sábado, 20 de setembro de 2025

Financiadores do fascismo

Com ambição e estratégia, a extrema-direita mundial organiza-se para se estabelecer como um poder incontornável e abalar as estruturas da democracia no Ocidente. Para isso, não hesita em explorar a angústia dos desiludidos e o ódio. Mas, acima de tudo, ergue uma verdadeira rede internacional de apoio capaz de financiar arautos do neofascismo.

As ruas de Londres se transformaram num espelho do que o mundo democrático terá de lidar. Instigada por Elon Musk e organizada por um criminoso, a marcha de 150 mil extremistas contra a imigração foi um verdadeiro terremoto político. Seu líder, Tommy Robinson, já cumpriu cinco mandados de prisão em 20 anos. No Twitter, teve a conta com 400 mil seguidores bloqueada por entoar o racismo e a xenofobia explícita como bandeira. Mas Musk, quando transformou a plataforma em X, restabeleceu o espaço para o britânico. Em poucos meses, ele passou a ter 1,4 milhão de seguidores. O bilionário sul-africano, segundo o US ­Center for Countering Digital Hate, faturou milhões com a volta do ativista britânico às redes sociais. Musk, enquanto isso, passou a pressionar partidos de extrema-direita no Reino Unido a considerar a adesão do ativista em seus quadros.


Dias antes da marcha, as estimativas da polícia local eram de que, no máximo, 40 mil apareceriam para o evento. Pelas ruas de Londres, com uma massa quatro vezes maior, Robinson mostrava-se vingativo. “Eles nos subestimaram”, alertou. Num telão gigante, Musk mandou uma mensagem de confronto. “Ou lutamos ou morremos”. Sua proposta: dissolver o Parlamento britânico.

A demonstração de força não foi um ato isolado. Robinson passou a ser apoiado financeiramente por bilionários norte-americanos. Um deles, Robert Shillman, tem bancado movimentos pela Europa e nos EUA há anos, graças à fortuna amea­lhada no setor de tecnologia. Robinson chegou a receber um salário do bilionário para supostamente aparecer como comentarista de um canal nas redes sociais.

O mesmo Shillman destinou 200 mil euros para o líder da extrema-direita holandesa, Geert Wilders, se defender nas Cortes contra processos que o acusavam de xenofobia e racismo. Em retribuição, o holandês passou a defender o britânico Robinson sempre que ele era detido.

Em 2017, o bilionário recebeu Wilders para uma premiação nos EUA. Num discurso, apontou para a necessidade de uma “luta existencial” para proteger o Ocidente dos ataques de “islamistas e da esquerda, que querem nos destruir”. Naquele instante, ele abriu um cheque e, com uma caneta, anunciou: “Forneço munição para aqueles que estão na linha de frente”.

Em casa, Shillman foi ainda mais generoso. Seu dinheiro financiou a influenciadora Katie Hopkins, que chegou a comparar imigrantes a baratas. Outra beneficiada do dinheiro do bilionário foi Laura ­Loomer, conselheira extra-oficial de Donald Trump e uma das principais disseminadoras de teorias conspiratórias. Seu dinheiro ainda engordou as diferentes campanhas de Trump. Em 2016, ele bancou um cartaz gigante na Times Square, em Nova York, mostrando o republicano como ­Superman. Central ainda no destino do dinheiro de Shillman tem sido o Project ­Veritas, uma operação cuidadosamente desenhada para espalhar desinformação.

Havia, no entanto, uma grande aposta no talão de cheque de Shillman: a turnê de Charlie Kirk pelas universidades norte-americanas e seu programa Turning Point USA. Em 2022, Kirk recebeu o bilionário em seu podcast. O episódio falaria das “lições de vida” de Shillman. O influenciador ainda descreveu o bilionário como um “apoiador incrivelmente generoso do Turning Point USA”.

Não por acaso, quando o cativante arauto da juventude ultraconservadora foi morto, a extrema-direita rapidamente uniu-se com uma mensagem coe­sa: uma declaração de guerra à esquerda e a transformação do ativista numa espécie de mártir global extremista.

Trump, horas depois de confirmada sua morte, afirmou que a esquerda é “diretamente responsável pelo terrorismo que estamos vendo em nosso país hoje”. Prometeu ainda que seu governo encontraria “todos e cada um daqueles que contribuíram para esta atrocidade e para outras violências políticas, incluindo as organizações que as financiam e apoiam”.

“A esquerda é o partido do assassinato”, postou Elon Musk. “A esquerda é terrorista”, escreveu Loomer. “Precisamos calar esses esquerdistas lunáticos. De uma vez por todas. A esquerda é uma ameaça à segurança nacional.” Pelas redes sociais, uma hashtag ganhou força: “Guerra civil”.

Imediatamente, nas ruas de Londres, os organizadores da marcha de Robinson usaram a morte de Kirk para convocar apoiadores para o evento. E funcionou, acendendo todos os alertas entre as democracias sobre a capacidade de atuação em rede da extrema-direita globalizada.

Honramos Deus?

Estamos honrando a ideia da imagem de Deus que existe em todos os seres humanos?
Peter Beinart

Bolsonaro condenado e a dor das vítimas da pandemia

"Fiquei 22 dias em coma. Vi Paulo Gustavo morrer e o desgraçado me imitando com falta de ar! Eu vi isso… estava no pior dia da minha vida! Estava no pico alto da covid! Peguei porque saí para trabalhar para que minha família não ficasse na fila do osso." Esse desabafo foi feito pela profissional de marketing, Swelen Santos, no X, o antigo Twitter, no dia 11 de setembro, logo depois de o ex-presidente Jair Bolsonaro ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Ela não foi a única. Alguns momentos depois da divulgação da sentença, em meio a comemorações e lamentos de bolsonaristas, a dor das vítimas da pandemia começou a aparecer nas redes sociais em forma de gritos de revolta, de justiça e algum alívio.

Um vídeo onde uma mulher grita da janela: "pai, não foi mimimi! Nós conseguimos, pai. Não era uma gripezinha. Nós vencemos. É para você, pai", viralizou. A imagem é de 2022, gravada depois de Bolsonaro perder as eleições, mas muitos se sentiram representados pela homenagem da moça novamente. O vídeo foi seguido por centenas de declarações parecidas, feitas por pessoas que perderam familiares e amigos durante a pandemia e também se sentiam, de certa forma, vingadas.

"Minha avó morreu por causa da covid. Ela poderia perfeitamente estar conosco. Suas irmãs mais velhas estão todas vivas. É por você, vó", escreveu um jovem médico. Alguns contavam que perderam vários familiares ao mesmo tempo.


Lendo esses depoimentos, é difícil não se emocionar com tanta dor. E também não sentir raiva ao lembrar do descaso, do negacionismo, do atraso na compra de vacinas. Mas o que revolta mesmo é lembrar e rever momentos em que Jair Bolsonaro imitou pessoas com falta de ar (em março e maio de 2021, nos piores momentos da pandemia), respondeu para um repórter a uma pergunta sobre mortes na pandemia com a frase: "Não sou coveiro, tá". E disse: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar contando até quando? ", enquanto o Brasil enterrava milhares de pessoas por dia.

É estarrecedor que tenha existido um governante com tanta falta de empatia como Bolsonaro durante a pandemia. É repugnante. Tive amigos que morreram do vírus no Brasil na época, mas não consigo imaginar a dor e a revolta de quem perdeu parentes próximos e como resposta teve o governante do seu país gritando na sua cara "não sou coveiro!". Essas pessoas merecem alguma justiça.

O ex-presidente ainda não pagou pelos seus crimes durante o período. Segundo relatório apresentado pela CPI da Covid, realizada no fim de 2021, o ex-presidente cometeu nove crimes durante a pandemia. Entre eles, estão charlatanismo, crime de responsabilidade e incitação ao crime. Ele não chegou nem a ser julgado. Espero, sem muita esperança, que um dia ele pague por isso também.

Mas ele ser condenado a 27 anos de prisão já é uma lavada de alma para parentes e amigos das quase 700 mil pessoas que morreram de covid no seu governo, e também para todos nós que, de formas variadas, também passamos por esse trauma coletivo.

É tão horrível lembrar do período que às vezes dá vontade de simplesmente esquecer. Mas, como sempre se diz: "é preciso lembrar para que não se repita". E as vítimas da covid e da falta de empatia máxima não podem jamais serem esquecidas.

Bolsonaro foi condenado pelo STF por 4 votos contra 1. Mesmo assim, ainda é preciso que haja pressão para que ele cumpra a pena e pague pelos seus crimes. Depois disso, quem sabe um dia, poderemos torcer para que ele pague pelo que fez (e o que não fez) com as vítimas da pandemia e seus familiares. É pela democracia. Mas é por eles também.

Genocídio de Israel em Gaza: as vidas marrons que não importam

Houve um tempo, anos atrás, em que a imprensa de qualidade esclarecia os leitores com análises ponderadas sobre o que a lei e a moralidade significam, quando aplicadas a situações políticas contemporâneas.

Eles não desapareceram completamente, mas agora são muito menos numerosos no mainstream, como se tivessem sido deliberadamente deslocados para impedir que as pessoas se baseiem em opiniões informadas para pensar por si mesmas. Lembre-se de que a propaganda da "imprensa livre" é muito mais eficaz do que a propaganda estatal. "Grátis para quem?", perguntará o leitor ou telespectador, com razão.

O que cada vez mais vem à tona é a propaganda que reflete os vieses da linha política do veículo de notícias, imersa em pilhas de conversa fiada. Essa é a camisa de força da mídia na qual todos nós fomos amarrados.

Outro aspecto da situação mundial contemporânea é o que parece ser uma dissonância cognitiva generalizada, isto é, o abismo entre a realidade e o que as pessoas escolhem acreditar.

Isso só é crível se estivermos convencidos de que os políticos e os comentaristas da mídia não sabem realmente o que está acontecendo. Porque eles devem saber, mas não é nada crível, especialmente quando fecham os olhos para o genocídio.


Centenas de milhares de civis iraquianos foram assassinados durante a guerra contra seu país, liderada pelos EUA e pelo Reino Unido. Sim, assassinados. Não vamos usar o insípido "morreram" ou "foram mortos", pois este foi um assassinato em massa organizado pelo Estado de um povo indefeso.

O Iraque foi palco de um enocídio, dividido duas vezes, de 1991 a 2003 e, depois, do ataque de 2004.

É claro que não há nada de incomum em genocídios na história da humanidade, e agora temos outro, o genocídio de Gaza, um subconjunto do atual genocídio palestino, algo que é deliberadamente obscurecido com referências incessantes ao falso ponto de partida de 7 de outubro na mídia "ocidental".

Cada genocídio tem características distintas que vão além da característica comum de massacre em massa. Gaza se destaca porque o genocídio foi transmitido ao vivo. Esta é uma estreia pela qual Israel será sempre lembrado, mas Gaza também se destaca porque o Estado se vangloria do que está fazendo, porque a população celebra e pela atenção dada aos detalhes da destruição.

Isso vai desde o bombardeio de precisão de torres residenciais até o tiro certeiro nos testículos de meninos, passando pelo bombardeio preciso de um carro com milhares de balas para matar a jovem escondida lá dentro, sob os corpos de sua família.

Desde outubro de 2023, centenas de milhares de palestinos foram assassinados ou feridos. A perda em massa de membros arrancados dos corpos de crianças e adultos é "transformadora de vidas".

A mídia nos diz quem são os terroristas, não, como poderíamos pensar: os políticos, comandantes militares e soldados rasos responsáveis ​​por esse massacre, mas suas vítimas. Sim, a culpa é toda deles. Eles deveriam ter se deitado para morrer cem anos atrás, em vez de lutar contra o roubo de suas terras.

Charlie Kirk estava do lado de Israel, apesar das dúvidas que começava a ter, já que até mesmo os mais ferrenhos apoiadores de Israel começavam a questionar. Apenas na semana anterior ao assassinato de Kirk, Israel assassinou 500 palestinos em Gaza. Entre as centenas de milhares de mortos ou feridos, outros 500 mereciam apenas uma menção em uma página posterior da mídia "ocidental" saturada com o assassinato de uma única pessoa.

Em homenagem a Kirk, Barack Obama disse: "Esse tipo de violência desprezível não tem lugar em nossa sociedade". A frase foi repetida por Joe Biden ("não há lugar em nossa sociedade para esse tipo de violência") e Kamala Harris ("a violência política não tem lugar na América").

Essas respostas teriam sido melhor expressas, pois a violência política não deveria ter lugar em “nossa sociedade” porque, sem violência, não haveria Estados Unidos da América.

A violência começa com as guerras dos colonos brancos contra as tribos nativas e passa para a violência contra a população negra para garantir a supremacia branca e os valores cristãos, a violência dos colonos uns contra os outros (a guerra civil) e a violência contra presidentes (quatro assassinados, além de outros assassinatos).

Há também a violência jurídica (contra Saccho e Vanzetti e muitos outros), a violência policial/FBI contra inimigos declarados do Estado e a violência corporativa contra trabalhadores. De uma forma ou de outra, a violência sempre foi política.

Respondendo ao assassinato de Kirk, Trump se referiu às "consequências trágicas de demonizar aqueles com quem você discorda" e ao "tipo de retórica que compara americanos maravilhosos a nazistas, assassinos em massa e criminosos" que é "diretamente responsável pelo terrorismo que estamos vendo em nosso país hoje".

Esse "tipo de retórica" ​​é o mesmo tipo de retórica que Trump tem usado, com seus insultos à "Hillary corrupta", ao "Joe Biden corrupto", ao "Bernie maluco" (Sanders) e àquela "degenerada nojenta" Nancy Pelosi. A questão aqui não é a desonestidade ou a falta de decoro de Clinton e Biden, mas a completa falta de decoro.

Não se trata de um falastrão desabafando num bar de esquina. Este é o presidente dos Estados Unidos, mas é isso que acontece quando se elege alguém com um longo histórico de violência verbal para o cargo mais alto do país.

Trump tem seus motivos para se vingar dos democratas e da mídia, mas agora está indo muito além. Os inimigos estão por toda parte e todos precisam ser eliminados. Ele já estava fazendo isso, mas o choque causado pelo assassinato de Kirk permitiu que ele imediatamente ampliasse a caça às bruxas para um ataque em larga escala.

Agora, Trump está perseguindo organizações que "financiam e apoiam a violência política", bem como "aqueles que perseguem nossos juízes e agentes da lei" e "todos os outros que trazem ordem às nossas ruas" (incluindo os agentes mascarados do ICE que mataram alguém nas ruas outro dia).

Esses inimigos do povo e do Estado não são radicais ou organizações terroristas. Nem são os esquerdistas demonizados por Trump, porque não há esquerda na corrente dominante, exceto os mais moderados, e eles são muito poucos em número.

No mundo Trump, os inimigos internos são liderados pelas universidades e seus jovens, as vítimas. Harvard já está sendo desfinanciada. Professores estão perdendo seus empregos e alunos, suas bolsas de estudo, ou estão sendo expulsos do país por se oporem ao genocídio na Palestina, apoiado por Trump e sua comitiva.

"Antissemitismo" é o código para se livrar deles. Nesse sentido, a UC Berkeley acaba de entregar os nomes de 160 professores e alunos suspeitos ao Departamento Federal de Educação, e isso vai continuar acontecendo.

O assassinato de Charlie Kirk está transformando a crescente onda de fascismo populista em uma maré de avalanche em outros lugares. Em Londres, cartazes de Kirk foram erguidos no protesto em massa da supremacia branca anti-imigração "Unite the Kingdom". Kirk é agora uma figura icônica e mártir da extrema direita global.

A figura dominante no protesto em Londres foi o amigo antimuçulmano de Israel e ex-membro assalariado do fascista BNP (Partido Nacional Britânico), Tommy Robinson. Elon Musk enviou um grito de guerra incendiário por vídeo para Londres e o mundo, dizendo aos manifestantes para "revidarem ou morrerem".

Nos EUA, o assassinato de Kirk e o "nacionalismo cristão" de Kirk estão fazendo o sentimento público retornar à retórica do padre populista do rádio dos anos 1930, Padre Coghlan.

Repreendido em suas transmissões semanais para milhões de pessoas, seus inimigos do povo eram comunistas, socialistas, capitalistas, marxistas, banqueiros e judeus, todos se unindo para destruir os Estados Unidos. Sua Frente Cristã era outro veículo para sua bile. Joe McCarthy e o macartismo, voltados para comunistas, marxistas, a ONU e o "unimundialismo", surgiram na década de 1950.

Além do fato de que fazer violência e fazer tortas de maçã são coisas tão americanas quanto as outras, há a longa história de violência americana descarregada em outros países na sede de dominação global e dos recursos de outras pessoas.

"A violência não tem lugar na nossa sociedade", dizem Obama, Biden e Harris, quando claramente tem, mas a violência americana em outras sociedades, infinitamente mais destrutiva do que qualquer coisa em casa, não deveria ter lugar na sociedade americana?

Os democratas são tão violentos quanto seus rivais republicanos armados. Afinal, foi um democrata que ordenou o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, e foram democratas que levaram os EUA a guerras na Coreia e no Sudeste Asiático que mataram milhões de civis.

Na sua época, Barack Obama assinava uma ordem executiva toda terça-feira para "execuções" seletivas em países distantes e empobrecidos (principalmente o Iêmen), que matavam inúmeras mulheres e crianças, além de seus alvos pretendidos.

Obama então elevou o assassinato à destruição de um país inteiro, a Líbia, com base em mentiras contadas na ONU para justificar a imposição de uma zona de exclusão aérea. Milhares foram mortos, Muammar Al-Gaddafi foi assassinado e o país mais desenvolvido da África foi destruído quando Obama e a OTAN libertaram sua vítima. Isso foi verdadeiramente "violência desprezível" cometida pelo homem que agora condena a violência desprezível.

Em suas redes sociais, Megyn Kelly chorou ao saber que Charlie Kirk havia sido assassinado. Isso era compreensível. Elas compartilhavam o mesmo viés ideológico de direita, e Kirk era um amigo pessoal, mas compare as lágrimas dela com sua reação à morte e à fome de crianças em Gaza.

Ela atribuiu isso certa vez aos "palestinos e suas incríveis habilidades de propaganda... eles colocaram tudo isso em cena para garantir que víssemos". Na opinião dela, essas "afirmações" não eram reais, mas sim parte do "compromisso vitalício dos palestinos com a propaganda".

Kelly não pode ser perdoada por não saber nada melhor. Ela é inteligente, articulada, formada em direito e perfeitamente capaz de descobrir a verdade em Gaza, em vez de encobri-la com essas declarações idiotas.

Comparada à torrente de lágrimas por Charlie Kirk, Megyn Kelly não derramou nenhuma pelas vítimas do massacre israelense em Gaza. Só recentemente ela recuou um pouco em seu apoio a Israel, não porque o país esteja cometendo genocídio, mas porque se tornou o vilão do mundo "ao deixar isso continuar por tanto tempo". Então, basicamente, o problema é de relações públicas.

Depois, temos Trump, o assassino de Qasim Suleimani, pedindo repetidamente a Israel que "termine o trabalho" em Gaza, destruindo-a e expulsando seu povo.

Trump ficou tomado de tristeza, raiva e choque com o assassinato de Charlie Kirk, mas não de nada com o massacre em massa de crianças em Gaza. Por que ficaria, se ele é o responsável por isso?

Até George Bush se juntou, lamentando “este jovem assassinado a sangue frio”, enquanto permaneceu indiferente às centenas de milhares de pessoas assassinadas no Iraque durante sua presidência e a de seu pai.

Isso não é dissonância cognitiva. Todos os poderosos sabem exatamente o que está acontecendo em Gaza. Eles não podem deixar de saber. Obama sabe. Megyn Kelly sabe, todos eles sabem. Israel pode ser repugnante para eles, mas eles não vão dizer isso.

Eles têm coisas mais importantes em mente do que genocídio. Seus índices de audiência, seus patrocinadores, seus anunciantes, sua riqueza pessoal, suas conexões políticas e o poder do lobby israelense. Eles não vão se colocar em risco. Nem mesmo o assassinato em massa de crianças os move à ação.

Lágrimas sem fim por Charlie Kirk, mas nenhuma lágrima pelas dezenas de milhares de vidas ceifadas por mísseis israelenses, projéteis de tanques e fogo de franco-atiradores em Gaza. Todos assassinados por Israel com as armas e a cobertura política fornecidas pelos EUA.

Mesmo após séculos de destruição imperialista, algumas coisas não mudam. Vidas negras importam em casa (ou deveriam importar), mas massas de vidas negras e pardas longe de casa não. Mesmo uma vida branca conta mais. As dezenas de milhares de palestinos mortos são apenas mais um atropelamento na estrada da "civilização ocidental" e do posto avançado bárbaro que ela implantou no coração do Oriente Médio.

Martírio de Charlie Kirk dá jeito a Trump

Os fatos. O primeiro de todos: Charlie Kirk, um influentíssimo e bem financiado ativista ultraconservador, um eficaz e proselitista embaixador da nova direita radical e do trumpismo junto da juventude, nas escolas e nas redes sociais, foi assassinado a tiro ao fazer uso da palavra, numa universidade no Utah, no passado dia 10. Foi vítima de um crime repulsivo para quem preza sociedades livres e democráticas, onde se possa dizer o que se pensa, mesmo que se pense disparates. Não devia ser necessário fazer este ponto prévio, mas aqui estamos.

A condenação do assassinato de Kirk não tem de se tornar num exercício hagiográfico. Entre os tais disparates que Kirk tinha direito a pensar e a dizer, dentro da extraordinária latitude de exercício de liberdade de expressão que os Estados Unidos costumavam permitir, estavam várias opiniões criticáveis por muitos.


Para Kirk, e perante a longa sucessão de tiroteios em escolas e outros espaços públicos nos EUA, “algumas mortes todos os anos” eram “o custo” justo do direito à posse de armas. Era crítico do marco legislativo de 1964 que pôs termo à discriminação legal de pessoas afro-americanas, achando que tinha sido sobretudo um “ataque” contra os americanos brancos, e admitia que ficava nervoso de cada vez que apanhava um piloto negro no avião, desconfiando por princípio das suas qualificações.

Os judeus, dizia Kirk, controlavam “tudo” e eram os responsáveis pela “grande substituição” demográfica que denunciava (leia-se: pelo fato de os EUA serem cada vez mais diversos e menos brancos e anglo-saxónicos, uma evolução que considerava nociva; era contudo um apoiante de Benjamin Netanyahu. Dizia-se um feroz defensor da liberdade de expressão, mas a sua organização juvenil, a Turning Point USA, fazia listas de professores conotados com causas sociais ou de esquerda, incentivando boicotes e despedimentos.

Uma coisa não justifica outra. Oferece-lhe contexto, contudo. O presumível autor do crime, Tyler Robinson (e diz-nos sobretudo o governador republicano local, Spencer Cox, figura sóbria ao lado do desvario comunicacional do FBI e da Administração Trump), odiaria Kirk e o que este defendia. Terá passado por um processo recente de radicalização política, que o afastou dos ideais da sua família conservadora, e manteria uma relação com uma pessoa em processo de transição de gênero (que Cox, novamente, faz questão de ressalvar que está “chocada” com o crime e que tem sido “muito cooperante” com as autoridades), colocando-o nos antípodas das posições transfóbicas de Kirk.

Quando ainda falta saber bastante sobre o presumível homicida, que se mantém em silêncio, e sobre os seus motivos, o pouco que se conhece, o tal contexto, é suficiente para traçar um cenário plausível de violência política.

É tentador, e relativamente fácil, colocar Robinson e a sua ação num dos lados do espectro do extremismo político, à esquerda, num pólo aparentemente oposto ao de Kirk. Há, no entanto, uma dimensão sincretista e niilista visível nas inscrições que o atirador desenhou nos cartuchos das balas que foram encontradas na cena do crime, que é semelhante à que se lia nos escritos deixados por Robin Westman, que matou duas crianças numa igreja do Minnesota em agosto, e que encaixa também no pouquíssimo que se sabe da vida de Thomas Matthew Crooks, o jovem que tentou matar Donald Trump em julho de 2024, e que nos exige cautela.

Crooks, que odiaria Trump, tinha escrito mensagens xenófobas e anti-semitas em fóruns online. Westman, que se encontrava num processo de transição de género, tanto escreveu “morte a Trump” como “seis milhões não foi suficiente”, e tinha uma aparente obsessão com extremistas sérvios e o massacre anti-muçulmano de Christchurch. Robinson tanto gravou inscrições anti-fascistas como escreveu uma piada homofóbica nos cartuchos.

No que acreditavam afinal os três? Deixam para trás um puzzle mais complexo para montar do que as pistas claras de outros atiradores. Mesmo que Robinson e Crooks sejam autores de actos de violência contra figuras republicanas, de direita, e que Westman tenha atacado crianças cristãs, a sua motivação exacta é nebulosa e suscita interrogações sobre o papel do tal niilismo que parece reinar nas subcaves da Internet.

Outro exemplo ainda: o de Nikita Casap, de 17 anos, detido em Março no Wisconsin, que assassinou os pais e que queria matar Trump para “acelerar o colapso” da sociedade norte-americana. Seguia a Ordem dos Nove Ângulos, um grupo extremista que funde crenças pagãs e nazis, e que pertence a uma constelação de organizações como a 764, bastante mais recente e violenta.

O que aconteceu no Utah, tal como o que aconteceu no comício de Trump na Pensilvânia, no ano passado, pode por isso ser bastante mais complexo do que é imediatamente aparente, e pode ter mais a ver com aquilo a que Spencer Cox, ele uma vez mais, apontou o dedo no dia seguinte ao assassinato de Kirk: ao “cancro” das redes sociais e à violência extrema das imagens e dos escritos que circulam na internet, os quais “não temos sequer capacidade biológica de processar”, como disse o governador republicano, e que parecem ter um impacto particularmente perigoso em jovens socialmente isolados, psicologicamente fragilizados e com fácil acesso a armas.

Nesse sentido, será Kirk tão diferente das outras vítimas cujas mortes o ativista disse serem o preço a pagar pela liberdade de posse de arma?

Mas mesmo antes de haver um suspeito detido, um rosto e um nome a procurar, Trump já tinha uma narrativa para a morte de Kirk e um guião das consequências. Kirk tinha sido morto por alguém incentivado pelos “radicais lunáticos de esquerda” que equiparam os republicanos aos “nazis”. Dava voz ao que, minutos após o atentado, se dizia nas franjas mais radicais do trumpismo, de Steve Bannon a Laura Loomer, do proscrito Alex Jones ao atual rosto do horário nobre da Fox News, Jesse Waters: que os EUA estão agora em “guerra” e que a direita, com o apoio do aparelho do Estado, tem um pretexto e uma oportunidade para perseguir e punir a esquerda.

A reação de Trump, disse Barack Obama, aproveitando para elogiar Cox, afasta-se dos exemplos passados de moderação presidencial (após o 11 de Setembro, o republicano George W. Bush fez questão de dizer que os EUA não estavam “em guerra contra o islão”). O Presidente é um dos responsáveis pelo atual ambiente de polarização e radicalização ao “chamar adversários políticos de vermes, de inimigos que têm de ser destruídos”, acusou o democrata. Trump, alertou Obama, aproxima agora o país de “uma crise política de um tipo que nunca vimos”. Em resposta, a Casa Branca disse que era Obama precisamente “o arquiteto da divisão política atual”.

O que tem acontecido nos últimos dias, desde despedimentos de professores e jornalistas por comentários (não necessariamente desrespeitosos) sobre a morte de Kirk à elaboração de listas públicas com dezenas de milhares de outros nomes a demitir e ostracizar, ou à primeira emissão póstuma do programa de Charlie Kirk, conduzida pelo vice-presidente J.D. Vance, onde Stephen Miller, conselheiro presidencial, prometeu “usar todos os recursos disponíveis dos departamentos de Justiça e Segurança Interna, e de todo o Governo, para identificar, desarticular, desmantelar e destruir” organizações ditas “terroristas” de esquerda, é mais um exemplo da instrumentalização de crises reais ou imaginárias por parte da Administração Trump para executar um projeto político de tendência autoritária.

Este guião já tinha sido seguido nos últimos meses. O pretexto do combate ao antisemitismo serviu para a Administração Trump tomar controle de parte do ensino superior e para deter ativistas pró-palestinos. A desculpa do combate ao crime colocou militares nas ruas de cidades sob gestão democrata. Supostos excessos esquerdistas e fábulas sobre fraudes financeiras levaram ao despedimento de milhares de funcionários públicos, ao fim de décadas de ajuda externa, da autonomia dos museus e bibliotecas, ou do financiamento da rádio pública. Os alegados abusos dos parceiros internacionais deram azo a um reordenamento geopolítico cujos efeitos ainda são imprevisíveis.

Também são imprevisíveis os efeitos da “purga” que se desenha após a morte de Kirk. Mas são potencialmente mais graves, pelo menos no plano interno. A frequência da palavra “guerra” e os alertas de ex-presidentes e das últimas figuras lúcidas do Partido Republicano deviam alarmar a Casa Branca. Não há, contudo, desta vez, adultos na Sala Oval.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


A imigração e o neofascismo

O fascismo, em sua definição nos trabalhos de Hannah Arendt, De Felipe e Mosse, é um sistema onde um grupo radical de direita se acerva do poder com discurso de ódio contra um inimigo interno e um inimigo externo. O fascismo prevalece quando há uma compressão das classes médias, receosas do socialismo e cansadas da falta de benefícios dos sistemas eleitorais democráticos, como ocorrido na Alemanha e na Itália nas décadas de 1920 a 1940, e hoje em países da Europa, nos Estados Unidos, Brasil, Argentina e outros. Na Alemanha, o inimigo externo era a Rússia e o comunismo, o inimigo interno os judeus; no Brasil, externo a Venezuela e Cuba, interno a esquerda; nos Estados Unidos, externo os países do mundo que “se aproveitam” das relações comerciais com os US, interno os imigrantes e a esquerda.


A questão imigratória é um problema crescente no mundo. No final do século XIX e início do século XX, os imigrantes europeus que vinham para as américas eram trabalhadores qualificados, espremidos no mercado de trabalho em seus países, diante dos países americanos com suas fronteiras em expansão. Atualmente, a grande massa de imigrantes é de trabalhadores sem qualificação, que tangem a pobreza, excedentes em seus países. Hoje, o percentual de imigrantes nos Estados Unidos é de 15,3% de sua população total, Canadá 21,3%, Alemanha 18,8%, Inglaterra 13,8%, França 13,1%. Na Rússia, 8,0%. Na China, 0,1%, Índia 0,4%, Coreia do Sul 3,4%, Japão 2,2%. No Brasil, 0,4%, México 0,9%, Argentina 5,0%.

De 1960 a 2024, o PIB dos Estados Unidos caiu de 40% para 26% do PIB mundial; o da União Europeia (ou dos países que hoje integram a União Europeia) de 22% para 17%; a China de 4% para 17%; os países do BRICS hoje somando 29%. O Brasil, de 1,2% para 1,9%.

O discurso político contra a imigração se dá, principalmente, nos Estados Unidos, Canadá, e países da Europa. No Canadá, país que até há pouco tempo estimulava a imigração de mão-de-obra qualificada, cresce a aversão aos imigrantes, que geram o aumento do preço dos imóveis, com pressão no sistema de saúde e de bens sociais. Na Inglaterra, manifestações contra a imigração nesta semana gravaram a suástica nazista em vários prédios do governo. Na Alemanha, o AfD (Alternative für Deutschland) superou, pela primeira vez nas pesquisas, a preferência partidária em relação aos outros partidos, com 26% da população. Na Espanha, com população de 49 milhões e 85 milhões de turistas ano, ocorreram neste ano manifestações contra a presença dos turistas em seu país, que geram o aumento do preço da moradia devido aos Airbnb, aumento do preço da comida, e sobrecarga do sistema urbano. No Brasil e Argentina, países com problemas crônicos de falta de desenvolvimento, e na ausência de percentuais significativos de imigrantes, o discurso interno é contra a esquerda e os liberais. Neste último ano, o Departamento de Ciências Sociais da USP foi atacado 8 vezes por extremistas da direita, ataques contra os “comunistas” da USP. Na China, Índia e outros países da Ásia, o crescimento econômico e das classes médias, devido ao processo de urbanização, industrialização e tecnologia, e na ausência de fluxos imigratórios significativos, livra esses países desta questão, pelo menos por enquanto.

E assim vamos caminhando para o absurdo.

Com PEC vergonhosa, Câmara chafurda em seu esgoto moral

Com a aprovação da PEC da blindagem, já consagrada como PEC da bandidagem, a Câmara dos Deputados mostrou até que ponto vai a delinquência de sua maioria nesta legislatura. Os representantes do povo traem a missão republicana e colocam-se à altura de suas mais baixas ambições.

A bateria de dispositivos para impedir que congressistas possam responder à Justiça por suspeita ou evidência de crimes é uma das iniciativas mais descaradas da história política brasileira. A instituição do voto secreto para negar o acesso da lei à casta parlamentar, em mutreta do invertebrado Hugo Motta e do Centrão, nos leva aos tempos da ditadura militar, quando se sustentava uma farsa no Congresso para tentar tapar com a peneira o vale tudo do arbítrio institucionalizado.


Não é demais sublinhar que a deterioração ética não é novidade, mas certamente se agravou recentemente graças ao desgoverno de Jair Bolsonaro, ao entregar o Orçamento nas mãos de uma quadrilha que desvia recursos bilionários de emendas para seus próprios bolsos ou os de seus asseclas. Bolsonaro, não custa dizer: o golpista sórdido e sádico, condenado com autoridade a 27 anos de prisão, para cuja eleição não faltou apoio de setores de nossa elite econômica de visão curta, subdesenvolvida e arrivista.

A PEC contou com o apoio de filiados ao Partido dos Trabalhadores — que foi contra a aprovação, enquanto o governo liberou sua base. Trata-se, portanto, de um naufrágio ético não da direita, embora majoritária, ou da esquerda, mas da politica brasileira. Ressalte-se, se serve para algum consolo, que houve quem dos dois lados do espectro tenha se recusado a chancelar o plano de impunidade, que mais parece encomenda do PCC.

Alguns alegaram que o voto dissidente petista ajudaria num fantasioso acordo, na bacia das almas, para evitar —e isso não aconteceu— a aprovação da urgência de um projeto sem texto de anistia para golpistas, bandeira de radicais bolsonaristas, com a liderança do deputado desertor Eduardo Bolsonaro, sob proteção da casa, que, por todos os motivos, já deveria ter sido cassado.

São tempos muito difíceis, não apenas por aqui. A monstruosa onda antidemocrática e belicista que percorre o mundo, da América ao Oriente, aliada à crescente violência política e criminal nos deixa a sensação de que estamos na antessala de uma catástrofe de grandes proporções.

Não há dia em que não sejamos tocados pela barbárie em suas mais diversas manifestações, nos mais diversos territórios, nas mais diferentes situações.

De volta à política brasileira, há motivos para nos orgulharmos de nossa democracia defensiva, mencionada em muitos países, por veículos e personalidades de prestígio, como um exemplo a ser seguido. Infelizmente, forças obscuras, que nos acompanham desde sempre, não querem ou não conseguem dar o passo necessário para virarmos a chave histórica.

Tais correntes profundas, de origem, afinal, escravista e colonial, não raro se disfarçam com os enfeites de um liberalismo formalista e anacrônico, típico de nosso reacionarismo de punhos de renda.

Não é o caso da maioria na Câmara, que honra mesmo o velho banditismo político e chafurda em seu esgoto moral. Caberá ao Senado, espera-se, barrar os descalabros.

Tragédia americana

Até a semana passada eu nunca tinha ouvido falar em Charlie Kirk. Agora tenho a impressão de não ter ouvido falar em outra coisa ao longo de muitos e muitos dias, ou talvez meia dúzia de dias, mas extremamente longos. Eu preferia a versão anterior. Ignorance is bliss, dizem eles, e sabem do que estão falando: a ignorância é uma bênção.

Eu vi o vídeo do assassinato.

Foi uma das coisas mais horripilantes que já vi na internet, e olha que já vi muitas coisas horripilantes na internet. Cheguei no século passado, quando tudo era mato e ainda havia aberrações explícitas ao alcance de pessoas desavisadas. Vi venda aberta de drogas e de armas, vi vídeos de crimes medonhos e maldades inconcebíveis — coisas que hoje só se encontram procurando com cuidado (ou frequentando o X, esgoto da pior experiência humana). Carrego cicatrizes na alma.

Pouco depois o vídeo passou a circular desfocado, mas àquela altura já havia uma tempestade de ódio — a esquerda comemorando abertamente o assassinato, gente rindo e dançando, a direita promovendo uma caça às bruxas desenfreada, endossada oficialmente pelo vice-presidente e por uma quantidade de parlamentares e funcionários de alto escalão que deveriam ter mais juízo e compostura.

Um circo de horrores. Uma parada macabra. Uma exibição do pior que existe, Humanidade em estado bruto, sem freios nem verniz.


Uma página criada para denunciar quem festejou o crime recebeu mais de 60 mil queixas em apenas dois dias. Empresas foram assediadas, pessoas perderam contratos e empregos. O paradoxo, aliás, é gritante: a extrema direita, que prega a liberdade absoluta de expressão, mostrou-se de repente profundamente abalada com a liberdade de expressão alheia. A liberdade, pelo visto, só serve quando ecoa a própria voz.

Um chefe de Estado responsável estaria fazendo o possível e o impossível para pacificar o país, mas Trump sendo Trump sequestrou o funeral, marcado para o próximo domingo, e vai tirar o máximo proveito de cada centelha de indignação. A página da organização de Kirk, em tpusa.com, anuncia a cerimônia como se fosse um grande espetáculo, com line-up das principais atrações: fotos de Erika Kirk, Donald Trump e J.D. Vance, além da presença confirmada de Marco Rubio, Pete Hegseth, Tucker Carlson e mais meia dúzia de estrelas do firmamento trumpista. Um showmício travestido de despedida fúnebre.

É tudo horrível.

Violência política não é novidade, sobretudo nos Estados Unidos, onde pessoas públicas são assassinadas com certa regularidade. A novidade talvez seja a visão do horror em tempo real, a multiplicação instantânea de imagens capazes de amplificar ressentimentos e fúrias. Foi assim com o assassinato de George Floyd, que incendiou o país há cinco anos, e é assim agora com o de Charlie Kirk, cujas consequências mal começam a se desenhar. O tiro que o acertou não derrubou só um corpo: atingiu em cheio uma sociedade polarizada e já muito fragmentada, onde qualquer tentativa de diálogo deixou de existir.

O Congresso e o teatro do absurdo

Uma cena estarrecedora no Congresso Nacional. Deputados orando de mãos dadas, aos gritos, após aprovarem a PEC que os blinda de punições por qualquer crime. Qualquer um. Estupro, assassinato, corrupção. Estamos diante de uma das piores encenações do Congresso Nacional. É o teatro do absurdo em ação.

“Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos do mal. Améééém”. Gargalhadas.

Sempre achamos que já vimos tudo de hipocrisia e cinismo no nosso Congresso. Mas nos enganamos. É um escárnio o presidente da Câmara, Hugo Motta, com aquele cabelo engomadinho esticado para trás, dizer que a PEC da Bandidagem “fortalece a atividade parlamentar”.


Outra declaração pra lá de cínica: “ajuda a pacificar a sociedade” a urgência da anistia para os golpistas de 8 de janeiro, já condenados pelo STF. Seria cômico se não fosse trágico. “O Brasil precisa de pacificação. Não se trata de apagar o passado (...) mas o país precisa andar”.

Andar pra trás. Até a senadora Damares Alves, colega de Motta no Republicanos, e ministra “terrivelmente cristã” no governo Bolsonaro, é contra a PEC da Blindagem. Meu Deus, pela primeira vez uma fala de Damares faz total sentido. A senadora que viu Jesus na goiabeira teve um acesso de lucidez.

“Essa PEC será recepcionada pela sociedade com muito horror”, disse Damares. “Imagine um parlamentar acusado de pedofilia, a minha causa. E para que um inquérito seja aberto contra ele, a gente é que vai decidir? No voto secreto? Ah não... é só questão de improbidade. Não, será todo um rol de crimes”.

PEC da bandidagem aprovada com louvor a Deus. Voto secreto. Para autorizar ou barrar investigações de coleguinhas, pois covardes são todos. Votação de anistia para os golpistas vândalos do Congresso e do Supremo, incitados por Bolsonaro e generais. Tudo madrugada adentro. Brigalhada por privilégios deixa aceso o bando de preguiçosos de terno e gravata.

Manobra para manter o mandato de um deputado que se autoexilou nos EUA para conspirar contra o Brasil. Aliás, como explicar para o eleitor que um líder da minoria na Câmara pode faltar à vontade e receber fora do país sua gorda remuneração como parlamentar – mas um deputado não?

Se os nobres deputados empregassem um centésimo dessa energia votando pautas que interessam à população, a Câmara estaria no caminho certo. Mas o que vemos é uma casta já privilegiada legislando freneticamente e sem pudor pela própria impunidade. Dá vergonha alheia. E sensação de impotência.

Claro que esses votos na Câmara podem ser revertidos pelo Senado de Davi Alcolumbre, hoje o maior acossado do Congresso. Claro que há etapas e obstáculos à frente do rolo compressor comandado pelo Centrão. O grande responsável pelo país não andar é o tíbio Hugo Motta. O Brasil espera não Godot, mas Alcolumbre. Será em vão?

O porquê de associar nosso Congresso ao Teatro do Absurdo é claro. Esse movimento teatral, surgido após a Segunda Guerra, expressava a desolação, a falta de sentido e a dificuldade de comunicação da humanidade. O crítico Martin Esslin cunhou assim peças que usam situações ilógicas para refletir sobre a condição humana.

A Câmara se tornou o palco do absurdo, dando inveja a Beckett, Ionesco e Jean Genet. E nós? Espectadores indignados, mas passivos, nos limitando a abaixo-assinados digitais, enquanto o mundo protesta nas ruas.

domingo, 14 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Sombras ocultas do poder

Numa série sobre ovnis, em meio a depoimentos de cientistas e militares, um deles justifica o acobertamento do fenômeno até para presidentes americanos: "O que faria Trump com esse segredo..." Jimmy Carter, único publicamente interessado na matéria, foi bloqueado por George Bush, então diretor da CIA. Verdadeiras ou não, as informações seriam apanágio de uma camada específica de poder, composta por militares, empresários e especialistas em engenharia reversa.


A olhos públicos, esse assunto oscila entre o ridículo e teorias da conspiração. Mas é plausível a hipótese de uma esfera de conhecimento isolada e protegida no âmago de uma potência mundial. Longe de entidade unitária, o Estado é um sistema de mediações jurídicas, políticas, empresariais, uma das quais pode se erigir em contrapoder paralelo. Dwight Eisenhower, o 34º presidente americano (1953-61), já advertia contra a hipertrofia do complexo industrial-militar. As inovações mais decisivas nos domínios bélico, científico e comercial, vedadas ao público, resultam da imbricação de militares e indústrias. Big techs são aspirantes recentes à parceria.

É assim possível conceber um político chegando ao topo para descobrir que o poder total não está mais lá. Acontece na superpotência, também em países periféricos onde o capitalismo financeiro redefine o território nacional por quantificação da vida e extração de recursos naturais. Nas corporações e nos porões institucionais, tramam-se agendas paralelas que tentam reger a vida política.

Antitética ao princípio de representação democrática, a razão digital e algorítmica é uma nova forma de extrativismo, alheia a questões de soberania. Implica uma reordenação social em que a política partidária se afigura como letra morta, da qual as estruturas montadas ainda não conseguem se desvencilhar. Destituídos de poder real, os políticos programados para ocupar posições de governo encenam o roteiro formal das regras parlamentares, mas como simulação da legitimidade representativa perdida.

Desse modo, a corrupção preenche formas vazias: escudado na Constituição em torno de seus próprios interesses, um parlamento pode isolar-se como máquina pública de chantagem. Entre nós, articulada a golpismo e crime organizado. Aos governantes, sem o monopólio dos discursos de escolhas e decisões que mantêm o sistema social, abre-se a avenida do histrionismo: interpretação burlesca de si mesmo e demanda exibicionista de atenção, sem o senso de decência que ao menos aparentava a direita liberal. Mas com método: detrás da palhaçada, o caos institucional atende à camada das sombras, um consórcio conjuntural de interesses extrativistas.

Modelos ativos: Trump e Milei. Condenado Bolsonaro, fica o bolsonarismo como "uma mistura tóxica de conspiração, ressentimento, fervor religioso e nostalgia da ordem militar" (Andre Pagliarini, brasilianista). Trump, agora sem bravata, lamentou: "Uma coisa terrível, eu pensava que ele era um bom homem". A isso se agarram as sombras, sem pátria, com a mesma esperança crédula em disco voador.

O óbvio

Essa condenação é exemplar, independentemente dos esforços dos apoiadores de Jair Bolsonaro para aprovar uma lei de anistia. Ela recorda a todos o que deveria ser óbvio: o primeiro princípio da democracia é que o exercício do poder depende do veredicto das urnas, e certamente não do saque às instituições.
Le Monde 

A geopolítica do quintalismo e nós

A cada dia e cada vez mais, e com crescente dificuldade, percebemos que a realidade social e política muda e se transfigura. Tão depressa que até mesmo nossa alfabetização foi relativizada, o vocabulário inundado por uma enxurrada de palavras diferentes, muitas que dizem algo que já supúnhamos dizer com as velhas e costumeiras palavras ensinadas por nossos avós e pais.

Um sentimento desconfortável de ignorância se apossa dos que, como eu, foram educados na certeza de que o saber é progressivo e acumulativo. O de fato aprendido, supostamente aprendido está. Mesmo o nosso mundo cotidiano, tradicionalmente tão repetitivo, já não se repete. O mundo de cada manhã é uma surpresa. Além do mais, o nosso pequeno mundo de seres do dia a dia é regulado por um grande mundo que não conhecíamos.


Na manhã de sábado, dia 6, li na primeira página do “New York Times” que o ainda presidente dos EUA decidira mudar o nome do seu Departamento de Defesa para Departamento de Guerra. Nestes dias, tomou decisões quanto ao deslocamento de navios de guerra americanos para o Caribe. Um ataque americano seria retaliação a um possível ataque da Venezuela. Justificou-se com suspeitas sobre a Venezuela. O velho truque de provocar a guerra para ter o pretexto de fazê-la.

Trump anunciou também seu desapontamento com o Brasil na questão do tarifaço. Ou seja, não é a Venezuela que está na mira dos canhões do agora Departamento de Guerra. Ou não é apenas. Trump quer arrastar a América do Sul a um novo cenário de conflitividade. Ele muda a geografia do mundo com o que se pode chamar de sua geopolítica do quintalismo.

Essa é a palavra nova. Alguém nos EUA fez referência, há algum tempo, que repercutiu na mídia, de que a América Latina é o quintal dos americanos. Continua sendo.

Justificam no Brasil de hoje o que é próprio do fascismo e do nazismo, nem mesmo faltando a suástica em bandeiras e em trajes em várias manifestações públicas. Todos, no fundo, a achar que quem é fascista e direitista é, ao mesmo tempo, patriota.

Escandalosa e acintosa, a imensíssima bandeira americana no desfile bolsonarista do dia 7 de setembro na avenida Paulista para não comemorar o dia da pátria. No caminhão-palanque os astros das pretensões antipatrióticas e antidemocráticas: o pastor Malafaia, o governador Tarcísio de Freitas, o gerente do PL e os acólitos da trama e do disfarce.

No mesmo momento em que o golpe de Estado está em julgamento e as primeiras sentenças para a cúpula da trama são anunciadas, a exibição descarada de que o golpe continua na manifestação quinta-coluna da simbólica avenida. É a continuidade do golpe de 1964.

Os cidadãos democráticos do país cometeram grave erro ao julgarem que o fim da ditadura militar de fato acabava com ela. Faltou-nos aqui uma providência como a que a Universidade da Califórnia em Berkeley fez nos estados no imediato pós-guerra: a referencial pesquisa sociológica sobre o Fator F (Fascismo), de uma equipe de cientistas liderados por Theodor W. Adorno, sobre personalidade autoritária nos EUA. Um estudo sobre a disponibilidade dos americanos para a aceitação do discurso antidemocrático e fascista.

De fato, nos anos 1950 a América manifestou traços de personalidade como o racismo, a intolerância ideológica, a variedade de preconceitos antissociais. Só aos poucos os movimentos sociais provocaram alguma superação da anomalia e do perigo.

Aqui, não fizemos nada disso. Ingenuamente, julgamos que o fim formal da ditadura militar era suficiente para estabelecer a democracia. Os democratas não foram capazes de perceber que a ditadura não fora derrotada. Fora apenas disfarçada.

Não era o PSDB o inimigo do PT, nem era FHC o adversário de Lula. O inimigo da democracia era o obscuro e tosco Bolsonaro e sua enorme competência para agregar e tanger a imensa massa que lhe deu o poder de desgovernar para desconstruir a democracia e, embora já preso, para se comportar como se ainda estivesse no poder. Ele e os seus. A imensa tropa da geopolítica do quintalismo.

O surto fascista deste momento nem é surto. É desdobramento rítmico e cíclico de nossa ansiedade permanente pelo retorno ao mandonismo que tem seu centro na reciprocidade binária da casa-grande e da senzala. As elites, com óbvias e notáveis exceções, vivem a nostalgia dessa relação de servidão.

Como se nota no comportamento dos Bolsonaros e dos bolsonaristas no servilismo antibrasileiro e traidor aos EUA, a Trump e sua corte antidemocrática, indicam a nossa cumplicidade com a geopolítica do quintalismo de Trump. Nos servos ideológicos brasileiros, parasitas do próprio governo americano somos nós que queremos a dominação imperialista, e não eles.

Domingo com (bleargh!) Bolsonaro

Desde 2019, quando Bolsonaro tomou posse na Presidência, emporcalhei este espaço várias vezes por semana citando o nome dele. As primeiras referências ainda eram sutis, como ao comentar sua declaração de que dormia no Alvorada com um revólver na cabeceira. Escrevi: "Qual é o problema? [No Catete] Getúlio Vargas também dormia". Hoje, Bolsonaro deve estar se perguntando se aquele hábito de Getúlio não seria uma boa ideia. Quando ele disse que só sairia do Planalto "preso, morto ou deposto" e que "não seria preso", vê-se que as alternativas não lhe eram estranhas.


Nesses seis anos em que falei dele com crescente asco, decidi só fazer isto nas colunas de meio da semana —nunca aos domingos e segundas. Não queria contribuir para azedar o café da manhã do leitor nos dias dedicados à restauração de forças para o trabalho. Durante esse tempo, tive a felicidade de contar com a aprovação de 90% dos leitores, contra comentários de ódio dos outros 10%. Como fiel respeitador da opinião dos leitores, nunca me ofendi com esses últimos, mesmo quando me atribuíam crenças que respeito, mas a que nunca fiz jus, como a de comunista, petista ou torcedor do Vasco.

Cedo decidi também não mais me referir a Bolsonaro como "presidente Jair Bolsonaro", muito menos como "presidente Bolsonaro" e nem mesmo como "Jair Bolsonaro". O espaço numa coluna é sagrado. Passei a chamá-lo só de "Bolsonaro", e sempre tapando o nariz. Por fim, outra importante decisão foi a de só parar de falar dele quando ele fosse preso.

Hoje quebro uma das promessas. Escrevo sobre ele num fim de semana, na certeza de que os ditos 90% de leitores me perdoarão alegremente. Os outros 10%, que também me honram com sua fidelidade, saberão compreender —espero. Bolsonaro enfim condenado à prisão é uma vitória do Brasil. Pena que com tantos anos de atraso, graças a um procurador-geral e a um presidente da Câmara que devem repugnar até seus próprios espelhos.

Bolsonaro está perto de ser preso. Mas assunto não me faltará.

sábado, 13 de setembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Gaza, a vila do apocalipse: fogo, espada e colapso da moralidade ocidental

Israel destruiu qualquer fé que as pessoas tinham em seus governos, suas instituições e nas leis acumuladas ao longo dos séculos para tornar o mundo um lugar mais seguro.

Israel está traumatizando milhões de pessoas ao redor do mundo. Talvez bilhões – os sociólogos começarão a trabalhar, um dia, e descobrirão. Esses milhões ou bilhões não conseguem acreditar no que estão vendo – o massacre diário em Gaza – mas precisam acreditar no que estão vendo.

Eles não conseguem acreditar que algum povo seja tão cruel, tão sádico, tão cheio de ódio e desprezo a ponto de querer aniquilar não apenas o povo, mas também suas casas, hospitais, escolas e universidades, até mesmo a grama e os campos sob seus pés. Sim, até o solo palestino é o inimigo.

Mas é isso que eles estão vendo e, portanto, precisam acreditar no que veem. O que eles também estão vendo é que esses assassinos estão se divertindo, estão felizes com sua destruição, se gabam disso e até mesmo alertam sobre mais por vir.

Esta não é uma minoria perturbada que talvez possa ser ajudada com cuidados psiquiátricos, mas o governo e – como as pesquisas mostram repetidamente – a maioria do povo israelense.


Até os nazistas escondiam o que estavam fazendo, mas esses assassinos de crianças, de idosos, de frágeis, de doentes e de deficientes, pessoas totalmente indefesas diante dessa violência, mostram ao mundo abertamente o que estão fazendo.

Eles se orgulham do seu trabalho. Nem um pingo de vergonha ao apontarem suas armas contra um povo desarmado. Eles nos dão tapas na cara todos os dias, como se dissessem, como o bandido comum de rua: "O que você vai fazer a respeito?"

Eles dizem isso com confiança porque sabem que têm muitos governos apoiando-os. Em vez de impedir o genocídio, esses governos estão impedindo as pessoas de se oporem a ele. Quase 900 pessoas foram presas no Reino Unido há poucos dias e mais de 400 poucos dias antes.

Não vivemos no terceiro milênio a.C. Vivemos no terceiro milênio após o início da era cristã. Não vivemos numa época em que pessoas seminuas e famintas acampavam em cavernas e perto de fogueiras, vigilantes dos predadores que as destruiriam. Ou será que vivemos? Não é coincidência que este mundo primitivo e predatório seja Gaza hoje, pois, na verdade, é o projeto de Netanyahu para o genocídio.

Israel destruiu toda a fé que as pessoas tinham em seus governos, suas instituições e as leis acumuladas ao longo dos séculos para tornar o mundo um lugar mais seguro. Seus "líderes" acabaram não sendo líderes, afinal, mas covardes e oportunistas.

A covardia total deles é extraordinária. Nem mesmo o genocídio é suficiente para que se mantenham de pé. Nem mesmo o assassinato de 20.000 crianças ou mais. Eles se encolhem diante desses assassinos em vez de enfrentá-los, confrontando-os com suas próprias armas, desafiando-os a vir e fazer o pior.

Eles poderiam acabar com isso amanhã sem precisar pegar em uma arma. Uma proibição total de todas as relações com Israel bastaria. Sem armas, sem dinheiro, sem relações diplomáticas e com suspensão da ONU, mas eles não ousam estender a mão, nem mesmo para pegar uma dessas armas.

Longe de qualquer tipo de boicote, o Reino Unido está prestes a receber o "presidente" da Palestina ocupada, também conhecido como "Israel", Isaac Herzog. Seu papel é descrito como "amplamente cerimonial", então não há problema em Starmer encontrá-lo caso ouse ir contra a opinião pública e parlamentar hostil.

Seu trabalho pode ser "em grande parte cerimonial", mas Herzog fala diretamente pelo regime e, até hoje, não repudiou a onda de sangue e violência em Gaza. O genocídio certamente não é "em grande parte cerimonial". Herzog é descrito como um "moderado", como qualquer um seria descrito, em comparação com Netanyahu e seus macabros ministros-chefes.

O "moderado" Herzog responsabiliza todos os palestinos pelo 7 de outubro e por tudo o que se seguiu. Ele exibe fotos de soldados israelenses emaciados mantidos em cativeiro em Gaza, mas nenhuma foto de crianças palestinas emaciadas ou de civis palestinos emaciados – não soldados – presos sem acusação em prisões israelenses.

Nos governos e instituições do supostamente civilizado "Ocidente", dificilmente há um homem que ouse desafiar Israel – mas há uma mulher, Francesca Albanese. No alto escalão internacional, ela é quase a única a ter a coragem de enfrentar esse regime genocida, apesar das ameaças de morte a si mesma e à sua família. Em uma ONU que está sendo constantemente destruída por Israel e Trump, ela é uma luz brilhante, a esperança de que nem tudo está perdido.

Israel avança a todo vapor rumo a um fim predeterminado. É claro que sempre venceu e, portanto, vencerá novamente. Vencer antes significa, axiomaticamente, que vencerá novamente, e novamente, e novamente. Vence por omissão, é claro, porque sem armas e dinheiro americanos, não poderia vencer nada.

Nesta fase completamente sombria e retrógrada da história humana, infinitamente pior que a selva de Hobbes por causa da tecnologia que permite aos poderosos massacrar os inocentes sem nenhum perigo para si mesmos, Israel está confiante de que nada pode detê-lo.

O bem-sucedido ataque com mísseis do Irã não é lido como um sinal para recuar e reconsiderar, mas para avançar e atacar o Irã novamente, como uma criatura cega que não sabe nada além de matar.

Fogo e espada entregaram a Palestina aos sionistas, não a moralidade e o respeito pelos direitos humanos e pelo direito internacional. Na verdade, foi o "Ocidente" que entregou a Palestina aos sionistas e depois os deixou escapar com a Nakba, mas, em sua visão autoinflada, os sionistas fizeram tudo sozinhos.

O que funcionou no passado – neste caso, fogo e espada – aparentemente sempre funcionará no futuro. Isso é uma ilusão, claro, já que o passado não é garantia para o presente, muito menos para o futuro, e porque o fogo e espada de Israel sempre foi fortemente subsidiado, primeiro pelo Reino Unido e pela França e, desde a década de 1960, em grande parte terceirizado dos EUA.

O que acontece se chegar o dia em que os EUA não forem capazes ou não estiverem dispostos a fornecer mais fogo e espada?

É preciso presumir que os planejadores de Israel levaram isso em consideração. Na visão deles, o "Grande Israel" acabará por lhes dar o território e os recursos – petróleo, gás natural e água, em particular – que permitirão a Israel finalmente prescindir de um "relacionamento especial". Mas os EUA precisam ser mantidos à disposição até que se chegue a esse ponto, pois é improvável que Israel encontre outro benfeitor.

A relação simbiótica entre os EUA e Israel tem servido bem a ambos, mas quando as rachaduras no "relacionamento especial" já estão aparecendo, Israel terá o apoio dos EUA até que seja capaz de se sustentar sozinho?

É comum que o povo americano ouça que os EUA e Israel compartilham valores e interesses, mas nenhum estado jamais compartilhou valores e interesses permanentemente, e os EUA e Israel não são exceção, apesar da retórica.

O genocídio de Gaza está agora transformando as rachaduras no "relacionamento especial" — expostas por Stephen Walt e John Mearsheimer em seu livro de 2007 sobre o lobby israelense — em uma divisão cada vez maior.

Mais políticos estão ousando se manifestar. O Congresso ainda está aprovando projetos de lei que apoiam totalmente Israel, mas houve uma pequena luz na votação de 27 senadores democratas a favor das resoluções de Bernie Sanders para bloquear duas vendas de armas a Israel. Elas não obtiveram apoio majoritário, mas são pelo menos uma brisa, significando uma mudança maior, à medida que mais congressistas e congressistas são incentivados a enfrentar o lobby.

Israel está apostando que, com o envolvimento dos EUA, poderá abrir caminho para uma paz de fogo e espada que lhe seja conveniente.

Esta será a concretização da "vila na selva" de Barak – em dois níveis, com todas as comodidades modernas, uma luz brilhante em meio a uma paisagem apocalíptica de aniquilação, para que a vila possa ser construída. O recente plano GREAT (Reconstituição, Aceleração e Transformação Econômica de Gaza) é a mais recente apoteose dessa loucura.

Israel age sem prudência e cautela, como se a "história" estivesse sempre do seu lado. Não estará, é claro, porque a história não funciona assim.

O tempo em que Israel era o filho favorito (do "Ocidente" e de mais ninguém) acabou há muito tempo.

A compaixão após o genocídio nazista foi substituída pelo poder duro do lobby, e o "Ocidente" terá dificuldade para se desvencilhar. Israel já está do lado errado da história, e a decadência nessa direção continuará.

O enigma

O espetáculo midiático foi bonito, cada um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) teve seu momento de grande exposição, mas a festa acabou. Surgiu um novo tempo, o ex-presidente e seus principais auxiliares serão presos, e há a perspectiva de a eleição de 2026 se transformar numa guerra de posições parecida com o que ocorre atualmente nos Estados Unidos, onde os divergentes se resolvem na base do tiro e da pancada. Todo mundo mata todo mundo.

O mundo está passando por um de seus períodos de loucura. A Rússia bombardeou a Polônia, que chamou os colegas da Otan a enfrentar o inimigo comum, o Exército de Moscou. A Europa está convulsionada. Israel bombardeou o Qatar para matar chefes do grupo Hamas. Nenhuma atenção foi dada ao fato de que as bombas caíram em país que não está em guerra com o país dos judeus. E Telaviv também já não dissimula que não pretende abrir espaço para um futuro país palestino. O mundo piorou nos últimos tempos, por consequência da atuação de líderes despreparados para exercer suas responsabilidades. O resultado dessa situação é a guerra, ou a política exercida por outros meios, seja chantagem econômico-financeira ou ameaça de conflito bélico.


Esse clima de confronto pesado chegou ao Brasil por intermédio de Jair Bolsonaro e seus auxiliares, civis e militares. Eles provocaram a população até um nível altíssimo com a reiterada convocação de militantes para invadir as sedes dos Poderes, a difusão da mensagem de que não haveria posse do presidente eleito, ou ao incentivo ao pessoal que participou da Festa da Selma. Todo o esforço teve como objetivo criar um clima de confusão administrativa e política dentro do país, que justificaria a adoção de medidas de Garantia da Lei e da Ordem, posteriormente. Ou seja, o golpe de Estado estava armado e preparado. Não se transformou em realidade porque os comandantes do Exército e da Aeronáutica não aceitaram participar da quartelada.

O Conselheiro Acácio, personagem inesquecível de Eça de Queiroz, só se manifestava para dizer o óbvio. Os bolsonaristas não vão desaparecer de um dia para o outro. Eles estarão presentes nas eleições de 2026, que terá como sujeito oculto o governo do presidente Trump. Os norte-americanos são capazes de articular golpes de Estado em qualquer lugar do mundo. A atuação do ministro Luiz Fux, que divergiu da maioria, foi melhor do que a encomenda, segundo relatos transcritos pela imprensa brasileira de comentários feitos em Washington. Ninguém esperava que ele fosse tão enfático na defesa de Bolsonaro e seus asseclas.

Fux, com seu voto, forneceu um precioso argumento para os advogados da defesa, que poderão buscar uma fórmula para reduzir as penas com base no voto divergente. O processo deverá tramitar ainda por longo período. Nada vai se solucionar, no curto prazo, mesmo porque os parlamentares deverão buscar uma solução dentro do Congresso. A festa midiática serviu para fazer com que o Brasil acredite na força de sua democracia. Mas Lula continua candidato à reeleição, e a direita ainda não encontrou o substituto de Bolsonaro. Os próximos tempos deverão desvendar esse enigma.

Mas doravante, qualquer um, civil ou militar, que venha a ser convidado para participar de alguma trama golpista vai pensar duas vezes. O risco de pegar uma cana dura é muito elevado. Ou a organização tem meios e modos de se impor com tiros e bombas, ou não vale a pena correr o risco. E o efeito colateral dessa situação é curioso. Os políticos estão descobrindo que o melhor caminho para buscar a hegemonia na convivência entre parlamentares é promover a vitalização dos partidos políticos. Partidos fortes significam representação forte e, nessa perspectiva, a tentação do golpe fica diluída.

A tentação da guerra civil

Quem entrou nas mídias sociais entre anteontem e ontem certamente deparou com o chocante vídeo do assassinato de Charlie Kirk. O ativista conservador americano participava de um debate num campus universitário em Utah quando foi atingido por um tiro no pescoço. Morreu poucas horas depois, no hospital. No momento em que escrevo esta coluna, não sabemos ainda a identidade do assassino, mas, segundo o Wall Street Journal, o FBI encontrou um rifle e munições marcadas com slogans antifascistas, reforçando a suspeita de motivação política.

O assassinato brutal de Charlie Kirk entra na assustadora sequência de atentados que tomaram a política americana nos últimos anos, incluindo a tentativa de assassinato de Donald Trump, em julho de 2024; a agressão ao marido da presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, em outubro de 2022; e o assassinato da presidente da Assembleia Legislativa de Minnesota, Melissa Hortman, e de seu marido, em junho deste ano.


O Brasil também tem sua sequência triste de episódios, incluindo a facada de Adélio Bispo em Bolsonaro em Juiz de Fora, em 2018; o assassinato de Marielle Franco no Rio de Janeiro, no mesmo ano; o assassinato do tesoureiro do PT, Marcelo Arruda, em Foz do Iguaçu, em 2022; e a tentativa de assassinato da influenciadora de esquerda Laura Sabino pelo próprio irmão em Belo Horizonte, em junho deste ano.

O que todos esses episódios têm em comum é a incapacidade dos agressores de aceitar a existência de adversários políticos. Esse sentimento, infelizmente, não está circunscrito a uma franja politicamente extremista ou mentalmente desequilibrada. O grande risco nos tempos atuais é que a intolerância política e a crescente polarização afetiva — a aversão a quem adota identidades políticas contrárias — criem o ambiente para uma explosão de violência política. Um único crime chocante — ou uma sequência deles — pode levar atores políticos a acreditar que estão diante de um enfrentamento final, depois de anos de provocação e hostilidade política mútua.

No estudo mais importante sobre violência política nos Estados Unidos, Radical American Partisanship (University of Chicago Press, 2022), Nathan Kalmoe e Lilliana Mason argumentam que as identidades partidárias funcionam como identidades sociais, gerando favoritismo em relação ao próprio grupo e hostilidade ao grupo de adversários. Quando estes são desumanizados, vistos como malignos ou ameaças à nação, a violência política passa a ser vista como legítima, e seu uso começa a ser cogitado por gente com traços de personalidade agressivos, nos dois campos políticos.

No livro, Kalmoe e Mason mostram que cerca de um terço dos americanos considera aceitável, em alguma medida, o emprego de violência se acredita que o governo é corrupto ou proíbe que os cidadãos tenham armas.

Um estudo inédito que a ONG More in Common fez no Brasil com a Quaest mostra números um pouco menores, mas não menos assustadores: 18% dos brasileiros consideram em alguma medida justificado o uso de violência se entendem que um candidato ameaça a democracia, e 17% acham justificada a violência se entendem que a eleição foi roubada. Num momento em que a esquerda considera que os bolsonaristas ameaçam a democracia, e os bolsonaristas acreditam que as eleições foram roubadas, o potencial de violência é claro.

A escalada da intolerância política tem apenas um destino: uma guerra fratricida. Se não quisermos abrir caminho à barbárie, precisamos resgatar a política como espaço pluralista de resolução dos conflitos dentro da paz civil. Para isso, precisamos reaprender a conviver.

Da beleza de ser ingênuo

Entrevistado pelo jornal italiano La Repubblica, o escritor israelense David Grossman reconheceu que o governo do seu país está cometendo um genocídio em Gaza: “Quero falar como alguém que fez tudo o que pôde para evitar chamar Israel de Estado genocida. E agora, com imensa dor e o coração partido, tenho que constatar que está acontecendo diante dos meus olhos: Genocídio.”

Grossman disse ainda estar convencido de que “a maldição de Israel começou com a ocupação dos territórios palestinos em 1967.”

Alguns dias depois, o deputado Ofer Cassif foi retirado à força do pódio do parlamento israelense, o Knesset, por citar as declarações de David Grossman.


Sou um leitor atento de Grossman. As suas personagens costumam comover-me porque, sendo autênticas, demonstram uma humanidade pouco comum na grande literatura contemporânea.

Enquanto escrevo esta coluna uma flotilha composta por cerca de meia centena de embarcações, transportando 300 ativistas de 44 países diferentes, prossegue viagem com destino à Faixa de Gaza. O objetivo é levar alimentos e assistência médica à desesperada população do enclave. A iniciativa pretende também chamar a atenção para aquilo que pessoas como David Grossman e Ofer Cassif descrevem como um genocídio.

Uma das acusações mais repetidas contra os ativistas que integram a flotilha humanitária é a de ingenuidade. Quando alguém acusa um adversário de ingenuidade isso significa, quase sempre, que não foi capaz de encontrar nessa pessoa nenhum crime, nenhum vício, nenhum grave indício de imperfeição de caráter.

A palavra tem uma história curiosa. Ingênuo, no latim ingenuus, significava “nascido livre”. Mais tarde a palavra passou a ser usada para caracterizar alguém sincero — livre de malícia. Pouco a pouco foi ganhando um sentido negativo. Hoje, ingênuo é aquele que sofre de credulidade excessiva. Desloca-se a culpa dos mentirosos para os que acreditam neles — os ingênuos.

A jovem pacifista sueca Greta Thunberg — também ela a caminho de Gaza — tem sido repetida e furiosamente rotulada como ingênua. Os seus detratores juntam pessoas tão diversas quanto príncipes árabes, ligados à indústria petrolífera, Emmanuel Macron, Vladimir Putin e um sem-número de figuras da direita mais brutal. Além de ingênua e autista, Greta também já foi chamada de “santa do ambientalismo”. Ingênua, autista, santa e ambientalista são, para as pessoas que a odeiam, insultos pesados.

O jovem Assaf, do romance “Alguém para correr comigo” (Companhia das Letras, 2005) corre ainda pelas ruas de Jerusalém, mas agora leva consigo um cachorro que late diante dos tanques. Tamar, obstinada, embarca na flotilha, de guitarra às costas, como se fosse possível abrir o mar com uma canção. Shai, frágil, escreve melodias que ninguém ouvirá — salvo as crianças de Gaza. Todos eles — Assaf, Tamar, Shai, Greta, Grossman — formam a mesma tribo de ingênuos.

Ingênuos, sim: porque acreditam que a vida, como um cachorro perdido, sempre encontrará alguém para correr ao lado dela.

América Latina: democracias frágeis, liberdades em declínio

"A América Latina está em uma espécie de limbo. A maioria das democracias funciona, mas são de baixa qualidade", disse Kevin Casas-Zamora, secretário-geral do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA Internacional).

E tem suas razões: na quinta-feira, 11 de setembro, ao apresentar o Relatório Global do Estado da Democracia 2025, a International IDEA alertou para um declínio democrático global que também afeta a América Latina.

"A democracia em todo o mundo enfraqueceu", afirma o estudo. E ainda: " A liberdade de imprensa sofreu seu declínio mais acentuado nos últimos 50 anos", afirma a organização sediada em Estocolmo. "Nunca vimos uma deterioração tão grave em um indicador-chave da saúde democrática", afirma Casas-Zamora.

"O declínio da imprensa e da liberdade de expressão na região contribui para o enfraquecimento do espaço cívico", observa María Ángeles Morales González, consultora da Unidade de Avaliação da Democracia da IDEA International.

"O Estado de Direito é a área de maior desafio para a região", acrescenta a pesquisadora. Nessa categoria, a organização mede "ausência de corrupção", "aplicação previsível da lei", "independência judicial" e "segurança e integridade pessoal".


O estudo é realizado de forma meticulosa e complexa. "Não temos uma única medida de democracia", aponta Morales González, mas sim "quatro categorias principais de desempenho democrático", a saber: "representação", "direitos", "estado de direito" e "participação", explica.

Para quantificar as variáveis, o estudo utiliza bancos de dados, pesquisas, dados observacionais e registros de participação eleitoral dos diferentes países estudados.

El Salvador, Nicarágua e Haiti são responsáveis ​​por grande parte do declínio democrático do continente, com declínios significativos no acesso à justiça, eleições confiáveis ​​e partidos políticos livres, de acordo com a IDEA.

Os dois primeiros, junto com o Peru, também registraram os maiores retrocessos na liberdade de expressão.

"A situação em vários países latino-americanos é preocupante", disse Marcela Ríos Tobar, diretora para América Latina e Caribe da IDEA International. "Tanto pela profundidade dos reveses quanto pelo ritmo acelerado", acrescentou.

"Venezuela e Nicarágua consolidaram sua posição como regimes autoritários, enquanto El Salvador se tornou um laboratório para o autoritarismo do século XXI", conclui o sociólogo e cientista político chileno.

"Mas, além de casos específicos, estamos preocupados com a tendência geral de deterioração, mesmo em países com democracias mais estáveis", alerta.

No outro extremo do espectro, alguns países oferecem motivos para otimismo. "Não existem modelos únicos para a construção de democracias fortes", esclarece Ríos Tobar. "Mas há boas experiências", afirma.

"O Uruguai continua sendo uma democracia forte e saudável. O Brasil e a República Dominicana apresentaram melhorias muito significativas. O Chile conseguiu atravessar um período de alta instabilidade social utilizando mecanismos institucionais e democráticos", enfatiza.

O relatório também destaca o impacto da migração intrarregional no continente e como a crise política e econômica gerou fluxos significativos de países como Colômbia, Cuba, Haiti e Venezuela.

"O sentimento anti-imigração foi reforçado pela percepção de que a insegurança está ligada à transnacionalização do crime organizado", afirmam os resultados da pesquisa.

"As desigualdades étnicas, raciais, de gênero e de renda continuam a ampliar a desigualdade social na região. Combinadas com a discriminação estrutural contra povos indígenas, afrodescendentes e migrantes, elas acabam minando o desempenho democrático dos países", enfatizam.

Essa perspectiva é compartilhada por pesquisadores de todo o continente. A argentina Gabriela Agosto, reitora da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Comunicação da Universidade de Salvador, chega a afirmar que "todo o sistema democrático está em jogo".

"Na América Latina, a democracia está em crise devido à combinação de conflitos de larga escala ligados à desigualdade, à baixa produtividade e à violência", que, por sua vez, "são resultado da representação ineficaz dos partidos políticos na canalização e resolução das demandas dos cidadãos", enfatiza. "Estamos diante de uma mudança de era", prevê.

"É necessária uma ação urgente para proteger a democracia, as liberdades e os direitos", conclui Ríos Tobar.

Peixe fora d’água

O grande legado do século XX parecia ser a consagração absoluta da democracia como valor permanente, inegociável, amplo, universal. E aí estamos nós, com a cara do mundo contemporâneo estampada nas faces de Donald Trump, Vladimir Putin, Xi Jinping e Benjamin Netanyahu. Nem o mais radical pesadelo de um democrata pessimista poderia traçar roteiro pior.

Com o debacle da utopia socialista a convergência parecia se dar em torno do liberalismo com algum tempero social. Liberdade indivisível: individual, política, econômica. Combinada com políticas públicas eficientes, responsáveis e sustentáveis que contrabalançassem a inevitável produção, pela economia de mercado, de desigualdades sociais. Como pano de fundo: um mundo integrado, com economia globalizada e livre, paz permanente e sólida, governança compartilhada e multilateralismo no tratamento de questões comuns como meio ambiente, clima, fluxos migratórios e combate à miséria e à fome.


Nada mais distante do mundo atual. E as cartas embaralhadas. Enquanto o presidente dos EUA, suposta pátria do liberalismo, promove uma verdadeira balbúrdia desorganizadora em escala global, destruindo o livre comércio e a integração econômica, alimentando os conflitos da Ucrânia e de Gaza e atacando antigos aliados como Brasil e UE, Xi Jinping, líder da próspera e autoritária experiência de capitalismo de Estado chinês, discursa nos fóruns internacionais contra o protecionismo econômico e a favor do multilateralismo e da paz.

Capacidade de diálogo, construção de consensos na diversidade, sensatez, equilíbrio e ponderação parecem não terem morada na cena contemporânea. No Brasil e no mundo, predominam a intolerância e a radicalização. O ódio é disseminado com uma força inédita. A democracia pressupõe o mínimo de coesão social, pontes de diálogo, alguma unidade nacional, tolerância com os diferentes, aceitação da legitimidade dos atores políticos adversários e do direito de ocuparem o poder ao vencerem as eleições. Mas não.

Não é um fenômeno só nas elites. Há um ódio presente dos nativos contra imigrantes árabes, africanos e latino-americanos enraizado nas sociedades desenvolvidas. Há um ódio destrutivo entre adversários políticos transformados em inimigos de guerra.

Não há mediações. Não há percepção sobre as contradições da realidade. Não há equilíbrio e sensatez. Ou você está com o xenofobismo ou com as imigrações descontroladas. Ou você dá razão a Trump ou defende o regime chinês. Ou você defende integralmente Israel ou a Palestina, com Hamas e tudo. Ou você está com Alexandre de Moraes ou com Bolsonaro. Quem pensa criticamente e pondera os vários vetores da vida - que são tudo, menos lineares, líquidos e certos – é reduzido logo a um isentão claudicante que fica em cima do muro e não se posiciona.

A democracia contemporânea está dando mostras de disfuncionalidade frente a sociedade das bolhas radicalizadas e da guerra fraticida nas redes sociais. Vejam a dificuldade de formação de governos majoritários com boas condições de governabilidade na França e Alemanha, no Japão, Portugal e Brasil.

O sensato, o ponderado, é um quase ingênuo. Um peixe fora d’água. Minhas referências políticas, no Brasil e no Mundo, desde os idos de 1976, quando comecei na militância política e iniciei minha vida pública, eram Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Mário Covas, FHC, Felipe González, Mário Soares, Enrico Berlinguer, Bill Clinton, Tony Blair, Obama. Fico imaginando se chegassem hoje no Brasil, onde se situariam no atual quadro político-partidário? Acho que estariam como eu: perplexos, pessimistas e sem lugar.

Não quero ser nem o pessimista amargo, nem o otimista ingênuo de Ariano Suassuna. Quero seguir seu conselho e ser um realista esperançoso. Meu personagem predileto, Dom Quixote, me ensinou: “... pois não é possível que o mal, como tampouco o bem, durem para sempre. Assim, tendo o mal persistido por tanto tempo, o bem deve estar próximo”.

Fora isto, para o mundo que eu quero descer com minha isenção crítica, equilíbrio, dúvidas e pretensa lucidez.