segunda-feira, 14 de julho de 2025

Imagem justa e veríssima do Congresso

Muito já se escreveu sobre humor, mas nada sobre seu poder antecipatório. Quando Freud diz que se trata de "um dom precioso e raro" (em "O Chiste e suas Relações com o Inconsciente"), adianta que pode ser também álibi para uma verdade que não podia ser expressa. No psiquismo, o inconsciente abre caminho pelo riso, sem o sofrimento dos sintomas, para uma realidade recalcada. Mas antecipar é virtude desconhecida ou deixada de lado.

Oportuno, assim, evocar Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio nos anos 90, prefiguração hilária de um deputado que abominava desprovidos da sorte, trabalhadores, o povo em geral. "Eu quero que o pobre se exploda!", seu bordão. A criação televisiva ia ao encontro de uma ácida denominação, recorrente na coluna de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto), década de 60: "Depufede".


Isso existia ainda em grau concebível de indecência quando Lula em 1993 resumiu sua experiência parlamentar numa frase lapidar sobre a composição do Congresso: "Uma maioria de 300 picaretas cuidando apenas de seus próprios interesses. E não caíram de paraquedas, foram eleitos". Havia, portanto, bases político-sociais para que o humorismo antecipasse o choque de hoje ante um Congresso, necessário à República, mas por inteiro alienado da representação popular. Representação definida apenas pelo conceito numérico da votação é uma falácia, avessa à real delegação de classe social.

Focado na centralização presidencial, o eleitorado é letárgico frente ao Legislativo. Mas agora o chorume moral do "depufede" chega às narinas populares. E assim surge a Frente Povo sem Medo, que prega a taxação dos bilionários, junto com a redução dos salários de deputados e senadores. Cada Justo Veríssimo embolsa por mês um total de R$ 341.297 (R$ 47.700 de salário, R$ 94.300 de verba de gabinete, R$ 53.400 de auxílio paletó, R$ 5 mil de combustível, R$ 22 mil de auxílio moradia, R$ 59 mil de passagens aéreas, R$ 17.997 de auxílio saúde, R$ 12.100 de auxílio educação, R$ 16.400 de auxílio restaurante, R$ 13.400 de auxílio cultural). Para o eleitor pobre, um salário mínimo de R$ 1.518. Logo, que se exploda.

Mas a questão não se contém nesse mensalão obsceno. A derrama das emendas é tanto rombo orçamentário descontrolado quanto sintoma de surda conspiração contra a governabilidade executiva. Decorre das circunstâncias eleitorais, que seriam em princípio pretexto de reorganização da ordem do Estado. Eleições parlamentares, entretanto, passaram a favorecer a desorganização da ordem liberal, a saber, obstrução da participação democrática a partir da ideia de representação. Assim como os partidos (exceto talvez os pequenos) não espelham fração de classe nenhuma, a eleição de deputados e senadores não constitui forma de democracia direta pelo voto. É autonomia patrimonialista da atividade política.

Deste modo, o poder de legislar, moldado cada vez mais pelo princípio do vazio social, abre-se ao pleno dos interesses pessoais. Emendas sem transparência são mecanismos de reeleição e manutenção de feudos regionais, assim como instrumentos de chantagem contra um Executivo acuado. Nada menos que uma modulação do golpismo permanente, modernizado em 2016. Para Justo Veríssimo se atualizar, só lhe faltam um punhal verde e amarelo nos porões, boné de Trump nos palanques e pitadas de inglês para conspirar lá fora contra o país dos pobres.

Nostalgia do futuro

Podemos ousar sentir nostalgia, saudades do futuro? Ansiar por resgatar no futuro o passado depredado pelo insano progresso? Buscar um futuro ancestral, tal qual o anunciado por Ailton Krenak?

Para incentivar mudanças de comportamento, o Sistema Nacional de Trânsito lançou em 2025 a campanha “Desacelere. Seu bem maior é a vida.”

O Rio Saracura corre debaixo do asfalto da Avenida 9 de Julho em São Paulo e é afluente do Rio Anhangabaú, igualmente canalizado. Enquanto governador, Ademar de Barros construiu uma passagem no Vale do Anhangabaú sob a Avenida São João, conhecida como “buraco do Ademar”. Os bueiros, ao invés de darem vazão às águas das chuvas, davam vazão ao rio, que inundava a passagem subterrânea, rebatizada “banheira do Ademar”. Hoje, São Paulo inteira é uma banheira; os quintais foram todos cimentados, porque terra virou sinônimo de sujeira.

A imagem abaixo, de autoria de Jose Fujocka, resgata o Rio Saracura. Impossível?


Na Coreia do Sul, o Rio Cheonggyecheon, que havia sido coberto por uma avenida de 16 metros de largura, corre hoje a céu aberto. 

Nasci no início dos anos 1950, antes da indústria automobilística se instalar no país. Morava no Bom Retiro, na Rua João Kopke, 108; nas imediações da várzea formada pela confluência dos rios Tamanduateí e Tietê. A poucas quadras do Jardim da Luz, a rua ainda não era asfaltada. Na época das águas, em janeiro, os rios transbordavam e a molecada da região, por algum trocado, atravessava os pedestres de barco de um lado para o outro da rua.

Nos anos cinquenta, São Paulo era toda recortada por trilhos de bondes elétricos. O cobrador andava pelo bonde, segurando as notas, separadas por valor, dobradas de comprido entre os dedos, 1, 2, 5, 10… cruzeiros, formando um leque. Nos bondes abertos, os adolescentes, andando alguns passos atrás do cobrador, conseguiam evitar pagar a passagem. O bonde da Casa Verde, que partia do Largo São Bento, passava pela comercial Rua José Paulino. De noite, na área residencial do Bom Retiro, a criançada brincava no meio da rua, enquanto seus pais arrastavam as cadeiras e ficavam conversando com os vizinhos na calçada.

Em 1954, a Cidade de São Paulo comemorava seu IV Centenário com os lemas “São Paulo não pode parar” e “A cidade que mais cresce no mundo”. Foi então que, em 1956, veio o Plano de Metas, a construção de Brasília, a indústria automobilística e a televisão, que fizeram com que os adultos recolhessem suas cadeiras da calçada e seus filhos do meio da rua.

No início, as pessoas ainda não estavam familiarizadas com os automóveis. Nas escolas, os guardas de trânsito passavam uniformizados pelas salas de aula para ensinar a meninada a atravessar a rua, vermelho, amarelo, verde, “pare, olhe, viva!” E foi uma febre, os automóveis começaram a encher e encher as ruas até conseguirem congestionar toda a cidade.

O Minhocão foi construído durante a ditadura militar, mergulhando a região central da cidade de São Paulo em sombras distópicas dignas de figurarem no clássico Blade Runner. Com o fim da ditadura, o nome do elevado foi alterado de Costa e Silva para João Goulart. Há projetos para transformar definitivamente o elevado em parque público. A prefeitura está pretendendo abrigar automóveis para deslocar “o lixo humano” que habita debaixo do Minhocão. Melhor seria removê-lo de vez e restaurar os jardins que foram removidos para dar lugar ao “progresso”.

Hoje me pergunto, para que tantos automóveis assim? Veja o que você ganha sendo um feliz proprietário de um veículo automotor: Ter que comprar um carro, de preferência um que possa fazer o seu vizinho ficar boquiaberto, de queixo caído.

Arranjar um estacionamento, de preferência coberto.

Licenciar o carro e pagar IPVA anualmente.

Pagar seguro do automóvel, pelo menos contra terceiros.

Encher o tanque regularmente (recomenda-se procurar um posto que forneça combustível não adulterado).

Limpar e lavar o carro.

Trocar o óleo e fazer a manutenção regular do veículo.

Lidar com problemas mecânicos, câmbio, correias, superaquecimento,
 
vazamentos, escapamento, pane elétrica, bateria, pneus etc.

Enfrentar trânsito pesado.

Encarar malcriação de outros motoristas e até de pedestres.

Aproveitar para descarregar a sua raiva do patrão, de seu cunhado e daquele vizinho mal-educado.

Estar sujeito a fechadas, acidentes, consertos, funilaria e pintura do automóvel.
Receber multas devidas e indevidas, que você pode recorrer, mas serão indeferidas.

Aturar vendedores, pedintes e flanelinhas nos semáforos.

Ter que lidar com guardadores compulsórios, às vezes agressivos, ameaças e danificação do veículo.

Correr risco de furto do automóvel, roubo e assalto.

Poluir o ambiente etc. etc.

Na universidade, nos empenhamos para entender a violência no trânsito, decompondo a ordinária taxa de mortalidade por acidentes em dois indicadores, veículos por habitante e óbitos por veículo. Os resultados da nossa pesquisa mostraram que, tanto no Brasil, como no exterior, os poucos automóveis que transitam em regiões com frotas reduzidas também saem matando a esmo, até em maior número. A interação entre veículos automotores e pedestres revela-se um aprendizado que, naturalmente, leva tempo; mas também pode ser induzido por políticas públicas.

De qualquer forma, não seria melhor usar o transporte público e poder contar com os serviços profissionais dos “motoristas particulares”, conversar com os outros passageiros ou simplesmente espairecer despreocupadamente? Se quiser, você também pode ficar ouvindo as conversas descartáveis entre passageiros avulsos e as histórias que rolam entre conhecidos, sair um pouco da solidão reservada aos motoristas sem passageiros e da convivência regular com os seus familiares. Preste atenção e recarregue-se emocionalmente com as expressões e comentários autênticos das crianças. Há motoristas de ônibus que conhecem os hábitos de seus costumazes clientes e chegam a chamar a sua atenção quando, distraídos, no ponto, correm o risco de perder a viagem.

Por fim, vale lembrar que tanto o incremento como a gratuidade no transporte público podem e deveriam ser financiados, via impostos, pelos felizes proprietários dos veículos automotores privados, que, de quebra, vão ficar muito agradecidos em ver o trânsito descongestionado. Passe livre, sem catracas!

Porém, melhor que transporte público é andar de bicicleta; e melhor que andar de bicicleta só mesmo andar a pé, apreciar o entorno, fazer o caminho passo a passo, descobrir uma vila que você nunca tinha notado antes… E você ainda vai ganhar tempo (e dinheiro), porque não vai mais precisar frequentar aquelas academias de ginástica em que as pessoas pedalam e andam em esteiras sem sair do lugar.

Paris, a Cidade Luz, agora é verde. As vagas para estacionamento foram removidas e, desde 2020, foram criados 84 quilômetros de ciclovias. Automóveis são hoje usados dentro da capital em apenas 4,3% dos deslocamentos, ficando atrás das bicicletas (11,2%), transporte público (30%) e, oui, oh là là, jornadas a pé (53,5%)!

sábado, 12 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Estratégia de Eduardo Bolsonaro é perigosa

Foi bastante arrojada a estratégia de Eduardo Bolsonaro de fazer gestões junto ao Partido Republicano e à Casa Branca para conseguir que os Estados Unidos interviessem na política brasileira e reequilibrassem o jogo de poder institucional, que hoje parece desfavorável aos bolsonaristas.

Quando os frutos desse trabalho se expressaram na forma não de sanções individuais contra ministros do Supremo, mas de duríssimas tarifas contra os produtos brasileiros, os bolsonaristas se viram com um problema: a reação americana não atingia apenas os atores que prejudicam a direita, mas um número grande de empresários e trabalhadores brasileiros.


Logo depois que Trump anunciou as tarifas, a situação, já complicada para a direita, ficou ainda mais difícil quando Eduardo Bolsonaro, em carta com Paulo Figueiredo, explicitamente assumiu a paternidade da medida, talvez por vaidade:

— Nos últimos meses, temos mantido intenso diálogo com autoridades do governo do presidente Trump, sempre com o objetivo de apresentar, com precisão e documentos, a realidade que o Brasil vive hoje. A carta do presidente dos Estados Unidos apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade.

Com esse documento reivindicando protagonismo na medida, a direita teria dificuldade de, se não criticar, ao menos se afastar da ação de Donald Trump, já que isso implicaria também tomar distância da movimentação de um preeminente integrante da família Bolsonaro.

A primeira reação dos bolsonaristas foi atribuir a Lula a culpa pela medida. O argumento era que os desmandos de Lula haviam provocado a reação dura de Trump em defesa da democracia brasileira. Caberia, portanto, a Lula reorientar o seu governo e sentar-se à mesa para negociar com Trump a suspensão das tarifas.

Mas havia muitos buracos nessa linha de argumentação. Em primeiro lugar, era preciso esquecer que Trump, o secretário de Estado, Marco Rubio e os políticos republicanos não se manifestaram espontaneamente, mas foram insistentemente instados a agir por ativistas brasileiros radicados nos Estados Unidos. Era preciso também confundir a audiência, atribuindo a Lula uma responsabilidade que obviamente era do Supremo. A carta de Trump condena o indiciamento de Bolsonaro e a suspensão de contas em mídias sociais, todas ações tomadas independentemente pelo STF. Por fim, era preciso minimizar o impacto das medidas, que não recai apenas sobre os inimigos dos bolsonaristas, mas sobre largas parcelas da população. Era preciso fazer o público esquecer que um dos principais prejudicados é o agronegócio.

Nas redes bolsonaristas, vimos um bate-cabeças. O governador Romeu Zema disse, primeiramente, que “as empresas e os trabalhadores brasileiros vão pagar, mais uma vez, a conta do Lula, da Janja e do STF”. A reação foi tão forte que em seguida ele se reposicionou, dizendo mais claramente que a tarifa de Trump “é uma medida errada e injusta que precisa ser revista porque penaliza todos os brasileiros — gente que votou contra e a favor do Lula”.

Tarcísio disse primeiramente que “Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado”. Depois, foi obrigado a corrigir a rota e afirmar que “as pessoas não querem saber de narrativa, querem ver o trabalho acontecendo para melhorar a vida delas”.

O pastor Silas Malafaia e o deputado Nikolas Ferreira seguiram o mesmo caminho e tiveram de suportar nos comentários a irritação de seguidores protestando contra manifestações que pareciam tomar o partido de quem havia agredido o Brasil.

A medida impopular de Trump veio em bom momento para o governo, cuja base vinha sendo reenergizada com o discurso pela justiça tributária. A manifestação na Avenida Paulista pela taxação dos mais ricos foi renomeada como “Brasil para os brasileiros” e atraiu público expressivo. Pela primeira vez em muitos anos, foi da mesma dimensão que as bolsonaristas.

A manobra desastrada de Eduardo Bolsonaro custará caro. Pôs os aliados de Bolsonaro em situação difícil e gerou revolta em setores amplos da sociedade brasileira. O governo, que vinha de uma mobilização bem-sucedida, receberá impulso adicional. Esses dois elementos combinados podem produzir uma grande onda pró-governo.

Conjuração internacional bolsonarista

Aplicar o direito não é uma tarefa fácil, especialmente quando o peso da lei recai sobre pessoas poderosas ou que têm amigos poderosos. Juízes já foram mortos por condenar mafiosos, em países como a Itália ou a Colômbia; colocados na prisão por não atenderem as determinações de ditadores, como na Turquia ou no Irã; ou apenas afastados de seus tribunais por simplesmente não se curvarem aos poderosos de plantão, em diversas partes do mundo.

O presidente americano vem promovendo há muitos anos um processo de intimidação e subordinação do Judiciário de seu país. A cada decisão contrária aos seus interesses, achincalha magistrados, acusando-os de "lunáticos esquerdistas". Seus apoiadores os ameaçam de impeachment. A juíza Ketanji Brown Jackson, da Suprema Corte, "teme pela democracia dos Estados Unidos".


O ataque ao Poder Judiciário brasileiro, no entanto, consiste num novo capítulo na relação de populistas iliberais contra o estado de direito. Trata-se de uma inusitada tentativa de interferência na Justiça de um outro país.

Na presente escaramuça, o presidente americano acusa o Supremo Tribunal Federal de perseguir Bolsonaro, ameaçando retaliar o Brasil com sua artilharia tarifária. O objetivo é constranger o governo e intimidar o Supremo, que apenas cumpriu sua obrigação de julgar Bolsonaro e golpistas, com base em uma lei aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo próprio Bolsonaro.

Outros motivos, como a reunião do Brics, no Rio, ou a decisão do Supremo de aperfeiçoar o regime de responsabilidade das plataformas, também podem ter pesado na decisão americana. Tudo, porém, pode ser apenas uma bravata, para legitimar uma eventual fuga de Bolsonaro, ou mesmo a suspensão das taxas a seu pedido.

A relação de populistas com o estado de direito e as instituições responsáveis pela aplicação da lei são sempre conflitivas. Populistas acusam a Justiça de impedi-los de realizarem a vontade do povo, do qual reivindicam ser os únicos e autênticos representantes. Sob o pretexto de defenderem a democracia, atacam o Estado de Direito.

Conceitualmente, democracia e direito são coisas distintas. À democracia importa, sobretudo, a realização da vontade dos cidadãos. Ao direito, por sua vez, importa a criação de um sistema de regras, que contribua para estabilizar expectativas e conter o arbítrio.

A convergência entre democracia e direito, que resulta na ideia de Estado Democrático de Direito, foi originalmente concebida por Rousseau, ao reivindicar que um governo somente seria legítimo se resultasse da vontade dos cidadãos, expressa por meio de leis. Nesse sentido, os cidadãos apenas seriam autônomos quando fossem capazes de se autogovernar, por meio das leis.

Não é assim que pensam populistas. Para eles, somente a vontade da maioria, expressa pela palavra do líder, importa. Valorizam seus comandos. São avessos à ideia de uma ordem baseada na lei. Difícil entender como pessoas que dizem prezar a liberdade caem na esparrela de populistas.

As ameaças do presidente americano ao Brasil, em defesa daqueles que atentaram contra nosso Estado Democrático de Direito, obrigará nacionalistas, conservadores, além da direita liberal brasileira, a tomar posição: ficarão a favor dos interesses nacionais, das nossas instituições, da agricultura e da indústria brasileira, ou ao lado daqueles que conjuraram contra o Brasil?

O bananinha virou abacaxi para a direita

Eduardo Bolsonaro flopou. Do inglês flop, verbo que virou modinha nas redes. Em bom português, fracassou. E isso era esperado. A inteligência nunca foi o forte desse deputado federal, o mais votado da história do país. Ele foi o principal articulador da bizarra chantagem de Trump contra o Brasil.

Licenciado nos EUA para escapar a investigações e fazer lobby pelo pai, Dudu agora precisa justificar para os bolsonaristas seu tiro de fuzil no pé da direita.

De “bananinha”, um apelido simpático e carinhoso, explicado por sua personalidade divertida e pela extrema lealdade ao pai, Dudu virou um abacaxi. Para a família Bolsonaro, para os candidatos de Bolsonaro nas próximas eleições e para os apoiadores de Bolsonaro, que se sentem patriotários.

Os bolsonaristas não votaram no Trump. Querem um Brasil com s, soberano, e não pretendem adotar a bandeira americana. Não querem perder empregos nem prejudicar o agronegócio ou nossas empresas.


Há quem diga que a carta de Trump a Lula é tão tosca que deve ter sido escrita por Dudu. O deputado faz parte de uma turma que não aprendeu direito o inglês quando fritava hambúrguer nos EUA. E esqueceu o português. Chegou a tuitar uma vez “fundo do posso” em vez de “poço”.

O terceiro filho de Bolsonaro se gaba de ter informações privilegiadas de Trump. “O que posso dizer é que esta (a tarifa de 50%) não será a única novidade vinda dos EUA neste próximo tempo”. O que o bananinha está tramando junto com Trump e seus ideólogos da ultradireita?

Seja o que for, Dudu está sendo “muy amigo” dos bolsonaristas ao unir o Brasil contra a chantagem de Trump. Até o Elon Musk sabe que quem tem amigos como o Trump não precisa de inimigos. Dudu conspira publicamente contra o Brasil, e isso não ajuda os políticos que vestiram o boné MAGA, Make America Great Again.

Uma saia justa para quem um dia sonhou em se tornar embaixador do Brasil nos EUA. Ou alguém esqueceu a campanha do pai coruja? Jair dizia que Dudu seria um “grande embaixador”. Na visita de puxa-saquismo a Trump no primeiro mandato, botou o filho no Salão Oval, em vez do chanceler, por ser “conhecedor das relações internacionais”.

Dudu cometia declarações do tipo: “São bombas nucleares que garantem a paz. Se nós já tivéssemos os submarinos nucleares finalizados, que têm uma economia muito maior dentro d'água, talvez fôssemos levados mais a sério pelo (Nicolás) Maduro, ou temidos pela China ou pela Rússia”. Por Trump também?

Por ser advogado e policial, Dudu também é especialista em segurança pública. Defende para a população “acesso às armas, para que amanhã a gente aqui não fique sob os desmandos de um governo autoritário”.

Desistiu da indicação do pai para a embaixada em Washington. Mas delira, ao supor que pode encurralar o STF e Lula com ajuda do Trump.

Se Lula fosse fã de Napoleão, seguiria sua máxima: “Nunca interrompa um inimigo enquanto ele estiver cometendo um erro”. Mas é demais pedir sabedoria estratégica a nosso presidente, que adora dar pitaco sobre a política interna de outros países, quando lhe convém.

Visitar e defender a peronista Cristina Kirchner, presa por corrupção por ordem da Suprema Corte, foi ruim para Lula. A Argentina é dos argentinos. O Brasil é dos brasileiros.

Por mais que Lula erre (e erra muito em política externa), a turma do Bolsonaro consegue errar bem mais ao ameaçar a soberania do Brasil. O maior radical livre está nos EUA, ajudando a afundar a direita brasileira nas próximas eleições.

Parafraseando o estrategista de Bill Clinton em 1992 (it’s the economy, stupid), agora “é a política, estúpido”.

Uma hora a conta chega, como disse o deputado. E, devido a sua prestimosa contribuição, Eduardo, a conta vai chegar para a direita, não para a esquerda.

Brasil x EUA: a batalha do suco e do Tylenol

Não se fala de outra coisa nos bastidores da economia mundial: o Brasil e os Estados Unidos estão em guerra. Não com bombas, tanques ou discursos no TikTok. É uma guerra moderna, travada com armas de destruição em massa como… laranjas e comprimidos.

Tudo começou quando o Brasil, cansado de ser ignorado nas playlists americanas, resolveu dar o troco: suspendeu a exportação de suco de laranja concentrado. O impacto foi imediato. A Flórida entrou em estado de calamidade pública. Supermercados esvaziaram. Crianças choraram. As aulas paralisaram. E houve quem tentasse beber Tang com gelo de silicone, em protesto.

A bolsa de Nova York caiu 10%. Os investidores, desesperados, tentaram aplicar em vitamina C genérica, mas era tarde demais: o Brasil havia proibido a exportação de acerola e camu-camu e apertado o botão vermelho da frutose tropical. O mel foi para a estratosfera.

Do outro lado da trincheira, o Pentágono econômico dos EUA respondeu com a mesma elegância de sempre: suspendeu a exportação dos princípios ativos que compõem nossos medicamentos.


Foi um corre-corre dos capetas. Em 48 horas, o caos se instalou no Brasil. Farmácias começaram a vender “dipirona gourmet” feita com camomila, cidreira e gratidão. Teve laboratório testando chá de capim santo em cápsulas. E o remédio para dor de cabeça passou a ser chamado de “autoconhecimento em gotas”. Os Pastores mais íntimos de Jesus, Valdomiro e Silas, se abraçaram e pediram proteção ao Filho, porque estavam fazendo muita hora-extra e já haviam desacostumado. Tiveram que vender água do mar para curar do furúnculo a malária.

Nosso correspondente, Argemiro do PIB, ouviu de um analista em Brasília a seguinte frase:

“Se os EUA cortarem o ibuprofeno, vamos ter que voltar pra benzedeira e reza forte. E olha que nem a reza tá barata com o preço da vela.” O despacho com galinha preta estava os olhos da cara. Na falta da picanha e do chopp, esgotados nos fins de semana, o brasileiro voltou a consumir o frango em alta escala. Consumo dos penosos em alta, preço disparando. Ao finalizar a fofoca, Argemiro do PIB, cochichou: vem bronca para os empregos da indústria automobilística e São Paulo vai pirar. São Paulo não para…Sampa pira!

PIB em Pânico, Balança na UTI

As consequências foram sentidas em segundos e o Agro, pilar da economia brasileira, começou a sentir a porrada, nos bolsos e na barriga.
– O PIB brasileiro caiu 2,973% só com a falta de remédio pra pressão.
– O IBOVESPA despencou feito mamão maduro.
– O dólar subiu mais rápido que promessa de político em véspera de eleição.

Nos Estados Unidos, sem suco, o desespero virou manchete: “BREAKFAST BLACKOUT: America’s Orange Juice Crisis”– estampava o New York Times. No Brasil, a capa da Revista Raiva trazia a manchete: “Sem Tylenol, Com Dor e com Amor”.

Diplomacia à Brasileira

Foi então que os dois países decidiram conversar. Numa reunião histórica, a delegação brasileira levou suco natural, pão de queijo e tocou Tom Jobim no ukulelê. Os americanos chegaram com uma caixa de remédios, dois diplomatas da Pfizer e uma camiseta “Eu ♥ o Brasil (mas quero meus remédios)”.

O acordo de paz foi selado:
– O Brasil volta a exportar suco.
– Os EUA liberam os químicos dos remédios.
– E as playlists do Spotify norte-americano agora terão Ângela Rô Rô e um pouco de Zeca Pagodinho por semana.

Moral da História?

No mundo de hoje, ninguém briga com quem fornece o café da manhã ou o alívio para enxaqueca. O Brasil pode ser a terra do samba e da biodiversidade, mas sem os químicos dos americanos, nossa dor de cabeça vira crise diplomática.

E os EUA, gigantescos, podem ter Hollywood, Silicon Valley e 300 tipos de cereal matinal, mas sem a nossa laranja, viram uma nação de gente mal-humorada e com falta de vitamina C. A gripe vai pegar e eles terão que contratar o Bispo Edir Macedo, assoberbado de trabalho, com seus fiéis sofrendo com a coriza.

E o futuro?

Já se especula o próximo capítulo:
– Se o Brasil cortar o café, o mundo entra em colapso. O Nespresso terá suas cápsulas recicladas e a qualidade cairá em demasia. A cevada invadirá e o terêrê não dará vencimento.
– Se os americanos bloquearem as séries, o brasileiro vai ter que rever “Irmãos Coragem”, “O Clone” e “Senhora do Destino”, além de voltar com Chico City e Odorico Paraguassú.

Mas uma coisa é certa: na economia global, as tribos não vivem sozinhas. E quem duvidar, experimente uma ressaca sem suco de laranja… e sem Neosaldina ou Sonrisal.

O Trump, aspirante ao Nobel da Paz, prometeu vir fazer um cruzeiro, no NIMITZ, pelas praias brasileiras e levar a juventude para passear nos seus botes a jato e nos seus jatos invisíveis. Só para divertimento dos colegas brasileirinhos.

Congresso brasileiro gasta mais que o dos EUA e está entre os mais caros do mundo

Com um orçamento este ano no patamar de R$ 15 bilhões, o Congresso Nacional está entre os mais caros do mundo. Levando em consideração o Produto Interno Bruto (PIB), a proporção da alocação de recursos é maior que em outras nações continentais ou perfil demográfico similar, como Índia, EUA e México. Com o fortalecimento do Legislativo, os brasileiros também superam as democracias europeias. Em relação aos americanos, por exemplo, o custo é seis vezes maior.

Somados, Câmara e Senado no Brasil têm custo anual de 0,12% do PIB do país, de acordo com levantamento do GLOBO a partir de dados oficiais. Já os Estados Unidos gastam 0,02% do PIB com suas duas casas legislativas, um sexto da proporção do Brasil. Neste ano fiscal (setembro de 2024 a agosto de 2025), Senado e Câmara dos Representantes americanos têm orçamento combinado de US$ 6,7 bilhões.

A comparação com os EUA é pertinente, segundo especialistas, pelo fato de o país também ter dimensões continentais, adotar o sistema federalista (embora os estados tenham mais autonomia do que no Brasil) e ter duas casas no Parlamento.


]Duas características que inflam o gasto com o Legislativo no Brasil são o grande número de partidos e o tamanho da equipe de assessores que cada parlamentar pode ter à sua disposição, afirma o economista e cientista de dados Thomas Conti, professor do IDP.

— Com mais de 20 partidos políticos, a formação de coalizações majoritárias fica muito mais difícil de se negociar do que em países onde o número de partidos é menor. Como a negociação é difícil, alocar mais verbas para o Legislativo é um jeito indireto de facilitar a negociação, usando verbas como troca por apoio. Quanto aos assessores, no Brasil um deputado pode contratar até 25 assessores. Na Alemanha, o máximo é sete — diz Conti.

O México, que é a segunda maior democracia na América Latina (tanto em PIB quanto em população), também gasta proporcionalmente menos do que o Brasil com seu Congresso: 0,05% do PIB do país, menos da metade da despesa brasileira. Os mexicanos têm uma Câmara e um Senado e adotam o sistema federativo.

Já a Índia está entre os países que menos gasta proporcionalmente em seu Parlamento. A previsão de gastos para o ano fiscal iniciado em setembro de 2025 equivale a 0,004% do PIB indiano.

Historicamente, o país paga salários baixos a seus parlamentares. Um consultor político ligado ao Bharatiya Janata, partido que atualmente governa a Índia, atribui a baixa alocação de orçamento no país à defasagem salarial de parlamentares.

Embora viva um regime considerado por cientistas políticos como cada vez mais autoritário, as eleições do país asiático são as maiores do mundo em número de participantes: 642 milhões de indianos votaram na última eleição nacional realizada no país, em 2024.

Em Portugal, o Legislativo é representado por uma única casa, a Assembleia da República, cujo orçamento para 2025 é de 192 milhões de euros, o equivalente a 0,08% do PIB estimado para o país neste ano. Na Espanha, por sua vez, as duas casas legislativas (Congreso de Diputados e o Senado) têm somadas um orçamento equivalente a 0,01% do PIB espanhol.

— Gastar muito ou pouco com o Legislativo depende daquilo que se entrega ao cidadão e com as características do país. O Brasil é um país continental, com deficiências de infraestrutura e grande população. Ainda assim, os gastos com os parlamentares brasileiros são maiores que o de outras democracias grandes, como Estados Unidos — afirma Gustavo Macedo, professor de ciência política do Insper.

Dados de 2023 do último levantamento da União Interparlamentar, que reúne informações de 181 parlamentos ao redor do mundo, reforçam que o Brasil gasta muito com seu Congresso.

O Brasil era há dois anos o segundo entre 77 países em despesas com o Legislativo: US$ 5,3 bilhões ajustados pela paridade do poder de compra, perdendo apenas para os Estados Unidos (US$ 5,9 bilhões) e muito à frente do terceiro colocado, a Turquia (US$ 1,95 bilhão).

Completam a lista dos dez países com maior orçamento para o Congresso naquele ano Alemanha, México, França, Indonésia, Japão, Quênia e Coreia do Sul. A União Interparlamentar não tem dados mais recentes de nenhum desses países.

Brasil e Estados Unidos, aliás se revezam no topo da lista da União Parlamentar há anos. De 2015 a 2019, o Congresso brasileiro foi o mais caro do ranking, enquanto os americanos ficaram em segundo lugar.

Para Jairo Nicolau, cientista político da FGV, o Brasil gasta muito e mal com seu Congresso:

— O tamanho desse orçamento, bem como o aumento dos parlamentares, não atende a critérios técnicos. Na Câmara, por exemplo, o Brasil tem uma distorção clara na representação de alguns estados que estão sub-representados, como São Paulo, e casos de estados menores com representação bem maior que a que deveriam ter de acordo com sua população.

Um exemplo da distorção, diz ele, é que a Paraíba, estado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), vai ter dois deputados a mais que o Espírito Santo, a despeito de ambos os estados terem populações similares.

O gasto com o Congresso brasileiro pode aumentar com a recente decisão dos deputados e senadores de aumentar o número de deputados em 18 cadeiras, passando para 531. O projeto aguarda a sanção (ou veto) do presidente Lula.

De acordo com o texto aprovado, ganharão parlamentares Amazonas, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. As estimativas de quanto representa de aumento de gastos a elevação do número de deputados variam entre R$ 64,8 milhões a cerca de R$ 150 milhões anuais.

Atualmente, cada deputado recebe remuneração mensal de R$ 39.293,32, além de ter direito a imóvel funcional em Brasília ou auxílio-moradia, mesmo para parlamentares que têm imóvel na capital federal. Hoje, o valor desse auxílio é de R$ 4.253 e pode ser complementado com até R$ 4.148,80 mensais da chamada cota parlamentar. O valor da cota a que cada deputado tem direito depende do estado do parlamentar e varia de R$ 36.582,46, para deputados do Distrito Federal, a R$ 51.406,33, para os de Roraima. Além disso, o valor mensal da verba de gabinete é de R$ 133.170,54.

— Na legislação brasileira não há limitações significativas para a capacidade do Legislativo aumentar seu próprio orçamento e definir novos direitos ou privilégios. O Executivo poderia vetar leis nesse sentido, mas como existe uma dificuldade crônica de formar maiorias no Congresso, não é esperado que nenhum presidente tenha capacidade de fazer um veto desses — conclui Conti.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Quando a ideologia supera a razão econômica

Entre os desastres do “grande e belo projeto de lei” fiscal de Donald Trump, há um que é particularmente doloroso para os economistas políticos. O projeto de lei elimina radicalmente os subsídios para as fontes de energia limpa adotados durante o governo do presidente Joe Biden há três anos. Muitos consideravam esses subsídios imunes a mudanças de presidentes, uma vez que eles criaram novos empregos e oportunidades de lucro para empresas em Estados “vermelhos”, como são conhecidos os que costumam votar mais no Partido Republicano. Por mais alérgico que o Partido Republicano controlado por Trump seja às políticas verdes, a legenda não ousaria tirar esses benefícios, dizia o pensamento convencional. Só que ousou.

Onde o pensamento convencional errou? Acadêmicos que estudam como as decisões políticas são feitas tendem a concentrar-se nos custos e benefícios econômicos. Pela lógica deles, leis que criam ganhos materiais para grupos organizados, bem relacionados, à custa de perdas difusas para o resto da sociedade têm mais chances de aprovação. Muitos elementos do projeto de lei de Trump, de fato, podem ser bem explicados por esse ponto de vista: em particular, o projeto engendra uma dramática transferência de renda para os mais ricos, à custa dos mais pobres.


Na mesma toada, leis que trazem perdas concentradas para interesses econômicos poderosos têm poucas chances de avançar. Isso explica, por exemplo, por que elevar o custo das emissões de carbono, uma exigência para combater as mudanças climáticas, mas um grande golpe para os interesses dos combustíveis fósseis, tem sido um entrave politicamente tóxico nos Estados Unidos.

O programa de energia limpa de Biden, chamado de Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês), foi concebido para superar esse obstáculo político. Em vez de valer-se de “punições” (a taxação das emissões de carbono), ofereceu “incentivos”, na forma de subsídios às energias solar e eólica e a outras fontes renováveis. Esses incentivos não só tornaram a IRA viável; esperava-se que a tornassem duradoura. Mesmo se os republicanos voltassem ao poder, os beneficiários dos subsídios resistiriam contra sua retirada. Com o tempo, à medida que os lobbies verdes se fortalecessem, talvez até um ataque direto aos combustíveis fósseis se tornasse politicamente possível.

Tais esperanças foram estilhaçadas. Os grupos lobistas verdes tentaram suavizar as cláusulas da nova lei contrárias à IRA e conseguiram adiar a eliminação dos créditos fiscais para energia solar e eólica até meados de 2026. Embora a IRA não tenha sido revogada por completo, a transição verde esperada pelos democratas agora está em frangalhos.

Aqueles que seguem uma visão materialista da economia política encontrarão formas de racionalizar esse retrocesso. Os cortes de impostos regressivos para os ricos exigiam encontrar receitas em outros lugares. Dessa forma, talvez um grupo de interesse menos influente tenha sido sacrificado em favor de um mais poderoso, ou talvez três anos não tenham sido tempo suficiente para que os subsídios da IRA criassem um lobby forte o bastante a seu favor. Como disse um defensor da lei: “Nunca saberemos, mas se tivéssemos mais quatro anos para esses investimentos na indústria se consolidarem, seria muito mais difícil para os parlamentares desfazê-los”.

Em última análise, entretanto, essas justificativas soam falsas. Precisamos aceitar que, às vezes, a ideologia se sobrepõe aos interesses materiais. Não pode restar grande dúvida de que muitos parlamentares republicanos votaram contra os interesses econômicos dos próprios eleitores. Alguns o fizeram por medo de retaliação por parte de Trump; outros, porque realmente são céticos quanto às mudanças climáticas e, assim como Trump, se opõem a qualquer coisa que cheire a ativismo verde. Seja como for, o que prevaleceu foram as ideias sobre o que é importante e sobre como o mundo funciona, e não os lobbies econômicos ou interesses estabelecidos.

Há aqui uma lição mais ampla sobre economia política. Narrativas podem ser tão importantes quanto as políticas de grupos de interesse para dar tração à agenda de um partido. A capacidade de moldar visões de mundo e ideologias - tanto das elites quanto dos eleitores comuns - é uma arma poderosa. Quem a domina consegue convencer as pessoas a fazer escolhas que parecem estar em conflito com os próprios interesses econômicos.

Na verdade, os próprios interesses, sejam econômicos ou de outro tipo, são moldados por ideias. Para saber se ganhamos ou perdemos com uma determinada política, precisamos entender como ela se desenrolará no mundo real, e também o que ocorreria na ausência dela. Poucos de nós têm o conhecimento ou a inclinação para fazer esse tipo de análise. As ideologias oferecem atalhos para esse processo de tomada de decisão tão complexo.

Algumas dessas ideologias se manifestam na forma de histórias e narrativas sobre como o mundo funciona. Um político de direita, por exemplo, poderia dizer que “intervenções do governo sempre saem pela culatra” ou que “universidades de elite produzem conhecimento tendencioso e não confiável”. Outras ideologias se concentram em aumentar a proeminência de certos tipos de identidade - étnica, religiosa ou política. Dependendo do contexto, a mensagem poderia ser: “os imigrantes são seus inimigos” ou “os democratas são seus inimigos”.

É importante notar que o próprio conceito de “interesse próprio” depende de uma ideia implícita sobre quem é esse “eu”: quem somos, o que nos diferencia dos outros e qual é nosso propósito. Essas ideias não são fixas nem naturais desde o nascimento. Uma tradição alternativa na economia política vê os interesses como construções sociais, e não como algo determinado pelas circunstâncias materiais. Dependendo de como nos identificamos, seja como “homem branco”, “classe trabalhadora” ou “evangélico”, por exemplo, veremos nossos interesses de formas diferentes. Como poderiam dizer os construtivistas, “interesse é uma ideia”.

Há aqui uma lição para os opositores de Trump. Para ter sucesso, não basta criar boas políticas públicas que tragam benefícios materiais para grupos específicos. Seja para combater a mudança climática, promover a segurança nacional ou gerar bons empregos, eles precisam vencer a batalha maior das ideias, particularmente das ideias que moldam a compreensão que os eleitores têm de quem eles são e de quais são seus interesses. Os democratas, em particular, precisam reconhecer que as narrativas e identidades que promoveram até recentemente deixaram muitos americanos comuns para trás, assim como as políticas econômicas anteriores a Biden que contribuíram para a ascensão de Trump.

Estou em luta

Estamos todos numa praça, no fim de uma manifestação. Aqui e ali, vão aparecendo amigos e conhecidos, com quem se trocam acenos e abraços. A certa altura, um deles comenta. “Somos sempre os mesmos.” Olho-o, concordando. “Sinto que conheço toda a gente que está aqui”, respondo. “Mas ao menos saímos daqui satisfeitos”, contrapõe, com uma gargalhada. A luta política encontrou duas fórmulas: a festa ou o sacrifício. Quando desfilamos numa avenida, cheia de amigos que pensam como nós, há alegria, palavras cantadas, cartazes cheios de ironia, sorrisos cúmplices e uma sensação de se ter cumprido um dever, mesmo que no fundo saibamos que quase nunca nada muda a seguir. Mas também há um sofrimento autoinfligido quando a luta se faz pela greve. Esse sacrifício é evidente quando se fala de uma greve de fome ou dos cordões humanos que resistem à violência, mas pensa-se pouco sobre como cada dia sem trabalhar é um dia de salário perdido.

“Vai chegar tarde ao trabalho hoje?”, pergunta um jornalista quando há greves nos transportes. “Ficou sem a consulta?”, questiona quando a paralisação é na saúde. “E tem onde deixar as crianças?”, interroga-se quando são os professores que estão em luta. As perguntas desviam a atenção do motor do descontentamento que fez a greve, mas acabam por ser um reflexo do desconforto que é suposto as greves causarem. Sim, porque se a greve não tiver esse efeito, serão só dias de salário perdido e, com isso, quem os paga pode bem.

Estive poucas vezes de greve e não foi por me faltarem os motivos para as fazer. Os jornalistas são quase sempre mal pagos e precários, mas habituaram-se a envergonhar-se das suas lutas. “O jornalista não é notícia, a não ser quando morre”, dizem-nos nas aulas. E nós lá vamos morrendo, devagarinho, sem ser notícia. Sempre prontos para denunciar as injustiças que os outros sofrem, omitindo as nossas. Sempre prontos para relatar as vidas difíceis dos outros, escondendo as nossas.

Mas não é só o pudor deontológico que nos trava as lutas. A notícia morde-nos a pele, precisamos de a dar. As páginas que não escrevemos ficam-nos a arder por dentro. É como se nos faltasse o ar quando, a meio de uma greve, percebemos que há uma história que fica por contar. Como não sei ser outra coisa que não jornalista, não faço ideia se estas aflições atacam professores, médicos ou maquinistas da CP. Admito que sim. Admito que, numa sociedade em que aprendemos a definirmo-nos pelo que fazemos, seja realmente assustadora a ideia de deixarmos de o fazer.

“E tu és o quê?” Eu sou jornalista. E estou em luta. Escrevo estas palavras, não para furar uma greve, que é mais do que justa, mas porque acredito (com a força com que nos convencemos a nós próprios de alguma coisa) que o teclado é a minha arma. Disparo frases enquanto puder, porque o silêncio será a maior derrota.

Que luta é a minha? A de conseguir ter condições laborais dignas para exercer a minha profissão, a começar, claro, pelo mais básico: um salário ao fim do mês. Mas é também a luta de quem acha que o jornalismo é importante para furar as bolhas dos algoritmos que nos isolam uns dos outros, para encontrar espaços comuns onde as diferenças se resolvam pelo diálogo e pela razão e não pela violência, para denunciar injustiças, para escrutinar os poderes, para nos fazer pensar e para nos emocionar.

O jornalismo não se tornará obsoleto enquanto houver quem acredite na importância de um chão comum, que não seja feito de desistência e indiferença, mas que seja o terreiro de uma disputa de ideias, em cima do qual poderão nascer dias melhores. Podem vir mostrar-me ficheiros de Excel, podem vir tentar explicar-me como o mercado condenou o jornalismo, que eu hei de responder com os desmandos de gestão que vi em quatro mãos-cheias que já levo de redações e com a certeza de que a, certa altura, vamos todos perceber que não podemos continuar a viver só aquilo que os mercados desejam.

Essa é a minha luta e é a luta de muitos camaradas (aprende-se no primeiro dia de redação que “colegas” são as senhoras de má vida, “camaradas” é o que somos). Mas essa luta só terá hipóteses de vencer quando se fizer fora das paredes das redações. Quando lá fora houver finalmente uma maioria que entenda porque é que o jornalismo nunca foi tão necessário e como poderia ser tão melhor do que é.

Há uns tempos, uma camarada de outro jornal contou-me uma história interessante. Estava ela, num grupo de amigos menos politizados, queixando-se de como a maior parte das manifestações não dava em nada. Eles, que raras vezes tinham ido a manifestações, contrapuseram com a sua experiência. Sempre que decidiram sair à rua, a luta alcançou vitórias. Um dos exemplos dados era o da TSU, mas tinham outros. Ou seja, depois de muitos protestos feitos pelos tais mesmos de sempre, a dada altura a luta extravasou esses limites e conquistou quem à partida se vê como menos politizado.

Há os que vão levando o barco e os que, saltando lá para dentro já no fim da viagem, chegam ao destino, parecendo-lhes que o percurso foi fácil. O importante, porém, é que todos lá cheguem. Por agora, só quero manter o barco da VISÃO à tona, esperando que ele encontre um bom porto. 

Petra Costa expõe presença evangélica na direita golpista

Uma falha involuntária do documentário "Apocalipse nos Trópicos", de Petra Costa, não deixa de ter consequências para a discussão sobre o lugar do chamado mundo evangélico no universo social e político brasileiro. Anterior aos dados do Censo, o filme e seu personagem condutor, o pastor Silas Malafaia, assumem que os evangélicos no Brasil, em crescimento acelerado, já ultrapassariam 30% da população.

As apurações recentes do IBGE revelaram um freio nessa expansão —que, na realidade, chegou a 26,9% da população. Essa reversão de expectativas quanto a um país fadado a se tornar majoritariamente evangélico, como imaginavam alguns, passa a ser um ponto a considerar no entendimento da cena religiosa no país. Um dos aspectos é o triunfalismo de certa elite de pastores que ascendeu em vertentes pentecostais por meio do business da fé e passou a arregimentar fiéis para sustentar um projeto político teocrático de ocupação do Estado com evidente viés reacionário. A ideia de fazer do Brasil um país "governado por Jesus" parecia questão de tempo.

Mas o que afinal desejaria Jesus aqui na terra antes de seu retorno pós-apocaliptico? Ver seu rebanho no poder, diz Malafaia, que fala como se soubesse tudo sobre o que quer e não quer o filho de Deus. E o que não quer? Casamento gay, por exemplo, de modo algum. Comunismo, com ideias socioeconômicas coletivistas e igualitárias, menos ainda. Jesus, aliás, como vemos no documentário, é contra a Escola de Frankfurt —a teoria crítica de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Tampouco simpatiza com cultos de matriz africana e até coisas que não existem, como a intenção de Lula de instalar banheiros unissex em escolas e fechar igrejas.

Sempre se poderá dizer que a diretora do documentário tem lado, é progressista e admira Lula. Em sendo de esquerda, teria forçado a mão para caracterizar Malafaia como referência de pastor, difundindo assim um estereótipo e promovendo uma redução da diversidade desse segmento religioso. Uma crítica, de fato, a levar em conta. Malafaia poderia ter sido mais um e não "o" pastor do documentário.

Malafaia, contudo, não é uma fantasia ou invencionice da esquerda preconceituosa. Embora tenha perdido estatura, é personagem midiático que se mostrou poderoso no interregno histórico pelo qual o filme se interessa. Exerceu influência na ascensão de Jair Bolsonaro e de seu cortejo de ignorantes e golpistas a falar línguas estranhas e dar pulinhos epifânicos, como a ex-primeira dama Michelle, porque um "terrivelmente evangélico" chegou ao STF.

Não há dúvida de que as igrejas evangélicas, assim como outras tantas entidades religiosas, são um porto seguro que oferece conforto espiritual, pertencimento comunitário e apoio para muita gente. Isso não basta, porém, para inspirar uma atitude condescendente com a ameaça que a instrumentalização política da religião representa para uma sociedade republicana e democrática. Não vale só para evangélicos, embora esse grupo seja um "case" recente no Brasil.

O filme, com algumas passagens impressionantes, tem um ponto de vista relevante sobre a história do complexo de crenças presente no ataque à democracia no Brasil até o fatídico 8 de Janeiro. Vale conferir.
Marcos Augusto Gonçalves

Das novas lendas brasileiras

Nham-Borocochô, o Papagaio Velho, todo dia voava ao planalto das grandes cuias pra buscar alimento. Os macacos, com enorme alarido, seguiam Nham-Borocochô. A grande cuia virada pra cima continha mel. A grande cuia invertida era tabu. Nenhum bicho podia olhar o que a cuia invertida tapava. Num dia de festa uns macacos safados disseram:

– Nham-Borocochô pega mel numa cuia só porque tem um bico só, mas nós temos quatro patas.

E assim os macacos meteram os pés pelas mãos e misturaram o mel da primeira cuia ao esterco, matéria que a segunda escondia. Pê-da-vida, Nham-Borocochô, o Papagaio Velho, lançou terrível maldição sobre os macacos trapalhões.

Até hoje, lá no Planalto, a macacada é paga pra não aparecer. Mesmo assim, às vezes surgem, ninguém sabe de onde, votam com várias patas ao mesmo tempo, e o ar fica impregnado de forte cheiro de esterco.
Aldir Blanc, "Brasil passado a sujo"

Uma ética escalafobética

A confiança virou pó. Não se pode acreditar em mais ninguém. A boa-fé não existe, a não ser como fachada. A honestidade se reduz a uma reles desculpa para o fracassado: é a única virtude da qual o pobre pode se orgulhar e, pior, é da boca para fora.

Só vai enriquecer quem souber substituir a palavra “amor” pela palavra “interesse”. Todos os ricos são crápulas. Na classe dominante, só não é calhorda quem sofre dos nervos: as madames alcoólatras e as socialites deprimidas. O único trabalho verdadeiramente lucrativo é a pilantragem profissional. Os trouxas insistem na integridade. Os trouxas são perdedores.


Se você acha o diagnóstico exageradamente pessimista, convém dar uma olhada na novela das nove da Rede Globo, Vale Tudo. O melodrama faz uma radiografia cética da ética escalafobética patrocinada pela burguesia caquética. E, a julgar pelos rombudos índices de audiência, a radiografia colou. Há tempos a massa telespectadora não festejava tanto um folhetim da Globo. Há tempos, uma novela não dava tanto o que pensar. A cada capítulo, fica mais difícil ter esperanças ufanistas.

O quadro fica mais sombrio quando lembramos que o aviso não é novo. Na verdade, estamos falando de um aviso repetido. O que está no ar é um remake. A trama original de Vale Tudo foi exibida no ano longínquo de 1988, o mesmo da Constituição Cidadã, como a apelidou Ulysses Guimarães. Puxe pela memória, você vai se lembrar.

Foi um tempo feliz, de buliçosa efervescência cívica. O Brasil acreditava que, se varresse os corruptos para longe da sala, abriria caminho para o progresso e para a justiça social. Bastaria expulsar de Brasília os parasitas, os marajás, os larápios e os tecnocratas fardados. Com os malfeitores sepultados, o País, finalmente, se reconciliaria com o seu grande destino.

Naquele clima de deslumbramento, liberação e euforia, tudo o que os telespectadores queriam era revanche contra as elites imorais – e para esse continental apetite de acerto de contas, Vale Tudo serviu de vingança simbólica. A vilã Odete Roitman, interpretada por uma atriz grandiosa, Beatriz Segall, representava tudo o que havia de mais execrável: ela manipulava a família, os agregados, os empregados e, de resto, o elenco inteirinho, sempre destilando desprezo pelos mínimos resquícios de humanidade em quem quer que fosse. Sentia nojo das tais brasilidades, como pandeiro e feijoada. Usava e abusava da crueldade. Levou sua maldade a tais extremos que, no epílogo, terminou assassinada. Por merecimento.

Sua morte foi motivo de júbilo nacional. Foi até mesmo um divertimento: nos capítulos finais, o público dava risada tentando adivinhar quem tinha matado a megera chique. A pergunta “Quem matou Odete Roitman” entrou para o folclore tropical, assim como a execução da inescrupulosa e fascinante personagem virou um ritual de purificação, um antídoto contra todas as imundícies.

Ocorre que, ao longo das décadas que vieram depois, as imundícies voltaram, e voltaram ainda mais imundas. Elas reapareceram com tanta força que tornaram obrigatório o regresso da bruxa maquiada de dondoca. Eis então que, em 2025, o bode expiatório está outra vez no horário nobre. Mas o final que a espera poderá ser diferente.

A velha senhora – remodelada na estampa, mas intacta no caráter – saiu da tumba para repetir a catarse, desta vez encarnada na atriz Débora Bloch, cuja interpretação classuda transpira absolutismo majestoso, imperial. Em sua nova fase, a dama hostil segue ferina: espanca um subalterno só de olhar para ele e tortura a irmã carente com um quase imperceptível repuxozinho de canto de boca, como se dissesse que a outra não lhe merece nem mesmo o trabalho de rir de seu sofrimento sincero, mas vazio.

Sim, Odete está igualzinha. Os tempos, porém, são outros. Hoje, tiranos e ladravazes, desde que vencedores, não são mais objeto de repúdio, mas de adoração. A ideologia se sofisticou e opera milagres funestos. A identificação dos desvalidos com os bilionários sem princípios chegou a tal ponto que o motoqueiro precarizado sente-se tão empresário quanto Elon Musk (só lhe falta ganhar algum). Donald Trump, que acaba de tirar um trilhão de dólares dos serviços de saúde com o apoio do Congresso, desfila como ídolo dos que nada têm. No Brasil, milhares de eleitores vão às ruas para aplaudir os que tentaram dar um golpe de Estado. Algo mudou na alma do povo.

Cenário nebuloso. Talvez, hoje, a massa de telespectadores não deseje mais a morte violenta de Odete Roitman. Talvez torça, isto sim, para que ela triunfe e dê uma rasteira na moral da história para acabar de vez com esses bonzinhos insuportáveis que não lhe dão descanso. A massa, que anda caidinha por opressores, talvez queira que a vigarista, em vez de ser assassinada, assassine pessoalmente aquele bando de chorões e de choronas, esquerdosos, previsíveis, chatos e politicamente corretos. Não será surpresa se os roteiristas tiverem de alterar o desfecho da novela para conceder, na segunda vida, uma anistia para Odete Roitman.

Voltas que o mundo precisa dar

Nosso planeta gira em seu eixo, em torno do sol e executa vários outros movimentos, menos conhecidos. Mas a história da espécie que hoje destrói seu habitat também dá voltas, algumas lentas, outras bem rápidas, súbitas. Estas últimas ocorrem após acúmulo de pressões, como uma panela pressurizada sem válvula adequada acaba por explodir.

Hoje, crescem as pressões. Uma delas é a cada dia maior desigualdade de renda, associada à infundada crença de que mais crescimento da economia trará conforto e abundância para todos. Crescer a economia sem mudar suas características nos levará a pontos de inflexão no sistema Terra que provocarão rupturas súbitas. Bem mais graves e amplas que a recém ocorrida no Texas, onde as águas do rio Guadalupe subiram nove metros em 120 minutos. Tempo insuficiente para qualquer “adaptação”, mesmo a fuga, que impeça muitas mortes.


A espécie autodeclarada sapiens já ultrapassou muitos dos limites que a biosfera apresenta, mas os poderosos não reconhecem este fato e continuam, aceleradamente, a nos conduzir ao abismo. Lutam pelo idiótico objetivo de serem os últimos a morrer… de fome, afogados ou queimados em secas, enchentes, incêndios e ondas de calor cada vez mais fortes e outros eventos súbitos. Vale lembrar que, embora 13% dos texanos vivam abaixo da sempre baixinha linha oficial de pobreza, o que lhes impede desfrutar de muitos dos confortos da “modernidade”, a “riqueza” de alguns texanos decorre de provocarem as mudanças climáticas, enchentes, incêndios, ondas de calor e outras pressões que nos aproximam do abismo. Riqueza assassina?

Sim, mesmo quando reconhecemos que o petróleo e os demais combustíveis fósseis trouxeram muitos benefícios para muitos humanos. Assim como as drogas letais trazem prazer ao iniciante e o destrói em seguida.

“Como viver sem petróleo”, é pergunta que muitos se fazem, e os poderosos nela se baseiam para seguir rumo a desastres crescentes. A pergunta adequada, hoje, é: como sobreviver usando o petróleo, o aço, o concreto e outros produtos e serviços como temos feito?

Cientistas e a Agência Internacional de Energia já declararam que nenhum novo campo de petróleo deve ser explorado, se quisermos evitar as mudanças ambientais descontroladas, decorrentes da ultrapassagem dos pontos de inflexão que revolucionarão o clima, as correntes marítimas e outros fundamentos da vida.

Ignorando completamente essa realidade, congressistas brasileiros e lobistas estão de olho na exploração da droga fóssil na foz do Amazonas. Argumentam que isso é essencial para melhorar a qualidade de vida da população local, e omitem o fato de que, por exemplo no Rio de Janeiro, onde se extrai tanto dessa droga a tantos anos, a miséria persiste.

Como dito acima, não é o eventual crescimento da economia que trará melhorias para a maioria; o que necessitamos é reconhecer que somos 99% e legislar para distribuir boa parte da riqueza do 1%, forçando nossos congressistas a aprovar a taxação dos super ricos e a desoneração completa dos impostos sobre os mais pobres.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

'Cemitérios da Memória' – Infância enterrada sob os escombros

Em um pequeno canto de Gaza, Sewar Al-Ejleh, de 14 anos, carrega pesados ​​baldes de água e espera em longas filas por comida para caridade.
Seu pai foi morto em um ataque aéreo que destruiu sua casa. "A vida não é mais a mesma. Não temos o luxo de sofrer", diz ela.

Bissan, de 16 anos, sobreviveu a um terrível ataque com cinto de fogo que matou sua mãe, duas irmãs e dois irmãos. Ela sofreu ferimentos graves e agora mora longe do pai, em tratamento no exterior.

“Não sei quem lamentar primeiro”, ela diz com a voz fraca.


Em outro lugar, num abrigo, um menino de quatro anos grita: "Quero que Baba me carregue!" Seu avô o envolve em seus braços, sussurrando: "Lembre-se, eu sou Baba agora". Seu pai biológico foi morto junto com o resto da família em um massacre.

Aisha, de cinco anos, que já foi a princesinha do pai, agora olha para a foto dele e diz: "Quero que ele me veja indo bem na escola".

Sua irmã mais nova, Sewar, de apenas quatro anos, lamenta a morte do irmãozinho Youssef, que foi martirizado nos braços do pai. "Só quero ver Baba por alguns minutos... depois ele pode voltar a ser morto", lamenta.

A mãe, tentando se recompor, diz: "Consolá-los é como decodificar uma equação química complexa... uma para a qual não tenho as respostas."

O Dr. Youssef Awadallah, psicólogo clínico em Gaza, pinta um quadro sombrio: “As crianças aqui não estão apenas de luto — elas estão envelhecendo antes do tempo. Elas carregam consigo cemitérios de memórias.”

Ele diz que muitas crianças pararam de falar. Algumas não conseguem mais brincar. Meninas de apenas seis anos carregam bebês e cuidam de famílias inteiras.

“Essa maturidade forçada causa fraturas psicológicas profundas”, explica o Dr. Awadallah.



Ele enfatiza que “o trauma se agrava diariamente — perda, deslocamento, medo, falta de segurança, tudo se acumula em corpos jovens que nunca foram feitos para suportar tanto peso.

Algumas crianças sofrem de mutismo, enurese noturna ou retraimento emocional. Outras fazem perguntas aterrorizantes como: 'Por que estamos vivos? Por que nossas famílias foram levadas?'”

O que essas crianças precisam, ele enfatiza, não é apenas comida ou remédios, mas “um espaço emocionalmente seguro para chorar, pedir, lamentar — sem vergonha ou repressão”.

Segundo Aziza Al-Kahlout, porta-voz do Ministério do Desenvolvimento Social de Gaza, o número de órfãos saltou de 24 mil antes de 7 de outubro para quase 40 mil atualmente. Isso inclui 2 mil crianças que perderam ambos os pais e 500 crianças que são as únicas sobreviventes de suas famílias inteiras.

“Os mais vulneráveis ​​são os órfãos com deficiência — eles não têm acesso a cuidados básicos de saúde e emocionais”, acrescenta ela.

A guerra paralisou o sistema de apadrinhamento de órfãos. A ajuda internacional foi interrompida devido ao fechamento de bancos, enquanto o apoio local está chegando apenas parcialmente aos recém-órfãos.

“Agora temos mais de 1.400 crianças órfãs com menos de um ano”, diz ela. “Elas começaram a vida sem mãe, sem pai — e sem leite ou cama.”

Cada figura conta a história de uma criança que perdeu um dos pais, um lar ou o mundo inteiro. A crise dos órfãos em Gaza não é apenas uma estatística humanitária — é uma ferida aberta na consciência da humanidade.

Essas crianças não precisam apenas de ajuda — elas precisam de segurança, dignidade, amor e um futuro livre do pesadelo da guerra.

O Tempo e a Queixa

E este calor que não se aguenta? Estas raízes minhotas e beirãs, uma certa maturação anglófila ou a melancolia da gravata concorrem para que prefira, tendencialmente, o frio. Ou o Inverno, como em tempos se chamava aos meses que iam de Novembro a Março.

Algures em Abril, dei por mim num estabelecimento de saúde:

— “Não se preocupe que a partir das 10:00 já se pode circular à vontade.”, diz a jovem profissional de cuidados médicos.



— “Pois. Ainda apanhei uma valente chuvada.”

— “Estou a ver, estou a ver! Isto hoje não se percebe o tempo.”

Silêncio.

— “Percebe…”, suspensão e — “…Abril, águas mil!”, remato, muito satisfeito por sacar do chavão popular para justificar reservas em relação às unanimidades que alimentam o alarmismo social.

— “Também é verdade. Mas no ano passado, por esta altura, já estava na praia. Não é que estivesse um Sol de Verão, mas já dava para dar uns mergulhos”, a rapariga ignorava por completo o ridículo da sua própria recordação. Não há pudor quando se trata de exibir entusiasmos estivais em pleno Abril.

Mas isso não constitui problema. Porque a grande questão que esta pequena troca de ideias de elevador esconde não é tanto o grande medo humano de que tudo, até o tempo, seja sintoma de um colapso iminente. É o magnetismo que a praia exerce sobre o lisboeta. O problema não é o tempo estar assim ou estar assado: ao primeiro raio de sol lá vai o lisboeta, de Ray-Bans e Paez, rumo ao esplendor dourado dos areais das redondezas. É esse abismo balnear que justifica as suas melancolias eco-ansiosas. Quando o sortilégio geográfico que nos calhou na rifa deveria, pelo contrário, motivar a mais viva e funda gratidão.

Ainda não tinha tido a oportunidade de confessar, em público, esta desconfiança meteorológica que me foi crescendo no cocuruto. Indistinguível, hoje, dos quistos sebáceos que por lá moram. Oportunidade não tem faltado. Porque tudo, absolutamente tudo, meus amigos, cabe nesta moldura imensa e vaga, que alguém baptizou de “alterações climáticas”.

Quando Al Gore resolveu relançar a sua carreira política como profeta da desgraça chamavam-lhe “aquecimento global”. E eu, que já então nutria desprezo por quase todos os entusiasmos colectivos, limitei-me a observar. À medida que as previsões iam falhando e o tempo não aquecia assim tanto, uns poucos abriram os olhos para o óbvio. O termo era curto, comezinho, indigno de tanto pânico, e fizeram uma actualização. Rebranding, diriam os vendedores de banha-da-cobra. E passou-se a chamar-se “alterações climáticas”. Um faneco de jargão prestadio e eficiente onde cabe o frio, o calor, a seca e o dilúvio. Tudo e nada.

Arrefeceu? Afinal está mais quente? Um furacão na América do Sul? Uma insolação no Algarve? Antes, havia títulos mais belos e menos exaltados para estas variações. Eram as estações.

Dividiam-se em quatro e escreviam-se com maiúscula. De tal modo espicaçavam o engenho do homem que Vivaldi compôs o seu Magnum Opus. Foi até à conta dessas quatro maravilhas da diversidade natural, que um certo pizzaiolo, algures no século XIX, resolveu dividir ingredientes, consoante a sazonalidade, em cima de um bocado de massa. Se isto não é graça, nada mais será.

Eis o que quero dizer: a poesia dos nomes tem uma relação íntima com a poesia das coisas. Não se imagina um cozinheiro que ousasse criar uma “Feijoada das Alterações Climáticas”. Nem compositor que se prestasse a escrever uma sinfonia com esse título miserável.

A propósito do calor patético dos últimos dias, que se faz passar por presságio do Apocalipse, alguém me mandou uma daquelas montagens “antes e depois”. Lado a lado, duas infografias: uma dos anos 90, outra de agora. Na mais antiga solzinhos tipo emoji pontilhavam um mapa verde-claro da Península Ibérica. Um bom humor em Paintbrush. Na mais recente, umas sinistras nódoas de vários matizes que iam de vermelho-lava a encarnado-drácula, faziam da Península uma Mordor a latejar. Era como se Deus tivesse decidido, de uma vez por todas, pôr fogo nisto tudo.

Tenho para mim que o ponto é ainda outro, mais obscuro, antigo como a nossa natureza caída. Ei-lo: só estamos bem a dizer mal. A pobre auxiliar de saúde que me acompanhava no elevador para o 2º andar do Hospital queixava-se porquê? Não era tanto da falta de praia em Abril quanto porque sim. É isto que as pessoas fazem desde que nos foi vedado o Jardim do Éden. Queixam-se. Porque a queixa é fundamental para perseverar, neste vale de sombras a que chamamos vida. Porque nos recorda, ainda que vagamente, no fundo de nós, que um dia houve qualquer coisa melhor. Qualquer coisa boa.

As “alterações climáticas”, como a ciática, a inflação, os meus quistos sebáceos, etc., etc., são uma válvula de escape. Tendemos a falar sobre o tempo, verdade. Como tendemos à lamúria. Esperando outra estação. O que se perdeu.

Qual é a sua ditadura favorita?

Psiquiatras fazem uma festa quando, mesmo que em camisa de força e acorrentado, um bolsonarista lhes cai às mãos. O bolsonarista típico —todo bolsonarista é típico— é portador de uma antologia de transtornos de personalidade, incluindo delírios (crenças falsas e fixas sem base na realidade), alucinações (a sensação de ele ou um dos seus estar sendo perseguido) e grave confusão mental (dificuldade em organizar os pensamentos, resultando em falas confusas ou desconexas). Um dos problemas do bolsonarista está no conceito de ditadura.


Por um lado, ele acusa o STF de estar impondo uma ditadura no Brasil ao condenar senhoras patuscas, pichadoras de batom e patriotas armados com barras de ferro a 17 anos de prisão e ameaçando dar 40 para inocentes generais golpistas e seu líder Bolsonaro. Por outro, refere-se com saudade à extinta ditadura militar, que, segundo o mesmo Bolsonaro, só errou por não matar 30 mil brasileiros em vez de torturá-los, embora uma de suas admirações seja o torturador Brilhante Ustra. Afinal, em que ficamos? O bolsonarista é contra ou a favor das ditaduras?

Depende da ditadura. A do STF é um suplício em que o acusado —digamos Bolsonaro— responde em liberdade e cercado de advogados a uma série de investigações e interrogatórios, tendo até o direito de ficar calado. Denunciado pela PGR, é submetido a um longo processo criminal composto de declarações de testemunhas, todas que ele puder arrolar. Tornado réu, ele pode apresentar requerimentos complementares, solicitar novas diligências e, como a apoteose no teatro, expor suas considerações finais. É uma tortura que se arrasta por até dois anos, acompanhada passo a passo pela TV. Por fim, se for condenado, sempre poderá beneficiar-se da prisão domiciliar e dormir de pijama em seu lar.

A ditadura militar era mais rápida. O sujeito se apresentava para depor ou era apanhado em casa. Metiam-lhe um capuz e ele desaparecia ou era suicidado num porão a poder de tortura.

Sem a intricada burocracia do STF.

O tabu do genocídio: O exemplo do relatório Yoorrook

Apesar de membro da Convenção de 1948, Portugal tem não só passado ao lado do reconhecimento do genocídio na Palestina, como apresentado resistência em enfrentar o seu próprio passado colonial, negligenciando assim a sua responsabilidade histórica. Com efeito, o reconhecimento do genocídio do povo palestiniano tal como o genocídio Herero na Namíbia, entre outros, forçosamente obrigar-nos-ia a confrontar-nos com as nossas ações em Africa

A 1 de Julho de 2025, a Comissão de Justiça Yoorrook, criada pelo Estado de Victoria, na Austrália, definiu que as populações aborígenes e indígenas sofreram um genocídio às mãos do Império Britânico, vendo a sua população diminuir em cerca de 75 por cento. O relatório demonstrou com base em documentos e testemunhos a existência de massacres, remoções forçadas de crianças, destruição de línguas, culturas, espiritualidade e de formas de vida, tudo atos enumerados na Convenção sobre o Genocídio de 1948. A notícia sobre a decisão da comissão, não obstante ter sido publicada em vários países, nomeadamente de língua inglesa, foi praticamente ignorada pelos media e pelo mundo da política.


Este silêncio sobre o tema genocídio, infelizmente tão atual, não é novo nem exceção. A questão da Palestina tem demonstrado à saciedade o desconforto político, e até o risco diplomático que o mesmo implica. No entanto, temos de ultrapassar este desconforto, porque como nos mostrou o caso Australiano e o processo em curso no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) sobre o genocídio na Palestina, falar sobre o tema e analisar o impacto e as nossas ações é um dever jurídico e moral.

O termo genocídio foi criado por Raphael Lemkin em 1944, para definir a destruição e extermínio deliberado de uma etnia ou raça, ou grupo de pessoas. A Convenção de Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948, ratificada por Portugal em 1998, mas somente enviado à ONU a 9 de Fevereiro de 1993, define como genocídio atos cometidos com a intenção de destruir total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso, através de homicídio, danos físicos, imposição de condições de vida destrutivas, esterilização forçada, ou a remoção forçada de crianças. Os Tribunais Criminais Internacionais para a Jugoslávia e Ruanda, e o TIJ reforçaram dois critérios fundamentais: o primeiro sendo a intenção, dolus specialis; e o segundo a realização de pelo menos um dos cinco atos listados no artigo segundo da Convenção:

“Na presente Convenção, entende-se por genocídio os atos abaixo indicados, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tais como:
a) Assassinato de membros do grupo;
b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição
física, total ou parcial;
d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.”45.

A Convenção da ONU, não espelha, contudo, as ideias de Lemkin sobre a destruição cultural, linguística, educativa e espiritual, que na sua perspetiva eram também formas de genocídio. A razão pela qual estes atos constantes da definição de Lemkin não estão incluídos na Convenção deve-se ao facto de diversos estados-membros se terem oposto, pois que, certamente, tal poria em causa as suas políticas com as minorias étnicas e culturais existentes nos seus estados. O resultado é que o conceito existente é insuficiente face às agressões que se têm vindo a verificar.

A Comissão Yoorrook conseguiu aplicar o direito internacional atual ao contexto colonial da Austrália tendo inclusivamente ido em certos para além dos critérios da convenção da ONU.

Com efeito, considerou, aplicando critérios culturais definidos por Lemkin, que entre 1834 e 1851 as populações aborígenes foram vítimas do crime de genocídio, tendo documentado a existência de múltiplos massacres, a existência das ‘Stolen Generations’, crianças removidas forçadamente, a destruição cultural, esterilizações, e confinamento em condições de vida degradantes. No âmbito do seu trabalho a Comissão defendeu ainda que para além do genocídio (que terminou em 1854), o tratamento dos povos aborígenes continuou a ser racista, sujeitando os povos indígenas a tratamentos muito desiguais em diversas áreas nomeadamente no acesso à saúde e educação.

O relatório recomendou reparações, reconhecimento, e reformas sistémicas a vários níveis, em particular na educação. É de salientar a reação de líderes indígenas, como Jill Galagher, que afirmou que não culpava nenhum australiano vivo por estes acontecimentos, mas que era extremamente importante “aceitar, reconhecer e reconciliar” os resultados da comissão. É ainda de notar que esta comissão configura a primeira vez que um Estado ocidental reconhece como genocidas os seus atos fundacionais.

No dia 30 de Junho de 2025, o Secretário-Geral Assistente para o Médio Oriente, Khaled Khiari, afirmou que o número de mortes em Gaza desde outubro de 2023, tinha ultrapassado os 56.500, com mais de 1.000 só neste mês de junho 2025, para além do número chocante de mortes, Israel tem procedido à destruição de Gaza e de toda a sua infraestrutura civil, impondo a fome como arma de guerra, e forçando a deslocação de cerca de 1.7 milhões de pessoas. Estes atos levaram a Africa do Sul, com o apoio de vários outros países, principalmente, do Sul Global, a acusar Israel de genocídio no TIJ, que em janeiro de 2024 admitiu haver risco de genocídio, e ordenou várias medidas provisórias, medidas estas que foram completamente ignoradas por Israel.

As ações do Governo israelita correspondem a três dos cincos atos listados pela Convenção de 1948, a qual salienta-se foi assinada por Israel a 17 de agosto de 1949 e ratificada a 9 de março de 1950. Tal como demonstrado na Comissão australiana, existem também inequívocas provas de uma intenção destrutiva por parte de Israel, que constituem o dolus specialis. Tal como os colonos britânicos na Austrália negavam a humanidade dos povos aborígenes, também os líderes israelitas consideram os palestinianos ‘animais’ a ser eliminados, conforme o Genocide Watch, que documentou a utilização desta linguagem, evidência esta utilizada no processo do TIJ. As provas são claras e inequívocas, o que torna mais incompreensível o silêncio do mundo ocidental e, naturalmente, do Estado Português.

Apesar de membro da Convenção de 1948, Portugal tem não só passado ao lado do reconhecimento do genocídio na Palestina, como apresentado resistência em enfrentar o seu próprio passado colonial, negligenciando assim a sua responsabilidade histórica. Com efeito, o reconhecimento do genocídio do povo palestiniano tal como o genocídio Herero na Namíbia, entre outros, forçosamente obrigar-nos-ia a confrontar-nos com as nossas ações em Africa. Só entre 1501 e 1866, Portugal traficou cerca de 5.848.265 africanos escravizados. No século XX, há pouco mais de 50 anos foram cometidos massacres, devidamente documentados, em Africa (Batepá em 1953 e Wiriyamu em 1972), em que usámos napalm nos bombardeamentos durante a guerra, tendo Portugal sido, durante anos, no Estado Novo, tal como Israel o é agora, condenado pela ONU pelas nossas ações nas colónias.

Lamenta-se, pois, o facto de Portugal não ter ainda criado qualquer comissão de justiça histórica, ou de verdade, com vista ao reconhecimento das suas ações, nomeadamente, no período colonial, as quais provocaram a morte e a tortura de tantos.

A Comissão de Yoorrook demonstra que é possível num Estado ocidental moderno investigar, reconhecer, e definir os atos da estrutura colonial como genocidas, como definido pelo direito internacional.

A Convenção de 1948, criada sob a memória do Holocausto e da destruição de povos, é um pilar do sistema internacional moderno. A lei criada por este documento é clara e exigente, no, entanto, o compromisso com esta Convenção depende da vontade política dos Estados em reconhecerem o intolerável. A Comissão Yoorrook, representa um gesto de honestidade histórica, que demonstra também que é possível aplicar e cumprir o direito internacional.

A destruição da Palestina, cumpre os requisitos jurídicos definidos na Convenção, para a sua consideração como genocídio. A recusa em utilizar o termo genocídio por parte de uma grande maioria de estados ocidentais é a recusa das provas inequívocas acumuladas pela ONU, pelo TIJ, por várias organizações de direitos humanos, e por vários Estados, nomeadamente do Sul Global, demonstrando que o direito internacional é menos importante que a geopolítica, e que a humanidade dos povos é condicional.

O silêncio de Portugal não é neutro, é uma escolha que revela mais sobre o passado do que sobre o presente. É um silêncio, que compromete e que põe em causa os nossos compromissos históricos, éticos e jurídicos.

Portugal deve não só apoiar o processo sul-africano no TIJ com vista ao reconhecimento do genocídio na Palestina perpetrado por Israel, como seguir o exemplo do relatório da Comissão Yoorrook, como um ponto de partida para analisar os crimes contra o direito dos povos praticados no período colonial, criando uma comissão de verdade sobre a escravatura e o colonialismo. A recusa em cumprir a Convenção sobre o Genocídio de 1948 e estudar e repensar o nosso passado colonial não é uma questão de prudência diplomática ou histórica, é, sim, a continuação de uma omissão que nos envergonha. Está na hora de Portugal enfrentar a sua verdade histórica, enfrentando com clareza, rigor e sentido de justiça a nossa história.

É tempo de olharmos para o espelho da história e dizermos a verdade sem medo. Não se exige culpa, exige-se responsabilidade para reconhecer, reparar e não repetir.