sexta-feira, 3 de maio de 2024

Vítima das Embalagens

Entro no chuveiro. Relaxo na água quentinha. Pego o xampu. É novo. Tento virar a tampa. Não cede. Aproximo meus olhos míopes. Está envolta em um plástico duro, transparente. Puxo. Minhas unhas curtas resvalam. A batalha demora alguns instantes. Minhas investidas não produzem resultado algum. Tenho cabelos oleosos. Sem um bom xampu, fico tão charmoso quanto um tapete de pele de carneiro. Ataco a tampa a mordidas. Meus dentes rangem. Mal arranco uma lasquinha. O xampu cai da minha mão. Abaixo-me. Tropeço. Caio sentado. O frasco continua invicto.

Recentemente, também fui vítima de uma lata de patê de fígado. Era daquele tipo que vem com uma chavinha. O segredo é enrolar a chavinha bem devagar em torno do topo, até que a parte de cima se solte. Teoricamente. Como sempre, fiquei com a chavinha inútil numa mão e a lata fechada na outra. Os amigos bebiam cerveja na sala. Quis enfiar a chavinha de novo. Impossível. Tentei com o abridor. Não havia ângulo para apoiar. Peguei uma faca e um martelo. Fui esfaqueando a lata pela parte de cima. Cavava um buraco, em seguida outro do lado, e assim por diante. Quando achei que dava, puxei. Abri.

Mas a lata, cheia de pontas metálicas, bateu na minha mão.

Espalhei patê pelo piso. Eu me cortei. Um cortezinho ridículo, mas corte. Os amigos vieram correndo. Falaram em tétano e pronto-socorro. Jurei nunca mais comprar patê de fígado com chavinha. -


Frascos, latas e semelhantes levam qualquer ser humano à beira da loucura. Remédios e vitaminas são hors-concours. Só provam uma coisa: quem conseguir abrir está perfeitamente saudável. As aspirinas têm vindo com uma tampa na qual há uma setinha minúscula em relevo. A tal setinha tem de encaixar com outra marquinha. Algo tão minucioso quanto abrir um cofre sem o segredo. Para quem está estalando de dor de cabeça, uma delícia. Alguns sucos vêm em embalagens de papelão com um recorte picotado. "Aperte aqui", diz um aviso. Aperto e não acontece nada. Depois de inúmeras tentativas, arrebento o papelão no lugar errado. O suco esguicha para o copo pelo lado. Um horror.

Engoli derrotas até de embalagens de produtos de limpeza. Algumas vêm com uma tampa simples. Aberta, descobre-se uma nova tampa. O lugar onde devia haver um furinho está tapado com plástico resistente. Tudo bem. E uma medida natural do fabricante para impedir que o detergente alague o caminhão de entrega. Mas a tampa é planejada numa medida tal que nada consegue fazer o furinho. A ponta das facas não penetra. Nem a da tesoura de cozinha. Tento com um garfo. A dimensão é perfeita. Quase consigo. Empurro um dente do garfo no plástico. Entorta para o lado, mas não faz o furinho. Fico com o garfo destruído e a embalagem fechada. Paro alguns segundos. Tomo um café. Cravo chaves de fenda de tamanhos variados. Nenhuma serve. Lembro-me do abridor de vinhos. Tenho um superchique, de design italiano, que reservo para os dias de visita. Quase acabo com o abridor, mas consigo. Furinho feito, vou lavar os pratos. Espremo a embalagem e o produto sai por todos os lados. As várias tentativas criaram pequenas aberturas. Espirra até no armário da cozinha. Minha orelha fica cheia de detergente.

Estou consciente de que os fabricantes têm sólidas razões para me torturar dessa maneira. Proteger o produto é uma delas. Impedir que crianças abram frascos indevidos é outra. Nesse último caso, trata-se de pura ilusão. Petiscos em saquinhos metálicos indevassáveis e bugigangas eletrônicas treinaram a meninada. Para minha humilhação, qualquer garotinho abre uma embalagem complexa em segundos. Eu me sinto como se fosse um alienígena, ainda não adaptado para conviver com os progressos da civilização. Tenho saudade das embalagens do passado. Quando bastava um pouco de firmeza para torcer tampas ou usar o abridor de latas. Força, só para estourar a rolha da garrafa de champanhe. Mas, aí, sempre valia a pena, por conta da comemoração.
Walcyr Carrasco

Milei e Bolsonaro: o desprezo pelas universidades públicas

Ganhou cinco prêmios Nobel, formou 16 presidentes e estava entre as 100 melhores universidades do mundo: essas são apenas algumas das conquistas da Universidade de Buenos Aires (UBA). Incrível, né? Mas isso não impediu Javier Milei, o polêmico presidente argentino, de descrever a universidade como "um espaço de doutrinação comunista e lavagem cerebral".

O ataque também afetou o orçamento das instituições públicas de ensino superior na Argentina. Atualmente, o país tem a maior inflação do mundo, cerca de 290 % anuais, mas foi liberado para a instituição o mesmo orçamento de 2023. Emiliano Yacobitti, o vice-reitor da UBA, disse em uma entrevista que o hospital universitário precisou até cancelar algumas cirurgias e que a instituição corre o risco de eventualmente não conseguir arcar mais com despesas operacionais básicas, como luz e água.


Tive a oportunidade de conversar com Estefanía Paola Cuello, advogada e professora de Teoria do Estado e História do Direito na Faculdade de Direito da UBA. "Sou contra as políticas de cortes levadas a cabo por Milei. As universidades favorecem a construção da identidade do país, uma vez que promovem e endossam a própria função do Estado. Atacar elas é atacar qualquer possibilidade de aproximação dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade", afirmou.

Segundo ela, governos como o de Milei tendem à disciplina e à censura dos centros de pensamento. "Contudo, no caso particular da Argentina, o atual executivo está adotando um papel exageradamente ridículo e desnecessário na sua gestão pública. Milei transcende os discursos comuns na América Latina que lutam contra o ‘marxismo cultural'. Ao lado de Milei, Bukele parece moderado e Bolsonaro sério. Mas sua busca vai além de uma posição ideológica. É a busca pelo posicionamento digital através do desprezo por qualquer manifestação cultural séria. O presidente argentino busca ser uma estrela das redes sociais, uma réplica vulgar de Bukele".

O caso Argentino me lembra muito o caso brasileiro. A USP, a Unesp, a Unicamp, a UFRJ, a UFRGS, a UFBA, a UFMG e muitas outras instituições de ensino superior público brasileiro são referência mundial, mas isso não as impediu de serem alvo de perseguição do ex-presidente, Jair Bolsonaro. Ele e Milei compartilham, além de outras características, um aparente ódio pelo ensino superior público, classificando as universidades como supostos centros de esquerda e espaços de comunismo, que fazem lavagem cerebral.

A UFRJ, assim como a UBA, chegou bem próximo de fechar as portas simplesmente por correr o risco de não conseguir pagar as despesas de luz.

Espaços plurais

A semelhança descrita acima não é coincidência e para entender melhor eu entrevistei Paolo Ricci, cientista político e professor da Universidade de São Paulo (USP). "Há certo consenso na literatura em chamar esses políticos de populistas. Em seus discursos, é uma constante a contraposição entre o povo, moralmente puro, e os "outros", a elite, vistos como corruptos e imorais fazendo amplo uso de uma linguagem emotiva. Na América Latina, a direita populista centra sua fala contra a esquerda taxada não apenas de ser corrupta, mas de ser comunista e socialista; uma caracterização extremamente marginal. Em geral, o que caracteriza um discurso populista é a simplificação de questões complexas dando a entender que os populistas possuem soluções para os problemas que os "outros" não conseguem enfrentar", afirmou.

Ele continua: "Um dos elementos destacados pelos estudiosos é o aspecto antipluralista dos populistas no sentido de se apresentar com os únicos que representam o povo. Aqui, portanto, temos que reconhecer um aspecto autoritário no populista, voltado para deslegitimar a ação do opositor em termos competitivos e representativos. Milei e Bolsonaro se enquadram nessa ideia. Se a literatura tem clareza sobre o populismo autoritário de Bolsonaro, Miliei ainda está sob avaliação, mas há fortes similaridades entre os dois".

O ataque às universidades, segundo ele, não é uma constante entre os governos populistas. Esses ataques no Brasil são "uma tentativa a mais de deslegitimar o PT e, mais em geral, a esquerda e suas pautas que encontram expressão no âmbito universitário, como as pautas identitárias".

Já na Argentina, segundo Cuello, "este movimento, talvez, tenha sido uma tentativa de se destacar pelo contraste e se opor diametralmente às políticas públicas características dos governos de Cristina Fernández de Kirchner e do peronismo em geral. Possivelmente, ele procurou atrair o eleitorado antiperonista e o emergente eleitorado libertário".

Além disso, os dois especialistas também concordam em um importante aspecto: não é verdade que há uma hegemonia esquerdista nas universidades públicas. Elas são, muito pelo contrário, espaços heterogêneos de correntes e posicionamentos.

Faço no mestrado em uma universidade pública e cursei a graduação em outra, ambas estão entre as melhores do país. São centros de excelência e que não "doutrinam" seus alunos, mas sim os provocam para despertar o próprio senso crítico.

Graças à formação que recebemos, conseguimos, inclusive, perceber o quanto governantes como os aqui descritos se maquiam com uma narrativa pró-povo, anticorrupção e a favor da liberdade, quando na verdade são antidemocracia e não se preocupam nem um pouco com próprio povo.

Muitos deles, talvez não coincidentemente, não estudaram em uma universidade pública. Se dedicassem o mesmo tempo que gastam falando mal delas as visitando, saberiam o que realmente acontece lá e talvez teriam posicionamentos diferentes e mais respeitosos com instituições que, inclusive, impulsionam o desenvolvimento do país.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


Pobre com carro

Freud dizia que o dinheiro não traz felicidade porque não é um desejo de infância. Talvez seja por isto que a posse de um automóvel enche de lágrimas felizes os olhos de tantos brasileiros. Desde os primeiros cambaleios infantis esses pobres diabos são induzidos a puxar por um cordão uma traquitana qualquer com quatro rodas e a produzir onomatopéias tipo rom-rom-rom e pi-biiit. Para milhões desses desventurados, o carro torna-se o mais multifuncional dos símbolos. Ele é rito de passagem para o mundo adulto, é diploma de ascensão social, é triunfo tecnológico sobre o Espaçotempo, é alcova sobre rodas, é escafandro protetor contra os esbarrões da plebe, é talismã semiótico, é prótese locomotora em quatro dimensões… O verbo ser é um conceito abstrato, metafísico, mas ganha carne, osso e metal com este sinônimo reluzente: “ter um carro”.


Muitos amigos meus dizem que pagariam qualquer preço por um frasco de perfume com “cheiro de carro novo”, e só não mango porque eu, por exemplo, gosto de cheiro de livro velho (mas não, não compraria um frasco de perfume, compraria um livro velho, como se tivesse poucos). E assim não é difícil entender porque nossas cidades não funcionam, nosso transporte público é uma porcaria, nossos urbanistas fazem as pessoas se adaptarem ao trânsito e não o contrário. Diz-se mundo afora que “país rico não é aquele onde pobre tem carro, é aquele onde rico anda em transporte público”. Duvido que vejamos o Brasil ser assim um dia. O sonho dos governos brasileiros e da indústria brasileira é termos um dia 200 milhões de carros para 200 milhões de pessoas. E as cidades que se explodam.

O site “Livable Streets” faz um apanhado de pequenas mudanças que poderiam ser implementadas em nossas ruas para expandir o espao humano e controlar melhor o espaço dos automóveis. Isto de nada adianta, contudo, se o país continuar se suicidando com o aumento da produção e venda de automóveis, sob o pretexto de geração de divisas e criação de empregos.

A psicose automobilística endivida milhões de famílias hipnotizadas pela fantasia de ascensão social e inviabiliza as cidades. Cidades deformadas e desfiguradas pela ideologia individualista do cada-um-por-si, onde usar transporte público ou é uma tortura (onde ele é entregue às baratas) ou é humilhante mesmo onde ele tem boa qualidade. Refugiar-se no carro é a derradeira ilusão da classe média. Ela imagina estar melhorando de vida e está apenas trocando a pobreza por uma engorda para abate, uma espécie de empobrecimento financiado que a leva a trabalhar e produzir cada vez mais para ficar com cada vez menos.

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão.”

Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Livro sexto"

Indecência


O Hamas tem diante de si duma proposta extraordinariamente generosa e deve decidir rapidamente
Antony Blinken, secretário de Estado dos EUA 

Emprego melhor não muda mau humor de boa parte do pais

Este é um país conflagrado, bidu. Dedica-se a guerras político-culturais por qualquer motivo, das últimas do Xandão do Supremo à música de cantores populares e casamentos de "famosos" e "influencers". Quando começar a campanha para a eleição municipal, deve haver picos de burrice, mentira e "polarização".

Dados econômicos causam o torpor do enfado na maioria das pessoas. São ainda mais desprezados nesse ambiente inflamável, quando não são desmentidos nas redes com fé cega, faca amolada e nenhum argumento.

No entanto, números recentes, como os do emprego indicam melhorias reais.

O número de pessoas ocupadas, com algum emprego, está crescendo a 2,3% ao ano: rápido. Havia desacelerado até outubro de 2023, mas se recupera desde então. O salário médio cresce ao ritmo anual de 4% acima da inflação.

A massa salarial, soma de todos os rendimentos do trabalho, cresce a 6,6% ao ano. Está em um nível cerca de 16% maior do que o dos picos de 2014 e 2015.

São contas feitas com dados do IBGE, divulgados nesta terça-feira (30), quando também saíram os números do emprego formal, dos registros do Ministério do Trabalho (vulgo Caged). No primeiro trimestre, foram criados cerca de 719 mil empregos, bem mais do que os 536 mil do início de 2023.

O mercado formal está movimentado, com muitas admissões e demissões, com alta forte do salário de admissão. Isso quer dizer também que mais pessoas têm oportunidade de mudar de emprego, por um trabalho melhor.

O índice de sofrimento ou de infelicidade ("misery index", em inglês) é uma medida elementar de bem-estar econômico e da conjuntura, da economia no curto prazo, uma ideia do economista americano Arthur Okun (1928-1980).

É a soma das taxas anuais de inflação e de desemprego. Para os meses de março, está no menor nível desde 2012, período para o qual há dados comparáveis. Desemprego e inflação estão em níveis historicamente baixos.

O mal-estar difuso permanece, porém, como se pode notar também pela ligeira baixa de popularidade de Lula da Silva ou pelo nível ainda baixo da confiança do consumidor.

Mesmo dando o desconto do clima político e o fato de que o país ainda não se recuperou de uma década de desastre socioeconômico, o tamanho do desânimo é um pouco intrigante, porém.

Quem quer que comente a queda recente da taxa de inflação será apedrejado nas redes e noutros fóruns virtuais, nos quais se vai ler também que o IBGE mente. Em parte, entende-se a reação.

A taxa de inflação, no caso a variação da média dos preços para o consumidor, é de fato menor. Mas o nível de preços fundamentais continua alto em relação ao salário médio.

Entre os preços mais conhecidos e acompanhados pelo consumidor estão os de comida, combustíveis, remédios, energia e transporte.

Desde pouco antes do início do impacto da epidemia (março de 2020) até março de 2024, a média do preço dos alimentos levados para casa aumentou 46,7%; o salário médio subiu 31,2%. Desde 2012, a disparidade havia sido tão ruim apenas no ano de 2016 da Grande Recessão.

A vida despiorou um tico até para quem está no fundo do poço do inferno social, quem não tem trabalho algum ou sobrevive dos bicos mais tristes. As taxas de pobreza e miséria diminuíram por causa do Bolsa Família ampliado.

A alta da dívida pública, a perspectiva crônica de juros altos, a guerra dos impostos travada pelas elites, a falta de investimento etc. não entram no radar popular. Comida cara ajuda a explicar o desânimo, assim como a impaciência justa depois de uma década de sofrimento ou frustração.

"Polarização" não explica o aumento do desânimo entre eleitores lulistas. Parece haver algo que ainda não entrou no radar das elites explicadoras.

Como a guerra afeta o desenvolvimento das crianças

A violência ao redor do mundo chegou a patamares que não se viam há pelo menos 30 anos. Além das guerras na Ucrânia e entre Israel e o Hamas, no Oriente Médio, existem ao menos outros 110 conflitos armados acontecendo na África, na Ásia, na América Latina e na Europa.

Muitas dessas guerras estão sendo travadas em cidades e áreas civis densamente habitadas. Como consequência, ataques com mísseis e drones têm afetado civis, escolas, hospitais e abrigos.

Autoridades alertam que hoje, mais do que nunca na história moderna do planeta, as maiores vítimas dessas disputas geopolíticas são crianças. O secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, disse diversas vezes que elas estão carregando o peso dos conflitos modernos de forma "desproporcional".

Parte desse fardo é físico: muitas crianças vivendo em zonas de guerra são recrutadas para o combate; outras são abusadas sexualmente por agressores armados. Mas independente de terem ou não sua integridade física violada, crianças em áreas de conflito armado passam por um sofrimento psicológico profundo.


Crianças em cidades ucranianas na linha de frente da guerra, por exemplo, passaram entre 3 mil e 5 mil horas de suas vidas – o equivalente a entre quatro e sete meses – em abrigos subterrâneos desde o início da invasão russa, dois anos atrás.

"A mistura de medo, luto e separação de entes queridos está tendo um impacto tremendo em crianças à medida que a guerra se arrasta ", afirma Leah James, especialista em apoio à saúde mental do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Segundo ela, 40% dessas crianças não estão tendo aulas presenciais.

O resultado disso tudo é que milhões de pessoas devem sofrer futuramente com níveis desproporcionalmente altos de problemas de saúde mental e psiquiátrica, alertam especialistas.

Na Ucrânia, assistentes psicossociais temem que a longa duração da guerra possa estar provocando atrasos severos no desenvolvimento das crianças.

Segundo Christoph Anacker, neurocientista da Universidade de Columbia nos Estados Unidos, isso é algo confirmado pela ciência. "Estressores na primeira infância podem causar anomalias específicas no desenvolvimento e na função dos circuitos neurais na vida adulta, principalmente aqueles envolvidos na resposta ao estresse."

Anacker explica que o trauma nessa fase inicial da vida altera as respostas ao estresse e ao medo no cérebro, "ensinando-o" a ser mais suscetível ao estresse na vida adulta. Daí o motivo de os hormônios do estresse serem muitas vezes liberados mais frequentemente nas pessoas que passaram por adversidades na infância.

Além disso, o neurocientista diz que crianças com esse perfil têm um risco maior de sofrerem mais tarde com transtornos de ansiedade, depressão e doença de Alzheimer.

E embora tanto adultos quanto crianças que vivenciam uma guerra possam sofrer de transtorno do estresse pós-traumático, Anacker pondera que o cérebro adulto é muito mais resiliente porque é menos "plástico" – ou seja, não tende a sofrer grandes alterações.

Durante a infância, o cérebro passa pelo que especialistas chamam de "períodos sensíveis" do desenvolvimento. Se uma criança é hiperestimulada por causa de um luto ou da ansiedade de estar sob um bombardeio, ou se é privada de estímulos sociais e emocionais durante esses períodos, como acontece quando são separadas da família, por exemplo, Anacker diz que isso pode levar a uma reconfiguração do cérebro.

O dano que isso causa é irreparável, afirma Anacker. "Não há maneiras eficazes de reverter os efeitos do trauma infantil em adultos."

Daí a importância, segundo o neurocientista, de minimizar a exposição de crianças a fatores estressores durante os períodos sensíveis de desenvolvimento.

James, da Unicef, afirma que o órgão tem trabalhado para reduzir os efeitos de longo prazo dos estressores na primeira infância em crianças na Ucrânia.

"Algumas das intervenções que realizamos são simples: garantir que as crianças tenham um espaço seguro para brincar e se conectar com outros, ensinar habilidades básicas para lidar com o luto e a separação", lista James. "Mas grande parte consiste em apoiar os cuidadores para que possam ser modelos positivos para as crianças. Cuidar de alguém em tempos de guerra é incrivelmente difícil. Aliviar o estresse deles também impacta seus filhos."

Porta-voz da Unicef, Joe English ressalta, porém, que crianças em conflitos em outras regiões não têm tido o mesmo apoio.

"Diante da escala das necessidades em conflitos ao redor do mundo e do subfinanciamento crítico e crônico de questões humanitárias em geral e proteção infantil mais especificamente, muitas crianças não conseguem obter o apoio de que podem estar precisando", afirma English.

Enquanto há maior disponibilidade de dados sobre crianças e famílias ucranianas, a extensão do problema em outras zonas de guerra no mundo, inclusive em Gaza, Iêmen e Sudão, ainda é desconhecida devido à falta de dados confiáveis.

terça-feira, 30 de abril de 2024

CEFEs e Lula

Louvável o elogio do presidente Lula ao ex-governador Leonel Brizola por implantar os chamados Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) no Rio de Janeiro, nos anos 1980. Entre o Merenda Escolar (1955) e o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (2023), o Brasil lançou dezenas de leis. Sete décadas depois do primeiro, a necessidade desse último mostra o fracasso dos anteriores: os bisnetos ainda estão precisando de pacto federativo para realizar, aos oito anos, o que deveria ter beneficiado seus bisavós, aos cinco.

Fracassamos porque, no lugar de projetos executivos nacionais ambiciosos, optamos por intenções legais e com execução municipal. Brizola não fez leis, implantou escolas. Mas os CIEPs já não comportam as inovações pedagógicas surgidas nas últimas décadas; além disso, a estratégia de mudar a educação do país por unidades escolares isoladas não dá a continuidade necessária para atingir todo o sistema escolar. No lugar de escolas, o Brasil precisa de Cidades inteiras com Educação Federal (CEFEs) até formar um sistema de educação de base com qualidade e equidade para todos.


A solução para a qualidade e a equidade já existe e é praticada: ampliar para todas as crianças o sistema escolar das públicas federais. Essas escolas federais já demonstram qualidade superior à média nacional e às próprias escolas particulares de boa qualidade. Faltam-lhes pouco para poderem oferecer a todos seus alunos a formação para terminarem a educação de base plenamente preparados para o mundo contemporâneo: falar e escrever bem o idioma português; fluente em pelo menos mais um idioma; conhecer os fundamentos da matemática, ciências, geografia, história, artes, filosofia; debater os temas do mundo moderno; usar as ferramentas digitais; dispor de pelo menos um ofício; ser capaz de administrar suas finanças particulares; adquirir solidariedade com os vizinhos, com a humanidade e com a natureza; ser capaz de obter educação continuada até o fim da vida; disputar vaga em curso superior de qualidade em condições iguais com os demais brasileiros. Com esse conhecimento, todos concluiriam sua educação de base dispondo do mapa para caminhar em busca da felicidade pessoal e das ferramentas para construir um Brasil com pleno desenvolvimento sustentável.

Sucessivos governos nacionais substituiriam as escolas municipais de cada cidade por federais, todas em horário integral, com edificações e equipamentos modernos; professores de uma carreira nacional com elevada remuneração, formação, dedicação e avaliação de resultados. Ao final, estaria implantado o sistema nacional com o padrão das atuais escolas federais de reconhecida qualidade.

Há décadas, essa solução é limitada para um pequeno número de brasileiros que podem pagar custosas escolas particulares ou que conseguem acesso em competentes escolas federais: um sistema injusto, porque exclusivo para poucos, e ineficiente, porque desperdiça milhões de cérebros, principal recurso do mundo atual. Além da injustiça, o Brasil continua barrando o potencial de 80% de seus cérebros. Sem uma política nacional ambiciosa e com instrumentos federais efetivos, em 2041, apenas 50% dos 2,5 milhões dos brasileiros que nasceram em 2023 terminarão o ensino médio; no máximo, a metade deles plenamente preparados para as exigências do mundo contemporâneo. Hoje, pagamos elevado preço por esse descuido histórico. Está no momento de fazer a inflexão necessária para construirmos o país que desejamos.

Nenhum governo será capaz de implantar esse sistema em todo o território nacional durante um ou dois mandatos, mas o governo Lula ainda tem condições de espalhar o padrão federal em 50 a 100 cidades, com 10 mil alunos cada. Seu governo estaria dando início à revolução que o país precisa se quiser aproveitar o recurso intelectual de cada brasileiro e dar oportunidades iguais a todos eles.

Outros presidentes adotaram estratégias nacionais para indústria e infraestrutura, sucessivos governos desde a redemocratização investiram no aumento do número de alunos no ensino superior, mas nenhum assumiu a responsabilidade nem definiu metas e rumos ambiciosos para a base do progresso, que é a educação básica. O presidente Lula tem a oportunidade de deixar essa marca originada em seu governo com ambição transformadora para todo o Brasil. Se ele não quiser, esperemos que, em 2026, algum candidato apresente a proposta das CEFEs em sua plataforma eleitoral. E que os eleitores o escolham.

Relaxe

Estupidez de morte


Deus nos acuda. Contra a estupidez até os deuses lutam em vão
Kurt Vonnegut, "Um pássaro na gaiola"

Contarás

Contarás de Abril o assombro, o desassossego, as súbitas visões de beleza longamente sonhadas, o assanhamento da hora vesperal; o renascer, meu e teu. Contarás de Abril instantes serenos, salivados de paz, o perfil de casas, as ruas docemente nossas que rimam connosco, as ternuras vagabundas, a utilidade dos gestos, o murmúrio discreto e comovido. Contarás de Abril instantes serenos, salivados de paz, o perfil de casas, as ruas docemente nossas que rimam connosco , as ternuras vagabundas, a utilidade dos gestos, o murmúrio discreto e comovido. Contarás de Abril os gritos, as imprecações, as cóleras, o idioma ressurecto na fraternidade de frases efusivas, no estertor. Contarás de Abril aquele haver viagem, aquele cheiro antigo de chuva de infância, a peca sombra, o chouto curto, o bêbado de rua que te assustou, temulento, a frugal manhã. Contarás de Abril o lado esquerdo da madrugada; cíclicos, os sismos: o chão em fissuras laceradas; de vagarosa, a capa da terra a recobrir o oco, as galerias naturais do ódio, onde rebramia o mar, sobre o qual haviam colocado o pinho e pedra e reconstruído a cidade, longa história de uma frustração. Contarás de Abril, os passos. Contarás de Abril , os sons , ínsitos na paisagem nocturna, nas betesgas. Contarás de Abril que me viste trajado de briche e holandilha, seteira ao ombro, num baixel de antigamente, soletrando palavras felizes, sem direcção nem sentido, como tudo o que é feliz. Contarás de Abril, aos meus filhos, filhos teus, que os meus olhos míopes, ardidos, urbanos, ficaram cheios de um ofício de dizer coisas singelas, humildes e absurdas: como amor, liberdade.
 
(...) Contarás de Abril o renascer da essencial frescura.
Contarás de Abril.
Contarás , meu amor.

Baptista-Bastos , " Contar de Abril" 

Em algum momento, toda guerra vira sumidouro de vidas

É sabido que somente cada um de nós pode construir a ponte em que atravessará o rio da vida. Nessa trajetória, somos únicos e estamos sozinhos. O caminho de fuga mais fácil para essa travessia, esse navegar pela vasta e complexa realidade que escapa a nosso controle e compreensão, é acumular certezas. Só que certezas de porteira fechada, além de daninhas para nós mesmos, em nada ajudam o convívio em sociedade. Como escreveu o espirituoso ensaísta americano George Saunders, neste mundo cheio de pessoas que confundem certeza com poder, é um alívio encontrar alguém que não teme a própria insegurança. Não raro são mentes privilegiadas, perpetuamente curiosas, que sabem como a realidade é plural, não singular, planície para vários pontos de vista, não ponto de observação com foco único.

A bebê Sabreen al-Rouch Jouda não teve tempo para esse tipo de elucubração existencial. Nasceu prematuramente, arrancada do ventre materno no Hospital Emirati de Rafah, em Gaza, no sábado, dia 20. Mãe, pai e irmã haviam morrido nos escombros da casa familiar atingida pelo bombardeio israelense. Sobreviveu por cinco dias envolta em orações dos parentes. “Agora”, contou o tio à Associated Press, depois de enterrá-la numa franja de cemitério ainda intacta, “a família do meu irmão está completamente erradicada. Será deletada do registro civil. Não restará nenhum vestígio dele”.


Em algum momento, toda guerra vira sumidouro de vidas — quanto mais longa, mais nos entorpecemos com o noticiário repetitivo. Só por vezes, quando a rotina da desgraceira acusa algum pico de desumanidade, voltamos a prestar alguma atenção ao horror. Foi assim com a recente descoberta de mais de 700 cadáveres palestinos no perímetro de dois grandes complexos hospitalares do enclave — o Nasser, em Khan Younis, e o Al-Shifa, em Gaza.

Durante seis dias, uma única escavadeira (só resta uma em funcionamento na região) desenterrou mais de 320 corpos de valas comuns na área do hospital Nasser. Semanas antes, perto de 400 outros haviam sido descobertos entre as ruínas do Al-Shifa, desossado pelas Forças de Defesa de Israel depois de um cerco de duas semanas em abril. Segundo testemunho de entidades humanitárias, a cada corpo encontrado acorrem dezenas de pessoas na esperança de identificar algum parente desaparecido. Algumas lápides improvisadas têm inscrições rudimentares: “Sujeito alto. Cabelo comprido. Camiseta cinza”. Fiapos de informação deixados por alguma alma caridosa. Cabe então a cada parente tentar lembrar o que filho, mãe, irmão, mulher usavam quando foram mortos. Felicidade, em Gaza, é poder salvar os seus mortos da invisibilidade de um não enterro.

De onde surgiram tantos cadáveres de uma só vez? De acordo com a Defesa Civil do enclave, seriam, originalmente, túmulos temporários para quem morreu no perímetro hospitalar durante o cerco israelense regado a bombas. Com os hospitais cercados, era impossível levar qualquer morto até um cemitério. O próprio Exército de Israel, em comunicado, confirma que os cadáveres de palestinos apressadamente enterrados “foram examinados” pelas forças invasoras, na tentativa de “localizar nossos reféns e desaparecidos”. Acrescenta o comunicado que “a perícia foi realizada de forma cuidadosa”, e os cadáveres não pertencentes a israelenses foram “devolvidos a seu lugares”. Não há menção de haver sido encontrado qualquer um dos 133 reféns ainda em mãos dos terroristas do Hamas.

De Washington a Berlim, passando por Londres, Bruxelas e Paris, e inevitavelmente pela ONU, houve um surto de inquietação com pedido de “apuração transparente, clara e crível”, conduzida por investigadores independentes. O jornalista palestino Akram al-Satarri, entrevistado pelo portal Democracy Now!, dá de ombros. Exerce o jornalismo há 16 anos e perdeu a conta de comissões independentes, investigações, relatórios internacionais, missões de averiguação vazias. “A comunidade internacional falhou ao não observar a lei humanitária, que sabe ser tão rica em termos e palavreado. Precisamos de algo tangível, já.”

Esse algo ainda tímido veio à luz nesta semana, na forma de um apelo capitaneado por um emparedado presidente Joe Biden em conjunto com 16 outras nações (inclusive o Brasil), para que o Hamas aceite a proposta de libertar todos os reféns que mantém cativos em condições inimagináveis por mais de 200 dias. Em troca, um cessar-fogo imediato e prolongado — o que, para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, equivaleria a admitir que sua guerra ao Hamas fracassou, que a realidade é plural e que o acúmulo de certezas é sinal de fraqueza. A estudantada mundial, com seus erros e acertos de DNA, já compreendeu o essencial. Falta aos adultos no poder fazerem o mesmo.

A nova espiritualidade sem os deuses da extrema direita

Talvez a paixão pela Bíblia dos novos movimentos fascistas e nazistas de extrema direita não seja uma coincidência. O livro considerado o maior monumento literário religioso de todos os tempos é hoje contestado politicamente pelos partidos que ressurgem das cavernas da intransigência e da violência. E confesso o meu desconforto ao ver esta publicação da Bíblia, usada mais como arma envenenada do que como remédio para a alma, erguida bem alto, como uma bandeira pelas mãos dos novos ditadores no poder: de Trump a um Bolsonaro que veio para querer impor a Bíblia como único livro didático nas escolas.


É verdade que a Bíblia contém a mais sublime e a mais baixa das paixões humanas porque é, na realidade, uma visão do céu e do inferno que todos carregamos dentro de nós. É a fotografia da complexidade do ser humano, meio deus e meio demônio. O que acontece é que no ressurgimento de novos fascismos, quase sempre com conotações religiosas, o que é interessante na Bíblia é apenas a fotografia que ela faz do Deus da vingança, dos massacres, dos medos ancestrais da condenação eterna.

Assim, mesmo os movimentos modernos das igrejas evangélicas e pentecostais que tanto atraem os novos ditadores, acabam apresentando aos fiéis Deus como vingador ao invés do misericordioso que abençoa os pacíficos e os que sofrem perseguições. É a religião da violência contra o Deus do perdão e da solidariedade, mais o Deus das guerras do que o Deus da paz.

Acredito que a Bíblia é o melhor compêndio que existe da complexidade do Homo sapiens com suas mais variadas pulsões e contradições. O livro que melhor nos retrata e que mais se presta a tornar-se um manual guerreiro, sublimando o manual do perdão e da paz.

Talvez por esta razão, embora me deixe visivelmente desconfortável ver a Bíblia nas mãos dos novos ditadores no poder que incitam guerras e praticam a religião do olho por olho, sinto uma certa ternura quando a vejo nas mãos de gente simples e humilde que mal sabe ler. Apenas dois exemplos vividos pessoalmente aqui no Brasil . A primeira foi a de uma trabalhadora que veio da favela do Turano, no bairro Rio Comprido, no Rio. Eu estava passeando com meu cachorro quando vi aquela mulher sentada em uma pedra lendo a Bíblia. Ela provavelmente estava esperando uma Van para ir trabalhar, para limpar uma casa.

Não ousei perguntar que parte da Bíblia ela estava lendo, mas percebi que era o Livro dos Salmos. Nós nos cumprimentamos apenas com os olhos. Percebi que as mãos que seguravam o exemplar já desgastado eram mãos que traziam marcas de muito trabalho. A cena produziu em mim ternura e não pouca reflexão.

Aqui na pequena e alegre cidade pesqueira de Saquarema, famosa por seus campeonatos mundiais de surf, tomando um café com leite e um pão de queijo em um bar, notei alium exemplar aberto da Bíblia. Quando perguntei à proprietária por que seu pequeno bar abria tão tarde, ela me disse que eles tinham uma filha com uma deficiência grave e que precisavam esperar alguém para cuidar dela enquanto trabalhavam.

Comecei a olhar o exemplar aberto da Bíblia e perguntei se ela gostava dele. Ela me respondeu algo que ainda não foi apagado da minha memória anos depois: “Isso me ajuda a não me desesperar”. A verdade é que o Deus da Bíblia daquela mãe que sofreu para sempre a dor da filha doente, não era, como o do trabalhador da favela do Rio, o dos novos ditadores de plantão, os Trumps e os Bolsonaros ou o Deus do ditador espanhol Francisco Franco que manteve a Espanha afastada do mundo durante 50 anos, atolada na pobreza e que parece ameaçar ressuscitar novamente.

Entretanto, pela primeira vez na história, surge uma nova espiritualidade sem deuses e menos ainda sem os deuses dos ditadores. Pela primeira vez, está a surgir um movimento que tenta reconciliar a fé e a esperança com a ciência moderna. É esse diálogo novo e criativo entre ciência e fé que nos redime dos nossos medos, das nossas depressões e angústias psíquicas modernas. Mesmo nas famosas universidades americanas, coisas tão simples e profundas ao mesmo tempo como a gratidão, a amizade, a esperança, a compaixão por quem sofre e a verdadeira amizade são estudadas através de experiências pessoais como novas realidades, até religiosas e libertadoras.

A novidade do nosso tempo, tão complexo e em plena evolução existencial, é que é precisamente a ciência e não os velhos feiticeiros que descobrem os laços estreitos que existem, como antídoto para o desespero existencial que nos persegue, e não as virtudes divinas de tempos antigos, mas os verdadeiramente humanos, aqueles que nos são oferecidos pela força curativa da natureza, que mais consola do que castiga, que no final nos reconcilia com o que de melhor existe no nosso complexo labirinto humano que, ao querer divinizá-lo, acabou desumanizando-o.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Pensamento do Dia

 


‘Dias perfeitos’ e o trabalho modesto

Este artigo é um pequeno contrabando. Não costumo escrever sobre filmes, embora veja sempre um antes de dormir. Na maioria, são tão inexpressivos que me esqueço deles no dia seguinte.

Pensei em escrever sobre “Zona de interesse”, destacando a maneira como trata o nazismo. O turbilhão de notícias me fez esquecer. Agora é diferente. Desde quando li sobre o filme de Wim Wenders “Dias perfeitos”, supus que tinha algo a ver com minha experiência pessoal.

O filme conta a história de um lavador de privadas em Tóquio que vive momentos felizes em seu cotidiano. Já trabalhei em limpeza na Suécia e, apesar do trabalho repetitivo e da crônica dor do exílio, também vivi bons momentos. Essas reflexões valem para países como Suécia e Japão, onde há algum reconhecimento por esse tipo de trabalho e salários dignos.


Aproveitei uma dessas tardes maravilhosas de abril no Rio para ver a estreia de “Dias perfeitos”. Creio ter entendido um pouco o que Wim Wenders quis dizer com a história do faxineiro Hirayama(Koji Yakusho). Ele acorda todas as manhãs em sua pequena casa despojada e olha para o céu, reconhecido por estar vivo, num novo dia. Não tem móveis, apenas um tatame, onde dorme, e usa os cotovelos apoiados no chão para ler diante do abajur. Hirayama compra livros a US$ 1 e está lendo “Palmeiras selvagens”, de William Faulkner.

Depois de comprar o café na máquina da rua, entra no carro e segue ouvindo fita cassete. Lou Reed (“Perfect day”), Patti Smith fazem parte de sua coleção. Hirayama tem uma vida cultural interessante, e creio que isso é o complemento ideal para esse tipo de trabalho. Ele tem uma vantagem sobre os outros, jornalismo, política, medicina, detetives. Quando você deixa a vassoura, o balde, o pano, não precisa pensar mais nisso. Muitas profissões intelectuais invadem o cotidiano, perseguem a pessoa mesmo depois do expediente, sobretudo num tempo de redes sociais.

Hirayama é analógico. Quando recebe a sobrinha Niko, ela pergunta se a música que ouvem está no Spotify. Hirayama responde: onde fica essa loja? Ele leva uma pequena câmera no bolso, fotografa as árvores. A sobrinha mostra sua própria câmera, embutida no telefone celular. Ao lado da sobrinha, ele vive um momento que, creio eu, é uma chave da própria sabedoria oriental. Diante de um rio, param suas bicicletas, e Niko pergunta se não quer ver o rio desaguar no mar.

—Numa próxima vez — Hirayama responde.

Niko pergunta:

— Agora?

—Uma próxima vez, agora não é uma próxima vez.

Saem de bicicleta cantando alegremente, agora não é a próxima vez.

Essa imersão no presente é apenas uma das chaves. No lugar onde compra livros, a vendedora sempre diz uma frase interessante sobre o autor, quando ele faz sua escolha:

—Patricia Highsmith me ensinou a diferença entre medo e ansiedade.

Filha da irmã mais rica, a sobrinha de Hirayama pergunta por que ele não se dá bem com a mãe dela. Ele responde algo assim: “no mundo há muitos mundos, e às vezes não se conectam”.

Mais uma pequena indicação sobre o universo de Hirayama. Ao encontrar com um homem que lhe confessa estar com câncer terminal, Hirayama não comenta nada. Aliás, fala pouquíssimo. Diante da pergunta do homem —se as sombras superpostas ficam mais escuras —, Hirayama o chama para brincar de sombras superpostas e encontrar na prática a resposta. Nada sobre câncer ou morte, apenas uma pequena fração de vida e humor.

A experiência de combinar uma vida cultural com o trabalho modesto foi algo que me deu a sensação de realidade na história de “Dias perfeitos”. Ele ouve Patti Smith em “Redondo Beach”, eu a ouvia em “Because the night” e descansava lendo o New York Herald Tribune.

O final do filme de Wenders me devolveu para o fim de tarde de abril no Rio, não sem antes Hirayma se despedir ouvindo Nina Simone em “Feeling good”, uma canção que parece resumir suas manhãs:

— Pássaros voando alto, você sabe como me sinto/Sol no céu, você sabe como me sinto/Brisa soprando, você sabe como me sinto/É um novo amanhecer, um novo dia, uma nova vida para mim, yeah.

Relaxe!

Brasil! Selva!

Pelo que se vê na mídia, toda a expertise e o dinheiro de Elon Musk não lhe valem uma fala com algum sentido. Ele padece da mesma afecção linguística da ultradireita brasileira, cujo vocabulário político ativo, fora as narrativas mentirosas, resume-se a "liberdade". Isolada, a palavra não significa nada.

O mesmo drama transparece nas investigações do ataque do 8 de janeiro: nos relatos quase etnográficos sobre o famigerado acampamento dos insurretos salta à vista a escassez de palavras de ordem coerentes.

Reconfortaram-se um dia ao saberem que a esposa de um general, ícone do golpismo, em visita ao local, faria um discurso. E ela fez: "Brasil! Selva!". Curto, não grosso, sem narinas dilatadas nem olhar de ódio.

Mas enigmático: isoladas, essas duas palavras não explicam grande coisa. Não são "action-words", no sentido concreto de indução ao ato. Presume-se que faziam parte de um vocabulário próprio à movimentação. O nexo entre uma e outra estaria implícito na mente de cada um por sintaxe oculta, talvez por condensação, como no sonho.

Por mais disparatado que seja, o golpismo precisa de algum discurso. É o que se infere de pensadores do liberalismo americano para os quais um movimento desse calibre carece de novo jogo de linguagem, que faça o anterior parecer ruim. O golpe de 1964 manejava o vocabulário do anticomunismo (supremacia do mercado, silêncio civil, fervor cristão etc.), compartilhado com a matriz americana. Aos golpistas de agora, faltam consentimento (mídia, apoio externo) e linguagem.

Por outro lado, é considerável o desgaste do vocabulário político e moral. E se os valores se esvaziaram por anacronismo, perde força a linguagem da esquerda contra o reacionarismo, por falta de vigor histórico-social das palavras. Daí a insuficiência do arrazoado progressista frente à cacofonia insensata das redes sociais.

Insuficiente também frente ao código moral do Velho Testamento, com emoções de vingança, ódio e guerra aos supostos inimigos do Senhor. É a porta de entrada exitosa dos neopentecostais na vida política. É igualmente uma perspectiva de linguagem para a ultradireita, porque oferece uma linha bíblica de interpretação maleável para acolher chaves do autoritarismo antidemocrático como racismo religioso, homofobia, negacionismo científico e misoginia.

É fala com mais sintaxe do que semântica, isto é, mais conexão do que significado, num contexto delirante. Um discurso de apenas duas palavras não diz nada, mas pode ter poder injuntivo. Donde o segredo da ultradireita: se o ódio é surdo, a sua comunicação, semanticamente muda, faz economia de reflexão, diálogo e sentido. Afinal, como bem sabe Musk, o foguete do delírio não precisa desse combustível.

Médico americano testemunhou o desespero da fome em Gaza

O médico americano Sam Attar avalia que deixou parte de sua alma em Gaza.

Foi a parte dele que viu o sofrimento e não conseguiu virar as costas. A parte que agora ele não consegue esquecer.

Ele pode estar às margens do Lago Michigan em um dia nublado de primavera, vendo o vento criar ondas na água verde. E ao mesmo tempo está de volta lá, em meio ao calor e à morte.


Os rostos desse outro mundo estão com ele: Jenna, a garotinha traumatizada definhando, pálida como um fantasma em uma cama de hospital, enquanto sua mãe mostrava a Attar um vídeo no celular do último aniversário da criança. Lembranças de dias felizes antes do desastre.

Outra mãe, cujo filho de 10 anos acabara de morrer, também são sai de seus pensamentos.

"A mãe acabara de me dizer, com um olhar vazio e entorpecido no rosto, que ele havia morrido cinco minutos antes. A equipe tentava cobrir seu corpo com cobertores, mas ela simplesmente se recusava a permitir. Ela estava de luto, soluçando e ficou assim por uns 20 minutos, ela só não queria sair do lado dele."

Depois teve o homem de 50 anos, esquecido num quarto, após ter as duas pernas amputadas.

"Ele havia perdido seus filhos, seus netos, sua casa", lembra Attar.

"E ele estava sozinho, no canto deste hospital escuro, com vermes saindo de suas feridas e ele gritava: 'Os vermes estão me comendo vivo, por favor me ajude'. Esse foi apenas um de… não sei, simplesmente parei de contar, mas essas são as pessoas em quem ainda penso porque elas ainda estão lá."

Sam Attar é um homem sensível e atencioso, de 40 anos, filho de médicos, nascido e criado em Chicago e que trabalha como cirurgião no hospital Northwestern da cidade.

Enquanto esteve em Gaza, manteve diários em vídeo e filmou suas experiências.

Durante duas semanas, em março e abril – pela ONG Palestinian American Bridge – trabalhou em hospitais de Gaza que careciam desesperadamente de tudo, exceto pacientes gravemente feridos.

No dia em que entrou em Gaza desta última vez, foi imediatamente confrontado com a crise da fome.

"Fomos cercados por pessoas batendo nos carros, algumas pessoas tentando pular sobre os carros. Os motoristas… eles simplesmente entenderam. Eles não param porque, se parassem, as pessoas pulariam nos carros. Eles não estão tentando nos atacar. Estão apenas implorando por comida. Eles estão morrendo de fome."

Attar recorda suas experiências com calma, como seria de esperar de um homem treinado para deixar os pacientes à vontade.

Todos os dias havia uma pressão implacável para realizar uma triagem, decidindo quem poderia ser salvo, e para quem não havia mais esperança.

Pacientes deitados no chão do hospital cercados de sangue e bandagens descartadas, o ar repleto de gritos de dor e de parentes enlutados.

Não há como apagar tais horrores. Mesmo que você seja um médico altamente treinado com experiência anterior em zonas de guerra como Ucrânia, Síria e Iraque.

"Ainda penso em todos os pacientes de quem cuidei", diz ele.

"E em todos os médicos que ainda estão lá. Há um pouco de culpa e vergonha em sair porque há muito a ser feito. As necessidades são exasperadoras. E você deixa para trás pessoas que ainda estão lá e ainda estão sofrendo."

Em sua última viagem – a terceira dele a Gaza desde o início da guerra –, o médico americano se juntou à primeira equipe de médicos internacionais a trabalhar num hospital no norte de Gaza, onde a desnutrição é mais aguda.

A missão foi organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que alertou sobre a grave situação da fome na região.

Cerca de 30% das crianças com menos de dois anos sofrem de subnutrição aguda e 70% da população no norte de Gaza enfrenta o que a ONU chama de "fome catastrófica".

No mês passado, o chefe de Direitos Humanos da ONU, Volker Turk, acusou Israel de um potencial crime de guerra devido à crise alimentar em Gaza.

"A extensão das contínuas restrições de Israel à entrada de ajuda em Gaza, juntamente com a forma como continua a conduzir as hostilidades, pode equivaler ao uso da fome como método de guerra”, disse ele.

Israel nega e culpou a ONU e as agências de ajuda pela entrega lenta ou inadequada de suprimentos.

O governo israelense disse que os cálculos da ONU sobre a fome se basearam em "múltiplas falhas factuais e metodológicas, algumas delas graves".

O governo afirma ainda ter monitorado relatos na imprensa de que os mercados de alimentos em Gaza, incluindo no norte do território, tinham suprimentos suficientes.

"Rejeitamos categoricamente quaisquer alegações de que Israel esteja propositalmente matando de fome a população civil em Gaza", afirmou um comunicado da Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat).

Sam Attar lembra-se da mulher de 32 anos que admitiu sofrer de desnutrição grave, com o filho, a mãe e o pai no quarto com ela.

Ela foi submetida a RCP – reanimação cardiopulmonar – mas não pôde ser salva.

"Eu tive que declarar a morte", diz Sam. A jovem mãe estava deitada num banco, com o braço esquerdo pendurado em direção ao chão, os olhos voltados para cima no momento da morte.

Do outro lado da sala, uma enfermeira consolou a mãe dela, que chorava.

Havia a menina, Jenna Ayyad, de sete anos, "apenas pele e ossos", cuja mãe esperava chegar ao sul, onde havia melhores instalações médicas disponíveis.

Jenna ficou traumatizada pela guerra e parecia extremamente desnutrida. Ela sofre de fibrose cística, o que dificulta a digestão.

Sua condição foi agravada pelas condições da guerra e ela também sofre de traumas. Nas imagens feitas por um cinegrafista da BBC, Jenna parece perdida e agora só fala com a mãe.

"O que posso fazer? Ela não pode ser tratada", disse Nisma Ayyad.

"O estado mental dela é muito difícil. Ela não responde nada quando alguém fala com ela. A situação dela é ruim e, como mãe, não posso fazer nada."

O doutor Sam Attar diz que, enquanto sua equipe fazia as malas para regressar ao sul de Gaza, a mãe de Jenna abordou-o.

"A mãe de Jenna veio até mim e disse: 'Pensei que íamos com você... O que está acontecendo? Por que você vai e nós vamos ficar?'"

Attar teve que explicar que o comboio para o sul só estava autorizado para entrega de combustível e alimentos e não para transporte de pacientes.

Mas antes de partir, Attar e seus colegas preencheram os documentos necessários para a transferência de Jenna.

Levaria dias, mas eles garantiriam que a papelada chegasse aos escritórios certos.

Quando o médico foi falar com a mãe de Jenna, outras mães notaram.

"O problema é que são quartos abertos e compartilhados, [com] talvez dez pacientes em um quarto. Então, quando as outras mães me viram conversando com ela, todas me cercaram."

Jenna foi transferida e agora está sendo tratada no hospital do International Medical Corps, perto de Rafah.

De acordo com estimativas da ONU do mês passado, a maioria dos mortos na guerra são mulheres e crianças: 13 mil crianças, 9 mil mulheres.

A guerra está agora no seu sétimo mês. As negociações para um cessar-fogo e a libertação de reféns estão paralisadas.

Todos os dias e todas as noites, os feridos e os desnutridos chegam aos poucos hospitais em funcionamento que restam. A OMS afirma que apenas dez dos 36 hospitais de Gaza ainda funcionam.

Viajar em Gaza pode ser muito perigoso para os trabalhadores humanitários.

Basta lembrar da morte de sete trabalhadores humanitários, incluindo três britânicos, quando os militares israelenses atacaram seu comboio com mísseis no dia 1° de abril.


Attar descreve filas de horas nos postos de controle israelenses.

"Muitas vezes esperamos de uma a quatro horas, dependendo de quanto tempo leva para os israelenses aprovarem a passagem, porque estão conduzindo operações militares."

O médico americano quer ver um esforço conjunto para levar mais ajuda ao norte de Gaza.

"O norte precisa de mais acesso, mais alimentos, mais combustível, mais água, estradas precisam ser abertas… E há tantos pacientes que precisam ser evacuados do norte para sul e o problema é que o sul também está lotado. Quer dizer, os hospitais aqui estão explodindo."

Ele vai voltar. Em breve, espera. Existem laços de amizade que o chamam.

O paramédico Nabil que Attar via todos os dias, trazendo os feridos para tratamento, até que ele próprio se tornou uma vítima que teve de ser retirada dos escombros pelos colegas. Ele está vivo, mas não poderá sair de Gaza.

O médico cuja filha foi morta, mas que teve a generosidade de confortar uma mãe cujo filho pequeno sofria com uma lesão cerebral causada por estilhaços de bomba.

E há os pacientes e suas famílias, que veem nos médicos, enfermeiros e paramédicos não apenas a possibilidade de ajuda prática, mas a luz constante da decência humana num lugar de horror e degradação.

Essa é a turma de Sam Attar. Todos eles.

Definhando

Quem passeia pela orla nem imagina como está abandonada a área central da cidade, antes referência de novidades, movimento, relíquias históricas, desenvolvimento econômico. Houve um tempo em que, sair do escritório até o café, era garantia de encontrar conhecidos, notícias da última liquidação, cardápios anunciando na calçada almoços tentadores, trabalhadores bem vestidos.

Hoje, o cenário é desolador. Velhos sobrados em ruínas, muitos sem telhados ou metade das janelas. Nas quinas de cada um, brotam plantas resistentes como samambaias, sobrevivendo com a ajuda da chuva e do vento. Não há o que roubar: a maioria das grades de metal, maçanetas, luminárias já foram surrupiadas para venda nos ferros-velhos. Gostaria de saber se ainda há restos dos forros de madeira e soalhos, entre os fantasmas. O que se vê de fora são apenas pombos e mato.


A Prefeitura promete desapropriar esses imóveis esquecidos e o jornal local publicou fotos de alguns deles. Fico imaginando a tristeza de quem já morou ou cresceu ali, diante de tanto descaso. São construções centenárias, algumas com o ano de nascimento na fachada e arabescos que não existem mais nas moradias atuais.

Gosto de idealizá-las restauradas, com a pintura inteira e sem manchas, jardim refeito, muros e portões completos. Sei que a tendência será colocá-las abaixo, a providência mais prática para criar edifícios e moradias populares, a fim de lá abrigar a população de menor renda. Com otimismo, podemos prever que a ocupação provocará a instalação de escolas e postos de saúde, restaurantes a preços populares, farta iluminação, policiamento constante, áreas de lazer.

Utopia não tem limite, mas tudo é moroso na administração pública e imóveis moribundos pedem pressa. O déficit de habitações e empregos, também. Dói passar pelas ruínas de grandes lojas de departamento, tapeçarias de luxo, confeitarias enfeitadas com murais, famosas casas de discos e instrumentos musicais… Tudo agora não passa de lembrança nas cabeças brancas das gerações mais antigas. As novas, atraídas pelos shoppings, desconhecem. Nem vão ao centro da cidade.

Lições de um prefeito escritor

O ambiente político fervilha nos anos de eleição. Apesar das imperfeições e disfuncionalidades do regime, o Brasil segue um calendário eleitoral que, a cada dois anos, intercala eleições gerais e eleições municipais.

A democracia tem uma virtude indiscutível: confere mandato com prazo determinado, assegurando alternâncias, exceto o faz-de-conta das nações que ameaçam constantemente os mecanismos da democracia liberal e ampliam globalmente os espaços do populismo autocrático.

Por aqui, há os que preconizam reformas que corrijam as distorções do nosso sistema político. Esqueçam. Diz o cancioneiro: “Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus”. Vamos ao jogo. As regras estão estabelecidas e a vida real de 5.570 municípios será exposta com suas carências e dificuldades num quadro de brutal desigualdade.

Neste clima, milhares de candidatos vão às ruas, com o sem a falsificação do marketing, pedir e se mostrar merecedor do voto do eleitor.

A vida local da menor e mais pobre à mais rica e populosa cidade é o espaço das transformações reais, a desafiar a capacidade de gestores e legisladores. O julgamento popular será um passo adiante ou, para trás, dos projetos políticos/pessoais.


Sem dúvida, o mais complexo dos desafios está reservado para a governança, hoje elevada à categoria estratégica ao lado das questões sociais e ambientais. Ganhou lugar de destaque na composição da sigla internacional ESG.

Trata-se de conceito e experiência extremamente complexas. Exigem múltiplas capacidades, conhecimentos, estratégias e métodos. O importante: é possível aprender a fazer e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. No entanto, para além dos mecanismos modernos e inovadores, a gestão deve obrigatoriamente observar princípios que atravessam o tempo.

Neste ponto, recordo a passagem memorável da gestão municipal no Brasil do Prefeito Escritor (e admiravelmente transgressor) Graciliano Ramos (1892-1953), grande romancista e expoente da geração modernista de 30 que nos deixou 11 obras em vida, 10, póstumas e duas traduções, uma delas, A peste, de Camus.

Como Prefeito de Palmeira dos Índios (candidato único por consenso e 433 votos) imortalizou dois relatórios dirigidos ao Governador de Alagoas em 1929 (exercício do 28) e 1930 (exercício de 1929), recém-editados pela Record sob o título O prefeito escritor: dois retratos de uma administração, prefaciado pelo Presidente Lula. Neles, estavam as sementes do moderno conceito de accountability (prestação de contas e responsabilização).

Os relatórios revelam o escritor/transgressor, primeiro ao usar os verbos na primeira pessoa do singular com estilo conciso, sem enfeites, imitando, segundo ele, o ofício das lavadeiras que se dedicavam ao esforço repetido do fazer prosaico de, com esmero, lavar o tecido. A partir do exemplo, dizia: “Quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como falso: foi feita para dizer”. A vocação de escritor derrotou o jargão burocrático.

Sempre iniciava os documentos prestando contas, minuciosamente, das receitas e gastos. “Consegui salvar em setenta dias 9:539$447 (Moeda da época, comparação 1 Real/100 Réis). É pouco. Entretanto fiz esforço imenso para acumular soma tão magra […] suprimi despesas e descontentei bons amigos e compadres que me fizeram pedidos […] de resto preciso efetuar uma economia considerável, não só para custear as despesas como para fazer face à dívida que a administração passada me legou”.

Apesar de tempos históricos distintos, no relatório, estão demonstrados sinais de austeridade, transparência, probidade, zelo com o dinheiro público (responsabilidade fiscal) e, nas entranhas da gestão pública, constatados os vícios do compadrio e do patrimonialismo.

Outro expressivo registro com realismo, humor e ironia: “A cobrança das contas atrasadas é impossível […] Isto se explica pelo fato de sermos todos, prefeitos, conselheiros, contribuintes, mais ou menos, compadres”.

Nascido em Quebrangulo (AL) e primogênito de uma numerosa família de 16 irmãos, o notável escritor escreveu seu primeiro conto, O pequeno pedinte, em 1904. A partir de então, a extensa bibliografia se inspirou na sua profunda sensibilidade para denunciar os contrastes sociais, expostos na miséria dos retirantes nordestinos donde emergia o infortúnio dos desvalidos a exemplo de Fabiano, protagonista de Vidas Secas.

O romance engajado e suas ideias renderam-lhe uma prisão em 1936, sob a acusação de ser comunista por quase um ano. Inocentado. As agruras do prisioneiro foi o tema do romance autobiográfico Memórias do Cárcere. Em 1945, filiou-se ao PCB.

Com modéstia, disse em um dos relatórios: “Não pretendo levar ao público a ideia de que meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas”, mas com a firmeza de convicções das quais jamais se afastou, assim se referiu ao “pobre povo sofredor” que “quer escolas, quer luz, quer estrada, quer higiene”.

O exemplo e o sonho do prefeito escritor, alargados, atualizados, realizados, bem que podem servir como plataforma e compromisso dos candidatos que almejem um espaço de poder nas próximas eleições municipais.

Em quaisquer circunstâncias, fica a lição atemporal: o bom governo é o mais forte argumento em favor do prestígio e da resistência da democracia.

sábado, 27 de abril de 2024

Sem passaporte, monitorado pela Polícia Federal e à espera do pior

Melhor Jair Bolsonaro esperar sentado a devolução do seu passaporte apreendido em 8 de fevereiro passado pela Polícia Federal por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que preside o inquérito sobre atos hostis à democracia.

Sentado, não, melhor que ele espere deitado. E que sua defesa não perca tempo em pedir outra vez a liberação do documento. Moraes não tem pressa em responder a qualquer pedido, e muito menos disposição para restabelecer as condições de ir e vir de Bolsonaro.

Ir e vir dentro do Brasil, sem problema. Bolsonaro goza de pleno direito desde que respeite certas restrições. Por exemplo: está proibido de se comunicar com os outros investigados. Não é aconselhável que volte a investir contra a justiça como já fez tantas vezes.


Ir para o exterior tiraria Bolsonaro do radar imediato da Polícia Federal. Ele pode não notar, mas é monitorado o tempo inteiro. Uma vez no exterior, em território governado pela extrema-direita, talvez desejasse ficar por lá sem data de retorno. Férias? Exílio?

Vai saber o que se passa na cabeça dele. Nem aos filhos ele confessa. Todos se disseram surpreendidos com a decisão do pai de aproveitar parte do carnaval para refugiar-se na embaixada da Hungria no Brasil. Só não surpreendeu Carlos, que o visitou por lá às escondidas.

Carlos, sempre Carlos. É o filho mais ligado a Bolsonaro, e o mais problemático. É também aquele que o pai machuca sem piedade. Bolsonaro o obrigou a candidatar-se a vereador para derrotar a própria mãe que pretendia se reeleger vereadora, e ele a derrotou com os votos do pai.

Bolsonaro não admite, mas está preocupado com sua capacidade em declínio de atrair multidões. Com as chaves dos cofres públicos nas mãos, e o poder que o cargo de presidente lhe conferia, era-lhe fácil reunir gente aonde quer que fosse e para o que quisesse.

De resto, a expectativa de manter-se no poder operava a seu favor. Essa expectativa transferiu-se para seu sucessor. E Bolsonaro vive hoje a contar os meses, os dias e as horas que o separam de uma mais do que certa condenação. Se fosse condenado só pelo golpe que fracassou…

Se fosse só por isso, o que não seria pouco, se declararia preso político, vítima de uma injustiça. Seguiria repetindo a cantilena de que não planejou golpe algum, de que golpe não se faz sem armas e tanques nas ruas, e coisa e tal. No máximo, houve uma proposta de golpe.

Mas ser também condenado por roubar joias do acervo presidencial, falsificar atestados de vacinação contra a Covid, e sabe-se lá mais o quê… Moraes revelará quando chegar o momento. E as provas serão tão fartas que a falação de Bolsonaro será rebaixada à condição de mimimi.

Assim foi Auschwitz

Partimos do campo de concentração de Fossoli, em Carpi (Módena), em 22 de fevereiro de 1944, num comboio de 650 judeus de ambos os sexos e de todas as idades. O mais velho ultrapassava oitenta anos, o mais novo era um bebê de três meses. Muitos estavam doentes, e alguns gravemente: um senhor de setenta anos, que tivera uma hemorragia cerebral poucos dias antes da partida, também embarcou no trem e morreu durante a viagem.

O trem era composto apenas por vagões de transporte de gado, fechados pelo lado de fora; em cada vagão, foram amontoadas mais de cinquenta pessoas, a maioria delas trazendo tudo o que conseguira de malas, porque um primeiro sargento alemão, empregado do campo de Fossoli, havia nos sugerido, com ar dequem dava um conselho desinteressado e afetuoso, que nos provêssemos de muitas roupas pesadas — malhas, cobertores, casacos de pele — porque seríamos levados para regiões de clima mais rigoroso do que o nosso. E acrescentara, com um sorrisinho benévolo e uma piscadela irônica, que, se alguém tivesse dinheiro ou joias escondidas, faria bem em levá‑los, pois lá certamente seriam úteis. A maioria dos que partiam mordera a isca, seguindo um conselho que escondia uma cilada vulgar; outros, pouquíssimos, preferiram confiar seus bens a algum particular com livre acesso ao Campo; outros ainda, que no ato da prisão não tiveram tempo de providenciar mudas de roupa, partiram apenas com o que vestiam.

A viagem de Fossoli para Auschwitz durou exatamente quatro dias; e foi muito penosa, sobretudo por causa do frio, que era tão intenso, especialmente na madrugada. Ao amanhecer, as tubulações de metal no interior dos vagões estavam cobertas de gelo, devido ao vapor da respiração que se condensava sobre elas. Outro tormento era a sede, que só podia ser aplacada com a neve recolhida na única parada do dia, quando o comboio se detinha em território neutro e os viajantes eram autorizados a descer dos vagões, sob a rigorosíssima vigilância de numerosos soldados, com a metralhadora sempre apontada, prontos a abrir fogo contra qualquer um que fizesse menção de se afastar do trem.

Durante essas curtas paradas, a distribuição dos alimentos era feita de vagão em vagão: pão, geleia e queijo; nunca água nem outro líquido. As possibilidades de dormir eram reduzidas ao mínimo, pois as malas e trouxas se amontoavam no chão e não permitiam que ninguém se ajeitasse numa posição cômodae propícia ao descanso; todo viajante devia se satisfazer em ficar agachado da maneira menos pior possível, num espaço reduzidíssimo. O piso dos vagões estava sempre molhado e não foi providenciado nem sequer um pouco de palha para cobri‑lo.

Assim que o trem chegou a Auschwitz (eram aproximadamente 21 horas de 26 de fevereiro de 1944), os vagões foram rapidamente esvaziados por numerosos ss, armados com pistolas e cassetetes; e os viajantes, obrigados a colocar malas, trouxas e cobertas ao longo do trem. A comitiva foi logo dividida em três grupos: um primeiro de homens jovens e aparentemente aptos, integrado por 95 indivíduos; um segundo de mulheres, também jovens — grupo pequeno, composto de apenas 29 pessoas —, e um terceiro, o mais numeroso de todos, com crianças, inválidos e idosos. Enquanto os dois primeiros foram encaminhados separadamente para diversos campos, há razão para crer que o terceiro foi conduzido diretamente para a câmara de gás de Birkenau e seus integrantes, trucidados na mesma noite.
Primo Levi

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Mantenha-se ativo na ajuda aos outros

Viver ou morrer é a mesma coisa. Porque, naturalmente, a vida não está neste pequeno corpo. O importante é a maneira como vivemos e a mensagem que deixamos. Isso é o que nos sobrevive. Isso é a imortalidade. 

O fundamental é manter ativo o cérebro, tentar ajudar os outros e conservar a curiosidade pelo mundo. 
Rita Levi-Montalcini, Prêmio Nobel de Medicina em 1984

Embalo da sexta

Éramos felizes e não sabíamos

Na entrega do anteprojeto do novo Código Civil ao Congresso Nacional, o ministro Alexandre de Moraes referiu-se a variadas transformações ocorridas na sociedade brasileira, novos tipos de contratualidade social, que o tornam necessário. Ressaltou “a questão de costumes, novas relações familiares, novas modalidades de se tratar das questões do direito de família e sucessões, a tecnologia, a inteligência artificial, novas formas de responsabilidade civil”.

Ele poderia ter arrolado muitas outras modalidades de relacionamento que expressam a realidade atualizada do país e sofreram câmbios significativos. Aos olhos dos mais antigos, bloqueados no meio do caminho das mudanças, a sociedade está tomada por crescentes anomalias, até mesmo inaceitáveis para muitos.

Uma ideologia repressiva e punitiva, de cada vez mais numerosas pessoas, já domina a formação de partidos e de bancadas partidárias nas casas do Congresso; domina novas “religiões” e até mesmo disfarça religiões em partidos políticos, o que viola a Constituição e as leis. Um conjunto extenso de metamorfoses sociais tornou a sociedade brasileira disfuncional e patológica.

As redes sociais tornaram-se não só poderosos instrumentos de difusão cultural e de democratização do conhecimento. Mas, ao mesmo tempo, diluíram e mistificaram a consciência crítica e reveladora dessas graves anomalias e transformações. O anormal passou a fazer parte da normalidade. A anomalia passou a ser concebida como um direito em nome do direito à liberdade de opção, mesmo que antissocial. O que motivava estranheza e repulsa tornou-se ódio, base ideológica de um programa de mudança para não mudar.

Sociedades atrasadas mudam relativamente depressa por impulso de fatores invisíveis. As causas da mudança eficaz que nos move mais rapidamente nem mesmo estão aqui. E as que estão aqui só muito lentamente se transformam em motivação e fator das mudanças sociais e políticas que carecemos. Estamos sempre em atraso com nossos carecimentos.

O desenvolvimento das tecnologias das redes sociais e a rapidez de sua disseminação são acompanhados pelo dedo indicador, mas não o são pelo cérebro, pela cultura e pela consciência. Esse descompasso abriu caminho para o poder de manipulação das consciências, à qual chegam os aproveitadores dessa fragilidade muito mais depressa do que o bom senso.

A criminalidade econômica, a política e a religiosa acrescentam-se rapidamente ao elenco de criminalidades que já ameaçavam as sociedades antes das redes sociais. O crime se moderniza antes da modernização da Justiça e o elenco de criminosos se dilata.

Há também as categorias sociais que não só não mudaram como radicalizaram suas antiquadas concepções de vida e dos valores que lhes são referências. Temos saudade do que nunca fomos, queremos voltar para onde nunca estivemos.

É o caso dos militares, cuja organização é estamental, de um passado que nunca teve um lá adiante atualizado à luz das mudanças sofridas pela sociedade, como se não fizessem parte dela. São movidos por carências suas e não da sociedade.

Já na ditadura militar, mas também recentemente, no bolsonarismo, deram evidentes indicações de grande dificuldade para aceitar e reconhecer as significativas mudanças sociais e políticas que iam na direção até mesmo de uma nova concepção de democracia. Socializados para fazer a guerra contra uma sociedade de inimigos imaginários, têm agido no sentido de reduzir a sociedade brasileira aos limites de uma cultura autoritária de quartel.

Também querem a volta a um passado que não houve, os grupos que encontraram nas religiões antidemocráticas e não só fundamentalistas mais do que um refúgio contra as tentações de satanás, uma fortaleza da mentalidade de guerra que os motiva. São os de religiões antirreligiosas de enquadramento dos pobres de espírito, que nas religiões do poder se sentem seguros contra as crescentes incertezas do mundo. Insurgem-se contra a necessidade de modernização das mentalidades.

Antes das redes sociais éramos felizes não porque delas não carecíamos. Nossa consciência das necessidades da vida tinha outros valores de referência, que eram valores sociais próprios da condição humana. Havia uma consciência clara do que era ser gente e do que não o era.

Não sabíamos que éramos felizes porque nos bastava a esperança do que éramos. Hoje achamos que somos felizes com o mundo fantasioso das redes sociais, mas já não sabemos o que somos. Elas desumanizaram o nosso mundo e o liquefizeram. Usurparam-nos a consciência da esperança. Trocaram nossa consciência possível por uma consciência meramente provável, o destino de todos como um mero e cinzento talvez.