitoral começar, Bolsonaro fazia o elogio sistemático de torturadores e escarnecia dos torturados. E nem se dava ao trabalho de nos dizer por que fazia isso, em nome de que religião, ideologia ou sistema político. O elogio à tortura era o elogio à tortura e pronto; não precisava de uma razão. Bolsonaro chegou a declarar que o Brasil só tomaria jeito depois de uma guerra civil, que matasse uns 30 mil. Talvez ele compense seus sonhos irrealizados com a visão dos “invisíveis”nas filas da Caixa. Ou que desconheça as necessidades deles, preferindo desfilar na Praça dos Três Poderes com empresários, para salvar a vida de suas contas bancárias.

Nos seus 28 anos de Câmara Federal, onde fez aprovar, nesse período, dois projetos seus, Bolsonaro pertenceu a nove diferentes partidos, vivendo a experiência profunda do baixo clero, aquele grupo de parlamentares que, no escurinho da Casa, topavam qualquer lance. Em 2005, um deles, Severino Cavalcanti, se elegeu presidente da Câmara em circunstâncias extraordinárias, uma reação de deputados, em crise com o Poder Executivo. A diferença é que os escândalos de que Severino fora acusado eram de muito baixa extração; como, por exemplo, a descoberta de que supostamente recebia propina do responsável pelo bar do Congresso, para onde levava seus camaradas de partido e de ideias. Não sei se o centrão terá essa mesma modéstia.

Em seu obituário sobre Aldir Blanc, Luiz Antonio Simas, um mestre, antropólogo especializado nas coisas do Brasil, nos explicou a diferença que faz entre Brasil e Brasilidade. “O Brasil”, escreveu, “é, vez por outra, como nos nossos dias, um empreendimento de ódio; a Brasilidade é um canto desesperado de amor e liberdade”. Confesso que não sei direito que rumo tomar nessa doidice que está sendo a vida pública brasileira de nossos dias. Mas sinto que estamos precisando muito de quem cante esse canto de que Simas nos fala.

domingo, 10 de maio de 2020

Medos e esperanças

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços.
Não cantaremos o ódio, porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e
nosso companheiro...”

Carlos Drummond de Andrade

Medo faz parte. Vive-se com medo tantas vezes! É parte da experiência. Vai-se superando. Afinal, notava o Rosa, o que a vida pede é coragem. Dribla aqui, supera-se ali, sabendo sempre ser melhor viver sem a sensação de nó no estômago. Medo é alerta e proteção quando ajuda na sobrevivência. É sofrimento e desagrado quando imobiliza e infelicita. Medo da morte, medos na vida. Medo do dia de amanhã. Medo de não ter amanhã. Medo de não ter o almoço amanhã. Medo de guerra. Medo de desemprego. Medo do novo emprego. Tanto medo oferecido, esgueirando-se, olhando para a gente sem... medo.

Ajeitamos modo de vida para ignorar o medo. Ser mais forte que ele. Deixá-lo de lado. Passarmos ao largo e seguirmos como seres destemidos. Não participaremos do Congresso Internacional do Medo, a que se referia Drummond.


E vem o anúncio de uma pandemia. Isolem-se! Antes, era juntem-se. Agora sussurram: escondam-se! Isolamento é forma cabulosa de esconder-se do vírus. Ou da morte.

O vírus não teme o mundo. Mas o mundo, esse morre de medo da doença. Com razão. Moléstia danada de ruim! Rápida, traiçoeira, fatal milhares de vezes.

Com o isolamento para-se o trabalho, despede-se o emprego, aumenta o medo. Dinheiro encurta, bens diminuem, que será amanhã? Nunca se soube bem, mas o amanhã virou o hoje insabido.

Junte-se a esse escuro de tempo revolto a sombra incômoda de incertezas outras, águas turbulentas a envolver-nos em raios e trovões varando noites de escuro denso.

Tempo de pensar em quem pode legitimamente mostrar-se liderança. As instituições estão trabalhando no Brasil. A bússola constitucional marca a rota democrática a seguir, com ajustes, consensos necessários a se construírem, mas sem se temer carência de valores ou desistência de rumo. Se há um ou outro oco de responsabilidade, há muitos que têm o sentido da direção a se cumprir, de mapas normativos a seguir, compromissos funcionais a honrar.

Medo de qualquer doença é grave. O medo de moléstia institucional é compreensível. Mas não é objetivo. As instituições atuam, cumprem suas atribuições, o barco Brasil não está à deriva, embora as águas estejam tormentosas e o alvorecer tenda a ser ainda turbulento. Até porque o País não é uma ou outra instituição, é o seu povo, com sua história, seus sonhos, sua vontade de construir-se.

Erguemos casas para fechar a porta às incertezas incômodas. Queremos tudo prever para sossegar. Bobagem! O imprevisível é parte do pouco previsível desta vida.

Nossas construções são ilusões de certeza no incerto da vida e o certo (malquisto) da morte. O que virá depois – e haverá, por certo, um depois – desta passagem não será a volta à mesma margem. Terá havido um atravessamento. Se realizamos a travessia ou se levados pela correnteza e chegamos à outra beirada depende de nossa capacidade de fazermos algo com o que nos foi servido à mesa da vida: repleta para alguns; de parca sobrevivência para muitos. Ser atravessado significará outros tempos de incertezas e medos. Fazer a travessia significa enfrentar o medo. Desidratá-lo pelo brilho da esperança. Ela não significa aquietar-se enquanto se espera, senão realizar no esperançar para que de nossos sonhos, agora atropelados, brotem flores brancas de paz, não amarelas e medrosas de guerras. Flores de enfeitamento, não de murchas coroas enlutadas em túmulos de ideias e ideais.

A hora é dura, é grave, é até triste. Por isso mesmo não é tempo de descuidos, de descrenças nos sonhos, de entregas a passados tétricos. O tempo é de cuidados, de fé no ser humano, de pensar no que passou e nos ensinou para experimentar o gosto do futuro, diferente e melhor, mais democrático e mais humano.

Esse futuro que sempre chega. Melhor ou pior. Depende de cada um de nós o que vai ser.

Esperança não diz viver na espera. Não é aquietar, menos ainda acomodar ou ceder. É pelejar na construção. Há que ter mãos para semear acontecências.

Medo é doença. E se esperança não é cura, ajuda muito na força e na saúde do corpo individual, social e institucional. O momento pede cautela e coragem. E agradece com a certeza de que sempre amanhece, mesmo quando trevas não deixam vislumbrar sóis nem antever paz. Sempre clareia na manhã seguinte. Agora, cada qual pode ser apenas uma pequena lanterna. Depois se verá que de tantos pontos clareados neste escuro mal brotado da boca de noite em breu se terá garantido a manutenção da rota e a inteireza do barco chegante com os navegadores sobreviventes. Somos todos apenas isso, sobreviventes. Mas somos os viventes construtores do próximo porto. A tarefa tende a ser árdua. Mas só haverá esse ancoradouro se não desistirmos nem ficarmos à deriva. Há que se lembrar que há sempre um pirata, corsário de desumanidades, pronto a tomar de assalto o navio de desistentes. Mas também há sempre quem prefira seguir na empreitada de descobrir a rota e seguir a trilha, porque em algum lugar há quem espere o chegante para persistir na divina travessia da aventura humana. O poeta tinha razão: navegar é preciso, viver...

Bolsonaro se acha

Apropriar-se do público como se privado fosse não é um delito exclusivo do presidente Jair Bolsonaro. Longe disso. O ex Lula era um expert, a cassada Dilma Rousseff burilou a prática. Mas, como as instituições nada fizeram para colocar freios a essas transgressões, elas ganharam ares de normalidade. Viraram um sonoríssimo “e daí?”.

Hoje, poucos questionam os sucessivos e erráticos recursos da Advocacia-Geral, que entre a União e Bolsonaro prefere defender o presidente-em-chefe, jogando no lixo a Constituição. Reincidiu na farsa do PT, que nesta e em muitas outras searas, só ajuda o bolsonarismo. Aliás, os inimigos dos palanques de 2018 são hoje os grandes aliados. O ódio a Sérgio Moro o uniu a Lula e o medo do impeachment reabriu as portas do governo à barganha do Centrão.

Contra a lei e a obrigatória representação do Estado, o então AGU José Eduardo Cardozo defendeu Dilma no processo de impeachment, abrindo o precedente em que agora Bolsonaro se lambuza. Uma visão legal torta e permissiva que perdoa ambos e esgoela a Carta de 1988.

Cardozo defendia uma causa perdida e sabia disso. A AGU de Bolsonaro, ao contrário, está perdida e não sabe nem mesmo qual é a causa que defende.


Em menos de duas semanas desistiu de recorrer e recorreu do desistido na Suprema Corte em relação à nomeação de Alexandre Ramagem, que o próprio Bolsonaro anulou. Pediu para não entregar a gravação da reunião de ministros requerida como prova no processo de interferência do presidente na Polícia Federal, denunciada por Moro. Depois ajuizou que queria entregar só parte da gravação, como se possível fosse apresentar prova editada. Mais tarde, requisitou sigilo e, sem saída, entregou o chip. Uma atrapalhação que escancara a bagunça explicita do governo.

Gastou munição a torto e a direito para acertar apenas um tiro no alvo. Na verdade, de espoleta.

Na noite de sexta-feira Bolsonaro respirou quando o STJ o desobrigou a apresentar o resultado dos testes para Covid-19 na ação do jornal O Estado de S. Paulo. Vitória estranha para uma afirmação de teste negativo. E de pirro para quem terá de mostrá-los até o final desta semana, quando vence o prazo imposto pela Câmara, com base no parágrafo 2° do Art. 50 da Constituição, sob pena de crime de responsabilidade.

Por enxergar o Estado como seu quintal, Bolsonaro usa publicidade oficial em redes sociais para bater bumbo entre apoiadores, aumentando o puxadinho sempre que sua conveniência dita. Preferencialmente, com mão de obra alheia para tal.

Na sua cruzada contra a civilidade, Bolsonaro impõe constrangimento ao presidente do Supremo em uma extravagante incursão ao STF, transmitida ao vivo em seu perfil na rede social sem autorização prévia do anfitrião, para pregar a reabertura da economia. Isso enquanto seu governo falha feio em financiar os abatidos pela crise.

Os industriais que engrossaram a invasão ao STF reclamam não da reabertura de seus negócios – boa parte deles em pleno funcionamento, visto que no estado de São Paulo, a indústria não parou -, mas da falta de financiamento oficial, do BNDES. O governo que alardeou créditos emergenciais bilionários entregou quase nada. Os bancos públicos e privados exigem tanto que só quem tem dinheiro pode pegar dinheiro. Um absurdo.

Na outra ponta, muitos dos informais com direito aos R$ 600 chegam agora à data da segunda parcela sem terem recebido a primeira. Continuam se aglomerando nas portas das agências da Caixa Econômica sem um centavo e com risco altíssimo de contaminação. Uma crueldade. Para imprimir sua rubrica no dinheiro, Bolsonaro dispensou o uso das plataformas de identificação de vulneráveis disponíveis nos estados e municípios. Se pudesse, teria feito como Donald Trump. Assinaria cada cheque, como se o dinheiro fosse dele e não dos impostos pagos pelos cidadãos.

Como não pode, pratica populismo de raiz, inventando (e acirrando) um antagonismo entre CPF x CNPJ, exposto de forma agressiva e desumana. Diante da pandemia que já matou mais de 10 mil brasileiros, o CPF 435.178.287-9 1se acha o máximo. Promove ato pró-CNPJ e faz chacota do isolamento social, que neste sábado alcançou despudor incomparável com a presepada do churrasco no Palácio do Alvorada.

Pensamento do Dia

Em Auschwitz I, nazistas cremaram 70 mil pessoas

Aflições da Casa-Grande

Há 120 anos, Joaquim Nabuco profetizou: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.

Cleonice Gonçalves, 63 anos, foi a primeira vítima do coronavírus no Estado do Rio. Empregada doméstica desde os 13, trabalhava num apartamento no Alto Leblon. A patroa voltou da Itália com sintomas da Covid-19, mas não quis dispensá-la do serviço. Ao contrair a doença, a diarista foi despachada de táxi para Miguel Pereira, a 120 quilômetros dali. Morreu no dia seguinte, num hospital municipal.


O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, incluiu o trabalho das domésticas entre as “atividades essenciais”. Com isso, faxineiras, lavadeiras, cozinheiras e babás poderão ser convocadas no período de lockdown. Segundo o tucano, a medida beneficiará quem “precisa ter alguém em casa”. A capital do Pará não tem mais vaga nos hospitais, mas os ricos encontraram uma alternativa. Passaram a fretar “UTIs aéreas”, que decolam para São Paulo por até R$ 200 mil.

Há 25 anos, Darcy Ribeiro escreveu que “os brasileiros, orgulhosos de sua tão proclamada como falsa ‘democracia racial’, raramente percebem os profundos abismos que por aqui separam os estratos sociais”. “Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social que perpetua a alternidade”, afirmou.

O presidente da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, declarou que o Brasil “está bem” no combate à pandemia. “O pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”, disse, na terça-feira. O bilionário também se mostrou indiferente ao acirramento da crise política. “Se as reformas estiverem avançando, eu acho que não atrapalha”, resumiu. O flerte da XP com o bolsonarismo é correspondido. No último mês, cinco ministros estrelaram lives da corretora.

Na quinta-feira, o presidente da República liderou uma marcha de lobistas e empresários ao Supremo Tribunal Federal. Com permissão do ministro Dias Toffoli, a comitiva fez comício pelo relaxamento das medidas sanitárias. “A indústria está na UTI”, disse Marco Polo de Mello Lopes, com a sensibilidade de uma Regina Duarte de gravata. “Haverá morte de CNPJs”, emendou Synésio Batista da Costa, que cobra o retorno dos operários às fábricas de brinquedos. Ontem o país ultrapassou a marca de dez mil mortes de CPFs causadas pelo coronavírus.

Patroas, prefeitos, industriais e especuladores renovam traços antigos de certa elite brasileira, que agora vê no capitão um porta-voz de suas aflições. Chutado do Ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta recorreu a Gilberto Freyre para explicar o barulho contra o isolamento social. “Só quem está gritando é a Casa-Grande, que vê o dinheiro do engenho cair”, disse à “Folha de S.Paulo”. “A Casa-Grande arrumou o quarto dela, a despensa está cheia. Tem o seu próprio hospital. Lamenta muito o que está acontecendo, mas quer saber quando o engenho vai voltar a funcionar”.

Dívida é a única certeza

Países vão ter que se endividar para salvar o emprego e a vida das pessoas
Luis Alberto Moreno, diz presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento

Um presidente indiferente à morte de 10 mil brasileiros

Jair Bolsonaro voltou a dizer no fim de semana que o país vive “uma neurose” com a pandemia do coronavírus e que 70% dos brasileiros serão infectados porque “não tem como”. Ora, haveria como, sim, se o governo que ele encabeça tivesse tomado providências para tal.

Mas para argumentar, digamos que não houvesse. Que fosse verdade que 70% dos povos do mundo obrigatoriamente serão contaminadas. Bolsonaro ainda não entendeu que nenhum sistema de saúde é planejado para atender 70% das pessoas em tão pouco tempo?

Foi o que aconteceu na Itália, Espanha e outros países europeus onde o sistema de saúde entrou em colapso e morreu mais gente do que deveria. É também o que está acontecendo em partes dos Estados Unidos e na maioria dos Estados do Brasil.

Por que as autoridades médicas, não só daqui, tanto falam que é preciso retardar a curva de crescimento do coronavírus? Justamente por isso. Quanto mais devagar ela suba, mais o sistema poderá atender pessoas em hospitais e outras unidades de socorro. E não é só o virus que mata.

O problema de Bolsonaro é um defeito de fabricação? Ele tem neurônios a menos que o impedem de descodificar o que escuta, uma vez que ler ele não gosta? Neurônios podem faltar, é o que se deve concluir por seus atos bizarros e comportamento em geral.

Mas, nesse caso, não se trata disso. Bolsonaro só pensa na reeleição, só se orienta por ela. Todas as suas decisões levam em conta o desejo de obter mais um mandato de quatro anos. Para seu próprio bem e o bem de sua família. E se a Economia estiver mal em 2022, adeus reeleição…

A Economia estará mal em 2022, como de resto em grande parte do mundo. Aqui estará particularmente mal porque o ralo crescimento do ano passado já foi menor do que no ano anterior. Se amasse a vida mais que o poder, Bolsonaro teria se beneficiado da pandemia.

Mesmo governantes que compreenderam com atraso o tamanho da tragédia que se anunciava, viram sua popularidade aumentar quando arregaçaram as mangas e assumiram a liderança do combate ao Covid-19. Bolsonaro, não. Assiste à mortandade de braços cruzados.

Pior: é conivente com ela. Aposta que poderá recuperar apoios que perdeu depois que morrer o último dos brasileiros vulneráveis à doença. É por isso que pergunta: “E daí”. É por isso que convida amigos para um churrasco e depois vai esquiar nas águas do Lago Paranoá.

Enquanto o Congresso e o Supremo Tribunal Federal decretavam luto em memória dos 10 mil mortos pelo Covid-19, o presidente da República divertia-se passeando de jet-ski na companhia de um agente de segurança e observado por um grupo de devotos atrás de selfies.

Não muito distante do lago, acampados nas cercanias da Esplanada dos Ministérios, bolsonaristas recém-chegados de mais uma carreata pela cidade exibiram-se em uma performance em torno de caixões de papelão. Cantaram, dançaram e simularam ressuscitamentos.

Passados 74 dias desde que o primeiro caso de coronavírus no Brasil foi confirmado, o número oficial de mortos pela doença chegou, ontem, a 10.627. Morreram, em média, 196 pessoas por dia depois que aconteceu o primeiro óbito em 16 de março último.

O número de mortos poderá dobrar nos próximos 20 dias, segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo. E o de infectados triplicar, batendo a casa dos 400 mil. Só rigorosas e improváveis medidas de isolamento serão capazes de impedir que isso ocorra.

Improváveis porque não há, por enquanto, sinais de que serão adotadas a largo. Em sete Estados, pelo menos, não só faltam leitos para atender à procura. Faltam médicos, enfermeiras, ambulâncias e simples remédios. O confinamento social recua e o vírus avança.

Bolsonaro abusa da sorte ao brincar de beijar boca de cobra. Haverá perigo maior do que beijar a boca de uma cobra venenosa?

Babás fardadas

Era sabido que o ingresso dos militares no governo Jair Bolsonaro, com papel político central e presença em praticamente todas as áreas da administração, seria um marco histórico, para o bem ou para o mal. A narrativa de que os papéis da instituição e de seus integrantes (da ativa ou da reserva) não se confundem já era falsa em tempos de normalidade democrática e sem uma emergência de saúde pública e econômica instalada.

Na atual conjuntura, em que o presidente afronta o bom senso, as regras sanitárias, as decisões judiciais, os Poderes e a própria Constituição dia sim, outro também, sem descansar nem nos fins de semana, a presença dos generais em postos de comando apequena o papel que as Forças Armadas, disciplinadamente, vinham cumprindo desde a redemocratização: o de zelar pela ordem constitucional.

Esses generais se sentiram afrontados por terem sido arrolados como testemunhas num inquérito que investiga se Bolsonaro cometeu graves violações a essa mesma Constituição ao exigir de Sergio Moro controle da Polícia Federal com fins inconfessáveis.

Mas não demonstraram a mesma indignação com esses e outros atos do presidente que, se esperava, iriam aconselhar e guiar, mas que, hoje se vê, apenas adulam, como avôs amorosos que agem com condescendência diante das diabruras de netos levados.


Em plena crise, o Palácio do Planalto se transformou em creche presidencial. A AGU passou a semana dedicada a tirar da cartola toda sorte de recursos para:

1) impedir que Bolsonaro tenha de mostrar à nação seus exames para covid-19, como decidiu a Justiça;

2) impedir que o vídeo de uma reunião do presidente da República e do vice com todos os ministros em meio a uma emergência nacional fosse entregue ao Supremo, e 3) insistir com o STF pela inexplicável (pela ótica republicana) obsessão presidencial em colocar Alexandre Ramagem à frente da Polícia Federal, mesmo depois de já ter nomeado seu preposto para o cargo.

É papel subalterno, que não condiz com uma estrutura de Estado. O advogado-geral deveria ter a independência de dizer ao presidente que certas batalhas são inócuas do ponto de vista jurídico e tóxicas do político. Mas não: Bolsonaro troca as peças de modo a que os novos ocupantes de cargos entendam que ou atendem seus desejos ou estão fora.

O que nos devolve ao triste papel dos generais. Diante das decisões tomadas, eles se verão nos próximos dias em duas circunstâncias constrangedoras, que em nada condizem com os princípios rígidos da hierarquia militar, pautada pela disciplina e pela seriedade.

Além de terem de depor num inquérito e defender Bolsonaro, podem ser expostos aos olhos do País participando de uma reunião ministerial que, segundo relatos dos presentes, mais se assemelhou a um show de horrores, com o presidente vociferando seus caprichos e instando auxiliares e cometerem infrações e ministros batendo boca entre si, xingando integrantes do STF ou afrontando a China.

E o que esses supostos conselheiros fizeram diante dessa cena dantesca, ou quando seu tutelado anunciou que faria churrasco para 30 pessoas quando 10 mil já morreram numa pandemia? Baixam a cabeça, batem continência, juram lealdade a um governo que já se mostrou incapaz de conduzir o País em meio à maior crise da Humanidade em 100 anos.

Não é bonito o retrato histórico dos homens de farda que resultará da associação voluntária com um capitão reformado que, antes de ser escolhido como solução para vencer o PT, era ridicularizado nas mesmas Forças Armadas. Que os senhores generais percebam, antes tarde do que nunca, que não se espera deles que sejam babás. Mas que honrem as medalhas que ostentam no peito.

O mal avança nas sombras

Na calada desta nossa noite em que a dor da pandemia se soma às ameaças do presidente Jair Bolsonaro à democracia, outras áreas correm extremo perigo. Em abril, o desmatamento na Amazônia foi de 406 km2, 64% a mais do que no ano passado, segundo o Deter. Nos quatro primeiros meses, a alta foi de 55,5%. Portarias, MPs, instruções normativas dão forma ao projeto de perdoar grileiros e enfraquecer órgãos ambientais. Terras indígenas são ameaçadas e seus líderes correm riscos. O governo conta com as atenções do país concentradas na crise da saúde para avançar com o projeto de reduzir direitos indígenas e legitimar o ataque ao meio ambiente.

Em mais uma GLO na Amazônia, os militares estão sendo escalados para conter o que tem sido estimulado pelo próprio governo. A operação das Forças Armadas cria uma situação difícil. O Ibama, que já é cerceado, passa a ser subordinado aos militares. Seus quadros técnicos terão que seguir ordens de oficiais que não têm a mesma qualificação e experiência no combate ao desmatamento. Isso num momento em que os servidores que cumprem a lei na fiscalização são punidos. Os que destroem equipamentos, que é a arma mais poderosa para combater o crime, são exonerados.

O ministro Ricardo Salles, enfraquecido, mudou de tática. Agora, trabalha em silêncio. No dia 6 de abril, um despacho do Ministério do Meio Ambiente criou uma ameaça direta à Mata Atlântica. O ato administrativo recomenda ao Ibama e ICMBio que esqueçam a Lei da Mata Atlântica e se guiem pelo Código Florestal, que tem regras mais brandas. Isso na prática cancela multas, desobriga o proprietário de recuperar áreas de proteção permanente e reconhece as propriedades rurais instaladas em áreas de proteção ambiental antes de 2008.

A Lei da Mata Atlântica foi uma conquista de duas décadas de luta no Congresso. Nesse bioma moram 150 milhões de brasileiros e os remanescentes de mata têm sido protegidos principalmente por particulares. Quem preserva ou se esforçou nos últimos anos para cumprir a lei se sente tolo. O que dá certo no Brasil é ser ilegal e esperar pela anistia. O Ministério Público Federal, a SOS Mata Atlântica e a Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público do Meio Ambiente entraram com uma Ação Civil Pública contra o despacho de Salles.

A Amazônia é ameaçada diretamente pela MP da Grilagem. A MP 910, em vigor desde dezembro, está para ser votada com várias aberrações. Na primeira versão do projeto, permitia-se regularizar terra ocupada até dezembro de 2018. Na versão mais recente, quem tiver invadido terra até 2014 pode ter título de propriedade. Áreas de até 15 módulos fiscais podem ser regularizadas sem vistoria de campo. Em alguns lugares isso significa até 2.500 hectares. A luta está sendo para reduzir o tamanho da terra que pode ser legalizada sem o poder público conferir. E por fim, a MP estabelece que multa ou qualquer irregularidade não impedem o processo de legalização. Só será impedida a emissão de título de propriedade quando o processo estiver transitado em julgado.

A questão indígena sempre foi tratada com desprezo pelo governo Bolsonaro. Na gestão Sérgio Moro, a Funai foi aparelhada com a nomeação de pessoas totalmente estrangeiras à causa indígena. Nada indica que haverá mudança agora. O Ministério devolveu à Funai 17 processos de demarcação de terras indígenas, alguns já prontos para a homologação. Uma portaria recente da Funai reduziu os poderes do próprio órgão para conter o avanço da grilagem em terras indígenas. Há lideranças sob ameaça, e os criminosos aproveitam a confusão da Covid-19 para praticar seus crimes. No dia 17 de abril foi morto um jovem líder, de 34 anos, Ari Uru-eu-wau-wau, em Rondônia. Ele passou meses sendo ameaçado por grileiros. Ari tinha como foco do seu trabalho denunciar extração ilegal de madeira, ou seja, ele protegia o patrimônio público. Seu corpo foi encontrado na beira da estrada, com sinais de que havia sido arrastado depois de morto. Tinha sangramento na boca e na nuca decorrente de pancada forte na cabeça e a causa da morte foi sangramento agudo. Era pai de dois meninos, de 10 e 14 anos. Nas sombras da pandemia e do ataque de Bolsonaro às instituições, outros perigos rondam o país.

Fábrica Brasil de Mortos


Estamos esperando o quê?

O estado do mundo parece agora constrangedoramente bíblico, de Holofernes a Herodes, do desmazelo de Jó à fuga de Ló (e suas mulheres sem nome), do dilúvio à Besta do apocalipse. E a situação do Brasil está tão louca e desgovernada que, se extraterrestres ou demônios já estiverem entre nós, não será uma notícia particularmente surpreendente. Estamos esperando o quê? Passar isentos, guardar os nossos, e amanhã o quê? Vamos caindo dos nossos sonhos, mas nunca estamos acordados o suficiente? Nego à minha filha o mundo como o louco Domenico, que trancou sua família em casa durante anos a pretexto de protegê-los do fim dos tempos. Quase agradeço à nossa distração, que há cinquenta dias fez indolor o último momento de tantas coisas que, se soubéssemos últimas, nos teria desesperado completamente. Agora vamos nos desesperando aos poucos, enlouquecendo da boa loucura de atentar para o contagioso de cada gesto antes reflexo, vamos reaprendendo com os bichos o faro e as orelhas espetadas quando começam os gritos de uma briga na avenida, e todo dia é uma briga, uma guerra contra pestes visíveis e invisíveis, e o expediente aflito do esconjuro para espantar a morte que fala em comunicados oficiais, surfando a curva sempre mais alta do número de suas vítimas. Nem é mais visto como um pendor romântico pensar em termos de despedida, nem precisamos de encenar um quadro de artista para olhar de repente com melancolia para tudo e nada, com pena dos nossos pequenos mundos temporariamente perdidos. Temporariamente? Ainda pensamos que amanhã vamos reabrir a porta pulando o vão desses dias como apenas um recesso forçado, uma falha restaurável no piso? Ou vamos nos prometer qualquer mudança que, à menor tentação de normalidade, descumpriremos? Ou já estamos trabalhando numa passagem, ainda sem bem atinar como, e o luto alheio é também o nosso, e a vida que vier, para além da nossa vontade, será depois da vida que tínhamos?
Mariana Ianelli

Silêncio de genocídio

As pessoas morrem ao som dos bate-bocas das excelências
Miro Teixeira

Desmatamento avança, enquanto Brasil enfrenta coronavírus

Imagens recentes de satélite mostram que o desmatamento na Amazônia está crescendo em 2020: cerca de 1.202 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos entre janeiro e abril, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

As cifras, divulgadas nesta sexta-feira, representam um acréscimo de mais de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior, além de serem as mais altas para os quatro primeiros meses do ano, desde 2015. O fato é especialmente preocupante porque nesse período do ano, de chuvas abundantes, as perdas ambientais são normalmente menores.


A devastação é causada tanto por incêndios florestais quanto por atividades destrutivas ilegais. "Infelizmente, parece que devemos esperar para este ano mais quebras de recordes de incêndios e desflorestamento", antecipa o ativista do Greenpeace Romulo Batista.

O estado do Amazonas tem sido um dos mais atingidos pela covid-19. Num país que se tornou o epicentro da pandemia na América do Sul, computando quase 150 mil casos e mais de 10 mil mortes, grande parte dos recursos nacionais tem ido para o combate ao vírus, o que, segundo os ativistas, implica dar-se menos atenção à desflorestação predatória.

O presidente Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas por seus parcos esforços em defesa de um dos ecossistemas mais diversificados do mundo. No início de maio, ele enviou o Exército para coibir a extração de madeira, agricultura e mineração ilegais, embora ambientalistas insistam que seria mais eficaz apoiar as agências ambientais brasileiras, as quais têm sofrido duros cortes desde o começo do mandato do político populista.

Em 2019, primeiro ano do negador da mudança climática na presidência, 10 mil quilômetros quadrados de mata sucumbiram a incêndios e desflorestamento ilegal, a grande maioria dos quais ocorridos entre maio e outubro. Ativistas do clima afirmam que o pior para o meio ambiente no Brasil ainda está por vir.
Deutsche Welle

O futuro do futuro

Primeiro foi Hobbes, no séc. XVII, falando em uma “assembleia de homens que reduzem suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade”. Em seguida Locke, definindo a base teórica do pensamento ocidental contemporâneo, com a compreensão de que “os homens são iguais e independentes.” Depois Rousseau. Pensando a liberdade, na sociedade, inseparável da solidariedade. Com “todos se tornando iguais por convenção e direito” Depois, as ideias iluministas. Com restrição nas prerrogativas do poder. E a história recente da civilização acentuou cada vez mais, o compromisso entre igualdade e participação. Um espírito que, no Brasil, pode ser encontrado mesmo em Proclamação de D. Pedro I (junho de 1822), a favor de “uma independência moderada pela unidade nacional”.


Ocorre que passa o tempo e os problemas vão se acumulando. Com a industrialização, foram articulados em um único sistema econômico regiões que antes se vinculavam sobretudo com o exterior. E passamos a viver uma complexa transição estrutural, com a reacomodação nas relações entre os centros de poder. Tanto de natureza econômica, como política. Grave porque a mudança, naquela opção anterior, não se preocupou, verdadeiramente, com a formação de um mercado interno. Enfraquecendo, consideravelmente, os vínculos de solidariedade entre as distintas regiões do país. Pior é que o processo de modernização hoje em curso, definitivamente, não se ancora na integração das economias regionais. Agravando a concentração de riqueza e renda.


Já vivíamos o esgotamento do ciclo "nacional-desenvolvimentista". E é tempo de buscar novos caminhos. Problema, agora, é que esse mega problema do coronavirus sugere que sair da crise vai corresponder, no fundo, a encontrar uma nova identidade nacional. Primeira questão que se aponta, em um processo assim, é a oposição entre irracionalidade coletiva e racionalidade específica, que constitui a essência do "Dilema do Prisioneiro" de que falava Max Weber. Como os atores exercitam mútuas desconfianças, isso impede, ou limita severamente, a afirmação da vontade coletiva. Uma situação de intensa competição, com instituições ainda não inteiramente consolidadas e regras em constantes mudanças, que leva o país inevitavelmente para a situação de um macro-dilema do prisioneiro. Em que todos, a partir de seus próprios interesses, priorizam o comportamento individualista. Sem ser capazes de produzir estratégias de ação coletiva. O que se opera em níveis diversificados. Nas classes sociais economicamente privilegiadas, que não aceitam aumentar sua contribuição para a superação de desigualdades. Nos cartórios privados, que se esforçarão por manter suas possessões. No corporativismo dos que se preocupam, somente, com a preservação dos seus privilégios.

A Espanha saiu da crise, na morte de Franco e a volta da monarquia, com o “Pacto de Moncloa”. Em que as questões da transição foram definidas democraticamente. Perguntei ao Primeiro-Ministro Adolfo Suarez o que seria mesmo, por dentro. E a resposta dele foi exemplar: “O Pacto foi a negociação do Pacto”. O sentar, na mesma mesa, governo, empresários e trabalhadores. Para definir uma nova pauta para o país. Seria bom que algo assim pudesse acontecer, por aqui, para sairmos de vez dessa crise. Isso é possível? Fernando Pessoa disse ("Sobre Portugal") que “É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado”. Deus queira que seu vaticínio valha só para seu país. E que, no Brasil, ainda sobreviva um resto de esperança.

Um Nobel da Paz póstumo para os profissionais da saúde vítimas do coronavírus?

A Academia dos Prêmios Nobel os concederá este ano mesmo em plena pandemia. O Nobel da Paz já foi outorgado a políticos que nem sempre o mereciam. Por que não dar um Nobel póstumo aos profissionais de saúde que vêm sendo vítimas em todo o mundo da tragédia do coronavírus?

Embora essas enfermeiras e enfermeiros peçam que não sejam vistos como heróis, pois seu trabalho seria sua obrigação, eles estão sendo vítimas em muitos casos da falta de equipamentos nos maltratados sistemas públicos de saúde, que, em muitas partes, como aqui no Brasil, foram saqueados criminalmente pela corrupção política.

Banksy
Há um clamor mundial de empatia e gratidão por esses profissionais, muitos deles já aposentados e que decidiram voltar à linha de frente desta guerra de inimigos invisíveis. As pessoas os aplaudem, cantam para eles e se comovem com suas mortes. Eles, por sua vez, demonstram felicidade toda vez que conseguem salvar uma vida, mesmo que ao custo de pôr em risco a própria.

“Estou com medo, mas estou aqui”, disse uma das enfermeiras italianas, e que acabou perdendo a vida. É como um rio de generosidade por parte desse exército de trabalhadores anônimos que estão sendo protagonistas de uma nova onda de simpatia e admiração mundial. Cenas de sua vida acabam viralizando nas redes sociais, como a de uma enfermeira adormecida na frente de seu computador depois de dias ininterruptos de trabalho. Ou a daqueles –85% mulheres– se despedindo com aplausos no hospital de uma idosa de mais de cem anos que haviam conseguido arrancar da morte.

O mundo que aplaude e ama esses profissionais de saúde descobre que o coronavírus talvez esteja revelando, paradoxalmente, o melhor de nós mesmos. Enquanto enterrarmos os mortos, desenterramos virtudes que estavam adormecidas. Descobrimos uma capacidade de amar que acreditávamos ter perdido, ao mesmo tempo que nos descobrimos mais capazes de observar e apreciar o melhor dos outros.

O vírus pode estar nos curando de nossa frieza e da ganância de possuir, e de nosso esquecimento dos que sofrem dor e solidão. Poderia estar servindo para o reinício da vida com a força e a alegria do primeiro dia da criação e a consciência de que ou se vive de mãos dadas com as outras pessoas ou seremos vítimas da solidão que nos faz viver como mortos.

Descobrimos que talvez não fôssemos tão maus e egoístas como pensávamos. Estamos desenterrando raios de humanidade em um mundo que parecia frio e sem sentimentos. A pandemia nos fez sentir mais próximos em nível mundial, e a vida nos é revelada com maior valor e dignidade.

Se antes do coronavírus dizíamos que o homem era um lobo para os outros, hoje descobrimos que também existem anjos no meio deste pedacinho do universo.

Se o mundo se descobrisse amanhã menos de pedra, menos feroz, com mais desejo de abraços do que de armas, as vidas perdidas não terão sido inúteis. E os vivos não esquecerão que as vítimas foram a semente da paz e da harmonia futura.

Sim, criem esse Nobel da Paz póstumo para os profissionais de saúde que morrem enquanto derramam amor e cuidados com os que agonizam em suas mãos. O poeta italiano Humberto Ungaretti escreveu que “os mortos não fazem barulho à medida que a grama cresce”. Os mortos do coronavírus, vítimas de sua fidelidade ao trabalho de salvar os outros, ressoarão em nossas consciências como um exemplo de vida e generosidade. O mundo não deve esquecê-los.

Seu exemplo está nos limpando do pó do desinteresse pelo que é essencial, tão emaranhados vivíamos em nossa consciência entorpecida. Estão nos ajudando a descobrir que carregávamos tantas vezes o peso de uma vida sem sentido na qual tínhamos matamos o amor.

Talvez esta tragédia que abraça o mundo no medo e na morte nos ajude a nos descobrir mais vivos do que antes diante do silêncio dos caixões enterrados na solidão, sem que ninguém possa umedecê-los com suas lágrimas de dor.

Os nomes desses profissionais, novos anjos deste calvário de dor e morte que nos servem como exemplo, deveriam um dia ser gravados em pedra para lembrar quem os seguir que não há fronteiras entre a vida e a morte quando ambas são vividas com dignidade.

Somente aqueles que caminham como vivos, mas estão mortos por dentro, são incapazes de ter sentimentos de solidariedade nestes momentos de dor e medo mundial. Como o ultra ultradireitista presidente do Brasil, que ainda não foi capaz de expressar sua compaixão pelas vítimas que o coronavírus está amontoando.

Essas pessoas assassinaram dentro delas o mínimo de compaixão que nos identifica como humanos. Delas se poderia dizer como Jesus no Evangelho: “Deixai os mortos enterrarem os seus mortos”. São cadáveres ambulantes que se arrastam fingindo estar vivos. São os adoradores da morte porque viver, no final, lhes infunde terror. A força e a beleza do amor não os alcançam mais.