terça-feira, 4 de outubro de 2016

Esquerda, direita e vice-versa

Está aberto um novo ciclo político em Portugal. Como já houve noutros tempos, de má memória, antes e depois do 25 de Abril. São tempos de fanatismo. De exclusão. De afrontamento sem tréguas. São tempos de esquerda contra a direita, que geram tempos de direita contra a esquerda. Há quem goste. Há quem considere que essa é a grande política, o regresso da política e outras banalidades. Mas sabemos que não é verdade. Com o país assim dividido, perdem-se meios de ação e oportunidades de compromisso e de cooperação.

Há com certeza esquerda e direita. Em muitas coisas, são diversos e querem coisas diferentes. Mas há muito mais. O país e a política não se resumem a isso. Há a cultura, a nação, a religião, a etnia, a região, a idade, a arte, a ciência, o trabalho, o desporto, o amor, boa parte da economia, a educação, a saúde, o património e muito mais onde esquerda e direita não têm qualquer espécie de importância, podem até ser nefastos.

O que nestes tempos de fanatismo marca a diferença entre esquerda e direita é o autor. O que a direita faz é de direita. O que a esquerda faz, de esquerda é. A autoria marca o conteúdo, não o contrário. É o estilo dos déspotas.

A mesma coisa, feita por alguém de esquerda ou de direita, é de esquerda ou de direita. Austeridade, poupança, frugalidade ou rigor: se os responsáveis forem de esquerda, é de esquerda. Se forem de direita, é de direita. Medidas da responsabilidade de partidos da direita são fogo para a esquerda, devem ser condenadas e consideradas roubo. Se postas em prática por gente de esquerda, são detestáveis para a direita e consideradas assalto.

Diminuição das garantias, redução das liberdades individuais, restrição de direitos, violação do segredo bancário e do sigilo de correspondência: estes gestos têm duas interpretações. Feitos pela esquerda, de esquerda são, festejados pelas esquerdas e repudiados pelas direitas. Feitos pelas direitas, de direita são, aplaudidos pelas direitas e vilipendiados pelas esquerdas. Gastos com a defesa, despesa com a segurança e equipamentos para as polícias: conforme o governo, assim estes orçamentos serão de esquerda ou de direita, apoiados pela tribo apoiante, condenados pela tribo oposta.

Negócios com capitalistas, entendimentos com multinacionais, favores a empreiteiros, incentivos a investidores, projetos de equipamento e parcerias: são empreendimentos de esquerda ou de direita, conforme os governos que as fazem, não conforme os méritos da obra.

Corrupção, crime e delinquência: é muito fácil, perante uma qualquer destas realidades, verificar que esquerdas e direitas se comportam de modo simétrico. Simpatizam, toleram ou condenam consoante o autor. As políticas e as medidas contra o terrorismo e a violência têm o mesmo destino: se vierem da esquerda, são de esquerda, aplaudidas pela esquerda e condenadas pela direita. Se vierem da direita, são de direita, festejadas pela direita e opostas pela esquerda.


Quase já não há matérias em que a esquerda e a direita democráticas sejam capazes de, sem trauma, estar de acordo. Quase já não há valores comuns. Com esta divisão exclusiva, toda a esquerda deixa de ser democrática para a direita e vice-versa. Nos debates parlamentares, já se fala de esquerda e de direita como se fossem pestes ou pragas sem salvação.

É natural que haja “paz social”, isto é, ausência de greves, enquanto os sindicatos de esquerda tenham acesso ao poder e os partidos de esquerda possam frequentar os corredores do governo. Também é natural que haja “clima optimista” para os negócios, enquanto os patrões tenham fácil contato com os governantes e os partidos da direita sejam bem-vindos nas antecâmaras dos ministérios. Tudo isso é natural e faz parte do jogo político. Infelizmente.

Um recado das urnas

 Resultado de imagem para política já era charge

Arrisca-se ao papel de tolo quem quiser ver nos resultados de domingo a morte da política. Abatidos nas urnas foram o voto obrigatório e a fragmentação partidária. Generosos, como sempre, os eleitores deram ao Congresso uma nova chance para mudanças

O naufrágio do PT e a necessidade da reforma política

A história da humanidade tem naufrágios que ultrapassaram os tempos, como o do cônsul Pompeu voltando da África para Roma. No Brasil a Bahia nasceu do naufrágio do valente aventureiro Caramuru. Perdemos o bispo Sardinha nas costas do nordeste. E na história universal o Titanic, o supernavio afundado. Nesta semana mais um naufrágio veio para carimbar a história da política brasileira. Depois de 30 anos de belas vitórias, muitas loucuras, falcatruas e numerosas prisões, o PT naufragou de norte a sul do país. Não sobrou nenhuma liderança.

Lula está lá em São Bernardo escondendo-se da Polícia Federal. Dilma não quer ficar em Porto Alegre, mas fora de lá não tem onde se esconder. José Dirceu, Palocci, Vaccari, não podem atender o telefone. Preso não atende telefone. Não sobrou ninguém. Nem o talentoso ex-ministro Tarso Genro, porque ninguém quer papo com ele.

Resultado de imagem para enterro do pt charge

Perder São Paulo já seria uma derrota dolorosa, mas compreensível. O que é inexplicável é o PT, depois de tantos mandatos, ser escorraçado da capital, sem conseguir sequer chegar a um segundo turno. Nem isso. Foi derrotado, humilhado e ofendido.

Com exceção do distante, minúsculo e boliviano Acre, em todos os estados onde tentou disputar alguma coisa foi varrido pelos eleitores. Não se salvaram nem o Rio Grande do Sul onde já teve berço e cama. Nem o ABC paulista com seus numerosos sindicatos e alguns outrora poderosos diretórios políticos e sequer no Nordeste que já foi um dia proclamado como território sagrado do partido. De tanto esconder-se, dele os eleitores e as urnas se esconderam. Como a Itabira do poeta, o PT ficou reduzido a um retrato na parede. Mas como dói.

Algum tempo vai ser preciso, mas logo logo o país sentirá o alívio que foi o sumiço do PT. Chegará ao fim a ladainha escondida atrás de discursos demagógicos, explorando a ingenuidade popular. Nunca mais ninguém dirá que nunca antes na história deste país houve alguém como ele ou que é mais honesto do que Jesus Cristo.

Parece pressa, mas chegou a hora. O Congresso tem o dever de começar uma reforma política para ficar pronta antes de 2018. Houve avanços, mas ainda são poucos. Acabar com o financiamento empresarial das eleições foi um salto. Mas não basta. É preciso regulamentar o financiamento individual para que espertos não finjam estar dando dinheiro que é dele quando não é.

Muita coisa há para reformular. Por exemplo: por que não começar a discutir um sistema parlamentarista que seja integral ou ao menos um que seja misto? O país está maduro para esta reforma. Mais urgente ainda é acabar com o vergonhoso carnaval dos partidos. Cinquenta partidos (funcionando ou a funcionar) tornam a democracia um fantoche. Eles passam a ser fundados ou a existirem apenas em função da teta gorda do Fundo Partidário e dos negociáveis tempos de TV e de rádio.

Mais de 10 partidos já seriam um exagero, e 50? Tornam-se um sórdido balcão de negócios. É claro que essas coisas não se implantam do dia para a noite. Mas na hora em que algumas dezenas de parlamentares sérios, que existem no Congresso, se dispuserem a preparar um projeto de cláusula de barreira, como existe em todas as democracias, a pressão da opinião pública virá irresistível. É preciso querer e fazer.

O excelente deputado Miro Teixeira tem tempo, independência e autoridade para começar esta batalha.

A escravidão também jamais iria acabar. Mas um dia acabou.

O fecho do feixe

There’s a lover in the story, but the story’s still the same / There’s a lullaby for suffering and a paradox to blame / But it’s written in the scriptures and it’s not some idle claim / You want it darker / We kill the flame 
Leonard Cohen (“You want it darker”)

Ontem fiquei doente. No cinzento domingão da eleição, fiquei me contorcendo na cama, somente com um breve intervalo para votar. O motivo, no entanto, estava longe de ser ideológico. Na noite anterior, após uma bebedeira com um amigo a que não via há tempos, comi algo que não desceu bem. A conclusão desta mistura de elementos, álcool e alimentação ruim, foi uma longa e dolorosa ressaca. Voltando à política, relembro minha agonia física e surge-me à mente o seguinte questionamento: em matéria de representatividade, o que o brasileiro vem consumindo? O que temos digerido seria fruto de um processo às pressas e atraente na superfície, ou um cozido mais perverso, como aqueles que escolhem o veneno para temperar sua fatal refeição?

Li há pouco um interessantíssimo comentário do tradutor e poeta Guilherme Gontijo Flores, autor dos belíssimos e mordazes livros “Brasa enganosa” e “L’azurblasé”. Ele elenca exemplos de situações típicas de novela, como José Mayer e Vera Fischer divididos em suas agonias de membros da elite, alienados sem culpa do mundo em míseras preocupações sexuais. Prosseguem mais duas cenas de teledramaturgia, em que personagens negros e LGBT são tolerados na condição de figuras arquetípicas, em um pastiche sórdido que justificaria uma incapacidade de ascensão social. Finaliza com uma descrição bem real de eleitores abastados vibrando com a vitória de colegas do country ganhando prefeituras em capitais estaduais. “Nossa narrativa é toda aristotélica: sofremos a tragédia dos ricos e rimos dos pobres que nós mesmos somos. Na hora de votar, como povo, escolhemos a figura com que nos identificamos”, afirma o escritor.

Alienação da TV:

Torna-se uma reflexão mais intrigante perante os eventos que cercearam o país nos últimos anos. Concorde-se ou não com suas motivações, as alterações no cenário político criaram uma impressão de tábula rasa. O próximo passo está para ser escrito e é imprevisível. Será? O sistema seria um mecanismo que trava, mas, eventualmente, retoma seu funcionamento e engole aquilo que o engasgou como uma planta carnívora? Ou, como integrados, sua operação pode alterada por dentro? Nesta dicotomia, as duas maiores capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, simbolizam que não há resposta fácil. A culpa é da hubris dos deuses ou da ousadia dos mortais? Em todo caso, estaremos condenados a um destino predeterminado ou poderemos sair da caverna para além das sombras?

As eleições paulistana e carioca demonstram a rejeição aos governos anteriores. Mas este é o efeito, o fim de uma tragicomédia talvez anunciada. Enquanto um município fez uma opção clara pelo conservadorismo, outro encontra-se dividido pela indefinição de qual modelo seguirá, desde que não fosse o anterior. É infeliz constatar isso, mas, em um país em um a cada três de seus habitantes culpa a mulher em caso de estupro, não foi a conduta agressiva que tirou o candidato oficial da jogada. Vale mencionar que o vereador mais votado na cidade maravilhosa é membro de uma família ligada à extrema-direita. Seu pai, que todos sabem quem é, alcançou o mesmo resultado há dois anos quando se elegeu deputado federal. Logo, Rio de Janeiro progressista? Menos, queridos. Bem menos…

Como Leonard Cohen profetiza em sua voz cavernosa, há uma canção de ninar para o sofrimento e um paradoxo a ser responsabilizado. A história é a mesma. Os personagens farão aquilo que esperamos deles, enquanto dermos a audiência. Não é somente a mídia que produz monstros. Apenas exteriorizam e trabalham estes sentimentos presentes dentro de nós num pacote atraente, previsível e brega. Champanhe com gosto de guaraná aguado, enfim. Parece bom à vista, mas causa um piriri… À medida que analisarmos aquilo pelo que desejamos ser, e não por que é, veremos tudo escuro e nossos estômagos se contorceram. Abrir os olhos dói, como aceitar sua própria tragédia. Se o prato enjoou, não basta esperar uma nova receita. Você é o que come. É preciso arregaçar as mangas e fazer você mesmo, supervisionar o preparo, garantir a qualidade do que pediu. É menos utópico que muita dieta. Palavra de quem perdeu 15 kg nos últimos meses.

Daniel Russell Ribas

Imagem do Dia

Parque Nacional de Plitvice, na Croácia

Abstenção não revela crise de representatividade porcaria nenhuma!

“Devo registrar uma preocupação: acabei de verificar um número imenso de abstenções, votos em branco e nulos , o que revela o que ouso dizer ‘a indispensável necessidade’ de uma reforma política do país, algo que penso que o Congresso Nacional deva cuidar com muita propriedade.”
A fala acima é do presidente Michel Temer ao chegar ao Paraguai nesta segunda para sua primeira visita bilateral. Está acompanhado dos ministros José Serra (Relações Exteriores), Raul Jungmann (Defesa), Alexandre de Moraes (Justiça) e Marcos Pereira (Desenvolvimento, Indústria e Comércio). Parlamentares também acompanharam a comitiva da viagem, que começou pela Argentina. O presidente já está de volta.

Vamos lá. Eu sempre tenho receio quando se fala em reforma política sem que se diga o que se quer. Temo ou pelo amor ao perfunctório ou pelas atitudes desastradas. A barbaridade da proibição da doação de empresas a campanhas decorre, de fato, uma decisão do Supremo, mas é bom lembrar que a ideia prosperou, sim, no Congresso à esteira do moralismo burro que alguns tentaram colar à lava-jato. Esse moralismo boçal é sempre o túmulo da moral. Faz muito barulho e não serve pra nada. Obtém sempre resultados contrários àquilo que diz pretender.

Muito bem! As abstenções, votos nulos e votos brancos, quando somados, apontam para um número elevado, sim. Eu quero fazer reforma política, já disse. Acho que é preciso implementar o parlamentarismo com voto distrital. Mas eu quero mais: também reivindico o voto facultativo. Se votar é um direito que tenho, não posso ser punido se não exercê-lo. Isso é uma estupidez. O voto obrigatório numa sociedade democrática é uma excrescência.

Por que digo isso? A abstenção nunca foi tão alta? Pois é…Não obstante, o país nunca foi tão democrático. Como é que ficamos, então? Eu quero fazer uma reforma política, sim, mas não é para levar nem mais nem menos pessoas paras as urnas. Eu a defendo porque considero que o parlamentarismo com voto distrital cria melhores condições de o cidadão vigiar o poder e porque o modelo pode nos proteger contra crises. Ou melhor: um governo inepto ou ladravaz pode cair sem ameaça de crise institucional.

No tempo da ditadura, os eleitores compareciam quase religiosamente para votar — menos para prefeitos de capitais, governadores e presidente —, e, no entanto, por óbvio, a democracia não vivia crise nenhuma porque democracia não havia. Acho que Temer falou aquilo que sabia que queriam ouvir. Imaginem se ele diz: “Ah, esse negócio de abstenção não tem a menor importância”.

Então ficamos assim: a reforma política é, sim, importantíssima, mas não porque o poder enfrenta uma crise inédita de legitimidade como se diz por aí. Precisamos mudar porque o que temos é ineficiente. E eu insisto que uma reforma decente tem de contemplar o voto facultativo. E a abstenção será certamente maior do que hoje.

O digníssimo cidadão tem o direito de não querer participar da escolha desde que não reivindique o direito de desrespeitar a lei.

Simples.

O resto é papo de direitista autoritário, de esquerdista autoritário e de otário autoritário, uma categoria crescente e barulhenta.

Presidente Temer, tome a iniciativa de reunir os líderes políticos para tratar do parlamentarismo. Não seja apenas mais um cronista nesse debate. Já os temos em excesso.

Depois da surra, tudo é velório para o petismo

Desde que trocou o tino político pelos confortos de sua ex-presidência, Lula passou a ser movido por uma desastrosa autoconfiança. Na véspera da eleição, ele fez a defesa inconsciente do voto útil. Parecia decidido a convencer o eleitor a tomar qualquer decisão, desde que desse uma surra no PT. Lula foi a um comício do candidato petista à prefeitura de São Bernardo do Campo. E declarou o seguinte:

Carpideiras:
“Você que ouviu tantas vezes nos últimos anos a Rede Globo de Televisão agredir o PT, a imprensa criminalizar o PT, eu queria fazer um apelo pra vocês, homens de bem, mulheres de bem, trabalhadores e trabalhadoras: amanhã, na hora de votar, é importante vocês saberem que urna não é lugar pra depositar ódio ou preconceito. Urna é lugar pra depositar esperanças e sonhos…”

O contrário do antipetismo que Lula supõe existir no noticiário é o pró-petismo reivindicado por ele —um sentimento inocente, que aceita todas as presunções do PT a seu próprio respeito. Isso inclui concordar com a tese segundo a qual os petistas têm uma missão especial no mundo, de inspiração divina e, portanto, inquestionável.

Como qualquer religião, o petismo pode cultivar seus dogmas. Mas o desembaraço autocrático de Lula tem limites. Discurso que agride a realidade, trata a plateia como imbecil. E se a surra de domingo ensinou alguma coisa é que o brasileiro já não está disposto a avalizar a pretensão petista de ser uma potência ética, que só deve contas à sua própria noção de superioridade e ao seu destino evangelizador.

À beira da urna, Lula escancarou a impostura. Alguém que acaba de se transformar em réu por corrupção e lavagem de dinheiro, depois de 13 anos em que o Estado foi saqueado pelo seu partido e pelos esquemas que o acompanharam no poder, e ainda consegue ostentar a pose de vítima da imprensa ou é um cínico ou é um distraído. Em nenhum dos casos é um líder político que mereça respeito.

A declaração de Lula —“Urna não é lugar pra depositar ódio ou preconceito. Urna é lugar pra depositar esperanças e sonhos”— talvez seja citada no futuro como um resumo da ópera petista, como uma apoteose da incapacidade do PT de compreender o vexame em que se converteu. A reação das urnas foi compatível com a dimensão da ofensa.

Em certos momentos, o desalento pode ser justificável. O que ninguém aguenta mais é a esperança sem causa. O eleitorado ensinou a Lula que urna é lugar para depositar consciência. No Brasil, a eleição é loteria sem prêmio, é a ilusão de que é possível começar tudo de novo, do zero, para ver se finalmente dá certo. O voto vem se revelando um equívoco renovado a cada quatro anos. O eleitor pelo menos decidiu cometer erros novos.

Depois da surra de domingo, tudo é velório para o petismo. Aquele partido imaculado de outrora cometeu suicídio. O cadáver do ex-PT pode inspirar o surgimento de outro PT. Mas isso depende da disposição de Lula e de seus discípulos de protagonizar um gesto de contrição.

Uma expiação mais rápida teria feito bem ao PT. Mas o partido ainda não se deu conta de que o arrependimento é a última serventia do crime. A julgar pelo silêncio pós-eleitoral de Lula e do resto da seita, o PT talvez só descubra os prazeres do remorso depois que a autocrítica não adiantar mais nada.

Em tempo de indigência...

Nenhuma relação existe entre a minha profissão e os versos que faço. E não é esse o mal. O mal está no carácter desapaixonado, frio, mecânico do trabalho; na ausência de uma participação da inteligência e da sensibilidade na maioria das atividades profissionais; na servidão implacável do homem instalada no próprio cerne de uma civilização que se propõe, justamente, abolir a servidão. O mal é a ausência do homem. "O deserto cresce", dizia Nietzche. O deserto não cessa de crescer. 

One Size | Edgy art. Men if you happen to order one, please get the one which has a six pack.: Numa sociedade alienada até à medula, como a nossa, só a vagabundagem tem a força e o prestígio de um destino; mas vagabundo parece que não chega a ser profissão, salvo quando se tem conta farta no banco. Como não é o meu caso, e a poesia não dá para pagar o almoço, o jantar, e outra vez, e outra vez, até ao fim do mundo, parece não haver saída. 

Enquanto se não descobrir como há-de viver o poeta sem comer, não haverá solução para estas cigarras que persistem em sonhar alegria até ao seio da morte. A não ser que se ponha em prática o que Platão já aconselhava na República: desterrá-los, simplesmente. "Para que poetas em tempos de indigência?"
Eugénio de Andrade, "Rosto Precário"

País sem líderes


Resultado de imagem para leve me ao seu  charge
É estranho que uma Nação com 206 milhões de habitantes, 31 anos de uma democracia que suportou bem dois processos de impeachment do presidente da República, 35 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), liberdade absoluta de opinião política e eleições a cada dois anos encontre dificuldades para construir novos líderes políticos. Mas essa é a realidade brasileira. Não há como fugir dela
João Domingos

Sic transit gloria PT

A expressão “sic transit gloria mundi”, atribuída ao monge agostiniano Tomás de Kempis (1418), cai como uma luva para a atual situação do PT. A se confirmarem as pesquisas de intenção de voto, o Partido dos Trabalhadores será varrido do mapa de todas as capitais brasileiras, exceção de Rio Branco, no Acre.

Segundo o Google, a frase era utilizada no ritual das cerimônias de coroação papal até 1963, quando o mestre de cerimônias, de joelhos diante do papa, dizia três vezes e em voz alta: “Pater Sancte, sic transit gloria mundi”. Estas palavras dirigidas ao papa, serviam como lembrete da natureza transitória das honras terrenas

lapide

O PT, que imaginava que ouviria do povo brasileiro na sua “inexorável” vitória em 2018 “Pater Sancte Lula, sic transit gloria mundi”, não acreditou nesta sábia expressão. Pensou que, uma vez tendo atingido o poder, jamais seria dele apeado. E que seu líder seria entronizado e mandaria para sempre.

Não é o que está acontecendo.

Presidanta impedida, muitos dos seus amigos e correligionários presos ou acusados de corrupção, a principal figura do partido, Luis Inácio Lula da Silva, o mesmo do tríplex no Guarujá e do sítio de Atibaia e que já é réu de dois processos, viu desmoronar o seu castelo de cartas. Haja vista o que aconteceu em Campinas, quando menos de 1.000 pessoas comparecerem ao seu ato de apoio ao candidato Marcio Poshmann, que muito provavelmente perderá para Jonas Donizete.

Marcio Poshmann é uma exceção, já que os candidatos do PT noutras capitais fogem de seus símbolos máximos como o diabo foge da cruz, tentando tapar o sol com a peneira e cuspindo no prato que comeram.

A ex-presidente Dilma foi ao Rio apoiar sua amiga Jandira Feghali e o que aconteceu? A candidata do PCdoB viu seus índices de preferência afundarem ainda mais. Jandira, que faz parte da tropa de choque da Dilma no Senado junto com Gleisi Hoffmann, que também é ré, e Lindbergh Farias, ainda por cima é mal educada. Em pleno debate proporcionado de graça pela TV Globo, acusou a emissora de ter “apoiado o golpe contra a democracia e contra uma mulher eleita”. Uma grosseria sem tamanho, própria de uma pessoa radical que tendo perdido a sua causa perde também a compostura. Vai afundar ainda mais.

Em São Paulo não se viu o Lula participando de comícios em favor do seu poste Fernando Haddad, que está em vias de perder o importante reduto petista para o PSDB e correndo o risco de não ir nem mesmo para o segundo turno. Corre risco idêntico o candidato Celso Russomano, já que um vídeo no qual ele aparece dando apoio incondicional a Dilma em 2014 está bombando na internet.

Em Belo Horizonte, forte reduto petista, o candidato do PT tinha até quinta feira míseros 4% de intenção de voto.

Na minha terra, Porto Alegre, Raul Pont amarga um distante segundo lugar para Sebastião Melo (PMDB), e mesmo assim embolado com o brilhante deputado Nelson Marchezan Júnior (PSDB).

E assim vai pelo Brasil afora.

Talvez o melhor subproduto das eleições municipais de hoje seja o fim do PT. Os ideólogos do partido que diziam que o futuro da agremiação estaria intrinsecamente ligado ao sucesso do segundo mandato de Dilma tinham razão. O fracasso subiu-lhes à cabeça.

O próprio Lula disse recentemente que “não tem 2018 se a gente não tiver 2016”. Tomara que ele esteja certo,

Tarso Genro, um dos mais prestigiado quadros petista, que perdeu a reeleição para o governo do Rio Grande do Sul em 2014, vaticinou que o PT só sobreviveria se se reinventasse. Esta reinvenção poderia até mesmo contemplar a mudança de nome do partido, deletando a sigla de duas letras do cenário político nacional.

O povo não vai esquecer dos desmandos da administração petista que jogaram o país na maior crise da sua história. Uma crise não só econômica, mas uma crise moral e ética sem precedentes, talvez com efeitos mais devastadores sobre a sociedade do que qualquer outra.

Estamos assistindo o ocaso de uma era que gostaríamos de esquecer.

Há um consenso entre analistas políticos que as revelações da justiça sobre o papel de liderança de Lula no esquema criminoso operado pelo Partido dos Trabalhadores serviram para demolir não só a base do partido como também a figura do ex-presidente, cujo peso eleitoral está virando pó.

Talvez ele agora, dentro da sua conhecida soberba, possa ter a humildade de reconhecer como é fugaz a glória do mundo.

Ele e seu partido, que está caindo aos pedaços, vítima de seus próprios erros e condenado pelas urnas.

Que o PT descanse em paz.

Faveco Corrêa

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

14520520_1332788783411503_8776018948783306936_n

O Estado e seus cidadãos

Nos trópicos, historia sempre se repete. Nunca como farsa. Sempre como tragédia. Esperada, previsível, ciclicamente. Mas sempre trágica.

Ao que falte esperança ou vontade. Ao sim, ano não, os votos caem no fundo da urna a já grávidos do desejo de dias melhores. Às vezes a esperança até supera o medo. Mas logo depois, degenera em desastre.

Falta saúde, segurança, transporte, educação, justiça (e acesso a ela), saneamento básico. E muito mais. Pensando bem, falta quase tudo. Precisa-se do Estado. Urgentemente. Mas ele não comparece. Não funciona. Não vem.

Mas os governos não parecem funcionar. Quase sempre. Prometem com pontualidade e faltam com precisão. Emperram o Estado. Corroem e corrompem os serviços. E cobram impostos. Muitos.

A presença do Estado é imperativa, urgente, desesperadamente necessária. Ruas seguras, casas sem grades, bons hospitais, escolas descentes, justiça acessível. Precisa-se do Estado presente, ativo, competente, eficiente. Cidadania, enfim. Tudo é urgente. Mas não há.

BY PAWEL  KUCZYNSKI...........SOURCE BESTCARTOONS.NET..............:
Nos trópicos, a única coisa pior do que a ausência do Estado talvez seja o encontro com ele. É no encontro com o Estado que a realidade esmaga a esperança. Os serviços não funcionam. O Estado não está a serviço do cidadão. Criou vida própria. Concentra energias em manter estatais e monopólios desnecessários. E nega atenção onde é vital. Virou máquina de comer imposto e produzir indiferença. É traumático.

Nada pior que precisa do Estado tropical. Temerário colocar o destino em suas mãos. Vai faltar frequentemente. É injusto. E não dá ao cidadão, acesso a recursos para corrigir injustiças. Cidadania não é prioridade. Não está sequer no radar.

Mas os trópicos gostam de jeitinho. E, ao invés de consertar o Estado, adota paliativos. Loteiam territórios. Constroem muros. Compram grades. Assistem a degradação da escola publica. Convivem com ausência de transporte publico de qualidade. Adaptaram-se ao cheiro da falta de saneamento.

Nada disso é solução. Sem Estado presente, não qualidade de vida. Nem vida civilizada, enfim. Cidadania não vem de graça. É conquistada. E depende da vigilância dos cidadãos.

Sem a presença do Estado, não há esperança. E sem cidadãos, não há cidadania. Nem Estado de direito.

Filósofos para quê?

Num sebo dos arredores da Notre Dame encontrei, meio maltratada pelo tempo e o manuseio dos passantes, a primeira edição de Pourquoi des Philosophes? (1957), de Jean-François Revel. Comprei-a e voltei a lê-la, meio século depois da primeira leitura. Este panfleto voltairiano com que Revel iniciou sua carreira literária conserva intacta sua explosiva ferocidade, e talvez ela tenha aumentado porque algumas das figuras com as quais se enfurece, como Heidegger, Jacques Lacan e Claude Lévi-Strauss, se transformaram desde então em referências intelectuais intocáveis.

Como ele mesmo diria depois, este livro foi sua despedida tempestuosa da filosofia. E, aliás, da universidade francesa e de seus professores de ciências humanas, outro de seus alvos, aos quais acusava de estarem muito atrás das universidades norte-americanas e alemãs, meio entorpecidos por favorecimentos mafiosos e por uma retórica cada vez mais incompreensível e insossa. Este livro teve consequências muito proveitosas para os leitores de Revel: tirou-o de um mundo acadêmico onde talvez tivesse vegetado muito longe da atual0idade e o transformou no formidável jornalista e pensador político que seria. Seus artigos e ensaios, com os de Raymond Aron, foram um modelo de lucidez nessa segunda metade do século XX, marcada na França pelo predomínio quase absoluto do marxismo e suas variantes, que ambos enfrentaram com valentia e talento em nome da cultura democrática. Ninguém os substituiu, e sem eles os jornais e revistas franceses parecem ter-se apequenado e entristecido.

THINKER PRINT by mister-bones on DeviantArt:
A palavra panfleto tem agora certo tom ignominioso, de texto vulgar, inábil e insultuoso, mas no século XVIII era um gênero criativo e respeitável, de alto nível, do qual se valiam os intelectuais mais ilustres para ventilar suas diferenças. Nessa tradição se inserem muitos dos livros de Revel, como Pourquoi des Philosophes? [“filósofos para quê?”, inédito no Brasil], um ajuste de contas com os pensadores de seu tempo e com a própria filosofia — que, segundo este ensaio, por causa dos descobrimentos científicos, de um lado, e, de outro, da falta de importância e originalidade e do obscurantismo dos filósofos modernos — vai minguando como uma pele de onagro e — o pior — ficando cada vez menos legível. Revel sabia do que falava, tinha um conhecimento profundo dos clássicos gregos e todo o seu livro está repleto de contrastes entre o que significava “filosofar” na Grécia de Platão e Aristóteles ou na Europa de Leibniz, Descartes, Pascal, Kant e Hegel, e o modesto e superespecializado mister (confinado com frequência à linguística) que usurpa seu nome em nossos dias.

Mas não há no livro apenas críticas severas aos filósofos contemporâneos; há também alguns elogios. A Sartre, por exemplo, por O Ser e o Nada, que parece a Revel uma reflexão profunda, de grande audácia especulativa, e a Freud, de quem faz uma exaltação beligerante, sobretudo contra certos psicanalistas, como Jacques Lacan, que, a seu ver, não só banaliza e emaranha grotescamente as ideias de Freud como o utiliza para erguer um vaidoso monumento a si mesmo. Para nós que perdemos muitas horas tentando entender Lacan (sem conseguir), a dura crítica que Revel lhe dedica é alentadora.

Não é o caso, porém, das severas reprimendas a Claude Lévi-Strauss, cujo livroAs Estruturas Elementares do Parentesco Revel questiona desde o princípio, acusando seu autor de ser um bom psicólogo, mas de não oferecer nada do ponto de vista sociológico ao conhecimento sobre o homem primitivo. Ele estende essa asserção ao conjunto dos estudos de Lévi-Strauss sobre as sociedades marginais, com o argumento de que ao reduzir toda a análise a descrever a mentalidade primitiva, concentrando-se em sua intimidade psicológica, ele se desvinculou das obrigações de pesquisar o mais importante do ponto de vista social: por que as instituições da sociedade tradicional tiveram determinado caráter, por que se diferenciavam tanto umas das outras, que necessidades os rituais, crenças e instituições de cada comunidade satisfaziam. A obra de Lévi-Strauss estava ainda em processo de elaboração quanto Revel escreveu este ensaio, e talvez sua avaliação do grande antropólogo fosse outra se ele tivesse tido uma perspectiva mais ampla de sua obra.

No ano de 1971, em razão de uma reedição de Pourquoi des Pourquoi des Philosophes?, Revel escreveu um extenso prólogo passando em revista o que havia ocorrido no âmbito intelectual na França nos onze anos anteriores. Não retificava nada do que havia escrito em 1957 e, pelo contrário, encontrava no “estruturalismo” então em voga as mesmas insuficiências e embustes que havia denunciado nos anos do “existencialismo”. Dirige as críticas mais acerbas a Althusser e a Foucault, sobretudo este último, muito atual desde a publicação deAs Palavras e as Coisas, que tinha declarado que “Sartre era um homem do século XIX” e cujas espalhafatosas afirmações, segundo as quais “as ciências humanas não existem” e “do homem, uma invenção recente, se pode prever o fim próximo”, faziam as delícias dos bistrôs de Saint-Germain. (Também apedrejava policiais e negava a existência da AIDS)

Revel observa que as modas vão arrastando a filosofia a níveis de artificialidade e esoterismo que parecem uma forma de suicídio, começando pela saraivada que os novos filósofos disparam contra o humanismo. Mas o que estimula mais o seu humor sarcástico é a estranha aliança que se dava entre o esnobismo político — leia-se marxismo ou, ainda mais grave, maoísmo — e as especulações mais intrincadas das “teorias” produzidas desenfreadamente pelos literatos e críticos de uma corrente estruturalista que abarcava tantas disciplinas e gêneros que ninguém mais sabia sobre o que escrevia. Nisto leva todos os prêmios a revistaTel Quel, cujo gênio tutelar, o sutil Roland Barthes, acabava de explicar, inaugurando suas palestras no Collège de France, que “a língua é fascista”. A análise de um número especial de Tel Quel feita por Revel, ridiculizando a pretensão dos discípulos de Barthes e Derrida de que suas teorias literárias e experimentos linguísticos serviriam ao proletariado para derrotar a burguesia na batalha de morte em que estão envolvidos, é muito proveitosa. Basta citar uma frase: “A função ideológica da Tel Quel é muito clara: consiste em fabricar uma cultura burguesa apresentando-a como antiburguesa. Pois ela é antiburguesa e proletária na exata medida em que a propriedade de Maria Antonieta, no Petit Trianon, era antimonárquica e camponesa”.

Por cima e por baixo da virulência intelectual que anima este ensaio de Revel, algo permanece atualmente tão válido como então: a nostalgia por uma vida intelectual criativa e responsável, que ajude a ver claramente aquilo que parece confuso, e em que as ideias se confrontem e desempenhem um papel central na busca de soluções para os arrepiantes problemas que o mundo de hoje enfrenta.

Imagem do Dia

Berna, Suíça

Aos vencedores

Resultado de imagem para aos vencedores políticos ilustração
Visto que tudo passa e as épicas memórias
Dos fortes, dos heróis, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triunfais
Não turbeis a razão nos vinhos das vãs glorias!

Não ergais alto a taça, à hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gozos, nos regalos;
E não façais jamais pastar vossos cavalos
Na erva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jamais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lúgubres cortejos!
- E se amardes, olhai que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fuzilados!

Sim! - se venceste emfim, folgai todas as horas,
Mas deixai lastimar-se os órfãos, as amantes,
Nem façais, junto a nós, altivos, triunfantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!—
—E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regamos já demais a terra - ó gloriosos
Vencedores! talvez, - vencidos de amanhã!

Gomes Leal (1848-1921)

De quando é bom ter uma pinguela segura

Para um observador desavisado, inexperiente de como aqui se vivem as coisas da política, diante do cenário que aí está, nada de estapafúrdio que se lhe dê na telha a ideia de estarmos na iminência de uma revolução.

Nas salas de aula das universidades os estudantes exibem adesivos estampando um “fora Temer”, professores das escolas de ensino médio cumprimentam seus alunos com o mesmo bordão, artistas e cantores populares não começam seus espetáculos sem ele, também presente nas salas de cinema e nos teatros. Uma ex-presidente da República que teve seu mandato cassado, num trâmite que passou pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, que decretou o seu impeachment, em julgamento presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, participa de comícios eleitorais de candidatos às eleições municipais, quando se declara vítima de um golpe, todos são sinais que levam nosso observador a ruminar suas impressões.

Contudo se ele resolver testá-las, levantando a vista para a sociedade inteira, logo reconhecerá o despropósito da sua fabulação. No Congresso, em suas duas Casas, o governo detém folgada maioria, couraça sem a qual não há Executivo que se mantenha, fato ilustrado pela nossa experiência, contundentemente confirmada por recentes episódios. Nas chamadas classes fundamentais, fora a agitação de sempre que lhes é própria, não se percebem outras movimentações que não sejam as da defesa de seus interesses e direitos. No mundo agrário, tradicional calcanhar de Aquiles da política brasileira, sopram os mesmos ventos.


Faltaria, ainda, consultar o que se passa nas eleições municipais, termômetro confiável para o registro dos sentimentos da população, e nos quartéis, cuja importância na tradição republicana brasileira dispensa comentários. Nestes últimos reina, há tempos, a reverência ao culto constitucional e ao exercício dos seus papéis profissionais; nas eleições, que transcorrem em clima morno, se valem as pesquisas – e tudo indica que valem –, as candidaturas que se deixaram embair pelo bordão “fora Temer”, principalmente nas grandes capitais, estão longe de obter votações que as levem à vitória. E, como sempre entre nós, não há melhor detergente em horas de crise política do que um processo eleitoral.

Feito esse balanço, nosso observador admite que se equivocou no diagnóstico. Mas se não é de revolução, do que se trata, que bicho é esse que nos aturde com sua presença? A frase é velha, mas nem por isso perde validade: o passado não mais ilumina o futuro, que ainda não começou a nascer. A hora é de transição, de lusco-fusco, não é mais noite e o dia tarda a aparecer, mas a sociedade se inquieta e começa despertar sem saber o que a espera em meio às ruínas que sobraram dos partidos e, em geral, das nossas instituições políticas.

Ela mudou em meio às poderosas transformações demográficas, sociais e ocupacionais que desfiguraram a paisagem reinante em meados do século passado. Encontramo-nos em terra nova, como se estrangeiros a ela, agarrados a um passado que nos foi familiar, com as relações entre gerações, entre gêneros, sobretudo entre as classes sociais e sistema de crenças girando em gonzos fora do nosso controle e da nossa imediata percepção. A sociedade modernizou-se por cima, sujeita a experimentos saídos das pranchetas de uma tecnocracia ilustrada, impostos a ferro e fogo – exemplo mais recente, o da colonização da Amazônia.

Entre nós, a obra dessa modernização persistiu por décadas, ora por vias duramente repressivas, como no Estado Novo de Vargas e no regime militar, ora de forma doce, como nos governos de Juscelino – que criou no centro geográfico do Brasil, nos ermos do Cerrado, uma nova capital para o País – e nos de Lula e Dilma.

Fora de dúvidas que tais esforços em favor da aceleração da modernização foram bem-sucedidos, em que pesem os altos custos políticos e sociais envolvidos, não só pelo aprofundamento das desigualdades já existentes, como pela condenação da sociedade a um estatuto de minoridade sobre a qual deveria incidir a ação modernizadora do Estado. Não à toa as lutas pela democratização do País trouxeram consigo a denúncia dessa modelagem, filha de nossa longa tradição de autoritarismo político, do que foi exemplar a publicação de São Paulo 1975 – Crescimento e Pobreza, sob a iniciativa do cardeal Paulo Evaristo Arns, obra coordenada por Lucio Kovarick e Vinicius Caldeira Brant.

Essa nova agenda, nos anos 1980, encontrou no PT uma de suas mais importantes vocalizações. Com efeito, dele vieram críticas contundentes ao nacional-desenvolvimentismo e à cultura política que enlaçava a sociedade civil ao Estado e às suas agências, como no caso do sindicalismo, objeto de feroz crítica das emergentes lideranças sindicais dos metalúrgicos do ABC, Lula à frente, como seu principal porta-voz. O PT nasceu e cresceu em nome de uma representação da sociedade civil que aspirava por autonomia diante da onipotência de um Estado que fazia dela base passiva para sua manipulação.

Como se sabe, esse partido, por fas ou nefas, se converteu às práticas que combatia; e levou-as à exaustão depois de um curto período de fastígio no seu uso, culminando no episódio melancólico do impeachment do mandato presidencial de Dilma Rousseff sob a acusação de ter atentado contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, cuja inspiração oculta, ao impor limites ao decisionismo do Executivo, consistiu precisamente em interditar caminhos ao processo de modernização autoritária vigente por décadas no País.

Agora, não resta outra solução que não a de atravessar, pé ante pé, a pinguela estreita que se tem à frente, de que falou em entrevista o ex-presidente Fernando Henrique, travessia perigosa que, para ser segura, está a exigir outra bibliografia e uma imaginação bem diversa da que nos trouxe até aqui.

Marcha dos imortais


"Stout Hearted Men"( "Homens destemidos") com Nelson Eddy, no filme New Moon (1940) 

Homens Destemidos

Você que possui sonhos
Se agir, eles se tornarão realidade
Tornar o sonho realidade
Depende de você
Se você tem alma e ânimo
Nunca tenha medo e você verá
Corações podem inspirar outros corações com seu fogo
Pois os fortes obedecem quando outros fortes mostram o caminho

Dê-me alguns homens que são destemidos
Que lutarão pelo direito que adoram
Comece com dez homens destemidos
E logo te darei mais dez mil
Ombro a ombro, cada vez mais corajosos
Eles crescem enquanto vão em frente
Então, não há nada no mundo que posso impedir ou derrotar um plano
Quando homens destemidos ficam juntos, homem a homem

Cela 13

Qualquer cidadão, por mais desatento que seja, fica estarrecido com o destino do PT. Um destino político que se tornou policial. Não há dificuldade em fazer uma reunião da cúpula petista no xilindró! Lá já estão ex-ministros, tesoureiros, líderes partidários, e assim por diante. Outros estão na fila, o que vai completar esse quadro da derrisão.

A verborragia da “perseguição política” e do “golpe” nada mais é que uma tentativa desesperada dos que não foram ainda condenados ou presos, procurando, assim, escapar do encarceramento iminente. Os que acreditam em tal palavreado mais parecem religiosos que se apegam a dogmas. Seriam dignos representantes da religiosidade petista e comunista. O partido da “ética na política” tornou-se o símbolo mesmo da imoralidade e da corrupção.

Cabe, então, uma pergunta: como pôde esse partido, que se anunciou como o da redenção nacional, cair tão baixo?

Resultado de imagem para cela 13 charge

Talvez seja um equívoco conceitual considerar o PT como social-democrata, do gênero dos partidos europeus que, tendo começado com o marxismo, enveredaram para uma óptica de transformação social do capitalismo, no amplo reconhecimento da economia de mercado e do Estado Democrático de Direito. Embora algumas mentes mais lúcidas do partido tenham tentado impor essa nova visão, ela terminou não prevalecendo, dada a animosidade partidária contra a propriedade privada, a economia de mercado, a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral e a democracia.

Não é suficiente considerar as medidas sociais tomadas pelo PT quando no exercício do poder como essencialmente social-democratas, dado que a própria experiência europeia mostra que os partidos democrata-cristãos na Itália e na Alemanha, além da direita francesa com De Gaulle, seguiram política semelhante. Aliás, muitas medidas sociais, por exemplo, na Inglaterra, nasceram das consequências sociais da 1.ª Guerra, no cuidado de órfãos, viúvas e idosos.

Há uma tentativa ainda em curso no País de salvar a concepção de esquerda das consequências dos governos petistas. É curioso, pois é como se a ideia de esquerda fosse imaculada, desde sempre válida, o problema consistindo, então, em sua má realização. Ora, trata-se de uma ideia fundamentalmente religiosa, dogmática, pois a experiência histórica mostra que a realização das ideias de esquerda culmina sempre no totalitarismo, no desastre econômico-social, em políticas liberticidas, quando não no assassinato coletivo de milhões de cidadãos.

No Brasil, ela está acabando na prisão. Dos males, o menor, pois o País tem uma chance de revigorar sua mentalidade, sua concepção, e empreender um novo caminho. O que não pode – nem deve – é permanecer em mera repetição histórica.

Analisemos alguns dos fatores do malogro petista, tendo presente que não estamos diante de nenhum acidente de percurso, mas de algo inerente a esta lógica esquerdista. A corrupção seria um elemento central.

Primeiro – O intervencionismo dos governos Dilma e Lula em seu segundo mandato origina-se de profunda desconfiança quanto à economia de mercado, à propriedade privada e à livre-iniciativa. Tudo foi feito para limitar a vida dos empreendedores, salvo os grandes grupos empresariais e financeiros que se aliaram ao assalto ao Estado e aos seus “benefícios”. As bases da corrupção já se faziam presentes tanto na alocação de recursos quanto na necessidade de os empresários comparecerem aos balcões da propina. As delações bem mostram o compadrio entre eles.

Segundo – O PT considerou o lucro como algo moralmente negativo, algo a ser evitado, devendo os membros partidários se apresentar como as encarnações do bem, por mais falsa que fosse essa representação. O lucro deveria ser controlado por uma elite burocrática partidária, imbuída do esquerdismo de suas concepções.

Terceiro – Ora, se o lucro era desprezível, qualquer medida para combatê-lo seria justificável, até mesmo extorquir empresários para dele compartilharem. Ou seja, se o lucro não era legítimo, a propina e a corrupção enquanto formas de partilha seriam justificáveis, sobretudo se feitas em nome do partido. Note-se que até hoje o partido considera como válida a distinção entre corrupção privada e partidária, a segunda tendo valor moral.

Quarto – De acordo com essa perspectiva, os fins (partidários) justificariam os meios (a corrupção, a propina, saquear estatais), de tal maneira que a imoralidade e a ilegalidade nada mais seriam do que meios de atuação partidária. A imoralidade partidária foi, assim, erigida em princípio.

Quinto – A corrupção petista, no entanto, não se restringiu a enriquecer os cofres partidários, mas se alastrou também para os bolsos de seus membros. Os milhões de enriquecimento individual saltam aos olhos e assombram qualquer um. Foi, digamos, um meio perverso de conversão ao capitalismo, tudo passando a valer.

Sexto – Essa conversão perversa é, assim, o fruto de uma concepção do mercado como não tendo nenhuma regra, onde tudo valeria. Na verdade, essa concepção termina por identificar o mercado ao contrabando, não imperando nenhuma lei. E se a lei não vigora numa economia de mercado, por que os membros do partido deveriam segui-la?

Sétimo – Para que tal política fosse bem-sucedida seria necessário que a imprensa e os meios de comunicação em geral fossem controlados e supervisionados, de tal modo que a verdade não fosse revelada. Foram inúmeras as tentativas do governo Lula de exercer esse controle, aquilo que foi eufemisticamente qualificado como “controle social dos meios de comunicação”. O “social” era o acobertamento da corrupção. Isto é, a corrupção e a imoralidade partidária não poderiam tornar-se públicas, pois o projeto partidário terminaria inviabilizado. E é isso que, de fato, está acontecendo.

Denis Lerrer Rosenfield

O mais do mesmo, em eleições que não empolgam mais ninguém

nani
Certas eleições costumam ser emblemáticas, daquelas que levam o eleitor a empolgar-se e a indagar “e agora?”, logo depois de encerradas as urnas. Foi diferente quando Getúlio Vargas voltou ao poder através do voto direto, encerrado seu período com um tiro no peito. Jânio Quadros viu-se proclamado vencedor para presidente da República e a conclusão era do que tudo poderia acontecer, como aconteceu até sua renúncia, sete meses depois da posse. Inusitada também foi a eleição de Fernando Collor, completada com seu pedido para sair, um minuto antes de ser saído. A própria eleição de Dilma Rousseff para o segundo mandato não revelou o escândalo que se seguiria, mas logo mostrou ser inevitável o desfecho.

A escolha de presidentes da República presta-se mais a surpresas do que as demais, mesmo admitindo-se o imponderável em outras eleições, como as municipais de ontem.

O desinteresse do eleitorado ficou claro a partir da divulgação das abstenções, não fosse também óbvio o sentimento de repúdio da nação a todos os candidatos, detectado nas campanhas.

Não há nada a esperar dos prefeitos das capitais, eleitos alguns no primeiro turno e outros levando seu desespero para o segundo, no fim do mês.

Sequer a situação mudará com a projeção dessas eleições para 2018, quando um novo presidente emergirá dos computadores. Tanto faz quem será.

O cidadão comum registrará o mais no mesmo, daqui a dois anos, com a confirmação de igual descrédito pelo futuro vencedor. Passou a época do entusiasmo pelos eleitos. Cada um trará o descrédito em sua bagagem, assim como os prefeitos escolhidos ou por escolher. As eleições não empolgam mais ninguém. Até a falta delas.

Enterrem meu coração na curva do rio

A melhor época para entender a história da sociedade é quando observamos suas ruínas. Vão aí flashes do “velho Oeste” que nos domina. Uma homenagem aos 100 anos de Ulysses Guimarães:
*Só deve partilhar da esperança de uma época quem partilha de suas inquietudes.
*A facilidade com que se pode distrair e influenciar o público, instruído ou não, é o que sustenta a política.
*Ao se considerar líder ou gênio, é sempre bom mapear a planura do território ao seu redor.
*Quem gosta de ser felicitado pelo que faz costuma não saber agradecer o que recebe.
Resultado de imagem para ulisses guimarães caricatura*Quem acha que as coisas são fáceis não sabe o que está acontecendo. A vida redistribui para outros o bem que os distraídos ou ingratos desprezam por acharem pouco.
*Alguém deve proteger o povo dos amigos do povo.
*Ninguém conserva para sempre a simpatia do vento.
*A convicção não deveria ser uma ferramenta de ataque.
*O líder escolhe sozinho seu veneno e o usa em seus iguais.
*Como é complicado encontrar palavras boas para ideias ruins.
*Em política não há inimigo pequeno, ou amigo grande demais.
*A desolação, e a grande capacidade de adaptação do eleitor, o faz combinar, no candidato, modéstia e pompa: a melhor luz para olhar seu interesse.
*A maioria do eleitor não se interessa por nenhuma coisa além dele. No dia da eleição, desinteressado, decide quem vencerá.
*O desprezo do pai liquida no filho o interesse por saber o motivo dos seus atos.
*O político, o promotor, o fiscal da Receita: como gostam de agravar a situação do próximo.
*Deve um juiz buscar a pertinência da prova. Não deve, impertinente, pretender julgar a decência da humanidade.
*Deve o promotor oferecer a denúncia, não acusar o cidadão como se tirasse, de casa, uma tábua podre do assoalho.
*O advogado de defesa não deveria ser pior do que o réu.
*A delação premiada pretende um milagre no enterro: ressuscitar o morto e a herança que o matou.
*Quando predomina o estado de confusão, as convicções operam em desordem. E são usadas para alistar subordinados no exército de fanáticos da guerra do eu com o outro.
*A estupidez é um território importante da sua inteligência.
*Embora a imbecilidade seja infinita, ninguém é burro de dar dó.
*O político que diz que a realidade é um escândalo quer o escândalo parte da realidade.
*De tanto querer se destacar, ele conseguiu rápido se encaixar.
*Desvios e erros de políticos costumam ser sempre obra de panelinhas.
*Livre é quem se guia pelo maior número de destinos possíveis.
*O que seria do pobre se, ao invés do aquecimento global, tivéssemos o esfriamento do Sol.
*É muito difícil ver valor na crítica de quem desfruta do objeto criticado.
*A crítica é coisa natural. Exige, do criticado, sabedoria para escapar com vida. Criticar não é do mesmo instinto da abelha. Não sendo usada como ferrão, não tem porque o criticado desejar que o crítico morra da sua maldade.
*Quando as coisas cronificam, não há mais necessidade de criticar o que acontece. A crítica torna-se parasitária do problema velho, uma anomalia dele.
*É hora de dizer coisas que nunca foram ditas.
*O futuro é um ponto móvel onde o mundo desenvolvido, infelizmente, não estacionou a nossa espera.
*O componente de esperança na atividade política é o único fator progressista que existe nela.
Paulo Delgado