quinta-feira, 25 de setembro de 2025

A hora para partir ossos

Nas redes sociais corre há anos uma história que foi publicada na revista Forbes e se refere à famosa antropóloga norte-americana Margaret Mead. Reza a lenda que, quando questionada por um aluno sobre qual o mais antigo indício da civilização humana, respondera: “O registo fóssil de um fémur curado com 15 mil anos.” Estávamos na Idade do Gelo e para os homens primitivos, nómadas, um fémur partido significava a morte, uma presa fácil sem possibilidade de ele próprio caçar ou fugir. Um fémur curado significa que alguém cuidou daquele ser humano, teve empatia por alguém mais vulnerável, sentiu amor. “É aí que a civilização começa”, terá concluído Mead.

A História é comovente, mas provavelmente falsa, de acordo com outros antropólogos, que não encontraram provas de que Margaret Mead tenha dito tal coisa. Aliás, entre os académicos, parece estranhíssimo que seja esta uma prova da civilização humana, já que a Ciência nos tem mostrado o mesmo tipo de comportamento entre outros animais. O altruísmo não é uma característica meramente humana, os grandes primatas também a têm, por exemplo, mas é certo que não existe Humanidade sem altruísmo.

Os tempos que vivemos fazem-nos perder a fé na Humanidade. Tudo o que construímos após a II Guerra Mundial, os direitos humanos, o Estado social, o caminho para a igualdade entre homens e mulheres, tudo isso sobreviveu à ultraindividualista e gananciosa cultura yuppie dos anos 80, mas sobreviverá à “modernidade líquida” anunciada pelo filósofo Zygmunt Bauman e que parece estar a atingir o seu máximo esplendor na era das redes sociais?


O que poderá levar 150 mil pessoas às ruas de Londres para se manifestarem contra um grupo social altamente vulnerável como os imigrantes? O protesto aconteceu no sábado e foi liderado pelo ativista de extrema-direita Tommy Robinson e a multidão moveu-se contra o que diz ser o “apagamento e a substituição da cultura britânica”. Houve um contraprotesto (na foto), mas não juntou mais de cinco mil pessoas.

Para quem se esquece com frequência dos cinco milhões de portugueses que vivem no estrangeiro, convém relembrar que eles são imigrantes também e, obviamente, os que estão no Reino Unido ficam incluídos entre os visados nesta marcha de ódio. Estas pessoas – e muitas outras por toda a Inglaterra – não os querem lá, por muito que o primeiro-ministro Keir Starmer reafirme que não aceita que “cidadãos se sintam intimidados nas ruas por causa da sua origem ou da cor da sua pele”.

O protesto da direita radical teve outra particularidade. A polícia foi atacada por projéteis e houve vários agentes agredidos. Elon Musk, um imigrante a viver nos Estados Unidos da América que tinha apoiado a manifestação, avisou a partir da sua rede social: “A violência está a caminho.”

A violência sempre esteve entre nós. Característica de todo o reino animal, não é o que nos distingue enquanto Humanidade. No caso de Charlie Kirk, o ativista influencer de 31 anos assassinado a tiro na Universidade de Utah Valley, a violência é gasolina numa fogueira muito perigosa. Kirk fazia campanhas contra a vacinação e negava as alterações climáticas – era uma força da ultradireita americana na catequização dos mais jovens.

A direita radical portuguesa aparece agora em primeiro lugar numa sondagem, algo inédito no País. Ao aceitarem e interiorizarem um discurso que quase sempre é de ódio, os portugueses escolhem partir fémures, não curá-los. O altruísmo fica para outra hora, para um novo início da civilização.

Criminosos Seriais

Começam a ser condenados os chefes da grande quadrilha — perdão, orcrim, nome mais moderno que substitui o termo usado desde o século XIX derivado do quattuor latino talvez pela raridade de quadrilhas de só quatro bandidos. Bem, esse nome era realmente recente para designar coisa antiga. Nome por nome, havia bando, maffia, tríade, yakuza, cartel, bratva, comando, falange, cangaço, tudo reunião de bandidos — este derivado de bandire, banir, por bandito — ou de criminosus,a,um — quem fez um crime. Crime, por sua vez, vem de crimen,inis, o acusado. Vamos e venhamos, temos muita palavra para uma coisa muito frequente, que é a violação da lei. Depois de Beccaria, lei penal, pois separou-se um ramo do direito para explicitar o que é sujeito a punição pelo Estado, o que é agressão do indivíduo à sociedade.

Retomo: foram condenados os chefes da grande organização criminosa que se formou em 2018, por iniciativa do general Vilas Boas, que cooptou como chefe do bando o famigerado Bolsonaro, velho criminoso que conseguia escapar de todas as punições pela sua capacidade de se metamorfosear de vilão em vítima. A organização tinha por objetivo implantar no Brasil uma ditadura fascista. O primeiro não tinha condições de saúde para ocupar ele mesmo a chefia do bando, mas não deveria ter sido omitido no inquérito da Polícia Federal: sua participação fica clara em inúmeros atos, inclusive na presença de sua mulher na concentração do Forte Apache, porta voz e escudo contra a ação policial, mas, sobretudo, pela palavra do genocida ao agradecer sua eleição a ele e dizer que sua “conversa ficará entre nós”.


Com estas condenações, se enfraquece a quadrilha, mas engana-se quem crê que ela está extinta ou controlada. Um dado recente foi a necessidade de se fazer um novo inquérito para investigar a coação no curso do processo, coação feita inclusive com o uso de traição — ao pedir a colaboração de governo estrangeiro — e com a ocupação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Já é evidente, no inquérito aberto, que o líder continua sendo o mesmo, com papéis relevantes para o perigoso elemento Silas Malafaia, para Eduardo Bananinha, Arthur Lyra, Sóstenes Cavalcanti, Rogério Marinho e uma corja de delinquentes-parlamentares, além do experiente e ativo grupo de operadores de fake-news, objeto de um terceiro inquérito — o mais antigo — ainda inconcluso.

Do mesmo modo com que se faz no combate a organizações criminosas ordinárias que operam drogas etc., a orcrim que opera política tem que ter seus mecanismos podados: as fontes financiadoras, a comunicação e suas ligações com laranjas inseridos nas mais diversas posições da sociedade. Os presídios de segurança máxima foram feitos para essas eventualidades dos grandes e perigosos chefes e principais sequazes. É para onde, agora, indubitavelmente, devem ir os recém-condenados.

Durante o julgamento, os ministros juízes fizeram questão de ressalvar que não falavam das corporações em si, mas de elementos nelas inseridos, manifestando grande admiração pelas forças armadas etc. Infelizmente algumas falhas estruturais entregaram essas corporações a criminosos, de maneira que a exceção não é quem nelas é criminoso, mas quem nelas não é criminoso.

A opção dos militares brasileiros pelo crime é antiga. Luís Alves de Lima e Silva instituiu a prática da “pacificação”, em que são executados todos os adversários considerados perigosos e, depois, se concede anistia para os crimes cometidos pelos mais fortes. Deste tipo foi a última grande anistia brasileira, a da Lei 6.683/1979, excluía os condenados pelos instrumentos de exceção, mas procurava abrigar os torturadores et caterva — na realidade autores de crimes contra a humanidade, não anistiáveis e imprescritíveis. Devemos fugir das pacificações como o diabo da cruz.

O caso da política é similar. Desde o império até nossos dias a política teve a participação de um número elevado de bandidos. Corrupção e violência andaram a par e passo. Mas elas não são inevitáveis. A maior parte do tempo houve maioria ou minoria significativa que detestava os dois tipos de crime e procurou combatê-los. Afonso Arinos assinalou que o sistema eleitoral brasileiro levaria cada vez mais à eleição de parlamentares pelos interesses corporativos e/ou pessoais. Foi o que aconteceu, até que esses interesses dominaram o parlamento.

Dos interesses às organizações políticas estabelecidas com a finalidade de cometer crimes, portanto orcrim, foi um pequeno passo. Raros partidos hoje não pertencem (não uso aspas, é literal) a uma ou umas poucas pessoas. É o caso do PL, propriedade do senhor Valdemar da Costa Neto. É um negócio que começa com a entrega anual aos partidos de cerca de 5 bilhões de reais — um quinto para o PL — para administração e campanha eleitoral, naturalmente em condições muito vantajosas. A rotina tem sido de quintuplicar o valor da proposta orçamentária. Passa depois pelas emendas, nome dado à apropriação de recursos destinados a ações essenciais da União pelos bandidos-parlamentares, que terão o valor de 84 bilhões, a ser dividido entre os donos dos diversos partidos. Não é de admirar que se tenha tantos partidos. Não é preciso lembrar a venda de emendas-jabutis e/ou projetos de lei, que rendem valores difíceis de imaginar.

O mais urgente é investigar e punir os crimes cometidos pelos membros da organização ainda chefiada diretamente por Bolsonaro, que não estão só no PL. Comece-se com os que, nos primeiros dias de agosto, cometeram o crime de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito (impedindo e restringindo o funcionamento dos Poderes Legislativo e Judiciário). Não se espere ação da Câmara e do Senado, não só porque eles nada farão, mas porque a iniciativa da ação é evidentemente do Procurador Geral da República e o processo deve correr no Supremo Tribunal Federal (art. 53 § 1º; art. 102 Ib).

Trata-se de organização criminosa para cometer crimes em série. Serial killers do Estado de Direito. Só se resolve com prisão em regime fechado.

A História nos julgará

Não é fácil e muito menos consensual definir qual é o lado certo da História. Mas há algo de que não devemos duvidar: um dia, todos nós, sem exceção, seremos julgados pela História, seja ela grande ou pequena, com repercussão pública ou acanhadamente privada. Isso não se deve a algum sentido determinístico associado à ideia de destino traçado, mas antes à forma como, para o bem e para o mal, seremos recordados ou até simplesmente ignorados – que é também uma forma de a História ajustar contas com aqueles que, no seu tempo, pensaram ser importantes e relevantes… mas perderam rapidamente o seu “prazo de validade”.

O julgamento da História é também, como sabemos, muitas vezes cruel. E, sem que nada o fizesse prever, a imagem de alguém com uma carreira abnegada e irrepreensível em defesa do bem público pode, de repente, ficar manchada por causa de um erro de cálculo, por uma má decisão ou até uma asneira. Com consequências para sempre.

Ninguém sabe como é que, daqui a umas décadas, se vai olhar para este tempo em que vivemos, nomeadamente para a forma sistemática com que a população da Faixa de Gaza tem sido submetida, há quase dois anos, a uma carnificina prolongada e brutal. Sabemos, no entanto, como olhamos para todos aqueles que, na II Guerra Mundial, viraram as costas às denúncias do holocausto dos judeus, nos campos de extermínio da Europa oriental – e não os desculpamos. Também sabemos como encaramos aqueles que, na guerra da ex-Jugoslávia, ignoraram os sinais que poderiam ter evitado o massacre de Srebrenica – e não os perdoamos.


Mas seremos sempre assim tão severos? De todo. Só isso explica porque, ainda hoje, se aceite olhar para o morticínio do povo cambojano nos temíveis killing fields, como a obra de um ditador louco, ignorando a forma como esse mesmo Pol Pot foi apoiado e até defendido por americanos e chineses, apenas e só por razões geopolíticas da Guerra Fria.

O reconhecimento do Estado da Palestina pode não ter nenhum efeito prático no imediato, mas ajuda a definir o lado em que queremos ser recordados na História. E isso, só por si, já é um avanço moral considerável: significa que, pelo menos no tempo simbólico, sabemos escolher o caminho certo, sem estarmos presos aos meandros diplomáticos dos interesses do realismo político. É inconsequente? Não obriga o governo extremista de Israel a mudar os seus planos militares? Pode ser tudo verdade, mas há momentos em que já não se pode suportar o silêncio prolongado, o virar de costas, como se tudo aquilo que se tem passado em Gaza não tivesse a ver connosco, seres humanos.

A forma como este movimento diplomático se desenrolou, numa coordenação entre França, a Arábia Saudita e o Reino Unido, pode ser o indicar de um novo caminho para a diplomacia. E, acima de tudo, para um separar de águas que, mais do que nunca, é prioritário na política internacional: entre os países que, mesmo com todos os seus problemas e defeitos, continuam a respeitar a Carta das Nações Unidas e a lutar por ela, e outros, como Israel e os EUA, que cada vez mais se afundam numa deriva totalitária, sem respeito pelos outros e apenas preocupados consigo.

A memória não pode ser curta. Noutros tempos, também Portugal votou quase isolado nas Nações Unidas, ao arrepio do resto do mundo. E isso aconteceu não só nas lutas das décadas de 1960 e 1970 com as resoluções sobre o direito dos povos à autodeterminação, como nos votos a condenar o tenebroso regime do Apartheid, na África do Sul – que só terminou devido à ação persistente da comunidade internacional.

Neste estranho tempo em que vivemos, os isolados de Washington e Telavive têm os dedos nos botões do poder. E é inadmissível como, ao mesmo tempo que vai liquidando a democracia americana, Donald Trump ainda se dá ao luxo de abusar da sua qualidade de anfitrião para gozar nitidamente com as Nações Unidas. O modo como Washington impediu a presença física do líder da Autoridade Palestiniana no palco da Assembleia Geral das Nações Unidas – onde vai ser obrigado a discursar por vídeo –, enquanto abre os braços para um show de Benjamin Netanyahu no mesmo plenário deveria receber a condenação geral de todos os países. Seria, outra vez, uma forma de escolherem como querem ser julgados pela História.

Estratégia geotech

A Comissão Europeia anunciou, a 3 de setembro, uma multa recorde aplicada à Google por práticas anticoncorrenciais. O valor, por si, é impressionante – quase três mil milhões de euros. Mas será? E terá a capacidade de alterar comportamentos, da Google e demais big tech? Dificilmente.

Caso consideremos o free cash flow da Google, em 2024 (divulgado nos seus relatórios públicos), o valor da multa representa cerca de 17 dias de atividade. O mercado parece considerar a multa insignificante. As ações da Google foram transacionadas, no dia 2 de setembro a 211,35 dólares, e no dia 3 – dia do anúncio da multa – a 230,66 dólares. Nos dias seguintes, foram transacionadas sempre acima dos 230 dólares.

Igualmente, não existiu nenhuma notícia a pôr em causa o conselho de administração da Google, nem nenhum acionista de referência publicou a intenção de desinvestir.


Aliás, a empresa valorizou-se significativamente, quando, no dia 5 de setembro, um tribunal americano deliberou que a Google era uma empresa monopolista e tinha violado a lei, mas não obrigou a vender parte do negócio (no caso, o Google Chrome e Android), como era requerido pelo regulador.

Ou seja, o mercado não acredita que o Estado americano e a União Europeia estejam dispostos a aplicar a legislação anticoncorrência de forma a alterar o modelo de negócio monopolista que garante lucros astronómicos. Pelo menos, no curto prazo.

E o mercado não costuma enganar-se…

As big tech são, aliás, transparentes na sua estratégia. Apoiam Trump e a sua Administração. E esta apoia as big tech. Na negociação das tarifas, procurou um acordo com a Comissão Europeia para que esta revisse a legislação dos serviços digitais e Inteligência Artificial (nomeadamente, a responsabilidade por danos provocados) e ameaça com novas tarifas caso a União Europeia avance com um imposto sobre as plataformas digitais.

A Comissão Europeia afirma que não irá alterar a legislação, mas o imposto sobre serviços digitais, cujos trabalhos se iniciaram em 2018, ainda não foi criado. Um imposto de 5% sobre as receitas geradas no espaço europeu permitiria uma receita de 37,5 mil milhões de euros em 2026, ou seja, um valor equivalente a 19% do orçamento da União Europeia em 2025 (de acordo com um estudo publicado pelo CEPS). Atualmente, a carga fiscal das empresas digitais é de apenas 9,5%, quando a economia tradicional paga uma taxa média de 23,3%. Um imposto digital é essencial para garantir este equilíbrio e assegurar que o orçamento europeu (e o dos Estados-membros) tem capacidade para responder aos múltiplos desafios que enfrenta (da defesa à emergência climática).

As big tech sabem que o momento é crucial e o apoio político da Administração Trump, fundamental. É a Administração que controla a interposição e a eventual desistência de ações judiciais anticoncorrência – uma vez que estas são promovidas pelo Departamento de Justiça e pelo regulador, a Federal Trade Commission, cujos dirigentes são nomeados pelo Presidente Trump. Acresce que o apoio da Administração e, como tal, do Partido Republicano, impede a aprovação de qualquer alteração legislativa no regime da responsabilidade das plataformas pelos conteúdos distribuídos ou produzidos pelos LLM.

Aquando do lançamento das redes sociais e do YouTube, com o scrolling e o feed de conteúdos, o regulador poderia ter tomado uma de duas opções: fazer equivaler as plataformas digitais a uma companhia de telecomunicações e, como tal, serem imunes aos danos provocados pelos conteúdos disponíveis ou responsabilizar as plataformas pelos conteúdos distribuídos.

Nos EUA e na Europa optou-se pela imunidade e, como tal, captar a nossa atenção pelo máximo tempo possível – ainda que com conteúdos nocivos ao indivíduo e à sociedade – tornou-se a base do negócio. No processo, o algoritmo passou a dominar as nossas vidas, o espaço social e político.

Agora, que o legislador – ainda que timidamente – apresentou, na Europa, a primeira regulação (face à evidente degradação da democracia e aos efeitos nefastos na saúde mental), as big tech estão dispostas a tudo para impedir o fim do seu império.

Nunca foi tão importante a pressão social para que a Comissão Europeia não se demova e aplique a legislação de forma efetiva. Tal implica que este tema, nas suas várias dimensões, seja parte do debate público, discutido ativamente em vários fóruns e não apenas nos corredores políticos. Só assim será possível garantir que os nossos representantes políticos reconheçam a importância deste momento e atuem em consonância.

Na vida de Bolsonaro, o pior dos dias é qualquer dia

Não existia para Bolsonaro um dia pior do que a sexta-feira 18 de julho de 2025, em que foi posto pela primeira vez em prisão domiciliar. Embora ainda pudesse sair de casa entre as 6 horas da manhã e as 7 da noite, ele passou a fazê-lo algemado a uma inseparável tornozeleira eletrônica, suprema humilhação.

Até que chegou a segunda-feira, 4 de agosto. Por descumprir medidas cautelares da Justiça, Bolsonaro foi definitivamente proibido de acessar as redes sociais e de pôr os pés na rua, a não ser para atendimento médico e sob escolta policial. Ou então para comparecer ao seu julgamento. Não compareceu.


O domingo 7 de setembro até foi um bom dia para Bolsonaro. Na Avenida Paulista, 42 mil pessoas sob a batuta do pastor evangélico Silas Malafaia e do governador Tarcísio de Freitas pediram anistia para ele e xingaram o Supremo Tribunal Federal. Mas aí veio a quinta-feira 11 com a sua pesada condenação.

Surpresa alguma para Bolsonaro, salvo o tamanho da pena: 27 anos e três meses de prisão em regime fechado. Ao cumprir a pena integralmente, sem anistia ou indulto presidencial, ele ficará inelegível até quase os 80 anos de idade. Talvez mais porque ainda será julgado por outros crimes. Fim de linha.

Diante disso tudo, nada poderia acontecer de pior, mas aconteceu. No último domingo, depois de um intervalo de 20 anos, a esquerda ocupou as ruas de todas as capitais do país, e de dezenas de médias e pequenas cidades, e tomou da direita o discurso da luta contra a corrupção. Que dor sentiu Bolsonaro em ver aquilo.

Finalmente, o inimaginável: a falta de uma menção ao seu nome, por mais breve que fosse, no discurso de Donald Trump na abertura da Assembleia Geral da ONU. E, não bastasse, a menção simpática feita por Trump ao nome de Lula, com quem ele trocou um abraço pouco antes de ingressar no recinto.

Sequer um abraço Trump deu em Bolsonaro quando os dois se cruzaram no mesmo lugar em 2019. Humildemente, Bolsonaro esperou que Trump passasse por ele para dizer em voz alta e em inglês macarrônico: “Eu te amo”. Cercado de assessores, Trump não ouviu ou fingiu não ouvir. Se ouviu, não correspondeu.

Pois é, caros leitores. Rei morto, viva o novo Rei da direita a ser escolhido. Bolsonaro está sendo velado à distância por todos os que o exaltavam. Apesar de dependerem do seu voto para disputar as próximas eleições, eles temem herdar sua rejeição que só faz aumentar. Os efeitos da rejeição poderão ser mortais.

Trump era sua última esperança. Daqui para frente, todo dia será o pior deles para Bolsonaro.

Donald Trump: o presidente da decadência norte-americana

Durante os últimos 107 anos, desde o final da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos têm ocupado uma posição central na política internacional, resultado de uma conjugação de vários fatores: capacidade de atrair capital e mão de obra, economia pujante, forte poderio militar e contínuo desenvolvimento tecnológico.

Ao longo de décadas, as principais personalidades das áreas do conhecimento foram atraídas pelos EUA, com algumas das melhores universidades do mundo. Mais, o país criou um sistema industrial com capacidade para desenvolver e comercializar inovações, mesmo que as surgidas em outras geografias, apesar de, economicamente, estar ancorado em energias sujas, como o petróleo e seus derivados e o carvão, matérias-primas que têm em abundância.

Acontece que o mundo, hoje, vive uma mudança de paradigma tecnológico, com a descarbonização da economia. Energias renováveis, utilização de produtos recicláveis e a redução do uso industrial do carvão são algumas das marcas do novo tempo.

As novas tecnologias voltadas para a preservação do meio ambiente dependem, contudo, na maior parte das vezes, de apoios públicos até atingirem a maturidade. Mesmo a Tesla, considerada uma das primeiras empresas de sucesso de automóveis elétricos, teve apoio de 465 milhões de dólares do Governo Obama, sem os quais não teria conseguido decolar.

Toda a mudança de paradigma tecnológico possibilita o surgimento de novos protagonistas tanto no âmbito empresarial quanto de regiões que antes produziam menor quantidade de riquezas. Nesse mundo novo, porém, estruturas consolidadas podem ficar para trás, devido a escolhas equivocadas.

Trump, dentro do que é geralmente chamado de política transnacional, aliou-se a setores que estão do lado contrário da inovação, para tentar frear as mudanças. Juntou-se às empresas de petróleo, ao setor do carvão, bombardeia as normas que exigem a redução da emissão dos gases de efeito estufa para favorecer os grupos que o financiam e ao seu grupo político.

Os Estados Unidos têm capital suficiente para, como têm realizado desde que se tornaram centrais no sistema econômico, comprar os direitos das inovações tecnológicas e atrair talentos, oferecendo-lhes melhores condições para o avanço de pesquisas, mas a opção tem sido por bombardear a política migratória.

Em termos de mão de obra, o Governo norte-americano ataca o setor da saúde, ao reduzir o financiamento público a programas como o Medicare e o Medicaid, o que deixa sem tratamento milhões de norte-americanos com menos recursos, além de desestimular e desinvestir em vacinas, provocando o ressurgimento de doenças que estavam praticamente erradicadas no país.

Na área da educação, a retirada de livros de bibliotecas e o dirigismo nos currículos das disciplinas, que passam a estar voltados para a louvação de uma visão deturpada da grandeza americana, ignoram, intencionalmente, a escravidão, o racismo e as desigualdades sociais e minam a criação de um sentido crítico, fundamental para o desenvolvimento de qualquer país.

Apenas duas áreas são estimuladas, mas que pouco contribuem para o desenvolvimento do país. A inteligência artificial, que o Governo Trump propõe que seja completamente desregulada, o que facilita a difusão de desinformação, e a cripto economia, que vive em uma zona escura da legalidade, valhacouto de ganhos do tráfico de drogas, da sonegação fiscal, do tráfico de pessoas e de outras atividades para as quais a transparência representa uma ameaça.

Não só: Trump censura aqueles que discordam de suas posições, destruindo os pilares daquela que ainda é considerada a maior democracia do mundo. Nem mesmo o humor está escapando dessa visão autocrática.

Dentro de alguns anos, ao ser feito o balanço da atual presidência norte-americana, os dados vão mostrar que Donald Trump foi administrador da transferência da centralidade econômica para outras geografias — mais provavelmente, por ter entregado a dianteira para a China, que diz combater
Jair Rattner

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Da fixação infantil ao gozo contemporâneo

I

Um dos jargões mais marcantes para os millenials do Brasil é “Oh vida, oh céus, oh azar”. Assim se lamentava a hiena que forjou milhões de infâncias hoje adultizadas e feridas. Essa suposta dor encenada no desenho animado não pertencia somente à minha geração: o coitadismo sempre existiu, o vitimismo sempre existirá e o seu trabalho consiste em trocar de roupa. Aquiles se entregou ao próprio sofrimento e se negou a lutar, mesmo sabendo que os companheiros de batalha sofriam na carne uma Ilíada particular, morrendo um a um. Motivo? A perda da escrava Briseida. Raskólnikov matou a agiota que, para ele, representava a ponta mais visível da opressão que sofria, ampliando a barbárie ao sacrificar também a irmã da prestamista. A justificativa do protagonista para as machadadas assassinas está na superioridade que ele, equiparando-se a Napoleão, fantasiava em si mesmo e que o habilitaria para ultrapassar as leis e a moral (soa familiar?). Numa espécie de declaração judicial novelada, Humbert Humbert confessou a sua paixão por Lolita e narrou a própria pedofilia com tamanha autocondescendência que nós, empapados de machismo, chegamos a sentir que a criança realmente seduzia o seu tutor – pobre homem. Bentinho justificava os seus surtos de ciúme contra Capitu com base em sinais insípidos e ambíguos, mas, segundo ele, suficientes para comprovar uma traição. Essa certeza foi fervorosa ao ponto de ele não conseguir se relacionar com o filho que, tinha certeza, também era fruto da suposta deslealdade.


Entre estes e outros personagens há um elemento comum: todos esses homens – não por coincidência – justificam o seu furor homicida, a sua derrota, a sua perversidade ou a sua fraqueza não como resultado da própria intransigência, irresponsabilidade, cegueira ou sede de poder, mas sim como efeito de algo mobilizado fora do Eu. E assim se forjou o vitimismo no Ocidente: um mecanismo psíquico que, no plano coletivo, funcionou e funciona como um lastro da cultura, uma máquina da história, um estado ético e estético que formou homens e mulheres – na ficção e fora dela.

II

A postura vitimista nada mais é do que uma fixação infantil: numa determinada vivência inaugural, a criança sente que foi ferida injustamente e está certa de que tem direito a uma retratação do Outro (eis o que Bentinho repetiu ao longo da vida). Mas a culpa dessa outridade não existe necessariamente e, portanto, esse pedido de desculpas não chegará. Por isso, a criança se ressente contra o mundo e cresce presa à fantasia de matá-lo. Ao longo da existência, essa posição pode se consolidar numa certa interpretação da realidade cujo sintoma é a repetição infinita das sensações de inferioridade e injustiça. A cristalização da autopiedade na vida adulta só é possível porque, enquanto mecanismo de defesa, o vitimismo tem uma arquitetura objetal: depende do outro para se sustentar. O sujeito assim neurotizado acredita não ter a culpa de nada, mas os objetos externos, sim, são seus réus.

Considerando que todo mecanismo de defesa supõe um ganho secundário, o gozo da vítima está na possibilidade de agenciar o falso acolhimento (também objetal), a não responsabilização, a negação da própria incapacidade e – principalmente – a confirmação do sentimento de injustiça. Humbert Humbert o fez com leitores e leitoras ao construir a narrativa de tal maneira a ser percebido como o vulnerável e, portanto, vitimado da história (quando, na realidade, ao contrário da imagem de femme fatale que ele mesmo imprimiu na criança, ela era não a femme, mas a vítima fatal, e ele o algoz calculista e sem escrúpulos); Bentinho também empreendeu essa tentativa ao juntar uma série de ambiguidades que, em conjunto, desenhavam Capitu como traidora. E, para si mesmo, o conjunto dessas “provas” funcionava como uma espécie de consolo. Na Ilíada, são muitas as cenas em que, indireta e implicitamente, Aquiles sentia prazer em ser percebido como homem-sofredor-injustiçado-desonrado diante dos compatriotas que, por obediência, respeitaram a sua retirada suja de birra. Se observamos as representações do vitimismo na literatura da vida contemporânea, temos, por exemplo, as figuras do escritor que fala sobre a impossibilidade da escrita, os dramas da vida pequeno-burguesa, o vira-latismo intelectual ou as lamentações de uma branquitude esquizofrênica que perdeu o seu lugar de privilégio. Mais especificamente no campo das escritas de si, linha editorial em franca primavera, poucas vozes conseguem enunciar a própria história sem apelar para a vitimização. Esse gozo é irresistível, embora na literatura poucas e poucos consigam evitar a sua fatalidade.

III

Considerando que, como a psicanálise bem demonstra, tudo se repete no chão da cultura, os vitimismos ressurgem, hoje, com uma roupagem assustadora: no horizonte do turbotecnomachonazifascimo proposto por Márca Tiburi, pessoas postam o braço agulhado na cama da UTI, abrem uma live para chorar por um problema particular, publicam selfies em lágrimas, culpam (e às vezes matam) a mulher que decidiu romper a relação opressora, se posicionam como vítimas dos signos, do destino, de marte retrógrado – mas nunca de suas próprias ações. Uma observação: respeito e admiro todas as formas de crer (eu mesmo já estive e sigo adepto a muitas delas). O recorte aqui posto diz respeito à ação neurótica – automática e repetitiva – de manipular a montagem dos fatores externos para justificar um problema que poderia ser resolvido com mais responsabilidade e implicação pessoal. Atualizando a postura de Bentinho ou Humbert Humbert, muitas pessoas buscam ouvintes prontos para acreditar na versão enviesada de quem conta. Por sorte, não é difícil perceber que quem fala manipula e distorce em função de motivações conscientes e inconscientes. O gozo narcísico do vitimismo está no ombro amigo do mundo, mas também na facilidade da não confrontação com o próprio contraditório – e com a ação transformadora que ele exige.

No contexto coletivo, que é sempre político, a mobilização do imaginário coitadista está em todos os grupos do espectro, em maior ou menor intensidade. Para nós que estamos do lado de cá da tela, acompanhando os movimentos de aproximação e deriva entre partidos, só nos cabe a pergunta que também devemos aplicar à leitura literária: quem diz o quê e com qual intenção? A postura vitimista de Bolsonaro encontra símiles em Trump, Milei, Bukele, Abascal, Le Pen, Orbán e tantos outros que recitam o mesmo roteiro e interpretam uma mesma cena: manipular a lei democrática a favor de interesses antidemocráticos. É o puro cinismo que não se viu, por exemplo, quando prenderam Lula. Embora movido por uma paixão autocomplacente vez ou outra, ele não enviou os seus filhos à Rússia ou à China para articular chantagens econômicas contra o Brasil. No caso de Dilma Rousseff, pese a sua tão criticada inabilidade para o diálogo, o coitadismo de Estado não foi em nenhum momento a postura da ex-Presidenta. O que ela fez não foi falar de si, do que sofreu ou do quanto a política foi e é injusta com ela. Sem personalizar as ações, discursos e debates, Dilma optou por chamar a atenção para as manchas na História brasileira, para a gravidade do retorno a uma autocracia militar, para o perigo da saúde democrática. Quando alguém disser que políticos são todos iguais, é importante lembrar o grau de vitimismo agenciado e enunciado (ou não) por cada um.

Infelizmente, o capital político se fortalece com a mobilização bem-intencionada dos afetos das massas e com a confusão – arquitetada – entre vítima e herói. Daí surgem os falsos mártires. Enquanto a dinâmica do vitimismo individual tem como base a inferioridade não elaborada e a consequente queixa projetiva, no campo coletivo as figuras políticas se entendem superiores, mas aproveitam as facadas na barriga e os tiros na orelha para fingir uma fragilidade heroica. Com isso, alcançam os afetos individuais para, no final, transformá-los em votos.

Se a vitimização produzisse energia, seríamos um planeta autossuficiente para sempre. Mas não. Pelo contrário, o que o coitadismo faz é sugar o vigor de todos nós e, no campo coletivo, esculpir messias “pobrezinhos”.

Independência

Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.

Machado de Assis

Anistia, Dosimetria e a Varinha do Paulinho

Eu fico me sentindo no boteco da esquina, comendo um pastel de pato no tucupi e tentando entender a diferença entre anistia e dosimetria. Do outro lado da mesa, o Super Paulinho da Força, daqueles políticos que adoram uma assembleia brigada, tentando explicar que as duas coisas são a mesma. O nosso problema, e de quem aprendeu a ler e escrever, nem estudou história com o Peninha, é que não são, nem brincando, a mesma coisa. Mas, como no Brasil a lógica política às vezes parece uma marchinha de carnaval tocada em ritmo de bolero, a confusão faz muito sentido.

Anistia é o perdão coletivo: “meu amigo, esquece o que aconteceu, bola pra frente, vida nova”. É como quando a professora Adelaide, do ensino médio, decidisse perdoar a bagunça da turma e não descontar ponto na prova seguinte. Já dosimetria é o contrário: não é esquecer o crime, mas medir a força da paulada. “Você errou, mas vamos ver se foi só um tropeço ou um salto olímpico na ilegalidade”. É como o dosador que deu dezessete anos para a terrorista armada de baton e lápis de sobrancelha.


Pô, Paulinho! Deixa o povo brasileiro seguir em paz! Nós não sabemos viver no meio dessa intriga, em que hoje convivemos, e que vocês estão acostumados. Refresca o Mercado! Isso não pode terminar bem. Estamos nos atolando na Lei de Murphy.

A graça é que, no palco da política nacional, querem fazer o público acreditar que as duas palavras são irmãs gêmeas, pigópagas, como dizia o Senador Evandro Carreira. Ao ser indagado pelo termo, o genial Evandro dizia: São as gêmeas unidas pelo bumbum. Só que não são. Uma tira a pena inteira (anistia), a outra mede o tamanho dela (dosimetria). Coisas que só o Presidente Temer conseguiria fazer.

O Paulinho da Força, sempre hábil em transformar debates jurídicos em slogans fáceis, resolveu aproximar as duas palavras como quem aproxima primos de quarto grau. A anistia que ele tanto deseja é como apagar a lousa da escola: “não importa quem escreveu, nem o palavrão que ficou marcado, passa o apagador e finge que nada houve”. Já a dosimetria é mais sisuda: não apaga nada, mas calcula a pena — 5 anos, 17 anos, ou 43, como anda ameaçando o Supremo nos casos de golpe. E lá vem o “gópi” mais burro e difícil de se entender.

Só que o brasileiro médio, esse sobrevivente que encara boletos, trânsito e fila no SUS, quando escuta “dosimetria” pensa logo em coisa pesada. A palavra tem gosto de laboratório soviético. Parece nome de manual de tortura da KGB. Se disserem que “a dosimetria será rigorosa”, o povo já imagina Stalin fazendo a contagem, Hitler batendo o carimbo e Mao Zedong servindo chá de pólvora para acompanhar umas bolachinhas.

Amigo leitor, dosimetria não é a Papuda nem paredão de fuzilamento. É só a fase do julgamento em que os juízes calculam a pena. Leva em conta o crime, as circunstâncias, a intenção e até se o réu foi educado ou malcriado no tribunal. É o momento em que o magistrado coloca no liquidificador da Justiça todos os ingredientes: culpabilidade, antecedentes, conduta social, personalidade, motivos e consequências. No fim, sai a sentença: pena mais branda ou mais dura. As penas estão do tamanho do tempo de vida estimado para os que fazem a atual dosimetria. Para quando os dosadores saírem do sistema e os condenados saírem da vida.

Já a anistia é o ato político que diz: “apesar de você, o Brasil há de ser, vai virar a página”. No Brasil, tivemos anistia famosa em 1979, perdoando crimes políticos de militares e opositores. Atos, com morte pelo meio, foram esquecidos. Foi vontade e pacto nacional, não cálculo de pena. A anistia é uma borracha, a dosimetria é uma régua com oito buracos para chupar.

Aos brasileirinhos e leigos, o recado é simples:

Anistia = perdão coletivo, decisão política.


Dosimetria = cálculo da pena, decisão jurídica. Só o Temer sabe.

A diferença é enorme, mas o discurso é Malasarte. Paulinho tenta nos fazer acreditar que a régua da Justiça é a mesma coisa que a borracha da política. E se o brasileiro não ficar atento, pode acabar acreditando que Stalin, Hitler e Mao Zedong eram apenas chefes do Conselho Tutelar.

Paulinho, não permita que estendam os benefícios da Lei Magnitsky para o nosso presidente e família. Isso ficará muito difícil para o mercado entender. Os doidos de lá, são doidos há séculos. Os nossos, cheios de talento, saíram recentemente da Escolinha.

Tentativa de golpe de 2023 não acabou

As grandes manifestações de 2013 representaram o prelúdio da narrativa social pelo pedido de tutela militar sobre o poder presente em todas as manifestações da extrema direita no Brasil. O fetiche por um governo militar não é recente. Para lembrar, com o fim da monarquia, entre 1889 e 1894, o país foi dominado por setores militares. Desde a independência de Portugal, (1822) até 1964, ocorreram 9 golpes de Estado e 23 tentativas de interrompem o curso normal do poder político regido por leis. A luta pelo poder a partir da ruptura da ordem instituída é uma ideia com padrão histórico e está presente, ainda hoje, como nos lembra o filósofo Newton Bignotto na obra Golpe de Estado: a história de uma ideia.

Em 2014, um ano após os atos, Dilma Rousseff foi reeleita para mais quatro anos como presidenta da república. Contudo, Aécio Neves (PSDB/MG) não reconheceu a derrota e incitou a narrativa da Lava Jato de que o governo do PT era uma “organização criminosa”. A narrativa fazia parte do roteiro do golpe institucional que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, e fora patrocinado pelo vice-presidente Michel Temer (MDB/SP), pelo presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (MDB/RJ), setores econômicos, militares, sistema de justiça e os grandes veículos da comunicação.


O golpe institucional de 2016, contra o governo da presidenta Dilma Rousseff, no entanto, fazia parte de uma estratégia mais ampla. Visava o fim do ciclo vertiginoso de democracia na América Latina. Ele interrompeu o desenho geopolítico a partir do Sul Global, desmontando o Mercosul, a Unasul, inviabilizando a Celac – Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos – e comprometendo fortemente os BRICS e o Banco do Sul. Além disso, anulou a construção de uma política soberana de exploração do pré-sal e a busca por uma transição ecológica no Brasil, financiada com os recursos do petróleo.

Como lembra Christian dos Reis, sociólogo e amigo, “o jogo é jogado e o peixe é pescado”. O pescador experiente sabe que é preciso conhecer o comportamento dos peixes que nadam solitários ou em cardumes, compreende as águas e as marés e cultiva o hábito da paciência. Por fim, tanto o resultado do jogo quanto o sabor do peixe, não se conhece de antemão.

Com Temer no poder, o segundo lance do jogo foi colocado em prática. Lula, líder nas pesquisas, foi condenado e preso. Impedido de concorrer à presidência, ele passou o bastão a Fernando Haddad (PT/SP) e Manuela D’Ávila (PCdoB/RS). Bolsonaro foi eleito no segundo turno. Os quatro anos seguintes são indescritíveis, tanto pelo desgoverno quanto pela pandemia em si, com centenas de milhares de mortes no Brasil.

O desgoverno Bolsonaro terceirizou o orçamento da União ao Congresso Nacional e, de forma sorrateira e silenciosa, sem que nos déssemos conta, alterou profundamente o sistema político brasileiro. Isso afetou, em particular, o sistema de freios e contrapesos na relação entre os poderes. O escandaloso “orçamento secreto”, um movimento tático do golpe, fraturou o presidencialismo de coalizão.

Para explicar melhor: anteriormente, deputados federais e senadores precisavam compor com o Poder Executivo para promover obras, serviços e políticas públicas nos estados, uma vez que o Poder Executivo detinha o controle sobre o Orçamento da União. Por sua vez, o Poder Executivo necessitava dos votos das bancadas para aprovar projetos de seu programa de governo. Havia, então, uma composição de interesses legítimos: um de governar, outro de levar para suas bases bens e serviços do governo federal. Atualmente, um deputado federal tem mais recursos disponíveis a partir das emendas ao orçamento, incluindo o “orçamento secreto”, do que muitos ministros de Estado. Essa jogada, promovida por Arthur Lira (Progressista/AL), alterou o padrão de pesos e contrapesos entre Executivo e Legislativo.

Lembra-se da paciência do pescador? Festejado pela mídia, pelo agronegócio e por clubes militares, o ex-juiz federal Sergio Moro abandonou a magistratura para se tornar ministro de Estado no governo Bolsonaro. Ele foi considerado juiz imparcial nas ações da Lava Jato que condenaram o presidente Lula e todas as suas ações, contra o presidente, foram posteriormente extintas.

Lula sai da prisão injusta. Apaixonado por Janja, casou-se e tornou-se novamente candidato à presidência da república pelo PT. Foi eleito (2022) por uma margem de votos apertada, menos de 3 milhões de votos. A vitória mais grandiosa de todos os tempos.

Mas, lembre-se: jogo é jogado, peixe é pescado. Inconsolados com a derrota, apoiadores de Bolsonaro realizaram mais de dois meses de acampamentos em frente aos quartéis em todo o Brasil, pedindo uma intervenção militar. Em janeiro de 2023 foram a Brasília. Praticaram atos de incitação ao golpe contra o poder instituído. Destruíram símbolos nacionais, depredaram patrimônio da União tanto no Congresso quanto no STF, cometeram violência contra servidores públicos e, tudo indica, visavam colocar em prática o plano “Punhal verde e amarelo” para matar o Presidente da República, o vice-presidente e ministros da Suprema Corte. Os golpistas, por fim, esperavam do Executivo, do Congresso Nacional e do STF uma rendição. E, neste caso, vejam vocês, por muito pouco, o arco-íris muda de cor e a rosa nunca mais desabrocha.

No dia seguinte à tentativa de golpe, em 9 de janeiro de 2023, a resposta veio. Um cordão humano, patrocinado pelo presidente Lula, caminhou em direção ao STF, reunindo ministros, presidentes da Câmara e do Senado, e os 27 governadores – inclusive os mais bolsonaristas, como Zema (Novo/MG), Tarcísio (Republicanos/SP) e Jorginho Mello (PL/SC), estavam presentes no ato em defesa da democracia. Dias depois, em 27 de janeiro de 2023, em um novo encontro com governadores, o governo divulga a carta pela democracia onde se lê: “A democracia é um valor inegociável”.

Mais de dois anos após o 8 de janeiro de 2023], 898 pessoas foram responsabilizadas pelos atos golpistas. Dessas, 371 foram condenadas, enquanto outras 527 admitiram a prática de crimes menos graves e firmaram acordo com o Ministério Público Federal (MPF). Entre as condenações, 225 resultaram em 17 anos e 6 meses de prisão, com base em provas classificadas como graves. As outras 146 foram condenadas por incitação e associação criminosa (abolição do Estado Democrático de Direito), consideradas crimes simples. Os condenados devem usar tornozeleira eletrônica por um ano, pagar multa, prestar 225 horas de serviços à comunidade e participar de um curso presencial sobre democracia[11] – adoraria ver!

O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado em julgamento no STF, em 11 de setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão. Ele já estava inelegível por 8 anos devido a outra condenação. Aguardam julgamento outros 23 réus pela tentativa de golpe contra a democracia, incluindo militares de alta patente.

O governo Lula 3 recolocou o Brasil, de forma soberana, como um importante player na geopolítica global. Atualmente, somos a 8ª economia mundial, estamos entre os 5 países com maior crescimento do PIB, ocupamos a 6ª posição em produção diária de Petróleo e nossa balança comercial, no 3º trimestre de 2025, registrou superávit, mesmo diante da agressão das tarifas do governo Trump. Internamente, temos a menor taxa de desemprego da série histórica (5,8%) e, novamente, sob o governo do PT, o país deixou o mapa da fome.

“Mas a tentativa de golpe não terminou ainda, você não tinha notado?” Na Câmara Federal, duas manobras foram aceitas pelo presidente Hugo Motta (Republicano/PB): a primeira, foi a aprovação, em tempo recorde de dois turnos, da Emenda Constitucional chamada PEC da blindagem, que impede a investigação, prisão e condenação de parlamentares do Congresso Nacional. Caso seja promulgada, deputados federais poderão tramar golpes de Estado à luz do dia, além de crimes hediondos. Incrível, não é? Oxalá, o Senado não dê asas a doido. A segunda manobra é um incentivo para golpistas: a tal anistia. Ampla ou restrita? Não importa! A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 começou na anistia dada aos militares golpistas em 1979. A constante sabotagem das forças armadas à Comissão da Verdade sobre os crimes do regime militar é só mais uma face da violência. A sequência de golpes de Estado vem acompanhada de impunidade.

Os grandes jogadores do Capital global estão em ação neste momento, sim, neste exato momento enquanto você lê este artigo, caso tenha chegado até aqui. Alguns controlam mercados e transações globais, como as big techs, livres de regulamentação. Outros desestabilizam democracias, destituem governos, promovem guerras, crises humanitárias e genocídio, a exemplo do governo de Benjamin Netanyahu (Israel) contra o povo palestino. As sanções do governo Trump, parte do jogo do Capital, visam reduzir a velocidade do comércio mundial e da corrida tecnológica (especialmente da China) embaralhando as cartas e redesenhando fluxos de transações. Contra o Brasil, as tarifas representam um ingrediente de apoio ao permanente clima de golpe contra a democracia. Em 1964, o governo americano realizou a Operação Brother Sam, apoiando o golpe militar com um porta-aviões. Atualmente, impõe tarifas maiores ao Brasil, tentando desestabilizar o governo democrático, mas, sem sucesso.

Vivemos em um clima de permanente instabilidade democrática. A corrida armamentista global também coloca em pauta a guerra fria e o retorno do autoritarismo na América Latina conforme alertado pelo Itamaraty na Organização dos Estados Americanos e evidenciado pela presença de navios de guerra dos Estados Unidos na costa da vizinha Venezuela.

A hora é agora!

Neste domingo, 21 de setembro 2025, foi o preludio da nova primavera da democracia. Grandes manifestações tomaram as ruas em todo o Brasil contra a PEC da blindagem e contra a anistia a golpistas. A bandeira verde amarela foi resgatada na luta pela soberania e o poder popular. As mobilizações nas ruas, nas redes sociais, na organização de base nos territórios, devem seguir até que seja alterada, nas eleições de 2026, a composição do Congresso Nacional e garantida a reeleição do presidente Lula. Estas são as condições para a manutenção da soberania e da democracia no país.

Para além de uma derrota jurídica e eleitoral, deve ser imposta uma derrota moral aos que semeiam o ódio e a ideia de golpe contra a democracia. Sem anistia, sem acordos, sem retrocessos, sem dar a outra face ao tapa, chega! IMPUNIDADE E ANISTIA, NUNCA MAIS!

Que venham as flores de um novo tempo!

Adeus sob fogo: o deslocamento sem fim do norte de Gaza

Mais uma vez, fomos forçados a deixar o norte de Gaza sob uma tempestade implacável de bombardeios, medo e destruição, iniciando mais um deslocamento carregado de exaustão e perdas, desta vez em direção a Al-Mawasi, em Khan Yunis.

Ali, no local que a ocupação alegava ser "seguro", com acesso a água, medicamentos e necessidades humanitárias básicas, encontramos apenas terras inundadas de famílias deslocadas, rostos cansados ​​e dor recorrente. Al-Mawasi não era um refúgio, apenas mais uma parada em uma longa jornada de sofrimento, onde a vida não é verdadeiramente vivida, mas apenas suportada.

Nossa alegria ao tocar as paredes de nossa casa novamente não durou muito. Era a mesma casa que havia sido atingida por projéteis israelenses durante o cessar-fogo. Retornamos carregados de esperança, tentando com nossas mãos e corações cansados ​​limpar os escombros, tirar o pó das memórias, trazer de volta um traço do antigo pulsar da casa.


Acreditávamos que o amor bastaria para permanecermos — que nos apegarmos ao nosso lar, mesmo com todas as suas feridas, era o mínimo que podíamos fazer. Como família, fizemos uma promessa: não iríamos embora, ficaríamos enquanto tivéssemos fôlego em nossos corpos.

Mas a ocupação, com sua violência e arrogância, nos privou até mesmo desse direito. E, mais uma vez, não nos restou nada além da amargura da partida forçada.

No bairro de Sheikh Radwan, ficamos presos sob o fogo de drones quadricópteros. Eles bombardeavam e perseguiam cada movimento, tornando impossível abrir a porta ou mesmo olhar pela janela. Vivemos noites intermináveis ​​de terror, ouvindo o zumbido constante acima de nossas cabeças, contando os segundos até o próximo míssil atingir.

Em seguida, a ocupação instalou uma posição de atiradores de elite com guindastes a leste do bairro, mirando em qualquer um que se movimentasse pelas ruas. Era como se tivessem nos cercado com uma cerca de fogo, sufocando nossas vidas, apertando o cerco ao nosso redor e nos forçando mais uma vez à deportação.

Os últimos dias antes da nossa partida foram como os horrores do Dia do Juízo Final. Muitos dos nossos vizinhos receberam avisos de evacuação, seguidos por bombardeios devastadores. O cheiro de pólvora e fumaça ainda persiste no meu nariz até hoje, e continuo com dificuldade para respirar devido à intensidade do que suportamos. Ficamos sem água e comida; os mercados estavam fechados; até as barracas de rua se tornaram alvos de bombas lançadas por aviões à noite. Não tivemos escolha a não ser fugir para o sul para escapar da morte certa.

A jornada de deslocamento foi árdua em todos os detalhes. Meus pais idosos, sobrecarregados por doenças crônicas, não conseguiram suportar a longa jornada. Carregamos suas preocupações em nossos corações antes de carregá-los em nossos braços. Nossa viagem do norte ao sul levou quase seis horas sob um sol escaldante, pela Estrada Rashid, que a ocupação designou como rota de evacuação.

No caminho, presenciamos uma cena que jamais será apagada da memória: uma barraca na praia desmontada diante dos nossos olhos, com corpos espalhados pela areia. Estávamos a poucos metros de distância, mas essa distância foi suficiente para nos roubar o sono para sempre. Mesmo agora, sempre que fecho os olhos, aquela cena volta para me acordar.

Após a exaustiva jornada, chegamos ao campo de deslocados de Khan Yunis. O local estava insuportavelmente superlotado. Os serviços eram escassos, insuficientes para todos. As pessoas eram obrigadas a descer até o mar sob o sol escaldante para coletar água salgada, o que levou à disseminação de doenças de pele entre adultos e crianças. Observar as pessoas enchendo garrafas com água do mar parecia uma cena de romance apocalíptico. Tudo aqui é difícil: dormir, comer, conseguir remédios — até mesmo encontrar um pequeno pedaço de sombra para descansar se tornou um desafio.

Hoje, vivemos em um turbilhão de ansiedade e medo. Todos os dias, assistimos às notícias sobre novos prédios residenciais desabando em Gaza. Dormimos pensando: nossa casa ainda estará de pé ou também se transformará em escombros? Meus pais precisam de cuidados médicos contínuos e medicamentos que não conseguimos encontrar.

Sinto-me impotente e frustrado pela minha incapacidade de garantir os medicamentos deles e pela impotência da nossa família diante dessa tragédia implacável.

E, no entanto, apesar de tudo isso, há uma voz interior que se recusa a ceder. Ela me sussurra que Gaza resistirá e que um dia retornaremos ao norte para reconstruir, pedra por pedra, erguendo nossos lares novamente com nossas próprias mãos. Essa voz me diz que esta terra permanecerá livre e orgulhosa, não importa quanto tempo dure a destruição, e que toda essa dor é apenas um capítulo na história da resiliência.

Gaza está sangrando hoje, mas não vai se romper. A Gaza da qual me despedi — com esperança de retorno — permanecerá sempre em meu coração como um símbolo de dignidade e orgulho, até que cada pessoa deslocada volte para casa, cada criança retorne à escola e cada família se reencontre com suas memórias.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Pensamento do Dia


 

Ameaça à democracia


Os EUA estão passando por um processo de putinização.
Garry Kasparov, enxadrista russo e ativista político

Terra global pela dignidade

O planeta atravessa um ponto de ruptura. Em Gaza, no Irã, no Caribe e em tantos outros territórios, o que está em jogo não é apenas geopolítica: é a sobrevivência da dignidade humana.

Em junho de 2025, os Estados Unidos atacaram diretamente as instalações nucleares iranianas em Natanz, Fordow e Isfahan. Bombardeiros B-2 e mísseis Tomahawk foram usados nos bombardeios, que causaram danos sobretudo a estruturas acima do solo. Donald Trump celebrou a operação como “muito bem-sucedida”. O Irã denunciou o ataque como violação do direito internacional, enquanto a ONU e diversos países expressaram preocupação com a escalada e pediram contenção diplomática.

Firas Thabet, "Gaznica"

Enquanto as potências disputam narrativas, Gaza se converte no epicentro da catástrofe. O Ministério da Saúde local fala em quase 63 mil mortos; outras fontes já projetam acima de 64 mil vidas perdidas, com 163 mil feridos. Os números são atualizados diariamente, mas a tragédia real está nos corpos soterrados, nos bairros inteiros apagados, nos hospitais destruídos. Hoje, 94% das unidades de saúde em Gaza estão inoperantes. A ONU confirmou oficialmente a Fome catastrófica (fase 5) no norte do território. Até o fim de setembro, milhares de pessoas podem morrer de inanição.

O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, já falou em “matança em massa de civis” e na obstrução deliberada de ajuda vital, apontando para crimes de guerra e possíveis atos de genocídio. A UNICEF declarou diante do Conselho da ONU: “o impensável em Gaza City já começou”. São palavras que não deixam espaço para dúvida: o que vivemos é um genocídio transmitido em tempo real.

No Caribe, outro tabuleiro se acende. Os EUA deslocaram oito navios de guerra, um submarino nuclear, caças F-35 e milhares de soldados para as proximidades da Venezuela, sob o pretexto de combater cartéis. Maduro reagiu mobilizando 15 mil tropas e convocando milícias. O presidente Lula advertiu: a movimentação norte-americana é fonte de instabilidade no continente.

E, é nesse cenário que emerge um exército inesperado: milhões de soldados desarmados. Não marcham com rifles, mas com bandeiras. Não carregam pólvora, mas remédios e pão. Eles se erguem em defesa da Sumud Global Flotilla, que atravessa mares levando esperança a Gaza. Cada barco é um ato de desobediência civil contra o extermínio. Cada rosto na flotilha é a recusa da indiferença.

A Terra Global pela Dignidade não é metáfora. É convocação. É a luta pelo direito à vida, pela proteção da infância, pelo resgate dos pactos do pós-guerra. Se o século XX nos legou o grito do “Nunca mais”, o século XXI não pode aceitar que esse grito seja enterrado sob escombros em Gaza.

O futuro nos julgará não pelo que dissemos, mas pelo que fizermos agora. A Terra Global pela Dignidade já está em marcha — e dela ninguém poderá dizer que não foi avisado.
Flaviano Corrêa

Visita à trincheira tropical

O mundo vasto mundo do poeta Drummond ficou pequeno. O intenso fluxo de acontecimentos dá a sensação de que o perto e o longe, assim como o agora e o depois, tudo ocorre no reduzido espaço de tensões e ameaças.

Em poucas semanas, o Brasil testemunhou o julgamento inédito do ex-presidente da República Jair Bolsonaro e membros de suas equipes pelo STF; assistiu ao assassinato do jovem líder conservador americano Charles Kirk, crime hediondo que atenta contra convivência pacífica entre as pessoas, assegurada pelas democracias.

Sobram eventos cujos desdobramentos criam uma atmosfera pesada. Intoxicado, procurei aliviar o peso do cotidiano e, leitor fiel, decidi visitar a obra de Ruy Castro Trincheira Tropical – A Segunda Guerra Mundial no Rio (Ed. Companhia da Letras Leitor, SP – 06/6/2025). Um deleite. Ao tempo em que oferece sólidos conhecimentos, o livro profundamente humano, resulta de uma reconstituição histórica (escrito por jornalista e não, ressalva Ruy, por um historiador) o que significa ter o cenário em primeiro plano, seguido de pessoas que entram e saem, desafiando a habilidade de narrar e tecer esses movimentos. Foram seis anos de muita transpiração para agregar e digerir uma montanha de informações.

No prólogo, o autor define a configuração da “Guerra dos mundos” ao revelar o ideário político que alicerçava as estruturas do poder: “Eram três mundos: o democrático, o comunista e o fascista. Como esferas no espaço, eles se aproximavam ou se repeliam”, modelo vigente no nosso país, assim explicado: “O Brasil ainda não sabia, mas, em 1935, a luta em suas fronteiras entre as três grandes esferas – o fascismo, representado pela Ação Integralista; a democracia, brevemente pela Aliança Nacional Libertadora e o comunismo, pelo Partido Comunista do Brasil – já era a guerra. Pelos oito anos seguintes, o Rio foi o epicentro desse combate. Em 1944, a luta se transferiu para uma gelada cordilheira italiana e envolveu milhares de bravos brasileiros. Mas o epicentro continuou aqui”.

Como “a guerra tomou conta de tudo”, nada escapou à aguda percepção do autor escrita em mais de seiscentas páginas, organizadas em 21 capítulos. A metáfora da trincheira, encravada no trópico, se oferecia aos imigrantes, exilados, refugiados, perseguidos políticos, como uma alternativa para viver longe do inferno europeu, acolhidos, por uma natureza bela, acolhedora e, possivelmente, como uma promessa de renovadas esperanças.

Esta primeira sensação, nela incluída um povo alegre e afetivo, era repassada pelo Rio de Janeiro, cidade cosmopolita e sedutora, capital da República, que revelava as contradições de um país atrasado pelo analfabetismo e por uma pobreza estrutural. Algumas personalidades mundialmente consagradas, como Orson Welles e Waldo Frank (este ciceroneado, por Vinicius de Moraes) conheceram e constataram a realidade do Brasil profundo.

No entanto, a sede do poder era o palco das decisões que geravam fatos, acontecimentos, ditavam rumos e afetavam a vida das pessoas. No Rio, acontecia a segunda guerra mundial, replicando o desenho político e absorvendo os efeitos do conflito não só na política bem como na economia, na cultura e, de forma intensa, em todos os setores da sociedade. Por aqui estiveram e nos deixaram um enorme legado figuras notáveis da inteligência global, vítimas da estupidez totalitária.

No mundo, as ditaduras destruíam as democracias. O ódio organizado foi o prenúncio das ações beligerantes. O nazifascismo confrontava com o comunismo soviético por conta dos impulsos imperialistas. A radicalização era liberticida; nas democracias europeias, as feridas da Primeira Guerra Mundial ainda sangravam; nos EUA, o objetivo estratégico da democracia americana era a prosperidade econômica.

No Brasil, o Presidente Vargas, cercado de militares e civis germanófilos, simpatizava com o nazifascismo, decorrência dos seus pendores autoritários. Dissimulado, manejava as ambiguidades para delas tirar partido. Quando percebeu os claros sinais de derrota do Eixo, apoiou os países aliados sob a liderança americana.

“O Brasil – assinala Ruy Castro – não precisou abrir suas portas para a guerra. Ela entrou sem bater e sem limpar os pés. O torpedeamento dos mercantes provocara mais de novecentas mortes”. De fato, o ataque aos navios da marinha mercante era motivo suficiente para a decisão do chefe da ditadura estadonovista. Não havia alternativa. Ainda assim, o sacrifício de jovens brasileiros nos campos de batalha assegurou ao arraigado pragmatismo de Getulio o financiamento dos EUA para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), projeto estratégico para o processo de industrialização do país.

Eis aí um grande paradoxo: o Presidente Vargas, chefe de uma ditadura, juntou-se aos aliados para lutar pelas democracias contra as tiranias. O Brasil pagou um preço alto. Nos quatro últimos capítulos do livro, o autor retrata, em páginas realistas e comoventes, a provação dos 25.334 pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desde o alistamento, treinamento e viagem, ao sangue derramado, especialmente, nas batalhas de Montese e Monte Castelo, em momentos de bravura e heroísmo dos nossos combatentes em condições dramaticamente adversas.

De outra parte, os relatos da fracassada intentona comunista (1935), assim crismada por Assis Chateaubriand, e do fiasco do putsch integralista (1938) demonstram que a violência política esteriliza a concórdia, a tolerância, colocando em campos opostos personagens que viriam a ser, tempos depois, grandes democratas identificados pela consistente pesquisa histórica.

Ao concluir a leitura do primoroso livro, senti um puxão de orelha, uma advertência em relação ao que é ou que pode parecer uma fuga da assustadora realidade com suas misérias e grandezas. Não é o caminho. Não sei se existe e desconfio de que seja possível saber.

No entanto, a história, descrita com engenho e arte pelo jornalista, ensina: a nossa trincheira continua tropical, mestiça, diversa, assim nos brindou a natureza. Nela vicejam dificuldades, oportunidades e desafios. O maior desafio é construir a trincheira democrática. Depende de nós. Em se plantando, dá.

Em ataque à liberdade de expressão, Trump mira em quem ele odeia

Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça com uma repressão abrangente às principais instituições de mídia e oponentes políticos, seus assessores e aliados consideram as medidas do governo cruciais para estancar a desinformação e o discurso de ódio que podem levar à violência política. Mas o próprio Trump deixou claro repetidamente nos últimos dias que tem um objetivo diferente. Para ele, não se trata de discurso de ódio, mas de discurso que ele odeia — ou seja, discurso que o critica e ao seu governo.

Ele sugeriu que um grupo de manifestantes que gritaram com ele em um restaurante fosse processado sob as leis que visam a mafiosos. Exigiu que vários comediantes de programas noturnos que zombavam dele fossem retirados do ar. Ameaçou fechar emissoras de televisão que considerasse injustas com ele. Processou o New York Times por supostamente prejudicar sua reputação. E isso foi só na semana passada.


Ao ameaçar tomar medidas governamentais contra aqueles que o irritam, Trump consegue ser surpreendentemente transparente sobre o que o motiva. Ele fala regularmente sobre como jornalistas, comentaristas e atores políticos não deveriam ter "permissão" para serem tão duros com ele. Tendo nomeado um aliado partidário para comandar o FBI, ele reflete abertamente sobre quais críticos políticos gostaria de ver investigados.

Trump não é o único presidente a se irritar com a oposição ou com a cobertura jornalística, nem o primeiro a tentar punir aqueles que o irritaram. Mas, nos tempos modernos, nenhum presidente chegou tão longe no uso de seu poder para pressionar figuras da mídia e oponentes políticos, dizem historiadores.

Ao final de uma semana dominada por um acirrado debate nacional sobre a liberdade de expressão, após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, Trump resumiu sua opinião na sexta-feira com um comentário que teria sido chocante se feito por qualquer presidente anterior.

—Eles pegam uma ótima história e a transformam em algo ruim — disse ele a repórteres no Salão Oval, referindo-se aos noticiários da rede. — Vejam, eu acho que isso é realmente ilegal.

As explosões do presidente minam as justificativas apresentadas por seus próprios assessores. A secretária de Justiça, Pam Bondi, que inicialmente alegou ter o direito de investigar empresas que se recusaram a imprimir cartazes em memória de Kirk, posteriormente enfatizou que o governo está focado em discursos de ódio que ultrapassam os limites das ameaças de violência. Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), argumentou que muitas emissoras têm um viés progressista e não atendem aos padrões da agência para atender ao interesse público.

Na semana passada, Carr ameaçou impor consequências caso a rede ABC não tomasse medidas contra o apresentador Jimmy Kimmel, de um programa noturno, por seu comentário de que "a gangue MAGA" estava tentando caracterizar o suspeito do assassinato de Kirk "como algo diferente de um deles". O comentário era factualmente incorreto, argumentou o presidente da FCC, e parte de um "esforço conjunto para mentir para o povo americano". A Disney, dona da ABC, concordou e suspendeu o programa de Kimmel.

Mas Trump então deixou claro que tem um objetivo mais amplo e pessoal.

Em uma publicação nas redes sociais, o presidente comemorou a remoção de Kimmel e exigiu que outros dois apresentadores de programas noturnos, Jimmy Fallon e Seth Meyers, tivessem destino semelhante. "Isso deixa Jimmy e Seth, dois completos perdedores, na NBC de Fake News", escreveu o presidente. "A audiência deles também é horrível. Façam isso, NBC!!!"

Thomas Berry, diretor do Centro Robert A. Levy de Estudos Constitucionais do Instituto Cato, de cunho libertário, disse que o presidente refutou efetivamente a tentativa de Carr de sustentar que punir a ABC pela declaração de Kimmel seria uma aplicação justa e neutra das diretrizes da FCC.

"Isso dá continuidade ao padrão de Trump ser o pior inimigo de seus próprios advogados com suas declarações públicas", disse Berry. "Enquanto Carr se concentrou na suposta falsidade da declaração, Trump simplesmente admite que quer que a FCC persiga emissoras que não são amigáveis ​​a ele."

Questionada sobre as justificativas absurdas apresentadas por Trump e funcionários do governo, Abigail Jackson, porta-voz da Casa Branca, disse:

— O presidente Trump é um forte defensor da liberdade de expressão e está certo, as emissoras licenciadas pela FCC há muito tempo são obrigadas a seguir padrões básicos.

Trump volta a ameaçar licenças de transmissão da NBC e ABC por cobertura 'injusta'.

Ela acrescentou que "o governo Biden, na verdade, atacou a liberdade de expressão ao exigir que as empresas de mídia social removessem as postagens dos americanos".

O vice-presidente JD Vance também apontou as alegações de censura apresentadas contra o presidente Joe Biden para defender as ações do governo Trump. "A reclamação da esquerda sobre a 'liberdade de expressão' após os anos Biden não engana ninguém", escreveu ele nas redes sociais na sexta-feira.

O governo Biden instou as empresas de mídia social a impedirem a proliferação do que considerou desinformação sobre a Covid-19. Os republicanos alegaram que isso equivalia a uma coerção inconstitucional para censurar opiniões impopulares, e um juiz emitiu uma liminar, mas a Suprema Corte rejeitou a contestação, alegando que os autores não tinham legitimidade para processar.

Outros presidentes buscaram pressionar as organizações de notícias de maneiras menos expansivas. O presidente Richard Nixon tentou bloquear a publicação dos Documentos do Pentágono, que detalhavam as falhas do governo americano na Guerra do Vietnã, e seus aliados contestaram as licenças das emissoras de televisão de propriedade do editor do Washington Post, cuja cobertura do caso Watergate o enfureceu.

A Casa Branca do presidente George W. Bush excluiu o Times do plano do vice-presidente Dick Cheney de dar um tempo, por desgosto com uma matéria. O governo do presidente Barack Obama conduziu mais investigações de vazamentos do que todos os seus antecessores juntos e certa vez tentou excluir a Fox News de uma entrevista conjunta para repórteres de televisão, apenas para recuar quando outras redes protestaram.

Mas a campanha de Trump contra os meios de comunicação foi muito além da de seus antecessores modernos, tomando forma muito antes do assassinato de Kirk. Mesmo antes de seu último processo contra o Times, ele processou a ABC, a CBS e o The Wall Street Journal. Cortei o financiamento federal para a PBS e a NPR. Ele agiu para desmantelar emissoras governamentais, incluindo a Voz da América, a Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, a Rádio Martí, a Rádio Ásia Livre e a Middle East Broadcasting Networks.

Ele expulsou a Associated Press do grupo de imprensa da Casa Branca porque ela se recusou a chamar o Golfo do México de "Golfo da América". E a Casa Branca assumiu o controle total do grupo de imprensa, determinando quais organizações de notícias teriam permissão para entrar no Salão Oval ou no Força Aérea Um para fazer perguntas, algo que nenhum outro presidente tentou.

A semana passada trouxe mais exemplos. Na segunda-feira, Trump disse que havia pedido a Bondi que considerasse "abrir processos RICO contra" os manifestantes que gritaram com ele no restaurante, referindo-se ao estatuto de extorsão usado para processar a Máfia.

Na terça-feira, Trump explodiu com Jonathan Karl, da ABC News, por perguntar sobre o plano de Bondi de combater o "discurso de ódio". Ela "provavelmente iria atrás de pessoas como você", ele retrucou, "porque você me trata tão injustamente". Quando Karl retomou o assunto no Salão Oval na sexta-feira, Trump o repreendeu novamente.

— Você é culpado, Jon — disse ele.

Durante seu voo de volta de Londres na noite de quinta-feira, Trump disse a repórteres no Air Force One que seu governo deveria restringir as emissoras que transmitissem coberturas excessivamente negativas em relação a ele.

— Eu acho que talvez a licença deles devesse ser retirada — disse ele.

Indagado se realmente achava que os manifestantes do restaurante deveriam ir para a cadeia, ele redobrou a aposta.

— Quando você observa a maneira como eles agiram, a maneira como se comportaram, sim, acho que eles eram uma ameaça — disse o presidente.

Um silêncio nada inocente

"O eterno silêncio desses espaços infinitos me assusta". O enigmático fragmento dos "Pensamentos", de Pascal, é oportuno a quem queira pautar o silêncio público dos militares sobre o julgamento da trama golpista. Ainda é silente o murmúrio de "página virada". E silêncio tem voz interna. Se majoritário, é um susto com dupla face, tanto para a civilidade como para essa mesma maioria, relutante quanto a um golpe sem carimbo clássico, isto é, sem apoio americano e liderado por um clã miliciano. Foi por um triz.

Aceito esse viés atemorizante, seria também oportuno remontar a Juan Huarte de San Juan, médico e filósofo espanhol do século 16, precursor da psicologia bélica. Para ele, "os homens dotados de notáveis capacidades intelectuais não valem nada no campo militar, porque suas virtudes são perigosas na guerra: de fato, a calma, a retidão, o agir de modo claro, a simplicidade e a misericórdia, na guerra, não só não servem para nada como levam à derrota.

Quem combate não deve ter escrúpulos morais, porque o inimigo não os terá: para isso, não lhe basta a coragem, deve estar igualmente disposto à mentira e à traição" (Mário Perniola em "Disgusti").

Não era uma crítica. Juan Huarte analisava a relação entre disposição de espírito e vocação para uma tarefa específica. Aos combatentes cabia só infligir danos aos inimigos. Em tese, o influxo posterior do humanismo doutrinário nas convenções internacionais deveria matizar a crueldade das matanças.

Mas a continuidade do arcaico espírito de corpo gera um pensamento estratégico qualitativamente diferente na instituição armada.

Isso significa a persistência da ideia de guerra como um processo natural de estabilização das relações de poder, portanto, superior à instabilidade da busca sociopolítica por harmonia. Na essência da cultura militar, ela é a constante que marginaliza ou relativiza os valores de civilidade.

Guerra é, assim, injeção de ódio na veia tanto em tempo de conflito como de paz. Nela, o novo é a tecnologia da morte. Sua razão, sempre velha, repete regras e modelos que aparentam reeducar a instituição. Mas sem visar pessoas concretas, as únicas que podem ser realmente educadas.

Paz também é conceito militar. Em quase dois séculos sem guerra, caso do Exército brasileiro, a paz nacional, regida por indevida pretensão tutelar, tem sido manchada por atentados contra a civilidade: quinze em 135 anos de República.

A ideologia da "guerra sem guerra" extravasa do plano externo para o interno, fomentando o desapreço, de que falava Juan Huarte, pelos valores alheios à caserna.

Daí o golpismo, doença senil das armas, polimorfa e endêmica nas Américas, cujas sequelas aparecem na ruína da política, na deseducação democrática, no deprimente barata-voa das vivandeiras de quartel.

O silêncio militar deixa intacto o contagioso vezo incivil. Rompê-lo com uma fala antigolpista, autorreparadora, seria tão histórico quanto o processo judicial. Um "fiat lux". O princípio espiritual chamado Nação é incompatível com "o país dos trogloditas, que devoram serpentes e carecem do comércio da palavra" (Borges, "El Aleph").

sábado, 20 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Distinção entre esquerda e direita é roupa que não serve mais

Aprendemos nos livros de História que os termos “esquerda” e “direita” nasceram na França, no fim do século XVIII: na Assembleia Nacional, os partidários da monarquia se sentavam do lado direito, e os simpatizantes da Revolução, do lado oposto. Desde então (grosso modo), esquerdistas são associados a democracia, coletivismo, internacionalismo, intervencionismo estatal e desejo de mudança; a direita, a elitismo, individualismo, nacionalismo, livre mercado e apego a que as coisas continuem do jeito em que estão. Hoje, isso virou um balaio de gatos.


A mesma esquerda que investiu contra o dicionário, considerando que o verbo “judiar” perpetuava o preconceito contra os judeus, embarcou de mala e cuia no antissemitismo. A pretexto de defender os palestinos, fez de Israel — única democracia do Oriente Médio — seu inimigo preferencial. E qualquer coisa é pretexto para que o antissemita enrustido saia do armário: bastou o ministro Luiz Fux divergir da condenação aos golpistas do 8 de Janeiro para que os piores epítetos fossem associados à sua origem judaica. Tivesse o voto sido do ex-ministro Joaquim Barbosa, veríamos os antirracistas rasgarem as cartilhas em que exibem suas virtudes igualitárias. Viesse a divergência de Cármen Lúcia, adeus sororidade e feminismo; no mínimo ouviríamos que lugar de mulher é no tanque e no fogão. Flávio Dino que ouse divergir, para ver o que é gordofobia. Parte da esquerda só é progressista até a página 2 — isso se as letras forem grandes, e as margens bem largas.

A direita, que bancou 21 anos de ditadura — com censura, tortura e prisões arbitrárias — tomou para si a defesa da (sua) liberdade de expressão. Faz-se de vítima da “ditadura da toga” — logo ela, que deitou e rolou com a ditadura da farda. Trocou a soberania por uma enorme bandeira americana e, depois de acusar os adversários de defender bandidos, aderiu em massa à blindagem dos delinquentes com assento no Congresso.

A turma da diversidade fez das feiras literárias um feudo de sua panelinha — e sobe nas tamancas quando alguém de seu campo é excluído. Pessoas “de bem” exigem que sejam expurgados das bibliotecas públicas livros que não rezem pelo seu catecismo. E ambos os lados reduzem a arte ao proselitismo – anticapitalista, antiwoke etc. Ninguém ainda ateou fogo, mas os fósforos já estão na mão.

São farinha do mesmo saco quem comemorou o assassinato de Marielle Franco e quem acha que o tiro que matou Charlie Kirk tornou o mundo um lugar melhor. Aliás, Kirk, que fazia turnês para debater com quem discordava dele, era chamado de fascista; Márcia Tiburi se recusou a conversar com quem não pensa da mesma forma que ela; e manteve a aura de antifa.

O pensador Augusto de Franco coloca a questão não em termos de esquerda ou direita, mas de liberais e iliberais. Os primeiros podem ser progressistas ou conservadores, mas defendem democracia, liberdade, pluralidade e preferem as reformas à ruptura. Os segundos são populistas, com um pé no autoritarismo e uma queda pela hegemonia — que é o golpismo por outros meios.

Visto por esse ângulo, Lula, Bolsonaro, Trump, Putin, Orbán, Ortega, Bukele, Maduro estão todos sentados do mesmo lado. Do outro — dos que prezam o diálogo e acham que a sociedade deve controlar o governo, não o contrário —, o que mais tem é cadeira vazia.