sábado, 20 de outubro de 2018
Fake news

Vinte anos depois, em 1975, Carlos Heitor Cony, repórter da mesma Manchete, foi entrevistar o famoso falsário Walmir Vieira Azevedo, autor de grandes golpes em São Paulo. Mas, ao lhe ser apresentado na delegacia, Walmir não quis falar. Cony não se apertou. Inventou tudo e ocupou quatro páginas da revista com a genial “Entrevista de mentira com um falsário de verdade” —sem deixar o leitor saber se o texto era a sério ou não.
Nos anos 60, Millôr Fernandes escreveu uma peça de teatro sobre o bairro boêmio da Lapa. Numa passagem, o valentão Madame Satã enfrenta a polícia de Getúlio Vargas. Bate em 20 soldados e só é levado preso porque o subjugam e amarram a um burro-sem-rabo, do qual sai de cena em triunfo. Essa história nunca aconteceu e a peça não foi encenada. Mas Satã ficou sabendo da passagem e gostou. Anos depois, o Pasquim entrevistou Satã e ele a contou como se fosse verdade. Um dos entrevistadores era o próprio Millôr —que não o desmentiu, para não desapontá-lo. Afinal, Satã acreditava mesmo que tinha batido na polícia.
Essa é a diferença. As fake news inventadas por Otto, Cony e Millôr mereciam ser verdade.
As de hoje fedem à distância e só acredita nelas quem, além do olfato, perdeu a visão.
Manifesto aos lobistas
Não me amolem,
não discutam.
Não sou de esquerda
nem de direita
nem do centro.
Só defendo o direito
de cada um ser filho da puta
conforme o seu gosto
e o seu jeito.
não discutam.
Não sou de esquerda
nem de direita
nem do centro.
Só defendo o direito
de cada um ser filho da puta
conforme o seu gosto
e o seu jeito.
A primeira vítima do pensamento politicamente correto é o humor
Sei do que falo. Já tive várias caricaturas a imortalizar as minhas feições de Adonis. Em todas elas, por razões misteriosas, a minha testa adquire proporções grotescas, dignas do monstro do dr. Frankenstein (na versão de 1931). É um insulto.
Infelizmente, parece que esses insultos não são mais tolerados quando o alvo do humor pertence a uma qualquer minoria.
Depois do cartum polêmico, li no Diário de Notícias português declarações de dois grandes cartunistas lusos que partilhavam com o leitor a dificuldade crescente em desenharem celebridades negras.
André Carrilho, um gênio que espalha o seu talento pela Vanity Fair e outras publicações semelhantes, confessa que uma caricatura do ator Denzel Washington de 2012 seria impublicável em 2018. (Entre parêntesis: Carrilho é autor da capa do meu primeiro livro de crônicas. Uma caricatura, sim: testa gigantesca, cara pálida etc. e tal.)
O ilustrador Nuno Saraiva concorda com Carrilho: os editores, hoje, só aceitam caricaturas de “negros caucasianos”, ou seja, negros com feições de brancos. Os lábios têm de ser mais finos; o cabelo mais liso; as feições menos africanas etc. etc.
O pensamento politicamente correto pensa que isso é respeito. Não é. É insulto racista: só um racista poderia pensar que negro bom é negro branco.
Outro exemplo? Leio no The Times que os estudantes da Universidade de Kent fizeram uma lista dos trajes que não serão mais tolerados nas festas universitárias.
Pessoal vestido de índio (ou caubói); padre (ou freira); com um “sombrero” mexicano (ou imitando Harvey Weinstein —juro, não inventei; como será esse traje?) será barrado. Tudo em nome da “sensibilidade” das vítimas que essas roupas evocam.
Pelo contrário: quem quiser ser homem das cavernas ou alienígena tem entrada garantida. O primeiro está extinto. O segundo ainda não apareceu. Não há risco de ofensa, pensam os estudantes, acreditando genuinamente que a) eles próprios não são homens das cavernas e b) eles próprios não exibem uma inteligência alienígena quando censuram com histeria puritana.
A primeira vítima do pensamento politicamente correto é o humor. Mas, nessa tentativa de abolir qualquer possibilidade de riso, as patrulhas só conseguem produzir uma nova forma de humor. O fato de ele ser involuntário só reforça a intensidade das minhas gargalhadas.João Pereira Coutinho
Bolsonaro e o Brasil
O modo de fazer política do PT é na verdade a antipolítica, baseando-se na divisão da pólis em grupos identitários que só existem por oposição uns aos outros. Dividir para reinar. Fazendo-se de aliado dos grupos soi-disant minoritários ou mesmo “oprimidos”, o PT deixou uma herança de ódio que teve sua confirmação mais trágica no atentado contra Bolsonaro na semana passada.
O próprio Bolsonaro assumiu, de muito bom grado, aliás, a figura de alvo das investidas petistas, com suas declarações politicamente incorretas e mesmo grosseiras. O horrendo atentado que sofreu, diga-se de passagem, foi justamente em decorrência disso: demonizaram-no a tal grau que um comunista louco achou estar agindo em nome de Deus ao esfaqueá-lo. Independentemente de se houve mandantes no atentado, foi isso que afirmou o criminoso, e não vejo razões para duvidar dele. Há deficientes mentais que incendeiam o Reichstag, ainda que outros lhes ponham o archote na mão. Em outro nível, mas ainda na lista de ataques absurdos com o único objetivo de demonizar Bolsonaro, foi um grande alívio perceber que não foi à frente a grotesca acusação de racismo feita contra ele por conta de umas poucas grosserias proferidas numa palestra ao eleitorado judeu. Aliás, em flagrante contraste com as delirantes acusações de que ele seria nazista (!), este eleitorado o apoia entusiasticamente em grande medida. É até interessante notar que sua assessoria dispensou a UTI aérea do hospital árabe Sírio-Libanês, que já voara a Juiz de Fora logo depois do atentado para pegá-lo, e transferiu-o, em vez disso, para o Hospital Israelita Albert Einstein.
Far-se-ia necessário um estadista, alguém que conseguisse voltar a unir o país em torno de um projeto comum, de uma visão comum de pátria em que houvesse lugar para todos, lado a lado, sem oposição. Não há razão alguma para essas oposições identitárias violentas, importadas de uma cultura de origem calvinista e, portanto, dualista, em que a divisão (entre “ganhadores” e “perdedores”, pretos e brancos etc.) é impensada, culturalmente esperada e incontestada. A nossa cultura é outra: aqui somos pelo diálogo, pela tolerância, pela busca do consenso, pela união que a cultura americana não conhece. Importar esta forma americana de fazer uma antipolítica foi não apenas um atentado à própria política, à própria arte do compromisso e da busca de consenso, como um atentado contra a nossa própria cultura brasileira.
E aí é que surge o problema: onde está este estadista? Que eu saiba, em lugar nenhum. Bolsonaro tem a vantagem de, no “nós contra eles” petista, em que o “eles” é o grosso da população, fazer parte deste último grupo. Ele não é, ao contrário do que pregam ad nauseam os petistas e seus aliados, “divisivo”, “racista”, “homofóbico” ou o que quer que seja. Na verdade, costumo dizer que ele poderia ser substituído por um taxista aleatório e ninguém perceberia a diferença. Ele é simplesmente uma pessoa comum, inteligente, com um sistema de valores moldado pela experiência militar e sua ênfase no “rusticismo” – que para os desacostumados pode parecer grosseira –, com uma religiosidade difusa, confusa e desordenada como infelizmente é hoje de praxe, após pouco mais de meio século de mistura entre espiritismo e protestantismo pentecostalista sobre a base católica de nossa cultura. Como já escrevi anteriormente, ele espertamente assumiu no Congresso, quando o discurso único petista parecia invencível, uma postura de “bobo da corte”, em que seus exageros e grosserias o faziam parecer tão absurdo que ninguém o levaria a sério, e usou esse palco para fazer chegar ao grosso da população a percepção de que haveria alguém ali que não havia enlouquecido. O que parecia loucura para os petistas foi percebido como sanidade pelo eleitorado, ou por grande parcela dele. São Paulo Apóstolo aprovaria.
Mas ele não é um estadista. Mais ainda: nem ele nem nenhum de seus concorrentes, de que tratarei brevemente mais abaixo, são estadistas, e muito menos o estadista de que o Brasil precisa. O modo pelo qual ele operou a sua subida à posição que hoje ocupa foi derivado da política divisiva do PT, colocando-se como antítese de todas as teses pregadas por eles. Não é nem de uma antítese nem de uma síntese que precisamos, ao contrário do que prega o materialismo dialético que, em versão pós-moderna, orienta o maquiavelismo petista. Precisamos, ou antes precisaríamos, dada a sua inexistência, de alguém que soubesse se colocar acima dessas divisões, não de alguém que as surfa e as usa de rampa de lançamento, como Bolsonaro fez e faz.
Ainda que ele seja, de longe, o mal menor em comparação com seus concorrentes, uma sua ascensão ao poder só fará recrudescer o discurso divisivo petista, que já conseguiu pregar nele, com sua colaboração entusiástica, o rótulo de inimigo pessoal de cada uma das identidades raivosas. O antipreto, anticiclista, anti-homossexual etc. Em outras palavras, ele não se colocou como inimigo da divisão, sim como componente dela, assumindo a postura de defensor da maioria contra as minorias ensandecidas. Este é um papel necessário no parlamento, mas não pode ser a postura do Executivo. Mas é um papel. Quem desempenha um pode desempenhar outro, se isso lhe for permitido.
Não sei, sinceramente, se sua excelente assessoria conseguiria retirá-lo da posição em que ele mesmo se colocou. Com certeza, o PT e seus aliados (basicamente os partidos de todos os seus concorrentes na campanha presidencial, mais a mídia, mais os professores, sindicalistas, subversivos profissionais etc.) de tudo farão para continuar a mantê-lo nesse papel. Se isso acontecer, o que poderia e deveria ser feito pacificamente por um estadista teria de ser feito de maneira violenta, calando o discurso divisivo e vitimando, como efeito colateral, aqueles que atrelaram a ele a sua própria identidade. Evidentemente, isso só faria fortalecer o discurso vitimista do PT. É uma armadilha da qual Bolsonaro (que, repito, continua sendo o mal menor) teria enorme dificuldade de escapar, por melhores que sejam seus assessores. E ele tem de confiar neles: saiu do Exército capitão apenas, logo, sem ter feito Escola de Estado-Maior. Ele conhece tática, não estratégia. Curto, não longo prazo. Ação local, não ação global. Neste ponto é um alívio que tenha se cercado de generais, mas resta saber o quanto ele os ouviria no Planalto.
E quem são seus opositores?
Ciro Gomes é um coronelzinho nordestino tradicional, com a desvantagem de ser um boquirroto brigão que faz Bolsonaro parecer um modelo de moderação. Que eu saiba, Bolsonaro nunca bateu em quem o xingasse na rua (coisa que vem junto com a carreira política), ao contrário de Ciro. Eleito presidente, Ciro alternaria entre comprar deputados à moda tradicional e brigar com todo o mundo. Decididamente não é o estadista que viria acabar com as divisões plantadas artificial e artificiosamente pelo PT, partido que, aliás, ele apoia. Basta ver suas declarações acerca do presidiário de Curitiba.
Marina é o PT pintado de verde. Qual ser da floresta ignota, levanta-se a cada quatro anos de seu jazigo no meio da selva para assombrar as eleições presidenciais. Eleita, seria uma Dilma em versão 2.0, provavelmente até com direito a discursos desconexos como sua antiga colega de partido. Não dá nem para síndica de prédio, que dirá para estadista. Seu lugar, como o de Bolsonaro, é o parlamento, onde opiniões extremadas – como as suas em relação ao meio ambiente – servem de bússola em votações, sem jamais conseguirem maioria.
Alckmin é a parteira do PCC. Foi ao longo de seu longuíssimo reinado, direto e indireto, sobre o estado de São Paulo que aquela facção criminosa conseguiu dominar os presídios e organizar todas as ações criminosas do Estado, espalhando-se ainda pelo Brasil afora. A diminuição de homicídios devida às ordens do PCC (para não atrair polícia e não interromper as lucrativas ações de roubo, furto e venda de drogas) embelezou as estatísticas e ajudou a esconder o fato de que no seu plantão a polícia judiciária de São Paulo foi quase destruída. É o oposto de um estadista. É alguém que só vê a publicidade, as aparências, e não sabe pensar no médio e longo prazo. Provavelmente conseguiria ser pior que todos os concorrentes, com a exceção do seguinte.
Boulos é um criminoso, que deveria estar preso. De preferência na mesma cela de seu mentor Lula, tomando cuidado para que não acontecesse com ele o mesmo que quase aconteceu com o “menino do MEP”. Ou não. Um filhinho de papai mimado, como Ciro Gomes, com a agravante de ter feito carreira invadindo e depredando a propriedade alheia. Eleito – coisa que não tem chance alguma de acontecer, graças ao bom Senhor Deus –, ele levaria o país no caminho nem um pouco saudável que tomou a Venezuela. Um aspirante a ditador, perigoso e antissocial.
Haddad é uma piada, que saiu corrido da prefeitura de São Paulo depois de ter feito fama ao derramar tinta vermelha pela cidade afora afirmando estar a criar ciclovias. É o segundo poste do Lula. Depois de a Lava Jato ter posto a nu alguns dos horrores e roubalheiras da gestão petista, Lula há de ter voltado aos seus 30% de apoio de que gozava antes de seus publicitários o transformarem em “Lulinha Paz & Amor”. Se tanto. Só aqueles que foram vitimados pela lavagem cerebral petista (ministrada numa escola perto de você, nas aulas que deveriam ser de História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Português…) conseguem levar a sério o presidiário barbudo. Destes, alguns passarão a votar no Haddad, por ordens do Chefe. Mas Haddad presidente é algo que provavelmente nem a mãe dele quer de fato. Pobre senhora.
E é por isso que sobra o Bolsonaro. Mas para ganhar ele precisa operar a mágica – que a facada talvez ajude a conjurar – de abrandar a sua persona de “bobo da corte” parlamentar, de parte na disputa entre Fulanos e Beltranos importada pelo PT, e mostrar-se como quem ele verdadeiramente é: não, infelizmente, o estadista de que o Brasil precisa, mas uma pessoa normal. Ele não é um monstro racista, nazista, fascista, saxofonista, o que seja. Ele é simplesmente um brasileiro médio, com um bom talento para perceber o que está no ar. Se ele conseguir, a Presidência é sua. E na Presidência, talvez, quem sabe, um brasileiro médio consiga começar o que há de ser a longa obra de restaurar a unidade do Brasil.
Cegos e loucos
O povo argentino na Plaza de Mayo aplaudindo em delírio a ditadura do bêbado e odiado general Galtieri quando declarou guerra à Inglaterra. A ascensão de Hitler e do nazismo. O tempo do terror na Revolução Francesa.
Collor, o caçador de marajás, incendiando as massas. Jânio Quadros, bebum e mulherengo, defensor da moral e dos bons costumes, chamando JK de corrupto, proibindo o biquíni, e empolgando o país.
Quase sempre discordo da maioria, e agora ainda mais, diante das opções tenebrosas. Seja quem for, no dia seguinte à posse, estarei na oposição.

É um pesadelo imaginar Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Vanessa Grazziotin de volta ao poder. A administração e as estatais aparelhadas por sindicalistas. Fundos de pensão saqueados por correligionários. Economistas populistas. E o constrangimento do presidente da República receber ordens da cadeia, como as facções criminosas. Pobre e heroico Haddad. Mas é o que temos, pelo egoísmo e vaidade de Lula, que torpedeou a aliança com o experiente, honesto e preparado Ciro Gomes, o único que seria agregador e competitivo, até pelo estilo agressivo, contra Bolsonaro.
O maior eleitor de Haddad é Lula, e de Bolsonaro é Lula também: o antipetismo massivo desmente qualquer conspiração das elites, da mídia golpista, de Sergio Moro e do TRF-4, para perseguir Lula. A verdade é que o Brasilzão real é conservador, com alguns bolsões liberais, e está muito bravo. Só precisava de alguém que o representasse.
É como o “estado de paixão” amoroso, a pessoa não sabe, mas já está apaixonada, só falta o objeto da paixão, o manequim que vestirá as suas fantasias, e que o tempo e a realidade vão desnudar.
Tristes tempos em que cegos são guiados por loucos rumo ao abismo, diria o Rei Lear.
Tudo que é provável é verdade?
"Para o jornalista, tudo o que é provável é verdade". Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Refletindo nele, nós percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e não a conhecimento dos factos.
Em geral, o pequeno jornalista é um profeta da Imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas sérias. Quando Balzac refere que a crítica só serve para fazer viver o crítico, isto estende-se a muitas outras tendências do jornalista: o folhetinista, que é o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (...). Eu própria não estou isenta duma soma de articulismos, de recursos à blague, de graças adaptáveis, de frequentação do lado mau da imaginação, de ridículos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condenações fáceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de elegâncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo "bom cidadão". Quando não sou nada disso, sou assunto para jornais, mas não sou jornalista.Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito"
Desespero
A ofensiva da tigrada está assentada na acusação segundo a qual a candidatura de Bolsonaro está sendo impulsionada nas redes sociais por organizações que atuam no "subterrâneo da internet", segundo denúncia feita anteontem na tribuna do Senado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, que lançou o seu J'accuse de fancaria.

"Eu acuso o senhor (Bolsonaro) de patrocinar fraude nas eleições brasileiras. O senhor é responsável por fraudar esse processo eleitoral manipulando e produzindo mentiras veiculadas no submundo da internet através de esquemas de WhatsApp pagos de fora deste país", afirmou Gleisi, que acrescentou: "O senhor está recebendo recursos ilegais, patrocínio estrangeiro ilegal, e terá que responder por isso. (...) Quer ser presidente do Brasil através desse tipo de prática, senhor deputado Jair Bolsonaro?"
Como tudo o que vem do PT, nada disso é casual. A narrativa da "fraude eleitoral" se junta ao esforço petista para que o partido se apresente ao eleitorado - e, mais do que isso, à História - como o único que defendeu a democracia e resistiu à escalada autoritária supostamente representada pela possível eleição de Bolsonaro.
Esse "plano B" foi lançado a partir do momento em que ficou claro que a patranha lulopetista da tal "frente democrática" contra Bolsonaro não enganou ninguém. Afinal, como é que uma frente política pode ser democrática tendo à testa o PT, partido que pretendia eternizar-se no poder por meio da corrupção e da demagogia? Como é que os petistas imaginavam ser possível atrair apoio de outros partidos uma vez que o PT jamais aceitou alianças nas quais Lula da Silva não ditasse os termos, submetendo os parceiros às pretensões hegemônicas do demiurgo que hoje cumpre pena em Curitiba por corrupção?
Assim, a própria ideia de formação de uma "frente democrática" é, em si, uma farsa lulopetista, destinada a dar ao partido a imagem de vanguarda da luta pela liberdade contra a "ditadura" - nada mais, nada menos - de Jair Bolsonaro. Tudo isso para tentar fazer os eleitores esquecerem que o PT foi o principal responsável pela brutal crise política, econômica e moral que o País ora atravessa - e da qual, nunca é demais dizer, a candidatura Bolsonaro é um dos frutos. Como os eleitores não esqueceram, conforme atestam as pesquisas de intenção de voto que expressam o profundo antipetismo por trás do apoio a Bolsonaro, o PT deflagrou as denúncias de fraude contra o adversário.
O preposto de Lula da Silva na campanha, o candidato Fernando Haddad, chegou até mesmo a mencionar a hipótese de "impugnação" da chapa de Bolsonaro por, segundo ele, promover "essa campanha de difamação tentando fraudar a eleição".
Mais uma vez, o PT pretende manter o País refém de suas manobras ao lançar dúvidas sobre o processo eleitoral, assim como já havia feito quando testou os limites legais e a paciência do eleitorado ao sustentar a candidatura de Lula da Silva. É bom lembrar que, até bem pouco tempo atrás, o partido denunciava, inclusive no exterior, que "eleição sem Lula é fraude".
Tudo isso reafirma, como se ainda fosse necessário, a natureza profundamente autoritária de um partido que não admite oposição, pois se julga dono da verdade e exclusivo intérprete das demandas populares. O clima eleitoral já não é dos melhores, e o PT ainda quer aprofundar essa atmosfera de rancor e medo ao lançar dúvidas sobre a lisura do pleito e da possível vitória de seu oponente.
Nenhuma surpresa: afinal, o PT sempre se fortaleceu na discórdia, sem jamais reconhecer a legitimidade dos oponentes - prepotência que se manifesta agora na presunção de que milhões de eleitores incautos só votaram no adversário do PT porque, ora vejam, foram manipulados fraudulentamente pelo "subterrâneo da internet".
Caso WhatsApp revolucionou pensamento do PT
Em sua primeira manifestação sobre o caso, o presidenciável petista Fernando Haddad disse que o rival Jair Bolsonaro “deixou rastro” que permite vinculá-lo ao esquema de difusão de mensagens. Implacável, Haddad defendeu o uso da prisão como meio de obtenção de confissões. Mesmo que disponha, por ora, apenas de uma notícia da Folha, jornal que o petismo incluía até ontem no rol da “mídia golpista”.
“Se você prender um empresário desses, ele vai fazer delação premiada'', declarou Haddad. ''Basta prender um empresário que vai ter delação premiada e vão entregar a quadrilha toda. Nós estamos falando de 20 a 30 empresários envolvidos nesse esquema. Se prender um, em menos de dez dias a gente vai ter a relação de todos os empresários que estão financiando com caixa dois uma campanha difamatória.”
A manifestação do PT ocorreu cinco dias depois do encarceramento preventivo dos executivos das duas maiores empreiteiras do país: Marcelo Odebrecht, da empresa que leva o sobrenome de sua família, e Otávio Azevedo, da Construtora Andrade Gutierrez. Hoje, sabe-se que ambos estavam lambuzados com o óleo queimado da Petrobras até o último fio de cabelo.
No item de número quatro, o texto da resolução do PT desautoriza prisões como as que Haddad passou a defender: “Se o princípio de presunção de inocência é violado, se o espetáculo jurídico-político-midiático se sobrepõe à necessária produção de provas para inculpar previamente réus e indiciados; se as prisões preventivas sem fundamento se prolongam para constranger psicologicamente e induzir denúncias, tudo isso que se passa às vistas da cidadania, não é a corrupção que está sendo extirpada. É um Estado de exceção sendo gestado em afronta à Constituição e à democracia.”
Dias depois da divulgação da resolução petista, ainda em junho de 2015, a então presidente Dilma Rousseff torpedeou numa entrevista o instituto da delação premiada, incluído numa lei que ela própria havia sancionado. Um dos delatores da Lava Jato, o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, informara em depoimento que fizera repasses ilegais à campanha de Dilma à reeleição, em 2014. E ela: ''Não respeito delator, até porque estive presa na ditadura militar e sei o que é. Tentaram me transformar numa delatora (…) e garanto que resisti bravamente''.
Não bastasse o ataque a um mecanismo que se revelou vital para o êxito do combate à corrupção, Dilma misturou democracia com ditadura. Deu de ombros para o fato de que a delação que sancionara, longe de assemelhar-se à tortura, é uma ferramenta que a legislação oferece à defesa dos encrencados. É uma oportunidade que o criminoso tem de trocar a confissão por benefícios penais.
No mês passado, o próprio Haddad foi denunciado pelo Ministério Público paulista com base numa delação do mesmo empreiteiro Ricardo Pessoa. Acusaram-no de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa. De acordo com a denúncia, Haddad recebeu da UTC propina de R$ 2,6 milhões para pagamento de dívida contraída durante sua campanha à prefeitura de São Paulo, em 2012.
A exemplo de Dilma, Haddad desqualificou o delator. O adjetivo mais brando que utilizou foi “mentiroso”. Em nota, o comitê de campanha do PT esculachou também o Ministério Público: ''Surpreende que, no período eleitoral, uma narrativa do empresário Ricardo Pessoa, da UTC, sem qualquer prova, fundamente três ações propostas pelo Ministério Público de São Paulo contra o ex-prefeito e candidato a vice-presidente da República, Fernando Haddad''.
No episódio das mensagens de WhatsApp, cuja divulgação é atribuída a empresários a serviço de Bolsonaro, o PT é bem mais rigoroso. Trata o noticiário da ex-mídia golpista como elemento de prova: “Reportagem da Folha de S.Paulo desta quinta-feira (18) confirma o que o PT vem denunciando ao longo do processo eleitoral: a campanha do deputado Jair Bolsonaro recebe financiamento ilegal e milionário de grandes empresas para manter uma indústria de mentiras na rede social WhatsApp”, escreveu o partido em texto veiculado no seu site.
Está em jogo agora, segundo o novo conceito do PT, “a sobrevivência do processo democrático.” A legenda tem razão. O surpreendente é que, no ano passado, o PT pediu e obteve no Tribunal Superior Eleitoral o arquivamento da denúncia de abuso de poder econômico praticado pela chapa Dilma Rousseff-Michel Temer na eleição de 2014.
O processo foi arquivado por excesso de provas. Por um placar apertado —4 votos a 3— os ministros do TSE decidiram enterrar evidências vivas de que a Odebrecht pagara com dinheiro sujo da Petrobras o marketing que moeu adversários do PT como Marina Silva e produziu o estelionato eleitoral que reconduziu Dilma e Temer ao Planalto.
Nessa época, o PT não via no financiamento ilegal de campanhas um risco ao “processo democrático”. Fraude mesmo, alardeou a legenda neste ano de 2018, é uma eleição sem Lula, um político preso que o PT tentou, sem sucesso, transformar em ''preso político''. Não é à toa que Jair Bolsonaro está prestes a ser eleito pela maior força política existente no país: o antipetismo. Em matéria criminal, o PT é capaz de quase tudo, menos de oferecer algo que se pareça com um mea-culpa.
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Lula não pode tudo
Há reviravoltas e reviravoltas. Com estafante insistência, de uns tempos para cá – mais precisamente há quase duas décadas – petistas empedernidos nos falam de uma reviravolta para salvar o Brasil do caos. Suas receitas e promessas, aplicadas em campo na longa temporada que ocuparam o poder, acabaram por legar o próprio emblema do caos lancinante, no plano econômico, social e político, sem exceções, com um tempero de desemprego e recessão recordes na história. Ninguém disso duvida. Mas as patranhas palanqueiras do líder máximo da agremiação, Lula da Silva, hoje detento de ficha 700004553820, seguiram seu curso a despeito das evidências e alcançaram o último pleito, de embate capital no próximo domingo, 28, em segundo turno, com inadvertida desfaçatez. O menestrel das lorotas Lula e seus seguidores, como a caçoar da inteligência alheia, redobraram as apostas repetindo como farsa a ladainha de um resgate do País. Seria decerto uma salvação pela via da corrupção endêmica que massivamente praticaram. Haddad, o poste da vez, travestido de conciliador democrata sem aptidão para tanto, tomou para si o discurso engabelador e aceitou ser servido como presente de grego, na vã ilusão de enganar eleitores e potenciais aliados distraídos. Não colou. Encarnou o papel típico de um Cavalo de Tróia, escondendo em suas entranhas a camarilha de encalacrados petistas que inevitavelmente traria junto em seu projeto eleitoreiro, e se estrepou todo, caminhando para uma derrota fragorosa. Converteu-se em mero figurante do jogo. Pausa para registro: é sabido que Lula, Dirceu & Cia. sempre almejaram resgatar o poder a qualquer custo e de qualquer maneira – mesmo que não pela via do voto, como disse recentemente um deles -, mas decerto representa um lance bizarro, quase ingênuo mesmo, a tentativa do capo petista de empurrar ao Planalto (sem qualquer chance mais a essa altura do campeonato) um preposto da velha esquadra de sequazes saqueadores. Haddad, na campanha montada para lhe vender como algo que não é, virou pilhéria e provocou vergonha alheia. A agremiação escondeu a bandeira vermelha com estrela, marca pela qual é mais conhecida, tirou a imagem de Lula dos santinhos, mostrou seu usual desapego à realidade, lançando acenos que não cumpre, e perdeu-se no fabulário. A verdade não tem versões e o PT não entendeu isso. A ópera dos embusteiros acabou desmascarada. E logo por quem havia acabado de se enfileirar na esquadra de defesa do lulopetismo. “Lula tá preso, seus babacas! Vocês vão perder”, bradou o pedetista cearense Cid Gomes em um desabafo tão franco como surpreendente. Obcecados adoradores do demiurgo não quiseram ouvir. Possivelmente nem acreditaram no óbvio. Nessa marcha da insensatez que empreendem devem mesmo sair derrotados porque, de resto, como os próprios eleitores estão demonstrando nas urnas, Lula não pode tudo. Ninguém pode. A corriola de asseclas e militantes é capaz até de insistir na fé cega da hipótese, afinal muitos habitam um mundo onde as versões predominam sobre os fatos, as imagens virtuais sobre a realidade, no qual o universo paralelo serve de refúgio para negar a seca realidade. Decerto, em dado momento, sairão frustrados. A patota de caciques petista também. Ela estava convicta de que receberia o aval para replicar um modelo tão fraudulento como danoso à Nação. Os formuladores desse pacto foram escorraçados. Receberam um primeiro e eloquente recado ainda nas eleições municipais, há dois anos, e estão agora aprendendo, a duras penas, que não se ganha carta branca da população, indefinidamente, para seguir delinquindo sem punições. A maioria dos comandantes petistas está condenada. Outros respondem na Justiça por seus desvios. Lula segue na cadeia e transformou-se num mero espectro do poder de outrora. Não manda mais nada, não pode mais nada e fala apenas para um pequeno exército “Brancaleone”, cada dia mais ralo. Com o distanciamento dos eventos pregressos é possível notar que o pecado original da parolagem petista foi presumir que a conquista do Planalto lá atrás fazia do Brasil propriedade privada do partido para esbórnias sem fim. Ledo engano. A farra está se esgotando. O PT vive provavelmente o crepúsculo de uma antiga projeção. As artimanhas e as surradas práticas do patrimonialismo espoliador devem, com ele, sumir do cenário político. Será essa a verdadeira reviravolta.
O que será será
Muita gente me pergunta isto, nas ruas e nos aeroportos. Respondo que penso no tema todos os dias e um bom pedaço das noites. Mas não cheguei a uma conclusão que pudesse ser transmitida num diálogo telegráfico. Tudo o que consigo dizer ainda não transcende a sabedoria de um escoteiro: estar alerta.
Não temo pela sobrevivência da democracia brasileira, mas pelos arranhões e pancadas que pode levar no caminho. É um perigo que ronda a democracia em quase todos os lugares onde ela existe.

Acabamos de sair do primeiro processo de eleições disputado principalmente no território virtual das redes. Talvez seja mais reveladora do Brasil que as outras, marcadas por comícios, propaganda na TV e reuniões domésticas. Muita gente participou, compartilhando opiniões.
O processo tem alguns perigos, que já rondaram as eleições presidenciais norte-americanas. O principal deles são as fake news, cada vez mais intensas.
Fake news sempre existiram. No passado as chamávamos de boatos. Na década dos 70 o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger escreveu um livro de ensaios com o título Política e Crime. Um dos mais interessantes capítulos é dedicado aos boatos e sua capacidade destruidora em certos momentos políticos. A diferença essencial é que o boato hoje não só circula entre milhões de pessoas, mas o faz numa rapidez incomparável com outras fases históricas.
As fake news não seriam tão assustadoras para mim se houvesse uma vontade genuína de filtrá-las. O perigo apresenta-se no fato de que para muitas pessoas a distinção entre fake news e realidade não interessa mais. E essa indiferença diante de boatos espalhados por máquinas eficazes acaba sendo uma porta aberta para o totalitarismo.
Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, um presidente não escreve o destino do país como se estivesse diante de uma folha em branco. Há instituições, às vezes precárias, é verdade, mas representam um contraponto ao poder.
Conheço as posições de Bolsonaro e seus aliados em relação ao meio ambiente. Será um osso duro de roer. Mas, ainda assim, creio que há um horizonte para o movimento ambiental. Na minha opinião, ele terá de rever suas alianças preferenciais. Foi mais fácil buscar a esquerda, sempre aberta para absorver lutas contra o sistema.
No entanto, a ciência, a grande aliada estratégica, foi subestimada. O verdadeiro encontro a ser buscado é o da ecologia com a ciência. Não importa a resistência que as ideias encontrem. Apoiadas numa lógica científica têm chance maior de se expandir na sociedade.
Marina teve uma votação muito pequena. No dia seguinte à apuração, dois economistas ganharam o Nobel com trabalhos sobre o desenvolvimento sustentável. O tema continua importante, sobretudo no mundo. A votação de Marina não expressa a irrelevância ambiental na cabeça dos eleitores brasileiros.
O momento histórico, as circunstâncias tornaram a luta contra a corrupção sistemática e a insegurança nas cidades o que realmente importava agora. No campo da segurança pública, outro osso duro de roer. Não só Bolsonaro, mas também parte de seus eleitores, aposta na posse de armas. Vejo isso de uma forma diferente, mas não tão contraditória.
Jair Bolsonaro disse no Rio que gostaria de ver a segurança funcionando como há 50 anos. É compreensível a nostalgia das ruas tranquilas. No entanto, o esforço é fazê-lo olhar para a frente, se não 50, ao menos alguns anos adiante.
As experiências que fortalecem a minha tese estão aí: a tecnologia e a ciência também são aliadas da segurança pública. No Piauí, um aplicativo trouxe mais segurança às mulheres ameaçadas. No momento em que escrevo, estou partindo para a cidade de Guararema, no interior de São Paulo. Ali vou documentar o trabalho de uma verdadeira muralha de câmeras que protegem o lugar. São 96. Há 33 meses não há um homicídio.
Deve haver alguns problemas, como de privacidade. Mas isso vou analisar no local. De qualquer maneira, é um exemplo que fortalece a tese de usar o avanço tecnológico e científico como um grande aliado da segurança pública.
Enfim teremos um novo presidente, novo grupo no governo, mas há um caminho para contrabalançar o poder emergente. Uma instituição com a qual se conta sempre, apesar de sua degradação, é o Congresso. Houve uma renovação, cujos contornos qualitativos é difícil avaliar antes de fevereiro.
A base parlamentar do governo, no momento, são as bancadas do boi, da bala e da Bíblia. Não são monolíticas, nem necessariamente concordam em tudo.
Sempre escrevi que a chamada bancada da bala é formada, parcialmente, por policiais experientes, que têm muito a dizer. A repressão armada é a linguagem que melhor entendem. No entanto, uma investigação sofisticada, um método mais científico pode despertá-los também para outro caminho, ainda incipiente no Brasil.
Na bancada ruralista há gente com mais intimidade com a natureza do que muitos ecologistas. Sua diferença é que trabalha com os fatores sobrevivência e, sobretudo, lucro. Mas com a mediação da ciência é possível algum resultado, assim como com a bancada religiosa, em alguns temas, como meio ambiente e direitos humanos - não, porém, no sentido em que os conheceram nos anos de PT.
Enfim, teremos muito trabalho para tocar o barco. Mas não é impossível. Estamos diante de uma realidade, não adianta chorar o leite derramado. O Brasil é assim, temos de nos ajeitar com ele e dar graças a Deus, porque a alternativa do autoexílio é bastante dolorosa, creio eu.
Tenho visto algumas críticas de que esse raciocínio leva a normalizar o fascismo. Na verdade, o que consideram uma aberração é resultado do voto popular. É preciso um pouco de cuidado com a realidade.
Ainda bem que haverá muito trabalho para todos. E pouco tempo para patrulhar uns aos outros.
E os pobres?
De outro lado, estão os sábios desenraizados do economismo superficial, pseudocientífico, que tem fórmulas mágicas para tudo, na educação, na ciência, na economia propriamente dita, desde que lucrativas. É evidente, pois, que os que "dão" prejuízo ou não dão lucro estão fora das cogitações políticas da nova ordem baseada no racional da iniquidade e na exclusão social e cultural.
É curioso isso. Historicamente, a sociedade brasileira reafirma o seu caráter estamental, volta sempre às desigualdades do passado, douradas por discursos ufanistas e enganadores. Procura restaurar sempre a inferioridade social do nascimento dos pobres que herdamos da dominação colonial.

A pobreza no Brasil, mais do que nunca, já ultrapassa o nível da pouca vergonha. Essa definição não é científica. Mas tampouco a miséria brasileira o é. Um quarto da população brasileira, segundo dados recentes do IBGE, vive com pouquíssimo mais de R$ 18 por dia, R$ 387,00 por pessoa por mês. Menos do que o aluguel mensal de um barraco numa favela em São Paulo. Vivem em pobreza extrema 4,2% da população, os que dependem do Bolsa Família (R$ 85/mês). Vivem com um quarto do salário mínimo per capita 12% dos brasileiros.
A população mais pobre continua concentrada no Norte e no Nordeste, regiões há meio século beneficiadas por políticas de incentivos fiscais que nelas promoveram a difusão de uma economia moderna, poupadora de mão de obra e, portanto, desenvolvedora da economia, mas não da sociedade. Quase metade da população das duas regiões ainda vive na pobreza e na extrema pobreza. São extremamente pobres mais de 7 milhões de nordestinos, mais da metade dos do Brasil.
O Brasil não conseguiu superar a indigência de políticas sociais baseadas na concepção de esmola, caso do Bolsa Família. Nesta campanha eleitoral, nenhum dos candidatos foi além de propostas de políticas sociais baseadas na concepção da dádiva, seja na economia, seja na saúde, seja na educação, seja na seguridade, seja na segurança. O que unifica as propostas é a incapacidade de formular políticas econômicas baseadas no primado dos direitos sociais.
Se os intelectuais do economismo não conseguem ir além da subdesenvolvida concepção de sociedade lucrativa às custas do abandono e do banimento de milhões de brasileiros, melhor é procurar socorro teórico em outras fontes. Há séculos as ciências criaram sua resistência ética e propriamente científica à banalidade do meramente útil e lucrativo. Deveriam criá-la também aqui. A condição humana não se reduz ao lucro a qualquer preço nem com ele se confunde. O lucro é um epifenômeno, um resultado secundário das conquistas sociais. Os países ricos só o são porque a educação os fez culturalmente ricos e socialmente justos. Não estamos conseguindo ir por aí. Queremos imitar os países ricos e dar o salto da iniquidade que minimiza a sociedade para maximizar a economia. Queremos imitar porque os que mandam em nós acham que a macaquice da imitação substitui a diligência do esforço, do estudo, do trabalho. Macaquice não é ciência nem é criação.
Somos hoje economicamente pobres porque abandonamos os grandes valores que nos foram legados pela tradição humanística civil e militar do almirante Tamandaré e do marechal Rondon, heróis da pátria, que pensavam o futuro do povo brasileiro no marco da superação das contradições da escravidão e da conquista. Ou o legado de empresários como Antônio da Silva Prado, o maior de sua época, que arquitetou o fim da escravidão como engenharia de transformação social. E Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, que concebeu o nacional-desenvolvimentismo e a política industrialista baseada na premissa dos direitos trabalhistas e previdenciários. Anticomunista, era leitor de Karl Marx, para desespero da família, como me revelou uma sobrinha sua.
Gente que assegurou a modernização do Brasil com a modernização de sua economia sem crucificar os desvalidos, ao integrar os pobres na sociedade por meio do trabalho livre e do emprego decente.José de Souza Martins
Tudo chute

As últimas pesquisas de “intenção de votos” que estão circulando na praça dizem, em números redondos, que Jair Bolsonaro está com cerca de 60% das preferências do eleitorado, contra 40% de Fernando Haddad. Mas esperem um momento: deve haver alguma coisa errada aí. Até às vésperas da votação do primeiro turno, todas as pesquisas (e a mídia insistia muito nesse ponto: todas as pesquisas) garantiam que Bolsonaro iria perder de qualquer dos outros candidatos no segundo turno. Repetindo: de qualquer candidato. Nove em cada dez análises se fixavam na importância terminal desta informação vinda da ciência estatística. Podia se contar com diversos cenários, mas uma coisa pelo menos estava certa, acima de toda e qualquer dúvida: o candidato da direita iria perder a eleição no segundo turno, seja lá o adversário que sobrasse para a disputa com ele. Até o Meirelles? Aparentemente, não chegaram a medir a coisa nesses detalhes, mas as manchetes diziam que Bolsonaro perderia de todos os candidatos no segundo turno, e como Meirelles (ou o cabo Daciolo, ou o Boulos, ou o Amoedo, ou o Álvaro Dias etc.) eram candidatos, sempre dá para dizer, tecnicamente, que até essas nulidades iriam ganhar dele. Não aconteceu nada de extraordinário de lá para cá. Porque, então, as pesquisas preveem agora exatamente o oposto do que previam cinco minutos atrás?
Os institutos de pesquisa fariam uma especial gentileza ao público se explicassem, em umas poucas palavras compreensíveis, por que seus números devem ser levados a sério no segundo turno, se mostram agora o contrário do que mostravam no primeiro. Não conseguindo fazer isso, talvez ficasse mais simples dizer o seguinte às pessoas: “Esqueçam o que a gente deu no primeiro turno. Era tudo chute”. Chute ou torcida, tanto faz, porque uma coisa é tão ruim quanto a outra e, no fim das contas, nenhuma das duas será cobrada. Como sempre acontece, se Bolsonaro ganhar mesmo as eleições, os autores das pesquisas dirão que ficou provado o quanto eles acertaram – pois o resultado que costuma sobrar na memória é o último. Daqui a pouco, contando com esquecimento geral por parte do público, estarão propondo novas profecias para quem estiver interessado. E em 2022, ou já em 2021, prepare-se para ler que Lula está na frente de todo mundo com 50%, que Marina está subindo e Ciro Gomes começa a crescer. Bolsonaro, se for eleito agora e se candidatar à reeleição, estará com 0%. Na reta final os números serão ajustados de novo (“ocorreram mudanças no processo decisório”) e tudo continuará como sempre foi.
As pesquisas eleitorais de 2018 deixaram claro, mais que em qualquer eleição anterior, o quanto elas estão sendo incapazes de medir aquilo que está realmente na cabeça do eleitor. Foi um desastre. Dilma Rousseff foi garantida como a senadora mais votada do Brasil e ficou num quarto lugar em Minas Gerais. O senador de São Paulo Eduardo Suplicy, outro “eleito” pelas pesquisas, foi exterminado após 27 anos de Senado. Houve erros grotescos nas pesquisas para governador de Minas e Rio de Janeiro – os que acabaram colocados em primeiro lugar tinham 1% dos votos, ou nada muito diferente disso, até poucos dias antes da eleição. Geraldo Alckmin ficou com menos de 5% dos votos. Marina Silva ficou com 1%. No Nordeste, que foi citado durante seis meses seguidos como o grande celeiro de onde Lula poderia operar a sua “volta”, o PT teve 10 milhões de votos a menos que em 2014. Das sete capitais da região, perdeu em cinco. Erros deste tamanho, por mais que os institutos neguem, são sintoma de alguma coisa profundamente errada no sistema todo. Como escrito acima, tudo isso tende a cair rapidamente no esquecimento, sobretudo porque não há paciência para ficar discutindo um assunto que não interessa mais até a próxima eleição. Mas o problema não vai sumir só porque não se falará mais nele.
As pesquisas, com certeza, não conseguiram captar as correntes que se movimentam no oceano da internet e do mundo digital como um todo. Não entenderam nada sobre o peso que as redes sociais tiveram no processo eleitoral. Seus questionários podem não estar fazendo as perguntas certas, na maneira certa, na hora e no lugar certos. Na disputa nacional, o papel da propaganda obrigatória na televisão, tido como algo sagrado, mostrou que está valendo zero – e as pesquisas não estavam preparadas para isso, nem para o efeito nulo dos “debates” entre candidatos na TV, das opiniões dos comentaristas políticos e da orientação geral da mídia. Está surgindo um mundo novo por aí. Não será fácil para ninguém começar a entender como ele vai funcionar. Uma boa razão, portanto, para começar já o esforço.
Bolsonaro não receberá um cheque em branco
O principal atributo de campanhas como a de Bolsonaro, que irradiam um imaginário forte, é ter rompido com a situação anterior, dando a impressão de que nada será como antes. Não é pouca coisa. Foi à cova no primeiro turno aquele PSDB que se oferecia como polo de poder há seis sucessões. Vão à lona no segundo round o petismo e, sobretudo, o lulismo.
Bolsonaro coleciona no Datafolha 59% das intenções de votos válidos, contra 41% atribuídos a Haddad. O petismo já se dedica à produção de teorias para explicar a derrota. O exercício é tão inevitável quanto inútil, pois não produz a hecatombe que seria necessária para engolir até 28 de outubro os 18 pontos percentuais que separam o substituto de Lula do seu algoz.
Um detalhe potencializa o desafio de Bolsonaro. O resultado da eleição será marcado não pela preferência, mas pela rejeição do eleitorado. Subiu para 54% a taxa de eleitores que declaram que jamais votariam em Haddad. Quer dizer: o capitão será empurrado para a cadeira de presidente pela maior força política da temporada: o antipetismo.
O índice de rejeição a Bolsonaro diminuiu. Mas continua enorme: 41%. Significa dizer que não haverá na plateia muita gente com disposição para aplaudir um governo que não entregue rapidamente a mudança que prometeu.
Do ponto de vista econômico, a aura de Bolsonaro já tem dono: o liberalismo do economista Paulo Guedes. Que esbarrará no fisiologismo do Legislativo. Do ponto de vista político, seu governo precisa virar o sistema do avesso. Fácil de prometer. Difícil de executar.
Em condições normais, o eleitor talvez se esforçasse para distinguir políticos melhores e piores. Mas os gatunos ficaram ainda mais pardos depois que a Lava Jato transformou a política em mais uma ramificação do crime organizado. Depois que o governo empregocida de Dilma Rousseff foi sucedido pela cleptogestão de Michel Temer, a ideologia do eleitor tornou-se uma espécie de radicalismo retrógrado, movido a fúria, desinformação e inconsequência. Deu em Bolsonaro.
Jogando parado, Bolsonaro avisou que não irá a nenhum debate, embora os médicos o tenham liberado. Segundo o Datafolha, 73% dos eleitores avaliam que ele deveria duelar com Haddad diante das câmeras. Entretanto, 76% declaram que não cogitam modificar o voto por causa de debates. Nesse contexto, a fuga parece um grande negócio para o favorito. Mas essa percepção só é válida até certo ponto. O ponto de interrogação.
É verdade que há algo de sádico na forma como os candidatos são expostos, questionados, insultados e até ridicularizados nos debates. Neste segundo turno de 2018, a perversão ganharia nova dimensão, pois um dos contendores convalesce de duas cirurgias provocadas por uma facada.
Mas o sadismo não seria necessário apenas para o esclarecimento de eleitores que parecem dar de ombros para o contraditório. Valeria mais pela educação democrática que propiciaria a um candidato com pendores autocráticos. O mesmo Datafolha que coloca Bolsonaro a um milímetro da poltrona de presidente da República já revelou que sete em cada dez brasileiros enxergam a democracia como o melhor sistema de governo.
É mais uma evidência de que, eleito, Bolsonaro não vai dispor de um cheque em branco do eleitorado. Tiros para o alto ou murros na mesa não serão aceitáveis. O capitão terá de aprender a negociar. Algo que jamais fez nos seus quase 28 anos de Parlamento.
Fazer sentido
Precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céuErico Verissimo
Petismo, antipetismo e pacificação
Desde que foi criado, o petismo se dedica à criação de antagonismos, fornecendo instrumentos institucionais, organização, recursos humanos e financeiros para o lado que ocupa nos conflitos que cria e estimula. Enorme esforço tem sido despendido pelo PT para que os brasileiros sejam identificados e antagonizados pela cor da pele, pela etnia, pela cultura, pela região do país, pelo tal de gênero, pela faixa etária, pelo extrato de renda, pela relação de autoridade (pais/filhos, professor/aluno, policial/cidadão, criminoso/vítima), pela posição política e ideológica, e por tudo mais que a inventividade possa suscitar. Assim é o petismo.

Mas não é daí que vem o antagonismo. Ele surge do empenho em transformar essas realidades em conflitos nos quais a parte supostamente protegida pelo petismo é ensinada a ver a outra como inimiga. E o que é pior: sendo a ela imputadas as intenções mais vis. É o que acontece quando repetido incessantemente, por exemplo, que o PT é malvisto pela classe média porque esta não quer pobre viajando em avião ou comendo filé mignon. Ou quando se diz que o brasileiro é racista, machista e homofóbico. Ou quando se pretende, em sala de aula, contra a vigorosa reação nacional, confundir a sexualidade das crianças com ideologia de gênero como “conteúdo transversal”, vale dizer, em todas as disciplinas... Ou quando se insulta a direita liberal e/ou conservadora chamando-a de fascista. Ou quando se tenta impedir a projeção de um filme do Olavo ou uma palestra de Yoani Sanchez. Ou quando se afirma que o pobre é pobre porque o rico é rico. Ou quando, aos olhos e ouvidos da população indignada com a roubalheira promovida no país, é dito que os condenados são heróis do povo brasileiro, ou que o preso é um santo julgado por magistrados patifes. Não se diz essas coisas para um povo que foi roubado nas proporções em que os brasileiros foram! Mas o petismo diz.
Tenta-se hoje, por todos os meios, impingir à opinião pública a ideia de que liberais e conservadores “odeiam” todos aqueles cujas posições são fomentadas pelo discurso petista. No entanto, essa é mais uma vilania! A exasperação tem como causa o petismo dizendo o que diz e fazendo o que faz. É o petismo que suscita rejeição; não é o pobre, nem o negro, nem o índio, nem o homossexual, nem o esquerdista, nem sei lá mais quem.
A impressionante renovação promovida pelos eleitores em sete de outubro nada teve a ver com qualquer “efeito manada”. Bem ao contrário, significou a tomada de decisão, livre e soberana, de uma sociedade cuja opinião vinha sendo desprezada por supostos tutores confortavelmente acomodados nos espaços de poder institucional, nos grandes meios de comunicação e no ambiente cultural. A necessária pacificação nacional será difícil, porque todos sabem como se conduz o petismo quando na oposição.
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