terça-feira, 23 de setembro de 2025

Da fixação infantil ao gozo contemporâneo

I

Um dos jargões mais marcantes para os millenials do Brasil é “Oh vida, oh céus, oh azar”. Assim se lamentava a hiena que forjou milhões de infâncias hoje adultizadas e feridas. Essa suposta dor encenada no desenho animado não pertencia somente à minha geração: o coitadismo sempre existiu, o vitimismo sempre existirá e o seu trabalho consiste em trocar de roupa. Aquiles se entregou ao próprio sofrimento e se negou a lutar, mesmo sabendo que os companheiros de batalha sofriam na carne uma Ilíada particular, morrendo um a um. Motivo? A perda da escrava Briseida. Raskólnikov matou a agiota que, para ele, representava a ponta mais visível da opressão que sofria, ampliando a barbárie ao sacrificar também a irmã da prestamista. A justificativa do protagonista para as machadadas assassinas está na superioridade que ele, equiparando-se a Napoleão, fantasiava em si mesmo e que o habilitaria para ultrapassar as leis e a moral (soa familiar?). Numa espécie de declaração judicial novelada, Humbert Humbert confessou a sua paixão por Lolita e narrou a própria pedofilia com tamanha autocondescendência que nós, empapados de machismo, chegamos a sentir que a criança realmente seduzia o seu tutor – pobre homem. Bentinho justificava os seus surtos de ciúme contra Capitu com base em sinais insípidos e ambíguos, mas, segundo ele, suficientes para comprovar uma traição. Essa certeza foi fervorosa ao ponto de ele não conseguir se relacionar com o filho que, tinha certeza, também era fruto da suposta deslealdade.


Entre estes e outros personagens há um elemento comum: todos esses homens – não por coincidência – justificam o seu furor homicida, a sua derrota, a sua perversidade ou a sua fraqueza não como resultado da própria intransigência, irresponsabilidade, cegueira ou sede de poder, mas sim como efeito de algo mobilizado fora do Eu. E assim se forjou o vitimismo no Ocidente: um mecanismo psíquico que, no plano coletivo, funcionou e funciona como um lastro da cultura, uma máquina da história, um estado ético e estético que formou homens e mulheres – na ficção e fora dela.

II

A postura vitimista nada mais é do que uma fixação infantil: numa determinada vivência inaugural, a criança sente que foi ferida injustamente e está certa de que tem direito a uma retratação do Outro (eis o que Bentinho repetiu ao longo da vida). Mas a culpa dessa outridade não existe necessariamente e, portanto, esse pedido de desculpas não chegará. Por isso, a criança se ressente contra o mundo e cresce presa à fantasia de matá-lo. Ao longo da existência, essa posição pode se consolidar numa certa interpretação da realidade cujo sintoma é a repetição infinita das sensações de inferioridade e injustiça. A cristalização da autopiedade na vida adulta só é possível porque, enquanto mecanismo de defesa, o vitimismo tem uma arquitetura objetal: depende do outro para se sustentar. O sujeito assim neurotizado acredita não ter a culpa de nada, mas os objetos externos, sim, são seus réus.

Considerando que todo mecanismo de defesa supõe um ganho secundário, o gozo da vítima está na possibilidade de agenciar o falso acolhimento (também objetal), a não responsabilização, a negação da própria incapacidade e – principalmente – a confirmação do sentimento de injustiça. Humbert Humbert o fez com leitores e leitoras ao construir a narrativa de tal maneira a ser percebido como o vulnerável e, portanto, vitimado da história (quando, na realidade, ao contrário da imagem de femme fatale que ele mesmo imprimiu na criança, ela era não a femme, mas a vítima fatal, e ele o algoz calculista e sem escrúpulos); Bentinho também empreendeu essa tentativa ao juntar uma série de ambiguidades que, em conjunto, desenhavam Capitu como traidora. E, para si mesmo, o conjunto dessas “provas” funcionava como uma espécie de consolo. Na Ilíada, são muitas as cenas em que, indireta e implicitamente, Aquiles sentia prazer em ser percebido como homem-sofredor-injustiçado-desonrado diante dos compatriotas que, por obediência, respeitaram a sua retirada suja de birra. Se observamos as representações do vitimismo na literatura da vida contemporânea, temos, por exemplo, as figuras do escritor que fala sobre a impossibilidade da escrita, os dramas da vida pequeno-burguesa, o vira-latismo intelectual ou as lamentações de uma branquitude esquizofrênica que perdeu o seu lugar de privilégio. Mais especificamente no campo das escritas de si, linha editorial em franca primavera, poucas vozes conseguem enunciar a própria história sem apelar para a vitimização. Esse gozo é irresistível, embora na literatura poucas e poucos consigam evitar a sua fatalidade.

III

Considerando que, como a psicanálise bem demonstra, tudo se repete no chão da cultura, os vitimismos ressurgem, hoje, com uma roupagem assustadora: no horizonte do turbotecnomachonazifascimo proposto por Márca Tiburi, pessoas postam o braço agulhado na cama da UTI, abrem uma live para chorar por um problema particular, publicam selfies em lágrimas, culpam (e às vezes matam) a mulher que decidiu romper a relação opressora, se posicionam como vítimas dos signos, do destino, de marte retrógrado – mas nunca de suas próprias ações. Uma observação: respeito e admiro todas as formas de crer (eu mesmo já estive e sigo adepto a muitas delas). O recorte aqui posto diz respeito à ação neurótica – automática e repetitiva – de manipular a montagem dos fatores externos para justificar um problema que poderia ser resolvido com mais responsabilidade e implicação pessoal. Atualizando a postura de Bentinho ou Humbert Humbert, muitas pessoas buscam ouvintes prontos para acreditar na versão enviesada de quem conta. Por sorte, não é difícil perceber que quem fala manipula e distorce em função de motivações conscientes e inconscientes. O gozo narcísico do vitimismo está no ombro amigo do mundo, mas também na facilidade da não confrontação com o próprio contraditório – e com a ação transformadora que ele exige.

No contexto coletivo, que é sempre político, a mobilização do imaginário coitadista está em todos os grupos do espectro, em maior ou menor intensidade. Para nós que estamos do lado de cá da tela, acompanhando os movimentos de aproximação e deriva entre partidos, só nos cabe a pergunta que também devemos aplicar à leitura literária: quem diz o quê e com qual intenção? A postura vitimista de Bolsonaro encontra símiles em Trump, Milei, Bukele, Abascal, Le Pen, Orbán e tantos outros que recitam o mesmo roteiro e interpretam uma mesma cena: manipular a lei democrática a favor de interesses antidemocráticos. É o puro cinismo que não se viu, por exemplo, quando prenderam Lula. Embora movido por uma paixão autocomplacente vez ou outra, ele não enviou os seus filhos à Rússia ou à China para articular chantagens econômicas contra o Brasil. No caso de Dilma Rousseff, pese a sua tão criticada inabilidade para o diálogo, o coitadismo de Estado não foi em nenhum momento a postura da ex-Presidenta. O que ela fez não foi falar de si, do que sofreu ou do quanto a política foi e é injusta com ela. Sem personalizar as ações, discursos e debates, Dilma optou por chamar a atenção para as manchas na História brasileira, para a gravidade do retorno a uma autocracia militar, para o perigo da saúde democrática. Quando alguém disser que políticos são todos iguais, é importante lembrar o grau de vitimismo agenciado e enunciado (ou não) por cada um.

Infelizmente, o capital político se fortalece com a mobilização bem-intencionada dos afetos das massas e com a confusão – arquitetada – entre vítima e herói. Daí surgem os falsos mártires. Enquanto a dinâmica do vitimismo individual tem como base a inferioridade não elaborada e a consequente queixa projetiva, no campo coletivo as figuras políticas se entendem superiores, mas aproveitam as facadas na barriga e os tiros na orelha para fingir uma fragilidade heroica. Com isso, alcançam os afetos individuais para, no final, transformá-los em votos.

Se a vitimização produzisse energia, seríamos um planeta autossuficiente para sempre. Mas não. Pelo contrário, o que o coitadismo faz é sugar o vigor de todos nós e, no campo coletivo, esculpir messias “pobrezinhos”.

Independência

Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo.

Machado de Assis

Anistia, Dosimetria e a Varinha do Paulinho

Eu fico me sentindo no boteco da esquina, comendo um pastel de pato no tucupi e tentando entender a diferença entre anistia e dosimetria. Do outro lado da mesa, o Super Paulinho da Força, daqueles políticos que adoram uma assembleia brigada, tentando explicar que as duas coisas são a mesma. O nosso problema, e de quem aprendeu a ler e escrever, nem estudou história com o Peninha, é que não são, nem brincando, a mesma coisa. Mas, como no Brasil a lógica política às vezes parece uma marchinha de carnaval tocada em ritmo de bolero, a confusão faz muito sentido.

Anistia é o perdão coletivo: “meu amigo, esquece o que aconteceu, bola pra frente, vida nova”. É como quando a professora Adelaide, do ensino médio, decidisse perdoar a bagunça da turma e não descontar ponto na prova seguinte. Já dosimetria é o contrário: não é esquecer o crime, mas medir a força da paulada. “Você errou, mas vamos ver se foi só um tropeço ou um salto olímpico na ilegalidade”. É como o dosador que deu dezessete anos para a terrorista armada de baton e lápis de sobrancelha.


Pô, Paulinho! Deixa o povo brasileiro seguir em paz! Nós não sabemos viver no meio dessa intriga, em que hoje convivemos, e que vocês estão acostumados. Refresca o Mercado! Isso não pode terminar bem. Estamos nos atolando na Lei de Murphy.

A graça é que, no palco da política nacional, querem fazer o público acreditar que as duas palavras são irmãs gêmeas, pigópagas, como dizia o Senador Evandro Carreira. Ao ser indagado pelo termo, o genial Evandro dizia: São as gêmeas unidas pelo bumbum. Só que não são. Uma tira a pena inteira (anistia), a outra mede o tamanho dela (dosimetria). Coisas que só o Presidente Temer conseguiria fazer.

O Paulinho da Força, sempre hábil em transformar debates jurídicos em slogans fáceis, resolveu aproximar as duas palavras como quem aproxima primos de quarto grau. A anistia que ele tanto deseja é como apagar a lousa da escola: “não importa quem escreveu, nem o palavrão que ficou marcado, passa o apagador e finge que nada houve”. Já a dosimetria é mais sisuda: não apaga nada, mas calcula a pena — 5 anos, 17 anos, ou 43, como anda ameaçando o Supremo nos casos de golpe. E lá vem o “gópi” mais burro e difícil de se entender.

Só que o brasileiro médio, esse sobrevivente que encara boletos, trânsito e fila no SUS, quando escuta “dosimetria” pensa logo em coisa pesada. A palavra tem gosto de laboratório soviético. Parece nome de manual de tortura da KGB. Se disserem que “a dosimetria será rigorosa”, o povo já imagina Stalin fazendo a contagem, Hitler batendo o carimbo e Mao Zedong servindo chá de pólvora para acompanhar umas bolachinhas.

Amigo leitor, dosimetria não é a Papuda nem paredão de fuzilamento. É só a fase do julgamento em que os juízes calculam a pena. Leva em conta o crime, as circunstâncias, a intenção e até se o réu foi educado ou malcriado no tribunal. É o momento em que o magistrado coloca no liquidificador da Justiça todos os ingredientes: culpabilidade, antecedentes, conduta social, personalidade, motivos e consequências. No fim, sai a sentença: pena mais branda ou mais dura. As penas estão do tamanho do tempo de vida estimado para os que fazem a atual dosimetria. Para quando os dosadores saírem do sistema e os condenados saírem da vida.

Já a anistia é o ato político que diz: “apesar de você, o Brasil há de ser, vai virar a página”. No Brasil, tivemos anistia famosa em 1979, perdoando crimes políticos de militares e opositores. Atos, com morte pelo meio, foram esquecidos. Foi vontade e pacto nacional, não cálculo de pena. A anistia é uma borracha, a dosimetria é uma régua com oito buracos para chupar.

Aos brasileirinhos e leigos, o recado é simples:

Anistia = perdão coletivo, decisão política.


Dosimetria = cálculo da pena, decisão jurídica. Só o Temer sabe.

A diferença é enorme, mas o discurso é Malasarte. Paulinho tenta nos fazer acreditar que a régua da Justiça é a mesma coisa que a borracha da política. E se o brasileiro não ficar atento, pode acabar acreditando que Stalin, Hitler e Mao Zedong eram apenas chefes do Conselho Tutelar.

Paulinho, não permita que estendam os benefícios da Lei Magnitsky para o nosso presidente e família. Isso ficará muito difícil para o mercado entender. Os doidos de lá, são doidos há séculos. Os nossos, cheios de talento, saíram recentemente da Escolinha.

Tentativa de golpe de 2023 não acabou

As grandes manifestações de 2013 representaram o prelúdio da narrativa social pelo pedido de tutela militar sobre o poder presente em todas as manifestações da extrema direita no Brasil. O fetiche por um governo militar não é recente. Para lembrar, com o fim da monarquia, entre 1889 e 1894, o país foi dominado por setores militares. Desde a independência de Portugal, (1822) até 1964, ocorreram 9 golpes de Estado e 23 tentativas de interrompem o curso normal do poder político regido por leis. A luta pelo poder a partir da ruptura da ordem instituída é uma ideia com padrão histórico e está presente, ainda hoje, como nos lembra o filósofo Newton Bignotto na obra Golpe de Estado: a história de uma ideia.

Em 2014, um ano após os atos, Dilma Rousseff foi reeleita para mais quatro anos como presidenta da república. Contudo, Aécio Neves (PSDB/MG) não reconheceu a derrota e incitou a narrativa da Lava Jato de que o governo do PT era uma “organização criminosa”. A narrativa fazia parte do roteiro do golpe institucional que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, e fora patrocinado pelo vice-presidente Michel Temer (MDB/SP), pelo presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha (MDB/RJ), setores econômicos, militares, sistema de justiça e os grandes veículos da comunicação.


O golpe institucional de 2016, contra o governo da presidenta Dilma Rousseff, no entanto, fazia parte de uma estratégia mais ampla. Visava o fim do ciclo vertiginoso de democracia na América Latina. Ele interrompeu o desenho geopolítico a partir do Sul Global, desmontando o Mercosul, a Unasul, inviabilizando a Celac – Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos – e comprometendo fortemente os BRICS e o Banco do Sul. Além disso, anulou a construção de uma política soberana de exploração do pré-sal e a busca por uma transição ecológica no Brasil, financiada com os recursos do petróleo.

Como lembra Christian dos Reis, sociólogo e amigo, “o jogo é jogado e o peixe é pescado”. O pescador experiente sabe que é preciso conhecer o comportamento dos peixes que nadam solitários ou em cardumes, compreende as águas e as marés e cultiva o hábito da paciência. Por fim, tanto o resultado do jogo quanto o sabor do peixe, não se conhece de antemão.

Com Temer no poder, o segundo lance do jogo foi colocado em prática. Lula, líder nas pesquisas, foi condenado e preso. Impedido de concorrer à presidência, ele passou o bastão a Fernando Haddad (PT/SP) e Manuela D’Ávila (PCdoB/RS). Bolsonaro foi eleito no segundo turno. Os quatro anos seguintes são indescritíveis, tanto pelo desgoverno quanto pela pandemia em si, com centenas de milhares de mortes no Brasil.

O desgoverno Bolsonaro terceirizou o orçamento da União ao Congresso Nacional e, de forma sorrateira e silenciosa, sem que nos déssemos conta, alterou profundamente o sistema político brasileiro. Isso afetou, em particular, o sistema de freios e contrapesos na relação entre os poderes. O escandaloso “orçamento secreto”, um movimento tático do golpe, fraturou o presidencialismo de coalizão.

Para explicar melhor: anteriormente, deputados federais e senadores precisavam compor com o Poder Executivo para promover obras, serviços e políticas públicas nos estados, uma vez que o Poder Executivo detinha o controle sobre o Orçamento da União. Por sua vez, o Poder Executivo necessitava dos votos das bancadas para aprovar projetos de seu programa de governo. Havia, então, uma composição de interesses legítimos: um de governar, outro de levar para suas bases bens e serviços do governo federal. Atualmente, um deputado federal tem mais recursos disponíveis a partir das emendas ao orçamento, incluindo o “orçamento secreto”, do que muitos ministros de Estado. Essa jogada, promovida por Arthur Lira (Progressista/AL), alterou o padrão de pesos e contrapesos entre Executivo e Legislativo.

Lembra-se da paciência do pescador? Festejado pela mídia, pelo agronegócio e por clubes militares, o ex-juiz federal Sergio Moro abandonou a magistratura para se tornar ministro de Estado no governo Bolsonaro. Ele foi considerado juiz imparcial nas ações da Lava Jato que condenaram o presidente Lula e todas as suas ações, contra o presidente, foram posteriormente extintas.

Lula sai da prisão injusta. Apaixonado por Janja, casou-se e tornou-se novamente candidato à presidência da república pelo PT. Foi eleito (2022) por uma margem de votos apertada, menos de 3 milhões de votos. A vitória mais grandiosa de todos os tempos.

Mas, lembre-se: jogo é jogado, peixe é pescado. Inconsolados com a derrota, apoiadores de Bolsonaro realizaram mais de dois meses de acampamentos em frente aos quartéis em todo o Brasil, pedindo uma intervenção militar. Em janeiro de 2023 foram a Brasília. Praticaram atos de incitação ao golpe contra o poder instituído. Destruíram símbolos nacionais, depredaram patrimônio da União tanto no Congresso quanto no STF, cometeram violência contra servidores públicos e, tudo indica, visavam colocar em prática o plano “Punhal verde e amarelo” para matar o Presidente da República, o vice-presidente e ministros da Suprema Corte. Os golpistas, por fim, esperavam do Executivo, do Congresso Nacional e do STF uma rendição. E, neste caso, vejam vocês, por muito pouco, o arco-íris muda de cor e a rosa nunca mais desabrocha.

No dia seguinte à tentativa de golpe, em 9 de janeiro de 2023, a resposta veio. Um cordão humano, patrocinado pelo presidente Lula, caminhou em direção ao STF, reunindo ministros, presidentes da Câmara e do Senado, e os 27 governadores – inclusive os mais bolsonaristas, como Zema (Novo/MG), Tarcísio (Republicanos/SP) e Jorginho Mello (PL/SC), estavam presentes no ato em defesa da democracia. Dias depois, em 27 de janeiro de 2023, em um novo encontro com governadores, o governo divulga a carta pela democracia onde se lê: “A democracia é um valor inegociável”.

Mais de dois anos após o 8 de janeiro de 2023], 898 pessoas foram responsabilizadas pelos atos golpistas. Dessas, 371 foram condenadas, enquanto outras 527 admitiram a prática de crimes menos graves e firmaram acordo com o Ministério Público Federal (MPF). Entre as condenações, 225 resultaram em 17 anos e 6 meses de prisão, com base em provas classificadas como graves. As outras 146 foram condenadas por incitação e associação criminosa (abolição do Estado Democrático de Direito), consideradas crimes simples. Os condenados devem usar tornozeleira eletrônica por um ano, pagar multa, prestar 225 horas de serviços à comunidade e participar de um curso presencial sobre democracia[11] – adoraria ver!

O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado em julgamento no STF, em 11 de setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão. Ele já estava inelegível por 8 anos devido a outra condenação. Aguardam julgamento outros 23 réus pela tentativa de golpe contra a democracia, incluindo militares de alta patente.

O governo Lula 3 recolocou o Brasil, de forma soberana, como um importante player na geopolítica global. Atualmente, somos a 8ª economia mundial, estamos entre os 5 países com maior crescimento do PIB, ocupamos a 6ª posição em produção diária de Petróleo e nossa balança comercial, no 3º trimestre de 2025, registrou superávit, mesmo diante da agressão das tarifas do governo Trump. Internamente, temos a menor taxa de desemprego da série histórica (5,8%) e, novamente, sob o governo do PT, o país deixou o mapa da fome.

“Mas a tentativa de golpe não terminou ainda, você não tinha notado?” Na Câmara Federal, duas manobras foram aceitas pelo presidente Hugo Motta (Republicano/PB): a primeira, foi a aprovação, em tempo recorde de dois turnos, da Emenda Constitucional chamada PEC da blindagem, que impede a investigação, prisão e condenação de parlamentares do Congresso Nacional. Caso seja promulgada, deputados federais poderão tramar golpes de Estado à luz do dia, além de crimes hediondos. Incrível, não é? Oxalá, o Senado não dê asas a doido. A segunda manobra é um incentivo para golpistas: a tal anistia. Ampla ou restrita? Não importa! A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 começou na anistia dada aos militares golpistas em 1979. A constante sabotagem das forças armadas à Comissão da Verdade sobre os crimes do regime militar é só mais uma face da violência. A sequência de golpes de Estado vem acompanhada de impunidade.

Os grandes jogadores do Capital global estão em ação neste momento, sim, neste exato momento enquanto você lê este artigo, caso tenha chegado até aqui. Alguns controlam mercados e transações globais, como as big techs, livres de regulamentação. Outros desestabilizam democracias, destituem governos, promovem guerras, crises humanitárias e genocídio, a exemplo do governo de Benjamin Netanyahu (Israel) contra o povo palestino. As sanções do governo Trump, parte do jogo do Capital, visam reduzir a velocidade do comércio mundial e da corrida tecnológica (especialmente da China) embaralhando as cartas e redesenhando fluxos de transações. Contra o Brasil, as tarifas representam um ingrediente de apoio ao permanente clima de golpe contra a democracia. Em 1964, o governo americano realizou a Operação Brother Sam, apoiando o golpe militar com um porta-aviões. Atualmente, impõe tarifas maiores ao Brasil, tentando desestabilizar o governo democrático, mas, sem sucesso.

Vivemos em um clima de permanente instabilidade democrática. A corrida armamentista global também coloca em pauta a guerra fria e o retorno do autoritarismo na América Latina conforme alertado pelo Itamaraty na Organização dos Estados Americanos e evidenciado pela presença de navios de guerra dos Estados Unidos na costa da vizinha Venezuela.

A hora é agora!

Neste domingo, 21 de setembro 2025, foi o preludio da nova primavera da democracia. Grandes manifestações tomaram as ruas em todo o Brasil contra a PEC da blindagem e contra a anistia a golpistas. A bandeira verde amarela foi resgatada na luta pela soberania e o poder popular. As mobilizações nas ruas, nas redes sociais, na organização de base nos territórios, devem seguir até que seja alterada, nas eleições de 2026, a composição do Congresso Nacional e garantida a reeleição do presidente Lula. Estas são as condições para a manutenção da soberania e da democracia no país.

Para além de uma derrota jurídica e eleitoral, deve ser imposta uma derrota moral aos que semeiam o ódio e a ideia de golpe contra a democracia. Sem anistia, sem acordos, sem retrocessos, sem dar a outra face ao tapa, chega! IMPUNIDADE E ANISTIA, NUNCA MAIS!

Que venham as flores de um novo tempo!

Adeus sob fogo: o deslocamento sem fim do norte de Gaza

Mais uma vez, fomos forçados a deixar o norte de Gaza sob uma tempestade implacável de bombardeios, medo e destruição, iniciando mais um deslocamento carregado de exaustão e perdas, desta vez em direção a Al-Mawasi, em Khan Yunis.

Ali, no local que a ocupação alegava ser "seguro", com acesso a água, medicamentos e necessidades humanitárias básicas, encontramos apenas terras inundadas de famílias deslocadas, rostos cansados ​​e dor recorrente. Al-Mawasi não era um refúgio, apenas mais uma parada em uma longa jornada de sofrimento, onde a vida não é verdadeiramente vivida, mas apenas suportada.

Nossa alegria ao tocar as paredes de nossa casa novamente não durou muito. Era a mesma casa que havia sido atingida por projéteis israelenses durante o cessar-fogo. Retornamos carregados de esperança, tentando com nossas mãos e corações cansados ​​limpar os escombros, tirar o pó das memórias, trazer de volta um traço do antigo pulsar da casa.


Acreditávamos que o amor bastaria para permanecermos — que nos apegarmos ao nosso lar, mesmo com todas as suas feridas, era o mínimo que podíamos fazer. Como família, fizemos uma promessa: não iríamos embora, ficaríamos enquanto tivéssemos fôlego em nossos corpos.

Mas a ocupação, com sua violência e arrogância, nos privou até mesmo desse direito. E, mais uma vez, não nos restou nada além da amargura da partida forçada.

No bairro de Sheikh Radwan, ficamos presos sob o fogo de drones quadricópteros. Eles bombardeavam e perseguiam cada movimento, tornando impossível abrir a porta ou mesmo olhar pela janela. Vivemos noites intermináveis ​​de terror, ouvindo o zumbido constante acima de nossas cabeças, contando os segundos até o próximo míssil atingir.

Em seguida, a ocupação instalou uma posição de atiradores de elite com guindastes a leste do bairro, mirando em qualquer um que se movimentasse pelas ruas. Era como se tivessem nos cercado com uma cerca de fogo, sufocando nossas vidas, apertando o cerco ao nosso redor e nos forçando mais uma vez à deportação.

Os últimos dias antes da nossa partida foram como os horrores do Dia do Juízo Final. Muitos dos nossos vizinhos receberam avisos de evacuação, seguidos por bombardeios devastadores. O cheiro de pólvora e fumaça ainda persiste no meu nariz até hoje, e continuo com dificuldade para respirar devido à intensidade do que suportamos. Ficamos sem água e comida; os mercados estavam fechados; até as barracas de rua se tornaram alvos de bombas lançadas por aviões à noite. Não tivemos escolha a não ser fugir para o sul para escapar da morte certa.

A jornada de deslocamento foi árdua em todos os detalhes. Meus pais idosos, sobrecarregados por doenças crônicas, não conseguiram suportar a longa jornada. Carregamos suas preocupações em nossos corações antes de carregá-los em nossos braços. Nossa viagem do norte ao sul levou quase seis horas sob um sol escaldante, pela Estrada Rashid, que a ocupação designou como rota de evacuação.

No caminho, presenciamos uma cena que jamais será apagada da memória: uma barraca na praia desmontada diante dos nossos olhos, com corpos espalhados pela areia. Estávamos a poucos metros de distância, mas essa distância foi suficiente para nos roubar o sono para sempre. Mesmo agora, sempre que fecho os olhos, aquela cena volta para me acordar.

Após a exaustiva jornada, chegamos ao campo de deslocados de Khan Yunis. O local estava insuportavelmente superlotado. Os serviços eram escassos, insuficientes para todos. As pessoas eram obrigadas a descer até o mar sob o sol escaldante para coletar água salgada, o que levou à disseminação de doenças de pele entre adultos e crianças. Observar as pessoas enchendo garrafas com água do mar parecia uma cena de romance apocalíptico. Tudo aqui é difícil: dormir, comer, conseguir remédios — até mesmo encontrar um pequeno pedaço de sombra para descansar se tornou um desafio.

Hoje, vivemos em um turbilhão de ansiedade e medo. Todos os dias, assistimos às notícias sobre novos prédios residenciais desabando em Gaza. Dormimos pensando: nossa casa ainda estará de pé ou também se transformará em escombros? Meus pais precisam de cuidados médicos contínuos e medicamentos que não conseguimos encontrar.

Sinto-me impotente e frustrado pela minha incapacidade de garantir os medicamentos deles e pela impotência da nossa família diante dessa tragédia implacável.

E, no entanto, apesar de tudo isso, há uma voz interior que se recusa a ceder. Ela me sussurra que Gaza resistirá e que um dia retornaremos ao norte para reconstruir, pedra por pedra, erguendo nossos lares novamente com nossas próprias mãos. Essa voz me diz que esta terra permanecerá livre e orgulhosa, não importa quanto tempo dure a destruição, e que toda essa dor é apenas um capítulo na história da resiliência.

Gaza está sangrando hoje, mas não vai se romper. A Gaza da qual me despedi — com esperança de retorno — permanecerá sempre em meu coração como um símbolo de dignidade e orgulho, até que cada pessoa deslocada volte para casa, cada criança retorne à escola e cada família se reencontre com suas memórias.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Pensamento do Dia


 

Ameaça à democracia


Os EUA estão passando por um processo de putinização.
Garry Kasparov, enxadrista russo e ativista político

Terra global pela dignidade

O planeta atravessa um ponto de ruptura. Em Gaza, no Irã, no Caribe e em tantos outros territórios, o que está em jogo não é apenas geopolítica: é a sobrevivência da dignidade humana.

Em junho de 2025, os Estados Unidos atacaram diretamente as instalações nucleares iranianas em Natanz, Fordow e Isfahan. Bombardeiros B-2 e mísseis Tomahawk foram usados nos bombardeios, que causaram danos sobretudo a estruturas acima do solo. Donald Trump celebrou a operação como “muito bem-sucedida”. O Irã denunciou o ataque como violação do direito internacional, enquanto a ONU e diversos países expressaram preocupação com a escalada e pediram contenção diplomática.

Firas Thabet, "Gaznica"

Enquanto as potências disputam narrativas, Gaza se converte no epicentro da catástrofe. O Ministério da Saúde local fala em quase 63 mil mortos; outras fontes já projetam acima de 64 mil vidas perdidas, com 163 mil feridos. Os números são atualizados diariamente, mas a tragédia real está nos corpos soterrados, nos bairros inteiros apagados, nos hospitais destruídos. Hoje, 94% das unidades de saúde em Gaza estão inoperantes. A ONU confirmou oficialmente a Fome catastrófica (fase 5) no norte do território. Até o fim de setembro, milhares de pessoas podem morrer de inanição.

O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, já falou em “matança em massa de civis” e na obstrução deliberada de ajuda vital, apontando para crimes de guerra e possíveis atos de genocídio. A UNICEF declarou diante do Conselho da ONU: “o impensável em Gaza City já começou”. São palavras que não deixam espaço para dúvida: o que vivemos é um genocídio transmitido em tempo real.

No Caribe, outro tabuleiro se acende. Os EUA deslocaram oito navios de guerra, um submarino nuclear, caças F-35 e milhares de soldados para as proximidades da Venezuela, sob o pretexto de combater cartéis. Maduro reagiu mobilizando 15 mil tropas e convocando milícias. O presidente Lula advertiu: a movimentação norte-americana é fonte de instabilidade no continente.

E, é nesse cenário que emerge um exército inesperado: milhões de soldados desarmados. Não marcham com rifles, mas com bandeiras. Não carregam pólvora, mas remédios e pão. Eles se erguem em defesa da Sumud Global Flotilla, que atravessa mares levando esperança a Gaza. Cada barco é um ato de desobediência civil contra o extermínio. Cada rosto na flotilha é a recusa da indiferença.

A Terra Global pela Dignidade não é metáfora. É convocação. É a luta pelo direito à vida, pela proteção da infância, pelo resgate dos pactos do pós-guerra. Se o século XX nos legou o grito do “Nunca mais”, o século XXI não pode aceitar que esse grito seja enterrado sob escombros em Gaza.

O futuro nos julgará não pelo que dissemos, mas pelo que fizermos agora. A Terra Global pela Dignidade já está em marcha — e dela ninguém poderá dizer que não foi avisado.
Flaviano Corrêa

Visita à trincheira tropical

O mundo vasto mundo do poeta Drummond ficou pequeno. O intenso fluxo de acontecimentos dá a sensação de que o perto e o longe, assim como o agora e o depois, tudo ocorre no reduzido espaço de tensões e ameaças.

Em poucas semanas, o Brasil testemunhou o julgamento inédito do ex-presidente da República Jair Bolsonaro e membros de suas equipes pelo STF; assistiu ao assassinato do jovem líder conservador americano Charles Kirk, crime hediondo que atenta contra convivência pacífica entre as pessoas, assegurada pelas democracias.

Sobram eventos cujos desdobramentos criam uma atmosfera pesada. Intoxicado, procurei aliviar o peso do cotidiano e, leitor fiel, decidi visitar a obra de Ruy Castro Trincheira Tropical – A Segunda Guerra Mundial no Rio (Ed. Companhia da Letras Leitor, SP – 06/6/2025). Um deleite. Ao tempo em que oferece sólidos conhecimentos, o livro profundamente humano, resulta de uma reconstituição histórica (escrito por jornalista e não, ressalva Ruy, por um historiador) o que significa ter o cenário em primeiro plano, seguido de pessoas que entram e saem, desafiando a habilidade de narrar e tecer esses movimentos. Foram seis anos de muita transpiração para agregar e digerir uma montanha de informações.

No prólogo, o autor define a configuração da “Guerra dos mundos” ao revelar o ideário político que alicerçava as estruturas do poder: “Eram três mundos: o democrático, o comunista e o fascista. Como esferas no espaço, eles se aproximavam ou se repeliam”, modelo vigente no nosso país, assim explicado: “O Brasil ainda não sabia, mas, em 1935, a luta em suas fronteiras entre as três grandes esferas – o fascismo, representado pela Ação Integralista; a democracia, brevemente pela Aliança Nacional Libertadora e o comunismo, pelo Partido Comunista do Brasil – já era a guerra. Pelos oito anos seguintes, o Rio foi o epicentro desse combate. Em 1944, a luta se transferiu para uma gelada cordilheira italiana e envolveu milhares de bravos brasileiros. Mas o epicentro continuou aqui”.

Como “a guerra tomou conta de tudo”, nada escapou à aguda percepção do autor escrita em mais de seiscentas páginas, organizadas em 21 capítulos. A metáfora da trincheira, encravada no trópico, se oferecia aos imigrantes, exilados, refugiados, perseguidos políticos, como uma alternativa para viver longe do inferno europeu, acolhidos, por uma natureza bela, acolhedora e, possivelmente, como uma promessa de renovadas esperanças.

Esta primeira sensação, nela incluída um povo alegre e afetivo, era repassada pelo Rio de Janeiro, cidade cosmopolita e sedutora, capital da República, que revelava as contradições de um país atrasado pelo analfabetismo e por uma pobreza estrutural. Algumas personalidades mundialmente consagradas, como Orson Welles e Waldo Frank (este ciceroneado, por Vinicius de Moraes) conheceram e constataram a realidade do Brasil profundo.

No entanto, a sede do poder era o palco das decisões que geravam fatos, acontecimentos, ditavam rumos e afetavam a vida das pessoas. No Rio, acontecia a segunda guerra mundial, replicando o desenho político e absorvendo os efeitos do conflito não só na política bem como na economia, na cultura e, de forma intensa, em todos os setores da sociedade. Por aqui estiveram e nos deixaram um enorme legado figuras notáveis da inteligência global, vítimas da estupidez totalitária.

No mundo, as ditaduras destruíam as democracias. O ódio organizado foi o prenúncio das ações beligerantes. O nazifascismo confrontava com o comunismo soviético por conta dos impulsos imperialistas. A radicalização era liberticida; nas democracias europeias, as feridas da Primeira Guerra Mundial ainda sangravam; nos EUA, o objetivo estratégico da democracia americana era a prosperidade econômica.

No Brasil, o Presidente Vargas, cercado de militares e civis germanófilos, simpatizava com o nazifascismo, decorrência dos seus pendores autoritários. Dissimulado, manejava as ambiguidades para delas tirar partido. Quando percebeu os claros sinais de derrota do Eixo, apoiou os países aliados sob a liderança americana.

“O Brasil – assinala Ruy Castro – não precisou abrir suas portas para a guerra. Ela entrou sem bater e sem limpar os pés. O torpedeamento dos mercantes provocara mais de novecentas mortes”. De fato, o ataque aos navios da marinha mercante era motivo suficiente para a decisão do chefe da ditadura estadonovista. Não havia alternativa. Ainda assim, o sacrifício de jovens brasileiros nos campos de batalha assegurou ao arraigado pragmatismo de Getulio o financiamento dos EUA para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), projeto estratégico para o processo de industrialização do país.

Eis aí um grande paradoxo: o Presidente Vargas, chefe de uma ditadura, juntou-se aos aliados para lutar pelas democracias contra as tiranias. O Brasil pagou um preço alto. Nos quatro últimos capítulos do livro, o autor retrata, em páginas realistas e comoventes, a provação dos 25.334 pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desde o alistamento, treinamento e viagem, ao sangue derramado, especialmente, nas batalhas de Montese e Monte Castelo, em momentos de bravura e heroísmo dos nossos combatentes em condições dramaticamente adversas.

De outra parte, os relatos da fracassada intentona comunista (1935), assim crismada por Assis Chateaubriand, e do fiasco do putsch integralista (1938) demonstram que a violência política esteriliza a concórdia, a tolerância, colocando em campos opostos personagens que viriam a ser, tempos depois, grandes democratas identificados pela consistente pesquisa histórica.

Ao concluir a leitura do primoroso livro, senti um puxão de orelha, uma advertência em relação ao que é ou que pode parecer uma fuga da assustadora realidade com suas misérias e grandezas. Não é o caminho. Não sei se existe e desconfio de que seja possível saber.

No entanto, a história, descrita com engenho e arte pelo jornalista, ensina: a nossa trincheira continua tropical, mestiça, diversa, assim nos brindou a natureza. Nela vicejam dificuldades, oportunidades e desafios. O maior desafio é construir a trincheira democrática. Depende de nós. Em se plantando, dá.

Em ataque à liberdade de expressão, Trump mira em quem ele odeia

Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça com uma repressão abrangente às principais instituições de mídia e oponentes políticos, seus assessores e aliados consideram as medidas do governo cruciais para estancar a desinformação e o discurso de ódio que podem levar à violência política. Mas o próprio Trump deixou claro repetidamente nos últimos dias que tem um objetivo diferente. Para ele, não se trata de discurso de ódio, mas de discurso que ele odeia — ou seja, discurso que o critica e ao seu governo.

Ele sugeriu que um grupo de manifestantes que gritaram com ele em um restaurante fosse processado sob as leis que visam a mafiosos. Exigiu que vários comediantes de programas noturnos que zombavam dele fossem retirados do ar. Ameaçou fechar emissoras de televisão que considerasse injustas com ele. Processou o New York Times por supostamente prejudicar sua reputação. E isso foi só na semana passada.


Ao ameaçar tomar medidas governamentais contra aqueles que o irritam, Trump consegue ser surpreendentemente transparente sobre o que o motiva. Ele fala regularmente sobre como jornalistas, comentaristas e atores políticos não deveriam ter "permissão" para serem tão duros com ele. Tendo nomeado um aliado partidário para comandar o FBI, ele reflete abertamente sobre quais críticos políticos gostaria de ver investigados.

Trump não é o único presidente a se irritar com a oposição ou com a cobertura jornalística, nem o primeiro a tentar punir aqueles que o irritaram. Mas, nos tempos modernos, nenhum presidente chegou tão longe no uso de seu poder para pressionar figuras da mídia e oponentes políticos, dizem historiadores.

Ao final de uma semana dominada por um acirrado debate nacional sobre a liberdade de expressão, após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, Trump resumiu sua opinião na sexta-feira com um comentário que teria sido chocante se feito por qualquer presidente anterior.

—Eles pegam uma ótima história e a transformam em algo ruim — disse ele a repórteres no Salão Oval, referindo-se aos noticiários da rede. — Vejam, eu acho que isso é realmente ilegal.

As explosões do presidente minam as justificativas apresentadas por seus próprios assessores. A secretária de Justiça, Pam Bondi, que inicialmente alegou ter o direito de investigar empresas que se recusaram a imprimir cartazes em memória de Kirk, posteriormente enfatizou que o governo está focado em discursos de ódio que ultrapassam os limites das ameaças de violência. Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), argumentou que muitas emissoras têm um viés progressista e não atendem aos padrões da agência para atender ao interesse público.

Na semana passada, Carr ameaçou impor consequências caso a rede ABC não tomasse medidas contra o apresentador Jimmy Kimmel, de um programa noturno, por seu comentário de que "a gangue MAGA" estava tentando caracterizar o suspeito do assassinato de Kirk "como algo diferente de um deles". O comentário era factualmente incorreto, argumentou o presidente da FCC, e parte de um "esforço conjunto para mentir para o povo americano". A Disney, dona da ABC, concordou e suspendeu o programa de Kimmel.

Mas Trump então deixou claro que tem um objetivo mais amplo e pessoal.

Em uma publicação nas redes sociais, o presidente comemorou a remoção de Kimmel e exigiu que outros dois apresentadores de programas noturnos, Jimmy Fallon e Seth Meyers, tivessem destino semelhante. "Isso deixa Jimmy e Seth, dois completos perdedores, na NBC de Fake News", escreveu o presidente. "A audiência deles também é horrível. Façam isso, NBC!!!"

Thomas Berry, diretor do Centro Robert A. Levy de Estudos Constitucionais do Instituto Cato, de cunho libertário, disse que o presidente refutou efetivamente a tentativa de Carr de sustentar que punir a ABC pela declaração de Kimmel seria uma aplicação justa e neutra das diretrizes da FCC.

"Isso dá continuidade ao padrão de Trump ser o pior inimigo de seus próprios advogados com suas declarações públicas", disse Berry. "Enquanto Carr se concentrou na suposta falsidade da declaração, Trump simplesmente admite que quer que a FCC persiga emissoras que não são amigáveis ​​a ele."

Questionada sobre as justificativas absurdas apresentadas por Trump e funcionários do governo, Abigail Jackson, porta-voz da Casa Branca, disse:

— O presidente Trump é um forte defensor da liberdade de expressão e está certo, as emissoras licenciadas pela FCC há muito tempo são obrigadas a seguir padrões básicos.

Trump volta a ameaçar licenças de transmissão da NBC e ABC por cobertura 'injusta'.

Ela acrescentou que "o governo Biden, na verdade, atacou a liberdade de expressão ao exigir que as empresas de mídia social removessem as postagens dos americanos".

O vice-presidente JD Vance também apontou as alegações de censura apresentadas contra o presidente Joe Biden para defender as ações do governo Trump. "A reclamação da esquerda sobre a 'liberdade de expressão' após os anos Biden não engana ninguém", escreveu ele nas redes sociais na sexta-feira.

O governo Biden instou as empresas de mídia social a impedirem a proliferação do que considerou desinformação sobre a Covid-19. Os republicanos alegaram que isso equivalia a uma coerção inconstitucional para censurar opiniões impopulares, e um juiz emitiu uma liminar, mas a Suprema Corte rejeitou a contestação, alegando que os autores não tinham legitimidade para processar.

Outros presidentes buscaram pressionar as organizações de notícias de maneiras menos expansivas. O presidente Richard Nixon tentou bloquear a publicação dos Documentos do Pentágono, que detalhavam as falhas do governo americano na Guerra do Vietnã, e seus aliados contestaram as licenças das emissoras de televisão de propriedade do editor do Washington Post, cuja cobertura do caso Watergate o enfureceu.

A Casa Branca do presidente George W. Bush excluiu o Times do plano do vice-presidente Dick Cheney de dar um tempo, por desgosto com uma matéria. O governo do presidente Barack Obama conduziu mais investigações de vazamentos do que todos os seus antecessores juntos e certa vez tentou excluir a Fox News de uma entrevista conjunta para repórteres de televisão, apenas para recuar quando outras redes protestaram.

Mas a campanha de Trump contra os meios de comunicação foi muito além da de seus antecessores modernos, tomando forma muito antes do assassinato de Kirk. Mesmo antes de seu último processo contra o Times, ele processou a ABC, a CBS e o The Wall Street Journal. Cortei o financiamento federal para a PBS e a NPR. Ele agiu para desmantelar emissoras governamentais, incluindo a Voz da América, a Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade, a Rádio Martí, a Rádio Ásia Livre e a Middle East Broadcasting Networks.

Ele expulsou a Associated Press do grupo de imprensa da Casa Branca porque ela se recusou a chamar o Golfo do México de "Golfo da América". E a Casa Branca assumiu o controle total do grupo de imprensa, determinando quais organizações de notícias teriam permissão para entrar no Salão Oval ou no Força Aérea Um para fazer perguntas, algo que nenhum outro presidente tentou.

A semana passada trouxe mais exemplos. Na segunda-feira, Trump disse que havia pedido a Bondi que considerasse "abrir processos RICO contra" os manifestantes que gritaram com ele no restaurante, referindo-se ao estatuto de extorsão usado para processar a Máfia.

Na terça-feira, Trump explodiu com Jonathan Karl, da ABC News, por perguntar sobre o plano de Bondi de combater o "discurso de ódio". Ela "provavelmente iria atrás de pessoas como você", ele retrucou, "porque você me trata tão injustamente". Quando Karl retomou o assunto no Salão Oval na sexta-feira, Trump o repreendeu novamente.

— Você é culpado, Jon — disse ele.

Durante seu voo de volta de Londres na noite de quinta-feira, Trump disse a repórteres no Air Force One que seu governo deveria restringir as emissoras que transmitissem coberturas excessivamente negativas em relação a ele.

— Eu acho que talvez a licença deles devesse ser retirada — disse ele.

Indagado se realmente achava que os manifestantes do restaurante deveriam ir para a cadeia, ele redobrou a aposta.

— Quando você observa a maneira como eles agiram, a maneira como se comportaram, sim, acho que eles eram uma ameaça — disse o presidente.

Um silêncio nada inocente

"O eterno silêncio desses espaços infinitos me assusta". O enigmático fragmento dos "Pensamentos", de Pascal, é oportuno a quem queira pautar o silêncio público dos militares sobre o julgamento da trama golpista. Ainda é silente o murmúrio de "página virada". E silêncio tem voz interna. Se majoritário, é um susto com dupla face, tanto para a civilidade como para essa mesma maioria, relutante quanto a um golpe sem carimbo clássico, isto é, sem apoio americano e liderado por um clã miliciano. Foi por um triz.

Aceito esse viés atemorizante, seria também oportuno remontar a Juan Huarte de San Juan, médico e filósofo espanhol do século 16, precursor da psicologia bélica. Para ele, "os homens dotados de notáveis capacidades intelectuais não valem nada no campo militar, porque suas virtudes são perigosas na guerra: de fato, a calma, a retidão, o agir de modo claro, a simplicidade e a misericórdia, na guerra, não só não servem para nada como levam à derrota.

Quem combate não deve ter escrúpulos morais, porque o inimigo não os terá: para isso, não lhe basta a coragem, deve estar igualmente disposto à mentira e à traição" (Mário Perniola em "Disgusti").

Não era uma crítica. Juan Huarte analisava a relação entre disposição de espírito e vocação para uma tarefa específica. Aos combatentes cabia só infligir danos aos inimigos. Em tese, o influxo posterior do humanismo doutrinário nas convenções internacionais deveria matizar a crueldade das matanças.

Mas a continuidade do arcaico espírito de corpo gera um pensamento estratégico qualitativamente diferente na instituição armada.

Isso significa a persistência da ideia de guerra como um processo natural de estabilização das relações de poder, portanto, superior à instabilidade da busca sociopolítica por harmonia. Na essência da cultura militar, ela é a constante que marginaliza ou relativiza os valores de civilidade.

Guerra é, assim, injeção de ódio na veia tanto em tempo de conflito como de paz. Nela, o novo é a tecnologia da morte. Sua razão, sempre velha, repete regras e modelos que aparentam reeducar a instituição. Mas sem visar pessoas concretas, as únicas que podem ser realmente educadas.

Paz também é conceito militar. Em quase dois séculos sem guerra, caso do Exército brasileiro, a paz nacional, regida por indevida pretensão tutelar, tem sido manchada por atentados contra a civilidade: quinze em 135 anos de República.

A ideologia da "guerra sem guerra" extravasa do plano externo para o interno, fomentando o desapreço, de que falava Juan Huarte, pelos valores alheios à caserna.

Daí o golpismo, doença senil das armas, polimorfa e endêmica nas Américas, cujas sequelas aparecem na ruína da política, na deseducação democrática, no deprimente barata-voa das vivandeiras de quartel.

O silêncio militar deixa intacto o contagioso vezo incivil. Rompê-lo com uma fala antigolpista, autorreparadora, seria tão histórico quanto o processo judicial. Um "fiat lux". O princípio espiritual chamado Nação é incompatível com "o país dos trogloditas, que devoram serpentes e carecem do comércio da palavra" (Borges, "El Aleph").

sábado, 20 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Distinção entre esquerda e direita é roupa que não serve mais

Aprendemos nos livros de História que os termos “esquerda” e “direita” nasceram na França, no fim do século XVIII: na Assembleia Nacional, os partidários da monarquia se sentavam do lado direito, e os simpatizantes da Revolução, do lado oposto. Desde então (grosso modo), esquerdistas são associados a democracia, coletivismo, internacionalismo, intervencionismo estatal e desejo de mudança; a direita, a elitismo, individualismo, nacionalismo, livre mercado e apego a que as coisas continuem do jeito em que estão. Hoje, isso virou um balaio de gatos.


A mesma esquerda que investiu contra o dicionário, considerando que o verbo “judiar” perpetuava o preconceito contra os judeus, embarcou de mala e cuia no antissemitismo. A pretexto de defender os palestinos, fez de Israel — única democracia do Oriente Médio — seu inimigo preferencial. E qualquer coisa é pretexto para que o antissemita enrustido saia do armário: bastou o ministro Luiz Fux divergir da condenação aos golpistas do 8 de Janeiro para que os piores epítetos fossem associados à sua origem judaica. Tivesse o voto sido do ex-ministro Joaquim Barbosa, veríamos os antirracistas rasgarem as cartilhas em que exibem suas virtudes igualitárias. Viesse a divergência de Cármen Lúcia, adeus sororidade e feminismo; no mínimo ouviríamos que lugar de mulher é no tanque e no fogão. Flávio Dino que ouse divergir, para ver o que é gordofobia. Parte da esquerda só é progressista até a página 2 — isso se as letras forem grandes, e as margens bem largas.

A direita, que bancou 21 anos de ditadura — com censura, tortura e prisões arbitrárias — tomou para si a defesa da (sua) liberdade de expressão. Faz-se de vítima da “ditadura da toga” — logo ela, que deitou e rolou com a ditadura da farda. Trocou a soberania por uma enorme bandeira americana e, depois de acusar os adversários de defender bandidos, aderiu em massa à blindagem dos delinquentes com assento no Congresso.

A turma da diversidade fez das feiras literárias um feudo de sua panelinha — e sobe nas tamancas quando alguém de seu campo é excluído. Pessoas “de bem” exigem que sejam expurgados das bibliotecas públicas livros que não rezem pelo seu catecismo. E ambos os lados reduzem a arte ao proselitismo – anticapitalista, antiwoke etc. Ninguém ainda ateou fogo, mas os fósforos já estão na mão.

São farinha do mesmo saco quem comemorou o assassinato de Marielle Franco e quem acha que o tiro que matou Charlie Kirk tornou o mundo um lugar melhor. Aliás, Kirk, que fazia turnês para debater com quem discordava dele, era chamado de fascista; Márcia Tiburi se recusou a conversar com quem não pensa da mesma forma que ela; e manteve a aura de antifa.

O pensador Augusto de Franco coloca a questão não em termos de esquerda ou direita, mas de liberais e iliberais. Os primeiros podem ser progressistas ou conservadores, mas defendem democracia, liberdade, pluralidade e preferem as reformas à ruptura. Os segundos são populistas, com um pé no autoritarismo e uma queda pela hegemonia — que é o golpismo por outros meios.

Visto por esse ângulo, Lula, Bolsonaro, Trump, Putin, Orbán, Ortega, Bukele, Maduro estão todos sentados do mesmo lado. Do outro — dos que prezam o diálogo e acham que a sociedade deve controlar o governo, não o contrário —, o que mais tem é cadeira vazia.

Financiadores do fascismo

Com ambição e estratégia, a extrema-direita mundial organiza-se para se estabelecer como um poder incontornável e abalar as estruturas da democracia no Ocidente. Para isso, não hesita em explorar a angústia dos desiludidos e o ódio. Mas, acima de tudo, ergue uma verdadeira rede internacional de apoio capaz de financiar arautos do neofascismo.

As ruas de Londres se transformaram num espelho do que o mundo democrático terá de lidar. Instigada por Elon Musk e organizada por um criminoso, a marcha de 150 mil extremistas contra a imigração foi um verdadeiro terremoto político. Seu líder, Tommy Robinson, já cumpriu cinco mandados de prisão em 20 anos. No Twitter, teve a conta com 400 mil seguidores bloqueada por entoar o racismo e a xenofobia explícita como bandeira. Mas Musk, quando transformou a plataforma em X, restabeleceu o espaço para o britânico. Em poucos meses, ele passou a ter 1,4 milhão de seguidores. O bilionário sul-africano, segundo o US ­Center for Countering Digital Hate, faturou milhões com a volta do ativista britânico às redes sociais. Musk, enquanto isso, passou a pressionar partidos de extrema-direita no Reino Unido a considerar a adesão do ativista em seus quadros.


Dias antes da marcha, as estimativas da polícia local eram de que, no máximo, 40 mil apareceriam para o evento. Pelas ruas de Londres, com uma massa quatro vezes maior, Robinson mostrava-se vingativo. “Eles nos subestimaram”, alertou. Num telão gigante, Musk mandou uma mensagem de confronto. “Ou lutamos ou morremos”. Sua proposta: dissolver o Parlamento britânico.

A demonstração de força não foi um ato isolado. Robinson passou a ser apoiado financeiramente por bilionários norte-americanos. Um deles, Robert Shillman, tem bancado movimentos pela Europa e nos EUA há anos, graças à fortuna amea­lhada no setor de tecnologia. Robinson chegou a receber um salário do bilionário para supostamente aparecer como comentarista de um canal nas redes sociais.

O mesmo Shillman destinou 200 mil euros para o líder da extrema-direita holandesa, Geert Wilders, se defender nas Cortes contra processos que o acusavam de xenofobia e racismo. Em retribuição, o holandês passou a defender o britânico Robinson sempre que ele era detido.

Em 2017, o bilionário recebeu Wilders para uma premiação nos EUA. Num discurso, apontou para a necessidade de uma “luta existencial” para proteger o Ocidente dos ataques de “islamistas e da esquerda, que querem nos destruir”. Naquele instante, ele abriu um cheque e, com uma caneta, anunciou: “Forneço munição para aqueles que estão na linha de frente”.

Em casa, Shillman foi ainda mais generoso. Seu dinheiro financiou a influenciadora Katie Hopkins, que chegou a comparar imigrantes a baratas. Outra beneficiada do dinheiro do bilionário foi Laura ­Loomer, conselheira extra-oficial de Donald Trump e uma das principais disseminadoras de teorias conspiratórias. Seu dinheiro ainda engordou as diferentes campanhas de Trump. Em 2016, ele bancou um cartaz gigante na Times Square, em Nova York, mostrando o republicano como ­Superman. Central ainda no destino do dinheiro de Shillman tem sido o Project ­Veritas, uma operação cuidadosamente desenhada para espalhar desinformação.

Havia, no entanto, uma grande aposta no talão de cheque de Shillman: a turnê de Charlie Kirk pelas universidades norte-americanas e seu programa Turning Point USA. Em 2022, Kirk recebeu o bilionário em seu podcast. O episódio falaria das “lições de vida” de Shillman. O influenciador ainda descreveu o bilionário como um “apoiador incrivelmente generoso do Turning Point USA”.

Não por acaso, quando o cativante arauto da juventude ultraconservadora foi morto, a extrema-direita rapidamente uniu-se com uma mensagem coe­sa: uma declaração de guerra à esquerda e a transformação do ativista numa espécie de mártir global extremista.

Trump, horas depois de confirmada sua morte, afirmou que a esquerda é “diretamente responsável pelo terrorismo que estamos vendo em nosso país hoje”. Prometeu ainda que seu governo encontraria “todos e cada um daqueles que contribuíram para esta atrocidade e para outras violências políticas, incluindo as organizações que as financiam e apoiam”.

“A esquerda é o partido do assassinato”, postou Elon Musk. “A esquerda é terrorista”, escreveu Loomer. “Precisamos calar esses esquerdistas lunáticos. De uma vez por todas. A esquerda é uma ameaça à segurança nacional.” Pelas redes sociais, uma hashtag ganhou força: “Guerra civil”.

Imediatamente, nas ruas de Londres, os organizadores da marcha de Robinson usaram a morte de Kirk para convocar apoiadores para o evento. E funcionou, acendendo todos os alertas entre as democracias sobre a capacidade de atuação em rede da extrema-direita globalizada.

Honramos Deus?

Estamos honrando a ideia da imagem de Deus que existe em todos os seres humanos?
Peter Beinart

Bolsonaro condenado e a dor das vítimas da pandemia

"Fiquei 22 dias em coma. Vi Paulo Gustavo morrer e o desgraçado me imitando com falta de ar! Eu vi isso… estava no pior dia da minha vida! Estava no pico alto da covid! Peguei porque saí para trabalhar para que minha família não ficasse na fila do osso." Esse desabafo foi feito pela profissional de marketing, Swelen Santos, no X, o antigo Twitter, no dia 11 de setembro, logo depois de o ex-presidente Jair Bolsonaro ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Ela não foi a única. Alguns momentos depois da divulgação da sentença, em meio a comemorações e lamentos de bolsonaristas, a dor das vítimas da pandemia começou a aparecer nas redes sociais em forma de gritos de revolta, de justiça e algum alívio.

Um vídeo onde uma mulher grita da janela: "pai, não foi mimimi! Nós conseguimos, pai. Não era uma gripezinha. Nós vencemos. É para você, pai", viralizou. A imagem é de 2022, gravada depois de Bolsonaro perder as eleições, mas muitos se sentiram representados pela homenagem da moça novamente. O vídeo foi seguido por centenas de declarações parecidas, feitas por pessoas que perderam familiares e amigos durante a pandemia e também se sentiam, de certa forma, vingadas.

"Minha avó morreu por causa da covid. Ela poderia perfeitamente estar conosco. Suas irmãs mais velhas estão todas vivas. É por você, vó", escreveu um jovem médico. Alguns contavam que perderam vários familiares ao mesmo tempo.


Lendo esses depoimentos, é difícil não se emocionar com tanta dor. E também não sentir raiva ao lembrar do descaso, do negacionismo, do atraso na compra de vacinas. Mas o que revolta mesmo é lembrar e rever momentos em que Jair Bolsonaro imitou pessoas com falta de ar (em março e maio de 2021, nos piores momentos da pandemia), respondeu para um repórter a uma pergunta sobre mortes na pandemia com a frase: "Não sou coveiro, tá". E disse: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar contando até quando? ", enquanto o Brasil enterrava milhares de pessoas por dia.

É estarrecedor que tenha existido um governante com tanta falta de empatia como Bolsonaro durante a pandemia. É repugnante. Tive amigos que morreram do vírus no Brasil na época, mas não consigo imaginar a dor e a revolta de quem perdeu parentes próximos e como resposta teve o governante do seu país gritando na sua cara "não sou coveiro!". Essas pessoas merecem alguma justiça.

O ex-presidente ainda não pagou pelos seus crimes durante o período. Segundo relatório apresentado pela CPI da Covid, realizada no fim de 2021, o ex-presidente cometeu nove crimes durante a pandemia. Entre eles, estão charlatanismo, crime de responsabilidade e incitação ao crime. Ele não chegou nem a ser julgado. Espero, sem muita esperança, que um dia ele pague por isso também.

Mas ele ser condenado a 27 anos de prisão já é uma lavada de alma para parentes e amigos das quase 700 mil pessoas que morreram de covid no seu governo, e também para todos nós que, de formas variadas, também passamos por esse trauma coletivo.

É tão horrível lembrar do período que às vezes dá vontade de simplesmente esquecer. Mas, como sempre se diz: "é preciso lembrar para que não se repita". E as vítimas da covid e da falta de empatia máxima não podem jamais serem esquecidas.

Bolsonaro foi condenado pelo STF por 4 votos contra 1. Mesmo assim, ainda é preciso que haja pressão para que ele cumpra a pena e pague pelos seus crimes. Depois disso, quem sabe um dia, poderemos torcer para que ele pague pelo que fez (e o que não fez) com as vítimas da pandemia e seus familiares. É pela democracia. Mas é por eles também.

Genocídio de Israel em Gaza: as vidas marrons que não importam

Houve um tempo, anos atrás, em que a imprensa de qualidade esclarecia os leitores com análises ponderadas sobre o que a lei e a moralidade significam, quando aplicadas a situações políticas contemporâneas.

Eles não desapareceram completamente, mas agora são muito menos numerosos no mainstream, como se tivessem sido deliberadamente deslocados para impedir que as pessoas se baseiem em opiniões informadas para pensar por si mesmas. Lembre-se de que a propaganda da "imprensa livre" é muito mais eficaz do que a propaganda estatal. "Grátis para quem?", perguntará o leitor ou telespectador, com razão.

O que cada vez mais vem à tona é a propaganda que reflete os vieses da linha política do veículo de notícias, imersa em pilhas de conversa fiada. Essa é a camisa de força da mídia na qual todos nós fomos amarrados.

Outro aspecto da situação mundial contemporânea é o que parece ser uma dissonância cognitiva generalizada, isto é, o abismo entre a realidade e o que as pessoas escolhem acreditar.

Isso só é crível se estivermos convencidos de que os políticos e os comentaristas da mídia não sabem realmente o que está acontecendo. Porque eles devem saber, mas não é nada crível, especialmente quando fecham os olhos para o genocídio.


Centenas de milhares de civis iraquianos foram assassinados durante a guerra contra seu país, liderada pelos EUA e pelo Reino Unido. Sim, assassinados. Não vamos usar o insípido "morreram" ou "foram mortos", pois este foi um assassinato em massa organizado pelo Estado de um povo indefeso.

O Iraque foi palco de um enocídio, dividido duas vezes, de 1991 a 2003 e, depois, do ataque de 2004.

É claro que não há nada de incomum em genocídios na história da humanidade, e agora temos outro, o genocídio de Gaza, um subconjunto do atual genocídio palestino, algo que é deliberadamente obscurecido com referências incessantes ao falso ponto de partida de 7 de outubro na mídia "ocidental".

Cada genocídio tem características distintas que vão além da característica comum de massacre em massa. Gaza se destaca porque o genocídio foi transmitido ao vivo. Esta é uma estreia pela qual Israel será sempre lembrado, mas Gaza também se destaca porque o Estado se vangloria do que está fazendo, porque a população celebra e pela atenção dada aos detalhes da destruição.

Isso vai desde o bombardeio de precisão de torres residenciais até o tiro certeiro nos testículos de meninos, passando pelo bombardeio preciso de um carro com milhares de balas para matar a jovem escondida lá dentro, sob os corpos de sua família.

Desde outubro de 2023, centenas de milhares de palestinos foram assassinados ou feridos. A perda em massa de membros arrancados dos corpos de crianças e adultos é "transformadora de vidas".

A mídia nos diz quem são os terroristas, não, como poderíamos pensar: os políticos, comandantes militares e soldados rasos responsáveis ​​por esse massacre, mas suas vítimas. Sim, a culpa é toda deles. Eles deveriam ter se deitado para morrer cem anos atrás, em vez de lutar contra o roubo de suas terras.

Charlie Kirk estava do lado de Israel, apesar das dúvidas que começava a ter, já que até mesmo os mais ferrenhos apoiadores de Israel começavam a questionar. Apenas na semana anterior ao assassinato de Kirk, Israel assassinou 500 palestinos em Gaza. Entre as centenas de milhares de mortos ou feridos, outros 500 mereciam apenas uma menção em uma página posterior da mídia "ocidental" saturada com o assassinato de uma única pessoa.

Em homenagem a Kirk, Barack Obama disse: "Esse tipo de violência desprezível não tem lugar em nossa sociedade". A frase foi repetida por Joe Biden ("não há lugar em nossa sociedade para esse tipo de violência") e Kamala Harris ("a violência política não tem lugar na América").

Essas respostas teriam sido melhor expressas, pois a violência política não deveria ter lugar em “nossa sociedade” porque, sem violência, não haveria Estados Unidos da América.

A violência começa com as guerras dos colonos brancos contra as tribos nativas e passa para a violência contra a população negra para garantir a supremacia branca e os valores cristãos, a violência dos colonos uns contra os outros (a guerra civil) e a violência contra presidentes (quatro assassinados, além de outros assassinatos).

Há também a violência jurídica (contra Saccho e Vanzetti e muitos outros), a violência policial/FBI contra inimigos declarados do Estado e a violência corporativa contra trabalhadores. De uma forma ou de outra, a violência sempre foi política.

Respondendo ao assassinato de Kirk, Trump se referiu às "consequências trágicas de demonizar aqueles com quem você discorda" e ao "tipo de retórica que compara americanos maravilhosos a nazistas, assassinos em massa e criminosos" que é "diretamente responsável pelo terrorismo que estamos vendo em nosso país hoje".

Esse "tipo de retórica" ​​é o mesmo tipo de retórica que Trump tem usado, com seus insultos à "Hillary corrupta", ao "Joe Biden corrupto", ao "Bernie maluco" (Sanders) e àquela "degenerada nojenta" Nancy Pelosi. A questão aqui não é a desonestidade ou a falta de decoro de Clinton e Biden, mas a completa falta de decoro.

Não se trata de um falastrão desabafando num bar de esquina. Este é o presidente dos Estados Unidos, mas é isso que acontece quando se elege alguém com um longo histórico de violência verbal para o cargo mais alto do país.

Trump tem seus motivos para se vingar dos democratas e da mídia, mas agora está indo muito além. Os inimigos estão por toda parte e todos precisam ser eliminados. Ele já estava fazendo isso, mas o choque causado pelo assassinato de Kirk permitiu que ele imediatamente ampliasse a caça às bruxas para um ataque em larga escala.

Agora, Trump está perseguindo organizações que "financiam e apoiam a violência política", bem como "aqueles que perseguem nossos juízes e agentes da lei" e "todos os outros que trazem ordem às nossas ruas" (incluindo os agentes mascarados do ICE que mataram alguém nas ruas outro dia).

Esses inimigos do povo e do Estado não são radicais ou organizações terroristas. Nem são os esquerdistas demonizados por Trump, porque não há esquerda na corrente dominante, exceto os mais moderados, e eles são muito poucos em número.

No mundo Trump, os inimigos internos são liderados pelas universidades e seus jovens, as vítimas. Harvard já está sendo desfinanciada. Professores estão perdendo seus empregos e alunos, suas bolsas de estudo, ou estão sendo expulsos do país por se oporem ao genocídio na Palestina, apoiado por Trump e sua comitiva.

"Antissemitismo" é o código para se livrar deles. Nesse sentido, a UC Berkeley acaba de entregar os nomes de 160 professores e alunos suspeitos ao Departamento Federal de Educação, e isso vai continuar acontecendo.

O assassinato de Charlie Kirk está transformando a crescente onda de fascismo populista em uma maré de avalanche em outros lugares. Em Londres, cartazes de Kirk foram erguidos no protesto em massa da supremacia branca anti-imigração "Unite the Kingdom". Kirk é agora uma figura icônica e mártir da extrema direita global.

A figura dominante no protesto em Londres foi o amigo antimuçulmano de Israel e ex-membro assalariado do fascista BNP (Partido Nacional Britânico), Tommy Robinson. Elon Musk enviou um grito de guerra incendiário por vídeo para Londres e o mundo, dizendo aos manifestantes para "revidarem ou morrerem".

Nos EUA, o assassinato de Kirk e o "nacionalismo cristão" de Kirk estão fazendo o sentimento público retornar à retórica do padre populista do rádio dos anos 1930, Padre Coghlan.

Repreendido em suas transmissões semanais para milhões de pessoas, seus inimigos do povo eram comunistas, socialistas, capitalistas, marxistas, banqueiros e judeus, todos se unindo para destruir os Estados Unidos. Sua Frente Cristã era outro veículo para sua bile. Joe McCarthy e o macartismo, voltados para comunistas, marxistas, a ONU e o "unimundialismo", surgiram na década de 1950.

Além do fato de que fazer violência e fazer tortas de maçã são coisas tão americanas quanto as outras, há a longa história de violência americana descarregada em outros países na sede de dominação global e dos recursos de outras pessoas.

"A violência não tem lugar na nossa sociedade", dizem Obama, Biden e Harris, quando claramente tem, mas a violência americana em outras sociedades, infinitamente mais destrutiva do que qualquer coisa em casa, não deveria ter lugar na sociedade americana?

Os democratas são tão violentos quanto seus rivais republicanos armados. Afinal, foi um democrata que ordenou o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, e foram democratas que levaram os EUA a guerras na Coreia e no Sudeste Asiático que mataram milhões de civis.

Na sua época, Barack Obama assinava uma ordem executiva toda terça-feira para "execuções" seletivas em países distantes e empobrecidos (principalmente o Iêmen), que matavam inúmeras mulheres e crianças, além de seus alvos pretendidos.

Obama então elevou o assassinato à destruição de um país inteiro, a Líbia, com base em mentiras contadas na ONU para justificar a imposição de uma zona de exclusão aérea. Milhares foram mortos, Muammar Al-Gaddafi foi assassinado e o país mais desenvolvido da África foi destruído quando Obama e a OTAN libertaram sua vítima. Isso foi verdadeiramente "violência desprezível" cometida pelo homem que agora condena a violência desprezível.

Em suas redes sociais, Megyn Kelly chorou ao saber que Charlie Kirk havia sido assassinado. Isso era compreensível. Elas compartilhavam o mesmo viés ideológico de direita, e Kirk era um amigo pessoal, mas compare as lágrimas dela com sua reação à morte e à fome de crianças em Gaza.

Ela atribuiu isso certa vez aos "palestinos e suas incríveis habilidades de propaganda... eles colocaram tudo isso em cena para garantir que víssemos". Na opinião dela, essas "afirmações" não eram reais, mas sim parte do "compromisso vitalício dos palestinos com a propaganda".

Kelly não pode ser perdoada por não saber nada melhor. Ela é inteligente, articulada, formada em direito e perfeitamente capaz de descobrir a verdade em Gaza, em vez de encobri-la com essas declarações idiotas.

Comparada à torrente de lágrimas por Charlie Kirk, Megyn Kelly não derramou nenhuma pelas vítimas do massacre israelense em Gaza. Só recentemente ela recuou um pouco em seu apoio a Israel, não porque o país esteja cometendo genocídio, mas porque se tornou o vilão do mundo "ao deixar isso continuar por tanto tempo". Então, basicamente, o problema é de relações públicas.

Depois, temos Trump, o assassino de Qasim Suleimani, pedindo repetidamente a Israel que "termine o trabalho" em Gaza, destruindo-a e expulsando seu povo.

Trump ficou tomado de tristeza, raiva e choque com o assassinato de Charlie Kirk, mas não de nada com o massacre em massa de crianças em Gaza. Por que ficaria, se ele é o responsável por isso?

Até George Bush se juntou, lamentando “este jovem assassinado a sangue frio”, enquanto permaneceu indiferente às centenas de milhares de pessoas assassinadas no Iraque durante sua presidência e a de seu pai.

Isso não é dissonância cognitiva. Todos os poderosos sabem exatamente o que está acontecendo em Gaza. Eles não podem deixar de saber. Obama sabe. Megyn Kelly sabe, todos eles sabem. Israel pode ser repugnante para eles, mas eles não vão dizer isso.

Eles têm coisas mais importantes em mente do que genocídio. Seus índices de audiência, seus patrocinadores, seus anunciantes, sua riqueza pessoal, suas conexões políticas e o poder do lobby israelense. Eles não vão se colocar em risco. Nem mesmo o assassinato em massa de crianças os move à ação.

Lágrimas sem fim por Charlie Kirk, mas nenhuma lágrima pelas dezenas de milhares de vidas ceifadas por mísseis israelenses, projéteis de tanques e fogo de franco-atiradores em Gaza. Todos assassinados por Israel com as armas e a cobertura política fornecidas pelos EUA.

Mesmo após séculos de destruição imperialista, algumas coisas não mudam. Vidas negras importam em casa (ou deveriam importar), mas massas de vidas negras e pardas longe de casa não. Mesmo uma vida branca conta mais. As dezenas de milhares de palestinos mortos são apenas mais um atropelamento na estrada da "civilização ocidental" e do posto avançado bárbaro que ela implantou no coração do Oriente Médio.

Martírio de Charlie Kirk dá jeito a Trump

Os fatos. O primeiro de todos: Charlie Kirk, um influentíssimo e bem financiado ativista ultraconservador, um eficaz e proselitista embaixador da nova direita radical e do trumpismo junto da juventude, nas escolas e nas redes sociais, foi assassinado a tiro ao fazer uso da palavra, numa universidade no Utah, no passado dia 10. Foi vítima de um crime repulsivo para quem preza sociedades livres e democráticas, onde se possa dizer o que se pensa, mesmo que se pense disparates. Não devia ser necessário fazer este ponto prévio, mas aqui estamos.

A condenação do assassinato de Kirk não tem de se tornar num exercício hagiográfico. Entre os tais disparates que Kirk tinha direito a pensar e a dizer, dentro da extraordinária latitude de exercício de liberdade de expressão que os Estados Unidos costumavam permitir, estavam várias opiniões criticáveis por muitos.


Para Kirk, e perante a longa sucessão de tiroteios em escolas e outros espaços públicos nos EUA, “algumas mortes todos os anos” eram “o custo” justo do direito à posse de armas. Era crítico do marco legislativo de 1964 que pôs termo à discriminação legal de pessoas afro-americanas, achando que tinha sido sobretudo um “ataque” contra os americanos brancos, e admitia que ficava nervoso de cada vez que apanhava um piloto negro no avião, desconfiando por princípio das suas qualificações.

Os judeus, dizia Kirk, controlavam “tudo” e eram os responsáveis pela “grande substituição” demográfica que denunciava (leia-se: pelo fato de os EUA serem cada vez mais diversos e menos brancos e anglo-saxónicos, uma evolução que considerava nociva; era contudo um apoiante de Benjamin Netanyahu. Dizia-se um feroz defensor da liberdade de expressão, mas a sua organização juvenil, a Turning Point USA, fazia listas de professores conotados com causas sociais ou de esquerda, incentivando boicotes e despedimentos.

Uma coisa não justifica outra. Oferece-lhe contexto, contudo. O presumível autor do crime, Tyler Robinson (e diz-nos sobretudo o governador republicano local, Spencer Cox, figura sóbria ao lado do desvario comunicacional do FBI e da Administração Trump), odiaria Kirk e o que este defendia. Terá passado por um processo recente de radicalização política, que o afastou dos ideais da sua família conservadora, e manteria uma relação com uma pessoa em processo de transição de gênero (que Cox, novamente, faz questão de ressalvar que está “chocada” com o crime e que tem sido “muito cooperante” com as autoridades), colocando-o nos antípodas das posições transfóbicas de Kirk.

Quando ainda falta saber bastante sobre o presumível homicida, que se mantém em silêncio, e sobre os seus motivos, o pouco que se conhece, o tal contexto, é suficiente para traçar um cenário plausível de violência política.

É tentador, e relativamente fácil, colocar Robinson e a sua ação num dos lados do espectro do extremismo político, à esquerda, num pólo aparentemente oposto ao de Kirk. Há, no entanto, uma dimensão sincretista e niilista visível nas inscrições que o atirador desenhou nos cartuchos das balas que foram encontradas na cena do crime, que é semelhante à que se lia nos escritos deixados por Robin Westman, que matou duas crianças numa igreja do Minnesota em agosto, e que encaixa também no pouquíssimo que se sabe da vida de Thomas Matthew Crooks, o jovem que tentou matar Donald Trump em julho de 2024, e que nos exige cautela.

Crooks, que odiaria Trump, tinha escrito mensagens xenófobas e anti-semitas em fóruns online. Westman, que se encontrava num processo de transição de género, tanto escreveu “morte a Trump” como “seis milhões não foi suficiente”, e tinha uma aparente obsessão com extremistas sérvios e o massacre anti-muçulmano de Christchurch. Robinson tanto gravou inscrições anti-fascistas como escreveu uma piada homofóbica nos cartuchos.

No que acreditavam afinal os três? Deixam para trás um puzzle mais complexo para montar do que as pistas claras de outros atiradores. Mesmo que Robinson e Crooks sejam autores de actos de violência contra figuras republicanas, de direita, e que Westman tenha atacado crianças cristãs, a sua motivação exacta é nebulosa e suscita interrogações sobre o papel do tal niilismo que parece reinar nas subcaves da Internet.

Outro exemplo ainda: o de Nikita Casap, de 17 anos, detido em Março no Wisconsin, que assassinou os pais e que queria matar Trump para “acelerar o colapso” da sociedade norte-americana. Seguia a Ordem dos Nove Ângulos, um grupo extremista que funde crenças pagãs e nazis, e que pertence a uma constelação de organizações como a 764, bastante mais recente e violenta.

O que aconteceu no Utah, tal como o que aconteceu no comício de Trump na Pensilvânia, no ano passado, pode por isso ser bastante mais complexo do que é imediatamente aparente, e pode ter mais a ver com aquilo a que Spencer Cox, ele uma vez mais, apontou o dedo no dia seguinte ao assassinato de Kirk: ao “cancro” das redes sociais e à violência extrema das imagens e dos escritos que circulam na internet, os quais “não temos sequer capacidade biológica de processar”, como disse o governador republicano, e que parecem ter um impacto particularmente perigoso em jovens socialmente isolados, psicologicamente fragilizados e com fácil acesso a armas.

Nesse sentido, será Kirk tão diferente das outras vítimas cujas mortes o ativista disse serem o preço a pagar pela liberdade de posse de arma?

Mas mesmo antes de haver um suspeito detido, um rosto e um nome a procurar, Trump já tinha uma narrativa para a morte de Kirk e um guião das consequências. Kirk tinha sido morto por alguém incentivado pelos “radicais lunáticos de esquerda” que equiparam os republicanos aos “nazis”. Dava voz ao que, minutos após o atentado, se dizia nas franjas mais radicais do trumpismo, de Steve Bannon a Laura Loomer, do proscrito Alex Jones ao atual rosto do horário nobre da Fox News, Jesse Waters: que os EUA estão agora em “guerra” e que a direita, com o apoio do aparelho do Estado, tem um pretexto e uma oportunidade para perseguir e punir a esquerda.

A reação de Trump, disse Barack Obama, aproveitando para elogiar Cox, afasta-se dos exemplos passados de moderação presidencial (após o 11 de Setembro, o republicano George W. Bush fez questão de dizer que os EUA não estavam “em guerra contra o islão”). O Presidente é um dos responsáveis pelo atual ambiente de polarização e radicalização ao “chamar adversários políticos de vermes, de inimigos que têm de ser destruídos”, acusou o democrata. Trump, alertou Obama, aproxima agora o país de “uma crise política de um tipo que nunca vimos”. Em resposta, a Casa Branca disse que era Obama precisamente “o arquiteto da divisão política atual”.

O que tem acontecido nos últimos dias, desde despedimentos de professores e jornalistas por comentários (não necessariamente desrespeitosos) sobre a morte de Kirk à elaboração de listas públicas com dezenas de milhares de outros nomes a demitir e ostracizar, ou à primeira emissão póstuma do programa de Charlie Kirk, conduzida pelo vice-presidente J.D. Vance, onde Stephen Miller, conselheiro presidencial, prometeu “usar todos os recursos disponíveis dos departamentos de Justiça e Segurança Interna, e de todo o Governo, para identificar, desarticular, desmantelar e destruir” organizações ditas “terroristas” de esquerda, é mais um exemplo da instrumentalização de crises reais ou imaginárias por parte da Administração Trump para executar um projeto político de tendência autoritária.

Este guião já tinha sido seguido nos últimos meses. O pretexto do combate ao antisemitismo serviu para a Administração Trump tomar controle de parte do ensino superior e para deter ativistas pró-palestinos. A desculpa do combate ao crime colocou militares nas ruas de cidades sob gestão democrata. Supostos excessos esquerdistas e fábulas sobre fraudes financeiras levaram ao despedimento de milhares de funcionários públicos, ao fim de décadas de ajuda externa, da autonomia dos museus e bibliotecas, ou do financiamento da rádio pública. Os alegados abusos dos parceiros internacionais deram azo a um reordenamento geopolítico cujos efeitos ainda são imprevisíveis.

Também são imprevisíveis os efeitos da “purga” que se desenha após a morte de Kirk. Mas são potencialmente mais graves, pelo menos no plano interno. A frequência da palavra “guerra” e os alertas de ex-presidentes e das últimas figuras lúcidas do Partido Republicano deviam alarmar a Casa Branca. Não há, contudo, desta vez, adultos na Sala Oval.