segunda-feira, 7 de julho de 2025

Sobre gatos e jabutis

Um dos meus grandes amigos de infância foi um gato. Fofura branca de rabo preto, manso e pacífico, chamado de “pechincha”, não sei exatamente por quê. Presente de um vizinho, um achado pelo valor da gentileza. Sempre que me via triste, choroso pelos cantos da casa, penalizado “pelas trelas” cometidas, ele se achegava e ronronava na linguagem afetiva dos felinos domésticos (família dos “felidae”) que miam quando insatisfeitos ou rugem quando ameaçadores.

Quando ele se foi, sofri e prometi a mim mesmo que não em apegaria a nenhum animal doméstico. Senti, faz muitos anos, que cães e gatos, conhecidos, atualmente, como “pets”, são capazes de exercer na sociedade humana as funções de companheirismo, divertimento e os benefícios menos visíveis, porém não menos importantes, preencher nossos vazios e estimular nossos afetos.


A esta altura, o leitor deve estar se perguntando: que papo é esse quando a agenda esteve e está repleta conflitos e incertezas e, no plano nacional o Congresso reina sobranceiro, impondo reveses ao Executivo que, ao fim e ao cabo, têm o custo suportado pela população brasileira?

Por coincidência, no centro da questão política Governo x Congresso está o setor energético, conta de luz e dois representantes da nossa fauna: o gato e o jabuti. Aí entram em cena o Código Penal e o criativo senso de humor do brasileiro. O parágrafo terceiro do artigo 155 estabelece: “Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico”. E a esperteza delinquente encontra uma forma de subtrair a energia da rede elétrica sem o devido pagamento à distribuidora com ligações clandestinas (furto) e adulterações de medidores ou dispositivos equivalentes (estelionato).

Ora, a ação delituosa é uma prática que, no caso da energia elétrica, exige habilidades, movimentos silenciosos e furtivos para não serem notados, à semelhança dos gatos, “gatunos”, um felino, ao mesmo tempo, ágil e sensual, capaz de inspirar a denominação de “gato” ou “gata” às pessoas atraentes.

Mas não fica por aí. O bichano concorrente é “o gato de água” obedece ao mesmo padrão de comportamento delituoso. Em ambos os casos, os prejuízos do crime afetam o patrimônio público, prejudicam as políticas de distribuição e abastecimento, agravam os danos da infraestrutura e afrontam respeito à lei cuja observância assegura a manutenção do estado de direito.

No mundo da política, porém, o representante mais importante da fauna brasileira é “um réptil de carapaça convexa” conhecido como jabuti. Como entrou e por que entrou na cena, em especial, no Congresso Brasileiro? Na sua origem, está a expressão “Jabuti não sobe em árvore. Se está lá, ou foi enchente ou foi mão de gente”.

A linguagem popular consagrou um significado especial: quando, ao longo do processo legislativo, os parlamentares se defrontam com um dispositivo estranho ao tema principal do projeto de lei: é um jabuti! A prática é mais comum do que se imagina. Ele está ali quietinho que, em grande medida, contraria legítimos interesses republicanos. Hoje, é um frequente personagem nos embates congressuais

Em recente episódio, a derrubada dos vetos presidenciais significa a ressureição de robustos jabutis que haviam sido incluídos enquanto tramitava o projeto de lei do marco legal das eólicas offshore. Segundo a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) e a Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), os jabutis vão custar, aproximadamente, R$ 197 bilhões ao consumidor longo de 25 anos e, por igual período, um aumento de 3,5% a 9% na conta de luz

Neste sentido, cabe salientar que uma parte do ônus se alastra pela economia e pune a sociedade com a alta inflacionária. De outra parte, este tipo decisão tem sérios efeitos sobre expectativas e sobre a visão estratégica que apontam o Brasil como um grande protagonista da questão ambiental com a autoridade de quem construiu uma matriz energética limpa, atualmente, ampliada pelas fontes renováveis de energia.

A rigor, o jabuti é produto da “esperteza” brasileira que ao beneficiar poucos, prejudicam, seriamente, uma população inteira. Não dá para obter a vantagem de poucos representados pela pressão fraudulenta em prejuízo de muitos cujos direitos são difusos e destituídos da força dos grupos de pressão organizados. Os jabutis são inocentes. Culpados são os fraudadores da vontade popular.

Cabe, ao final, reagir, politicamente, para que “gatos” e “jabutis”, bípedes e engravatados, não comprometam vocação ambiental do país, caso as escolhas políticas se distanciem da dimensão estratégica que o Brasil representa para um mundo em profundas transformações.

sábado, 5 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


O discurso dos grandes ditadores

Sim, quero ser imperador, cacique, líder supremo, dono do mundo, do pedaço, da parte que — por voto, concurso ou apadrinhamento — me cabe neste latifúndio.

Quero ser tratado por Meritíssimo, Excelência, Vossa Senhoria. É meu ofício: governar, legislar, fazer cumprir as leis — em causa própria, e, bem sabeis, a meu bel-prazer. Quero ajudar os meus — e que se danem ucranianos, ianomâmis e aposentados, contribuintes, motoristas de aplicativo e judeus. Prendei os que vandalizam palácios e ignorai os que deixam ruir igrejas, arder museus. Quero que negros odeiem brancos, pobres se insurjam contra ricos — e eu, rico e branco, fomentador de antagonismos e mestre em demonizar o diálogo, seja reverenciado como um deus.

Eu degusto lagosta à vossa custa, enquanto em 21,6 milhões de lares, em “insegurança alimentar”, comeis o pão que o diabo amassou. Eu presenteio lenços e gravatas de seda com o que retiro, compulsoriamente, do bolso onde mal tendes o suficiente para vos agasalhar.

Com o suor do vosso rosto, bobinhas, eu pago maquiadores que me mantêm a pele clara e imaculada para que eu possa defender vossa dignidade e vossas necessidades com meu afronte e minha bolsa (três anos e meio de Bolsa Família, uma pechincha) e denunciar o avanço da extrema direita —em Paris.

Eu liberto réus confessos, anulo condenações justas, perdoo multas bilionárias. Trabalhais oito horas por dia, seis dias por semana, 11 meses por ano para que pinguem o mínimo na vossa conta — eu tenho 60 dias de descanso remunerado, horário flexível, encho de penduricalhos meu supersalário (os pagamentos acima do teto constitucional passaram de R$ 10 bilhões em 2024) — e processo quem divulgar as remunerações ilegais.

Eu gasto muito e mal; e vos empurro goela abaixo mais e mais impostos e mordomias e má gestão. Visito ex-presidente presa por corrupção e mando buscar, em jatinho da FAB (bancado por vós, que íeis andar de avião e jamais decolastes), a ex-primeira-dama condenada à prisão por lavagem de dinheiro. Apoio agressores e ditaduras, corruptos e tiranias — mas me outorgo autoridade moral de defensor da paz, da ética e das minorias.

Acho que 513 deputados são pouco, que é pouco gastar mais de R$ 24 milhões por ano com cada um e voto por elevar esse número para 531. Quero mais fundo eleitoral e mais emendas parlamentares e menos transparência e mais privilégios. Com vossos recursos, eu pago meus procedimentos estéticos, meus jantares superfaturados e asfalto as ruas do meu condomínio de luxo.

Por isso, vos peço: lutai pela censura, pelo controle dos meios de comunicação, por mais taxação; pela anistia aos que tentaram golpear a democracia, pelos que a corroem por dentro simulando defendê-la. Afinal, quem sois vós na fila do pão? Uma das 196 mulheres violentadas por dia. Uma vítima de feminicídio a cada seis horas. Um dos 35.365 que sofreram morte violenta em 2024. Um dos 3,9 milhões de pedintes esperando Godot nos guichês do INSS. Um dos 59 milhões de incapazes de atender às próprias necessidades básicas de sobrevivência.

Não sois cidadãos: 213 milhões de pequenos tiranos é que sois. Segui, pois, odiando-vos uns aos outros — e ignorando que todo poder emana de vós, e em vosso nome deveria ser exercido.
Eduardo Affonso

Tempos de profetas e charlatães

Hoje, numa época em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatães usam as mesmas fórmulas com mínimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redações dos jornais são constantemente incomodadas por gente que acha que é um gênio, é muito difícil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pés diante da porta da redação são suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porém, o gênio passa a outra condição. Deixa de ser matéria fútil da crítica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tão pouco a sério como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de fatos concretos, com todas as consequências que isso tem.

Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância.

Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem, e é por isso que sobram sempre muitos atributos. Foram criados um dia por algum homem importante para outro homem importante, mas esses homens há muito que morreram, e os conceitos que lhes sobreviveram têm de ser utilizados. Por isso andamos sempre à procura do homem certo para um determinado adjetivo. A "portentosa plenitude" de Shakespeare, a "universalidade" de Goethe, a "profundidade psicológica" de Dostoievski e muitas outras imagens que uma longa tradição literária deixou atrás de si andam às centenas nas cabeças dos que escrevem, e essa sobrelotação de reservas leva-os a dizer hoje que um estratega do tênis é "insondável" ou um poeta em moda "grandioso". É compreensível que se sintam gratos quando conseguem aplicar sem desperdício a sua reserva de palavras. Mas terá sempre de se tratar de um homem cuja importância já é um fato aceite, de maneira a que se compreenda como as palavras se ajustam bem a ele, ainda que não se diga exatamente a que qualidades. 
Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

Sociedade de massa e financismo

A tendência marcante do nosso tempo é a crescente submissão da política aos ditames dos mercados financeiros. Não se trata do poder dos operadores, aqueles que se empenham na busca do melhor resultado. Em suas opiniões econômicas, esses funcionários da finança exprimem os consensos impessoais que os submetem aos mandamentos da sociedade de massa. Não são agentes racionais, mas escravos das concepções que os dominam.

Em delírio subpositivista, um economista do mainstream sugeriu que as narrativas (ideologias?) não podem desmentir os fatos, como se os “fatos” da vida social não fossem inseparáveis das narrativas sobre eles. Desgraçadamente para a matilha de cães raivosos que emitem latidos na economia, os humanos formulam narrativas para configurar a “realidade”. Escravos da linguagem, os bípedes falantes estão sempre diante de uma disputa de narrativas, significados, até quando escolhem instrumentos de comprovação empírica dos fatos que pretendem narrar.


Os consensos dos mercados deploram o peso excessivo do Estado munificente e investem contra as tentativas de disciplinar as forças simultaneamente criadoras e destrutivas do capitalismo. A ação do Estado, particularmente sua prerrogativa fiscal, tem sido contestada pelo intenso processo de homogeneização ideológica de celebração do orçamento equilibrado. As massas enriquecidas contestam qualquer interferência no processo de diferenciação da riqueza e da renda.

A visão coletiva que subordina a decantada racionalidade dos servos das finanças afirma e reafirma a irracionalidade das transferências fiscais e previdenciárias, ao mesmo tempo que ordena restrições à capacidade impositiva e de endividamento do setor público. Isso porque é imperioso tornar mais livre o espaço de circulação da riqueza e da renda dos mais abonados.

A ação do Estado é vista como contraproducente pelos bem-sucedidos e integrados, mas como insuficiente pelos desmobilizados e desprotegidos. As duas percepções convergem na direção da “deslegitimação” do poder administrativo e na desvalorização da política. A resposta esperançosa às incertezas do futuro depende da capacidade de mobilização democrática e radical dos deserdados, os perdedores na liça da concorrência. Desgraçadamente, os espaços de informação e de formação da consciência política e coletiva são ocupados por aparatos comprometidos com a força dos mais fortes e controlados pela hegemonia das banalidades.

Um exemplo de procedimentos duvidosos está na ideia de superávit fiscal estrutural que trata de eliminar os efeitos do ciclo econômico nas receitas do governo. Nesse procedimento estão embutidas ideias peregrinas. Nas catacumbas do pensamento mercadista esconde-se o conceito de equilíbrio. Esse conceito dominante na teoria econômica obscurece a compreensão do capitalismo como economia monetário-financeira em permanente movimento.

Por rádio, televisão e jornal a população é “informada” que precisa se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais e menos direitos e benefícios trabalhistas, ou encarar a destruição da economia, tudo em nome da ciência econômica. Diante dessa configuração, a esfera pública e democrática sucumbe descaradamente à degradação dos Parlamentos. No Brasil de 2025, o Legislativo está contaminado pela peste dos interesses abrigados nas emendas parlamentares, para não falar das vergonhas do orçamento secreto. Esses processos visíveis e simultâneos de crescente putrefação do “público” e de celebração do “privado” decorrem da sociabilidade peculiar imposta pelo movimento “invisível” da mão que guia o curso dos mercados.

Para o cidadão afetado, parece inteiramente fantástica a ideia de controlar as causas desses golpes do destino. As erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões das Bolsas de Valores ou as misteriosas evoluções dos preços dos ativos e das moedas são capazes de destruir suas condições de vida. Mas o consenso dominante trata de explicar que se não for assim sua vida pode piorar ainda mais.

A formação desse consenso é, em si, um método eficaz de bloquear o imaginário social, comprovação dolorosa das agruras que martirizam as criaturas da história humana. As forças impessoais adquirem dinâmicas próprias e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.

A boa sociedade deve tornar livres os seus integrantes, não apenas de um ponto de vista negativo, no sentido de não serem coagidos a fazer o que não fariam por espontânea vontade, mas positivamente livres, no sentido de serem capazes de fazer algo da própria liberdade. Isto significa, primordialmente, o poder de influenciar as condições da própria existência, dar um significado para o bem comum e fazer as instituições sociais funcionarem adequadamente. 

Blowin’ in the wind

Uma amiga me perguntou se eu sempre me entendi antissionista. Respondi: “Nunca fui sionista e, em algum momento, me transformei em antissionista (cada vez mais radical). Fiz o ensino fundamental em colégio judaico no Bom Retiro (Renascença). A certa altura, me dei conta do sionismo e de que os judeus deveriam ir para Israel, a Terra Prometida. Então pensei comigo mesmo, ‘Nossa! Eu então aqui sou o rei, porque nasci lá’ (eu sempre acho que sou o rei da cocada preta… até cair do cavalo).

“Ingressei no ensino médio em colégio público (o Estadual do Parque D. Pedro II), em plena ‘guerra triunfal’ de Israel em 1967, e foi lá que ouvi as primeiras alusões antissionistas. Em 1968, comecei a militar na Polop e me posicionava a favor do povo palestino.

“Em 2012, depois que meus pais deixaram este mundo, comecei a escrever as suas memórias do Holocausto… e foi assim que eu caí do cavalo. Descobri que eu não era o rei porque nasci na Terra Prometida, eu, na verdade, era um traidor. 

“Em Returnees, consta ‘Haim Yahil, do Ministério das Relações Exteriores de Israel, que estava na Alemanha trabalhando no Acordo de Reparações, disse que os judeus brasileiros, ao invés de imigrarem para Israel, manifestavam o seu sionismo sendo hostis aos returnees.’”

Minha amiga, que não é judia, respondeu: “Acho que a queda é um mito que nem todos têm a sorte de viver. Minha queda desse cavalo – eu cresci entre sionistas de esquerda, centro e direita – veio bem mais tarde, em 2019, e levou uns anos até se consolidar em 2023. Fico chocada como são poucos os que se atrevem a cair desse cavalo.”

Outro amigo, este de ascendência judia, que acompanhava de perto a minha trajetória antissionista, ao ler o artigo A violência dos sionistas, postado após o 7 de outubro de 2023, escreveu em 22 de novembro do mesmo ano: “Não posso concordar com um artigo que começa com a frase ‘A violência dos sionistas em relação aos palestinos não começou em 7 de outubro de 2023…’ Não concordo com o inteiro teor do texto, ou seja, com a seleção de fatos e argumentos que se encaixam teleologicamente na concepção do autor. Com a omissão, por exemplo, do fato de que centenas de milhares de judeus foram expulsos de países árabes do Oriente Médio e do Magreb depois da vitória de Israel na guerra de 1948. Não concordo especialmente com o final do texto, que usa como recurso retórico a posição alucinada de judeus fundamentalistas que são contra a existência de Israel porque acreditam que tal advento só poderia ocorrer com a chegada de um suposto messias. Aí já se ingressa no terreno do aluamento. Vai quem quiser. Eu, não. Espero que você reconheça o direito à divergência. Saudações.” 

Três meses depois, o mesmo amigo me encaminhou um email com o título “Crise”: “Teu relato sobre os returnees foi um primeiro sinal de que havia alguma (ou muita) coisa errada com Israel. Hoje digo para você que estou horrorizado não apenas com o governo israelense e a maioria que o levou ao poder, não apenas com a trajetória histórica do Estado de Israel, não apenas com os setores fascistas, reacionários e todo tipo de picaretas da Diáspora, mas com a própria imagem da judeidade formada na minha cabeça ao longo de mais de 70 anos. Como você pode imaginar, Israel, na minha infância, adolescência, juventude, idade madura e bem depois era uma entidade acima das críticas que poderiam ser feitas a certos aspectos daquela sociedade. Acho que funcionava assim para a maioria dos judeus fora de Israel. Tudo isso desabou em semanas. Compreendo melhor, agora, as tuas posições. Deixou de existir a imagem de um conjunto de valores morais pelos quais supostamente se guiariam os filhos do ‘povo eleito’. Era uma premissa entranhada que alimentei (ou com que fui alimentado) década após década, apesar dos pesares e mesmo reconhecendo os direitos dos palestinos. Nunca imaginei me ver num contexto tão adverso. Acho que só existe saída na luta pela paz, que ainda estará engatinhando, se tanto, quando nós tivermos morrido. Mas não vejo outro caminho. Sem isso só restará amargura e, no limite, desespero. Abração.”

Quantas mortes serão necessárias até que se saiba que muitas pessoas já morreram?

Quantos anos pode um povo existir até que permitam que ele seja livre?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind.
Samuel Kilsztajn

Congresso “chora” com onda de críticas e ganha defesa de 7 minutos

Com a crise política entre Congresso e Governo – por mais que neguem, ela existe – tomando conta do noticiário nos últimos dias e tendo uma participação ativa da população no debate, não deveria ser surpresa para ninguém a onda de memes criticando o Legislativo, principalmente na figura do atual presidente da Câmara, Hugo Motta.

Até aí, tudo como sempre foi desde que o debate começou a existir nas redes sociais. Mas as críticas incomodaram – e todos sabemos que, meme é igual apelido: quando o alvo não gosta, aí que pega. Falando nisso, as sátiras ganharam mais força ainda após reportagem no Jornal Nacional com ilustres 7 minutos de duração.


Não é possível comparar o espírito constante das eleições brasileiras, o bom humor como crítica, às campanhas de desinformação de cunho golpista, com ataques agressivos às instituições. Desde a época do impresso, a indignação do cidadão é expressada desse jeito “moleque” – no bom sentido – como uma forma de atingir mais pessoas e se fazer ouvido pelo Poder.

“Esses coronéis não querem pressão, eles querem proteger seus privilégios, impedir avanços sociais, sem dar satisfação ao povo, sem pressão política em cima deles. Em hipótese alguma nós podemos aceitar isso”, disse o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ) em sua rede social.

A verdade é que a boa criatividade do eleitor brasileiro na forma de conteúdos humorísticos que denunciam uma atuação de um parlamentar ou figura pública sempre foi e deveria ser hoje muito bem-vinda: é o que mede a temperatura da população, o desgaste político e, portanto, os rumos do país. O personagem criado para Motta, “Hugo Nem se Importa”, fala sobre a defesa de medidas que beneficiam a parcela mais rica, privilegiada da sociedade brasileira – a partir da derrubada do IOF após quebrar acordo feito com o Governo. Uma campanha que nasceu de forma orgânica através de internautas que empolgaram a militância da esquerda.

Salvo engano, Hugo Motta não gostou nadinha, se sentiu responsabilizado pela derrota do governo e ganhou uma matéria no Jornal Nacional em sua defesa, com termos como “risco à democracia” e “agressões”. O governo Lula chegou a precisar declarar que não foi um movimento engatilhado por eles e toda sorte de acusação foi levantada contra os criadores da “campanha Congresso da Mamata”.

“É só um bando de chantagista querendo mais grana. E aí, quando faz um ‘meme do mamateiro’, vão lá dizer que isso é um ataque antidemocrático, um ataque à política. Isso é ridículo, ataque à política é você sequestrar o Orçamento, é você acabar com o presidencialismo. Isso sim é um ataque à Democracia”, diz Guga Noblat.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Custos ocultos

“Externalidades” designa os custos ou benefícios de produzir um bem ou serviço que não se refletem no preço de mercado. Abundam as externalidades negativas, em que os lucros são privados, e os custos, de todos. Nos alimentos ultraprocessados, os custos com o tratamento dos doentes (obesidade, diabetes). Na indústria da moda, as pilhas de roupa num deserto sul-americano ou num qualquer país africano. Na energia, o aquecimento global. E há muitos outros exemplos.

Não obstante, uma realidade evidente para todos, a indústria canaliza recursos para gerar a dúvida. Alega que os estudos científicos são incompletos e é necessária mais investigação. Que não foi demonstrada causa-efeito. Que existem múltiplos fatores. As reações são ténues e tardias. Individual e institucionalmente, acolhemos a dúvida, que nos apazigua a ansiedade, num dia a dia já com a sua dose de preocupações.

Lentamente, compostos químicos são proibidos e impostos tornam mais rentável encontrar uma alternativa ou assegurar a reciclagem. Exemplos bem-sucedidos são o Protocolo de Montreal, que eliminou a produção de químicos que empobreciam a camada de ozono e, na Noruega, a taxa especial sobre produtores e distribuidores, caso não garantam a recolha de 95% das garrafas de plástico.


No novo mundo virtual, as externalidades não são apenas físicas. À poluição e aos custos energéticos associados à produção dos gadgets somam-se as externalidades de carácter intelectual e social. Multiplicam-se os estudos que demonstram que estamos mais ansiosos e infelizes, desde que a nossa vida social passou a ser formatada pelas redes sociais. A qualidade da nossa democracia degradou-se, com o discurso político controlado pelo algoritmo, que decide o que lemos e que manipula os nossos instintos mais básicos.

Face às denúncias de ex-funcionários das Big Tech, estudos de médicos e cientistas sugerem as primeiras respostas. Vários países europeus ponderam a proibição do uso de telemóveis nos recintos escolares (nalguns, incluindo no Secundário). No estado do Utah. EUA, foi publicada, em 2024, legislação a estabelecer limites de tempo de uso, proibição de auto-play, scrolling e notificações automáticas, e obrigatoriedade de apresentar os conteúdos por ordem cronológica, quando o utilizador é um menor. Em 2023, 41 estados americanos demandaram a Meta por produzir apps viciantes e especialmente destinadas aos mais jovens (na sequência de serem tornados públicos documentos internos pela ex-funcionária do Facebook Frances Haugen). Não se antecipa vitória, dado o Supremo Tribunal de Justiça Americano ter vindo a decidir que as empresas detentoras destas plataformas não são responsáveis pelos conteúdos. Na Europa, sucedem-se os pedidos de informação pela Comissão Europeia, ao abrigo do Regulamento dos Serviços Digitais, embora, até ao momento, tal ainda não se tenha refletido na forma como os algoritmos se encontram desenhados.

Importa acelerar a resposta e reconhecer que não são apenas as crianças e os jovens que beneficiariam da eliminação do auto-play e do scrolling ou de os conteúdos serem apresentados por ordem cronológica. Afinal, os 18 anos não nos tornam, como por milagre, imunes aos efeitos negativos das redes sociais. Um “recolher obrigatório”, isto é um período noturno em que crianças e jovens não podem estar online (como o previsto na legislação do Utah) permitiria um sono mais tranquilo e certamente um ambiente familiar e escolar mais saudável. Se é já evidente que uma escola menos digital – sem smartphones (há que recordar que para contactar existem sempre telefones de teclas) e com um uso muito circunscrito de televisores e computadores – permite melhores resultados na aprendizagem e no comportamento, porque adiamos tomar medidas? E se o ideal é legislar, também na nossa comunidade e na escola dos nossos filhos é possível atuar. Mobilizemo-nos como cidadãos, pais e educadores para, enquanto as Big Tech acumulam lucros, não sermos vítimas desta externalidade que nos corrói o cérebro e o tecido social.

Riqueza nacional

A miséria moral, como a pobreza material, não a compramos com a independência: herdamo-las. Colônia alguma recebeu de um povo europeu mais rico legado. Seja embora! As heranças veneram-se. Nós veneramos os nossos prejuízos. Nossa miséria histórica é a nossa riqueza.

Tavares Bastos (1839-1875)

Os humanos e as 'subespécies'

Numa brincadeira que circula nas redes sociais, o professor pergunta num teste: “Que nome se dá à Ciência que classifica os seres vivos?” E o aluno responde: “Racismo.” Somos todos Homo sapiens sapiens e não coexistimos com mais nenhuma subespécie humana. Para a Ciência, não existem raças, uma vez que os seres humanos partilham 99,9% do ADN, não justificando a sua divisão.

Certamente haverá uns mais sapiens do que outros, uns mais altos e outros mais baixos, uns com a pele mais clara e outros com a pele mais escura – são as diferenças de fenótipos que estão nos 0,1% restantes do ADN. As raças são uma construção social altamente influenciada pelo contexto em que vivemos.

Ainda que sem nenhuma base genética nem biológica, o facto é que a classificação do ser humano por raças, feita pelo antropólogo alemão Johann Friedrich Blumenbach, no século XIX, ainda permanece no imaginário dos povos europeus. Eram cinco, dizia ele, a caucasoide, a mongoloide, a etiópica, a americana e a malaia. Sendo que o “tipo” humano perfeito, para o alemão, se encontrava nas montanhas do Cáucaso.


Mas se a Ciência nos conta uma história, a de que partilhamos 99,9% do ADN, a política sempre nos contou outra e seguimos num mundo em que a partilha de 99,9% dos direitos humanos é ainda uma miragem. No nosso país, por exemplo, encontramos várias “subespécies” de pessoas que não têm direito a algo tão básico como a família.

O Governo quer alterar a Lei de Estrangeiros, que permite o reagrupamento familiar de quem cá está com título de residência, desde que tenha entrado no País de forma legal – a proposta do Executivo de Luís Montenegro é a de que tenham de esperar dois anos, com título de residência, para poderem ter consigo a família.

O mundo é feito de fronteiras e podemos deixar de lado a utopia cristã de que somos todos filhos de Deus – “crescei e multiplicai-vos”, uma conta que não fala em divisões – para ter uma conversa séria e moderna sobre a necessidade de criar uma política de imigração regulada dentro dos muros europeus. Mais difícil de entender é a proposta governamental de que, entre a “subespécie imigrante”, haja Homo sapiens sapiens que podem trazer a família e outros não.

Como é que se faz esta distinção? Quem é profissional altamente qualificado ou quem tenha um Visto Gold pode trazer a família de imediato. E aqui está a principal “característica” que não aparece nos 0,1% do ADN que não partilhamos, mas é um fator distintivo definitivo e universal: já nem é a cor da pele, mas o tamanho dos bolsos.

Já dizia Durão Barroso, nosso ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia: “Há limites para o multiculturalismo.” Uma coisa são as grandes multinacionais que espalham pelo mundo a sua monocultura – como o Goldman Sachs, o banco de investimento do qual Durão Barroso foi presidente não executivo –, outra é juntar mais línguas a esta Torre de Babel que já é a Europa.

O que mina a discussão sobre a imigração – que se quer séria, responsável, gentil, para não semear ódios nem incitar à violência e ao racismo – é o reino da hipocrisia.

Como ter agora o Chega a fazer a defesa das mulheres, outra “subespécie” humana, contra o uso de burkas. Como se os seus deputados não fossem dos maiores bullies contra as mulheres na Assembleia da República. O que sobra disto para a sensatez?

Número de mortos em Gaza é 65% maior que oficial, diz estudo

Com a entrada de jornalistas na Faixa de Gaza severamente restrita pelos israelenses, a fonte de dados sobre o número de vítimas da guerra costuma ser o Ministério da Saúde local, controlado pelo Hamas – e Israel sempre rejeitou esses números, alegando que eles seriam exagerados. Agora, um estudo independente mostra que a contagem real de mortos é provavelmente ainda maior que os números oficiais.

Uma pesquisa conduzida pelo economista Michael Spagat, do Royal Holloway College, da Universidade de Londres, estimou que, até o início de janeiro deste ano, mais de 80 mil palestinos haviam sido mortos na guerra de Israel em Gaza, 65% a mais do que os nomes que constam nas listas do Ministério da Saúde local.

Para Spagat, especializado em guerras contemporâneas e na contagem de vítimas de conflitos, um dos aspectos importantes do seu trabalho é "lembrar-se de cada vítima". Que os nomes dos mortos estejam pelo menos escritos em listas, como o Ministério da Saúde de Gaza faz atualmente.

Ele considera as listas oficiais "amplamente corretas" – mesmo que o ministério seja controlado pelo Hamas, classificado como uma organização terrorista pela União Europeia (UE), pelos Estados Unidos e outros países.

"O Ministério da Saúde de Gaza lista os nomes dos mortos com seu número de identificação, idade e sexo. Isso pode ser facilmente verificado", afirma.


Isso já foi feito: em fevereiro, pesquisadores publicaram um estudo na revista científica The Lancet que comparou obituários publicados em redes sociais com as listas do Ministério da Saúde palestino, e chegaram à conclusão que alguns nomes não haviam sido adicionados à lista oficial – ou seja, havia nomes faltando. E concluiu que o número de mortos era provavelmente maior do que o divulgado.
Pesquisadores em campo em Gaza

Agora, pela primeira vez, foi apresentado um estudo realizado de forma independente sobre as listas de mortos publicadas pelo Ministério da Saúde em Gaza. Os pesquisadores, liderados por Spagat, perguntaram aos moradores do território palestino sobre os membros falecidos de suas famílias.

Para fazer isso, eles estabeleceram uma colaboração com colegas do Centro Palestino para Políticas e Pesquisas de Opinião (PCPSR), uma organização independente de pesquisa, liderada pelo cientista político Khalil Shikaki, financiada por fundações privadas e pela UE, entre outros. Ela é sediada em Ramallah, na Cisjordânia, mas também conta com uma equipe experiente na Faixa de Gaza.

"Não precisamos ser autorizados a entrar em Gaza. Já estávamos lá", diz Spagat, explicando como os dados foram coletados na zona de guerra, onde – com exceção de algumas organizações humanitárias – a autoridade israelense responsável dificilmente permite a entrada de alguém. Israel vem proibindo a entrada de jornalistas internacionais desde o início da guerra. "Felizmente, nenhum de nossos pesquisadores em campo foi morto até agora. Todos os funcionários do estudo estão vivos."

Os pesquisadores em campo conversaram com uma amostra de 2 mil famílias, representativa da população de Gaza antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que levou à guerra conduzida por Israel.

Eles não puderam entrar em áreas isoladas pelo exército israelense como zonas de combate. No entanto, como grande parte da população de Gaza foi deslocada, os pesquisadores puderam conversar com pessoas em locais como o acampamento de Al-Mawasi, onde estão ex-moradores do norte da Faixa de Gaza ou de Rafah.

O estudo concluiu que, de 7 de outubro de 2023 a 5 de janeiro de 2025, o número de mortes diretas pela guerra foi de cerca de 75.200. No mesmo período, o número de mortos segundo o Ministério da Saúde de Gaza foi de 45.650. A pesquisa indica, portanto, que o número real de mortes é 65% maior do que o registrado nas listas oficiais.

Isso significa que cerca de uma em cada 25 pessoas foi morta na Faixa de Guerra, que tinha uma população de cerca de 2,3 milhões de habitantes no início da guerra.

A isso se soma o número das chamadas "mortes indiretas da guerra", ou seja, todas as pessoas que morreram em consequência da desnutrição ou de doenças provocadas pelas circunstâncias da guerra – menos o número de pessoas que teriam morrido de velhice ou doença independentemente da guerra. Os pesquisadores estimam que as mortes indiretas da guerra somam 8.540 para o período mencionado.

Esse número é significativamente menor do que o anteriormente estimado. Um estudo publicado na revista The Lancet em julho de 2024 havia projetado que, para cada morte contabilizada, quatro mortes indiretas adicionais da guerra teriam que ser adicionadas. As organizações humanitárias vêm alertando há meses que os civis em Gaza podem morrer de desnutrição e doenças – falou-se em dezenas de milhares de mortes indiretas da guerra.

Spagat atribui o número mais baixo de "mortes indiretas" ao fato da população de Gaza ser, em média, jovem e, antes da guerra, em grande parte bastante saudável, devido a um bom sistema de saúde e à alta taxa de vacinação "graças à ONU e a muitas organizações humanitárias".

Esse número não é baixo em comparação com outras zonas de guerra. "Nossos números mostram que as organizações humanitárias têm feito um ótimo trabalho em manter a população viva até agora", afirma.

Ele ressalta que o estudo foi realizado antes do bloqueio total de onze semanas imposto por Israel às entregas de ajuda humanitária a Gaza. "A população de Gaza está desnutrida. Quando surgem doenças, as coisas podem acontecer muito rapidamente. Mesmo que houvesse um cessar-fogo na próxima semana e ele fosse mantido, o número de mortes indiretas cresceria novamente. Nossos números não são definitivos."

O estudo ainda não foi revisado de forma independente por pesquisadores que não estiveram envolvidos nele. Trata-se de uma pré-impressão. Por esse motivo, os números também não podem ser considerados definitivos. Mas as conclusões coincidem com o estudo publicado anteriormente na Lancet, que verificou a lista de nomes fornecida pelo Ministério da Saúde de Gaza.

A equipe de pesquisa de Spagat e Shikaki utilizou métodos diferentes, mas tinha um objetivo semelhante. Eles queriam verificar se a instituição que conta diariamente as novas mortes na Faixa de Gaza pode ser usada como referência confiável.

"Mostramos claramente que eles não estão exagerando o número de mortos. O estudo também indica que eles fornecem um quadro realista da demografia das vítimas fatais. A porcentagem de mulheres, crianças e idosos que calculamos corresponde com bastante precisão aos números do Ministério da Saúde em Gaza."

De acordo com o estudo, mais de 30% das mortes diretas são de crianças e adolescentes menores de 18 anos. Outros 22% são mulheres e cerca de 4% são pessoas com mais de 65 anos. A maioria dos mortos são homens de 15 a 49 anos. Isso significa que os combatentes foram realmente alvos?

"Não", responde Spagat. "Nas guerras, os jovens são sempre os mais propensos a serem mortos." Assim como o Ministério da Saúde de Gaza, o estudo não faz distinção entre combatentes e civis.

"Teríamos colocado nossos pesquisadores de campo em risco se eles tivessem perguntado se havia membros do Hamas morando na casa." Eles poderiam ser considerados suspeitos de serem agentes do serviço secreto israelense, de acordo com Spagat. Portanto, esses dados não foram coletados.

Ele enfatiza: "Temos um número muito grande de crianças pequenas mortas, o que é fora do comum". Ele hesita em fazer comparações, mas "em Gaza, 4% da população foi morta. Não vimos isso em nenhuma outra guerra no século 21".

Se extrapolarmos os números do estudo de Spagat e Shikaki para os dias de hoje, chegaríamos rapidamente a 100 mil mortos. Um número difícil de imaginar, por trás do qual estão os nomes e as histórias de pessoas.

Conhecemos algumas delas, como a família al-Najjar. As crianças Yahya, Rakan, Ruslan, Jubran, Eve, Rivan, Saydeen, Luqman e Sidra foram mortas em 23 de maio em um ataque aéreo israelense em Khan Yunis. Sua mãe sobreviveu porque estava de plantão no hospital como médica. O único sobrevivente do ataque foi seu filho Adam, de onze anos. O pai das crianças, o também médico Hamdi al-Najjar, morreu alguns dias depois.

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Os inteligentes construíram o mundo, os estúpidos vivem à grande

Nas "hierarquias de poder" a mesma ordem burocrática que sufoca a criatividade e a originalidade estabelece a escala dos "méritos pressupostos", da qual não se pode discordar a não ser pondo em causa os próprios alicerces da sociedade. A estrutura hierárquica elimina a necessidade de distinguir os seres humanos na base das suas qualidades, dos seus talentos.

Numa burocracia, o chefe é o chefe, porque ocupa a posição de chefe, e não porque seja o melhor. Pode perfeitamente ser o mais estúpido que o último moço de fretes: isso não quer dizer nada, é ele quem manda – porque ele é o chefe. Os sargentos não são necessariamente mais imbecis que os simples soldados ; mas são os distintivos que lhes enfeitam as mangas ou os ombros que lhes conferem a autoridade de comando.

Os juízos de valor brilham pela mais completa ausência nos sistemas burocráticos, porque a estrutura hierárquica os tornou inúteis e consagrou assim o fim da vantagem constituída pela inteligência.

A imbecilidade está no poder. E o poder não precisa de génio.

Mas trabalha em seu próprio benefício, tende a imprimir a sua própria imagem no mundo circundante e a multiplicar a estupidez, da qual extrai a sua razão de ser. 

Todos os regimes cuidam de sufocar a inteligência, que não só é desnecessária nos termos de seja que forma for de organização, mas constitui, além disso, um fator adverso e, por conseguinte, uma ameaça. As pessoas de bom senso, por exemplo, põem-se interrogações assustadoras, subversivas. Do tipo : "É possível que logo seja este cretino o meu chefe?". ( Possível e mais que possível ). "Mas não haveria ninguém mais capaz para uma missão tão delicada ?" ( Havia, é quase certo, mas não era isso que interessava ). As ditaduras suprimem a liberdade de pensamento ( e, com frequência, também o pensador ). Em democracia cada cabeça vale um voto, ainda que se trate de uma cabeça oca. Todas as formas de domínio procuram impor a uniformidade dos pensamentos, dos desejos, do mesmo modo que visam massificar os indivíduos e vinculá-los a um modelo comum de imbecilidade.

Tal é a essência do poder. Que resulta das escolhas evolutivas e culturais da nossa espécie. O "homem-massa" da moderna sociedade industrial ( dissuadido de pensar, ensinado a alimentar desejos idênticos aos dos seus semelhantes, porque impostos por sistemas de condicionamento extremamente eficazes ), o homem que se limita a saber desempenhar uma função, é o produto de um processo evolutivo que dura há milénios e se orienta para a repressão da inteligência. Quem diz: "não me agrada, considera" : "a evolução confundiu tudo." "será verdade ?"
Pino Aprile, “Elogio do imbecil“

Nada é impossível de mudar

Nada é impossível mudar.
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

Sentir, acreditar e compartilhar. A pós-verdade em tempos de guerras

Recentemente, me vi numa situação inusitada que me causou estresse e até um sentimento de culpa. Partilhei um vídeo feito com deepfake no close friends do Instagram. Alguns minutos depois do impulso, resolvi analisar melhor as imagens e notei que o vídeo havia sido feito com Inteligência Artificial e, no áudio, constavam informações de uma suposta pesquisa científica que, com alguns cliques, logo se descobre que não existe, tampouco a veracidade da informação que lá constava. Senti-me traída pelo perfil que publicou o vídeo, sobretudo por eu considerá-lo uma fonte de informação segura.

Na hora, pensei: se eu, que sou treinada para identificar conteúdos com informações falsas e tenho um olhar atento e crítico, caí numa armadilha vinda de um perfil de um veículo de comunicação supostamente sério, o que será que acontece com quem não tem o mesmo repertório que eu, nos caóticos grupos de WhatsApp?

A questão é que o impulso de partilhar o tal vídeo veio de uma emoção muito pessoal: meses atrás, recebi a notícia de que uma amiga havia falecido em decorrência do tipo de doença que o vídeo abordava. Ou seja, instantaneamente, aquele conteúdo acolhia a minha dor e, assim, tornou-se uma verdade a ponto de eu querer que outras pessoas acreditassem e, por isso, o partilhei.

O conceito de pós-verdade (post-truth) surge na filosofia contemporânea para explicar como a desonestidade e a mentira tornaram-se socialmente aceitas e como a verdade passou a ser relativizada em nome do conforto emocional. Na era da pós-verdade, somos condicionados a valorizar mais o que acolhe e respeita o que sentimos do que aquilo que, de fato, é real. Só o fato de nos tocar já é suficiente para acreditarmos mais do que em dados concretos.


Com isso, vivemos uma profunda crise de confiança, em que já não sabemos no que ou em quem confiar. E daí vem o maior e mais complexo risco: as emoções suprimem o debate racional, e tudo o que requer calma, escuta, análise e contexto perde-se num emaranhado de nós, numa vida digital cada vez mais saturada.

Vivemos em tempos em que a verdade, essa bússola civilizatória, parece ter sido sequestrada por algoritmos, renderizada em pixels e vendida em tempo real por um batalhão de pessoas e empresas que pouco se importam com as consequências de se publicar uma mentira. Entramos num terreno onde os fatos importam menos do que as emoções que provocam, e onde a credibilidade se constrói não pela veracidade, mas pela viralidade, instantaneidade e imediatismo.

Se antes a mentira precisava de um esforço para se sustentar, hoje ela é automatizada. Vídeos hiper-realistas gerados por Inteligência Artificial circulam como munição em guerras híbridas, confundindo a opinião pública, manipulando afetos, distorcendo narrativas e criando um exército de pessoas incapazes de pensar. É como se cada um escolhesse as verdades que lhes causam menos desconforto, em vez de confrontar a realidade, mesmo que as evidências estejam ali, escancaradas.

Na política, discursos que apelam ao medo ou ao orgulho nacional são frequentemente baseados em afirmações jogadas ao vento, mas emocionalmente poderosas. É o que vemos nos discursos anti-imigração, presentes nas últimas eleições portuguesa e norte-americana.

Ao mencionar números e fatos comprovadamente inverídicos, lideranças de extrema-direita inflamaram ainda mais os ânimos do cidadão comum, fortalecendo e ampliando discursos xenófobos que, no fim das contas, só acirram disputas ideológicas que distanciam as nações do próprio conceito de democracia. Não quero nem imaginar o quão complexo serão as eleições 2026 no Brasil…

No contexto geopolítico, em que assistimos dos nossos telefones diariamente ao genocídio de crianças palestinas, há quem acredite e defenda o discurso de que aquelas vidas nada importam. Nestes casos, a emoção é despertada não pelo fato de serem crianças em desespero, feridas e famintas, o que certamente me comove mais, e espero que a você também. Mas sim porque há, por trás, um discurso estruturado de que aquelas crianças “têm de morrer” para se combater um único inimigo.

Neste caso, o inimigo é constituído de várias “verdades”, que perpassam a compreensão de boa parte das pessoas aqui no Ocidente, por envolverem períodos históricos aos quais muitos sequer tiveram acesso nas aulas de História na escola. E, talvez por isso, há quem acredite que tudo começou em outubro de 2023.

Em uma guerra ou numa eleição, minutos de desinformação podem significar perdas irreparáveis. O problema não está só nas tecnologias, mas na estrutura de poder que as molda. Empresas que desenvolvem essas ferramentas de IA operam sob uma lógica de lucro e disputa por atenção. Governos, por sua vez, ora se omitem, ora se aproveitam.

Estamos vendo o nascimento de um novo complexo militar-informacional, em que vídeos falsos podem ser mais letais do que mísseis reais. Seja na Ucrânia, na Faixa de Gaza, no Sudão, em Israel, no Irã ou nos vídeos de 30 segundos que invadem nossos imaginários quotidianamente, o campo de batalha já não é territorial, mas sobre qual verdade será escrita na história da humanidade.

A pós-verdade redefine também a forma como pensamos o jornalismo. Não basta mais reportar os fatos; é preciso disputar a realidade. Checagem, curadoria, transparência e neutralidade, princípios básicos do jornalismo, tornam-se armas de resistência. Mas será suficiente?

Arrisco dizer que boa parte dos leitores dos jornais não acessa o link na bio do Instagram para tentar procurar a notícia na íntegra, abrir o link, ler e assimilar a informação, para então voltar aos comentários. Parte das pessoas baseia-se apenas na imagem e sequer lê a legenda. Não será a hora de o jornalismo repensar como apresenta as notícias no feed?

A pós-verdade, ao contrário do que se pensa, não é apenas sobre mentir. É sobre criar um ambiente em que a verdade se torna irrelevante. E isso, talvez, seja o maior risco para a democracia global: um mundo onde não importam as evidências dos fatos, mas o que cada um tem para si como verdade.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Pensamento do Dia

 


Futebol é regido por igualdade que falta na sociedade

Convidado pelos professores Carmen Rial e Fábio Machado Pinto, realizarei, gratificado, a conferência de abertura do Terceiro Colóquio Internacional INCT/Futebol. Saliento a coincidência do diálogo de pesquisadores do antigo “esporte bretão” no mesmo ano de uma Copa do Mundo de Clubes, no contexto de um espetáculo jurídico deprimente, em que se discutem culpabilidades causadas pelo rompimento de leis por golpistas. No STF discute-se a aplicação de leis por ministros e juristas, exato oposto da universal jurisprudência futebolística.

Na política, a lei tem espaço para anistia e burla. No futebol, a política é vencer seguindo as regras que legitimam vitória, empate ou derrota, porque valem para nós e — eis a novidade — para eles!

O futebol se mundializou pela capacidade de produzir igualdade democrática, ao lado da experiência de vitória e excelência em competições. Nada mais gratificante para sociedades colonizadas, marcadas pela autodepreciação, do que dar “um banho de bola” nos branquelos invencíveis. O roubo do futebol pelo Brasil e por outros povos periféricos é uma façanha revolucionária justamente porque não é definitiva e porque nega o determinismo.


Se as leis legitimavam a escravidão e sustentavam um sistema político com notável vocação para tirar vantagem de tudo, as do esporte e do futebol são universais. Valem para o campeão e para o lanterninha. Valem para os craques e para os “pernas de pau”. Essa é a grande lição do esporte em nossa sociedade elitista e aristocrática, marcada pela possibilidade de jogar nos dois times...

A aceitação de leis fixas torna o futebol um milagre para os tidos como “pobres” e para quem tem sofrido a permanente desonestidade dos governos. Vencer ou ganhar seguindo regras revela talento e trabalho, coisas raras na vida política. No futebol, não há como anular ou anistiar jogadores ou times desonestos e derrotados. Eis um contraste que, por si só, explica a paixão pelo futebol.

É essa substância democrática que atrai na esfera esportiva. Foi essa experiência com a liberdade e a igualdade que promoveu a forte reação de intelectuais que não suportavam mulheres torcendo livremente, ao lado da igualdade que associou brancos riquinhos a seus ex-escravos nos verdes campos da justiça social embutida no futebol!

Não tenho espaço para seguir, mas saliento que o futebol é hoje um tema acadêmico legítimo. Numa época em que ele, como o carnaval, era considerado o “ópio do povo” e assunto para reacionários, como Nélson Rodrigues, promovi o seu estudo no Museu Nacional. Ali, orientei Simoni Guedes e tive a satisfação de ler os ensaios sobre futebol de José Sérgio Leite Lopes, bem como do saudoso Afrânio Garcia, organizador de um pioneiro encontro para discuti-lo em Paris.

Recusando o reducionismo, examinei como o Brasil jogava futebol e como o futebol jogava o Brasil. Esse Brasil que, pelo menos no futebol, era obrigado a seguir as suas regras, sob pena de assassinar o jogo.

Aprofundei tal postura no livro “A bola corre mais que os homens”, publicado em 2006. Ensaio hoje vencido pela gloriosa fúria analítica de Antonio Risério em seu “Pelé: o negão planetário”. Um estudo importante porque, como o ensaio de Leite Lopes sobre Garrincha, concentra-se nos craques e introduz um campo burocratizado, o carisma. Aquele talento de “comer a bola” que os abençoados possuem. Donos desse dom — como, no Brasil, Ademir Menezes, Didi, Zico, Orlando, Nílton Santos, Garrincha ou Pelé — que representam o sumo do futebol em sua variante brasileira.

O imponderável na política

Na política há um fator incontrolável que não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o imponderável. Pode ocorrer a qualquer momento em qualquer lugar. Acidentes ou incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem na caixa das coisas imponderáveis.

Começo contando o caso do jumento no Piauí. Eleições de 1986, comício de encerramento de Freitas Neto, do antigo PFL, na Praça do Marquês. Desde a manhã os carros de som convidavam o povo para o monumental show de Elba Ramalho. Às 18h, praça lotada, a massa urrava:

— Queremos Elba, queremos Elba!

Os caminhões com os equipamentos de som só chegaram em cima da hora do comício. Começou a cair um toró. Pipocos e faíscas. Os cabos, em curto-circuito, queimaram. Comício sem som? Elba mostrou o contrato:

— Sem som não canto.

Sob insistente apelo do candidato, propôs cantar uma música. Arrumaram um banjo para acompanhá-la. Nem mesmo começara a cantar, passou a vociferar:

— Imbecis, ignorantes, não façam isso.

No meio da multidão, a cena constrangedora: alguns bêbados abriam a boca de um jumento, derramando nela uma garrafa de cachaça. Sob apupos, acabava o comício.

As pesquisas nos davam, às vésperas do dia das eleições – em 15 de novembro de 1986 – entre 3% e 5% a mais que o adversário. Garantia do Instituto Gallup, por meio de Carlos Matheus, seu diretor, estabelecido em São Paulo. “Fiz e refiz”, dizia ele. Vibramos. No dia da eleição, senti em Teresina um clima de velório. Acompanhei Freitas Neto às urnas. Pouco aclamado. Perdemos a campanha por 1%. Concluí que um evento infeliz contribuiu para nossa derrota. Um showmício, que acabou sendo um caso de reversão de expectativas. O caso foi contado de boca a boca.

Às vezes, em minhas palestras, surge a pergunta:

— Professor, não pode haver um imponderável na política?

Respondo:

— Pode, sim. Por exemplo, um jumento embriagado no Piauí.

O fato é que a imponderabilidade permeia a história brasileira. Quem imaginaria que um presidente, idolatrado pelo povo, viria a cometer suicídio? O suicídio de Getúlio Vargas é um dos mais emblemáticos da lista de casos imponderáveis de nossa história. Em 24 de agosto 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Vargas se matou com um tiro no coração, deixando uma carta-testamento na qual expressou suas razões. O evento teve grande impacto na política brasileira, levando a mudanças e reconfigurações no cenário político nacional.

A renúncia de Jânio Quadros, na tarde de 25 de agosto de 1961, foi outro ato surpreendente e inesperado que deixou a nação em choque. Conhecido por sua postura populista e seu discurso contra a corrupção, Jânio assumiu o cargo com grande expectativa, mas seu governo foi marcado por medidas controversas e por uma série de divergências com as Forças Armadas.

O Congresso Nacional aceitou rapidamente a renúncia, mas a situação política se tornou ainda mais turbulenta. Os ministros das Forças Armadas se opuseram à posse do vice-presidente João Goulart, alegando que ele não seria capaz de governar. Em resposta, uma mobilização popular, conhecida como Campanha da Legalidade, ocorreu em diversas cidades do Brasil, defendendo a posse de João Goulart. A renúncia de Jânio Quadros e a crise que se seguiu marcaram um momento crucial da história brasileira.

Outro evento que chocou o País ocorreu em 13 de agosto de 2014, quando um avião caiu em Santos, no meio da cidade. A população ficou chocada ao descobrir que dentre as vítimas estava Eduardo Campos, que havia sido governador de Pernambuco por duas vezes e, em 2014, era o candidato à presidência da República com a terceira maior intenção de voto do País.

O mais recente caso de imponderabilidade foi o atentado contra Jair Bolsonaro. Em 6 de setembro de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro sofreu um atentado durante um comício que promovia sua campanha eleitoral para a presidência do Brasil. Enquanto era carregado em meio a uma multidão de apoiadores, o deputado sofreu um golpe de faca na região do abdômen desferido por Adélio Bispo de Oliveira.

Ao todo, Bolsonaro realizou quatro cirurgias relacionadas aos danos causados no atentado, que tem sido usado para a transmissão de teorias conspiratórias, tanto por apoiadores quanto críticos de Bolsonaro, e até por ele mesmo. Apesar da facada e da abrupta mudança de rumos na campanha do candidato, que ficou impedido de ir às ruas e de comparecer a diversos eventos e debates, o ex-capitão foi o candidato mais votado no primeiro turno, em 7 de outubro de 2018, com 46,03% dos votos válidos, à frente de Fernando Haddad (PT) com 29,28% dos votos. Os dois disputaram o segundo turno em 28 de outubro, no qual Bolsonaro foi eleito presidente com 55,13% .

Em 30 de outubro de 2022, domingo, data do segundo turno do pleito, sob um clima tenso, repleto de expectativas e margem pequena para conceder a vitória a um dos dois candidatos representados por ideologias opostas, Lula venceu Bolsonaro com 2,1 milhões de votos de vantagem, alcançando votação recorde na eleição mais disputada da história do Brasil. De lá para cá, o País vivencia intenso ciclo de polarização política. E assim deverá continuar nos próximos tempos.

Sob essa moldura, resta torcer para que não sejamos surpreendidos com o Fator Imponderável, que, vez ou outra, costuma nos visitar.

Genocídio: dimensões e limites

Um dos termos mais utilizados atualmente, não apenas no cenário jurídico, mas também nos debates em curso na esfera das políticas ambiental, cultural e internacional, além da sociologia, é a palavra genocídio, criada pelo jurista Raphael Lemkin quando publicou sua obra Axis Rule in Occupied Europe (1944), a partir da junção dos termos grego “genos” (clã, tribo, grupo) e latino “cides” (matar, destruir).

Lemkin, de formação jurídica e linguística, buscava criar uma categoria jurídico-penal para preencher uma lacuna injustificável nas leis internacionais (e também nacionais), propondo assim a tipificação de uma conduta que, no dizer de Winston Churchill, constituía “um crime sem nome”, ao se referir aos primeiros dias do Holocausto na Europa.

Mais do que isso, os estudos sobre os trabalhos desenvolvidos e, ainda que não publicados, dos documentos deixados por Lemkin, que morreu em 28 de agosto de 1959, na cidade de Nova York, onde passou a residir após fugir da Europa tomada pelo nazifascismo (Lemkin era judeu), demonstram que foi objetivo do jurista criar um termo forte e marcante, que chamasse a atenção pela gravidade do delito (a respeito, a obra de Samantha Power intitulada Genocídio – A Retórica Americana em Questão, pela Editora Companhia das Letras, 2004).

Assim, o crime de genocídio surge de uma concepção jurídica inserida na seara do Direito Penal e, ainda mais especificamente, do Direito Penal Internacional e atualmente projetada pela Convenção Para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, de 9 de dezembro de 1948 e pelo Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, de 1998, além de previsto por leis criminais domésticas, como a lei brasileira nº 2.889, de 1º de outubro de 1956. É essa sua origem e a base a partir da qual foram delineados pelo jurista os aspectos estruturais do tipo penal, seus elementos objetivo e subjetivo (mens rea).


Lemkin, a partir de sua percepção privilegiada sobre as intersecções que caracterizam o extermínio de um povo, propôs uma versão mais ampla do que aquela afinal abraçada pelo Direito Penal Internacional a partir das normas acima mencionadas, uma vez que o período pós-Segunda Guerra Mundial foi marcado pelas determinações políticas impostas pelas duas superpotências que, à época, despontaram: a União Soviética Stalinista e os Estados Unidos da América, sob Harry S. Truman. A visão do jurista não cabia nas novas equações geopolíticas dominantes. Por força de tal contexto, as ideias de genocídios causados por motivações políticas ou, ainda, o etnocídio (ou genocídio cultural), foram excluídos.

Para Raphael Lemkin: o crime de genocídio apresenta uma acepção mais ampla, isto é, não significa estritamente a destruição imediata de uma nação, exceto quando realizado por meio do assassinato em massa de todos os membros de um país. Em vez disso, deve ser entendido como um plano coordenado de diferentes ações cujo objetivo é a destruição dos fundamentos essenciais da vida de grupos de cidadãos, com o objetivo de aniquilar os próprios grupos1.

Aliás, o jurista concebeu em sua clássica obra distintas técnicas para consecução de um genocídio, ressaltando que este crime, na verdade, representa um ataque concentrado e coordenado contra todos os elementos do “nacionalismo” (ao nosso ver o termo “nacionalismo” deve ser aqui interpretado como os referenciais que compõem uma nação, tais como língua, cultura, costumes, crença, composição étnico-racial, bases relacionais etc.).

Assim, cuidamos, pela visão ‘lemkiana’, de elementos objetivos que vão além da existência física do grupo Aliás, o próprio pensador polonês alertou no sentido da visão restrita e limitada sobre o crime de genocídio ou do etnocídio circunscrita ao imediato extermínio de uma nação, uma vez que a figura penal proposta também indicaria o plano coordenado de distintas ações em direção à destruição das bases essenciais da vida de grupos nacionais, visando a sua aniquilação.

Sobre tal proposição, Martin Shaw, Professor Pesquisador no Institut Barcelona d’Estudis Internacionals (IBEI) e Professor em Relações Internacionais e Direitos Humanos na Universidade de Roehampton, defende que um estudo sério sobre o crime de genocídio impõe a recuperação às lições de Raphael Lemkin, uma vez que muitos autores posteriores atribuem à Convenção de 1948 o conceito de genocídio, afastando-se das proposições lemkianas mais amplas, que o concebiam não apenas como uma conduta fruto da violência organizada mas, ainda, também como a destruição econômica e a perseguição; a ameaça à existência de uma coletividade e à própria ordem social.

Lemkin defendeu, originariamente, que o genocídio implica no conjunto de ações encetadas com o escopo de eliminar, por meio de um planejamento coordenado, as bases essenciais da vida de grupos nacionais. Seria, assim, um ataque voltado às searas física, econômica, biológica, política, social, cultural (etnocídio), religiosa e, ainda, à moralidade de um povo.

Para Shaw, o crime de genocídio constitui exatamente um processo exaustivo pelo qual se ataca e se destrói de forma ampla o modo de vida e as instituições do grupo humano oprimido. Logo, uma perspectiva mais estendida, próxima aos cânones lemkianos.

Trata-se da corrente “sociológica” do genocídio que defende certa reaproximação interpretativa com o modelo original proposto por Raphael Lemkin em 1944, não observado, por razões especialmente políticas, pelo Direito Internacional quando da aprovação da Convenção Para Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio, de 1948, mais restrita em sua concepção e definição de genocídio, assim como também pelo Estatuto de Roma, de 1998.

Nomes como Leo Kuper, o genocide scholar precursor; o próprio Martin Shaw; Daniel Feierstein, Dirk Moses, Helen Fein, Vahakn Dadrian, Tony Barta, Adam Jones dentre outros, inclusive autores e autoras brasileiros/as, como Heitor de Andrade Carvalho Loureiro, Mariana Boujikian e Nathalia Hovsepian (genocide scholars da nova geração e especialistas na temática do genocídio do povo armênio), representam parte da mencionada visão mais ampla e sociológica do genocídio.

A jurisprudência internacional vem também alargando tal conceito, porém com os cuidados necessários para não violar os princípios do Direito Penal, especialmente o Princípio da Legalidade. Afinal, o Direito Penal é, historicamente, instrumento ao qual recorrem regimes autoritários como arma de perseguição política diante de tipos penais abertos. A via assim percorrida pelas Cortes internacionais vem consagrando novos referenciais interpretativos para o reconhecimento do crime de genocídio. A própria ONU, na sua origem, propunha uma tipificação mais ampla para a caracterização do crime.

Assim, no ano de 1946, as Nações Unidas aprovaram Res. n° 96/1946 pela qual estabelecia a necessidade de que os Estados-membros aprovassem uma convenção para prevenir e reprimir o crime de genocídio. Para tanto, definiu em seu texto tal crime internacional como “a negação do direito à existência de grupos humanos inteiros, que impõe perdas no plano cultural e de outras contribuições dos grupos vitimados, cometido pela destruição total ou parcial de grupos raciais, religiosos, políticos e outros, além de quanto aos seus autores, cúmplices, sejam eles cometidos por agentes públicos, privados ou por estadistas”.

Como se nota, a proposição das Nações Unidas em 1946 para a tipificação do crime de genocídio era ampla, sugerindo a inserção das perdas no plano cultural, além da caracterização do crime por razões políticas “e outros”, logo, um tipo legal consideravelmente mais aberto, menos restrito.

Entretanto, em 9 de dezembro de 1948, a versão final o crime de genocídio aprovada restringiu demasiadamente a tipificação do genocídio, sob os seguintes termos: “entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional étnico, racial ou religioso, como tal: matar membros do grupo; causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submeter intencionalmente o grupo a condição de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio de grupo; efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”.

O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (1998) manteve as restrições acima comentadas ao definir o crime de genocídio em seu artigo 6º. E, como se nota, ao menos dois fatores restringem a incidência de tais normas internacionais: a) não foram previstas as hipóteses de genocídio praticado por razões políticas e culturais; e, b) como elemento subjetivo, somente pode ser reconhecido o crime de genocídio quando provada a presença do chamado dolo específico, ou seja, a demonstração inequívoca de que o único escopo do perpetrador é erradicar a existência coletiva de um grupo humano.

Em relação ao primeiro ponto, as críticas afirmam, em síntese, que a definição dos critérios “nacionalidade”, “religião”, “raça” e “etnia” como únicos fatores para caracterização do crime de genocídio, hierarquiza ou categoriza os seres-humanos. Assim, por exemplo, por qual motivo a orientação sexual não poderia ser inserida no citado rol? Recorde-se que a população LGBTQIAP+, uma das mais violentadas em seus direitos em diversos países e sob distintos regimes políticos e culturas, foi também perseguida, enclausurada e assassinada nos campos de concentração nazistas. 

A exigência de prova da intenção constitui o principal foco das críticas quanto à suposta ineficácia das normas destinadas à prevenção e repressão do genocídio. Afinal, como demonstrar com segurança aquilo que se passa na mente do perpetrador? A Convenção de 1948, ao estabelecer a obrigatoriedade da prova específica da intenção em se cometer o extermínio (dolo específico), elemento subjetivo inspirado na experiência histórica do Holocausto, demasiadamente documentado pelos próprios nazistas perpetradores, tornou-se norma de difícil aplicabilidade. “Provar” perante uma Corte Internacional aspectos de ordem psicológica, como a intenção específica do extermínio de um grupo humano, é normalmente uma tarefa muito difícil.

Normalmente os debates judiciais ocorrem sobre a necessidade da prova do dolo específico, como ocorreu no caso Al Bashir (The Prosecutor v. Omar Hassan Ahmad Al Bashir) no âmbito do Tribunal Penal Internacional.

A jurisprudência dos tribunais internacionais vem estabelecendo, pouco a pouco, a possibilidade da prova indireta da intenção em se cometer o genocídio por meio da consideração a alguns elementos circunstanciais: a violência extrema; a extensão do número de vítimas; a sistematização das ações e dinâmicas e a escala sistemática dos crimes, o padrão de violência seletiva etc.

A prova indireta da intenção genocida, quando não possível a prova direta do dolo, já foi reconhecida pelo Tribunal Criminal Internacional Para Ruanda – ICTR (Anzinga. Nahimara et al. Appeal Judgment, paragraph 524, dentre outros), assim como pela Corte Internacional de Justiça, no caso Croácia vs. Sérvia, em voto vencido do Juiz brasileiro Antonio Augusto Cançado Trindade.

Outros casos conhecidos também reconheceram a possibilidade da prova indireta da intenção genocida, como o caso Prosecutor v. Krstić no Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia. (ITCY).

De fato, trata-se de um aspecto dentre os que mais geram debates entre os estudiosos do genocídio. Ainda que se possa criticar as restrições consagradas pelo Direito Internacional, é importante que sejam considerados, de outro lado, os seguintes fatores: o genocídio é uma categoria jurídica; foi concebido como um “crime” e, portanto, ainda que seja atualmente um instituto presente nas discussões entre sociólogos, historiadores, antropólogos etc., quando se trata de casos concretos que chegam aos tribunais, o desafio maior gira em torno da prova da presença dos requisitos legais impostos pelo tipo penal vigente.

O alargamento dos elementos que tipificam o genocídio, de outro lado, podem gerar riscos aos princípios da legalidade, da anterioridade da lei penal e ao princípio da ampla defesa com todos os meios a ela inerentes. A ampliação na interpretação dos seus elementos caracterizadores requer cuidados, como já destacado acima, sob pena de comprometer o princípio do direito ao julgamento justo cunhado pelos julgamentos de Nuremberg.

Não é raro, inclusive, que contextos próprios de crimes de guerra e crimes contra a humanidade sejam equivocadamente interpretados como genocídio. Contudo, aqueles não exigem a prova do dolo específico. Aliás, para William Schabas, um dos grandes especialistas atualmente reconhecido e Professor da Middlesex University London, o crime contra a humanidade é a versão expandida do crime de genocídio.

Os requisitos atualmente necessários para a sua caracterização geram dificuldades quando considerados os genocídios cujas dinâmicas não correspondem exatamente aos modelos considerados pelo Direito Internacional vigente. É o caso do extermínio dos povos indígenas nas Américas, inclusive no Brasil. Os processos e os veículos desenvolvidos na eliminação das culturas autóctones não necessariamente correspondem, em alguns aspectos, à visão convencional internacional (por exemplo, ONU e TPI), ainda que eliminem a existência das bases essenciais para a existência de tais povos.

Seria, assim, importante, que o crime de genocídio tivesse por seu elemento tipificador também os aspectos essenciais e relacionais de suas culturas. O contexto cosmológico dos povos indígenas e as referências, que, por vezes, condicionam suas existências e identidades, devem ser considerados para que se possa identificar o cometimento do genocídio.

Se o genocídio destrói os corpos, o etnocídio elimina o espírito livre; ambos condicionam a existência coletiva. No genocídio o extermínio é meio; o fim é erradicar a identidade.

Povos sem sorte

As pessoas podem sentir pena de um homem que está a passar por tempos difíceis, mas quando um país inteiro é pobre, o resto do mundo assume que todos os seus cidadãos são desmiolados, preguiçosos, sujos, tolos e desajeitados. Em vez de pena, provocam o riso. É tudo uma anedota: a sua cultura, os seus costumes, as suas práticas. Com o tempo o resto do mundo pode, parte dele, começar a ficar envergonhado por ter pensado dessa maneira, e quando olham em volta e vêem os imigrantes desse pobre país a esfregar o chão e a fazerem os trabalhos pior pagos, eles naturalmente preocupam-se sobre o que poderia acontecer se um dia estes trabalhadores se insurgissem contra eles. Assim, para manter as aparências agradáveis, começam a interessar-se pela cultura dos imigrantes e às vezes até fingem que pensam neles como se fossem seus iguais.

Orhan Pamuk

O impacto social da mineração de bitcoins nos EUA

No pacato vilarejo de Dresden, na margem ocidental do Lago Seneca, no estado de Nova York, o apito de incêndio soa todos os dias, ao meio-dia. Os cerca de 300 moradores não ligam: é um som familiar que já faz parte do cotidiano do lugar.

Mas há um barulho que alguns deles não conseguem mais aguentar: o zumbido constante da usina Greenidge Generation, uma antiga usina a carvão que hoje é uma usina de energia de pico movida a gás natural e que fornece eletricidade para Nova York durante os períodos de pico, ou seja, de alta demanda. Desde 2019, ela também alimenta uma fazenda de mineração de bitcoins que consome muita energia.

Os moradores dizem que, em alguns dias, o som se parece com o de uma geladeira zumbindo ao fundo, mas, quando o vento muda de direção, lembra mais um rugido. Winton Buddington, que tem uma casa em Dresden, disse que a vila era uma comunidade agradável e tranquila até 2017, quando a empresa Atlas Holdings comprou a propriedade.

A enfermeira aposentada Beth Cain afirma que pesquisas já mostraram que um ruído constante afeta as pessoas e cria estresse. "É como ter zumbido no ouvido [tinnitus]." E o som desagradável nem é a única preocupação dos moradores em relação à usina, que também despeja água quente no lago e emite dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa.

Muitos na comunidade, incluindo Yvonne Taylor, vice-presidente do grupo de defesa ambiental Guardiões do Lago Seneca, temem que a usina Greenidge represente uma ameaça à região, onde vinícolas e fazendas menonitas são grandes atrações turísticas. "A produção de vinho e o turismo são nosso motor econômico, e todos esses empregos dependem muito de ar e água limpos", diz Taylor.


A mineração de criptomoedas em larga escala, como em Dresden, usa milhares de computadores e consome enormes quantidades de energia. Em 2021, a planta de Greenidge gerava cerca de 44 megawatts para a mineração de bitcoins, o que, dependendo do nível de consumo, é suficiente para abastecer até 40 mil residências.

Muita energia também gera muitas emissões. Com os dados da própria Greenidge, o grupo de direito ambiental Earthjustice calculou que a planta emitiu quase 800 mil toneladas de dióxido de carbono e equivalentes de CO2 em 2023, o que equivale às emissões de mais de 170 mil automóveis.

De acordo com a agência Energy Information Administration (EIA), que coleta dados do setor de energia, 137 plantas de criptomineração estavam em operação nos Estados Unidos no início de 2024. Não há números mais atuais disponíveis, mas é de se esperar que, sob o governo de um autoproclamado "presidente das criptomoedas", as empresas de bitcoins enfrentem menos barreiras na busca por novos locais de mineração.

"Trump facilitará a vida das grandes mineradoras de bitcoins nos EUA, especialmente no oeste do Texas", diz o professor de filosofia Troy Cross, do think-tank Bitcoin Policy Institute. O Texas é um dos principais produtores de carvão e gás natural e também está entre os principais estados em geração de energia solar e eólica nos EUA.

O presidente já formou um grupo de trabalho para elaborar regulamentações a favor das criptomoedas e anunciou uma reserva nacional de ativos digitais. Numa reversão drástica de sua posição anterior de que bitcoin "não é dinheiro", mas "fraude", ele até lançou sua própria moeda meme.

Taylor diz que as fazendas de mineração de bitcoin estão "se espalhando pelo país como um câncer" e que "corporações de criptomoedas espertas" estão aparecendo em comunidades rurais carentes com promessas de geração de empregos e lucros.

Em Dresden, porém, a fazenda de mineração de bitcoins de Greenidge empregava 48 pessoas em tempo integral em 2022, ou quase o mesmo número de um restaurante do McDonald's, o que mostra que essas promessas estão longe da realidade, argumenta Taylor.

A especialista Margot Paez, do Bitcoin Policy Institute, afirma que a decisão da Greenidge de colocar sua fazenda de mineração de bitcoins junto com uma usina de gás natural é uma ideia "terrível". Mas ela acrescenta que a planta é "só uma maçã podre", sugerindo que os mineradores de bitcoin deveriam recorrer a energias renováveis ou apoiar o balanço energético da rede elétrica.

O estado de Nova York, numa avaliação preliminar de impacto ambiental das 11 instalações de criptomoedas dentro de suas fronteiras, afirmou que o consumo de energia dessas plantas pode dificultar o cumprimento de suas metas de transição para energias renováveis.

Outra preocupação de moradores e ambientalistas é consumo de água pela usina da Greenidge. Evitar o superaquecimento dos computadores de mineração de criptomoedas requer enormes quantidades de água. A instalação tem permissão para extrair até 525 milhões de litros por dia do Lago Seneca e despejar até 507 milhões de litros.

No entanto, como é usada para resfriamento, a água devolvida ao lago é muito mais quente do que a retirada. A temperatura varia entre 30 graus no inverno e 42 graus no verão, o que, segundo moradores, torna o lago quente demais para a diversão dos banhistas.

Os moradores também temem que a água quente possa afetar a vida aquática e desencadear florações de algas nocivas. Em 2024, as autoridades ambientais estaduais registraram 377 florações de algas no lago. Em 2023 haviam sido apenas 50. A exposição a essas florações pode causar erupções cutâneas, tosse, dor de garganta, dor de estômago e vômitos.

Os moradores têm participado de ações judiciais. Até o momento, elas não deram em nada. Eles também fazem parte de uma rede de especialistas e ativistas de comunidades afetadas em 17 estados que entrou em contato com o grupo de trabalho de criptomoedas de Trump para explicar os impactos das políticas de criptomoedas em áreas rurais. Eles não receberam nenhuma resposta.
Ruim para o turismo

Entre os moradores de Dresden que alugam suas propriedades para visitantes que vêm conhecer o lago, há temores de que a proximidade com a usina de Greenidge prejudique os aluguéis para turistas.

E também na cidade vizinha de Geneva, a 16 quilômetros de Dresden, os moradores estão preocupados com os potenciais impacto da mineração de bitcoin. O proprietário da vinícola Billsboro, Vinny Aliperti, diz que a usina ainda não afetou seus negócios – mas ele acredita que afetará. "Lagos limpos são uma parte importante do agroturismo. Eles são a razão pela qual as pessoas visitam a área e as vinícolas", comenta.

A Greenidge, que no seu site se descreve como "líder ambiental em geração de energia e mineração de bitcoins", não respondeu aos contatos.

A administração da cidade de Torrey, que governa a vila de Dresden, disse que a usina cumpriu todos os requisitos, incluindo um estudo independente de ruído. "A usina de Greenidge tem sido uma parte importante da cidade de Torrey desde a década de 1930, permanecendo assim até hoje como uma valiosa empregadora e parceira da comunidade."

A empresa fez doações ao corpo de bombeiros voluntários de Dresden e ao parque infantil da vila, além de apoiar empresas da região durante a pandemia de covid-19.

"Eles fizeram essas coisas, mas não é algo que consideramos que valha a pena, considerando a poluição e o impacto que estão causando no meio ambiente", diz Buddington.
Gaea Katreena Cabico

Cúpula de calor

A obsessão dos britânicos com o tempo provavelmente antecede em muito as discussões sobre mudanças climáticas — é quase um passatempo nacional. Ao longo dos anos trabalhando com eles, percebi que falar sobre o clima funciona como um “aquecimento” antes de qualquer reunião.

Mas o que antes era apenas small talk virou assunto sério no verão de 2022, quando o Reino Unido registrou, pela primeira vez, temperaturas acima de 40 °C. Agora, em 2025, o país se prepara para reviver o drama.

A nova onda de calor chegou não só à Inglaterra, mas também à Europa Ocidental e aos Estados Unidos, onde cerca de 150 milhões de pessoas enfrentam temperaturas extremas neste momento.

Na Itália, cidades como Nápoles e Palermo se preparam para temperaturas de até 39 °C. Na Sicília, foram impostas restrições ao trabalho ao ar livre nos horários mais quentes do dia, devido ao risco à saúde.


Tudo indica que, entre os eventos climáticos extremos, as ondas de calor são os que os cientistas conseguem relacionar de forma mais consistente às mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis. À medida que o planeta aquece, a probabilidade de ocorrências de calor extremo cresce de maneira significativa.

Hoje, essas ondas de calor já acontecem em um cenário de aquecimento global de 1,2 °C, com a perspectiva de eventos ainda mais severos nas próximas décadas, à medida que as médias globais continuam subindo. O prognóstico sombrio tem sido pauta constante na mídia internacional.

Fredi Otto, climatologista que lidera o projeto World Weather Attribution, não hesita ao classificar as ondas de calor como verdadeiras “assassinas silenciosas”. Segundo dados do Programa Copernicus, a mortalidade relacionada ao calor aumentou 30% nos últimos 20 anos na Europa.

Vale lembrar que em julho de 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou, pela primeira vez na história, a crise climática e os eventos extremos como emergências de saúde pública.

A argentina Celeste Saulo, secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, afirmou ontem: “Precisamos aprender a viver com o calor extremo.” Ela sabe, assim como os cientistas, que a tendência é de piora se as mudanças climáticas não forem contidas. E a mensagem é clara: a única forma real de frear o aquecimento global é reduzir as emissões de gases de efeito estufa em todo o mundo. Provavelmente, o maior desafio que humanidade já enfrentou.