Algumas décadas atrás, em um passado recente, muitos pensadores apostavam que o mundo seguiria uma trajetória cada vez mais secular, com menos espaço para a religião nos rumos da humanidade. Mas a história, quem diria, testemunhou um plot-twist: na atualidade, as autoridades de países democráticos resgataram símbolos sagrados para fortalecer sua capacidade de exercer a liderança política. Levou um susto quem imaginava que a imagem do “direito divino dos reis” repousava nas páginas dos livros sobre a Idade Média. A ideia ganhou nova roupagem e hoje veste terno e gravata, nas figuras de presidentes ungidos por Deus, como Donaldo Trump e Jair Bolsonaro, vistos por muitos eleitores como representantes da vontade divina na Terra.
A onda conservadora e fundamentalista, no Brasil e no mundo, de alguma maneira, aponta para uma crise preocupante de legitimidade do Estado moderno e democrático. É como se muitos parassem de acreditar em suas promessas civilizatórias e em sua capacidade de manter a ordem no mundo. Para não se perderem, como boia de salvação, eles acabaram se agarrando nas instituições tradicionais, que existem há milênios, como família, mercado, propriedade privada e religião.
A vida em sociedade, assim como um jogo, depende de regras para funcionar. Se não fossem as regras, o jogo e a vida correriam o risco de perderem o sentido, já que seus participantes ficariam desorientados, sem saber sequer seus objetivos e razões para agir. Por isso a fragilização da estrutura normativa de uma sociedade é facilmente associada ao terror. É um dos nossos medos mais profundos. A desordem impede a vida em sociedade porque a esvazia de sentido. Os grandes tiranos costumam se fortalecer quando o caos está à espreita. Eles se vendem como solução para evitar a ameaça, identificam bodes expiatórios a serem dizimados e assim forjam sua autoridade.
Nas cidades brasileiras, o surgimento de justiceiros, grupos de extermínio, esquadrões da morte, milícias, a violência policial e até mesmo das facções, surgiram como forma de lidar com a ameaça de desordem. Receberam apoio popular e nunca deixaram de existir porque são associadas à produção de obediência em uma sociedade sem regras. A violência pode ser vista como positiva desde que voltada para evitar ou interromper o caos, usada como instrumento de produção de ordem. Muitos preferem conviver em um bairro governado pelas regras previsíveis de assassinos brutais do que se sentirem permanentemente ameaçados pela imprevisibilidade dos roubos. Enquanto o assassino mata bodes expiatórios, como os “bandidos”, causando alívio entre os que estão com medo, os roubos são aleatórios e viver sob a ameaça dos ladrões torna a vida insuportável.
A segunda eleição de Trump, a popularidade do bolsonarismo, o aparecimento de políticos brutos em todos os cantos do mundo, e até mesmo a força de Peixão, um traficante-pastor que exerce a autoridade em cinco favelas no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, acontecem porque eles são vistos como fiadores de uma ordem que está desmoronando. Estão dispostos a matar e ir para a guerra para garantir a ordem de seus mundos. É melhor garantir a ordem possível do que viver sem conseguir programar as ações cotidianas mais básicas e não poder sonhar com o futuro.
Diante do ceticismo em relação ao Estado moderno, racional e legal, valores como os dos Direitos Humanos, que depois da Segunda Guerra orientaram a formação dos regimes liberais e democráticos, também caíram em descrédito. Seus defensores são acusados de serem tolerantes e condescendentes com as migrações e com o avanço do crime. Ao lutarem pela garantia dos direitos individuais, facilitam a “contaminação cultural” dos ocidentais por credos radicais e favorecem a ação dos bandidos contra os “cidadãos de bem”. Ganham popularidade, por outro lado, os políticos que defendem o fechamento das fronteiras, a construção de muros e de prisões, com penas cada vez mais longas, para tirar do convívio as pessoas diferentes, consideradas ameaças potenciais à ordem vigente, e até mesmo o extermínio dos mais perigosos.
A ordem bolsonarista resgata no Brasil sobretudo os valores da sociedade patriarcal, que sobreviveu em torno do mercado e das famílias, comandada por homens brutos, na base da fé, do fuzil e do empreendedorismo. Renasce com a crise da política e com a crítica à modernidade. Favorece, assim, atividades como o garimpo, a grilagem de terra, o desmatamento, a jogatina e as milícias, todas associadas ao espírito empreendedor e guerreiro de homens em busca de enriquecer para vencer. Esse empreendedorismo ilegal se beneficia diante das infinitas e irrastreáveis possibilidades financeiras para lavagem do capital do crime. Do outro lado, as regulações ambientais, financeiras, o controle sobre a letalidade policial, o acompanhamento do dinheiro virtual por meio da Receita Federal, entre outras ações esperadas de uma burocracia moderna, são atacadas e demonizadas por sabotarem a disposição desses homens que se sacrificam para vencer. A ordem do mercado, mesmo ilegal, deve ser preservada para garantir os lucros, enquanto a ordem racional do Estado deve ser obstruída.
Já o tráfico de drogas segue como um inimigo consensual, porque comercializa uma mercadoria que todos temem, associada à loucura e à desordem, à fuga do mundo e da vida em sociedade. Desde que diferentes tipos de drogas passaram a ser amplamente consumidas e celebradas pela cultura urbana e hedonista contemporânea, passaram também a ser vistas como atalho para a anomia. Para lidar com o problema, os políticos declararam guerra contra os traficantes, como se pudessem tirar as substâncias das ruas. Em vez disso, promoveram o terror e a desordem nas favelas e nas cidades. Apesar dos efeitos colaterais perversos dessas medidas irracionais, o debate sobre o tema seguiu interditado, tamanho o medo que desperta. E o dinheiro do tráfico começou a financiar outras atividades ilegais e até formais, entrando na economia e na política.
O tema da ordem e da desordem, nesse sentido, é fundamental para compreender os ânimos políticos atuais, assim como o papel da religião e da violência. Muitas vezes, atiça mais a emoção do que a razão. Numa sociedade em transição profunda, em que estão mudando as formas de trabalho, de família e os papéis de gênero, muitos preferem se agarrar à tradição. A modernidade urbana das grandes cidades, a mistura de povos, a tolerância às diversas orientações sexuais, o protagonismo feminino, tudo passa a ser visto como sinônimo da anomia, o que deixa todos apavorados. Alguns grupos passam a ser responsabilizados pelo caos, como os comunistas, ateus e feministas, dando nome e sentido para a luta.
Ficam, contudo, diversas perguntas no ar: como resgatar a credibilidade do Estado moderno e das políticas públicas? Vivemos um retrocesso civilizatório e caminharemos ribanceira abaixo? Como resgatar a capacidade de produzir uma ordem racional e coletiva? Religião produz paz ou violência? Eu não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas. Mas para entender a política contemporânea, por mais estranho que possa parecer, temos que voltar aos estudos de religião e de violência.
Bruno Paes Manso
A Universidade Johns Hopkins, dos EUA, acaba de publicar um estudo segundo o qual o Brasil poderá ser um dos quatro países do mundo que, em 2050, estarão na liderança da transição tecnológica global necessária para combater o aquecimento global. O primeiro a publicar uma matéria sobre o estudo no Brasil foi o jornal Valor Econômico.
De acordo com o estudo, são sete os setores nos quais o Brasil tem vantagens estratégicas globais que serão decisivas para a transição energética: minerais estratégicos, produção de baterias, veículos elétricos híbridos (que também usam biocombustíveis), combustíveis sustentáveis de aviação (conhecidos pela sigla SAF), fabricação de turbinas eólicas e produção de produtos verdes, como aço de baixo carbono e fertilizantes de baixo carbono.

As grandes diferenças entre o Brasil e os muitos outros países em condições semelhantes no Oriente Médio, África ou Ásia são o grande mercado interno e a base industrial já existente – por exemplo na comparação com outras grandes economias, como a Índia.
A questão é se o Brasil vai aproveitar essa chance.
Porque, em primeiro lugar, o vento global está soprando contra qualquer iniciativa de adaptação à mudança climática. O governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, considera a mudança climática uma besteira, e retirou a maior economia do mundo de todos os compromissos voluntários de proteção climática.
Partes da economia americana, como alguns bancos e empresas, já seguiram o exemplo e abandonaram as regras da governança ambiental, social e corporativa (ESG), como são chamados os padrões, regras e práticas que obrigam uma empresa a operar de forma socialmente responsável e sustentável.
No Brasil, é improvável que as coisas sejam diferentes se houver um governo conservador de direita a partir de 2027.
E também o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não segue um conceito claro de sustentabilidade: em vez de se concentrar totalmente na expansão da cadeia de valor de baterias, desde a mineração das terras raras até a produção de cátodos para baterias, por exemplo, Lula quer agora permitir que a Petrobras produza petróleo no litoral norte do Brasil. Em tempos do "Drill, baby, drill!" de Trump, é provável que as críticas internacionais sejam bem menores.
Provavelmente vai acontecer o que sempre acontece no caso do Brasil: o país não usará suas vantagens e vai desperdiçar mais uma chance. Vai produzir um pouco de energia verde, integrar um pouco de energia sustentável em sua cadeia de valor, mas, ao mesmo tempo, produzir petróleo, operar usinas térmicas e investir numa refinaria para produtos petroquímicos – tudo, claro, a elevados custos, devido à má administração, corrupção e interesses políticos.
"Desenvolvemos nossa indústria tardiamente, perdemos em grande parte a revolução da TI – todas as vezes, o cavalo encilhado passou por nós a galope", comentou comigo, anos atrás, o bioquímico e gestor de fundos Fernando Reinach. Estávamos falando então sobre a posição de liderança global do Brasil em energias renováveis. Embora o Brasil não tenha perdido essa posição de liderança, ele ainda não alcançou de fato todo o seu potencial.
Essa história pode se repetir na transição energética para a mudança climática.
O plano de Donald Trump para os EUA "assumirem" e "serem donos" de Gaza, reassentando sua população no processo, não vai acontecer. Ele requer a cooperação dos estados árabes que o rejeitaram.
Eles incluem Jordânia e Egito — países que Trump quer acolher os palestinos de Gaza — e Arábia Saudita, que deve pagar a conta.
Os aliados ocidentais dos EUA e de Israel também são contra a ideia.
Alguns — talvez muitos — palestinos em Gaza poderiam ficar tentados a sair se tivessem a oportunidade.
Mas mesmo que um milhão saísse, cerca de 1,2 milhão de outros ainda estariam lá.
Presumivelmente, os Estados Unidos — os novos donos da "Riviera do Oriente Médio" de Trump — teriam que usar a força para removê-los.

Depois da intervenção catastrófica dos Estados Unidos no Iraque em 2003, isso seria profundamente impopular nos EUA.
Seria o fim definitivo de qualquer esperança remanescente de que uma solução de dois estados fosse possível. Essa é a aspiração de que um conflito com mais de um século pudesse ser encerrado com o estabelecimento de uma Palestina independente ao lado de Israel.
O governo Netanyahu é totalmente contra a ideia e, ao longo de anos de negociações de paz fracassadas, "dois estados para dois povos" se tornou um slogan vazio.
Mas tem sido um elemento central da política externa dos EUA desde o início da década de 1990.
O plano de Trump também violaria o direito internacional.
As já surradas afirmações da América de que acredita em uma ordem internacional baseada em regras se dissolveriam. As ambições territoriais da Rússia na Ucrânia e da China em Taiwan seriam turbinadas.
Por que se preocupar com tudo isso se não está prestes a acontecer — pelo menos não da maneira que Trump anunciou em Washington, observado por um sorridente e claramente encantado Benjamin Netanyahu?
A resposta é que os comentários de Trump, por mais absurdos que sejam, terão consequências.
Ele é o presidente dos Estados Unidos, o homem mais poderoso do mundo — não mais um apresentador de reality show e um aspirante político tentando ganhar as manchetes.
A curto prazo, a interrupção causada por seu anúncio impressionante pode enfraquecer o frágil cessar-fogo em Gaza. Uma fonte árabe sênior me disse que isso pode ser seu "dobre de finados".
A ausência de um plano para a governança futura de Gaza já é uma falha no acordo.
Agora, Trump providenciou uma, e mesmo que isso não aconteça, isso repercutirá profundamente nas mentes de palestinos e israelenses.
Ela alimentará os planos e sonhos de extremistas judeus ultranacionalistas que acreditam que toda a terra entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, e talvez além, é uma possessão judaica dada por Deus.
Seus líderes são parte do governo de Netanyahu e o mantêm no poder - e eles estão encantados. Eles querem que a guerra de Gaza seja retomada com o objetivo de longo prazo de remover os palestinos e substituí-los por judeus.
O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, disse que Trump havia fornecido a resposta para o futuro de Gaza após os ataques de 7 de outubro.
Sua declaração dizia que "quem cometeu o massacre mais terrível em nossa terra vai se ver perdendo sua terra para sempre. Agora agiremos para finalmente enterrar, com a ajuda de Deus, a perigosa ideia de um estado palestino."
Líderes da oposição centrista em Israel foram menos efusivos, talvez temendo problemas futuros, mas ofereceram uma recepção educada ao plano.
O Hamas e outros grupos armados palestinos podem sentir a necessidade de responder a Trump com algum tipo de demonstração de força contra Israel.
Para os palestinos, o conflito com Israel é motivado pela desapropriação e pela memória do que eles chamam de al-Nakba, "a catástrofe". Esse foi o êxodo dos palestinos quando Israel venceu sua guerra pela independência em 1948.
Mais de 700.000 palestinos fugiram ou foram forçados a deixar suas casas pelas forças israelenses. Todos, exceto um punhado, nunca foram autorizados a voltar e Israel aprovou leis que ainda usa para confiscar suas propriedades.
Agora o medo é que isso aconteça novamente.
Muitos palestinos já acreditavam que Israel estava usando a guerra contra o Hamas para destruir Gaza e expulsar a população.
Faz parte da acusação de que Israel está cometendo genocídio – e agora eles podem acreditar que Donald Trump está adicionando seu peso aos planos de Israel.
Só porque Trump diz algo, isso não significa que seja verdade ou certo.
Suas declarações muitas vezes parecem mais manobras iniciais em uma negociação imobiliária do que expressões da política estabelecida dos Estados Unidos.
Talvez Trump esteja espalhando alguma confusão enquanto trabalha em outro plano. Dizem que ele anseia pelo prêmio Nobel da paz.
Os pacificadores do Oriente Médio, mesmo quando não conseguem, têm um forte histórico de vitórias.
Enquanto o mundo digeria seu anúncio sobre Gaza, ele postou em sua plataforma Truth Social seu desejo por um "acordo de paz nuclear verificado" com o Irã.
O regime iraniano nega querer armas nucleares, mas tem havido um debate aberto em Teerã sobre se eles estão agora tão ameaçados que precisam do melhor meio de dissuasão.
Por muitos anos, Netanyahu quis que os EUA, com ajuda israelense, destruíssem as instalações nucleares do Irã. Fazer um acordo com o Irã nunca fez parte de seu plano.
Durante o primeiro mandato de Trump, Netanyahu travou uma longa e bem-sucedida campanha para persuadi-lo a retirar os EUA do acordo nuclear que o governo de Barack Obama assinou com o Irã.
Se Trump queria dar algo à extrema direita israelense para mantê-la feliz enquanto faz propostas aos iranianos, ele conseguiu.
Mas ele também criou incerteza e injetou mais instabilidade na região mais turbulenta do mundo.
Não foi à toa que, enquanto o presidente Donald Trump festejava sua posse, a China surpreendeu o mundo com sua nova plataforma de Inteligência Artificial, DeepSeek. Foi-se o tempo em que os países exibiam sua musculatura por meio de testes atômicos ou manobras militares. A novidade nos arsenais da geopolítica do futuro é a I.A.
Talvez por isso, dessa vez Trump adotou um discurso mais brando contra seus oponentes chineses do que no seu mandato anterior. Preferiu apontar suas bravatas para o México, o Canadá, a Europa e a cambaleante ONU. O Tio Sam nunca foi de fraquejar diante das forças orientais, mas parece hesitante diante da DeepSeek, uma inteligência artificial muito mais avançada do que aquelas criadas nos EUA e na Europa. Para entender melhor esse poder da concorrente chinesa, arrisquei consultar diretamente as opiniões das maiores interessadas no assunto – as próprias I.A. americanas.
Primeiro perguntei à I.A. do Whatsapp o que ela acha da DeepSeek. A resposta foi cautelosa: “… a DeepSeek é um exemplo impressionante de como a I.A. pode ser usada… Sou um modelo de linguagem mais antigo e posso ter limitações em relação à DeepSeek. Por exemplo, a DeepSeek pode ter uma capacidade maior de entender contextos complexos e gerar respostas mais precisas”.
Procurando uma segunda opinião, perguntei ao ChatGPT se a DeepSeek é mais poderosa do que ele. Sua resposta foi elegante: “… a DeepSeek pode ser mais avançada em aprendizado de padrões… é uma ferramenta especializada em análise de dados, buscando insights mais profundos em grandes volumes de informações”. Resumindo, até as I.A. americanas reconhecem o poderio da adversária chinesa.

Contudo, apesar das capacidades dessas ferramentas de inteligência artificial, ainda é indispensável dispormos da opinião de uma boa inteligência natural. Nesse caso, ninguém melhor do que o cientista Silvio Meira, fundador do Porto Digital em Recife (Folha de São Paulo, 03/02/25).
Segundo ele, a DeepSeek é inegavelmente revolucionária e, na verdade, a ferramenta já existia. O que aconteceu agora foi o lançamento inesperado da sua versão turbinada chamada V-3R. Nas palavras do cientista “a nova versão da DeepSeek muda a geopolítica de poder da I.A. de uma vez por todas”. Contudo, isso não significa que a I.A. chinesa vá subjugar a humanidade como ocorre em Matrix, ou em 2001 Uma Odisseia no Espaço.
Ao invés disso, Silvio Meira prefere chamar a nossa atenção para o impacto econômico que a DeepSeek vai causar no mercado hoje dominado pelas americanas OpenAI, Google e Meta. “No final desta década, a I.A. vai agregar ao PIB global, por ano, o equivalente ao PIB do Brasil (mais de US$ 2 trilhões)”. Isso representa um faturamento colossal escapando entre os dedos ianques justamente quando Trump procura mostrar serviço como guardião dos interesses dos ultracapitalistas que o elegeram e agora compõem seu ministério. Para completar, quando Trump resolveu impor tarifas de 10% aos importados chineses, a China revidou não apenas com tarifas de 5%, mas também abrindo uma investigação contra o Google.
Trump inaugurou seu primeiro mandato despejando bombas descomunais na Síria e no Afeganistão para mostrar a que veio. Agora corre o risco de ver explodir em seu colo um artefato digital devastador. Trump é acostumado a ganhar e perder nos negócios, sempre jogando no limite do risco, alternando entre o blefe e a agressividade. Resta saber se, no caso da China, ele vai pagar para ver ou vai esperar o jogo esfriar.
Gaza tem uma longa história, em parte explicável pela sua geografia. Se hoje é um “vulcão político” na Antiguidade foi o grande oásis da região, com uma apetecível costa marítima que sempre suscitou a cobiça de vizinhos e de impérios. Chegou a vez de ser disputada pelo “novo império americano”.
Donald Trump vai transformar a mais trágica fase da História de Gaza numa “Riviera mediterrânica”. O método não é inédito mas trágico: implicaria uma gigantesca operação de “limpeza étnica”. A isto voltarei.
Gaza é uma terra saturada de História. Habitada desde data indefinida por cananeus e filisteus, foi cenário de batalhas entre egípcios e assírios. Em 530 a.C. o persa Ciro conquistou a cidade fortificada. Segundo o historiador Jean-Pierre Filiu (História de Gaza, Bertrand, 2024), a cidade foi saqueada por navios macedônios. Em 63 a.C., o território passou para o Império Romano integrado por Pompeu na província da Judeia. No século IV, os bizantinos sucederam aos romanos. Segue-se o domínio do Egito. Entretanto, o seu vinho, vinum gazetum, era muito apreciado na Europa.
Depois de muitas vicissitudes, foi conquistada por um exército árabe, para em 1517 acabar integrada no Império Otomano, cuja ocupação durou até à Grande Guerra de 1914-18.

Gaza era uma estratégica plataforma giratória, com acesso rápido a Alexandria e ao Cairo, a Jerusalém ou Beirute, e provavelmente Istambul. Após a guerra israelo-árabe e a independência de Israel em 1948, a Faixa de Gaza é ocupada pelo Egito, que a administrará até à Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Depois desta guerra, a Jordânia abdica da Cisjordânia e o Egito da Faixa de Gaza, inaugurando-se a era da ocupação israelita, que até hoje dura e produziu as tragédias que todos conhecemos.
É esta a Gaza que conhecemos. Em 1948, tinha 80 mil habitantes a que rapidamente se juntaram 200 mil refugiados, a grande maioria da população, que hoje ascende a 2,1 milhões.
Em 2005, Ariel Sharon fez evacuar, manu militari, os colonatos israelitas da Faixa de Gaza. Após o desaparecimento de Sharon, vítima de um AVC, o seu conselheiro Dov Weisglass explicou, numa entrevista ao diário Haaretz, a lógica dessa retirada. “O significado da retirada é o congelamento do processo de paz. Aquilo a que se chama o Estado Palestino, com tudo o que isso implica, foi indefinidamente retirado da nossa agenda. Esta política de ruptura é como o formol. Fornece a quantidade de formol necessária para que não haja processo político com os palestinos.” Acrescentou pouco depois para justificar o bloqueio de Gaza: “A ideia é impor aos palestinos uma dieta, sem os deixar morrer à fome.”
Era a negação nal dos Acordos de Paz de Oslo, solenemente assinados em 1993, por Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Bill Clinton.
Esta lógica foi perversamente ampliada por Benjamin Netanyahu. Foi a “fábrica de um vulcão” e da vertiginosa escalada de violência que terá o seu desfecho no massacre do 7 de outubro, pelo Hamas, e da destruição maciça de Gaza pelas bombas de Israel.
Mas Netanyahu foi cúmplice do Hamas. Em meados de junho de 2007, os islamistas derrotaram e expulsaram de Gaza as forças da Fatah e da Autoridade Palestina que dirigiam o território. Na véspera, disse ao embaixador americano o general Amos Yadlin, chefe dos serviços secretos militares: “Israel ficaria feliz se o Hamas se apoderasse do governo de Gaza porque o exército poderia passar a tratar Gaza como um Estado inimigo.”
Foi pior. Netanyahu fez acordos tácitos com o Hamas para facilitar o seu financiamento a partir do Qatar e confiou no “pragmatismo” de Yahia Sinwar, baixando a guarda na Frente Sul.
Explicou aos deputados do Likud, em 2019: “Quem quiser contrariar a criação de um Estado palestino, deve apoiar a política de reforço do Hamas e da transferência de dinheiro para o Hamas. Faz parte da nossa estratégia: separar os palestinos de Gaza dos da Cisjordânia.” Tudo isto é conhecido, mas vale a pena relembrá-lo.
Os jornalistas que assistiram à conferência de imprensa de Trump ficaram estupefatos. Escreve a italiana Viviana Mazzi no Corriere della Sera: “Fiquei sem fôlego. O chefe da máxima superpotência, que até 5 de novembro era trave mestra da ordem mundial, anunciava a deportação em massa de um povo e a intenção de se apoderar da sua terra.”
As palavras são delirantes. Interrogado sobre o que acontecerá aos palestinos, respondeu: “Fá-lo-emos da melhor maneira possível. Será maravilhoso para os palestinianos, sobretudo para os palestinianos.” Claro que não se referia às delícias da “Riviera mediterrânica”, mas à deportação. À pergunta se mobilizaria tropas americanas, deu a habitual resposta ambígua: “Faremos o que for necessário.”
Os palestinos não quererão voltar a Gaza, explicou. “Aquele lugar tornou-se um inferno”. É sobre este “inferno” e uma “terra queimada” que Trump sonha em promover uma gigantesca operação imobiliária. Que “negócio” terá em mente? Para já, o delírio desmente o pavor da ameaça.
Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.
Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem seiFerreira Gullar
Quando Donald Trump assumiu novamente o cargo de presidente dos EUA em janeiro de 2025, seus apoiadores viajaram de diferentes países para comparecer à cerimônia em Washington DC. Entre eles estavam o presidente da Argentina, Javier Milei , e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni . Figuras de extrema direita como o britânico Nigel Farage e representantes do partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) também acolheram o convite.
A extrema direita ao redor do mundo está forjando redes. Um dia antes da posse, o ex-ideólogo chefe de Trump, Steve Bannon, o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro , um parlamentar do AfD e vários influenciadores se encontraram para trocar ideias. Um influenciador de direita da Alemanha filmou a si mesmo na reunião e comentou animadamente que tinha acabado de receber um convite do embaixador de El Salvador. O movimento está mais ansioso do que nunca para viajar.

É paradoxal que Donald Trump, com sua agenda "América em Primeiro Lugar", tenha se tornado um ímã para ultranacionalistas ao redor do mundo, muitos dos quais costumavam ser abertamente antiamericanos. No entanto, essa aliança global de antiglobalistas só parece contraditória à primeira vista.
Contra a imigração e a sociedade moderna
"Essas redes estão unidas pela rejeição à migração, ao nacionalismo, aos valores familiares tradicionais e ao antiglobalismo", disse Katrine Fangen, professora de sociologia na Universidade de Oslo e especialista em redes transnacionais de direita, em entrevista à DW.
"O objetivo desses movimentos não é apenas ganhar maior influência política. Seu objetivo final é redefinir a ordem ideológica global: eles lutam pelo nacionalismo e pelo conservadorismo social, e contra a democracia liberal."
Além disso, a extrema direita aprende rapidamente com suas experiências em diferentes países. De acordo com o cientista político Thomas Greven, da Universidade Livre de Berlim, estratégias bem-sucedidas em um país são rapidamente adotadas por outros movimentos. Em seu livro The International Far-Right Network , ele analisa como essas táticas funcionam.
"Por exemplo, a estratégia de Bannon de 'inundar a esfera pública com lixo' tem sido extremamente bem-sucedida internacionalmente. Ela envolve sobrecarregar o oponente político com provocações constantes, mentiras, ataques e novas ideias, deixando-o incapaz de reagir", explica Greven. "Hoje, essa tática de comunicação é usada por atores de extrema direita no mundo todo."
Para esses movimentos, a democracia é apenas um meio de chegar ao poder. "A abordagem deles é: quem quer que ganhe a eleição deve governar sem restrições", diz Greven, que chama isso de "democracia hipermajoritária" — ou seja, uma democracia baseada apenas em supostas maiorias.
" Viktor Orbán , por exemplo, diz: 'Fui eleito com o mandato claro de impedir a imigração para a Hungria e não permitirei que instituições europeias, tribunais, organizações civis ou mídia financiada por estrangeiros atrapalhem meu governo.'" Para esses líderes, a dissidência e o compromisso são inaceitáveis.
"A extrema direita acredita que a crescente burocratização, judicialização e supranacionalização impõem muitas barreiras à vontade da maioria", conclui Greven. "É por isso que eles buscam impor essa vontade por meio de uma democracia antiliberal e hipermajoritária."
No início de 2025, a estratégia desses movimentos parece estar dando frutos: Donald Trump foi reeleito nos EUA e em países como Alemanha, França, Reino Unido e Áustria, os partidos de extrema direita continuam ganhando popularidade.
No entanto, o cientista político Thomas Greven acredita que seu sucesso não é inevitável. Muitos desses grupos prosperaram justamente porque nunca precisaram governar, o que lhes permitiu jogar com uma vantagem sobre a oposição.
Greven também aponta que essa aparente unidade esconde profundas fraturas internas. "Se o descontentamento popular e a insatisfação geral dos eleitores forem combinados, a ascensão da extrema direita poderá ser revertida", diz ele.
Mas há uma condição indispensável para isso: que as instituições democráticas continuem a funcionar.
Há, evidentemente, muitas razões pelas quais pelo menos metade dos eleitores norte-americanos tem preferido Trump nas últimas três eleições. E essas razões provavelmente são muito parecidas com aquelas que levam pelo menos metade dos eleitores brasileiros a continuar optando por candidaturas presidenciais da extrema direita desde 2018.
O que me preocupa, no entanto, é a resistência da esquerda e dos progressistas em se implicar nessa virada eleitoral para a extrema direita, que tem se repetido ao longo desta última década.
"Implicar-se" significa reconhecer que a própria esquerda está errando e que seus erros são parte das razões que alimentam o vertiginoso crescimento do apoio a extremistas, desta vez em conformidade com as regras do jogo da democracia eleitoral.
O que tem sido constante nas promessas de campanha de Trump, no seu discurso de posse, nas suas primeiras ordens executivas e em suas declarações? Duas coisas. Um etnocentrismo sem limites, expresso na retórica radical de colocar os interesses americanos acima de tudo, proteger a segurança nacional, romper com compromissos multilaterais e restaurar o orgulho e a prosperidade do país. E uma promessa direta e sem concessões de desmontar a agenda e a cultura progressista e de esquerda, especialmente no que diz respeito à ideologia e às práticas identitárias.

O que há em comum entre essas duas diretrizes? Uma posição moral baseada na força e na audácia e um líder que se vende como inabalável, sem compaixão, que nunca pede desculpas, recua ou demonstra vulnerabilidade. Esse é um etos vitalista e afirmativo, não há margem para dúvida.
Enquanto isso, para qualquer lado que se olhe, o que os progressistas estão fazendo? Na semana passada, exigiam o desligamento de um sócio de uma editora que se comportou mal com sua mulher há 15 anos. Nesta semana, pedem que uma cantora seja condenada por racismo religioso, proibida de se apresentar e obrigada a pagar uma indenização milionária por ter trocado o nome de Iemanjá pelo de Jesus em uma performance.
Os progressistas estão presos a uma lógica de retaliação e revanche. O que oferecem não é uma nova cultura afirmativa, mas uma ênfase na culpa coletiva e histórica, que reforça a ideia de que o indivíduo está eternamente preso a um passado que o condena. Seu motor é, em grande medida, o ressentimento.
Uma grande parcela da sociedade experimenta o identitarismo como uma moralidade imposta, em que a linguagem deve ser reformulada (novos pronomes, palavras proibidas, vocabulário "neutro") e o passado deve ser reescrito. Direitos considerados básicos passam a ser vistos como privilégios injustificáveis, e o indivíduo deve carregar culpas históricas e sociais que não são diretamente suas.
Quando o politicamente correto é vivido e sentido por milhões de pessoas como uma forma de opressão, a alternativa a ele aparece como libertação. É perfeitamente plausível afirmar que um dos principais atrativos do trumpismo reside na oferta de um vitalismo afirmativo para amplos segmentos da população que se sentem oprimidos por essa mentalidade e suas formas institucionais.
Essa dinâmica se assemelha muito às revoluções morais do passado. Em certo sentido, o trumpismo promete ser para os conservadores o que os movimentos contraculturais dos anos 1960 foram para os progressistas —uma rebelião contra normas repressivas e sufocantes. A diferença é que, agora, a rebelião é contra a esquerda, seus novos dogmas, sua insaciável sede de compensações e cotas.
A extrema direita sequestrou o imaginário da rebeldia, um papel que por muito tempo foi exclusivo da esquerda. Durante o século 20, eram os progressistas que desafiavam normas conservadoras e pregavam a liberdade contra a repressão. Agora, com o politicamente correto transformado na nova ortodoxia cultural, a extrema direita se apresenta como a verdadeira força rebelde.
Isso permite ao trumpismo se vender como um movimento de insubmissos, de gente que não se dobra à patrulha ideológica. E, pelo menos na fachada, isso evoca o "sim à vida" do vitalismo positivo, exalta o impulso, a espontaneidade e o desprezo pelo conformismo social e moral.
Se a esquerda quiser reconquistar o terreno perdido, precisa abandonar a lógica da punição e do ressentimento e oferecer algo mais do que culpa e vigilância moral. Enquanto continuar gritando por mordaças, reparações e humilhações, seguirá entregando à extrema direita o argumento da rebeldia e da liberdade. Mas é claro que continuar pensando que quem vota em Trump é fascista é muito mais consolador.
Na ocasião da posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, fãs do presidente americano vindos de todas as partes do mundo afluíram a Washington para participar do evento histórico. Entre os presentes, estavam o presidente da Argentina, Javier Milei, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Políticos de ultradireita na oposição, como Nigel Farage, do Reino Unido, assim como representantes do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), também se vangloriaram por estar entre os convidados.
A direita radical aproveitou o evento para fazer contatos com seus pares pelo mundo todo. Na véspera, figuras como o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o ideólogo-mor de Trump, Steve Bannon, um parlamentar da AfD e vários influenciadores também se encontraram para trocar ideias. Um influenciador de direita da Alemanha inclusive se filmou no encontro enquanto se gabava de ter recebido um convite do embaixador de El Salvador. O movimento tem uma sede de conexões nunca vista antes.
O fato de justamente Donald Trump ter se tornado um ímã para ultranacionalistas de todo o mundo com sua agenda "America First" é um fenômeno por si só – sobretudo porque muitos deles tendem a ser ideólogos antiamericanos. Mas essa aliança global de antiglobalistas é um paradoxo apenas à primeira vista.
Contra a imigração e uma sociedade moderna
"O que une essas redes é a rejeição da migração, o nacionalismo, as imagens da família tradicional e o antiglobalismo", sumariza a professora de sociologia Katrine Fangen, da Universidade de Oslo, na Noruega
"O objetivo dessas redes não é simplesmente lutar por mais influência política. Seu objetivo final é um realinhamento da ordem mundial ideológica global – elas estão lutando pelo nacionalismo e pelo conservadorismo social e contra a democracia liberal."
E a direita radical está aprendendo rapidamente através da troca de experiências. As estratégias e os sucessos num país são logo adotados por outros movimentos, analisa o cientista político Thomas Greven, da Universidade Livre de Berlim. Ele considera que a extensão da rede da direita radical é algo historicamente sem precedentes.
As táticas são descritas em seu livro Das internationale Netz der radikalen Rechten (A rede internacional da direita radical): "Por exemplo, a estratégia de Bannon 'flooding the zone with shit' ["inundar a zona com merda"] é muito bem-sucedida internacionalmente. Nela, o oponente político é constantemente bombardeado com provocações, mentiras, novas ideias e hostilidade", explica Greven. "Essa estratégia de comunicação agora é usada em todos os lugares por atores radicais de direita."
A relação de seus seguidores com a democracia é instrumental: eles precisam dela para chegar ao poder. "O foco é dizer: quem quer que tenha sido eleito deve ser capaz de governar sem barreiras", explica Thomas Greven. Seu termo para isso é "democracia hipermajoritária", ou seja, voltada exclusivamente para supostas maiorias.
"Viktor Orbán, por exemplo, levanta-se e diz: 'Fui eleito com um mandato claro para manter a migração fora da Hungria, e não quero que instituições europeias, tribunais, resistência da sociedade civil ou qualquer mídia financiada por estrangeiros me impeçam de governar'".
Contradições e concessões são anátema para eles. "Os protagonistas da direita radical estão incomodados com o fato de que, devido à crescente legalização, burocratização e supranacionalização, há obstáculos demais essa vontade da maioria. E esta deve se impor numa democracia hipermajoritária."
Em sua luta ideológica, a direita radical também tem muito dinheiro à disposição. Os doadores mais famosos vêm dos EUA: Elon Musk e os irmãos Koch, empresários bilionários que apoiam a luta ideológica. O bilionário da tecnologia Musk, aliás, não se envolve apenas com dinheiro, mas é, ele próprio, um protagonista da direita radical. Em sua plataforma X, ele se entusiasma com a AfD na Alemanha, apoia a direita radical no Reino Unido e critica os partidos liberais.
Mas não são apenas os doadores privados que apoiam as redes de direita. Rússia e China, por exemplo, também são constantemente criticadas por alimentar as redes populistas de direita para desestabilizar as sociedades liberais.
Entretanto o financiamento por parte dos inimigos declarados da direita radical também ganhou importância, como no caso das verbas da própria União Europeia e de democracias liberais. Na Alemanha, por exemplo, o odiado Estado liberal é o doador mais importante da AfD: em 2021, mais de 10 milhões de euros, ou cerca de 45% dos recursos do partido, vieram dos cofres do Estado.
A explicação é que, numa democracia partidária, o Estado apoia o trabalho das diferentes siglas – e o apoio financeiro aumenta conforme o crescimento delas. "Isso permite que os partidos radicais de direita ampliem seu alcance. Além disso, o Parlamento Europeu, por exemplo, lhes oferece um espaço mais ou menos automático para a cooperação internacional, incluindo recursos adicionais que protegem suas redes", observa a socióloga Katrine Fangen.
Neste início de 2025, a estratégia das redes radicais de direita parece estar funcionando: Donald Trump foi reeleito nos EUA, e os partidos populistas de direita continuam a crescer na preferência dos eleitores em países como Alemanha, França, Reino Unido e Áustria.
Sua ascensão é irrefreável? O cientista político Thomas Greven diz que não. Muitos partidos radicais de direita se beneficiariam do fato de nunca terem tido que governar sozinhos, e sua situação de oposicionistas é relativamente confortável. Além disso, seu sucesso encobre as diversas fissuras de movimentos cuja união, muitas vezes, é apenas superficial, explica o acadêmico.
"Se a discordância nas bases quanto aos conteúdos se unir à insatisfação entre o eleitorado em geral, o sucesso da ultradireita pode ser novamente revertido", argumenta Greven. Mas há um pré-requisito, enfatiza o politólogo: "que as instituições democráticas funcionem".
Na terra da Balaiada, quilombola é uma chama que nunca se apaga. No século XIX maranhense, pretos enfrentaram a escravidão e a violência do Império. Hoje, os quilombos de Frechal e Alcântara encaram a ganância do agronegócio e o desprezo do Estado. Nessa fenda do tempo, a pobreza e o racismo tentam dizimar um orgulho negro que, atado à terra, resiste.
O terreno comunitário é parte fundamental da identificação quilombola: o chão é seu espelho, um reflexo que “é definido historicamente, e não biologicamente”. Ele entrelaça a herança cultural com a agricultura, a caça e o extrativismo. Porém o Estado, na maioria das vezes, ignora o acesso à saúde, ao transporte e à educação. Tudo parece incitar o abandono, deixar a terra dos antepassados para viver na periferia de qualquer cidade.

A visão do Estado no século XVIII, até o senso comum de nossos dias, define o quilombo com uma reunião de escravizados fugitivos. Na perspectiva preta, é a formação de uma complexa rede social que cultiva sua cultura e “designa um processo de trabalho autônomo, livre da submissão dos grandes proprietários”.
As aspas do parágrafo anterior são do artigo “As identidades quilombolas contemporâneas: nuances das experiências do Maranhão”, assinado pelo historiador Josenildo de Jesus Pereira na Revista Embornal, da UECE – Universidade Estadual do Ceará. O autor traça o percurso da identidade, a opressão, a resistência e as batalhas pelo direito à terra no estado nordestino. Para ele, os quilombolas “vivem uma situação histórica ambígua e revestida por uma profunda vulnerabilidade”.
Somente na Constituição de 1988 os direitos à propriedade aos remanescentes quilombolas foram garantidos. Essa decisão teve forte impacto no Maranhão. De acordo com o Censo de 2022, há 2.025 quilombos no estado, o que corresponde a 23,99% do total no país – é a unidade da federação com mais comunidades rurais ou urbanas históricas negras.
O historiador narra a história do Quilombo Frechal, também chamado de “terras de pretos” pelos seus moradores, que fica na cidade de Mirinzal, numa área de cerca de 10 mil hectares ocupada desde o século XIX por 183 famílias que aram sobrevivências em seus roçados. No início da década de 1980, um empresário paulista disse que era dono das terras e tentou expulsá-los para produzir guaraná e pimenta do reino.
“Retirar estas terras dos descendentes dos escravos é o mesmo que ditar uma sentença de morte aos homens, mulheres e crianças que nasceram naquele lugar”, afirma. A comunidade sofreu todo tipo de pressão e ameaças durante uma década. Em 1992, após intensa mobilização, com o apoio de diversas entidades, a área foi decretada Reserva Extrativista do Quilombo Frechal.
É conhecido o conflito agrário para a instalação da Base Espacial de Alcântara nos anos 1980. Os militares expulsaram de suas casas mais de 300 famílias de 32 comunidades. Segundo o autor, a empresa Alcântara Cyclone Space abriu estradas, picadas, desmatou árvores centenárias, fez perfurações indevidas e ofereceu o trânsito de veículos pesados sobre áreas de plantio. As organizações sociais entraram na Justiça.
Na época da publicação do artigo, o impasse continuava. Somente em 2024, após 44 anos de , foi assinado um acordo. O governo decidiu que serão destinados às comunidades 78,1 mil hectares, áreas privadas sobrepostas serão desapropriadas e o território será titulado. Resta saber se a decisão será cumprida. O município de Alcântara tem cerca de 18 mil moradores e 84% deles são quilombolas ‒ a maior proporção do país. E já se sabe que, nesse país, nem sempre o direito dos pretos é respeitado.
Marco Miguel
Imagino esta crónica sobre o atual presidente dos EUA como fazendo parte de uma montanha de crônicas, recortadas de todos os jornais do mundo, que um pobre diabo da Casa Branca construiu com cola e arame, para poder mostrar ao Trump e dizer: “Veja, Presidente, o mundo inteiro está a falar de si!”
De fato, não lhe interessa se estão a dizer mal ou bem dele: o que interessa é que estão a falar dele. Para abreviar, Trump pede que lhe leiam a crônica mais elogiosa — em que o equiparam a Deus na Terra — e a crônica mais odienta — em que o caracterizam como o grande Satanás.
Atendendo a este pendor quantitativo, em que aquilo que interessa é ser o centro das atenções, é impossível não sonhar com a única campanha que seria devastadora para Trump: era deixarmos todos de falar dele.
O viciado em atenção também é humano: claro que prefere ser amado. Mas, se não puder ser amado — e é preciso ser-se muito santo para poder conceber uma situação extrema em que seria verosímil uma cabeça muito avariada sentir amor por tal criatura —, o viciado em atenção recorre às alternativas: ao medo e ao ódio.

“Ele é maluco” — é esta a percepção que rende mais medo. “Não o provoquem!” é a reação pretendida — e também a justificação de todos os lacaios desde o princípio dos tempos: “Façam o que ele quer, porque senão é pior.”
Mas Trump é um bully, um bully e um exibicionista que depende inteiramente da importância que lhe atribuem. Não tem força interior. Não tem capacidade para a solidão. Não tem uma única fonte de consolação fora o impacto que tem por ser presidente dos EUA.
Deveríamos ter pena dele, desta dependência dele, pior do que qualquer estupefaciente. Tem os dias contados. Tem de aproveitar estes primeiros dias. Está a ver onde é que o barro se cola à parede. A reação inteligente é não ligar.
A reação inteligente é esperar que passe. Passem-lhe a mão pelo pêlo, digam-lhe que sim, mas aproveitem para se fortalecer à custa dele.
Talvez muitos já tenham esquecido as utopias que dominaram o ambiente cibernético, no início da segunda década deste século, quando as manifestações na Praça Tahrir, no centro do Cairo, e noutras cidades árabes prenunciavam um crescimento revolucionário das liberdades, nomeado com uma metáfora: a “Primavera Árabe”.
A estimular e a fornecer os instrumentos necessários para a mobilização popular estavam as tecnologias digitais de informação e comunicação que – dizia-se – permitiam o movimento espontâneo e completamente horizontal, sem líderes, sem formações hierárquicas. Por todo o lado entoavam-se hinos a este novo potencial de revolta ou até de revolução. A jornalista americana Heather Brooke, a trabalhar em Inglaterra, consagrou este optimismo político-cibernético num livro de 2011 que assegurava no título: The Revolution Will Be Digitised. À “sociedade em rede”, teorizada por um famoso sociólogo espanhol, Manuel Castells, correspondia a revolta e a sublevação em rede, orientadas pela ideia de partilha recíproca, sem as guras da liderança e sem organização vertical.

A crença de que a tecnologia digital estava a promover a colaboração, a transparência e as reivindicações políticas e sociais de uma esquerda universal encantada com as redes e em desencanto com os partidos propagou-se por todo o lado e deu lugar a numerosos acontecimentos: o Occupy Wall Street, os acampamentos na Puerta del Sol, em Madrid, os movimentos hackers politizados, o Wikileaks, o Anonymous, etc. Quem se lembra ainda da máscara, adotada como símbolo, mimetizando o rosto de um soldado inglês do século XVI, Guy Fawkes, que lutou pela Espanha católica?
Todos esses poderes das redes que tinham dado origem às utopias cibernéticas de uma nova esquerda e passavam atestados de inutilidade aos media tradicionais estão hoje mais activos do que nunca e com bastantes provas dadas. Mas mudaram de sítio: foram apropriados por outros utilizadores, passaram a ser moldados por proprietários que investiram neles outros objetivos e ideais. Agora é a extrema-direita neorreacionária que usa esses poderes com grande sucesso.
A rede sem líderes, vista como uma outra forma de fazer política, instaurando uma esfera pública que levava às últimas consequências aquela que o Iluminismo tinha concebido, caiu nas mãos da extrema-direita. E o ideal da leaderlessness foi substituído por uma liderança que se parece cada vez mais com o comando de um Führer com várias cabeças. Estamos agora confrontados com as afecções e a estética do ciberfascismo. O Sieg Heil (a saudação nazi) de Elon Musk, no dia da investidura de Trump, foi a manifestação ostensiva dos instrumentos afetivos do fascismo que estão a ser restaurados.
Não foi esse o primeiro sinal da ascensão dos neorreacionários. No dia 5 de novembro do ano passado, na noite da segunda vitória de Trump, Elon Musk celebrou o seu triunfo partilhando na sua página da rede X esta mensagem que incitava à reunião das massas que tinham votado pelo MAGA, o Make America Great Again: “Dark MAGA Assemble!”. O dark adensava a mensagem, dava-lhe um tom esotérico (é sabido que o culto do esoterismo está na origem dos fascismos). E, repetindo mais tarde a mensagem, acrescenta-lhe outro elemento: “I’m Dark Gothic MAGA”. O imaginário e a estética dark gothic convoca o chamado Dark Enlightenment (isto é, as “Luzes Obscuras”, o “Iluminismo das Trevas”), proposto como doutrina por um neorreacionário inglês, escritor e blogger, chamado Nick Land.
O Dark Enlightenment é um paradoxo que funciona como um nome irónico: é um “Iluminismo” que visa não o progresso, mas o passado. É uma convergência entre as tecnologias do futuro e os valores do passado, cuja realização implica remontar às fontes míticas do Ocidente. E tudo isto fundado numa interpretação do destino da “raça” branca. A estética dark gothic está virada para uma archè, um mito das origens, muito embora se sirva das técnicas futuristas. O Iluminismo obscuro do neorreacionaríssimo de caráter esotérico e pagão é uma espécie de metapolítica que a extrema-direita de Silicon Valley segrega e aspira a difundir no mundo inteiro.
As manifestações e revoltas por volta de 2010 foram a expressão de um novo ambiente cibernético que acreditava em novas formas de mobilização e de organização das massas. O neorreacionaríssimo a que estamos a assistir dá às massas forma de expressão, mas seguindo o modo de as organizar próprio do fascismo. Já não exatamente como o fascismo histórico, mas com as características de um fascismo tardio, um “late fascism”, para usar uma categoria desenvolvida pelo filósofo italiano Alberto Toscano).
Quem imaginaria, em 2010, ou até mais recentemente, que seria esta a realidade do mundo em que vivemos?
Joshua Haldeman, também conhecido como o avô materno de Elon Musk, esteve envolvido com o autodeclarado Movimento Tecnocrático Canadense durante as décadas de 1930 e 1940. A Technocracy Incorporated propunha que cientistas e engenheiros deveriam ser os governantes e os reais políticos, acreditando que isso também solucionaria todos os problemas sociais.
Os integrantes do movimento adotavam um “X” em seus nomes e utilizavam roupas e veículos cinzas, elementos que remetiam a movimentos fascistas da época. Com a entrada do Canadá na Segunda Guerra Mundial, o grupo foi proibido e classificado como uma ameaça à segurança nacional, o que levou à prisão de Haldeman por suas atividades políticas ilegais.
Após deixar o Canadá, Haldeman mudou-se para a África do Sul, onde manifestou apoio ao regime do Apartheid, declarando que o país representava a “liderança branca do mundo”. Em 2023, Elon Musk foi criticado por denunciar o que chamou de “genocídio branco” na África do Sul, após Julius Malema, líder do partido sul-africano Combatentes da Liberdade Econômica (EFF), entoar a música Kill the Boer em um comício. Malema reagiu chamando Musk de “ignorante” e afirmou que a canção fazia parte da resistência ao Apartheid.
Para título de esclarecimento, a música Kill the Boer (em tradução, Mate o Boer) tem origem no contexto da luta contra o Apartheid na África do Sul. Durante o regime segregacionista, que vigorou oficialmente de 1948 a 1994, muitas músicas de protesto foram compostas como forma de resistência contra a opressão racial. O termo Boer refere-se, historicamente, aos fazendeiros brancos de origem africâner, um grupo que desempenhou papel significativo na governança do Apartheid. Além disso, em novembro de 2023, a Casa Branca repreendeu Musk por divulgar teorias conspiratórias antissemitas em suas redes sociais, considerando as ações do bilionário uma “promoção deplorável” de opinião discriminatória, e logo, antissemitismo.

Em janeiro de 2024, em um ato evidente de mea-culpa, Elon Musk visitou o campo de concentração de Auschwitz acompanhado de personalidades como o comentarista político Ben Shapiro e o sobrevivente do Holocausto Gidon Lev. A visita ocorreu após críticas contundentes sobre como a plataforma X, anteriormente Twitter, lidava com conteúdos antissemitas. Durante a visita, Musk afirmou ter sido “ingênuo” sobre o antissemitismo, mas reiterou que não percebia o preconceito em seus círculos na plataforma.
Não há erro ou engano. Elon Musk pode negar ou ironizar com deboche a interpretação de que seu gesto, durante a posse de Trump, foi uma saudação nazista. Mas a história não mente. A filiação de seus avós ao Partido Nazista Canadense, o privilégio de seu pai com as minas de esmeralda em meio ao Apartheid sul-africano e o patrocínio pessoal de Musk ao partido alemão AfD, que defende a anistia para soldados da SS, não são coincidências isoladas. São fragmentos de um quebra-cabeça que revela uma afinidade ideológica preocupante.
Se há um manifesto por vir é uma doutrina que, tal como o nazismo original, se mascarará sob a ideologia dominante de seu tempo para legitimar o uso da força e a concentração de poder.
Assim como o nazismo hitlerista se autodenominava “nacional-socialista” para se apropriar da linguagem de um movimento de massa que contestava o establishment, o neonazismo contemporâneo pode se apropriar do libertarianismo, utilizando seu apelo à liberdade individual e ao livre mercado para se capilarizar em termos totalitários. Uma doutrina nazista libertária, patrocinada por bilionários, pode parecer, à primeira vista, uma contradição ideológica intrigante. No entanto, não é impossível, dado que ambas as vertentes compartilham elementos autoritários e hierárquicos que podem ser reinterpretados para justificar um modelo de controle elitista sob o véu da “liberdade”. Imagine uma fusão cibernética entre o autoritarismo racial e cultural do nazismo com o individualismo extremo e a desregulamentação promovida pelo libertarianismo. O resultado seria uma distopia tecnocrática conduzida por uma elite midiático-econômica, onde a liberdade é redefinida como dominação privada.
Esse princípio talvez já seja o mais palpável. As redes sociais estão contaminadas pelo ódio ao trabalhador. No discurso que apela ao “nós contra eles”, a ameaça sempre vem de fora: o imigrante, o latino, o bárbaro. É sempre o estrangeiro o culpado por todos os males, injustiças e doenças. O neonazismo “libertário” exalta uma versão deturpada do “mérito”, na qual a riqueza acumulada é vista como a expressão máxima da superioridade humana. A desigualdade não é apenas aceita, mas glorificada como evidência de que os mais ricos possuem direitos e capacidades inatas que os tornam líderes naturais. É um direito divino dos reis reinventados, onde bilionários são vistos como deuses que caminham entre nós, uma nova aristocracia tecnológica com o poder de definir o que é o ser humano.
O segundo passo parece distante, mas logo chegará às manchetes como uma boa nova. As pesquisas de implantes e próteses, como o Neuralink — dispositivo do guarda-chuva de empreendimentos de engenharia social de Musk —, propagandeado como capaz de curar doenças do sistema nervoso e aperfeiçoar habilidades cognitivas, são exemplos de como esse neonazismo libertário abraça a eugenia e o transumanismo. Sob o pretexto de eficiência econômica e inovação, justifica-se a exclusão de grupos “menos produtivos” ou “menos adaptáveis”. Inclusive, a recente política de Zuckeberg ao declarar que demitir 5% dos seus funcionários menos produtivos já demonstra isso.
Em seguida, veremos como os avanços em bioengenharia e inteligência artificial podem facilmente ser utilizados para criar uma elite cibernética, enquanto as massas periféricas são relegadas à própria sorte ou transformadas em mão de obra descartável. A disparidade educacional entre países ricos e pobres já é um prenúncio desse futuro distópico.
Em um texto do início dos anos 2000, “Regras para o Parque Humano” (Regeln für den Menschenpark), o filósofo alemão Peter Sloterdijk aborda a eugenia de maneira provocativa e polêmica, situando-a no contexto de uma crítica mais ampla sobre o papel da cultura e da tecnologia na formação da humanidade. Sloterdijk fala sobre como a humanidade tem buscado domesticar a si mesma ao longo da história, comparando os seres humanos a animais que precisam ser domesticados por meio do “humanismo”, e mais recentemente, pela técnica.
Sloterdijk não defende a eugenia, mas a utiliza como um ponto de partida para refletir sobre os desafios éticos e existenciais que a humanidade enfrenta em uma era de revoluções tecnocientíficas. Ele nos convida a pensar criticamente sobre como essas tecnologias podem ser usadas e quem decide o que significa melhorar a humanidade. Seu trabalho parece, inoportunamente atual, e um alerta sobre os perigos de uma eugenia disfarçada de progresso, bem como um chamado para repensarmos as regras que governam o parque humano em que vivemos.
Ademais, o caminho desse parque é ressignificar por completo o sentido de liberdade, de modo a privatizá-lo inteiramente. Ao invés da liberdade no sentido universal, o que teremos será a “liberdade como serviço”. Seremos todos escravos de incontáveis telas de co-working, cuja riqueza da produção se reverte integralmente para os poderosos, que não têm mais qualquer restrição sobre os nossos corpos. O Estado será desmantelado ou transformado em um instrumento de defesa dos interesses privados, enquanto as liberdades individuais das massas serão subordinadas às vontades dos donos do capital. A livre iniciativa será a justificativa máxima para práticas exploratórias e excludentes, apresentadas como uma escolha voluntária dos indivíduos.
O meio para a legitimação desse totalitarismo 2.0 já pode ser visto. O culto à extrema riqueza transforma o burguês em herói. Tecnologias avançadas de comunicação e redes sociais são utilizadas para disseminar uma ideologia que glorifica o sucesso individual e culpa os fracassados por sua própria situação. A manipulação emocional e simbólica é fundamental para assegurar a adesão popular a uma estrutura de dominação disfarçada de liberdade. A propaganda não apenas vende produtos, mas também ideias, valores e visões de mundo que consolidam o poder da elite. É assim quando vemos hoje o fetichismo de artigos de luxo serem o meio para o esvaziamento da dignidade humana.
Jean Baudrillard descreve a hiper-realidade como um estágio em que a distinção entre o real e o simulado desaparece. Nesse estágio, as imagens, os signos e as narrativas midiáticas não apenas refletem a realidade, mas a produzem. A propaganda e a manipulação cultural funcionam justamente nesse espaço, onde a realidade é construída por meio de simulações que moldam percepções, desejos e comportamentos. Por exemplo, a imagem de um bilionário como Elon Musk não é apenas a representação de um indivíduo, mas um simulacro que encarna valores como inovação, sucesso e poder. Essa imagem, repetida incessantemente nas mídias, torna-se mais real do que o próprio Musk, influenciando como as pessoas veem não apenas ele, mas também o sucesso, a riqueza e o mérito.
O último passo será, após a extinção de todos os serviços públicos, o fim também da segurança pública e política real de Estado. Em vez de um exército estatal, haverá a ascensão de forças militares e milícias privatizadas, compostas por mercenários pagos pelos bilionários. Essas forças serão usadas para proteger os interesses econômicos globais da elite, enquanto conflitos sociais internos serão tratados como ameaças à liberdade individual dos ricos. A violência será justificada como uma forma de proteger o livre mercado e a “ordem natural” das coisas. Se tal passo pode parecer desarrazoado, custa lembrar que Putin, outro líder populista e apoiador inesperado de Trump, já usa dessa estratégia de terceirização do exército, por meio da contratação de mercenários, como os da milícia Wagner (um nome sugestivo com a alusão ao poeta que era adorado por Hitler), na guerra contra a Ucrânia.
Alexandr Duguin, filósofo russo tido como o guru de Putin, embora não defenda explicitamente o militarismo privatizado, em suas ideias sobre a fragmentação do poder global e o declínio do Estado-nação tradicional, elabora como que uma teoria política que está por vir, deve dar conta de um cenário onde atores não estatais (como corporações ou milícias) ganham mais influência. Em seu livro A quarta teoria política, ele defende um multipolarismo imperialista, onde várias civilizações e potências regionais competem pelo poder. Nesse contexto, é possível imaginar que forças militares privadas ou semiprivadas possam surgir não apenas como atores importantes, mas facções determinantes, ainda quando invisíveis, em regiões onde o Estado é fraco ou falido.
O que estamos testemunhando é a emergência de uma nova forma de totalitarismo, que se apropria da linguagem da liberdade para justificar a dominação. Assim como a frase escrita no portão de entrada do campo de concentração de Auschwitz I, na Polônia, “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta), o culto ao trabalho e à democratização da fortuna é só um ardil para a cooptação do alienado. Esse projeto não é apenas uma ameaça teórica; ele já está em andamento, moldando as estruturas econômicas, políticas e culturais de nossa sociedade. A fusão entre o autoritarismo racial do nazismo e o individualismo extremo do libertarianismo é uma distopia encarnada onde a liberdade é redefinida como ativo, a desigualdade é celebrada como graça e a humanidade é dividida entre uma elite “melhorada” e uma massa descartável.
A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.Oscar Wilde
Reza a história que, no final da década de 70, uma revista terá publicado um anúncio singelo: “Procura-se tipos macho: devem dançar e ter bigode”. Os Village People eram, até então, um projeto de sucesso marginal liderado por um produtor, Jacques Morali, e um vocalista, Victor Willis. O propósito era alargar a formação com algumas personagens alinhadas com a cena disco que então tomava conta da noite gay nova-iorquina. O resultado do casting tornou-se um sucesso de massas: a acompanhar Willis, o polícia, passaríamos a ter um bombeiro, um índio, um canalizador, um motard, um servente e um cowboy.
Com uma estética saída das ilustrações de Tom of Finland, o novo elenco da banda não escondia ao que vinha, remetendo para um cruzamento explícito entre estereótipos da identidade masculina norte-americana e a sua transmutação em fantasias homoeróticas. A ausência de subtileza visual, acompanhada pelo denominador mínimo do disco sound, catapultou o projeto para as tabelas de vendas e para uma certa ubiquidade mediática. O segundo álbum, sintomaticamente intitulado Macho Man e, depois, em particular, YMCA, com a sua coreografia criada espontaneamente numa apresentação televisiva, persegue-nos até hoje.

Talvez o termo perseguição seja agora ainda mais apropriado: YMCA, antes apenas uma manifestação que trazia à superfície, com ligeireza doméstica e pueril, um universo subterrâneo que habitava Greenwich Village (zona franca da cultura gay, então na ressaca dos motins de Stonewall), transformou-se, pela mão de Trump, em hino do movimento MAGA.
Há, de fato, um estranho caminho que vai dos Village People à atual coligação de interesses contraditórios entre oligarcas do tecnofeudalismo, vestidos sombriamente, e tradicionalistas neoreacionários, nascidos das cinzas do Tea Party. Mas poucos momentos tornam tão visível a força dessa coligação como quando, num dos eventos da longa tomada de posse, Trump, em palco com uma versão reformada da banda, arrisca uns tímidos movimentos de dança, ao som de YMCA, perante uma plateia de anglosaxónicos brancos e protestantes.
Podemos tomar esta apropriação de um hino gay apenas como um momento de divertimento, desprovido de sentido político-cultural. Temo que não seja assim. Logo a abrir a canção surge um apelo aos “jovens rapazes” para “encontrarem muitas formas de se divertirem”. Ora, como António Guerreiro recordou na semana passada no PÚBLICO, há todo um imaginário preenchido por fantasias de dominação masculina que ajuda a compreender a nova modalidade de poder político-financeiro, inscrita, uma vez mais, nos corpos e nos afetos – e, acrescento, no divertimento. Não estamos face a uma novidade histórica, basta recuperar as descrições particularmente gráficas de Jonathan Littell em As Benevolentes.
Para compreendermos a sinistralidade moral a que temos assistido, é incontornável refletir sobre a preocupação MAGA com a masculinidade de balneário e a ideia de que os homens necessitam de competição e de alguma dose de violência para não se sentirem perdidos. Mark Zuckerberg, em registo pós-choninhas, recorda isso mesmo num curto vídeo em que, enquanto alinha pela nova ortodoxia libertária na gestão de conteúdos online, se rebela contra a falta de “energia masculina” nas redes sociais e o consequente risco de “castração”. Paradoxalmente, na sua duplicidade sexual e comicidade, os corpos másculos dos Village People ajudam a cimentar hipocritamente a coligação que sustenta Trump, que tem no ressentimento masculino o seu elo. Quem poderia antecipar?
A coalizão das big techs com o governo Trump é um tema inesgotável. Estava precisamente pensando nelas quando estourou o caso da DeepSeek, startup chinesa que fez as empresas de tecnologia dos Estados Unidos e da Europa perderem US$ 1 trilhão em valor de mercado porque demonstrou que pode fazer mais na inteligência artificial com menos dinheiro.
A empresa chinesa tem seus pontos vulneráveis, e um deles é não responder a questões políticas proibidas pelo Partido Comunista. Mas não deixa de ser um incentivo para os que têm condições de buscar um caminho autônomo.
Quando aconteceu esse pequeno terremoto no Vale do Silício, eu refletia sobre uma frase enigmática de Elon Musk na posse de Donald Trump. Ele disse que a conquista de Marte salvaria a civilização. Já mencionei o desejo de Trump pela Groenlândia e cheguei à conclusão de que talvez ele não seja tão negacionista assim. Musk, que produz carros elétricos, conta com a colonização do espaço como alternativa ao nosso planeta.

É muito provável que a visão dominante entre as big techs conte com a futura impossibilidade da vida na Terra e pense uma fuga para a frente em duas direções: a colonização do espaço ou um avanço tecnológico que reformule completamente o planeta e o torne habitável, apesar de toda a destruição.
Em ambos os casos, os ecologistas que propõem uma revisão da forma de consumir e produzir são vistos como nostálgicos retrógrados. Há até intelectuais que consideram a ecologia o novo ópio do povo.
Nessa formulação meio science fiction, não só o mundo será remodelado pela tecnologia. Ela também ampliará a vida dos seres humanos e mais adiante os imortalizará, codificando a consciência em aplicativos para uma eventual reencarnação em corpos sintéticos.
O sonho de recriar um planeta por meio da tecnologia já foi mencionado por John Gray como uma espécie de solidão radical. Um exemplo do que nos espera pode ser encontrado no livro de Rachel Carson “Primavera silenciosa”. Inspirador de muitos ambientalistas, fala da desaparição dos pássaros numa área contaminada por agrotóxicos.
Claro que a tecnologia pode reproduzir o canto dos pássaros, o barulho da chuva e outros artifícios que já existem nos nossos telefones. Mas alguns problemas decorrem dessa fuga adiante, a produção desenfreada que esses teóricos veem não só como destino humano, mas também como base da felicidade.
Um deles é o tempo. A multiplicação de eventos extremos, o crescente número de refugiados do clima, os problemas de saúde e alimentação que decorrem do aquecimento — tudo isso não pode esperar uma utopia duvidosa do sonho de consumo ilimitado. Estou apenas alinhando a existência dessas posições para acentuar que nem sempre estamos lidando com negacionistas do tipo Jair Bolsonaro.
Muito possivelmente, os ventos do Norte nos trazem uma nova concepção a discutir, segundo a qual o aquecimento existe, mas é preciso produzir e esgotar os recursos planetários porque a tecnologia encontrará resposta, e uma fração da humanidade sobreviverá não só para desfrutar esse futuro solitário ou, como alternativa, se mudar para Marte.
É importante registrar que um setor da esquerda também adota uma teoria da aceleração. Ele combate os ambientalistas com o argumento de que é preciso acelerar o capitalismo em busca de uma alternativa. Frear a desgovernada máquina do crescimento econômico apenas nos prenderia ao passado, fantasioso e injusto.
Minha intuição a partir da frase de Musk e do interesse de Trump pela Groenlândia é que estamos diante de políticas que, de certa forma, foram antecipadas pela teoria, sobretudo nos Estados Unidos.
Fernando Gabeira
*Uma análise brilhante dessas correntes de pensamento encontra-se no livro dos brasileiros Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro “Há mundo por vir?”
A maior preocupação da plutocracia que acaba de chegar ao poder com Trump é hoje a imortalidade. Jeff Bezos, da Amazon, pesquisa o elixir da juventude, enquanto Sergey Brin e Larry Page, donos da Google, concentram-se numa startup ("Calico") cujo objetivo é "matar a morte". Mas há colaterais de menor porte: movidos por achados arqueológicos, cientistas vêm se declarando prontos para ressuscitar animais extintos, do mamute ao pássaro dodô. O DNA das fezes e do vômito de dinossauros é o caminho técnico.
O dodô existia até o século 17 nas ilhas Maurício, no Índico, desaparecendo 100 anos após a chegada dos humanos. Anacronismo vivo, semelhante a um pombo de um metro de altura, tinha asas, mas não voava, não tinha medo de humanos, nem sequer de marinheiros esfomeados. Foi caçado até o último exemplar, mas ficou como símbolo da indiferença suicida. Ressuscitar o extinto é só uma variável dos projetos de extinção da morte.

O documentário "Eternal you" mostra a IA simulando conversas de vivos com mortos. Mas o passado projeta-se também para iluminar aspectos obscuros de identidades culturais presentes. É que, em matéria de evolução, não existe escala única como padrão hierárquico para os diversos modos de existência. Técnicas e objetos sempre foram vetores de energia em culturas tradicionais, como entre os europeus, com o diferencial do grau de desenvolvimento das forças produtivas. O que era sagrado e festivo perdeu a vez para o mercantilismo.
É preciso, assim, distinguir formas holísticas de vida nas sociedades tradicionais das formas mortas que rondam a atualidade. Hoje se assiste a uma mutação radical na espécie humana, em que são convergentes criação orgânica e criação artificial: tecnologia não é mais um outro do humano, é também o seu constituinte. São metamorfoses que ainda não se medem cientificamente, mas podem ser sentidas no cotidiano.
Ou assustadoras sob formas caóticas. Uma delas é a obsessão com identidades mortas, tematizadas no imaginário como mortos-vivos, infecciosos e mortíferos. Fantasias do medo radical, que é o medo da morte. E a solução fantasiosa para a ameaça é sempre o emprego de armas, cada vez mais criativas e poderosas. Coisa natural para os americanos, cuja cidadania está ancorada no passado miliciano da independência e da guerra civil. Arma virou agora fonte de identidade. No Natal, pais deram pistolas verdadeiras de presente a crianças de seis anos.
Esse fascínio atemorizado pela morte decorre de uma alergia à vida, por um mal-estar civilizatório insuperável, já que a prosperidade predatória é outra face da morte do planeta. A Constituição americana consagra o direito individual de busca da felicidade, mas o país é sem alegria real, pois alegria ensina que felicidade é comunhão de vida. Importam apenas negócios e, agora, esperança de futuro em Marte com o homem imortal, o cyborg, pesquisado por Musk. Vale perguntar o que nós mortais temos a ver com isso. Nada, responderia o bom senso. Mas a ultradireita sempre encontrará nas redes o vômito de algum dinossauro político para o DNA da mistificação. Por isso é bom ter em mente que, no regime "imperial libertário" tramado pelos plutocratas, democracia é o pássaro dodô da vez.
Na periferia de São Paulo espalhou-se pelo boca a boca que qualquer um poderia “vender sua íris” por R$ 500 nas lojas de um aplicativo de celular chamado World. A notícia logo chegou às autoridades e pautou a imprensa. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados pediu esclarecimentos à empresa. A imprensa cobriu a história com certa dificuldade técnica e uma saudável dose de desconfiança. Afinal, porque uma empresa americana, fundada por Sam Altman, do ChatGPT, pagaria ao brasileiro que quiser escanear a sua íris?
A empresa em questão se chama Tools for Humanity (Ferramentas para a Humanidade) e oferece o equivalente a R$ 500 em criptomoedas a quem fizer a verificação de humanidade única por meio do World.
A Tools for Humanity criou um protocolo de prova de humanidade única por meio do escaneamento da íris humana, traço biométrico mais preciso que a impressão digital. O protocolo certifica que determinada pessoa é um ser humano único — e não um robô de inteligência artificial. A empresa argumenta que, entre outros potenciais usos, isso poderia ser útil caso plataformas como X adotassem o sistema, marcando contas verificadas como operadas por humanos, em contraste com contas automatizadas./i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/9/d/7mNFVNRkixeRUmnFkOzg/105093837-files-this-illustration-photograph-taken-with-a-macro-lens-shows-an-openai-logo-reverse.jpg)
O protocolo implementa uma série de medidas de segurança para proteger esse dado biométrico sensível. Primeiro, o usuário cria uma conta num aplicativo móvel. Em seguida, deve se dirigir a um ponto de certificação para escanear sua íris usando um dispositivo futurista chamado Orb. Em São Paulo, há 54 lojas onde o escaneamento pode ser agendado.
No momento do escaneamento, a íris é convertida numa sequência, um código único que, segundo a Tools for Humanity, não é armazenado nem no Orb nem em servidores. O que é armazenado é uma chave derivada, produzida com técnicas criptográficas de mão única. Ela funciona como um identificador único, distinto do sequenciamento da íris. Se a mesma pessoa tentar se registrar novamente, o sistema gerará uma chave semelhante, permitindo detectar e impedir cadastros duplicados. No entanto, como essas técnicas criptográficas modificam o código e operam apenas em uma direção, não é possível reconstruir o sequenciamento original da íris a partir da chave derivada. Isso garante que os dados biométricos do usuário permaneçam protegidos. É um sistema engenhoso e, até onde posso ver, seguro.
A controvérsia nas ruas e na imprensa se concentrou na privacidade dos usuários, seja pelo medo popular de “vender a íris”, seja por preocupações mais técnicas das autoridades de dados a respeito da robustez do sistema de proteção à privacidade. Embora a proteção de dados biométricos mereça preocupação, a inquietação deveria estar voltada aos propósitos obscuros: por que um projeto com aplicações potenciais tão vagas escalou com velocidade tão rápida e recebeu tamanho investimento?
Como incentivo à adesão, quem fizer a prova de humanidade receberá cerca de R$ 500 na criptomoeda do projeto, a World (a conversão para reais é simples e pode ser feita alguns dias depois do escaneamento). Só no Brasil foram certificadas cerca de 500 mil pessoas e, portanto, distribuídos R$ 250 milhões. No mundo todo, foram certificadas quase 11 milhões. Significa que foram distribuídos centenas de milhões de dólares em criptomoedas e outros prêmios. Não foi só em São Paulo que a expansão da certificação a partir de populações pobres gerou apreensão. Aconteceu o mesmo na Cidade do México, em Buenos Aires e em países africanos, onde as recompensas eram de menor valor.
Os objetivos declarados do projeto são bastante vagos, e esses propósitos nebulosos, combinados com o altíssimo investimento, despertam suspeitas justificadas. Em algumas entrevistas, um dos fundadores do projeto, Sam Altman, CEO da OpenAI (empresa que faz o ChatGPT), sugere que a Tools for Humanity está criando o que pode ser a infraestrutura tecnológica da Renda Básica Universal — uma política de transferência de renda, como nosso Bolsa Família, mas sem qualquer tipo de condicionante, para todos os cidadãos. No Brasil, a ideia é historicamente defendida por Eduardo Suplicy. Altman é um entusiasta da Renda Básica Universal e acredita que sua adoção política será necessária para mitigar a destruição de empregos que a inteligência artificial acarretará. Com o protocolo da Tools for Humanity, haveria uma identificação de cada ser humano e uma carteira digital para a qual transferir os valores dessa renda básica.
Pode ser que o objetivo da Tools for Humanity seja nobre e altruísta como seu nome — mas, se é assim, por que a falta de transparência? Pode ser também que busque apenas difundir o uso da criptomoeda do projeto ou tenha outro propósito que não se pode ainda ver. Seja como for, expandir a adesão a um protocolo por meio de uma campanha que explora a vulnerabilidade econômica dos pobres em países em desenvolvimento certamente não parece ético.
Pablo Ortellado