sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Tecno-Apocalipse: a era das Redes Sociais

Em 1959, Günther Anders fez um discurso na Freie Universität Berlin que foi posteriormente publicado como “Teses para a Era Atômica”, no qual ele analisou o impacto apocalíptico da bomba nuclear na política. As reflexões abaixo, inspiradas por esse texto, abordam algumas das consequências da ascensão das plataformas sociais desde 2008 no mesmo âmbito. Enquanto as plataformas de trabalho são amplamente analisadas e criticadas pela precarização do trabalho que produzem, as plataformas sociais permanecem, apesar do reconhecimento generalizado de seus efeitos nocivos para a sociedade, o grande consenso do realismo capitalista atual, para usar a expressão de Mark Fisher. O objetivo aqui não é comparar as redes sociais ou as plataformas com a bomba atômica de forma literal, mas reconhecer seu efeito profundo e, até agora, irreversível na política.

Essas teses, embora teóricas, provêm de uma realidade muito empírica e fatual. Quando Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018 no Brasil com uma campanha de mídia social muito bem-sucedida, e os escândalos da Cambridge Analytica vieram à tona, o Brasil tornou-se um case de estudos global no que se refere à ascensão da extrema direita, um laboratório para o que chamo de “neofascismo de plataforma”, uma tendência imbutida nas novas tecnologias digitais e fomentada por nossas práticas cotidianas. Isso gerou uma espécie de apocalipse tecnológico, que, embora não seja advindo de uma bomba, pode, no entanto, produzir genocídios, como aconteceu no Brasil durante a pandemia da covid-19, em Mianmar em 2017 e na Índia sob o governo de Narendra Modi.


A crise de 2008 remodelou de vez nosso mundo digital, dando origem a uma nova era de capitalismo monopolista. Intelectuais como Yanis Varoufakis, Cédric Durand e Jodi Dean chegam até mesmo a apontar para uma mudança no nosso modo de produção atual (isto é, uma mudança na organização social e econômica) do capitalismo para o “tecnofeudalismo”. A digitalização e a plataformização não são apenas um novo “modelo de negócios”, como pregam o Vale do Silício e suas variantes ao redor do mundo, mas sim um novo cercamento dos mercados (até mesmo o mercado de trabalho), de modo que a privatização desses mercados aniquila o princípio de competição inerente a eles. Mas não são apenas os mercados que são cercados, mas também nossas formas primárias de sociabilidade, cultura, educação, comunicação, e, mais importante, a política. A nova infraestrutura digital tornou-se a principal forma de organização política da direita. Desde o boom das redes sociais, governos de direita se proliferaram em todo o mundo em uma escala nunca vista antes. Esse aparato não apenas conectou grupos que antes eram apenas marginais, mas constitui a base de uma direita internacional globalizada neofascista. Mesmo defendendo o nacionalismo na maioria dos países, eles compõem o movimento social mais importante (em termos eleitorais) sem fronteiras de nosso tempo. Altamente organizados pelas versões locais de um novo partido de massas digital que atua através de uma máquina de propaganda pervasiva e ostensiva, esse movimento lucra amplamente com a lógica algorítmica que compõe as redes sociais e transforma a linguagem política atual na linguagem da publicidade na qual se amparam essas plataformas. Como argumenta Cathy O’Neil, os algoritmos tornaram-se as novas armas de destruição em massa. Como a destruição de Hiroshima tornou-se algo que pode ocorrer em qualquer lugar do mundo após o advento da bomba atômica, o neofascismo político do Brasil, dos Estados Unidos e da Índia torna-se uma possibilidade muito provável para outras democracias no mundo após a ascensão das redes sociais. O neofascismo de plataforma é uma condição mundial.

As redes sociais não são um instrumento; são um conjunto de monopólios. Nunca na história, a proposta de Marshall McLuhan de que “o meio é a mensagem” foi tão verdadeira. Assim como a bomba atômica não é uma possibilidade de paz, mas sua própria impossibilidade, as redes sociais não são uma possibilidade de ampliar a democracia, mas um de seus principais fatores destrutivos. Os alegados efeitos progressistas que elas podem ter na política são de longe superados por sua capacidade de erosão democrática. As redes sociais não são apenas “tecnologia pura”. É uma tecnologia inserida dentro de uma lógica de plataforma que dita a forma da nossa sociabilidade atual, mesmo que sejamos levados a acreditar que produzimos seu conteúdo. Embora isso pareça absolutamente plausível, é enganoso dizer que as redes sociais existem em nossa situação política. Esta afirmação deve ser invertida para se tornar verdadeira, como diz Anders sobre a bomba atômica. Como a situação política hoje é altamente determinada e definida pela existência das redes sociais – que cercam a esfera pública e o debate político, nossas formas de interação e subjetivação, a forma como nos informamos (especialmente as gerações mais jovens, como vemos agora com a campanha bem-sucedida da AfD no Tik Tok), e a maneira como fazemos política – é preciso reconhecer que as ações e desenvolvimentos políticos de nossa era estão ocorrendo dentro de uma situação de redes sociais, de plataformas sociais, não o contrário. O problema não é apenas o Twitter ou Elon Musk, mas a situação em si. Apesar dos efeitos catastróficos que essas plataformas têm causado, há uma espécie de consenso tecnológico que impede qualquer tipo de crítica. Apesar de todas as posições neofascistas de Elon Musk, ninguém discute o boicote de uma rede como o X – o maior sucesso dessas empresas foi vender o seu negócio como liberdade de expressão. Não há acordo sequer sobre sua regulação em círculos de esquerda. Como argumentei aqui antes, o aparato de plataforma atual realizou o sonho erótico do anarcocapitalismo. Uma das principais características do capitalismo digital é eliminar a função mediadora do Estado e das instituições estatais em múltiplas esferas. As criptomoedas eliminam o papel das regulamentações financeiras estaduais, as plataformas de trabalho contornam as legislações trabalhistas e as redes sociais dispensam qualquer e todo controle democrático sobre o debate político. A chamada tecnologia mais avançada de nossa era não é nada mais que um Velho Oeste digital, um conto de Mahagonny, onde a política é feita pelos mais fortes, mais rápidos e mais poderosos, e onde os perdedores são mais uma vez os subalternos, os povos autóctones, a paisagem natural.

Embora propagandeiem que ultrapassam qualquer fronteira, as redes sociais produzem mais divisões sociais e políticas do que qualquer outra tecnologia anterior a elas, pois não são apenas uma tecnologia, mas um monopólio digitalmente controlado de nossas formas de política. Em suas “Teses,” Günther Anders afirmou que a bomba atômica de alguma forma desconectou a violência e o ódio, transformando a guerra em um assunto impessoal. Segundo ele, “como os alvos do ódio artificialmente fabricado e o alvo dos ataques militares serão totalmente diferentes, a mentalidade da guerra se tornará realmente esquizofrênica.” As redes sociais assumiram o papel de reorganizar o ódio (as comunidades incel, os movimentos digitais neofascistas, as organizações pró-armas e pró-guerra), reconectando as vítimas do ódio com o ataque militar ou paramilitar a elas. As campanhas digitais que incitam o genocídio na Palestina, são só um dos muitos exemplos disso. O ódio nas redes sociais é a face atual da era atômica. Sua lógica algorítmica se encaixa na dinâmica fascista de “in-groups e out-groups” como uma luva. Isso impede que a sociedade como um todo perceba que, com a bomba atômica e a crise climática, “qualquer distinção entre perto e longe, vizinhos e estrangeiros, tornou-se inválida” e que estamos vinculados não apenas nesta, mas também nas próximas gerações à ameaça de destruição na qual nossa existência está enquadrada.

De acordo com Anders, a possibilidade de acionar uma bomba e não assistir aos seus efeitos, a separação no tempo e no espaço de uma ação e suas consequências, é a versão hiper-pós-moderna do assassinato disfarçado de trabalho ou cumprimento do dever no fascismo. Por trás da ideia de “seguir ordens”, novamente, segundo Anders, esconde-se a isenção do trabalhador de responsabilidade por seus próprios atos, dos quais “simplesmente não pode ser culpado”. Clicar é como apertar o botão de uma bomba. Se o ambiente virtual pode de fato dar a sensação de participação política a pessoas de outra forma excluídas da política, ele também separa a ação e a sua consequência no espaço e no tempo. Apertar um botão e pressionar uma tecla são atividades semelhantes agravadas pelo fato de que, no segundo caso, o caráter virtual da ação faz parecer que suas consequências não são verdadeiras. Isso é válido tanto para o indivíduo isolado que repassa uma fake news, como para as fazendas de cliques usadas para disseminar notícias falsas e eleger governos de extrema direita, bem como para a formação de “in-groups” que atacam mulheres, pessoas racializadas, LGBTQIA+ e estrangeiros a ponto de provocar feminicídios, queercídios e até genocídios. O que antes significava ser politicamente crítico e envolvido, isto é, engajado, agora é uma expressão que designa nossa participação em um aparato que é político até o cerne, mas cuja política é coberta por um véu tecnológico. As redes sociais substituem a ação por um engajamento que impede qualquer ação real enquanto, ao mesmo tempo, produzem uma forma de política que parece desaparecer no espaço temporal que separa os cliques e as suas consequências finais. Como Anders afirmou sobre a bomba atômica, “esta, então, é nossa situação absurda: no exato momento em que nos tornamos capazes da ação mais monstruosa, a destruição do mundo, as ‘ações’ parecem ter desaparecido. Como a mera existência de nossos produtos já prova ser ação, a pergunta trivial de como devemos usar nossos produtos para ação é quase fraudulenta, pois a pergunta obscurece o fato de que os produtos, por sua mera existência, já agiram”. Em 2024, metade das interações na internet será por e com bots. Nosso futuro deve ser decidido por isso?

Enquanto a mudança climática reforça o Endzeit e faz de nosso presente a última era em muitos sentidos, o tempo que passamos rolando os feeds nos aprisiona na temporalidade vazia das plataformas das redes sociais, tornando-nos cada vez mais incapazes de perceber o que produzimos como sociedade, de ouvir o que Anders chamou de “a voz muda de nossos produtos.” A era da informação se torna a era da ignorância, e nossa situação como “utópicos invertidos”, isto é, incapazes de ver o que já fizemos, é combinada com a perda de nossa capacidade de imaginar o que poderíamos fazer. Para escapar desta situação, devemos primeiro nos perguntar, sem medo da resposta: existe alguma possibilidade de emancipação dentro deste aparato e situação? Ser antiapocalíptico, como afirmava Anders, é cultivar a capacidade de temer as consequências das nossas ações passadas e presentes para as gerações futuras. Conter o avanço desse aparato sobre a sociedade, especialmente no Brasil dos próximos anos, é uma tarefa mais que necessária para barrar a extrema direita que continua firme e forte nessas redes e para conceber uma política que seja algo mais que mercadoria e publicidade.

Por um jornalismo menos ofegante

A regra número um do jornalismo é simples: o jornalista não deve ser notícia! Sabemos que já a desrespeitámos algumas vezes, ao longo deste ano, aqui na VISÃO, mas o assunto é sério – tão sério que o primeiro-ministro falou sobre ele novamente esta terça-feira, 8, numa conferência dedicada ao futuro dos media.

Durante o evento, Luís Montenegro reforçou o papel fundamental do jornalismo para a manutenção da Democracia, e elencou uma série de medidas, que podem ser consultadas na página oficial do Governo, para tentar mitigar um problema que, assumiu novamente o governante, é estrutural. Montenegro lamentou que muitas vezes a comunicação social faça um “jornalismo ofegante”, no sentido de tentar ser mais rápido, ao invés de ter a tranquilidade e a calma necessárias para uma análise profunda da realidade. Não está errado, o chefe do Executivo. Mas a velocidade do mundo tem, inevitavelmente, contagiado os jornalistas, que cada vez chegam a menos pessoas, alimentam mais plataformas, recebem menos e trabalham mais. As empresas de media transformaram-se em máquinas que tentam fazer dinheiro num negócio que poucas vezes o conseguiu – perceber isso era meio caminho andado para abordar o assunto de outra forma.


Pensar em programas de literacia mediática para os alunos do Ensino Secundário parece visionário, mas na Finlândia esse cuidado é tido a partir do Ensino Básico – com crianças de telemóvel e ecrãs na mão desde que nascem, chegar ao Secundário sem saber distinguir a verdade da mentira é uma tragédia para a democracia. A proliferação de canais de informação nas redes sociais, sem fontes fidedignas e com a ajuda de algoritmos que disseminam mentiras como se fossem verdades absolutas, não vai abrandar. A única forma de garantir que a verdade continua a ser vista como tal é dando às pessoas ferramentas para identificar os factos não verificados. E as fontes falsas da informação que recebem.

No mesmo sentido, os incentivos à assinatura de jornais e revistas são de louvar, mas continuam a ser insuficientes: porque, se não há hábitos de consumo de informação desde cedo, eles não vão vingar no futuro. E não chegam para financiar empresas deficitárias (como é o caso da dona da VISÃO). Se os media são um pilar da Democracia, devem ser tratados como tal: com os apoios certos, universais e transversais. Devem ser alvo de políticas públicas sérias, com regulação apertada e com objetivos concretos. Com leis que incentivem o mecenato e o investimento num setor que, se é tão fundamental como se diz, não pode ser deixado ao abandono, nem tratado como outro qualquer.

Os governos têm sempre muito medo de que se diga que estão a interferir nos media. Como se os media não tivessem capacidade para controlar essa pressão – é esse o nosso trabalho. E como se alguns dos mais respeitados meios não fossem totalmente públicos: veja-se o exemplo da RTP, da BBC, da France TV…

Graças a esse medo, os sucessivos executivos nacionais deixaram os media definhar, apontando agora problemas estruturais que existem e foram identificados há anos, e para os quais foram devidamente alertados. É muito bom ver um Governo comprometido, finalmente, com medidas concretas. Mas temo que, se não houver rapidamente um esforço mais musculado, sobrem poucos meios para defender a Democracia daqui a muito pouco tempo.

Bolsonaro continua impune

O primeiro turno das eleições municipais confirmou que Bolsonaro sobrevive como ator influente e capaz de forjar eleitos pelo país. Não sabemos a exata medida dessa influência antes do resultado do segundo turno, mas a conclusão é incontornável.

Depois do mais radical período de delinquência governamental em muitas gerações, tudo que o sistema de Justiça brasileiro conseguiu realizar, em relação ao líder do movimento, foi declarar sua inelegibilidade por oito anos em razão de ataques à urna em reunião com embaixadores e do uso político das comemorações do Bicentenário. O TSE não se pronunciou sobre outros crimes eleitorais. O PGR nem sequer provocou o STF a julgar crimes comuns.

A falta de responsabilização justa e robusta de agentes que evisceraram as capacidades de o Estado executar políticas públicas e atentaram contra o regime democrático é convite a que essas práticas se repitam. O argumento é tão trivial quanto correto. Está em todas as cartilhas da resistência democrática contra a terceira onda global de autocratização da qual o Brasil não se apartou.

Não é surpresa que, por baixo do alarde sobre "punição exemplar" pelos crimes de 8 de janeiro, nessa simulação teatral de uma heroica "recivilização" dos radicalizados, o STF tem se esmerado mesmo é em punir peixes pequenos. A investigação de militares, políticos e empresários segue na gaveta.


Lambaris vão caindo na rede, tubarões continuam nadando. E o STF se orgulha da corajosa façanha. Não deixa de ser fiel à tradição do Judiciário brasileiro, para quem sempre foi mais fácil punir quem carece de força política, econômica e social; mais difícil punir quem frequenta as suas rodas de convívio real e simbólico, quem pode pagar o arsenal de chicanas advocatícias geradoras de atraso, prescrição e impunidade.

Importante entender que a anistia a Bolsonaro, pelo menos em parte, já aconteceu. O primeiro operador dessa anistia não declarada foi Augusto Aras, por meio de arquivamentos alegando de falta de provas (apesar dos quilos de provas produzidas pela CPI) ou a não tipicidade criminal da conduta (como a ideia de que presidente é agente político "sui generis" e não comete prevaricação).

Gonet, atual PGR, precisaria de vontade, coragem e criatividade jurídica para reabrir e questionar a "coisa julgada" do que Aras trancou. Mas há outra lista de acusações criminais que Aras não pôde arquivar. Envolve peculato, falsidade ideológica, atentado violento contra o Estado de Direito, tentativa de golpe de Estado, organização criminosa. Não é modesta a xepa do fim da feira criminal.

Alexandre de Moraes, em seus inquéritos, acumulou poder cautelar para interferir no extremismo político. E em práticas nem tão extremistas assim. Um poder excessivo, excepcional e perigoso, mas que não inclui o poder de denunciar criminalmente.

Para que o STF possa julgar Bolsonaro, Gonet precisa denunciar. Ele declarou, dia desses, que iria "deixar para depois da eleição". Diz não querer se meter na política. Se bobear, vai também esperar a eleição americana. Não percebeu que, ao desobedecer dever funcional de denunciar um investigado assim que as provas estejam maduras, interfere decisivamente na política e sonega do eleitor informação a que tem direito.

Conrado Hübner Mendes

A guerra


A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Apelo de Netanyahu ao povo libanês cai em ouvidos moucos em Beirute

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, apelou diretamente ao povo do Líbano em um vídeo publicado na terça-feira, dizendo-lhes para se voltarem contra o grupo xiita Hezbollah, apoiado pelo Irã, ou correrem o risco de uma destruição na mesma escala de Gaza.

“Cristãos, drusos, muçulmanos sunitas e xiitas, todos vocês estão sofrendo por causa da guerra fútil do Hezbollah contra Israel”, ele disse. “Levantem-se e tomem seu país de volta.”

Mas nos bairros xiitas, sunitas e cristãos de Beirute, na manhã de quarta-feira, o apelo de Netanyahu estava caindo em grande parte – se não totalmente – em ouvidos moucos.

“Sim, ouvimos o discurso, mas ninguém aqui escuta Netanyahu”, disse Yusuf Habbal, 31, enquanto cortava pedaços do doce tradicional libanês Kunafah em sua loja em Tariq El Jdideh, uma área sunita.

“Ninguém disse a Netanyahu para ocupar a Palestina, ninguém disse a ele para ocupar o Líbano. São os israelenses que estão conduzindo esse conflito.”

Bombardeio de Israel, sem aviso, no Centro de Beirute

Mas Habbal e seus companheiros sunitas “também não aceitam o que o Hezbollah está fazendo”, disse ele.

“Antes que Netanyahu falasse sobre o Hezbollah, nós éramos contra eles. O povo de Beirute sabe que o Hezbollah tem sua própria agenda. E agora eles estão nos levando para uma guerra que não queremos.”

“Ninguém aqui escuta Netanyahu”, diz Yusuf Habbal em sua loja em Beirute

O Hezbollah, que é uma força mais bem armada e poderosa no Líbano do que o próprio exército do país, começou a disparar foguetes contra o norte de Israel há um ano, em apoio ao Hamas, no dia seguinte ao brutal ataque de 7 de outubro.

Os foguetes do Hezbollah sinalizaram o início de uma nova fase de seu confronto com Israel. No mês passado, Israel intensificou esse conflito latente quando expandiu sua campanha de bombardeios no Líbano, incluindo Beirute, antes de lançar uma invasão terrestre no sul do país.

“Eles estão atacando muito perto de nós agora e é assustador”, disse Mohammed Khair, 43, enquanto cortava o cabelo em uma barbearia em Tariq El Jdideh.

“Ninguém aqui quer essa guerra, mas ninguém vai se voltar contra o Hezbollah por algo que Netanyahu disse em um vídeo”, disse ele.

Netanyahu estava “sempre falando com os palestinos, com os libaneses”, disse Tarraf Nasser, um aposentado de 76 anos que estava passando pela barbearia. “Ninguém escuta Netanyahu”, ele disse. “Ele não está realmente falando conosco.”

Fadi Ali Kiryani do lado de fora de sua loja em Beirute. "Nós sempre hastearemos a bandeira do Hezbollah", disse ele

Em Achrafieh, o principal bairro cristão de Beirute, havia uma sensação de futilidade quanto à capacidade do povo libanês de seguir os conselhos de Netanyahu, mesmo que quisessem.

Antoine, um aposentado católico de 75 anos, que pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, estava fumando um cigarro do lado de fora do Brewholic Café do bairro.

“Benjamin Netanyahu é o primeiro-ministro de Israel, não do Líbano. Ele deveria cuidar do seu povo, não do nosso”, disse Antoine.

“Ao mesmo tempo, é verdade que temos que fazer algo para nos libertar da influência do Irã. Mas não temos armas e não temos políticos que possam ser verdadeiramente libaneses. Todos os nossos políticos são afiliados a outros estados ou grupos, principalmente o Irã."

Ninguém no Líbano teria conflito doméstico porque Netanyahu os instruiu, disse Antoine. “Faremos isso por conta própria.”

Do outro lado da rua, em sua sapataria, Maya Habib, 35, deu de ombros cansados ​​ao apelo em vídeo do primeiro-ministro israelense. “Todo mundo aqui sabe que Israel mente”, ela disse. “Mas ouça, talvez ele tenha razão. Ele avisou a todos – não nos ataquem, não cheguem perto de nós, e esta não será sua guerra. Agora é.”

Entre os cristãos de Achrafieh, “as pessoas estão prestando atenção” a Netanyahu, disse Habib. “Mas ninguém pode fazer nada de qualquer maneira”, ela disse, dando de ombros novamente. “Nós nem temos um presidente. Netanyahu está dizendo que todas as armas devem ir para o exército libanês, mas como?”

Ali Srour, 24, dono de uma joalheria. "Ninguém realmente se importa conosco", disse ele

O Hezbollah ainda pode contar com apoio firme nos bairros onde é a força dominante na vida política e social, e entre as comunidades xiitas de áreas mistas. Vários moradores xiitas do bairro Mar Elias disseram que estavam completamente atrás do grupo.

“Somos todos Hezbollah aqui, não importa o que o Hezbollah faça, nós os apoiaremos”, disse Fadi Ali Kiryani, um dono de loja de esquina de 52 anos. Como outras pessoas em Mar Elias, Kiryani disse que não estava preocupado com a ameaça de Netanyahu de que o Líbano sofreria a mesma destruição e sofrimento que Gaza.

“Mesmo que a situação aqui fique pior do que em Gaza, continuaremos a hastear a bandeira”, disse ele.

“Minha casa em Dahieh já foi destruída. Eu preferiria que minha casa desaparecesse do que o sapato no pé de um combatente do Hezbollah fosse danificado.”

Sentada atrás da mesa de sua loja de toalhas e roupas de cama de 40 anos, Fany Sharara, de 75 anos, disse que o Hezbollah era a única força que defendia o povo do Líbano.

“Nada que Netanyahu dissesse poderia mudar minha mente”, ela disse. “Ele é um criminoso, um assassino, ele não pode deixar uma criança viva.”

Israel tinha “toda a Europa e toda a América” do seu lado, Sharara acrescentou. “Estamos com o Hezbollah porque eles são os únicos nos defendendo. Não o governo libanês.”

Algumas portas abaixo, e alguns anos mais jovem, o dono de uma joalheria de 24 anos Ali Shoura estava simplesmente cansado de todos os envolvidos, ele disse. "Ninguém realmente se importa - os políticos, as pessoas no poder, o governo libanês, o Irã, Israel, a América, o Hezbollah também."

Ele balançou a cabeça. “É tudo só teatro”, ele disse. “E nós somos todos as vítimas.”

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Relaxe


 

Acerca do fanatismo

A essência do fanatismo consiste em considerar determinado problema como tão importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do pão ázimo na comunhão do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da península indiana estão dispostos a precipitar o seu país na ruína por divergirem numa questão importante: saber se o pecado mais detestável consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reacionários americanos prefeririam perder a próxima guerra do que empregar nas investigações atómicas qualquer indivíduo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma região. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabatários, a despeito da escassez de víveres provocada pela atividade dos submarinos alemães, protestavam contra a plantação de batatas ao domingo e diziam que a cólera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que opõem objecções teológicas à limitação dos nascimentos, consentem que a fome, a miséria e a guerra persistam até ao fim dos tempos porque não podem esquecer um texto, mal interpretado, do Génese. Os partidários entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a raça humana exterminada pela radioatividade do que chegar a um compromisso com o mal - capitalismo ou comunismo segundo o caso. Tudo isto são exemplos de fanatismo.

Em cada comunidade há um certo número de fanáticos por temperamento. Alguns desses fanáticos são essencialmente inofensivos e os outros não fazem mal enquanto os seus partidários forem pouco numerosos ou estiverem afastados do poder. Os “amish” na Pensilvânia pensam que é mau usar botões; isto é completamente inofensivo, salvo na medida em que revela um estado de espírito absurdo. Alguns protestantes extremistas gostariam de ressuscitar a perseguição aos católicos; essas pessoas só serão inofensivas enquanto forem em pequeno número. Para que o fanatismo se torne uma ameaça séria é preciso que possua bastantes partidários para pôr a paz em perigo, internamente por meio de uma guerra civil ou externamente por uma cruzada; ou quando, sem guerra civil, estabeleça uma Lei dos Santos que implique a perseguição e a estagnação mental. No passado, o melhor exemplo da história é o reinado da Igreja desde o século IV ao século XVI.

Para curar o fanatismo - salvo nas aberrações raras dos indivíduos excêntricos - são necessárias três condições: segurança, prosperidade e educação liberal.
Bertrand Russell, "A Última Oportunidade do Homem"

A revolução dos estúpidos

O Brasil foi às urnas no domingo. Algumas campanhas eleitorais pareciam aquilo que, em inglês, se chama de shitshow. E justamente em São Paulo, a maior cidade da América do Sul, o centro financeiro e econômico do continente, o centro cultural mais criativo do Brasil, pôde-se observar um declínio assustador da cultura política.

Enquanto o Brasil pegava fogo – um novo recorde de incêndios devastava o país – os principais candidatos à prefeitura daquela que supostamente é a cidade mais moderna do país discutiam sobre atestados médicos falsos, atacavam-se com cadeiradas e se xingavam de orangotangos. Esse debate tóxico se deveu sobretudo ao assim chamado coach Pablo Marçal ("coach" de que, afinal?).

O candidato a um dos cargos políticos mais importantes do país parecia um galo de peito inflado – e conseguiu dominar a narrativa. Marçal, que ficou em terceiro lugar na disputa, representa uma nova classe de empreendedores autônomos que enriqueceram com a internet. Eles promovem banalidades e besteiras com total convicção, e provavelmente é isso que se pode aprender com eles: embale bem as besteiras que você for dizer, e as pessoas vão seguir.


No Brasil são milhões de seguidores – que idolatram Marçal porque eles mesmos gostariam de se tornar tão ricos quanto ele, sem esforço e sem conhecimento. Não foi a visão de uma São Paulo mais habitável, mais limpa e mais segura que proporcionou a Marçal cerca de 28% dos votos, mas a ideia de enriquecimento pessoal sem esforço: uma promessa antissocial!
Falando aos frustrados de baixa instrução

Que esse "coach" tenha sido bem-sucedido com injúrias, mentiras criminosas e fazendo papel de vítima é parte de um fenômeno mundial. Ele alegou estar sendo perseguido por um "sistema" ultrapoderoso (políticos, imprensa, Estado, elites) e prometeu a todos que também se sentiam de alguma forma vitimados (e isso vale sobretudo para homens frustrados de baixa instrução) que lutaria contra esse sistema.

Nessa antipolítica, não se trata mais de criar algo para a coletividade, mas de destruir a coletividade, para assim dar a todos os frustrados com a vida as oportunidades que supostamente lhes foram negadas.

Marçal tem um equivalente no candidato a vice-presidente de Donald Trump, J. D. Vance: um oportunista sem princípios capaz de dizer e fazer o que for para tirar vantagens pessoais. Ele mesmo anunciou que ia espalhar mentiras se isso ajudasse a ser eleito. Afinal, o sistema e as elites estão conspirando contra ele e Trump porque eles estariam lutando a favor dos "pequenos", diz Vance.

Na Alemanha, a ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve sucesso eleitoral com mentiras, racismo e retórica antielitista. Ela já mostrou o que pretende fazer se ganhar poder: no novo Legislativo do estado da Turíngia, começou espalhando o caos e provocando tumultos com o único objetivo de prejudicar a credibilidade do parlamento.

Não é coincidência que os nazistas tenham usado esse mesmo método para ridicularizar e, por fim, abolir a democracia. Também então homens jovens, radicalizados, inescrupulosos e ambiciosos chegaram ao poder, e começaram a levar tudo e todos à destruição.

É o próximo estágio do processo de radicalização dessa nova direita vulgar, que não tem mais nada que ver com valores conservadores, mas que luta por uma revolução que vai beneficiar os inescrupulosos, mentirosos e especialistas na autopromoção.

As ferramentas dela são o Instagram e sobretudo o TikTok, esse cavalo de Troia dos chineses. Os revolucionários da direita usam o Tiktok com virtuosismo, são rápidos, eficazes, agressivos, e têm como alvo os corações e mentes de quem nunca aprendeu a ver o mundo de forma crítica.

Sejamos claros: a base eleitoral da "direita revolucionária", do Brasil aos Estados Unidos, passando pela Alemanha, são os estúpidos e os perdedores: sem instrução, irados, frustrados, sem vontade e sem oportunidades – e ávidos por uma oportunidade de extravasar sua frustração com a vida.

O Brasil é um dos países que essa nova direita vê como uma espécie de laboratório. A ascensão de uma figura disruptiva como Marçal prenuncia coisas ruins. O que foi mesmo que Steve Bannon, mentor intelectual do movimento radical MAGA, anunciou numa entrevista ao The New York Times? "Somos o quartel-general militar de uma revolta populista." Era uma ameaça para se levar a sério!

É possível resistir às big techs?

Uma das crenças que costuma percorrer as mentes no Vale do Silício é a da inevitabilidade da tecnologia, ou seja, a ideia de que o progresso acontecerá invariavelmente e que parte de seu impacto será inescapável. É como se o risco da inteligência artificial um dia eliminar milhares de empregos fosse um caminho sem volta. Ou como se o domínio de uma megaempresa que acaba por sufocar pequenos empresários seja uma “disrupção” inquestionável.

O que une Mark Coeckelbergh, professor de Filosofia e Tecnologia da Universidade de Viena, na Áustria, e o escritor Danny Caine, dono de uma livraria em uma pequena cidade americana, é justamente a contraposição a essa suposta irreversibilidade do ritmo (e da forma) que rege o avanço dos algoritmos na sociedade.

Os dois estarão juntos pela primeira vez na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), nesta quinta-feira. Com uma programação mais quente este ano, a 22ª edição do evento pela primeira vez incluiu na programação oficial uma mesa sobre dados e inteligência artificial, com o nome sugestivo de "Dormindo com o inimigo".

Autor de quinze livros de não-ficção no campo da filosofia da tecnologia, Coeckelbergh estuda as implicações éticas da IA muito antes do mundo voltar os olhos ao tema com o lançamento do ChatGPT, em 2022. Ele é pesquisador da Rede Mundial de Tecnologia (WTN) e membro do grupo de especialistas que aconselha a Comissão Europeia sobre Inteligência Artificial.

Dono da Raven, uma livraria independente em Lawrence, no Kansas, Caine tem atuado há anos em defesa dos pequenos comerciantes nos Estados Unidos, e se tornou uma das vozes mais importantes do país em uma espécie de ativismo anti-Amazon. No Brasil, lançou "Como resistir à Amazon e por quê" (Editora Elefante) no ano passado. A obra expõe as entranhas da gigante varejista que tem negócios de comércio eletrônico, IA, logística, segurança, nuvem e entretenimento.

Apesar de atuarem em áreas distintas, ambos refletem sobre como a tecnologia, alavancada pelo poder das grandes corporações, impacta a sociedade. E quais são as saídas para que efeitos colaterais negativos sejam tratados.

Se as IAs estão fadadas a serem cada vez mais parte da vida cotidiana, questões éticas importantes vão precisar ser enfrentadas, argumenta Coeckelbergh no livro “Robôs, Inteligência Artificial e Ética”, lançado no início deste ano pela Ubu.

"Quem é responsável pelos danos da tecnologia quando seres humanos delegam decisões à IA?", questiona o pesquisador no livro. E se o custo de um sistema com bom desempenho é a falta de transparência, devemos usá-lo indistintamente?, pergunta ele em outro trecho.

Publicada no Brasil no início deste ano, mas escrita em 2020, a obra foca em dilemas éticos da IA pré-explosão dos sistemas generativos, como o ChatGPT. O filósofo belga radicado na Áustria explora questões como a responsabilidade moral de decisões tomadas por inteligências artificiais em situações críticas.

Um exemplo é o caso de um carro autônomo que precisa decidir entre diferentes cenários de risco que podem resultar em um acidente. Se salvar a vida do passageiro implica em colocar em risco um pedestre, qual escolha a IA, um sistema que não foi programado para ter um moral, deve fazer?

Quando algo dá errado, é difícil determinar se a inteligência artificial ou outro componente do sistema é o responsável, ressalta o pesquisador. Um desafio adicional é a "caixa-preta" por trás dessas decisões. São processos tão complexos quando opacos, e até mesmo programadores têm dificuldade de explicar exatamente o que levou a determinado resultado, diz ele.

— Esse problema é ainda mais acentuado no caso desses grandes modelos de linguagem (os LLMs, que são os "cérebros" que alimentam ChatGPT e outros). — diz Coeckelbergh. —Se essa tecnologia for usada em governos, por exemplo, para decidir sobre o bem-estar das pessoas ou em seguradoras, para decidir sobre pedidos de sinistros, ela poderá fazer coisas que nem o usuário nem o desenvolvedor poderiam prever.

O autor defende que mostrar como essas tecnologias funcionam é uma forma de capacitá-las a tomar decisões mais conscientes e evitar a dependência cega em sistemas automatizados.

Em “Como resistir à Amazon e por quê", Caine está interessado em "caixas-pretas". Mais especificamente, em expor como a maior varejista digital do mundo trabalha por trás das entregas rápidas e preços baixíssimos no mercado americano. O exemplo que abre o livro é do preço de livros. Um best-seller que está nas prateleiras da Raven está à venda por US$ 26. Na Amazon, pode ser comprado por US$ 9,59. Mas esse mesmo exemplar é vendido pela editora à livraria por US$ 14.

Como a Amazon pode oferecê-lo por um preço mais baixo do que o das próprias editoras o fazem para as livrarias? A empresa de Jeff Bezos pode se dar ao luxo de vender livros com prejuízo porque compensa as perdas com os lucros de outros serviços, como o Prime, lembra ele. A gigante também otimiza estratégias com a coleta de dados dos consumidores (inclusive a partir da Alexa) e com controle de parte do marketplace (a Amazon é tanto plataforma para vendedores como vendedora, o que significa que ela compete com os próprios negócios que estão lá)

— Seus algoritmos podem ser treinados com base nas compras dos consumidores, e isso é muito mais valioso para a Amazon do que os poucos livros que eles venderiam pelo preço cheio. E eles competem no próprio marketplace. Então, é como num jogo de futebol, em que são ao mesmo tempo árbitro e jogador — diz Caine.

O livreiro acrescenta que, nos Estados Unidos, o controle da Amazon sobre o mercado de livros é tão vasto que a empresa acaba por influenciar o que é publicado e como. Se um livro não tiver chance de sucesso na plataforma, uma editora pode ficar menos propensa a publicá-lo, diz.

Caine também aponta outro problema: a proliferação de livros gerados por IA na Kindle Store, que tem "inundado" a plataforma com títulos de baixa qualidade. Esses livros, muitas vezes criados rapidamente, aproveitam a popularidade de temas, autores ou gêneros em alta para "driblar" os algoritmos e aparecerem para os leitores. Isso não apenas confunde o consumidor, mas também torna ainda mais difícil para autores legítimos e livrarias independentes competirem de maneira justa, avalia.

Coeckelbergh diz que as discussões entre os bilionários da tecnologia sobre a possibilidade de a IA um dia superar a mente humana — com a criação da chamada Inteligência Artificial Geral (AIG) — são uma distração dos impactos reais e imediatos que esses sistemas vêm gerando, como a distorção no mercado editorial.

Sobre a entrada dos algoritmos na área, ele lembra ainda que há uma questão sobre o significado da criatividade em um contexto em que máquinas são capazes de reproduzir a linguagem.

— As máquinas, em última análise, se alimentam da criatividade humana como vampiros. Mas mesmo que simulem a criatividade, acabam presas em ciclos baseados em dados do passado. O que os humanos fazem de verdadeiramente novo está enraizado em nossa subjetividade. Mas acho que as pessoas nas humanidades estão sendo desafiadas a isso: o que significa para mim, como escritor, se essas tecnologias também melhorarem?— questiona.

O pesquisador não propõe a interrupção do desenvolvimento da IA, assim como Caine não sugere que as pessoas simplesmente boicotem a Amazon como forma de resistência.

— Não estou dizendo para as pessoas não apoiarem a Amazon. Estou muito mais interessado em dizer: apoie os pequenos negócios na sua comunidade, porque eles vão perceber a diferença. Até mesmo uma única venda de livro pode ser a diferença entre um dia lucrativo e um dia não lucrativo para a livraria — afirma o escritor, que também acredita em uma regulação antimonopolista como caminho para reduzir as distorções no mercado

Para os dilemas éticos que envolvem a IA, Coeckelbergh destaca a necessidade de três pilares: a regulação internacional, uma educação sobre tecnologia e a conscientização crítica dos consumidores da inteligência artificial, em um esforço conjunto que não deixe as decisões apenas na mão das big techs.

—Temos que forçar essas empresas influentes a serem mais éticas e jogarem pelas regras que acreditamos serem boas para as pessoas. E nós, humanos, talvez tenhamos que aprender a moldar nossa vida e a nós mesmos de forma mais consciente, e isso significa ter capacidade de pensar criticamente sobre a nossa relação com a tecnologia.

Juliana Causin 

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Por que o povo não pode jogar?

Descobrimos alarmados que o povão também joga. Que plebeus fregueses de ajuda-esmola governamental garantidora de sua ignorância cívica jogam nas bets, esses cassinos digitais. Alguns reacionários de esquerda e direita estão revoltados e confusos. Não podem proibir a jogatina da internet (onde também fazem sua “fezinha”) nem, tampouco, a aspiração mais que legítima dos pobres de “subir na vida” e sair deste massacrante “populismo de merda”, correndo o bom risco de enriquecer.

Tal como nos contos de fada em que, obviamente, acreditamos quando pensamos em controlar tudo, esses plebeus desejam viver aristocraticamente tendo a liberdade e o direito de jogar. De investir em números, bichos, times, gols ou o que mais apareça, assim como os capitalistas e políticos “aplicam” e especulam nas bolsas de valores, esse coração do sistema econômico em que vivemos. Esse mercado autorregulado — visto por Karl Polanyi como rematada loucura — que hoje governa governos.


Jogo rima com povo e com a carência que, na vida diária, se transforma em ambição, vício ou volúpia de enriquecimento rápido. Aquelas “tacadas” que surgem também nas “rachadinhas” e nos múltiplos privilégios de quem ficou “por cima da carne-seca” por meio da ética da amizade e do jamais criticado e de um eficiente exemplo das infalíveis credenciais do familismo. Sabemos disso, mas, como nobres-reacionários, fingimos não saber que o jogo, como a “boa vida”, não se destina a um “todo mundo” igualitário.

Onde não se joga? Que é a vida senão um jogo? Uma partida sem vencedores porque somos, pasmem, os mandões e poderosos mortais. Numa visada profunda, todas as vidas perdem tanto quanto ganham, mas não deixam de, esperançosamente, apostar em pessoas, negócios

Qual é o ganho no jogo acadêmico e intelectual brasileiro, dentro de um mundo em que o grande lance é “subir na vida” a qualquer preço, como rico ou político, e virar doutor e professor? Fui alertado sobre isso quando verifiquei que alguns dos meus interlocutores do sertão brasileiro não podiam acreditar que eu pesquisava a vida social de “índios”. Para alguns — ou quem sabe todos —, eu procurava ouro, urânio ou diamantes!

Não tenho nada contra esclarecer sobre o jogo nesses cassinos digitais e difíceis de controlar da internet. Minha avô materna, Emerentina, tinha motivo para ter afinidade com o jogo. Ela perdeu o marido assassinado e enterrou muitos filhos. Mas enfrentou o inesperado com outro inesperado: o jogo que oferecia o golpe do enriquecimento numa sociedade em que trabalho ainda é castigo. Uma terra que até hoje não se envergonha de seus abismos sociais e trata seus pobres como “povo” ou “massa”, como um bolo dependente de bolsas-esmola que não devem ser gastas com apostas, porque só os esclarecidos e ricos podem jogar.

Hoje a internet faz o que o jogo do bicho fez na virada no século XIX para o XX. Ela digitalizou e, com isso, popularizou os cassinos, abrindo a todos a vantagem e, mais que isso, o conforto de jogar a qualquer hora, dia e lugar. O susto nacional é, portanto, o susto de um sistema fechado, burro e reacionário com mais um perturbador universalismo. O alarme contra o jogo dos plebeus é a reação de um sistema avesso à mobilidade, à liberdade e à igualdade. Essa estrutura formalista e aristocrática não pode ver o jogo como esperança de subir na vida por apostas (ou investimentos), tal como fazem nossos democráticos governantes, que, aristocraticamente, moram em palácios.

Sem consciência de cidadania, continuaremos tentando progredir na ilusão de que as leis têm mesmo o poder mágico de realizar progresso e corrigir a sociedade e seus costumes. Como se uma abolição jurídica do vício, da ambição e do ideal de enriquecer sem trabalho pudesse ser inibida sem determinação gigantesca num país fabricado por uma aristocracia escravocrata.

Combustível do horror


Israel está se transformando, com velocidade alarmante, em um país que vive de sangue

Gideon Levy

A direita prefere ser chamada de centro para não passar vergonha

Dá para distinguir entre esquerda e direita, esquerda da extrema-esquerda e direita da extrema-direita. Nomes aos bois para que fique mais claro: por exemplo, dá para distinguir Lula (PT) de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo.

O PT pouco tem a ver com o PCO (Partido da Causa Operária), assim como o PSD de Kassab pouco tem a ver com o PL de Bolsonaro e o PRTB de Pablo Marçal. Difícil é fazer tais distinções a cada dois anos quando a data das eleições se aproxima.

Antigamente – e põe tempo nisso -, salvo o Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922, nenhum partido se dizia de esquerda. Se dissesse ou fosse reconhecido como tal, acabaria posto na ilegalidade. Foi o que aconteceu com o PCB.


Antigamente, nenhum partido se dizia de direita. Em tese, todos eram do centro, uns mais, outros menos conservadores. O PSD criado por Getúlio Vargas era o partido para abrigar os patrões, e o PTB para reunir os trabalhadores em torno do governo.

A UDN surgiu à revelia de Vargas para se opor a ele. Uma vez que ele morreu, ela jogou fora a máscara de partido liberal para tentar chegar ao poder com o apoio dos militares. Chegou com o populista Jânio Quadros, que renunciaria à presidências.

Em 1964, os militares extinguiram os partidos existentes e criaram os seus: a ARENA, à direita, para obedecer às suas ordens sem maiores discussões; o MDB, à esquerda, para moderadamente desobedecê-las, desde que não ameaçasse o novo regime.

Raros foram os parlamentares da ARENA que ousaram declarar que eram de direita, embora quase todos fossem; pegava mal. Raros foram os parlamentares do MDB que ousaram declarar que eram de esquerda. Muitos deles, mesmo assim, foram cassados.

Bolsonaro, a partir de 2018, venceu o medo da direita de se dizer de direita. Marçal, este ano, fez a extrema-direita perder a vergonha de apresentar-se como ela é. Bolsonaro, por falta de coragem, deixou a extrema-direita a clamar sozinha por um golpe.

Marçal acolheu-a. E já anunciou que daqui a dois anos, disputará o governo de São Paulo ou a sucessão de Lula. O que a direita não extremista fará se concluir que Marçal é imparável? O que estava pronta para fazer agora: apoiá-lo no segundo turno.

Até lá, a direita posará de centro na esperança de que Tarcísio ceda ao seu apelo para que se candidate a presidente. Ele só cederá se concluir que poderá vencer Lula. Do contrário, será candidato à reeleição. Sem ele, quem teria chances de derrotar Lula?

Se não aparecer outro nome, a direita – ou o centro como ela prefere se chamar -, irá com Marçal. Mandará às favas todos os escrúpulos, como mandou o ministro Jarbas Passarinho ao assinar o AI-5 em 1968, o ato mais violento da ditadura. Você duvida?

Não pague para ver.

Fome

Fui comprar carne, pão e sabão. Parei na banca de jornaes. Li que uma senhora e três filho havia suicidado por encontrar dificuldade de viver. 

A mulher que suicidou-se não tinha alma de favelado, que quando tem fome recorre ao lixo, cata verduras nas feiras, pedem esmola e assim vão vivendo. 

Pobre mulher! Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminar-se, porque as mães tem muito dó dos filhos. Mas é uma vergonha para uma nação. Uma pessoa matar-se porque passa fome. E a pior coisa para uma mãe é ouvir esta sinfonia:

— Mamãe eu quero pão! Mamãe, eu estou com fome!

Penso: será que ela procurou a Legião Brasileira ou Serviço Social? Ela devia ir nos palácios falar com os manda chuva.

A noticia do jornal deixou-me nervosa. Passei o dia chingando os políticos, porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca.
Carolina Maria de Jesus, "Quarto de despejo"

O sonho como única realidade

A política eleitoral sucumbe em prol de si mesma em patética autoidolatria. Tudo se expressa quase que exclusivamente em termos pessoais. Tanta confusão, tão pouca luta! Na deformadora escola de eleições, políticos neófitos e partidos autoritários se esquecem de que ninguém vence eleição sem voto dos adversários. Buscar coalizões fora das urnas produz governos sem reserva de poder autêntico e base instável com partidos adversários.

A redemocratização não surgiu do enterro do coronel, nem de uma ordem nacional competitiva, com regras claras em direção à produtividade econômica, ambiente de paz psicossocial e emancipação cultural. Formou-se aos trancos e barrancos em virtude das deficiências na circulação de classes e a crônica desigualdade social que não permite ao País uma grandeza calma previsível para nenhum setor da sociedade.


Agora, o que se vê, é o desdobramento do sistema eleitoral e partidário não cumprir o papel de revigorar o País. Antes avança voraz para se apropriar do indivíduo isolado sem que as instituições do Estado – igualmente individualistas – possam oferecer em contrapartida a força propulsora da organização coletiva. Neste niilismo avassalador cresce o desmembramento do povo brasileiro, reduzindo-o a tribos, guetos, plateias – forma de dissolver seus laços espirituais e culturais e o enquadrar em círculos de influência ao modo patriarcal e colonialista.

As classes sociais não conseguem mais se manter influentes para modificar e aperfeiçoar a atividade política na direção da república democrática representativa. Vários fatores marcam o País nos últimos anos, com destaque para a religiosidade exaltada e intolerante das igrejas; o mal do século que se tornou o açoite que são as redes sociais e as reformas interrompidas ou deturpadas do modelo político, educacional, jurídico e econômico brasileiro. A precária forma como tratamos problemas estruturais e conjunturais retirou da sociedade a força, o orgulho e o esforço para se projetar na vida pública e atingiu frontalmente o aproveitamento de seus quadros nos processos de gestão do Estado.

Forma estranha de sucesso mistura heresia, decrepitude e zombaria, que desvia a concentração do cidadão da nobreza que é buscar vencer na vida. O trabalho e a riqueza no Brasil não estão no mesmo nível. Não adianta combater bets quando há fortunas tão rápidas que até parecem virtude. Sonhar errado vai continuar a influenciar de forma mística, ingênua ou oportunista pessoas cujo sonho é a única realidade. Startups predadoras, certos açougueiros e sertanejos; não são gênios, nem banqueiros clássicos, industriais pioneiros, inventores, urbanistas ou sanitaristas. Não são especialistas, nem artistas verdadeiros, são o prato principal de animadores do mercado dos ambiciosos, hipnotizadores que os fazem parecer normais.

Nada sabem de práticas exemplares. Espancam leis, não se submetem ao seu poder, antes as fizeram de escravas. Não nasceram da vontade geral, mas nela se meteram por refinados ardis que tiram a autonomia de qualquer público e o transforma em gente idiotizada. Quando se infiltram no meio da massa reduzem qualquer possibilidade de formação de opinião. É mentira que os que jogam perdem mais. Quem perde sempre é sempre quem não joga. Pobres não apostam na impulsividade sem limites das maquininhas do poder jurídico-político.

O País está cansado dos fatos que não dão em nada e mais parecem um disparate. Há uma cisão que está em curso na cabeça do cidadão em virtude da ruína dos partidos, do Direito e da lei e dos erros detalhados da liberdade e dos privilégios dos que os consumaram para si. Bilionário exibido e entrosado permite supor que no Brasil é possível conciliar tudo isso com a graça eficaz da autoridade que se orienta pelo princípio de legitimidade operacional que visa, de tempos em tempos, a tornar tudo controverso e paradoxal. Vem dos juízes purificadores o phátos das vozes e sentenças espantosas que temos que suportar. Uns não estão nem aí, outros são o “aí”.

A eleição é um grito de alerta. O feudalismo de donos do inconsciente coletivo nos espreita. Riqueza fácil, campanha cara e maus candidatos são irmãos gêmeos da carne que corta, dinheiro apreendido, medidas provisórias, emendas parlamentares, tribunais de faz de conta, jogos de azar, liminar encomendada. Olhando bem certas regras que fazem alguns tipos prosperarem, observamos que um é o outro revelado em suas atitudes cujos traços estão aí na realidade da vida das instituições. Eles são um outro de si mesmo. Há outros náufragos que navegam pelas ondas da política e da justiça do interesse, mudam de lado com as marés e se aquecem pelo calor corrosivo do poder.

O individualismo triunfante deve ser visto como freio à igualdade social geral. Está evidente a prosperidade de pessoas bizarras, coaches, influencers – evacuadores de regra, diria meu avô português – que impedem as instituições de se expressarem por sua história.

Assim como a qualidade de rico e de cultura não se adquire com riqueza ou poder, a grandeza do titular de certos cargos e fortunas costuma inspirar mais piedade do que respeito.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


A boa ajuda


Ninguém é responsável sozinho pelas misérias do mundo. Não contribuir para agravá-las já é boa ajuda
José J. Veiga, "Objetos turbulentos"

Em Gaza, um ano de guerra gerou traumas e ruínas

"Em 7 de outubro, acordamos com o som de foguetes. O som era terrível, a situação era terrível, aí começamos a assistir ao noticiário e ficamos sabendo o que havia acontecido", relata Warda Younis por mensagem de texto, do norte de Gaza. "Daquele dia em diante, o medo mais profundo começou e nunca mais foi embora."

Desde os ataques do Hamas ao sul de Israel em 2023, nada mais foi o mesmo para os residentes da Faixa de Gaza. Até então, Israel e Egito controlavam rigidamente as fronteiras do enclave. Porém na madrugada de 7 de outubro, militantes liderados pelo Hamas lançaram mísseis e romperam as cercas da fronteira, invadindo comunidades e bases militares no sul de Israel.

Cerca de 1.200 morreram no ataque, e os radicais levaram 250 reféns para Gaza. Os militares israelenses retaliaram no mesmo dia, com pesados ataques aéreos e de artilharia em todo o enclave palestino.

"Perdi minha melhor amiga no terceiro dia da guerra. A casa dela foi completamente bombardeada, e eu me lembro que fiquei tão chocada, mentalmente esgotada", conta Younis, que morava no sétimo andar de um prédio de apartamentos do bairro de Sheikh Radwan, no norte da Cidade de Gaza.

Gaza está familiarizada com o conflito. Israel e o Hamas já travaram quatro guerras desde 2007, quando o grupo tomou o poder da Autoridade Palestina. Ainda assim, muitos não esperavam que a atual durasse tanto tempo e fosse tão devastadora.

De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, que não faz distinção entre civis e combatentes, mais de 41,4 mil foram mortos no enclave no último ano. Outros 96 mil ficaram feridos, e pelo menos 10 mil estão desaparecidos.

Os suprimentos de Gaza se esgotaram rapidamente nas primeiras semanas da guerra, quando Israel impôs cerco total. Durante meses, as Nações Unidas chamaram a atenção para o alerta de agências de ajuda humanitária sobre a fome iminente no norte de Gaza, o que foi desconsiderado por Israel.


Younis que não conseguiu encontrar farinha nem pão durante esse período. "Chegamos ao ponto de comer folhas de árvores e grama. Nunca na vida imaginamos que fosse possível comer isso."

Quando os primeiros comboios de ajuda chegaram ao norte, ela testemunhou disputas por comida e itens básicos que terminaram em violência e morte. Durante um tempo, organizações voltaram a realizar lançamentos aéreos, pois a pressão internacional não bastou para convencer Israel a abrir mais passagens para a entrega de ajuda.

"Eu costumava ir ao local onde a ajuda era lançada de balões todos os dias", relata Younis. "Eu corria para pegar alguma coisa, e no fim não conseguia nada, porque tinha bandidos controlando tudo." A disponibilidade de alimentos melhorou desde então, mas para ela o medo e a exposição diária à morte permanecem.

Nos últimos 12 meses, Younis e seus três filhos adolescentes foram deslocados nove vezes. Como muitos outros em Gaza, ela perdeu a noção do tempo enquanto buscava refúgio constantemente.

Em meados de outubro de 2023, as Forças Armadas israelenses ordenaram que os habitantes do norte de Gaza se deslocassem para o sul. Mas Younis decidiu permanecer, apesar de ter membros da família para acomodá-la e a seus filhos na cidade de Khan Younis, a cerca de oito quilômetros da fronteira de Gaza com o Egito.

O norte de Gaza agora está quase totalmente isolado do corredor Netzarim, uma estrada com postos de controle militares tripulados por Israel. A maioria dos 2,2 milhões de habitantes do enclave está agora desalojada, amontoada no sul de Gaza, e muitos dependem de assistência e de instituições de caridade, segundo as agências competentes.

Amjad Shawa sempre trabalhou no setor humanitário como chefe do grupo PNGO, que representa ONGs palestinas. Depois de ser evacuado, ele montou um novo escritório em Deir al-Balah, na região central de Gaza, como um centro para as agências de ajuda se reunirem, terem acesso à internet e um teto sob o qual trabalhar. Como muitos outros palestinos em Gaza, ele não queria deixar sua casa e seu escritório na Cidade de Gaza, quando chegaram as ordens de evacuação do Exército israelense, em 13 de outubro.

"Hesitei em sair, mas fomos sob a pressão da minha família. Eu disse a eles que seria apenas por algumas horas e que voltaríamos. Não levei nada de casa. Essas poucas horas, esses poucos dias se tornaram um ano agora."

O assistente social estima que haja cerca de 1 milhão de alojados em Deir al-Balah, muitos vivendo em tendas ou abrigos improvisados com lonas e plásticos. Outros encontraram apartamentos ou estão hospedados na casa de parentes.

"Posso ver isso nos rostos deles. A maioria está profundamente traumatizada. Elas perderam tudo. Muita gente perdeu entes queridos. A maioria perdeu sua renda, suas casas."

Shawa crê que muitos querem retornar para o norte de Gaza, mesmo que suas casas tenham desaparecido, mas isso depende de um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas.

Ser um funcionário humanitário em Gaza é arriscado, afirma Shawa. Muitos morreram tentando ajudar outros necessitados ou perderam entes queridos: "Não podemos 'lidar' com isso. E na ausência de qualquer horizonte, às vezes é preciso criar alguma esperança para quem está ao redor."

Para ele, a Gaza onde nasceu e cresceu não existe mais. Mais de 60% das casas do território, já danificadas por guerras anteriores, sofreram novos danos no conflito atual. Escolas, hospitais e empresas também estão em ruínas. As Nações Unidas estimam que os ataques aéreos israelenses e os combates terrestres produziram 40 milhões de toneladas de entulho no território.

O assistente social destaca que muitos perderam a fé na ajuda de outros países e de organizações globais: "O que estamos testemunhando também se deve ao fracasso da comunidade internacional em acabar com essa guerra ou, pelo menos, em proteger os civis."

Rita Abu Sido e sua família não tinham essa proteção. Os primeiros meses da guerra continuam sendo um borrão para a jovem de 27 anos. Agora, ela está no Egito com sua irmã, Farah, recebem tratamento médico para ferimentos complexos sofridos em Gaza. Elas são as únicas sobreviventes do núcleo de sua família.

"O bombardeio aconteceu à meia-noite de 31 de outubro. Eu estava acordada e disse à minha irmã Farah que poderíamos morrer. Ela se lembra de tudo. Eu só sonho com isso", conta Rita por telefone, do Cairo.

A mãe de Abu Sido, suas duas irmãs mais novas, de 16 e 15 anos, e seu irmão mais novo, de 13, morreram naquela noite em Rimal, no centro da Cidade de Gaza. Ela e a irmã, uma comissária de bordo estagiária que estava visitando Gaza quando a guerra começou, foram levadas para o principal hospital de cidade, o Shifa, sem identificação.

Abu Sido sofreu convulsão pulmonar e queimaduras de terceiro grau, sua irmã teve a pélvis quebrada e ferimentos na coluna vertebral. Com a aproximação dos combates e devido à gravidade dos ferimentos, ambas foram transferidas para o Hospital Europeu em Khan Younis.

"Fiquei mal psicologicamente. depois que soube da perda de toda a minha família. Levei tempo para entender a localidade e a situação. Fiquei agressiva e nervosa."

Com a ajuda de amigos da família, em fevereiro as irmãs conseguiram sair de Gaza pela passagem de Rafah, para tratamento médico e reabilitação no Egito. Abu Sido está recuperando a voz, que perdeu por algum tempo, e sua irmã está fazendo fisioterapia. Mas ela crê que o trauma de perder a família a perseguirá pelo resto da vida.

Embora estejam seguras no Egito, sua situação é precária. A maioria dos habitantes de Gaza que conseguiu escapar para o país vizinho não tem status legal e depende do apoio de parentes ou de instituições de caridade.

Ainda não se sabe se Abu Sido poderá retornar a Gaza: é uma decisão política sobre a qual ela não tem controle. "Voltar a Gaza parece ser um desafio. Levará tempo. A próxima geração, a nossa geração, precisa ter a vontade de reconstruir."

Mané todos os bichos

Em menos de uma década, o Brasil sofreu (e tem sofrido) o desafio de três pandemias: a COVID-19; os devastadores eventos climáticos – secas, incêndios e enchentes; e agora, a pandemia dos jogos de azar com a marca ERIA (Esperteza Real e Inteligência Artificial).

O primeiro desafio esbarrou no negacionismo estúpido das autoridades, porém ficou a lição para o mundo inteiro que ciência, prevenção e cooperação global são as armas para enfrentar catástrofes com dimensão universal.

O segundo desafio é a chegada da tragédia climática, com tamanho e data anunciada, a exigir redobrado esforço para que a emergência não nos imponha o ritual taoísta dos “Cachorros de Palha” que deu nome à obra clássica ao filósofo britânico John Gray. Nesta luta contra o tempo, o Brasil dispõe do valor estratégico de seus recursos naturais e, a despeito do retrocesso na política e na gestão, herdado do governo anterior, terá um papel decisivo no equacionamento da questão ambiental observado, espero, o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.

O terceiro desafio: os jogos de azar viraram um surto pandêmico. É o assunto do momento. Há os que defendem a prática como entretenimento, aposta, considerando uma disputa em que o aleatório é o argumento da derrota ou da vitória dos disputantes. De outra parte, há os ferrenhos adversários brandindo evidências dos malefícios que os jogos de azar podem causar aos seus adeptos, arruinando pessoas, famílias e a comunidade.

No entanto, a jogatina tem origens remotas e marcam passagens em inúmeras civilizações. A etimologia árabe – al-azar – significa “dado” e, daí, advêm as múltiplas formas do jogo, inclusive, as definições de estratégias para responder com probabilidades aos “acasos”, abrigadas nas mais simples às mais sofisticadas infraestruturas para atender à crescente clientela.


Atualmente, os jogos envolvem fortunas e são considerados um vetor para o desenvolvimento da indústria hoteleira e do turismo. No seu entorno, “negócios paralelos” vicejam sobre a linha tênue da legalidade/crime, diversão/vício o que tem ocupado o noticiário, as redes sociais e um caloroso debate político sobre a regulamentação dos jogos de azar.

Com a votação e aprovação do PL 2234/2022 (por 14 a 12 votos) na Comissão de Constituição e Justiça, o assunto irá à deliberação do Plenário tão logo seja pautado pelo Presidente do Senado. O texto legaliza e regulamenta o jogo do bicho, o funcionamento de casa do bingo, jogos de cassino, corridas de cavalo, enfim, as normas chegam num momento sensível e relevante.

Sensível porque, na origem, está a Lei 3688 de 1941 (Lei das Contravenções Penais) que punia o jogo como uma atividade “degradante”; relevante porque suscita um sério debate sobre as “Bets”, que, ao invadir o mundo digital, empurram as pessoas para a compulsão do jogo: a ludopatia. Vale dizer, as pessoas carregam na mão uma casa de aposta e uma horda de “tigrinhos” que levaram, em agosto, três bilhões de reais dos beneficiários do bolsa família e mais de vinte bilhões de reais do consumidor brasileiro: tiram do bolso dos pobres ou viciados para encher o bolso da corrupção e do crime organizado.

É fundamental uma regulação inteligente e eficaz. Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro” qualificava o jogo do bicho como um “vício irresistível” e acrescentava que a “repressão policial” apenas multiplicava a clandestinidade. E olhe que sou do tempo em que o jogo do bicho era tolerado e todo mundo, diariamente, fazia uma “fezinha”, modo delivery, em Vitória de Santo Antão.

Na hora do almoço, o cambista, forte, pele avermelhada atendia pelo apelido de “raça boa”e, de casa em casa, recebia as “pules” (o conjunto de apostas); registrava na caderneta com o papel carbono. Confiança era tudo: acertou, recebia.

Freguês fiel era o Seu Manoel, homem de poucas palavras, funcionário aposentado da prefeitura, respeitoso e carrancudo. Quase todo mundo na rua já havia ganho no jogo, pelo menos, no “grupo” ou na dezena. Seu Manoel, só gastava. Um dia com raro e leve sorriso de deboche, comemorava a notícia de que tinha ganho no grupo pela segunda vez. “Raça Boa” não segurou o segredo.

O jogo foi criado em 1892 para estimular a frequência do Jardim Zoológico de propriedade do barão de Drummond: cada visitante recebia um bilhete de entrada com a figura de um dos 25 animais, encoberto, e revelado no fim do dia o que valia um prêmio em dinheiro para o portador do bilhete. Foi um sucesso. Associados a um número, os animais compuseram séries numéricas, o jogo pegou e passou a ser praticado fora do zoológico. Deu samba!

Desde o Império, os jogos de azar eram proibidos no Brasil. Aqui, porém, a contravenção venceu. Segundo alguns intérpretes da alma brasileira, decorria da crença esperta de ganhar a vida sem trabalhar. Seu Manoel, no entanto, carregava a detestável pecha de azarado. E combinado o sigilo com o cambista, jogou um cruzeiro nos 25 bichos (probabilidade zero de não ser premiado), gastou 25 cruzeiros e ganhou 20 que era a recompensa pelo “acerto” no grupo. Prejuízo: 5 cruzeiros. Mas “ganhou”. E de quebra ganhou também o apelido dos vizinhos: “Mané todos os bichos”. “Raça Boa” desapareceu. Só retomou à rotina quando soube que seu “Mané” foi morar longe da rua.

Todo cuidado é pouco na regulamentação da atraente atividade. O Brasil adora a jogatina e, para cada cem brasileiros nascidos, segundo dados oficiais, 10 têm juízo, 10 são “espertos”, oitenta são otários.

Lima Barreto e um século de eleições municipais

As eleições municipais sofreram grandes transformações em um século. Com a mudança de regime em 1891, o chefe do Executivo local passou a ser nomeado pelos governadores. Inicialmente, 12 dos então 20 estados adotaram a regra, só pacificada pela reforma de 1926. Com a Constituição de 1946, novas contestações, mas, nas capitais, estâncias, e bases militares, os prefeitos continuaram a ser nomeados. A primeira eleição para prefeito em São Paulo, a maior metrópole brasileira, teve lugar em 1953, e em Recife —a então terceira maior— em 1955. Em 1965, o regime militar reeditou a vedação que permaneceu até 1985, quando 201 municípios passaram a eleger prefeitos.


Prefeitos nomeados e Câmara de vereadores eleitos são o traço paradoxal das cidades brasileiras no século 20. Os conselhos municipais com forte autonomia vinham do período colonial. Os nomeados não sabiam sequer o nome da avenida principal das cidades, como debochou Lima Barreto, perplexo com "o interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante".

Na voz de Policarpo Quaresma, "não atinava porque uma rezinga entre dois figurões [um governador e um senador] vinha por desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da esfera daqueles". Mas logo revelava o que estava em jogo: "Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República".

A disputa pelo voto local era e continua sendo crucial para a política estadual e nacional, e nele o controle sobre o alistamento era a chave do processo. A partir da criação da Justiça Eleitoral em 1932, o alistamento tornou-se obrigatório, mas não o voto. Paradoxalmente, a medida reforçou a manipulação do eleitorado analfabeto majoritariamente rural até a década de 1970, e que não votava até o fim da proibição formal, em 1985.

O contraste aqui com as barreiras criadas para a população negra nos EUA como requisitos de testes de alfabetização, taxas de votação etc é marcante: nossas oligarquias nunca se opuseram à inclusão da massa da população no sistema eleitoral porque controlavam o alistamento. Como mostrei aqui, isto só mudou em 1955, com a introdução da cédula oficial substituindo a fornecida pelos partidos, e que exigia que os eleitores escrevessem o nome dos candidatos, o que acabava invalidando um terço dos votos. Apenas em 2000, com o voto eletrônico, os votos inválidos despencaram.

Lima Barreto apontou a relação entre crime e eleições na capital de Bruzundanga, mas não podia prenunciar que o crime organizado viria, um século depois, a ser séria ameaça nacional, através da coerção e violência sobre eleitores.

"O doutor-candidato vai neles com os mais cruéis assassinos da cidade, quando ele mesmo não é um assassino... A fisionomia aterrada e curiosa da cidade dá a entrever que se está à espera de uma verdadeira batalha; e a julgar-se pelas fisionomias que se amontoam nas secções, nos carros, nos cafés, e botequins, parece que as prisões foram abertas e todos os seus hóspedes soltos."

Custo da sanidade

Israel pode restaurar sua dissuasão e esmagar Gaza e o Líbano. O mundo continuaria a se surpreender com a profundidade da penetração da inteligência de Israel e seu alcance em Beirute, Damasco, Iêmen, Tul Karm, Jenin e até Teerã. Mas, no final das contas, muita força custará a Israel sua sanidade



Passado e futuro das eleições

Acabou? Ainda não acabou de todo. Mas já dá para afirmar que as eleições não são mais aquelas. Principalmente para mim, que participei diretamente de quase todas do período democrático.

Eu as achei mais tristes que outrora. Como candidato, caí em muitas ciladas. Cilada era ir a um evento programado para conquistar votos e encontrar apenas o autor do convite acenando alegremente uma bandeirinha. Escapar das ciladas com leveza e bom humor é uma arte necessária, porque elas são presentes mesmo na vida de quem não é candidato.

Agora, vi algumas pessoas tristes portando uma bandeira encardida, com nome e número. Eram pagas para isso, passaram horas solitárias numa esquina movimentada. Pareciam dizer:

— Meu candidato fará cemitérios limpos e acessíveis.


Os debates antes eram calorosos. Mesmo os que contestavam o sistema o faziam com elegância e rigor gramatical, como o Dr. Enéas. Lembro-me de um debate para o governo do Rio em que a angústia de Aarão Steinbruch me comoveu. Ele estava perto dos 70 anos, precisava ir ao banheiro, e o intervalo não chegava. Com a idade, passei a entender mais essa urgência. Aliás, o próprio Ulysses Guimarães dizia em suas viagens políticas:

— Sempre que houver um banheiro, use, pois não se sabe nunca quando aparecerá outro.

Outro dia, lembrei-me dos comícios de campanha. Sempre havia um bêbado interagindo ruidosamente com os oradores.

Tudo isso acabou. E, se me refiro a essa época com alguma nostalgia, é porque era mais leve. O traço distintivo talvez fosse este: achávamos que a democracia era irreversível e cada vez mais se aperfeiçoaria. Hoje surgiu a sombra do autoritarismo, a possibilidade de regressão, inexistente no quadro da democracia idealizada.

Naqueles anos já havia a globalização. Nos países mais ricos, uma classe média começava a se sentir ameaçada pela emigração que furava a fila nas suas pretensões de ascensão social. As lutas identitárias já existiam. Trabalhei com elas, mas ainda não levavam à severidade do politicamente correto. As reações à diversidade crescente ainda não encontravam a resistência dramática dos que experimentam a política como missionários e acham que existe apenas uma única visão de boa vida, extensiva a todos.

A verdade é que a política tão presencial do passado, o corpo a corpo cotidiano, se deslocou para as redes. Milhões de pessoas a seguem pelo WhatsApp. Ao mesmo tempo que se torna mais vulnerável, a democracia avança. Talvez isso explique a enigmática frase de Ulysses Guimarães quando se reclamava do nível do Congresso:

— Esperem o próximo. Vai ser pior.

Tive alguma esperança na eleição de São Paulo. Ela apresentou um aventureiro jogando na distância entre a política e o povo e acabou resultando em debates melancólicos. Pablo Marçal ficou fora do segundo turno.

As soluções nas grandes metrópoles são fascinantes. Copenhagen reduziu suas emissões de CO2 de forma drástica; Paris recuperou o Rio Sena; os chineses experimentam a ideia de cidades-esponja para enfrentar grandes chuvas.

Nós contribuímos com uma cadeirada cinematográfica no candidato. Apesar disso, alguns sinais sugerem que a tão decantada polarização não dominou tudo. Os grandes eleitores, Lula e Bolsonaro, não tiveram o papel que se projetava para eles. Novos e promissores quadros políticos têm surgido, ainda que não tenham conquistado vitória eleitoral.

Faltou a experiência de uma campanha sorridente, otimista, voltada para o futuro, como a de Kamala Harris nos Estados Unidos. É preciso esperar ainda o resultado das eleições americanas para ver se o antídoto à indiferença e ao ressentimento funcionam. O que acontece lá não se reproduz mecanicamente noutros lugares, mas dá uma ideia de como tratar essa onda de rancor que domina a política dos nossos dias.

domingo, 6 de outubro de 2024

A tempestade

Se o destino sussurrar no seu ouvido que você não pode deter a tempestade, sussurre de volta “eu sou a tempestade”.

Muitos tentam, porém desistem, varridos pela implacável ventania da vida. (Jean Cocteau já dizia que “viver é uma queda horizontal”.) Alguns de nós até conseguem ficar de pé. Mas só um punhado bastante especial desafia o destino com a naturalidade de Bisan Owda. Ela é irresistível, e seu documentário de oito minutos “It’s Bisan from Gaza, and I’m still alive” também. Tanto assim que seu curta noticioso conquistou um dos prêmios do 76º Emmy de duas semanas atrás, além de reconhecimento unânime na premiação dos Peabody Awards e Edward R. Murrow Awards deste ano.

A jornalista palestina de 25 anos mora em Gaza, tem três filhos e, desde o início dos bombardeios israelenses ao enclave, em outubro passado, empunhou o celular e passou a fazer postagens do que vê, sente, pensa e vive — tudo em inglês, sem saber se suas mensagens jogadas na imensidão da blogosfera aportariam em alguma praia. Todas começavam com sua imagem sorridente, dizendo:

— Sou Bisan, de Gaza, e ainda estou viva.


O episódio premiado foi produzido pela Al Jazeera Plus, está acessível pelo link e retrata o início do estrangulamento de Gaza que se seguiu à matança do 7 de Outubro contra Israel. Passado um ano, Bisan continua a falar para o mundo — tem 4,8 milhões de seguidores no Instagram, e seus despachos mantêm o frescor e o horror dos primeiros dias.

— É uma vitória para a Humanidade — celebra a Al Jazeera Plus não sem razão.

No mesmo espaço de tempo, mais de 130 colegas jornalistas de Bisan foram mortos pelo avanço israelense em Gaza. Todos palestinos.

Foi com indignação que a Creative Community for Peace — uma ONG pró-Israel de Los Angeles com forte influência sobre Hollywood — recebeu a atribuição do Emmy para Bisan Owda.

— Em vez de premiar um dos respeitáveis trabalhos apresentados sobre a guerra em Gaza, [os jurados] optaram por aplaudir uma ativista política filiada à Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) — acusou a entidade.

A nota também criticava “esse dia triste do jornalismo, de presságio sombrio para o futuro da indústria”. A resposta do braço documental do Emmy, que há quase 50 anos premia excelência no jornalismo televisivo, fincou pé.

— Damos visibilidade a vozes que alguns espectadores podem considerar condenáveis, ou mesmo odiosas — esclareceu o presidente da News & Documentary Emmy Awards.

Um ano já. E Israel ainda não permitiu a entrada em Gaza de um só jornalista ou fotógrafo profissional independente. Blecaute total, exceto para raras visitas de algumas horas em área designada e sob vigilância de escolta militar. Nem uma única equipe de televisão, rádio ou mídia eletrônica ocidental até hoje terá testemunhado o primeiro ano de desterro e aniquilamento de vida no enclave de 365 quilômetros quadrados. Situação particularmente inédita para esta era da comunicação instantânea e global. É um manto de sigilo e segredo insustentável no longo prazo. Quando Gaza, algum dia, vier a ser liberada para o grande jornalismo independente, tudo já terá sido dito por palestinos de celular na mão como Bisan Owda.

Segundo dados divulgados pela agência Anadolu, da Turquia, “902 famílias palestinas de Gaza tiveram seus registros civis obliterados por morte de todos os seus membros”. Tem mais: 1.364 famílias foram dizimadas restando um único membro. De 3.472 outras famílias sobraram apenas dois indivíduos. Foi para dar conta do orfanato a céu aberto em Gaza que organizações humanitárias criaram o acrônimo inglês WCNSF, para “criança ferida, sem familiares vivos”.

Em contrapartida, no Líbano agora também regado a bombas e atropelado por tanques israelenses em caça ao Hezbollah, a destruição é transmitida ao vivo e em cores, em todas as línguas, por jornalistas do mundo inteiro. Daí a correria maior em busca de um cessar-fogo imediato — se possível, antes de o Irã ser tragado na centrífuga de guerras que Israel pretende vencer simultaneamente. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parece não ter pressa: faltam poucos dias para a eleição presidencial americana. Aumentar o círculo de fogo no Oriente Médio prejudica bastante a difícil campanha de Kamala Harris à Casa Branca. E um cessar-fogo de bandeja para um Donald Trump eventualmente vitorioso teria sabor de desforra adicional. Como deter essa tempestade?

Pensamento do Dia

 


Verdade inconveniente

Pergunte a qualquer oficial israelense qual é o plano deles para a paz – você não receberá nada
Ayman Safadi. ministro das Relações Exteriores da Jordânia