sexta-feira, 11 de julho de 2025

Quando a ideologia supera a razão econômica

Entre os desastres do “grande e belo projeto de lei” fiscal de Donald Trump, há um que é particularmente doloroso para os economistas políticos. O projeto de lei elimina radicalmente os subsídios para as fontes de energia limpa adotados durante o governo do presidente Joe Biden há três anos. Muitos consideravam esses subsídios imunes a mudanças de presidentes, uma vez que eles criaram novos empregos e oportunidades de lucro para empresas em Estados “vermelhos”, como são conhecidos os que costumam votar mais no Partido Republicano. Por mais alérgico que o Partido Republicano controlado por Trump seja às políticas verdes, a legenda não ousaria tirar esses benefícios, dizia o pensamento convencional. Só que ousou.

Onde o pensamento convencional errou? Acadêmicos que estudam como as decisões políticas são feitas tendem a concentrar-se nos custos e benefícios econômicos. Pela lógica deles, leis que criam ganhos materiais para grupos organizados, bem relacionados, à custa de perdas difusas para o resto da sociedade têm mais chances de aprovação. Muitos elementos do projeto de lei de Trump, de fato, podem ser bem explicados por esse ponto de vista: em particular, o projeto engendra uma dramática transferência de renda para os mais ricos, à custa dos mais pobres.


Na mesma toada, leis que trazem perdas concentradas para interesses econômicos poderosos têm poucas chances de avançar. Isso explica, por exemplo, por que elevar o custo das emissões de carbono, uma exigência para combater as mudanças climáticas, mas um grande golpe para os interesses dos combustíveis fósseis, tem sido um entrave politicamente tóxico nos Estados Unidos.

O programa de energia limpa de Biden, chamado de Lei de Redução da Inflação (IRA, na sigla em inglês), foi concebido para superar esse obstáculo político. Em vez de valer-se de “punições” (a taxação das emissões de carbono), ofereceu “incentivos”, na forma de subsídios às energias solar e eólica e a outras fontes renováveis. Esses incentivos não só tornaram a IRA viável; esperava-se que a tornassem duradoura. Mesmo se os republicanos voltassem ao poder, os beneficiários dos subsídios resistiriam contra sua retirada. Com o tempo, à medida que os lobbies verdes se fortalecessem, talvez até um ataque direto aos combustíveis fósseis se tornasse politicamente possível.

Tais esperanças foram estilhaçadas. Os grupos lobistas verdes tentaram suavizar as cláusulas da nova lei contrárias à IRA e conseguiram adiar a eliminação dos créditos fiscais para energia solar e eólica até meados de 2026. Embora a IRA não tenha sido revogada por completo, a transição verde esperada pelos democratas agora está em frangalhos.

Aqueles que seguem uma visão materialista da economia política encontrarão formas de racionalizar esse retrocesso. Os cortes de impostos regressivos para os ricos exigiam encontrar receitas em outros lugares. Dessa forma, talvez um grupo de interesse menos influente tenha sido sacrificado em favor de um mais poderoso, ou talvez três anos não tenham sido tempo suficiente para que os subsídios da IRA criassem um lobby forte o bastante a seu favor. Como disse um defensor da lei: “Nunca saberemos, mas se tivéssemos mais quatro anos para esses investimentos na indústria se consolidarem, seria muito mais difícil para os parlamentares desfazê-los”.

Em última análise, entretanto, essas justificativas soam falsas. Precisamos aceitar que, às vezes, a ideologia se sobrepõe aos interesses materiais. Não pode restar grande dúvida de que muitos parlamentares republicanos votaram contra os interesses econômicos dos próprios eleitores. Alguns o fizeram por medo de retaliação por parte de Trump; outros, porque realmente são céticos quanto às mudanças climáticas e, assim como Trump, se opõem a qualquer coisa que cheire a ativismo verde. Seja como for, o que prevaleceu foram as ideias sobre o que é importante e sobre como o mundo funciona, e não os lobbies econômicos ou interesses estabelecidos.

Há aqui uma lição mais ampla sobre economia política. Narrativas podem ser tão importantes quanto as políticas de grupos de interesse para dar tração à agenda de um partido. A capacidade de moldar visões de mundo e ideologias - tanto das elites quanto dos eleitores comuns - é uma arma poderosa. Quem a domina consegue convencer as pessoas a fazer escolhas que parecem estar em conflito com os próprios interesses econômicos.

Na verdade, os próprios interesses, sejam econômicos ou de outro tipo, são moldados por ideias. Para saber se ganhamos ou perdemos com uma determinada política, precisamos entender como ela se desenrolará no mundo real, e também o que ocorreria na ausência dela. Poucos de nós têm o conhecimento ou a inclinação para fazer esse tipo de análise. As ideologias oferecem atalhos para esse processo de tomada de decisão tão complexo.

Algumas dessas ideologias se manifestam na forma de histórias e narrativas sobre como o mundo funciona. Um político de direita, por exemplo, poderia dizer que “intervenções do governo sempre saem pela culatra” ou que “universidades de elite produzem conhecimento tendencioso e não confiável”. Outras ideologias se concentram em aumentar a proeminência de certos tipos de identidade - étnica, religiosa ou política. Dependendo do contexto, a mensagem poderia ser: “os imigrantes são seus inimigos” ou “os democratas são seus inimigos”.

É importante notar que o próprio conceito de “interesse próprio” depende de uma ideia implícita sobre quem é esse “eu”: quem somos, o que nos diferencia dos outros e qual é nosso propósito. Essas ideias não são fixas nem naturais desde o nascimento. Uma tradição alternativa na economia política vê os interesses como construções sociais, e não como algo determinado pelas circunstâncias materiais. Dependendo de como nos identificamos, seja como “homem branco”, “classe trabalhadora” ou “evangélico”, por exemplo, veremos nossos interesses de formas diferentes. Como poderiam dizer os construtivistas, “interesse é uma ideia”.

Há aqui uma lição para os opositores de Trump. Para ter sucesso, não basta criar boas políticas públicas que tragam benefícios materiais para grupos específicos. Seja para combater a mudança climática, promover a segurança nacional ou gerar bons empregos, eles precisam vencer a batalha maior das ideias, particularmente das ideias que moldam a compreensão que os eleitores têm de quem eles são e de quais são seus interesses. Os democratas, em particular, precisam reconhecer que as narrativas e identidades que promoveram até recentemente deixaram muitos americanos comuns para trás, assim como as políticas econômicas anteriores a Biden que contribuíram para a ascensão de Trump.

Estou em luta

Estamos todos numa praça, no fim de uma manifestação. Aqui e ali, vão aparecendo amigos e conhecidos, com quem se trocam acenos e abraços. A certa altura, um deles comenta. “Somos sempre os mesmos.” Olho-o, concordando. “Sinto que conheço toda a gente que está aqui”, respondo. “Mas ao menos saímos daqui satisfeitos”, contrapõe, com uma gargalhada. A luta política encontrou duas fórmulas: a festa ou o sacrifício. Quando desfilamos numa avenida, cheia de amigos que pensam como nós, há alegria, palavras cantadas, cartazes cheios de ironia, sorrisos cúmplices e uma sensação de se ter cumprido um dever, mesmo que no fundo saibamos que quase nunca nada muda a seguir. Mas também há um sofrimento autoinfligido quando a luta se faz pela greve. Esse sacrifício é evidente quando se fala de uma greve de fome ou dos cordões humanos que resistem à violência, mas pensa-se pouco sobre como cada dia sem trabalhar é um dia de salário perdido.

“Vai chegar tarde ao trabalho hoje?”, pergunta um jornalista quando há greves nos transportes. “Ficou sem a consulta?”, questiona quando a paralisação é na saúde. “E tem onde deixar as crianças?”, interroga-se quando são os professores que estão em luta. As perguntas desviam a atenção do motor do descontentamento que fez a greve, mas acabam por ser um reflexo do desconforto que é suposto as greves causarem. Sim, porque se a greve não tiver esse efeito, serão só dias de salário perdido e, com isso, quem os paga pode bem.

Estive poucas vezes de greve e não foi por me faltarem os motivos para as fazer. Os jornalistas são quase sempre mal pagos e precários, mas habituaram-se a envergonhar-se das suas lutas. “O jornalista não é notícia, a não ser quando morre”, dizem-nos nas aulas. E nós lá vamos morrendo, devagarinho, sem ser notícia. Sempre prontos para denunciar as injustiças que os outros sofrem, omitindo as nossas. Sempre prontos para relatar as vidas difíceis dos outros, escondendo as nossas.

Mas não é só o pudor deontológico que nos trava as lutas. A notícia morde-nos a pele, precisamos de a dar. As páginas que não escrevemos ficam-nos a arder por dentro. É como se nos faltasse o ar quando, a meio de uma greve, percebemos que há uma história que fica por contar. Como não sei ser outra coisa que não jornalista, não faço ideia se estas aflições atacam professores, médicos ou maquinistas da CP. Admito que sim. Admito que, numa sociedade em que aprendemos a definirmo-nos pelo que fazemos, seja realmente assustadora a ideia de deixarmos de o fazer.

“E tu és o quê?” Eu sou jornalista. E estou em luta. Escrevo estas palavras, não para furar uma greve, que é mais do que justa, mas porque acredito (com a força com que nos convencemos a nós próprios de alguma coisa) que o teclado é a minha arma. Disparo frases enquanto puder, porque o silêncio será a maior derrota.

Que luta é a minha? A de conseguir ter condições laborais dignas para exercer a minha profissão, a começar, claro, pelo mais básico: um salário ao fim do mês. Mas é também a luta de quem acha que o jornalismo é importante para furar as bolhas dos algoritmos que nos isolam uns dos outros, para encontrar espaços comuns onde as diferenças se resolvam pelo diálogo e pela razão e não pela violência, para denunciar injustiças, para escrutinar os poderes, para nos fazer pensar e para nos emocionar.

O jornalismo não se tornará obsoleto enquanto houver quem acredite na importância de um chão comum, que não seja feito de desistência e indiferença, mas que seja o terreiro de uma disputa de ideias, em cima do qual poderão nascer dias melhores. Podem vir mostrar-me ficheiros de Excel, podem vir tentar explicar-me como o mercado condenou o jornalismo, que eu hei de responder com os desmandos de gestão que vi em quatro mãos-cheias que já levo de redações e com a certeza de que a, certa altura, vamos todos perceber que não podemos continuar a viver só aquilo que os mercados desejam.

Essa é a minha luta e é a luta de muitos camaradas (aprende-se no primeiro dia de redação que “colegas” são as senhoras de má vida, “camaradas” é o que somos). Mas essa luta só terá hipóteses de vencer quando se fizer fora das paredes das redações. Quando lá fora houver finalmente uma maioria que entenda porque é que o jornalismo nunca foi tão necessário e como poderia ser tão melhor do que é.

Há uns tempos, uma camarada de outro jornal contou-me uma história interessante. Estava ela, num grupo de amigos menos politizados, queixando-se de como a maior parte das manifestações não dava em nada. Eles, que raras vezes tinham ido a manifestações, contrapuseram com a sua experiência. Sempre que decidiram sair à rua, a luta alcançou vitórias. Um dos exemplos dados era o da TSU, mas tinham outros. Ou seja, depois de muitos protestos feitos pelos tais mesmos de sempre, a dada altura a luta extravasou esses limites e conquistou quem à partida se vê como menos politizado.

Há os que vão levando o barco e os que, saltando lá para dentro já no fim da viagem, chegam ao destino, parecendo-lhes que o percurso foi fácil. O importante, porém, é que todos lá cheguem. Por agora, só quero manter o barco da VISÃO à tona, esperando que ele encontre um bom porto. 

Petra Costa expõe presença evangélica na direita golpista

Uma falha involuntária do documentário "Apocalipse nos Trópicos", de Petra Costa, não deixa de ter consequências para a discussão sobre o lugar do chamado mundo evangélico no universo social e político brasileiro. Anterior aos dados do Censo, o filme e seu personagem condutor, o pastor Silas Malafaia, assumem que os evangélicos no Brasil, em crescimento acelerado, já ultrapassariam 30% da população.

As apurações recentes do IBGE revelaram um freio nessa expansão —que, na realidade, chegou a 26,9% da população. Essa reversão de expectativas quanto a um país fadado a se tornar majoritariamente evangélico, como imaginavam alguns, passa a ser um ponto a considerar no entendimento da cena religiosa no país. Um dos aspectos é o triunfalismo de certa elite de pastores que ascendeu em vertentes pentecostais por meio do business da fé e passou a arregimentar fiéis para sustentar um projeto político teocrático de ocupação do Estado com evidente viés reacionário. A ideia de fazer do Brasil um país "governado por Jesus" parecia questão de tempo.

Mas o que afinal desejaria Jesus aqui na terra antes de seu retorno pós-apocaliptico? Ver seu rebanho no poder, diz Malafaia, que fala como se soubesse tudo sobre o que quer e não quer o filho de Deus. E o que não quer? Casamento gay, por exemplo, de modo algum. Comunismo, com ideias socioeconômicas coletivistas e igualitárias, menos ainda. Jesus, aliás, como vemos no documentário, é contra a Escola de Frankfurt —a teoria crítica de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Tampouco simpatiza com cultos de matriz africana e até coisas que não existem, como a intenção de Lula de instalar banheiros unissex em escolas e fechar igrejas.

Sempre se poderá dizer que a diretora do documentário tem lado, é progressista e admira Lula. Em sendo de esquerda, teria forçado a mão para caracterizar Malafaia como referência de pastor, difundindo assim um estereótipo e promovendo uma redução da diversidade desse segmento religioso. Uma crítica, de fato, a levar em conta. Malafaia poderia ter sido mais um e não "o" pastor do documentário.

Malafaia, contudo, não é uma fantasia ou invencionice da esquerda preconceituosa. Embora tenha perdido estatura, é personagem midiático que se mostrou poderoso no interregno histórico pelo qual o filme se interessa. Exerceu influência na ascensão de Jair Bolsonaro e de seu cortejo de ignorantes e golpistas a falar línguas estranhas e dar pulinhos epifânicos, como a ex-primeira dama Michelle, porque um "terrivelmente evangélico" chegou ao STF.

Não há dúvida de que as igrejas evangélicas, assim como outras tantas entidades religiosas, são um porto seguro que oferece conforto espiritual, pertencimento comunitário e apoio para muita gente. Isso não basta, porém, para inspirar uma atitude condescendente com a ameaça que a instrumentalização política da religião representa para uma sociedade republicana e democrática. Não vale só para evangélicos, embora esse grupo seja um "case" recente no Brasil.

O filme, com algumas passagens impressionantes, tem um ponto de vista relevante sobre a história do complexo de crenças presente no ataque à democracia no Brasil até o fatídico 8 de Janeiro. Vale conferir.
Marcos Augusto Gonçalves

Das novas lendas brasileiras

Nham-Borocochô, o Papagaio Velho, todo dia voava ao planalto das grandes cuias pra buscar alimento. Os macacos, com enorme alarido, seguiam Nham-Borocochô. A grande cuia virada pra cima continha mel. A grande cuia invertida era tabu. Nenhum bicho podia olhar o que a cuia invertida tapava. Num dia de festa uns macacos safados disseram:

– Nham-Borocochô pega mel numa cuia só porque tem um bico só, mas nós temos quatro patas.

E assim os macacos meteram os pés pelas mãos e misturaram o mel da primeira cuia ao esterco, matéria que a segunda escondia. Pê-da-vida, Nham-Borocochô, o Papagaio Velho, lançou terrível maldição sobre os macacos trapalhões.

Até hoje, lá no Planalto, a macacada é paga pra não aparecer. Mesmo assim, às vezes surgem, ninguém sabe de onde, votam com várias patas ao mesmo tempo, e o ar fica impregnado de forte cheiro de esterco.
Aldir Blanc, "Brasil passado a sujo"

Uma ética escalafobética

A confiança virou pó. Não se pode acreditar em mais ninguém. A boa-fé não existe, a não ser como fachada. A honestidade se reduz a uma reles desculpa para o fracassado: é a única virtude da qual o pobre pode se orgulhar e, pior, é da boca para fora.

Só vai enriquecer quem souber substituir a palavra “amor” pela palavra “interesse”. Todos os ricos são crápulas. Na classe dominante, só não é calhorda quem sofre dos nervos: as madames alcoólatras e as socialites deprimidas. O único trabalho verdadeiramente lucrativo é a pilantragem profissional. Os trouxas insistem na integridade. Os trouxas são perdedores.


Se você acha o diagnóstico exageradamente pessimista, convém dar uma olhada na novela das nove da Rede Globo, Vale Tudo. O melodrama faz uma radiografia cética da ética escalafobética patrocinada pela burguesia caquética. E, a julgar pelos rombudos índices de audiência, a radiografia colou. Há tempos a massa telespectadora não festejava tanto um folhetim da Globo. Há tempos, uma novela não dava tanto o que pensar. A cada capítulo, fica mais difícil ter esperanças ufanistas.

O quadro fica mais sombrio quando lembramos que o aviso não é novo. Na verdade, estamos falando de um aviso repetido. O que está no ar é um remake. A trama original de Vale Tudo foi exibida no ano longínquo de 1988, o mesmo da Constituição Cidadã, como a apelidou Ulysses Guimarães. Puxe pela memória, você vai se lembrar.

Foi um tempo feliz, de buliçosa efervescência cívica. O Brasil acreditava que, se varresse os corruptos para longe da sala, abriria caminho para o progresso e para a justiça social. Bastaria expulsar de Brasília os parasitas, os marajás, os larápios e os tecnocratas fardados. Com os malfeitores sepultados, o País, finalmente, se reconciliaria com o seu grande destino.

Naquele clima de deslumbramento, liberação e euforia, tudo o que os telespectadores queriam era revanche contra as elites imorais – e para esse continental apetite de acerto de contas, Vale Tudo serviu de vingança simbólica. A vilã Odete Roitman, interpretada por uma atriz grandiosa, Beatriz Segall, representava tudo o que havia de mais execrável: ela manipulava a família, os agregados, os empregados e, de resto, o elenco inteirinho, sempre destilando desprezo pelos mínimos resquícios de humanidade em quem quer que fosse. Sentia nojo das tais brasilidades, como pandeiro e feijoada. Usava e abusava da crueldade. Levou sua maldade a tais extremos que, no epílogo, terminou assassinada. Por merecimento.

Sua morte foi motivo de júbilo nacional. Foi até mesmo um divertimento: nos capítulos finais, o público dava risada tentando adivinhar quem tinha matado a megera chique. A pergunta “Quem matou Odete Roitman” entrou para o folclore tropical, assim como a execução da inescrupulosa e fascinante personagem virou um ritual de purificação, um antídoto contra todas as imundícies.

Ocorre que, ao longo das décadas que vieram depois, as imundícies voltaram, e voltaram ainda mais imundas. Elas reapareceram com tanta força que tornaram obrigatório o regresso da bruxa maquiada de dondoca. Eis então que, em 2025, o bode expiatório está outra vez no horário nobre. Mas o final que a espera poderá ser diferente.

A velha senhora – remodelada na estampa, mas intacta no caráter – saiu da tumba para repetir a catarse, desta vez encarnada na atriz Débora Bloch, cuja interpretação classuda transpira absolutismo majestoso, imperial. Em sua nova fase, a dama hostil segue ferina: espanca um subalterno só de olhar para ele e tortura a irmã carente com um quase imperceptível repuxozinho de canto de boca, como se dissesse que a outra não lhe merece nem mesmo o trabalho de rir de seu sofrimento sincero, mas vazio.

Sim, Odete está igualzinha. Os tempos, porém, são outros. Hoje, tiranos e ladravazes, desde que vencedores, não são mais objeto de repúdio, mas de adoração. A ideologia se sofisticou e opera milagres funestos. A identificação dos desvalidos com os bilionários sem princípios chegou a tal ponto que o motoqueiro precarizado sente-se tão empresário quanto Elon Musk (só lhe falta ganhar algum). Donald Trump, que acaba de tirar um trilhão de dólares dos serviços de saúde com o apoio do Congresso, desfila como ídolo dos que nada têm. No Brasil, milhares de eleitores vão às ruas para aplaudir os que tentaram dar um golpe de Estado. Algo mudou na alma do povo.

Cenário nebuloso. Talvez, hoje, a massa de telespectadores não deseje mais a morte violenta de Odete Roitman. Talvez torça, isto sim, para que ela triunfe e dê uma rasteira na moral da história para acabar de vez com esses bonzinhos insuportáveis que não lhe dão descanso. A massa, que anda caidinha por opressores, talvez queira que a vigarista, em vez de ser assassinada, assassine pessoalmente aquele bando de chorões e de choronas, esquerdosos, previsíveis, chatos e politicamente corretos. Não será surpresa se os roteiristas tiverem de alterar o desfecho da novela para conceder, na segunda vida, uma anistia para Odete Roitman.

Voltas que o mundo precisa dar

Nosso planeta gira em seu eixo, em torno do sol e executa vários outros movimentos, menos conhecidos. Mas a história da espécie que hoje destrói seu habitat também dá voltas, algumas lentas, outras bem rápidas, súbitas. Estas últimas ocorrem após acúmulo de pressões, como uma panela pressurizada sem válvula adequada acaba por explodir.

Hoje, crescem as pressões. Uma delas é a cada dia maior desigualdade de renda, associada à infundada crença de que mais crescimento da economia trará conforto e abundância para todos. Crescer a economia sem mudar suas características nos levará a pontos de inflexão no sistema Terra que provocarão rupturas súbitas. Bem mais graves e amplas que a recém ocorrida no Texas, onde as águas do rio Guadalupe subiram nove metros em 120 minutos. Tempo insuficiente para qualquer “adaptação”, mesmo a fuga, que impeça muitas mortes.


A espécie autodeclarada sapiens já ultrapassou muitos dos limites que a biosfera apresenta, mas os poderosos não reconhecem este fato e continuam, aceleradamente, a nos conduzir ao abismo. Lutam pelo idiótico objetivo de serem os últimos a morrer… de fome, afogados ou queimados em secas, enchentes, incêndios e ondas de calor cada vez mais fortes e outros eventos súbitos. Vale lembrar que, embora 13% dos texanos vivam abaixo da sempre baixinha linha oficial de pobreza, o que lhes impede desfrutar de muitos dos confortos da “modernidade”, a “riqueza” de alguns texanos decorre de provocarem as mudanças climáticas, enchentes, incêndios, ondas de calor e outras pressões que nos aproximam do abismo. Riqueza assassina?

Sim, mesmo quando reconhecemos que o petróleo e os demais combustíveis fósseis trouxeram muitos benefícios para muitos humanos. Assim como as drogas letais trazem prazer ao iniciante e o destrói em seguida.

“Como viver sem petróleo”, é pergunta que muitos se fazem, e os poderosos nela se baseiam para seguir rumo a desastres crescentes. A pergunta adequada, hoje, é: como sobreviver usando o petróleo, o aço, o concreto e outros produtos e serviços como temos feito?

Cientistas e a Agência Internacional de Energia já declararam que nenhum novo campo de petróleo deve ser explorado, se quisermos evitar as mudanças ambientais descontroladas, decorrentes da ultrapassagem dos pontos de inflexão que revolucionarão o clima, as correntes marítimas e outros fundamentos da vida.

Ignorando completamente essa realidade, congressistas brasileiros e lobistas estão de olho na exploração da droga fóssil na foz do Amazonas. Argumentam que isso é essencial para melhorar a qualidade de vida da população local, e omitem o fato de que, por exemplo no Rio de Janeiro, onde se extrai tanto dessa droga a tantos anos, a miséria persiste.

Como dito acima, não é o eventual crescimento da economia que trará melhorias para a maioria; o que necessitamos é reconhecer que somos 99% e legislar para distribuir boa parte da riqueza do 1%, forçando nossos congressistas a aprovar a taxação dos super ricos e a desoneração completa dos impostos sobre os mais pobres.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

'Cemitérios da Memória' – Infância enterrada sob os escombros

Em um pequeno canto de Gaza, Sewar Al-Ejleh, de 14 anos, carrega pesados ​​baldes de água e espera em longas filas por comida para caridade.
Seu pai foi morto em um ataque aéreo que destruiu sua casa. "A vida não é mais a mesma. Não temos o luxo de sofrer", diz ela.

Bissan, de 16 anos, sobreviveu a um terrível ataque com cinto de fogo que matou sua mãe, duas irmãs e dois irmãos. Ela sofreu ferimentos graves e agora mora longe do pai, em tratamento no exterior.

“Não sei quem lamentar primeiro”, ela diz com a voz fraca.


Em outro lugar, num abrigo, um menino de quatro anos grita: "Quero que Baba me carregue!" Seu avô o envolve em seus braços, sussurrando: "Lembre-se, eu sou Baba agora". Seu pai biológico foi morto junto com o resto da família em um massacre.

Aisha, de cinco anos, que já foi a princesinha do pai, agora olha para a foto dele e diz: "Quero que ele me veja indo bem na escola".

Sua irmã mais nova, Sewar, de apenas quatro anos, lamenta a morte do irmãozinho Youssef, que foi martirizado nos braços do pai. "Só quero ver Baba por alguns minutos... depois ele pode voltar a ser morto", lamenta.

A mãe, tentando se recompor, diz: "Consolá-los é como decodificar uma equação química complexa... uma para a qual não tenho as respostas."

O Dr. Youssef Awadallah, psicólogo clínico em Gaza, pinta um quadro sombrio: “As crianças aqui não estão apenas de luto — elas estão envelhecendo antes do tempo. Elas carregam consigo cemitérios de memórias.”

Ele diz que muitas crianças pararam de falar. Algumas não conseguem mais brincar. Meninas de apenas seis anos carregam bebês e cuidam de famílias inteiras.

“Essa maturidade forçada causa fraturas psicológicas profundas”, explica o Dr. Awadallah.



Ele enfatiza que “o trauma se agrava diariamente — perda, deslocamento, medo, falta de segurança, tudo se acumula em corpos jovens que nunca foram feitos para suportar tanto peso.

Algumas crianças sofrem de mutismo, enurese noturna ou retraimento emocional. Outras fazem perguntas aterrorizantes como: 'Por que estamos vivos? Por que nossas famílias foram levadas?'”

O que essas crianças precisam, ele enfatiza, não é apenas comida ou remédios, mas “um espaço emocionalmente seguro para chorar, pedir, lamentar — sem vergonha ou repressão”.

Segundo Aziza Al-Kahlout, porta-voz do Ministério do Desenvolvimento Social de Gaza, o número de órfãos saltou de 24 mil antes de 7 de outubro para quase 40 mil atualmente. Isso inclui 2 mil crianças que perderam ambos os pais e 500 crianças que são as únicas sobreviventes de suas famílias inteiras.

“Os mais vulneráveis ​​são os órfãos com deficiência — eles não têm acesso a cuidados básicos de saúde e emocionais”, acrescenta ela.

A guerra paralisou o sistema de apadrinhamento de órfãos. A ajuda internacional foi interrompida devido ao fechamento de bancos, enquanto o apoio local está chegando apenas parcialmente aos recém-órfãos.

“Agora temos mais de 1.400 crianças órfãs com menos de um ano”, diz ela. “Elas começaram a vida sem mãe, sem pai — e sem leite ou cama.”

Cada figura conta a história de uma criança que perdeu um dos pais, um lar ou o mundo inteiro. A crise dos órfãos em Gaza não é apenas uma estatística humanitária — é uma ferida aberta na consciência da humanidade.

Essas crianças não precisam apenas de ajuda — elas precisam de segurança, dignidade, amor e um futuro livre do pesadelo da guerra.

O Tempo e a Queixa

E este calor que não se aguenta? Estas raízes minhotas e beirãs, uma certa maturação anglófila ou a melancolia da gravata concorrem para que prefira, tendencialmente, o frio. Ou o Inverno, como em tempos se chamava aos meses que iam de Novembro a Março.

Algures em Abril, dei por mim num estabelecimento de saúde:

— “Não se preocupe que a partir das 10:00 já se pode circular à vontade.”, diz a jovem profissional de cuidados médicos.



— “Pois. Ainda apanhei uma valente chuvada.”

— “Estou a ver, estou a ver! Isto hoje não se percebe o tempo.”

Silêncio.

— “Percebe…”, suspensão e — “…Abril, águas mil!”, remato, muito satisfeito por sacar do chavão popular para justificar reservas em relação às unanimidades que alimentam o alarmismo social.

— “Também é verdade. Mas no ano passado, por esta altura, já estava na praia. Não é que estivesse um Sol de Verão, mas já dava para dar uns mergulhos”, a rapariga ignorava por completo o ridículo da sua própria recordação. Não há pudor quando se trata de exibir entusiasmos estivais em pleno Abril.

Mas isso não constitui problema. Porque a grande questão que esta pequena troca de ideias de elevador esconde não é tanto o grande medo humano de que tudo, até o tempo, seja sintoma de um colapso iminente. É o magnetismo que a praia exerce sobre o lisboeta. O problema não é o tempo estar assim ou estar assado: ao primeiro raio de sol lá vai o lisboeta, de Ray-Bans e Paez, rumo ao esplendor dourado dos areais das redondezas. É esse abismo balnear que justifica as suas melancolias eco-ansiosas. Quando o sortilégio geográfico que nos calhou na rifa deveria, pelo contrário, motivar a mais viva e funda gratidão.

Ainda não tinha tido a oportunidade de confessar, em público, esta desconfiança meteorológica que me foi crescendo no cocuruto. Indistinguível, hoje, dos quistos sebáceos que por lá moram. Oportunidade não tem faltado. Porque tudo, absolutamente tudo, meus amigos, cabe nesta moldura imensa e vaga, que alguém baptizou de “alterações climáticas”.

Quando Al Gore resolveu relançar a sua carreira política como profeta da desgraça chamavam-lhe “aquecimento global”. E eu, que já então nutria desprezo por quase todos os entusiasmos colectivos, limitei-me a observar. À medida que as previsões iam falhando e o tempo não aquecia assim tanto, uns poucos abriram os olhos para o óbvio. O termo era curto, comezinho, indigno de tanto pânico, e fizeram uma actualização. Rebranding, diriam os vendedores de banha-da-cobra. E passou-se a chamar-se “alterações climáticas”. Um faneco de jargão prestadio e eficiente onde cabe o frio, o calor, a seca e o dilúvio. Tudo e nada.

Arrefeceu? Afinal está mais quente? Um furacão na América do Sul? Uma insolação no Algarve? Antes, havia títulos mais belos e menos exaltados para estas variações. Eram as estações.

Dividiam-se em quatro e escreviam-se com maiúscula. De tal modo espicaçavam o engenho do homem que Vivaldi compôs o seu Magnum Opus. Foi até à conta dessas quatro maravilhas da diversidade natural, que um certo pizzaiolo, algures no século XIX, resolveu dividir ingredientes, consoante a sazonalidade, em cima de um bocado de massa. Se isto não é graça, nada mais será.

Eis o que quero dizer: a poesia dos nomes tem uma relação íntima com a poesia das coisas. Não se imagina um cozinheiro que ousasse criar uma “Feijoada das Alterações Climáticas”. Nem compositor que se prestasse a escrever uma sinfonia com esse título miserável.

A propósito do calor patético dos últimos dias, que se faz passar por presságio do Apocalipse, alguém me mandou uma daquelas montagens “antes e depois”. Lado a lado, duas infografias: uma dos anos 90, outra de agora. Na mais antiga solzinhos tipo emoji pontilhavam um mapa verde-claro da Península Ibérica. Um bom humor em Paintbrush. Na mais recente, umas sinistras nódoas de vários matizes que iam de vermelho-lava a encarnado-drácula, faziam da Península uma Mordor a latejar. Era como se Deus tivesse decidido, de uma vez por todas, pôr fogo nisto tudo.

Tenho para mim que o ponto é ainda outro, mais obscuro, antigo como a nossa natureza caída. Ei-lo: só estamos bem a dizer mal. A pobre auxiliar de saúde que me acompanhava no elevador para o 2º andar do Hospital queixava-se porquê? Não era tanto da falta de praia em Abril quanto porque sim. É isto que as pessoas fazem desde que nos foi vedado o Jardim do Éden. Queixam-se. Porque a queixa é fundamental para perseverar, neste vale de sombras a que chamamos vida. Porque nos recorda, ainda que vagamente, no fundo de nós, que um dia houve qualquer coisa melhor. Qualquer coisa boa.

As “alterações climáticas”, como a ciática, a inflação, os meus quistos sebáceos, etc., etc., são uma válvula de escape. Tendemos a falar sobre o tempo, verdade. Como tendemos à lamúria. Esperando outra estação. O que se perdeu.

Qual é a sua ditadura favorita?

Psiquiatras fazem uma festa quando, mesmo que em camisa de força e acorrentado, um bolsonarista lhes cai às mãos. O bolsonarista típico —todo bolsonarista é típico— é portador de uma antologia de transtornos de personalidade, incluindo delírios (crenças falsas e fixas sem base na realidade), alucinações (a sensação de ele ou um dos seus estar sendo perseguido) e grave confusão mental (dificuldade em organizar os pensamentos, resultando em falas confusas ou desconexas). Um dos problemas do bolsonarista está no conceito de ditadura.


Por um lado, ele acusa o STF de estar impondo uma ditadura no Brasil ao condenar senhoras patuscas, pichadoras de batom e patriotas armados com barras de ferro a 17 anos de prisão e ameaçando dar 40 para inocentes generais golpistas e seu líder Bolsonaro. Por outro, refere-se com saudade à extinta ditadura militar, que, segundo o mesmo Bolsonaro, só errou por não matar 30 mil brasileiros em vez de torturá-los, embora uma de suas admirações seja o torturador Brilhante Ustra. Afinal, em que ficamos? O bolsonarista é contra ou a favor das ditaduras?

Depende da ditadura. A do STF é um suplício em que o acusado —digamos Bolsonaro— responde em liberdade e cercado de advogados a uma série de investigações e interrogatórios, tendo até o direito de ficar calado. Denunciado pela PGR, é submetido a um longo processo criminal composto de declarações de testemunhas, todas que ele puder arrolar. Tornado réu, ele pode apresentar requerimentos complementares, solicitar novas diligências e, como a apoteose no teatro, expor suas considerações finais. É uma tortura que se arrasta por até dois anos, acompanhada passo a passo pela TV. Por fim, se for condenado, sempre poderá beneficiar-se da prisão domiciliar e dormir de pijama em seu lar.

A ditadura militar era mais rápida. O sujeito se apresentava para depor ou era apanhado em casa. Metiam-lhe um capuz e ele desaparecia ou era suicidado num porão a poder de tortura.

Sem a intricada burocracia do STF.

O tabu do genocídio: O exemplo do relatório Yoorrook

Apesar de membro da Convenção de 1948, Portugal tem não só passado ao lado do reconhecimento do genocídio na Palestina, como apresentado resistência em enfrentar o seu próprio passado colonial, negligenciando assim a sua responsabilidade histórica. Com efeito, o reconhecimento do genocídio do povo palestiniano tal como o genocídio Herero na Namíbia, entre outros, forçosamente obrigar-nos-ia a confrontar-nos com as nossas ações em Africa

A 1 de Julho de 2025, a Comissão de Justiça Yoorrook, criada pelo Estado de Victoria, na Austrália, definiu que as populações aborígenes e indígenas sofreram um genocídio às mãos do Império Britânico, vendo a sua população diminuir em cerca de 75 por cento. O relatório demonstrou com base em documentos e testemunhos a existência de massacres, remoções forçadas de crianças, destruição de línguas, culturas, espiritualidade e de formas de vida, tudo atos enumerados na Convenção sobre o Genocídio de 1948. A notícia sobre a decisão da comissão, não obstante ter sido publicada em vários países, nomeadamente de língua inglesa, foi praticamente ignorada pelos media e pelo mundo da política.


Este silêncio sobre o tema genocídio, infelizmente tão atual, não é novo nem exceção. A questão da Palestina tem demonstrado à saciedade o desconforto político, e até o risco diplomático que o mesmo implica. No entanto, temos de ultrapassar este desconforto, porque como nos mostrou o caso Australiano e o processo em curso no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) sobre o genocídio na Palestina, falar sobre o tema e analisar o impacto e as nossas ações é um dever jurídico e moral.

O termo genocídio foi criado por Raphael Lemkin em 1944, para definir a destruição e extermínio deliberado de uma etnia ou raça, ou grupo de pessoas. A Convenção de Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948, ratificada por Portugal em 1998, mas somente enviado à ONU a 9 de Fevereiro de 1993, define como genocídio atos cometidos com a intenção de destruir total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso, através de homicídio, danos físicos, imposição de condições de vida destrutivas, esterilização forçada, ou a remoção forçada de crianças. Os Tribunais Criminais Internacionais para a Jugoslávia e Ruanda, e o TIJ reforçaram dois critérios fundamentais: o primeiro sendo a intenção, dolus specialis; e o segundo a realização de pelo menos um dos cinco atos listados no artigo segundo da Convenção:

“Na presente Convenção, entende-se por genocídio os atos abaixo indicados, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tais como:
a) Assassinato de membros do grupo;
b) Atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) Submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição
física, total ou parcial;
d) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) Transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.”45.

A Convenção da ONU, não espelha, contudo, as ideias de Lemkin sobre a destruição cultural, linguística, educativa e espiritual, que na sua perspetiva eram também formas de genocídio. A razão pela qual estes atos constantes da definição de Lemkin não estão incluídos na Convenção deve-se ao facto de diversos estados-membros se terem oposto, pois que, certamente, tal poria em causa as suas políticas com as minorias étnicas e culturais existentes nos seus estados. O resultado é que o conceito existente é insuficiente face às agressões que se têm vindo a verificar.

A Comissão Yoorrook conseguiu aplicar o direito internacional atual ao contexto colonial da Austrália tendo inclusivamente ido em certos para além dos critérios da convenção da ONU.

Com efeito, considerou, aplicando critérios culturais definidos por Lemkin, que entre 1834 e 1851 as populações aborígenes foram vítimas do crime de genocídio, tendo documentado a existência de múltiplos massacres, a existência das ‘Stolen Generations’, crianças removidas forçadamente, a destruição cultural, esterilizações, e confinamento em condições de vida degradantes. No âmbito do seu trabalho a Comissão defendeu ainda que para além do genocídio (que terminou em 1854), o tratamento dos povos aborígenes continuou a ser racista, sujeitando os povos indígenas a tratamentos muito desiguais em diversas áreas nomeadamente no acesso à saúde e educação.

O relatório recomendou reparações, reconhecimento, e reformas sistémicas a vários níveis, em particular na educação. É de salientar a reação de líderes indígenas, como Jill Galagher, que afirmou que não culpava nenhum australiano vivo por estes acontecimentos, mas que era extremamente importante “aceitar, reconhecer e reconciliar” os resultados da comissão. É ainda de notar que esta comissão configura a primeira vez que um Estado ocidental reconhece como genocidas os seus atos fundacionais.

No dia 30 de Junho de 2025, o Secretário-Geral Assistente para o Médio Oriente, Khaled Khiari, afirmou que o número de mortes em Gaza desde outubro de 2023, tinha ultrapassado os 56.500, com mais de 1.000 só neste mês de junho 2025, para além do número chocante de mortes, Israel tem procedido à destruição de Gaza e de toda a sua infraestrutura civil, impondo a fome como arma de guerra, e forçando a deslocação de cerca de 1.7 milhões de pessoas. Estes atos levaram a Africa do Sul, com o apoio de vários outros países, principalmente, do Sul Global, a acusar Israel de genocídio no TIJ, que em janeiro de 2024 admitiu haver risco de genocídio, e ordenou várias medidas provisórias, medidas estas que foram completamente ignoradas por Israel.

As ações do Governo israelita correspondem a três dos cincos atos listados pela Convenção de 1948, a qual salienta-se foi assinada por Israel a 17 de agosto de 1949 e ratificada a 9 de março de 1950. Tal como demonstrado na Comissão australiana, existem também inequívocas provas de uma intenção destrutiva por parte de Israel, que constituem o dolus specialis. Tal como os colonos britânicos na Austrália negavam a humanidade dos povos aborígenes, também os líderes israelitas consideram os palestinianos ‘animais’ a ser eliminados, conforme o Genocide Watch, que documentou a utilização desta linguagem, evidência esta utilizada no processo do TIJ. As provas são claras e inequívocas, o que torna mais incompreensível o silêncio do mundo ocidental e, naturalmente, do Estado Português.

Apesar de membro da Convenção de 1948, Portugal tem não só passado ao lado do reconhecimento do genocídio na Palestina, como apresentado resistência em enfrentar o seu próprio passado colonial, negligenciando assim a sua responsabilidade histórica. Com efeito, o reconhecimento do genocídio do povo palestiniano tal como o genocídio Herero na Namíbia, entre outros, forçosamente obrigar-nos-ia a confrontar-nos com as nossas ações em Africa. Só entre 1501 e 1866, Portugal traficou cerca de 5.848.265 africanos escravizados. No século XX, há pouco mais de 50 anos foram cometidos massacres, devidamente documentados, em Africa (Batepá em 1953 e Wiriyamu em 1972), em que usámos napalm nos bombardeamentos durante a guerra, tendo Portugal sido, durante anos, no Estado Novo, tal como Israel o é agora, condenado pela ONU pelas nossas ações nas colónias.

Lamenta-se, pois, o facto de Portugal não ter ainda criado qualquer comissão de justiça histórica, ou de verdade, com vista ao reconhecimento das suas ações, nomeadamente, no período colonial, as quais provocaram a morte e a tortura de tantos.

A Comissão de Yoorrook demonstra que é possível num Estado ocidental moderno investigar, reconhecer, e definir os atos da estrutura colonial como genocidas, como definido pelo direito internacional.

A Convenção de 1948, criada sob a memória do Holocausto e da destruição de povos, é um pilar do sistema internacional moderno. A lei criada por este documento é clara e exigente, no, entanto, o compromisso com esta Convenção depende da vontade política dos Estados em reconhecerem o intolerável. A Comissão Yoorrook, representa um gesto de honestidade histórica, que demonstra também que é possível aplicar e cumprir o direito internacional.

A destruição da Palestina, cumpre os requisitos jurídicos definidos na Convenção, para a sua consideração como genocídio. A recusa em utilizar o termo genocídio por parte de uma grande maioria de estados ocidentais é a recusa das provas inequívocas acumuladas pela ONU, pelo TIJ, por várias organizações de direitos humanos, e por vários Estados, nomeadamente do Sul Global, demonstrando que o direito internacional é menos importante que a geopolítica, e que a humanidade dos povos é condicional.

O silêncio de Portugal não é neutro, é uma escolha que revela mais sobre o passado do que sobre o presente. É um silêncio, que compromete e que põe em causa os nossos compromissos históricos, éticos e jurídicos.

Portugal deve não só apoiar o processo sul-africano no TIJ com vista ao reconhecimento do genocídio na Palestina perpetrado por Israel, como seguir o exemplo do relatório da Comissão Yoorrook, como um ponto de partida para analisar os crimes contra o direito dos povos praticados no período colonial, criando uma comissão de verdade sobre a escravatura e o colonialismo. A recusa em cumprir a Convenção sobre o Genocídio de 1948 e estudar e repensar o nosso passado colonial não é uma questão de prudência diplomática ou histórica, é, sim, a continuação de uma omissão que nos envergonha. Está na hora de Portugal enfrentar a sua verdade histórica, enfrentando com clareza, rigor e sentido de justiça a nossa história.

É tempo de olharmos para o espelho da história e dizermos a verdade sem medo. Não se exige culpa, exige-se responsabilidade para reconhecer, reparar e não repetir.

Já passa da hora de Bolsonaro ser preso por obstrução da justiça

O que falta para que o ministro Alexandre de Moraes decrete a prisão de Jair Bolsonaro e do seu filho Eduardo por tentativa de obstrução da justiça? Porque a essa altura é disso que se trata.

Em janeiro último, Bolsonaro disse ao The New York Times que esperava ajuda de Trump para não ser condenado. Desde então, a empresa de mídia de Trump processa Moraes.

Moraes é acusado de censurar vozes da direita brasileira que, para escaparem da justiça daqui, agora se expressam diretamente dos Estados Unidos, onde se auto exilaram por decisão própria.

Para convencer Trump a ajudar seu pai, Eduardo licenciou-se do mandato de deputado federal e hoje mora no Texas. Bolsonaro manda dinheiro para que ele se mantenha por lá a seu serviço.



Pai e filho conseguiram o que queriam: de uma só tacada, em carta enviada a Lula, Trump defende Bolsonaro e taxa em 50% a importação de produtos brasileiros pelos Estados Unidos.

Foi a intervenção mais escandalosa de um presidente americano nos assuntos internos do Brasil desde 1964. É como se Trump dissesse: se inocentar Bolsonaro, diminuirá a taxação.

Na carta, Trump afirma:

“A maneira como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional.”

E para justificar seu ataque à nossa economia, mente sem o mínimo de pudor ao dizer que durante anos, os Estados Unidos mantiveram um déficit comercial com o Brasil. Mentira deslavada.

Os dois países tiveram cerca de US$ 92 bilhões em comércio no ano passado, com os Estados Unidos desfrutando de um superávit de US$ 7,4 bilhões na relação. Quanto ao aumento das tarifas…

Trump confessa na carta que o aumento foi uma resposta a “ordens de censura secretas e ilegais às plataformas de mídia social dos EUA”, e que elas serão investigadas por seu governo.

O uso de tarifas para intervir em um julgamento criminal fora dos Estados Unidos é um exemplo de como Trump usa impostos como única solução para todos os problemas que enfrenta.

Se o governo brasileiro topar fazer um acordo com Trump em torno das tarifas, ele, sem o menor pingo de vergonha, abandonará Bolsonaro à própria sorte. Só Bolsonaro parece não saber disso.

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, que veste o boné de Trump, também parece não saber. Em mensagem postada ontem no X, ele responsabilizou Lula pelo que acontece:

“Lula colocou sua ideologia acima da economia, e esse é o resultado. Tiveram tempo para prestigiar ditaduras, defender a censura e agredir o maior investidor direto no Brasil.”

Fracassaram as tentativas de Bolsonaro de abolir a democracia no Brasil. Esse atentado em parceria com Trump à soberania do país também fracassará.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Quem é mesmo patriota?

As camisas amarelas, para quem é muito jovem e não viu, já uniram o povo brasileiro na conquista de cinco copas do mundo. Também já foram símbolo da luta pelo fim da ditadura e pelas eleições diretas. Até serem abduzidas pela direita radical, que se apelida de patriota. Mas ela pode mesmo ser chamada de patriota?

Para responder a essa pergunta, é bom prestar atenção às reações, aqui no Brasil, às palavras lançadas ao mundo, na segunda-feira, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na rede que ele também gosta de apelidar de Verdade Social.

Trump disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro é vítima de uma “caça às bruxas” e que seu julgamento – pela ameaça de planejamento de um golpe de Estado – deveria ser feito apenas “nas urnas”, e não pela Justiça brasileira.

De caça às bruxas ele parece entender. Basta perceber as ameaças às universidades dos Estados Unidos, o êxodo de cientistas estrangeiros e até a proibição de entrada no país de um atleta brasileiro porque havia participado de uma competição em Cuba.

Trump parece também gostar bastante de dar palpite sobre outros países – inclusive antigos aliados. A começar pelo Canadá, seu grande vizinho do Norte, que ele gostaria de transformar em 51º estado da nação que preside. Não por acaso, a centro-esquerda canadense venceu as eleições pouco depois das declarações do presidente americano.

Agora Trump diz que Bolsonaro não tem culpa de nada, a não ser de ter “lutado pelo seu povo”. À sua inspiração, talvez. Pois o que ocorreu no Brasil, em janeiro de 2023, guarda mais do que coincidências com o que ocorreu em Washington depois de Trump perder as eleições em 2020.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse o que precisava dizer. Que a defesa da democracia no Brasil “é um tema que compete aos brasileiros”. Que não aceitamos interferência e temos instituições sólidas e independentes. E que ninguém está acima da lei. “Sobretudo os que atentam contra a liberdade e o estado de direito”.

Uma declaração de esquerda? Não, apenas a resposta de um chefe de Estado – independentemente de sua posição ideológica – a uma pouco sutil ingerência nos assuntos internos do país.

Deveria ser simples assim. Até porque existe um processo em andamento na Justiça brasileira, segundo as leis brasileiras, com amplo direito de defesa. Não existe nada semelhante às regras do longo período autoritário, sob governos militares que Bolsonaro sempre defendeu.

Mas nesses tempos estranhos nada parece simples.

Já seria previsível, naturalmente, que o ex-presidente reagisse com entusiasmo às palavras de seu ídolo de Washington. Ele disse ter recebido “com muita alegria” as palavras de Trump e que a luta do presidente americano por paz, justiça e liberdade “ecoa por todo o planeta”.

O que dizer, porém, do restante da direita brasileira, que gosta de se intitular de patriota? Alguma palavra em defesa da soberania brasileira? Das instituições nacionais?

Até agora, nada. Até pelo contrário, segundo se pode interpretar das palavras do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas – aquele que vem sendo cortejado como exemplo de direita moderada e moderna por vários setores empresariais.

Freitas ecoou Trump ao afirmar que Bolsonaro – que o levou à política – deve ser julgado “somente pelo povo brasileiro, durante as eleições”. E desejou “força” ao antigo chefe.

No pragmatismo cínico que tomou conta da política brasileira, as palavras do governador de São Paulo e possível candidato às eleições presidenciais de 2026 precisariam ser vistas apenas como um aceno ao próprio Bolsonaro e aos eleitores bolsonaristas. Nada de relevante.

Mas o que temos, de fato, é o apoio de um potencial candidato a presidente da República às declarações do presidente de um outro país que questiona as instituições brasileiras.

Tarcísio de Freitas diz que Bolsonaro deve ser julgado somente pelo povo brasileiro, durante as eleições. Isto significa que, na sua opinião, o ex-presidente não deve ser julgado pela Justiça? E como ele seria julgado pelo povo, se não pode participar das eleições?

Se esta é uma declaração retórica, como desejarão fazer crer seus seguidores, também será uma declaração bastante irresponsável. Até porque cabe ao presidente da República – cargo que ele parece pretender ocupar um dia – defender a soberania do Brasil.

Elogio da dialética


A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o “hoje” nascerá do “jamais”
.
Bertolt Brecht

O maior crime de ódio: Gaza em ruínas, o Ocidente em silêncio

Se danificar duas sinagogas em Melbourne é um ato de ódio, a mesma expressão não se aplica com muito mais força à destruição de quase 80% das mesquitas de Gaza por Israel?

No início de julho, alguém correu até a porta da frente da sinagoga da Congregação Hebraica de East Melbourne, jogou líquido inflamável nela, ateou fogo e fugiu. A tinta da parte inferior da porta queimou, mas nenhum outro dano foi causado. Os jornais noticiaram a presença de 20 fiéis dentro da sinagoga naquele momento, mas o fogo foi rapidamente apagado e ninguém ficou ferido.

Mais ou menos na mesma época, cerca de vinte manifestantes marcharam da Biblioteca Estadual, não muito longe dali, e "invadiram" o restaurante israelense Miznon, na Hardware Lane, virando cadeiras e "danificando" uma janela, segundo relatos da imprensa. Ninguém ficou ferido, mas a noite dos clientes foi "interrompida". Pelo menos um dos manifestantes usava um kuffiyeh palestino, observou-se, como se isso em si fosse um crime, como de fato poderá ser em breve, do jeito que as coisas estão indo.

Os dois eventos não estavam conectados, mas sim fundidos em um só, segundo relatos da mídia e reações políticas. A líder da oposição federal, Sussan Ley, os chamou de "horríveis", e o primeiro-ministro Anthony Albanese, de ataques "chocantes" e "covardes" que "não tinham lugar na sociedade australiana". Quando a sinagoga Adass Israel foi atacada em dezembro passado, Albanese descreveu o ataque como um "ato de ódio".

Netanyahu, procurado pelo Tribunal Penal Internacional pelo crime de guerra de fome como método de guerra e pelos crimes contra a humanidade de "assassinato, perseguição e outros atos desumanos", logo divulgou uma mensagem de que os eventos de Melbourne, a queima da porta de uma sinagoga e a derrubada de mesas no restaurante Miznon, eram "repreensíveis".

Gideon Sa'ar, o ministro das Relações Exteriores israelense cuja prisão a Fundação Hind Rajab e a Global Legal Action Network solicitaram quando ele visitou Londres em abril, descreveu esses eventos como "ataques antissemitas vis".

As acusações específicas contra Sa'ar centraram-se no bombardeio israelense ao hospital Ahli em 2023 e no sequestro e tortura do Dr. Husham al Safiyya, mas, como membro do governo, ele é totalmente cúmplice do genocídio de Gaza, considerando a ajuda humanitária a Gaza como "ajuda ao Hamas".


Aparentemente em visita privada, Sa'ar teve uma reunião secreta com o Secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, David Lammy. Ele foi autorizado a entrar no Reino Unido, embora dois parlamentares britânicos tivessem sido recentemente impedidos de entrar em Israel.

As perguntas certas nunca foram feitas pela mídia sobre o protesto no restaurante "de propriedade israelense" em Melbourne. Se tivessem sido feitas, leitores e espectadores teriam tido uma ideia mais clara do motivo pelo qual o protesto foi alvo.

O restaurante faz parte da rede internacional de "hospitalidade" Good People Group, fundada por dois israelenses, Shahar Segal e Eyal Shani. Além do Miznon em Melbourne e Tel Aviv, eles têm restaurantes em Nova York, Paris, Londres e Viena.

Anteriormente na área de publicidade, Segal ofereceu seus serviços às Forças de Defesa de Israel (IDF) após 7 de outubro de 2023, para "melhorar" sua comunicação pública. Isso o levou a se tornar porta-voz oficial da Fundação Humanitária de Gaza (GHF) para a mídia israelense, que ele descreve como "a única maneira correta e possível de entregar comida aos moradores de Gaza sem alimentar a máquina terrorista do Hamas. É absolutamente claro".

Desde a sua criação em fevereiro de 2025, esses centros de "ajuda" do GHF atraíram mais de 600 palestinos para a morte. Médicos Sem Fronteiras (MSF) os descreveu como "massacre disfarçado de ajuda". Palestinos são baleados ao se reunirem nos centros no início da manhã por soldados israelenses e contratados americanos e – segundo alguns relatos – por gangues armadas que provavelmente incluem as Forças Populares, um grupo criminoso apoiado por Israel e liderado por Yasser Abu Shabab.

Em 27 de junho, o jornal Haaretz noticiou, sob o título “É um campo de extermínio”, que soldados israelenses receberam ordens de atirar deliberadamente em palestinos aglomerados ao redor dos pontos de distribuição do GHF.

Eyal Shani cozinhou para soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF) na cerca de Gaza. Em consonância com os esforços de Israel para destruir todas as agências da ONU que trabalham para ajudar Gaza, incluindo a UNRWA e o PMA (Programa Mundial de Alimentos), Segal afirma que o GHF "mina os esforços da ONU, torna seus mecanismos irrelevantes e mostra ao mundo que existe uma maneira melhor e mais eficaz que não favorece o Hamas".

O GHF não é uma ONG, mas é administrado em conjunto por Israel e pelos EUA sob a égide da Safe Reach Solutions, sediada em Delaware, cujo objetivo é fornecer soluções "personalizadas" e "baseadas no cliente" "que abordem desafios dinâmicos no local com precisão e integridade... o que nos diferencia é nosso comprometimento com a estratégia e a execução". As famílias dos assassinados nos locais do GHF foram o resultado.

Segal, porta-voz do GHF e totalmente comprometido com o ataque a Gaza, fornece notícias diárias aos israelenses de sua base em Nova York. Se a mídia tivesse feito as perguntas necessárias sobre sua trajetória e conexões, os australianos entenderiam por que um pequeno grupo de manifestantes foi ao restaurante Miznon para chamar a atenção para o fato de que seu proprietário faz parte da maquinaria do genocídio em Gaza. Muitos australianos optariam por não comer lá se soubessem.

Anthony Albanese descreveu os ataques incendiários às duas sinagogas em Melbourne como covardes, chocantes e um ato de ódio. Um ataque causou danos graves, queimando o interior e desabando o telhado; o segundo queimou apenas a porta da frente.

Em Gaza, Israel foi muito além de queimar uma porta ou derrubar um telhado. Destruiu totalmente 874 mesquitas e danificou gravemente outras 275, além de danificar três igrejas, sem que Albanese sequer mencionasse o fato.

Se destruir duas sinagogas em Melbourne é um ato de ódio, a mesma expressão não se aplica com muito mais força à destruição de quase 80% das mesquitas de Gaza por Israel, bem como aos danos a três de suas igrejas? Quão grande precisa ser o ódio para destruir não uma mesquita, mas manter 874 em ruínas?

Israel está cometendo o maior crime de ódio de todos. No entanto, dos políticos e da mídia australiana, bem como da classe político-midiática de muitos outros países, não vem sequer uma palavra de condenação. Uma porta queimada os indigna, mas o massacre de dezenas de milhares de palestinos, não. Um protesto contra o genocídio os indigna, mas o genocídio em si, não. Há hipocrisia e uma doença moral aqui que precisa desesperadamente de cura.

Insultos, ofensas...: linguagem política e polarização

Os insultos e desqualificações de líderes políticos na América Latina têm sido manchetes. Alguns são conhecidos por seus ataques , como o presidente argentino Javier Milei , que se refere a seus oponentes com insultos como "mandril" e "repugnante".

Por sua vez, o presidente é descrito por seu colega venezuelano , Nicolás Maduro, como "bastardo" e "lixo", entre outros epítetos.

Além dos insultos, a comunicação política hoje se move em arenas muito diferentes da oratória tradicional de líderes que buscavam convencer com argumentos. Há um novo tom, novos estilos e novos meios para transmitir a mensagem.

"Os políticos usam a linguagem como ferramenta de poder, de dominação, para disseminar sua maneira de ver o mundo, com a capacidade de manipular, distorcer e descontextualizar conceitos para atender às suas conveniências", disse o linguista chileno Juan Pablo Reyes, professor da Universidade de Playa Ancha (UPLA), em Valparaíso.


A antiga verbalização política deu lugar a mensagens audiovisuais, acrescenta Reyes: "Esses líderes se tornam estrelas do rock ou políticos para os espectadores, em vez de para os eleitores ou eleitores. O político se tornou o meio e a própria mensagem, guiado pela emoção e pelas leis da publicidade e do marketing."

Nesse sentido, uma análise de mensagens em redes sociais fornece pistas interessantes. O foco não está mais em discursos, mas em postagens visualmente concebidas, por meio de reels , vídeos, memes e emojis, disse à DW o pesquisador argentino Gonzalo Sarasqueta, diretor do Laboratório Digital de Narrativas Políticas da Universidade Camilo José Cela, na Espanha.

Essa é uma das tendências observadas em um estudo deste laboratório, que analisou postagens no X (antigo Twitter), Facebook, Instagram e TikTok, dos dois principais candidatos presidenciais em sete países.

Esses são fenômenos que atravessam todo o espectro político. O estudo também revela o que Sarasqueta chama de "narrativa". A grande maioria do conteúdo são histórias, e não programas. "Em vez de visar o pensamento abstrato e a reflexão das pessoas, o objetivo dessas narrativas é buscar reações, emoções", aponta Sarasqueta.

Identifica também uma política egocêntrica e personalista. No contexto da crise dos partidos políticos, as pessoas não votam mais em um grupo político ou plataforma eleitoral, mas sim em um candidato, que é o centro de gravidade, não apenas durante os períodos eleitorais. A campanha tornou-se permanente, tanto para o titular quanto para a oposição: "Há uma busca constante por polarização, por chamar a atenção."

O discurso dos políticos influencia a forma como os cidadãos compreendem a realidade, afirma Reyes. "Eles têm todos os recursos midiáticos e apoio para reiterar persistentemente uma visão de mundo. Eles criam a realidade por meio da linguagem, da manipulação emocional e do humor de seus seguidores incondicionais, como o público de um espetáculo, sem poder crítico ou analítico. Assim como a publicidade, em muitos casos, não tem nada a ver com o produto em si. É tudo aparência", argumenta.

"A comunicação política hoje é muito dependente do espetáculo. O que é noticiado é justamente polêmica, insultos e críticas, e cria-se a percepção de que isso define toda a campanha", afirma Sarasqueta. No entanto, ao analisar as mensagens dos candidatos, a maioria é positiva (80%) e apenas 7,2% são negativas, segundo o estudo mencionado.

No entanto, são as controvérsias e os ataques que circulam repetidamente. Alguns segundos de uma entrevista em um veículo de comunicação tradicional repercutem digitalmente nas redes sociais, onde podem alcançar centenas de milhares de espectadores, com forte alcance entre o público jovem, e permanecer por muito tempo. É isso que os políticos estão explorando cada vez mais e o que tornou Milei famosa.

Reyes alerta para o aumento da agressividade nas mensagens: "Há polarização, e isso faz parte da estratégia populista de criar inimigos em vez de adversários. Insultos e desqualificações são uma forma de caricaturar o outro para anulá-lo. A linguagem se tornou consideravelmente mais violenta, reflexo também das circunstâncias emocionais em que a sociedade se encontra."

Na opinião do especialista em linguística da UPLA, "o jogo limpo se perdeu. Se, por exemplo, um político recebe uma denúncia por um crime ou ato de corrupção, a resposta não é se defender, mas atacar quem o acusou, e até mesmo a justiça e a lei".

À medida que a democracia do compromisso se erode, os extremos são reforçados. O termo bélico "inimigo" implica que o inimigo deve ser eliminado, simbólica ou fisicamente. "Quando adotamos essa linguagem, estamos pisando em terreno muito perigoso. Isso afeta a sociedade e se traduz em comportamento", acredita Sarasqueta. Um exemplo é o discurso de Trump e o subsequente ataque ao Capitólio em 2021.

Reyes observa que a agressividade da linguagem política se reflete nos cidadãos, como se vê nos tuítes entre apoiadores e opositores de Maduro. "É pura desqualificação e insulto. Não conseguimos encontrar um único argumento. É comportamento tribal ou de gangue."

Em uma região com alto consumo de conteúdo online, a virtualidade da política ganha força. Segundo a plataforma DataReportal, usuários no Brasil, Argentina, Colômbia, Chile e México passam entre sete e nove horas online por dia, acima da média global de 6h40 por dia. "É mais do que a jornada de trabalho e o horário de descanso. Todo esse tempo é gasto consumindo informações e formando opiniões com base no que está acontecendo lá", alerta Sarasqueta.

A plataforma com maior negatividade é a X, afirma o professor pesquisador da Universidade Camilo José Cela. Esses usuários são "hiperpolitizados, com mentalidade de rebanho, que valorizam tudo o que seus companheiros de tribo dizem e tudo o que a pessoa que se opõe a eles diz está errado".
Dois blocos

O viés partidário é evidente aqui. As pessoas assumem a posição da realidade que se adequa às suas próprias tendências e, por sua vez, os algoritmos reforçam essa posição, entregando o conteúdo que elas aprovam. Assim, surgem interpretações opostas da mesma realidade. Por exemplo, para alguns, a condenação da ex-presidente argentina Cristina Fernández é um ato em conformidade com a lei e, para outros, uma injustiça.

Não só existem diferenças de opinião sobre certas questões, como também estão se formando dois blocos identitários, ainda mais diferenciados por bairro, religião ou uso da bandeira nacional. "Se passo oito horas por dia interagindo com pessoas que me dizem que estou certo, estou atrofiando meu poder de decisão. As pessoas estão se tornando cada vez mais extremistas e relutantes em ouvir aqueles que pensam diferente."

"Isso está gerando uma polarização social extrema", enfatiza Sarasqueta. E os líderes atuais, acredita o pesquisador, "simplesmente reproduzem essa raiva vinda de baixo; não ousam contradizê-la. Eles a ecoam e, ainda por cima, aumentam o volume".

O Nordeste subsidiou o Sudeste

O que a Dinamarca, China, as duas Coreias e o Brasil têm em comum? Seus governos em algum momento geraram fome em nome de rápida industrialização. Em alguns países, isso ainda explica parte da diferença de renda entre regiões.

No Brasil, já ouvi de gente do Sul e Sudeste que nosso atraso está ligado à necessidade de regiões ricas subsidiarem as mais pobres. Mas é aí que está a questão: nunca foi requerimento empobrecer o Norte e Nordeste para o Brasil crescer, mas foi esse o caminho escolhido pelos governos militares, responsáveis pela aceleração da industrialização brasileira.

Os militares usaram tática comum em muitos países: transferir recursos da agricultura para áreas industriais. Com aumento do empobrecimento e criação de oportunidades em outras regiões, o que seria migração natural se transforma em êxodo rural. As regiões mais ricas começam a sugar pessoas fugindo das condições funestas das áreas agrícolas, em um círculo vicioso que pode durar décadas.


A Coreia do Sul fez algo similar nos anos 1960 e 70, suprimindo preços agrícolas para aumentar a renda dos trabalhadores urbanos, mas abandonou isso por uma industrialização mais inclusiva. A Coreia do Norte faz isso até hoje. Tem tecnologia de ponta em várias áreas, à custa de uma população rural mal nutrida.

Na China, a industrialização forçada causou milhões de mortes como consequência do Grande Salto para a Frente, fartamente estudado pelo mundo afora. Brasil, Dinamarca e outros países viveram algo parecido, mas em muito menor escala (mais de 10% da população dinamarquesa fugiu para os EUA de 1868 a 1908).

Não é coincidência que a família do nosso presidente tenha chegado em São Paulo nos anos 1950, fugindo da fome e da seca, quando se iniciava esse processo.

Migração rural é natural em qualquer processo de industrialização, mas êxodo rural, no qual as pessoas fogem do pior, é escolha política. O erro da China nos anos 1950 não foi repetido no período de 1980 a 2010, quando o país cresceu mais de 10% ao ano e a população urbana saiu de 15% para quase 50%.

O processo foi feito sem suprimir o setor agrícola e por isso ainda está longe de acabar, com 40% da população chinesa ainda em áreas rurais. O que motiva o migrante interno chinês é renda extra e não fome e seca, como no Brasil dos anos 1950 a 1980. Se o Nordeste é mais pobre hoje, é porque sua população foi usada, contra sua vontade, para acelerar a industrialização brasileira.

Não precisava ter sido assim. Talvez não tivéssemos tido o "milagre econômico" (um mito de qualquer forma, pois causou diretamente a hiperinflação). Contudo, um desenvolvimento industrial mais lento seria mais que compensado pela possibilidade de menores disparidades regionais. Talvez o Nordeste fosse mais próspero. Mas nunca vamos saber.

Os militares escolheram empobrecer o sertão para acelerar a migração. Entregaram favelas e desigualdade nos centros urbanos e fome e seca nas áreas rurais. Ainda estamos nos recuperando disso. Serão décadas antes que as regiões brasileiras venham a convergir. Enquanto isso, não faz sentido alguém do Sul reclamar de subsidiar alguém do Norte. Afinal, foram subsidiados pelo Nordeste. Só que não com dinheiro e sim com vidas. Milhões delas.

Imigração é necessária para o mundo

O nacionalismo é a base do mundo contemporâneo. Ser um país com instituições, identidade cultural e um projeto de desenvolvimento tem sido objetivo de todos os povos que se organizam politicamente. Mas a maioria das nações só se desenvolveu graças ao contato com o exterior e pelo fluxo migratório, enviando ou recebendo pessoas. A despeito disso, os imigrantes se tornaram um dos grandes bodes expiatórios da política atual, especialmente por meio do discurso da extrema direita, que ganha votos assim e encurrala a maioria dos adversários, hoje perdidos nesse debate. O que se vê como risco, no entanto, é a melhor solução civilizatória para o século XXI.

Preconceitos contra o estrangeiro, pessoas de outras culturas ou cor sempre estiveram presentes na humanidade. Guerras foram geradas por esse sentimento, bem como a separação entre as sociedades. Só que o contato entre os povos tem se tornado mais global. Primeiro, a partir do projeto colonista europeu, depois com as independências nas Américas, que receberam milhões de imigrantes, particularmente da Europa e da Ásia, e continuou ainda no pós-guerra até os dias atuais, agora com um fluxo imigratório preponderantemente dos países mais pobres aos mais ricos.


A hipocrisia atual frente à imigração se deve à mudança do fluxo imigratório. Enquanto africanos escravizados foram barbaramente levados para o continente americano, o discurso ocidental foi majoritariamente omisso, com raras exceções. Quando europeus ou japoneses em busca de uma vida melhor vieram para as Américas, ajudando no desenvolvimento dos Estados Unidos, Argentina e Brasil, essa belíssima aventura da humanidade foi aplaudida e reverenciada. Exilados políticos vindos de ditaduras do pós-guerra foram acolhidos por nações ocidentais, seja em nome de ideais democráticos, seja para incorporar capital humano de alta qualidade.

O fluxo de pessoas foi aceito, com discordâncias pouco expressivas eleitoralmente, até o início do século XXI. De lá para cá, o cenário se modificou profundamente. O problema agora não é necessariamente receber e incorporar estrangeiros às sociedades desenvolvidas. A questão que gera a demagogia política liderada pela extrema direita é sobre quem está indo para esses países. É um supremacismo civilizatório - quando não racial - travestido de defesa da pátria.

A crítica à imigração esconde-se numa pretensa defesa da população local, que estaria perdendo empregos e sendo afetada pela cultura estrangeira, pois os imigrantes seriam incapazes de assimilarem o modo de vida do seu novo país. Evidentemente que há por vezes choques culturais e que a entrada de novos habitantes precisa ter algum controle. Porém, o que tem predominado não é, em geral, essa incompatibilidade congênita.

Sem os imigrantes atuais, os Estados Unidos teriam problemas para preencher diversos postos de trabalho, aumentar a produtividade e reduzir o efeito do envelhecimento sobre a Previdência e as contas públicas. A Europa perderia também no terreno econômico, mas vale citar outro âmbito no qual a imigração tem sido um sucesso: os esportes. Seleções nacionais europeias, em várias modalidades, têm ficado cada vez mais fortes com o acréscimo de jogadores nascidos ou filhos de pessoas de outras nacionalidades. E as atividades esportivas são hoje tanto uma forma de fortalecimento da identidade coletiva - com reflexos sobre a felicidade individual e nacional - como uma atividade extremamente poderosa no plano econômico.

É revoltante ver o presidente Trump defendendo a deportação em massa de imigrantes levando em conta sua própria trajetória. Sua família veio de fora para enriquecer e ajudar o desenvolvimento dos Estados Unidos. O império familiar na construção civil e afins foi erigido com a ajuda de milhares de trabalhadores imigrantes. O sucesso na TV, fundamental para catapultar sua futura carreira política, foi muito vinculado ao ideal do “self-made man”, visão que sempre atraiu estrangeiros para os EUA. O conservadorismo cristão que ancora o trumpismo tem muito a ver com a visão de mundo dos católicos latinos, eleitores do atual presidente.

As incongruências do discurso de Trump com sua história são várias. Mas ele, como outras lideranças de extrema direita pelo mundo, está mais preocupado em construir narrativas para convencer - ou iludir - os cidadãos que acreditam ter perdido status social com a globalização. A ideia de que o mundo europeu e norte-americano, ao se livrar dos incômodos imigrantes, terá mais empregos e prosperidade aos locais é um engodo. Muitos empregos industriais, do agronegócio e, mais ainda, no comércio ou serviços que lidam diretamente com o público não serão mais preenchidos por jovens americanos. O que a população que tem votado na extrema direita sonha no plano econômico é ter um salário alto, mas com outro tipo de atividade. Provavelmente isso não será possível se não tiverem a formação escolar adequada e/ou se não aceitarem trabalhar em jornadas longas em empresas hipercompetitivas.

O mais complicado é que as decisões antimigratórias atuais estão hipotecando o futuro de seus países. Isso porque o envelhecimento populacional no mundo desenvolvido vai cobrar um preço em termos de escassez de mão de obra - na verdade, esse processo já estaria ocorrendo agora se não fossem os imigrantes. A redução do dinamismo econômico vai afetar a qualidade de vida de europeus e americanos, e é provável que nem a inteligência artificial dê conta dessa tarefa. Assim, em vez de gerar um renascimento da economia, como afirma o slogan “Make America Great Again”, essas decisões pretensamente patriotas podem iniciar um ciclo de decadência e dificuldades.

O ataque à imigração terá um outro efeito negativo às nações desenvolvidas: a geração de um sentimento negativo em muitos países, especialmente naqueles que têm enviado pessoas em busca de sucesso para os países ricos. São milhões de homens e mulheres que estão sendo maltratadas e escorraçadas nos lugares onde sonharam prosperar e criar suas famílias. São humilhações cotidianas que ao final deságuam numa deportação por vezes até perigosa. Ninguém esquece isso. O pior é que muita gente que vive na América Latina, na África ou na Ásia continua sonhando em morar nos EUA ou na Europa.

Muitos imigrantes que vivem no mundo desenvolvido, sobretudo nos Estados Unidos, sustentam famílias em seus países de origem. É um fluxo de recursos fundamental para reduzir a pobreza global e que gera um elemento de legitimidade para o sistema internacional. Antes de expulsar a maioria dos imigrantes dos EUA, Trump quer cortar boa parte dessa transferência de recursos. Isso será o maior estímulo para dizer que tais pessoas, especialmente latinas, não são bem-vindas à terra do Tio Sam.

Se esse processo de deportação se intensificar nos próximos anos, os povos que receberão de volta seus compatriotas não perdoarão essa humilhação. O soft power americano que foi fundamental para sua hegemonia vai se desgastar e enfraquecerá os EUA no plano geopolítico e na economia internacional. A própria extrema direita perderá muita força em todos os lugares em que os cidadãos locais se revoltarem com a soberba trumpista e de seus aliados pelo mundo desenvolvido. No fundo, os Estados Unidos terão de aumentar seu hard power, a imposição do poder pela força, o que será muito difícil de sustentar a não ser com um altíssimo grau de violência. É desse modo que se inicia o declínio dos impérios.

Um caminho diferente pode ser adotado pelas lideranças políticas do mundo desenvolvido. Estados Unidos e Europa podem ganhar com a imigração para realizar tarefas em que há cada vez mais escassez de mão de obra. Estados Unidos e Europa podem ganhar com a obtenção de talentos em várias das esferas da vida social que talvez não estejam à sua disposição. Estados Unidos e Europa podem ganhar com a incorporação de capital humano muito qualificado, que terá a Ásia como destino futuro se o discurso da extrema direita vencer. Por fim, Estados Unidos e Europa nunca foram populações puras e superiores: seus sucessos se devem à mistura e à incorporação de muitas culturas.

Um modelo que opta pelo livre fluxo de pessoas é mais realista do ponto de vista econômico, além de muito mais civilizado, pois o pluralismo e a tolerância entre as culturas produzem melhores sociedades. Pactos multilaterais e diálogos parcimoniosos entre os países podem produzir um equilíbrio imigratório, evitando excessos. O que não se pode perder de vista é que os imigrantes serão solução para as nações no século XXI. Cair na armadilha do discurso da extrema direita é um problema para cada uma das sociedades nacionais que sejam dominadas por formas de trumpismo, mas é um problema também para a esfera internacional, porque o ódio derivado desse movimento só vai causar um caos geopolítico maior.

Aqui, o passado traz boas lições: temos orgulho dos estrangeiros e seus descendentes que trouxeram muitos progressos à sociedade brasileira, inclusive pela mistura que propiciaram. O Brasil, mesmo não sendo desenvolvido, também precisará mais deles no futuro, como já mostra nossa pirâmide demográfica.