sexta-feira, 19 de abril de 2024

Computando a felicidade

Até agora, discutimos a felicidade como se esta fosse, em grande medida, produto de fatores materiais, como saúde, dieta e riqueza. Se as pessoas são mais ricas e mais saudáveis, também devem ser mais felizes. Mas isso é mesmo assim tão óbvio? Filósofos, padres e poetas refletiram sobre a natureza da felicidade durante milênios, e muitos concluíram que fatores sociais, éticos e espirituais têm tanta influência sobre nossa felicidade quanto as condições materiais. E se as pessoas nas sociedades afluentes modernas sofrem muitíssimo de alienação e carência de sentido, apesar de sua prosperidade? E se nossos ancestrais menos abastados encontravam grande contentamento na comunidade, na religião e em um vínculo com a natureza?


Nas últimas décadas, psicólogos e biólogos aceitaram o desafio de estudar cientificamente o que de fato deixa as pessoas felizes. É o dinheiro, a família, a genética ou, talvez, a moral? O primeiro passo é definir o que será medido. A definição geralmente aceita de felicidade é “bem-estar subjetivo”. A felicidade, de acordo com essa visão, é algo que sinto dentro de mim, uma sensação de prazer imediato ou de contentamento no longo prazo com o modo como minha vida avança. Se é algo sentido do lado de dentro, como pode ser medido de fora? Supostamente, podemos fazer isso pedindo que as pessoas nos digam como se sentem. Desse modo, os psicólogos e biólogos que desejam avaliar o quanto as pessoas se sentem felizes lhes dão questionários para responder e computam os resultados.

Um típico questionário sobre bem-estar subjetivo pede aos entrevistados para avaliarem em uma escala de zero a dez o quanto concordam com afirmações do tipo “Sinto-me satisfeito com minha forma de ser”, “Sinto que a vida é muito satisfatória”, “Sou otimista com relação ao futuro” e “A vida é boa”. O pesquisador, então, soma todas as respostas e calcula o nível geral de bem-estar subjetivo do entrevistado.

Tais questionários são usados para correlacionar a felicidade com vários fatores objetivos. Um estudo pode comparar mil pessoas que ganham 100 mil dólares por ano com mil pessoas que ganham 50 mil dólares por ano. Se o estudo descobrir que o primeiro grupo tem um nível médio de bem-estar subjetivo de 8,7, ao passo que o segundo grupo tem um nível médio de apenas 7,3, o pesquisador pode concluir, de maneira razoável, que há uma correlação positiva entre riqueza e bem-estar subjetivo. Dito de forma simples, dinheiro traz felicidade. O mesmo método pode ser usado para examinar se pessoas vivendo em democracias são mais felizes que pessoas vivendo em ditaduras e se os casados são mais felizes que os solteiros, divorciados ou viúvos.

Isso fornece uma base para os historiadores, que podem examinar a riqueza, a liberdade política e os índices de divórcio no passado. Se as pessoas são mais felizes em democracias e as pessoas casadas são mais felizes que as divorciadas, um historiador tem uma base para argumentar que o processo de democratização das últimas décadas contribuiu para a felicidade da humanidade, ao passo que os índices crescentes de divórcio indicam uma tendência oposta.

Essa maneira de pensar não é isenta de falhas, mas, antes de apontar algumas delas, vale considerar suas descobertas.

Uma conclusão interessante é que, de fato, o dinheiro traz felicidade. Mas só até certo ponto, e além desse ponto tem pouca significância. Para as pessoas presas na base da pirâmide econômica, mais dinheiro significa mais felicidade. Se você é uma mãe solteira brasileira que ganha 12 mil reais por ano limpando casas e de repente ganha 500 mil reais na loteria, provavelmente sentirá um aumento significativo e duradouro em seu bem-estar subjetivo. Conseguirá alimentar e vestir seus filhos sem se afundar ainda mais em dívidas. No entanto, se você é um alto executivo que ganha 250 mil reais por ano e de repente ganha 1 milhão de reais na loteria, ou se a diretoria de sua empresa de repente decide dobrar seu salário, é provável que seu aumento no bem-estar subjetivo dure apenas algumas semanas. De acordo com descobertas empíricas, é quase certo que não fará uma grande diferença no modo como você se sente no longo prazo. Você comprará um carro mais pomposo, se mudará para uma casa suntuosa, se acostumará a comer coisas mais sofisticadas e a tomar os melhores vinhos, mas logo tudo isso parecerá rotineiro e nada excepcional.

Outra descoberta interessante é que a doença diminui a felicidade no curto prazo, mas só é fonte de sofrimento no longo prazo se as condições de vida de uma pessoa se deteriorarem de forma constante ou se a doença envolver dor contínua e debilitante. As pessoas que são diagnosticadas com doenças crônicas como diabetes geralmente ficam deprimidas por um tempo, mas, se a doença não piorar, elas se ajustam à nova condição e classificam sua felicidade nos mesmos patamares que as pessoas saudáveis. Imagine que Lúcia e Lucas são gêmeos de classe média, que concordam em participar de um estudo sobre bem-estar. Ao voltar do laboratório de psicologia, o carro de Lúcia é atingido por um ônibus, deixando-a com uma série de ossos fraturados e uma perna permanentemente danificada. Enquanto a equipe de resgate a está tirando do meio das ferragens, o telefone toca e Lucas grita que acabou de ganhar 10 milhões de reais na loteria. Dois anos depois, ela estará mancando e ele estará muito mais rico, mas, quando o psicólogo aparece para um estudo de acompanhamento, ambos tendem a dar as mesmas respostas que deram na manhã daquele dia fatídico.

Família e comunidade parecem ter mais impacto na nossa felicidade do que dinheiro e saúde. Pessoas com famílias coesas que vivem em comunidades unidas que lhes dão apoio são significativamente mais felizes do que pessoas cujas famílias são disfuncionais e que nunca encontraram (ou nunca buscaram) uma comunidade da qual fazer parte. O casamento é particularmente importante. Repetidos estudos descobriram que há uma relação muito direta entre bons casamentos e nível elevado de bem-estar subjetivo e entre maus casamentos e sofrimento. Isso é verdade independentemente de condições econômicas ou mesmo físicas. Um inválido sem recursos cercado por uma esposa amorosa, uma família dedicada e uma comunidade afetuosa pode se sentir melhor do que um bilionário alienado, contanto que a pobreza do inválido não seja extrema e que sua doença não seja degenerativa nem dolorosa.

Isso levanta a possibilidade de que a melhoria gigantesca nas condições materiais dos últimos dois séculos tenha sido compensada pelo colapso da família e da comunidade. As pessoas no mundo desenvolvido contam com o Estado e o mercado para quase tudo de que necessitam: alimento, abrigo, educação, saúde, segurança. Desse modo, tornou-se possível sobreviver sem ter uma família estendida ou amigos reais. Um indivíduo que mora em uma cobertura urbana é cercado por milhares de pessoas onde quer que vá, mas possivelmente jamais visitou o apartamento vizinho e sabe muito pouco sobre seus colegas de trabalho. Até mesmo seus amigos talvez sejam apenas companheiros de bar. Hoje, muitas amizades envolvem pouco mais do que conversar e se divertir juntos.

Encontramos um amigo em um bar, telefonamos para ele ou lhe enviamos um e-mail para aliviar nossa raiva sobre o que aconteceu hoje no escritório ou compartilhar nossas opiniões sobre o último escândalo político. Mas até que ponto podemos conhecer bem uma pessoa somente com base em conversas?
Diferentemente de tais companheiros de bar, os amigos na Idade da Pedra dependiam uns dos outros para sua própria sobrevivência. Os humanos viviam em comunidades solidárias, e os amigos eram pessoas com quem se caçava mamutes. Juntos, sobreviviam a longas jornadas e a invernos rigorosos.

Cuidavam um do outro quando um deles ficava doente, e compartilhavam a última porção de comida em épocas de necessidade. Tais amigos conheciam uns aos outros mais intimamente do que muitos casais de nossos dias. Quantos maridos podem dizer que sabem qual será o comportamento da esposa se eles forem atacados por um mamute enfurecido? Substituir tais redes tribais precárias pela segurança das economias e dos Estados paternalistas modernos obviamente tem vantagens enormes, mas é provável que a qualidade e a profundidade das relações íntimas tenha sido afetada.

Mas a descoberta mais importante de todas é que a felicidade não depende de condições objetivas de riqueza, saúde ou mesmo comunidade. Em vez disso, depende da correlação entre condições objetivas e expectativas subjetivas. Se você quer uma carroça e consegue uma carroça, fica contente. Se você quer uma Ferrari zero e só consegue um Fiat usado, sente que algo lhe foi negado. É por isso que ganhar na loteria tem, com o tempo, o mesmo impacto sobre a felicidade das pessoas que um acidente de carro debilitante. Quando as coisas melhoram, as expectativas inflam, e consequentemente até mesmo melhorias drásticas nas condições objetivas podem nos deixar insatisfeitos. Quando as coisas se deterioram, as expectativas diminuem, e consequentemente até mesmo com uma doença grave a pessoa pode ser tão feliz quanto era antes.

Você poderia dizer que não precisamos de um bando de psicólogos e seus questionários para descobrir isso. Profetas, poetas e filósofos perceberam, há milhares de anos, que estar satisfeito com o que você já tem é muito mais importante do que obter mais daquilo que deseja. Ainda assim, é bom quando pesquisas atuais – sustentadas por uma porção de números e gráficos – chegam à mesma conclusão a que os antigos chegaram.

Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"

Governos para quê?

No caso da democracia, foi prometida uma resposta simples: “do povo, pelo povo e para o povo”. Será mesmo?

Ou, talvez: governos, para quem? No caso da democracia, foi prometida uma resposta simples: “do povo, pelo povo e para o povo”. Será mesmo? Tudo estaria resolvido se houvesse ao menos concordância na definição de povo.

A confusão começa com inúmeros grupos humanos sendo chamamos de ‘povos’ (indígenas, africanos, originários, tradicionais, europeus etc. etc.). Será que todos esses ‘povos’ já usufruem igualmente daquele exercício democrático de ser povo?

Como se não bastasse, no âmbito de cada um desses ‘povos’ há diversas estratificações econômicas e sociais que se apresentam de maneira muito diferente quanto ao acesso concreto às oportunidades e às garantias previstas na legislação de cada país.


Um caso claro é o das pessoas negras. Várias democracias modernas surgiram, a partir do século XVIII, convivendo com regimes escravistas. Nos EUA a abolição da escravidão só ocorreu uns cem anos após a Independência Americana. Na França a abolição foi conquistada anos após a Revolução Francesa e foi restabelecida por Bonaparte, antes de ser revogada em meados do século XIX.

Ao longo do século XX persistiu nas democracias a discriminação contra grande parte da sociedade, com a restrição ao direito de votar dos negros, mulheres, analfabetos e indígenas, por exemplo. Ainda hoje restam desigualdades profundas no acesso à educação, saúde, emprego, segurança, infraestrutura, moradia, transporte e outros serviços públicos ou privados.

Ao que parece, ao longo da história o Estado é reinventado periodicamente, em formatos que oferecem novas possibilidades de governança, adequadas às elites emergentes de cada época. A democracia prevê na sua certidão de nascimento as conexões que possibilitariam a liberdade, igualdade e soberania, ampliando a dinâmica de poder para além dos limites das cortes monarquistas.

Contudo, os retrocessos autocráticos periódicos refletem o esforço de recomposição dos desenhos originais de democracias pouco inclusivas, deixando a impressão de que os sistemas de governo não esquecem que foram projetados para viabilizarem a prosperidade e consolidarem a influência dos segmentos sociais que bancaram sua instalação.

Esse estilo “camarote vip” pode ser visto na composição do próprio Conselho de Segurança da ONU. Nesse ponto, os atuais ultraliberais e anarcocapitalistas preservam um vício de origem similar ao dos ditadores e populistas de leste a oeste do planeta. O retrocesso cíclico reflete a queda-de-braço estrutural entre o andar de cima do PIB (a quem os governos foram inventados para servir) e a base da pirâmide social (a quem os governos disseram que foram inventados para servir).

Por isso, o que Trump, Kim Jong-um, o talibã (e suas variações) têm em comum é a crença na desigualdade social enquanto chão de fábrica da concentração de riqueza, que segue sendo curiosamente, ao mesmo tempo, o principal propósito e o maior desafio dessa invenção milenar humana chamada governo.

LIBERTANGO

Astor Piazzolla, Aydar Gaynullin & Chamber orchestra of the Staatskapelle Berlin 

Ataques de Israel com fósforo branco no Líbano violam leis internacionais?

Nos últimos seis meses, Israel usou munições de fósforo branco na fronteira com o sul do Líbano. Por ser um gás tóxico, ele é prejudicial para os olhos e pulmões e pode causar queimaduras graves. Portanto, é rigorosamente regulamentado por leis internacionais.

Os militares israelenses afirmam que a utilização desta polêmica arma contra militantes armados em Gaza e no Líbano é legal. No entanto, grupos de direitos humanos argumentam que o seu uso deve ser investigado como um crime de guerra. Os americanos disseram que investigarão o uso de fósforo branco por Israel.

Ao utilizarem essa munição tão perto de civis, estariam as forças israelenses infringindo as leis internacionais? Ou eles estão dentro dos seus direitos, como parte da guerra?

"Ela viaja como uma névoa branca. Mas quando atinge o chão, vira pó."

Em 19 de outubro de 2023, Ali Ahmed Abu Samra, um agricultor de 48 anos do sul do Líbano, diz que se viu envolto por uma densa nuvem branca.

"Dizem que o cheiro é de alho, mas é muito pior que isso. O cheiro era insuportável. Pior que esgoto."

Ali está descrevendo um ataque com fósforo branco.

Com temperaturas que chegam a 815°C, as munições de fósforo branco são altamente inflamáveis e gravemente tóxicas.

"A água começou a escorrer dos nossos olhos", diz Ali, da aldeia de Dhayra. "Se não fosse por cobrirmos a boca e o nariz com um pedaço de pano úmido, talvez não estaríamos vivos hoje."

Desde o início da guerra em Gaza, em outubro do ano passado, a violência também aumentou ao longo da fronteira Israel-Líbano, provocando vítimas de ambos os lados e o deslocamento de milhares de pessoas.

Estreitamente alinhado com o Irã e aliado do Hamas, o grupo Hezbollah é uma das forças militares não estatais mais fortemente armadas do mundo.

Realizando ataques quase diários, os foguetes e drones dos combatentes do Hezbollah foram recebidos com ataques aéreos e artilharia pesada pelas Forças de Defesa de Israel (FDI, na sigla em inglês). Inclusive com o uso de fósforo branco.

Quando o fósforo branco é liberado, ele reage com o oxigênio para criar uma espessa cortina de fumaça. Isso fornece cobertura quase instantânea para as tropas no terreno, obscurecendo a linha de visão do inimigo.

A fumaça é altamente eficaz e uma tática militar legal sob certas condições. Contudo, no direito internacional, é responsabilidade de todas as partes proteger os civis durante os conflitos armados.

Ataque de fósforo branco na aldeia de Aita Al Shaab 

O fósforo branco foi utilizado pela maioria dos principais exércitos do mundo no século passado. A União Soviética o usou extensivamente durante a Segunda Guerra Mundial, de acordo com a CIA (serviço de inteligência dos EUA). Os Estados Unidos admitiram utilizá-lo no Iraque em 2004, e na Síria e no Iraque contra o Estado Islâmico em 2017. Israel também relatou ter utilizado o produto químico durante uma ofensiva entre 2008 e 2009 em Gaza. Mas depois que a ONU disse que os militares israelenses eram "sistematicamente imprudentes", as FDI em 2013 disseram que a tática seria "removida do serviço ativo".

Os combatentes do Hezbollah se deslocam em pequenas unidades de duas a quatro pessoas. Usando a floresta como cobertura, eles frequentemente disparam mísseis e foguetes através da fronteira, em direção ao exército israelense estacionado do outro lado.

Envolvê-los em fumaça pode ser uma forma de os israelenses agirem contra esses ataques.

Nos dias em que a aldeia de Ali foi atingida, entre 10 e 19 de outubro, ele diz que não havia grupos armados na área.

"Se o Hezbollah estivesse lá, as pessoas teriam dito para eles saírem porque não queriam morrer", diz Ali. "Não havia Hezbollah."

A BBC não conseguiu verificar de forma independente a presença ou ausência de quaisquer grupos armados em Dhayra nos dias que antecederam os ataques.

O primeiro a chegar ao local em Dhayra foi o socorrista médico voluntário, Khaled Qraitem.

"Começamos a evacuar as pessoas que perderam a consciência", diz Khaled.

Mas enquanto tentava alcançar as pessoas, diz ele, a sua equipe de resgate foi atacada.

"Dispararam três projéteis contra nós", diz Khaled. "Ou para nos impedir de resgatar pessoas ou para criar uma atmosfera de medo."

Khalid lembra de ter transferido pelo menos nove pessoas para o Hospital Italiano na cidade de Tiro, incluindo seu próprio pai, Ibrahim.

Aos 65 anos, Ibrahim ficou três dias hospitalizado devido a graves dificuldades respiratórias. Seu médico, Mohammad Mustafa, diz que tratou muitos pacientes expostos ao fósforo branco.

"Os pacientes chegam com sinais de asfixia grave, sudorese profusa, vômitos crônicos e batimentos cardíacos irregulares", diz Mustafa.

"Eles cheiram a alho. Os resultados do exame de sangue confirmaram a exposição ao fósforo branco."

Quando encontramos Ibrahim, três meses depois, seus olhos ainda estavam vermelhos. A pele de seus braços e pés estava coberta de erupções cutâneas e descamação. Ele diz que os médicos lhe disseram que tudo foi provocado pelo fósforo branco.

"Desde a década de 1970 vivemos uma guerra", diz Ibrahim. "Mas nada como isso, com explosões caindo tão perto de nossas casas."

Ibrahim diz que um projétil caiu a seis metros de seu carro enquanto ele tentava fugir. Havia drones de vigilância das FDI no alto, diz ele.

"Eles conseguiam nos ver", diz Ibrahim. "Eles estavam atirando de forma imprudente."

A Anistia Internacional afirma que o ataque a Dhayra "deve ser investigado como um crime de guerra porque foi um ataque indiscriminado que feriu pelo menos nove civis e danificou bens civis e, portanto, foi ilegal".

Em resposta a testemunhas que disseram que o fósforo branco estava sendo usado "de forma imprudente" e em áreas povoadas, a FDI disse à BBC: "As diretrizes das FDI exigem que as bombas de fumaça que contêm fósforo branco não sejam utilizadas em áreas densamente povoadas, com certas exceções. Estas são diretrizes operacionais que são confidenciais e não podem ser divulgadas."

Imediatamente após o ataque à aldeia de Ali, começaram a aparecer relatos na internet.

Inicialmente, o Exército Israelense negou o uso de munições de fósforo branco. Mais tarde, porém, admitiu que as estava usando, mas "dentro das leis internacionais".

A BBC conseguiu verificar de forma independente a utilização de fósforo branco em Dhayra, bem como em três outras aldeias ao longo da fronteira, nos últimos seis meses.

Em Kfar Kila, a BBC analisou um fragmento de uma bomba que caiu entre duas casas de civis. A análise foi conduzida por um renomado professor de química. Por questões de segurança, ele pediu para permanecer anônimo.

Usando máscara de gás e equipamento de proteção pessoal completo, o professor examina vários pontos escuros e pegajosos na borda interna do fragmento de metal.

"Isso faz parte de um obus de 155 mm. A marcação M825A1 indica que é uma munição de fósforo branco. É feita nos Estados Unidos", ele diz.

Ele acende um isqueiro nos pedaços pegajosos, que imediatamente pegam fogo.

"Imagine tentar remover esse material de suas roupas enquanto ele está queimando e grudando em sua pele."

Mesmo depois de 30 dias, diz ele, restos de fósforo branco ainda podem pegar fogo.

O socorrista Khaled Qraitem acusa Israel de usar deliberadamente fósforo branco para afastar as pessoas das áreas de fronteira.

"Tínhamos uma bela vida rural", diz ele. "Começaram a bombardear as áreas florestais com fósforo com o propósito de queimar as oliveiras e os pomares de abacate."

Em resposta às alegações de Khaled, as FDI responderam:

"As FDI rejeitam completamente qualquer alegação de que bombas de cortina de fumaça sejam usadas para afastar civis da fronteira no Líbano."

O fósforo branco não é definido como arma química e até o termo "arma incendiária" é controverso.

Ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre Armas Convencionais (CCW), existem restrições às armas concebidas principalmente para iniciar incêndios ou queimar pessoas.

No entanto, a maioria dos países concorda, incluindo Israel, que se o fósforo branco for usado principalmente para criar cortinas de fumaça e não incêndios (mesmo que ocorram acidentalmente), então a lei sobre armas incendiárias já não se aplica.

No entanto, a organização Human Rights Watch (HRW) discorda e diz que há "lacunas" na CCW.

"A convenção [CCW] contém lacunas, particularmente relacionadas com a sua definição de armas incendiárias", afirma o pesquisador da HRW, Ramzi Kaiss.

"Mas, ao abrigo do Direito Internacional Humanitário (DIH), todas as partes no conflito devem tomar precauções viáveis para evitar danos aos civis. Principalmente ao usar munições com fósforo branco."

Para estabelecer se Israel violou o DIH, o advogado independente e especialista em questões militares Bill Boothby diz que um dos problemas é o "choque das provas".

"Os israelenses dizem que o seu objetivo era criar uma cortina de fumaça", diz Boothby.

"Os moradores dizem que não houve propósito para a criação de uma cortina de fumaça porque não havia militantes. Era esse realmente o motivo pelo qual o fósforo branco estava sendo usado? Saber a resposta para isso envolveria saber o que se passava nas mentes daqueles que estavam decidindo o ataque."

"Proporcionalidade" também é fundamental, diz Boothby. Qualquer dano causado não pode ser excessivo em relação aos ganhos militares esperados.

"Estamos falando da necessidade de estabelecer que os ferimentos civis esperados e os danos a bens civis eram excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta que previam obter antes do ataque."

Novamente seria preciso saber o que se passava nas mentes daqueles que decidiram o ataque e qual era o seu alvo.

Questionados sobre qual era o seu alvo em Dhayra, as FDI responderam à BBC: "Estas são diretivas operacionais que são confidenciais e não podem ser divulgadas".

Resignação jamais!

Tivemos liberdade para torturar, para matar, para assassinar, e tivemos liberdade para lutar, para seguir em frente, para tentar manter a dignidade. É aterrador o uso que se pode fazer de uma palavra. O importante é que haja presença de um senso de responsabilidade cívica, de dignidade pessoal, de respeito coletivo; se se mantém, se se constrói, se não se aceita cair na resignação, na apatia, na indiferença, isso pode ser uma simples semente para que algo mude. Mas eu estou muito consciente de que isso, por sua vez, não significa muito

José Saramago, "As palavras de Saramago"

Sinuca de bico

A natureza responde conforme a tratamos: semeie ventos e colha tempestades! Como os danos que lhe causamos são enormes e crescentes, suas respostas são cada vez mais severas. Tratamos muito mal também nossos semelhantes: 70% da espécie vive em desnecessária pobreza, com menos de US$10,00/dia! Esses dois resultados precisam ser revertidos, alterando aquilo que os causam: a busca permanente de “mais”! Mais poder! Mais dinheiro! Mais vendas! Mais consumo! Mais viagens! E, como resultado, menos água! Como será viver sem água?


Vimos a recente seca recorde na Amazônia. A Espanha sofre outra, inédita. Na Catalunha há campanhas intensas para que as pessoas poupem água (se o serviço de água for privado, tal tipo de campanha ocorrerá? Alguém imagina a Coca-Cola, grande consumidora de água, defendendo a redução do seu consumo?) Lá, mais de 6 milhões de pessoas sofrem restrições de consumo; os jardins não mais são molhados, as fontes estão secas, os chuveiros nas praias e piscinas fechados, hotéis encheram piscinas com água do mar e os fazendeiros, que não mais podem irrigar suas plantações, deverão reduzir em 50% o uso de água para seus rebanhos, sob pena de multas. Na Andaluzia, a seca já dura 8 anos, com danos à produção de azeite. Em 2023, a seca na Espanha ficou entre os dez mais caros desastres climáticos no mundo. Como será viver sem água?

Desde 1990, a área do Brasil coberta por água diminuiu 15% e, mantida a busca por “mais”, continuará a cair! Essa alarmante situação não mereceu atenção da imprensa, das redes sociais, dos nossos governantes! E nada de política pública capaz de impedir o agravamento do quadro. Reverter essa tendência horripilante exige políticas que implicarão sacrifícios no curto prazo, em especial dos mais ricos, para que os filhos e netos de todos nós tenham chance de viver, dentro de 20 ou 30 anos, sem sofrer respostas ainda mais drásticas da mãe natureza.

Essa desatenção dos políticos com o longo prazo não é apenas brasileira. Ela resulta de um sistema de eleições periódicas que dá mais chances aos mais ricos e induz os eleitos a se preocuparem, acima de tudo, com sua reeleição, ou seja, com o curto prazo! Não se trata, claro, de acabar com as eleições, mas de mudar as regras do jogo, tornando-o mais, muito mais democrático! Mas, como mudar tais regras nesse sentido, se elas são definidas pelos eleitos, (quase sempre) ricos, focados na próxima eleição e desejosos, cada vez mais, em mudar as regras em seu favor?

Triste situação da democracia ocidental! Como sair dessa sinuca? Não apoiar demagogos que prometem o impossível, o paraíso no curto prazo, mas sim quem diga verdades, defina objetivos viáveis e claros, aponte ganhos e perdas, hoje e amanhã, e traduza em linguagem motivadora as medidas necessárias para trilhar esse novo caminho. Alguém à vista com tais qualidades?

A ideologia dos videogames de Elon Musk

O ataque de Elon Musk ao juiz do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes aponta para um mundo horrível. Temos o óbvio, um bilionário intervindo no Judiciário de outro país. Mas isto, embora nojento, não é novo. Desde que o capitalismo existiu, pessoas como Elon Musk tiveram um enorme poder sobre governos, parlamentos e sistemas judiciários. Desta vez, Musk acusou um juiz de ser um “ditador” e pediu a sua “demissão” por “censurar” perfis no Twitter. A ação mobilizou a extrema direita internacional em torno da causa do ex-presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais próximo da prisão . O magistrado, por sua vez, respondeu publicamente à provocação. Tanto que a imprensa se refere ao episódio como “o confronto entre Musk e Moraes”, como se fosse um duelo entre os dois. Mas a democracia não deveria ser uma questão de indivíduos, que é exatamente o que as redes sociais exigem. Ao atacar pessoalmente um magistrado brasileiro, Musk reduz o seu ataque à democracia a uma disputa entre avatares. É assustador que o nosso presente e o nosso futuro estejam nas mãos de uma trama de videogame e que aqueles que nos representam não estejam preparados para enfrentá-los.

A estratégia de Elon Musk de comprar o Twitter para ter uma realidade própria — onde (quase) todos jogam — é o que melhor mostra a sua visão de mundo. Se olharmos para o que poderíamos chamar de bilionários clássicos, a geração anterior a Silicon Valley, eles eram cínicos. Eles sabiam quem eram e por que fizeram o que fizeram. A novidade de uma figura como Elon Musk é que ele representa esta época específica . Musk acredita que é um visionário, que é mais inteligente que todos, que faz mais que qualquer um e, acima de tudo, que é um herói. Na luta do bem contra o mal, ele sem dúvida acredita que é bom. Muitos afirmam que ele é motivado apenas pelo lucro. É pior: ele é motivado a acreditar que é um deus humano no meio de uma espécie em extinção que só ele e sua visão superior podem salvar.


Só dá para entender a carreira de Elon Musk, suas bravatas e suas andanças com a lógica dos videogames. Há aspectos chocantes na biografia escrita por Walter Isaacson. As pessoas são jogadores descartáveis e, com exceção da família, qualquer ser humano nada mais é do que um inseto que, se zumbir desafinado, é esmagado. Mas o episódio mais emblemático é que, em plena pandemia de Covid-19, recusou fechar a sua fábrica da Tesla em Fremont, na Califórnia , e chegou a um acordo com o governo local para mantê-la aberta. Isto num país que se orgulha de ser a democracia mais forte do mundo (ou orgulhava-se, até ao episódio do assalto ao Capitólio).

É possível que Elon Musk pense que Donald Trump e Jair Bolsonaro são lixo, mas lixo que serve temporariamente aos seus propósitos: a “liberdade” de fazerem o que quiserem, sem se preocuparem com os limites impostos pelos governos ou instituições. A diferença com seus antecessores é que não existe dar e receber, apenas superação e eliminação. O videogame é diferente dos jogos de poder clássicos.

Elon Musk não é de extrema direita, Elon Musk é apenas do partido de Elon Musk. Se ele é pior que um Rothschild ou um Rockefeller, é difícil saber. Mas o poder destrutivo do homem que planeia salvar a humanidade levando-a – uma parte muito pequena – para Marte nos seus foguetões é muito maior. A única maneira de enfrentá-lo é fazer o oposto do que fez o ministro do Supremo Tribunal Federal. Personificar a democracia, colocando-se como um vigilante para enfrentar o malvado bilionário, é fazer o jogo de Musk. E neste jogo ele é imbatível. Num mundo de avatares, a única maneira de resistir é fazendo algo que os avatares não entendem: comunidade.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Pensamento do Dia

 


Um vilão de James Bond estreia na política

O magnetismo dos filmes de James Bond desapareceu na fuligem das estrelas. As pernadas do 007 descansam no passado. O tipo criado por Ian Fleming, que pedia seu dry martini a bordo de um smoking da cor da noite ou de um summer de alta alvura, perdeu o elã.

Não que não tenha sido bom. Era divertido o modo como ele se apresentava para a dama fatal: “Bond, James Bond”. Em dois minutos, os dois se beijariam e em seguida se perderiam entre um salto de paraquedas e um tiro de pistola com silenciador. Só depois de incontáveis piruetas por terra, mar e ar é que o casal teria direito a um happy-end. Caliente. Estávamos no período da guerra fria e o espião que tinha licença para matar nos presenteava com amores escaldantes. O espectador médio daquela época torcia pela manutenção do establishment e vibrava quando James e a namorada se atracavam entre lençóis depois de salvar a humanidade, o planeta, o capitalismo e a dinastia Windsor da destruição completa.

Os vilões, coitados, se despedaçavam e ninguém se compadecia de sua sina. Superempreendedores biliardários sem princípios, os bandidões mobilizavam ciência, força bruta e recursos infindos para sujeitar o mundo inteiro aos seus caprichos – e, no fim, morriam espetacularmente numa explosão atômica sacrossanta. O satânico Dr. No, o não menos satânico Auric Goldfinger e tantos outros saíam perdendo. Subornavam, chantageavam, extorquiam e perdiam. Recrutavam exércitos particulares, manietavam governos e perdiam. Transformavam seu dinheiro em poder e seu poder em opressão – e perdiam de novo. As plateias exultavam. Tomavam partido do mocinho.

Hoje, as diversões públicas são outras. As massas apressadas mudaram de assunto, deixaram o cinema para lá, preferem se entorpecer com substâncias sintéticas para melhor chacoalhar ao ritmo de pancadões repetitivos (seu mantra não tem palavras, somente estrondos compassados) e votam em autocratas pirados. Quanto à sétima arte, esta sobrevive na condição de excentricidade de intelectuais envelhecidos.


No entanto, a despeito do desprestígio dos velhos blockbusters de 007, algo daquele velho script voltou a marcar presença entre nós: o modelo dos vilões que faziam as vezes de antagonistas do espião saiu das telas e, agora, comparece à chamada “vida real”. Desta vez, com sucesso. Eles vencem e colhem todos os louros de ouro. O espectador médio, que é o eleitor médio, mudou de lado, num cavalo de pau desnorteante.

As plateias de hoje, carregadas de ressentimento porque a democracia não lhes entregou as delícias prometidas, apedrejam o que julgam ser a política oficial. Querem ver o sistema incendiar. Aplaudem de joelhos os magnatas que sabotam a ordem pública. A seus olhos, ganância, prepotência e vaidade são virtudes cívicas. A diversão sádica é o critério da legitimidade. A política foi engolida pelo entretenimento sombrio.

Você quer um sintoma? Elon Musk. Muito se tem escrito nos jornais para descrever o psiquismo do empresário que saiu da África do Sul para fazer a América. Seu compromisso é com o show performático, não com a coerência. Alguns dizem – com acerto – que ele faz negócios na China e nunca deu um pio sobre a ditadura que existe lá. Na outra ponta, quando se trata do Brasil, o mesmo rapaz alardeia que a nossa democracia é uma ditadura (consta que tem planos de fazer uns negócios esquisitos por aqui). Age assim e leva a melhor. É o influencer dos influencers.

Elon Musk parece um personagem fugido daqueles filmes de antigamente, mas extrapola. Lembra de longe o fictício Gustav Graves, de 007, um novo dia para morrer, que usava o negócio de satélites para assustar países resistentes a suas pretensões maníacas. Tem o physique du role de um antagonista de Sean Connery. As suas ações reais, contudo, sobrepujam a imaginação de Ian Fleming. Dono de um exibicionismo extremista, quer ter supremacia sobre o mundo inteiro e quer as glórias do espetáculo.

Não satisfeito, quer ficar high. Tem prazeres narcísicos em ter poderes narcísicos e, em seu hedonismo consumista, põe a contracultura a serviço do capital. O Wall Street Journal noticiou recentemente que executivos e conselheiros da Space X e da Tesla, duas de suas companhias, andam preocupados com a quantidade de drogas consumidas pelo chefe (LSD, cocaína, ecstasy, cetamina e cogumelos psicodélicos, entre outras). Foi com esse doping corporativo que o sujeito estreou na política brasileira.

Politiqueiros de segunda, destes que não sabem a diferença entre ficção e realidade (ou entre propaganda e informação, ou entre mentira e verdade), dedicam a Elon Musk uma sabujice despudorada. Afirmam aos brados que o pobrezinho sofre perseguições indizíveis de temíveis funcionários públicos. Veem nele o símbolo universal da liberdade.

Mas, gente do céu, liberdade de quê? De abusar de seu incomensurável poderio econômico para interferir na institucionalidade de um Estado que não é o dele? De ser infantil e truculento de um só golpe (de Estado)? Haja farsa. James Bond, que era um lacaio do império britânico, tinha mais integridade.

A 'Economia da Atenção' e a captura da vida

Estamos enfrentando uma convergência de crises cruzadas e que se aplificam reciprocamente: a catástrofe ambiental, a desigualdade explosiva e o caos financeiro que bloqueia os recursos necessários para enfrentar os dramas. O problema principal não é a crise em si, mas sim nossa incapacidade de enfrentá-la. Quantas COPs já tivemos? O que está acontecendo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável? As proclamações ESG [responsabilidade ambiental, social e de governança, no jargão do “capitalismo verde”] ajudam? A questão central é a crise de governança, nossa dificuldade em nos organizar. A política dos governos, instituições internacionais e corporações continua focada em apontar culpados – sempre os outros – e não em construir soluções. Em relação à cidadania, o esforço principal tem sido manter nossas mentes ocupadas com temas secundários. A síndrome do “não olhe para cima” apoia-se na grande indústria de atenção.

Como as coisas mudam rápido. Sempre tivemos fofocas de família, trabalho e vizinhança, e a missa dominical para nos manter na linha. Depois surgiram as falas dos governantes no rádio, uma forma de comunicação em massa. Mais tarde, a TV, a internet, e depois a bagunça global: “Se perguntarmos ao ChatGPT sobre as principais tecnologias que impulsionam essa revolução, ele mencionará Inteligência Artificial (IA) e aprendizado de máquina; robótica e automação; Internet das Coisas; impressão 3D; blockchain; realidade virtual e aumentada; redes 5G; computação quântica; big data e cibersegurança.”

Dizer que tudo isso é de tirar o fôlego é um comentário preciso. Nossa atenção é invadida por todos os sentidos, estamos grudados em todos os tipos de telas. Posso tentar ler um artigo sensato sobre um assunto que me interessa, mas vou ter pequenas telas aparecendo, estorvando meus esforços para me concentrar. Não são interesses econômicos tentando chamar minha atenção para coisas úteis: é a batalha econômica pelo meu tempo. E não é apenas a Revolução Industrial 4.0, é outro sistema. A conectividade em massa e global está gerando uma nova civilização. Não são General Motors ou Toyota que estão no centro das corporações mais valiosas do mundo: Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon e algumas outras gerenciam o que ouvimos e vemos. Estão criando, com informações privadas invasivas uma nova economia de atenção.


Essas corporações, por sua vez, são controladas pelos gigantes de gestão de ativos: a BlackRock, por exemplo, gerencia 10 trilhões de dólares, enquanto o orçamento federal dos Estados Unidos está na ordem de US$ 6 trilhões. BlackRock, Vanguard e State Street gerenciam ativos próximos ao valor do PIB dos EUA. Alta tecnologia, informação e dinheiro se uniram.

Nós somos a parte receptora do negócio. Éramos cidadãos, de certa forma. Nos tornamos mDAUs (usuários médios diários monetizáveis), a unidade de conta usada nas negociações de compra do Twitter por Elon Musk. O Relatório de Economia Digital da Unctad 2021 nos dá a imagem geral:

“As maiores plataformas – Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet (Google), Facebook, Tencent e Alibaba – estão investindo cada vez mais em todas as partes da cadeia global de valor de dados: coleta de dados por meio de serviços de plataforma voltados para o usuário; transmissões de dados por meio de cabos submarinos e satélites; armazenamento de dados (centros de dados); e análise, processamento e uso de dados, por exemplo, por meio de IA. Essas empresas têm uma vantagem competitiva de dados resultante de seu componente de plataforma, mas não são mais apenas plataformas digitais. Elas se tornaram corporações digitais globais com alcance planetário; enorme poder financeiro, de mercado e tecnológico; e controle sobre imensos volumes de dados relativos a seus usuários.”

O relatório destaca que estamos indefesos diante desse novo poder de dominação, reconhecendo que “as instituições globais atuais foram construídas para um mundo diferente, o novo mundo digital é dominado por intangíveis, e são necessárias novas estruturas de governança” para enfrentar os “interesses concorrentes associados à captura das rentas oriundas do uso de tecnologias digitais e dados… Com os dados e fluxos transfronteiriços de dados crescendo em proeminência na economia mundial, a necessidade de governança global está se tornando mais urgente.” Discutem-se medidas: empresas que fazem chamadas indesejadas pagariam multas de até 20 milhões de dólares os usuários da internet poderiam limitar a aparição de caixas de consentimento de cookies pop-up.Sim, isso está sendo discutido…

Quem paga por essas fortunas enormes geradas no topo, nas corporações de alta tecnologia e redes sociais? Nós, é claro, e o mecanismo-chave é o marketing, uma palavra claramente insuficiente para a manipulação da atenção da humanidade em escala global. Os custos do marketing fazem parte do preço que pagamos por cada produto ou serviço. Pagamos para nos convencer. Eles se infiltram em tudo o que estamos fazendo, interrompendo-nos frequentemente para dizer que estão nos oferecendo este filme ou programa de graça, quando os custos estão incluídos nos preços. “A Johnson & Johnson é outra marca mundialmente famosa que fabrica medicamentos, produtos de higiene e equipamentos médicos. Hoje é um dos mercados mais competitivos. Em 2017, a empresa gastou 27,7% de sua receita em marketing.” O marketing se tornou uma indústria enorme na maioria dos setores.

Ele tem sido tão pervasivo que passamos a considerá-lo natural. Não é. Isso nos custa muito dinheiro nos preços que pagamos. Mas a distração permanente que criam, a fragmentação do nosso tempo de atenção, é outro custo. A lógica é absurda, pois quanto mais uma empresa gasta em marketing, mais as outras empresas no campo têm que gastar, e a cacofonia resultante é o que temos que assistir e pagar. Na verdade, para as coisas de que preciso, vou obter informações – não marketing. E para as coisas de que não preciso, ficaria feliz em ser deixado em paz. Somos idiotas por ter que ouvir ou ver as mesmas mensagens centenas de vezes, e com uma música boba?

Com as novas tecnologias, cada dólar investido em marketing atinge bilhões de pessoas a um custo per capita muito baixo (os mDAUs). Mas o custo total e, em particular, a manipulação resultante, são enormes. Quando trabalho no meu computador ou celular, não posso me mover sem ter que aceitar cookies ou autorizar qualquer coisa que me pedem – ninguém tem tempo ou paciência para ler as longas páginas de letras pequenas descrevendo o que estamos autorizando. Isso levou à enorme indústria de informações privadas que sustenta o marketing comportamental. Por engano, comprei um produto kosher no supermercado, apenas para ser inundado com mensagens de turismo para Israel. E todos sabemos que a última coisa que o mundo precisa é mais consumismo.

A ProPublica mostra o marketing da indústria de armas: “É crucial destacar que os fabricantes de armas também usam as ferramentas do Google para rastrear a atividade dos visitantes em seus sites e segmentar usuários com anúncios enquanto navegam em outros sites e aplicativos. Os sites de fabricantes de armas, como Glock, Daniel Defense e Sig Sauer, usam produtos do Google chamados Floodlight e Spotlight para facilitar esse processo, que é chamado de retargeting. Os anunciantes geralmente pagam um prêmio pelo retargeting, já que esses anúncios têm mais chances de levar a uma compra ou outra ação. O Google permite o retargeting de anúncios de armas quando são colocados por meio de um de seus parceiros de troca de anúncios e acabam em um site que aceita anúncios de armas, de acordo com Aciman do Google.”

A última coisa de que precisamos é de mais armas. Mas o negócio da indústria global de atenção é chamar o máximo de atenção possível, para ganhar mais dinheiro com anúncios, independentemente do que os anúncios estejam promovendo. A pandemia de alimentos ultraprocessados é impressionante. “Produzida por um punhado de empresas multinacionais, a comida ultraprocessada é criada para ser barata de produzir e transportar, com substâncias derivadas industrialmente substituindo ingredientes mais caros e garantindo longos prazos de validade. Também é projetada para nos fazer comprar mais – algo essencial em um sistema onde as empresas precisam continuar crescendo para satisfazer seus acionistas a cada trimestre. O consumo global está aumentando rapidamente, especialmente em países de renda média.”6

Esta é a nossa escolha? O The Guardian sugere que culpemos as empresas, não os consumidores. Precisamos de informações sérias, especialmente considerando os dramas que enfrentamos. Isso interessa ao jornalismo? “Além disso, o negócio do jornalismo é uma indústria cada vez menos lucrativa. A maior parte da receita vem de anúncios digitais veiculados em sites de notícias. Então, em vez de vender notícias aos consumidores, é o tempo e a atenção dos consumidores que estão sendo vendidos aos anunciantes. Além disso, alguns dos melhores conteúdos estão trancados atrás de paywalls baseados em assinatura.” Isso faz sentido?

Um exemplo simples do que o jornalismo deveria estar discutindo: “Mais de um bilhão de adolescentes e mulheres sofrem de subnutrição (incluindo baixo peso e estatura), deficiências em micronutrientes essenciais e anemia, com consequências devastadoras para suas vidas e bem-estar.”8Bem, isso não obtém o máximo de mDAUs nos algoritmos. Nos EUA, três corporações, Amazon, Google e Facebook, são responsáveis por 50% do mercado publicitário, dois terços digital.

A convergência da conectividade global com interesses comerciais e políticos gera manipulação em escala industrial. Robert Reich lembra:

“O principal acionista da Warner Brothers Discovery é John Malone, um magnata do cabo multibilionário. (Malone foi um dos principais arquitetos da fusão da Discovery e da CNN.) Malone se descreve como ‘libertário’, embora circule nos círculos republicanos de direita. Em 2005, ele detinha 32% das ações da News Corporation de Rupert Murdoch. Faz parte do conselho de diretores do Instituto Cato. Em 2017, doou US$250 mil para a posse de Trump. Malone disse que quer que a CNN seja mais parecida com a Fox News porque, em sua visão, a Fox News tem ‘jornalismo real’. Com suave ironia, Thomas Piketty comenta que ‘o controle da quase-totalidade das mídias por alguns oligarcas dificilmente pode ser considerado a forma mais elaborada de imprensa livre’.”

A espiritualidade forte, tão generalizada no mundo, dificilmente poderia escapar de seu uso comercial e político. Nos EUA, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias detém um fundo de doações de US$134 bilhões. A ProPublica mostra que “a aprovação de candidatos políticos por líderes do púlpito tornou-se cada vez mais ousada, agressiva e sofisticada nos últimos anos.” No Brasil, o movimento episcopal com TVs e acesso online resultou em fortunas, mas, acima de tudo, leva a um impressionante showbusiness religioso que impulsiona agendas comerciais e políticas.

Não devemos subestimar a absorção do tempo de nossas vidas – é nosso ativo não renovável mais importante – pelos videogames. Bilhões de usuários, entretenimento móvel, atingindo diferentes gerações (a idade média é de 38 anos) predominantemente masculino (59%), o setor realmente nos pega pelos olhos. Aqui novamente encontramos Amazon, Apple, Google, mas também Tencent e outros na Ásia. O uso se tornou obsessivo para tantos, nos afastando da cultura, da arte, da criatividade e do tempo livre para deixar nossa atenção vaguear.

Esta breve visão geral visa chamar nossa atenção precisamente para a questão-chave: estamos perdendo o controle sobre nossa atenção, e isso significa o tempo e o sentido de nossas vidas. Max Fisher, em seu livro The Chaos Machine: how the social media rewired our minds and our world [“A máquina do caos: como as redes sociais reconfiguraram nossas mentes e o nosso mundo”], trouxe uma descrição detalhada do grau de controle que o sistema permite: “O fato de eles terem conseguido analisar e organizar bilhões de horas de vídeo em tempo real, e depois direcionar bilhões de usuários pela rede, com esse nível de precisão e consistência, foi incrível para a tecnologia e demonstrou a sofisticação e poder dos algoritmos.”

O progresso tecnológico é positivo em si mesmo. A revolução digital abre enormes oportunidades para a humanidade, mas não nas mãos das gigantes corporativas. A atenção é o elemento-chave do que somos, do que escolhemos ser. Gosto de deixar minha mente vagar um pouco, e um sistema global que direciona nossas mentes de acordo com os interesses globais se tornou um enorme desafio a enfrentar. “Livre para Escolher”, foi o que Milton Friedman pensou que estava sendo criado. Saiam das minhas costas. E posso sugerir o que vocês podem fazer com seus cookies?

Mais saúde

Mousam Ray/Bird Photographer of the Year, 'Comportamento das Aves'.

Precisamos de mais pássaros e flores nas cidades. Isso também é saúde
Marcia Chamea (Fiocruz)

O mito da riqueza do petróleo

Venezuela (119º), Nigéria (161º), Angola (150º), indonésia (112º), Iran (78º), Cazaquistão (67º), Iraque (128º), Brasil (89º) e México (77º) são países que extraem e exportam petróleo há anos, e suas populações continuam, na maioria, paupérrimas. Números entre parênteses indicam suas posições, entre 190 nações, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medida preferível ao PIB para indicar a qualidade de vida da população. Na “riquíssima”, esbanjadora, autocrática e misógina Arábia Saudita, o IDH é elevado, mas 33% vivem com menos de US$5,00/dia, enquanto na Costa Rica, carente de petróleo, fica na 62ª posição no IDH, é de 20% a proporção nessa condição.

Sem os antolhos que os lobbies petrolíferos colocam em nós, bastam os dados acima para ver que a riqueza decorrente da exploração do “ouro negro” é um mito; ele enriquece, e muito, uma pequena minoria, cuja dinheiro lhes permite definir políticas públicas. Dada essa força, usam a mentirosa promessa de melhorar a condição humana para forçar a continuidade da sua exploração, negando a consequente degradação!


Enquanto isso, continuam cada vez mais graves a destruição ambiental e humana decorrentes da queima de combustíveis fósseis e da busca por mais e mais PIB: recordes de calor quebrados sucessivamente; custos crescentes dos eventos extremos; metade hoje, mais amanhã, da população mundial com falta d’água; a insuspeita OCDE estima que, sem radical mudança de rumo, em duas décadas a temperatura média do planeta terá subido entre 3ºC e 6ºC; a poluição do ar compromete até o cérebro da maioria das crianças em todo o planeta, e as empresas de petróleo seguem ganhando subsídios da ordem de US$10 milhões/hora, globalmente, de acordo com o FMI.

Com todos esses e muitos outros sinais, como seguir explorando combustíveis fósseis e perseguindo aumentar o PIB? Argumentar que queimar mais petróleo vai tornar a vida melhor é fechar os olhos às evidências e à ciência e, ainda, acelerar a hecatombe.

Nas últimas seis ou sete décadas as novas tecnologias e as políticas públicas que buscam o crescimento do PIB aceleraram a degradação ambiental, multiplicaram a renda dos milionários e pouco ou nada melhoraram a vida de mais dos mais de 70% de humanos, que continuam “pobres”. Nesse quadro, e com essas tendências, não se pode esperar “progresso” – no sentido de vidas “melhores” para a maioria – senão alterando objetivos e políticas.

O Brasil, com energia mais limpa que a média e grandes reservas ambientais, deveria e poderia se engajar de maneira mais efetiva na construção do novo e cada vez mais necessário mundo. Mais que “enriquecer”, no sentido de aumentar o PIB, consumir mais e gerar mais lixo, há que promover outros objetivos: renda mínima para todos, maior igualdade, prevenir doenças, melhor alimentação, mais tempo livre e oportunidades de interação social, ambientes urbanos mais confortáveis, para citar uns poucos.

Outro, essencial, é aprofundar cada vez mais a democracia, com crescente participação popular na definição dos usos dos recursos disponíveis.

Relaxe


Países ricos também são corruptos

“Em uma sociedade cada vez mais orientada para o desempenho, as métricas são importantes. O que medimos afeta o que fazemos”, argumentou o relatório de 2008 da Comissão sobre a Mensuração do Desempenho Econômico. “Se tivermos as métricas erradas, nos esforçaremos pelas coisas erra das.” A comissão desafiava a primazia do PIB como métrica do desenvolvimento. Mas a mesma observação aplica-se à corrupção, que é convencionalmente - e de forma enganosa - medida como um problema unidimensional.

Os índices globais de corrupção, incluindo o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), da Transparência Internacional, e o Índice de Controle da Corrupção, do Banco Mundial, atribuem uma pontuação única aos países. Estas métricas mostram consistentemente que os países ricos são “muito honestos”, enquanto os países pobres são “altamente corruptos”. Por exemplo, o IPC de 2023 classifica o Reino Unido (pontuação 71) como o 20º país menos corrupto do mundo, muito mais honesto que a China (42) e o Brasil (36). A maioria dos utilizadores do IPC, incluindo imprensa, empresas e analistas, interpretam estes números como um fato.


Mas serão os países mais ricos realmente menos corruptos que os mais pobres? Métricas unidimensionais como o IPC obscurecem o fato de que variedades qualitativamente diferentes de corrupção não podem ser reduzidas a uma única pontuação. Estas métricas também subestimam sistematicamente aquilo que chamo de “corrupção dos ricos” - que tende a ser legalizada, institucionalizada e ambiguamente antiética - em oposição à “corrupção dos pobres”.

Nos países pobres, a corrupção assume formas claramente ilegais, como o roubo de recursos públicos e a aceitação de propinas. Nos países ricos, pelo contrário, muitos acreditam que o problema não existe mais. Em “The Quest for Good Governance”, Alina Mungui-Pippidi conclui até que as economias avançadas tenham atingido um estado final de “universalismo ético”, no qual “a igualdade de tratamento se aplica a todos”. Em suma, o Ocidente rico é honesto.

Mas em virtude da ascensão do populismo nas democracias de renda alta, em grande parte uma reação contra as vantagens descomunais desfrutadas pelos ricos e politicamente ligados, o “universalismo ético” parece mais ilusório do que real. Como revelou o “New York Times” em 2020, metade dos contratos governamentais do Reino Unido para fornecimentos médicos durante a pandemia foram para “empresas geridas por amigos e associados de políticos” por meio de uma “via VIP” especial.

Como, então, o IPC classificou o Reino Unido como o 20º país menos corrupto? A pontuação não se baseia em pesquisas realizadas internamente pela Transparência Internacional, mas em uma combinação de vários inquéritos de terceiros. Quase todos esses vêm de organizações ocidentais, como a Economist Intelligence Unit, e tem uma forte tendência de depender das respostas dos executivo empresariais ocidentais.

Além disso, a formulação dessas pesquisas é muitas vezes vaga. Por exemplo, o Anuário Mundial de Competitividade, uma das fontes do IPC, apresenta aos executivos empresariais uma grosseira escolha binária: “Suborno e corrupção: existem ou não existem”. Não admira que o IPC mostre que os países ricos são “muito honestos” ano após ano, mesmo quando os seus cidadãos comuns discordam.

Reconhecendo que não havia alternativas a essas métricas convencionais, apesar das inúmeras críticas (inclusive do próprio criador do IPC), testei o Índice de Corrupção Desagrupado (ICD). Assim como o IPC, o ICD é uma métrica de corrupção baseada em percepções apresentadas em pesquisas. No entanto, divide a corrupção em quatro variedades: pequenos furtos (extorsão por agentes de rua), grandes roubos (desvio por parte de políticos), dinheiro rápido (pequenos subornos para superar obstáculos burocráticos ou assédio) e acesso ao dinheiro (grandes recompensas em troca de exclusivos e lucrativos privilégios, como contratos e resgates financeiros).

Métricas unidimensionais subestimam sistematicamente a “corrupção dos ricos”, que tende a ser legalizada, institucionalizada e ambiguamente antiética, em oposição à “corrupção dos pobres”

Embora as três primeiras variedades de corrupção - as endêmicas nos países pobres - sejam descaradamente ilegais e diretamente prejudiciais, o acesso ao dinheiro pode ser ilegal (como no caso do suborno) ou permissível (como no caso do financiamento de campanhas). Métodos sofisticados de aquisição de privilégios podem envolver instituições inteiras em que nenhum indivíduo é corrupto. Por exemplo, a lavagem de dinheiro, para a qual Londres é um centro conhecido, pode envolver a movimentação de fundos sem problemas através das fronteiras e de instituições financeiras respeitadas. Nos EUA, os bancos gastaram coletivamente bilhões de dólares fazendo lobby por regulamentações frouxas, o que levou à crise financeira de 2008, mas apenas um banqueiro foi indiciado.

O ICD utiliza uma pesquisa original de especialistas para avaliar todos os quatro tipos de corrupção. Uma esclarecedora comparação é entre EUA e China. Os EUA são menos corruptos do que a China em geral, mas a diferença é menor na categoria de acesso ao dinheiro, o tipo de corrupção dominante em ambos os países. Notadamente, a pontuação dos EUA em termos de acesso ao dinheiro é mais elevada do que a de países de rendimento mais baixo. Se nos baseássemos apenas em pontuações agrupadas, concluiríamos que os EUA são honestos. Mas uma vez desagregadas, podemos explicar o apelo das promessas populistas de “drenar o pântano”.

Ainda mais interessante é que prevalecem diferentes formas de acesso ao dinheiro nos EUA e na China. Numa comparação baseada na aceitação de subornos por meio das redes pessoais de políticos, a China domina claramente. No entanto, quando recorremos às práticas de “portas giratórias” e à captura regulamentar através de lobby, os EUA lideram.

Em suma, o acesso ao dinheiro nos EUA é principalmente institucional, enquanto o problema na China ainda está enredado em relações pessoais que envolvem suborno e pilhas de dinheiro escondido. A China não é necessariamente mais corrupta do que os EUA, mas sua corrupção tem certamente uma qualidade diferente.

Mensurar mal a corrupção não é mero detalhe técnico. Fundamentalmente, reforça a mensagem ilusória, hipócrita e muitas vezes eurocêntrica de que os países de renda elevada alcançaram um estado duradouro de pureza ética. Na realidade, a corrupção evoluiu à medida que os países enriqueceram, tornando-se mais sofisticada e imperceptível.

Precisamos continuar combatendo a “corrupção dos pobres”. Mas, ao desagregar a corrupção, as democracias capitalistas também podem voltar sua atenção urgentemente necessária para alguns dos seus problemas mais prementes, incluindo o aumento da desigualdade, o declínio da confiança pública no governo, e o que a administradora da USAID, Samantha Power, chama de “corrupção moderna”. Superar esses desafios exige medi-los com precisão, em vez de fingir que não existem.

Lugar de idosas é na rua tentando mudar o mundo

Quando imaginamos manifestantes indo às ruas para tentar mudar o mundo, a primeira coisa que vêm à cabeça são grupos de jovens idealistas, estilo, como diria a música "cabelos soltos, gente jovem reunida". Afinal, historicamente, são os jovens que puxaram manifestações para mudar a sociedade.

Isso aconteceu, por exemplo, nos movimentos de Maio de 1968 na França, nos protestos contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos e também na luta contra a ditadura no Brasil. Esses movimentos tinham simpatizantes mais velhos também, claro, mas foram liderados principalmente por estudantes.

Jovem costuma ser mais rebelde mesmo (e isso pode ser ótimo). Mas, nos últimos anos, há algo de novo no front (ou de velho, literalmente): são as pessoas mais velhas (em sua maioria mulheres) que saem às ruas se manifestar pelo clima, contra os preconceitos e contra o fascismo.


Semana passada, tivemos um exemplo da força desses movimentos capitaneados por senhoras. Em uma decisão histórica, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) deu ganho de causa a uma ação movida por um grupo de senhoras que luta pelo clima, a Idosas pela Proteção do Clima. O tribunal reconheceu que a Suíça viola os direitos humanos ao falhar em tomar medidas para controlar as emissões de gases de efeito estufa.

O processo foi movido por cerca de 2 mil senhoras. Elas disseram que idosos correm um risco especial de morrer durante as ondas de calor e exigiram uma decisão que reduzisse as emissões de combustíveis fósseis muito mais rapidamente do que o planejado.

Mas elas não protestam só por elas, claro.

O curioso (e bonito) é que provavelmente muitas delas já estarão mortas quanto o mundo for atingido pelos piores efeitos da tragédia climática. Mas o idealismo ensina que não se luta só por si. Elas querem que o mundo sobreviva para seus netos e para os humanos em geral.
Ícone Jane Fonda

Uma das manifestantes pelo clima mais famosas do mundo é minha ídola Jane Fonda, de 86 anos. Em 2019, ela chegou a ser presa algumas vezes por protestar pelo clima em frente ao Capitólio, em Washington. Na época, ela alugou um apartamento e se mudou para a capital dos Estados Unidos só para protestar.

Em 2022, ela teve que dar um tempo dos protestos por razões de saúde, quando descobriu que estava com câncer. Mas já voltou à luta. "Quando eu fui para Washington protestar e fui presa, não me sentia mais deprimida. Toda vez que eu ajo, a esperança vem", disse ela numa palestra realizada mês passado no SXSW, o maior encontro de tecnologia e inovação do mundo.

Na Alemanha, a organização de idosas Omas Gegen Rechts (Vovós contra a Extrema Direita) é famosa e costuma estar sempre presente em protestos contra a extrema direita e o fascismo. O grupo foi criado em 2018 e está espalhado por todo o país: de metrópoles como Berlim a cidades pequenas.

Na Alemanha, a gente encontra as Omas em manifestações no inverno, quando os termômetros marcam números negativos e em caminhadas embaixo de chuva. Elas estão sempre lá. É incrível.

E não são só elas que vão para as ruas. Nas grandes manifestações contra o fascismo que aconteceram na Alemanha em janeiro deste ano, milhares de idosos estavam presentes, até mulheres de muita idade que carregavam cartazes se denominando "as bisavós contra o fascismo". Eu brinco que, quando me aposentar, vou entrar para o Omas Gegen Rechts. É piada, mas tem um pouquinho de verdade. Acho que faz todo sentido usar o tempo livre na aposentadoria para lutar por essas causas importantes.

No Brasil, não existem grupos organizados só de senhoras, mas quem foi em manifestações anti-Bolsonaro, por exemplo, percebeu a grande quantidade de idosos presentes, principalmente, de novo, mulheres.

Minha melhor amiga mora no Rio de Janeira e é ativista de esquerda e pelos Direitos Humanos. Ela reclama constantemente da falta de "jovens" em manifestações – no caso, falamos daqueles que têm entre 20 e 40 anos. "O pessoal não vai. Eu e meus amigos somos sempre os mais jovens", diz ela, se referindo a pessoas na casa dos 50 anos. Pude confirmar que isso é verdade nas vezes em que estive com ela em protestos. Em manifestações no Rio de Janeiro, os cabelos brancos imperam.

Claro, nem todos os idosos são assim. No Brasil, sabemos que muitos idosos foram para portas de quartéis após a derrota de Jair Bolsonaro para pedir um golpe de Estado. Na Alemanha, os mais velhos também tendem a ser mais conservadores do que os jovens.

Segundo um levantamento divulgado pelo jornal alemão Die Welt após as eleições locais de Berlim em 2023, o partido conservador União Democrata Cristã (CDU) foi o preferido entre os eleitores nas faixas etárias de 45 a 59 e entre os que têm 60 anos ou mais. Já a maioria dos jovens votaram no Partido Verde.

Sim, na hora do voto, a maioria dos mais velhos são conservadores. Mas as avós pelo clima e contra a extrema direita mostram que nem todos são assim. E, mais ainda, elas dão exemplo de que não basta votar, é preciso ir às ruas também. Muitos jovens têm muito o que aprender com os mais velhos. Seus avós podem te ensinar, inclusive, a se rebelar.

Se a morte de palestinos não é genocídio, o que é?

O meu antigo chefe, Chuck Schumer, líder da maioria no Senado, disse corajosamente o que Joe Biden temia dizer: “Os civis palestinos não merecem sofrer pelos pecados do Hamas e Israel tem a obrigação moral de fazer melhor. Os Estados Unidos têm a obrigação de fazer melhor.”

A violência em curso, observou Schumer, ameaça não apenas as vidas dos palestinos, mas também a segurança do povo judeu em todo o mundo, ao alienar aliados globais consternados com o derramamento de sangue. Se Benjamin Netanyahu se recusar a desistir, concluiu, os EUA devem começar a “moldar a política israelita utilizando a nossa influência” – o que obviamente inclui aspectos militares, diplomáticos e económicos.

O que levou Schumer a uma interferência tão sem precedentes na política interna de Israel foi a terrível devastação humanitária infligida a Gaza. Quer se acredite ou não que ocorreu genocídio, a taxa de mortalidade em Gaza igualou ou excedeu a de três outros casos recentes que os presidentes dos EUA chamaram de “genocídio”.


Os americanos podem rejeitar tal comparação alegando que Israel está a responder em legítima defesa ao terrorismo. Mas provavelmente não têm consciência de que, historicamente, a grande maioria dos genocídios , ao contrário do Holocausto, foram igualmente respostas a ataques rebeldes ou terroristas – incluindo nos três casos mais recentes.

Em Darfur, em 2003, o rebelde Exército de Libertação do Sudão lançou ataques surpresa que mataram centenas de soldados sudaneses e fizeram outros reféns. O Sudão respondeu visando aldeias não-árabes em Darfur, acusadas de apoiar e acolher os rebeldes. Do final de 2003 ao início de 2004, as forças governamentais e as milícias associadas mataram até 10.000 civis por mês e deslocaram cerca de 2 milhões de civis, causando mais mortes por privação . Em setembro de 2004, a administração de George W Bush declarou a violência como “genocídio” .

Na província de Rakhine, em Mianmar, em 2017, o Exército de Salvação Arakan Rohingya matou guardas de fronteira e lançou ataques terroristas que mataram mais de 100 civis e fizeram outros reféns. Mianmar respondeu atacando áreas muçulmanas suspeitas de apoiar os rebeldes. No final daquele ano, os ataques do governo mataram cerca de 7.000 civis durante o mês mais intenso do conflito e deslocaram mais de 1 milhão. Em 2022, a administração Biden declarou formalmente Mianmar culpado de “genocídio” .

A China, desde a década passada, reagiu a anos de ataques terroristas em Xinjiang, detendo em campos de reeducação pelo menos 1 milhão de civis – principalmente uigures de etnia muçulmana – e interferindo na sua reprodução. Mesmo na ausência de massacres governamentais, a administração Donald Trump declarou em janeiro de 2021 que as ações da China constituíam “genocídio”.

Nos três casos, os governos estrangeiros alegaram estar a responder em legítima defesa aos ataques terroristas perpetrados pelos rebeldes, que por sua vez afirmaram que os seus ataques foram motivados por opressão anterior. O governo dos Estados Unidos, em cada caso, declarou a resposta ao terrorismo um genocídio porque prejudicou desproporcionalmente os civis.

Este padrão repete-se agora no Oriente Médio. Em 7 de outubro de 2023, o Hamas atacou Israel a partir de Gaza, matando mais de 1.100 soldados e civis e fazendo mais de 200 reféns, o que justificou como uma resposta a décadas de expulsão, ocupação e opressão. Israel retaliou atacando Gaza de forma tão indiscriminada que quase 20 mil palestinianos, principalmente civis, foram mortos só durante os primeiros dois meses. Em janeiro, um responsável dos Esatados Unidos confirmou que “mais de 25 mil civis foram mortos”. Autoridades de Gaza dizem agora que o número de vítimas ultrapassa 33 mil pessoas. O próprio Netanyahu admitiu 28 mil mortes.

Pergunte-se: se um combatente do Hamas estivesse escondido sob um bloco de apartamentos de judeus em Israel, as Forças de Defesa de Israel destruiriam todo o edifício para matá-lo?

A taxa de mortalidade de civis em Gaza por Israel é aproximadamente equivalente à de Darfur, e mais elevada do que nos outros dois casos recentes, todos os quais o nosso governo rotulou de “genocídio”. Os ataques de Israel também deslocaram a grande maioria dos mais de 2 milhões de civis de Gaza, uma inundação humana semelhante ou superior à dos outros casos. As restrições de Israel à ajuda humanitária infligiram o maior risco de fome em qualquer parte do mundo em décadas, segundo a ONU.

A violência de Israel é claramente excessiva relativamente aos seus objetivos compreensíveis de punir e debilitar um grupo terrorista, como pode ser ilustrado por comparação. Em 2017, os EUA atacaram e derrotaram o Estado Islâmico no Iraque e na Síria – que detinha muito mais território, incluindo cidades densamente povoadas – mas a taxa de assassinatos de civis nos EUA foi inferior a um décimo, 500 por mês, no máximo.

Porque é que Israel tem como alvo blocos de apartamentos e bairros inteiros quando procura apenas um ou um punhado de membros do Hamas? Tal como no Sudão, em Mianmar ou na China, a resposta não é apenas a dissuasão, mas também a desumanização. Pergunte-se: se um combatente do Hamas estivesse escondido sob um bloco de apartamentos de judeus em Israel, as Forças de Defesa de Israel destruiriam todo o edifício para matá-lo? Claro que não, mas fê-lo em Gaza porque as vidas palestinas estão desvalorizadas.

Não me dá nenhum prazer fazer essas observações. Eu sou judeu. Meus pais fizeram Aliyah para Israel, onde meu irmão nasceu e onde ainda tenho dezenas de parentes. Não sou antissemita nem me oponho à existência de Israel. Mas fatos são fatos.

Ironicamente, muitos dos que agora defendem a retaliação de Israel em Gaza eram anteriormente opositores veementes de respostas semelhantes ao terrorismo por parte do Sudão, Mianmar e China – a que chamavam genocídio. Espero que eles pensem sobre isso.

Alan J Kuperman

quarta-feira, 17 de abril de 2024

A política no pântano

Na cerimônia do Oscar, o apresentador Jimmy Kimmel rebate uma crítica de Trump: "Já não está na hora de você ir para a cadeia?". Se avaliada em termos tradicionais, seria resposta moralmente arrasadora a um ex-presidente americano, novamente candidato, bancando papagaio de pirata online no evento de teledifusão mundial que é a maior premiação cinematográfica dos EUA.

Hoje, o cardápio trumpista de política despreza a moral, a vergonha própria e prospera na metabolização da repulsa dos adversários, mais do que na afeição dos adeptos, pois esse é o combustível do seu ódio.

O pragmatismo postula que nossas verdades, ou pelo menos aquilo em que acreditamos, são hábitos bem-sucedidos de ação. O senso comum costuma pensar a partir desse princípio, e até mesmo os grandes explicadores da vida social se inspiram numa tradição intelectual, se não bem-sucedida, muito debatida. Mas a conduta democrática não decorre de ideias reguladoras com prescrições normativas como provas de verdade. Decorre, sim, de formas de vida variadas, nas quais se pode ou não acreditar, a depender do lugar de fala.


São elas que, em sua novidade, apontam para uma lógica de vida diferente da velha política, insuficiente frente à complexidade sócio-histórica, assim como ao afloramento no plano social dos aspectos sensíveis das ações humanas. A dignidade do agir público e a compreensão do que é politicamente humano têm sido avaliadas pela linguagem do compromisso com as classes desfavorecidas. Isso é inerente à tradição de pensamento progressista que subsiste em círculos intelectuais, mas estaria desaparecendo até mesmo do senso comum liberal.

Por um lado, os militantes neoliberais e a mídia sempre trabalharam para desqualificar movimentos populares de ampla abrangência social. Por outro, a nova realidade é terreno pantanoso onde chafurda a ultradireita, sem se sustentar na história (daí, o abismo da sociopatia), mas agarrando-se aos próprios cabelos num movimento insensato, sem anseio de emancipação humana.

Hungria, Rússia, Estados Unidos, Coreia do Norte, Argentina, Venezuela, Nicarágua, Portugal, lista ainda incipiente, são lugares mais visíveis da crise dos sistemas de poder e das mudanças associadas à falência da sociedade política tradicional. Em cada um deles a massa falida e as oligarquias pactuam com uma forma sociopata de liderança.

Natural o destaque de Trump, por se localizar no centro do Império o seu pântano particular. Ali fica claro que moralidade não é mais nenhum motor político e que a racionalidade do avanço tecnológico pode ser parceira do irracionalismo cívico. Mas a pergunta de Kimmel ao histrião, válida para outros, mostra que algum bom senso continua vivo.

Que tamanho terá esse monstro amanhã?

"Davam duas horas para suspender uma conta, ou teríamos multas pesadas". Antes do surgimento das tecnologias digitais, podia-se falar livremente, em qualquer lugar, sobre pessoas e coisas. As palavras despareciam no ar. Hoje, entretanto, não é bem assim. Os olhos e ouvidos das redes sociais registram tudo. As intenções são detectadas, decodificados ou reproduzidos rapidamente por cidadãos conectados pela tecnologia digital. Eles superam, no mundo, a casa dos 5 bilhões de pessoas . No Brasil são mais de 100 milhões. Nesse universo, os discursos não só ganham sentidos, como instigam ações. O filósofo francês Michel Foucault, não propriamente um usuário da internet, advertia: palavras são símbolos vivos, geram ação e criam realidades.


A consideração é elucidativa para essa contenda entre Elon Musk, proprietário do Twitter (X), e Alexandre de Moraes, um ministro do Supremo Tribunal, do Brasil. O embate entre os dois reverbera ideias expandidas digitalmente na consciência dos cidadãos . Vêm da livre circulação das palavras e das armadilhas discursivas que nelas se escondem. Pela dimensão que alcançam, o que está no submundo da etimologia não fica ignorado das redes digitais , sobretudo os enunciados absurdos .

A burrice não é tão generalizada como se quer acreditar. A reação ampla e imediata nas redes chega a assustar os emissores empoderados da esfera do Estado. Fragilizados diante do cidadão digital, não conseguem se esquivar da tentação de cercear a liberdade de informar e de pensar . O alargamento das reverberações contestatórias nas redes sociais , chegam a desqualificar sujeitos, autoridades e ideias tidas como impróprias ou "fakes" .

No campo da política , há no mundo uma disputa hegemônica para apropriação das novas tecnologias que alargaram competências e a compreensão do cidadão comum. Vista como virtude, ao mesmo tempo, constituiria uma ameaça. Os militares brasileiros chegaram a recusar a entrada da internet no Brasil, hoje controlada na China - nosso pretenso modelo político -, na Rússia, em Cuba e países com perfil similar . Criaram uma secretaria de tecnologia vinculada à Presidência da República para gerar e administrar uma política tecnológica exclusivamente nacional, até então algo rudimentar.

Digitalmente, o Brasil parara no tempo. Não havia por aqui massa crítica capaz de erigir aqueles propósitos de cunho nacionalista. Nesse ínterim, as novas tecnologias expandiram-se, e o uso da internet evoluíu num ambíguo confronto entre o controle e a proibição, dentro do escopo da liberdade de pensamento e de informação . As pesquisas e tecnologias fortaleceram a tal ponto a sociedade civil, que ela terminou derrubar governos, como aconteceu nos países árabes do norte da África.

Nosso atual destemido Presidente da República e sua "entourage" parece deglutir a questão, como um Macunaíma, ao pretender retomar essa linha autoritária. "O País não precisa da inteligência artificial", porque é suficientemente inteligente para dar resposta ao que necessita. Anunciou que irá assinar nos próximos dias um ato de regulação da IA no Brasil, e que o governo já cogita de algo digital próprio.

Tudo bem, mas certamente um conteúdo com essa origem pode significar o controle da informação. Para começar, o Presidente vê no Brasil apenas dois polos políticos : "Esquerda e Direita", que chamou de "Nós e Eles". Os substratos aderem naturalmente . Difícil acreditar que isso seja fruto de confusões mentais discursivas ou de insuficiência intelectual . O "Nós e Eles" não é uma declaração apenas intempestiva, surgida no calor da hora. Nela brota o futuro de um governo centralizado perene, um partido único proletarizado, conforme explicou José Dirceu.

O problema é como essa futurologia vai se materializar? A democracia nunca conseguirá construir um regime desses no Brasil. O "Nós e Eles" é uma espécie de mantra que alimenta, infelizmente, um ódio, uma linha demarcatória das diferenças entre as pessoas na sociedade voltadas para o bem ou para o mal . Uma mensagem dessas ignora a história, e não se preocupa com as consequências .

É complicado explicar o ódio gerado por uma aparente e ingênua declaração, que induz a um distanciamento entre as pessoas de uma comunidade , produzindo facções de amigos e inimigos. O ódio, como método, é o sentido oculto no enunciado, contido até em desleixadas declarações sobre a busca pela paz e a democracia. A introdução dessa diferença social exige um emissor com coragem e desfaçatez para mentir e agir. Instalado carismaticamente tende a se perpetuar, como o peronismo, na Argentina; o maoísmo, na China; ou o stalinismo, na Rússia. São realidades , segundo Foucault, criadas pela palavra . Caminha-se, portanto, em direção a uma nova ética na gestão pública.

Nem Nietsche suportaria tanta ousadia .Todos os que mentem estão conscientes de que o fazem. São perfis recorrentes. Insistem em fazê-lo também por dois motivos : um patológico e o outro, porque , nas suas fantasias existenciais, vem nesse caminho uma forma de se estabelecer no cenário. A mentira e o ódio juntos trazem também em sua própria configuração matrizes do contraditório, identificadas e exploradas pelas redes sociais . Na verdade, é tudo grosseiramente óbvio nesse politicamente correto.

Se o ódio e a mentira, simbolizados nas palavras, desmascaradas nas redes digitais , não são suficientes para sepultar narrativas, resta a censura que surge na cabeça de ineptos governantes . E é assim que a Nação assiste estupefata , essa discussão entre um ministro do STF e o dono de uma plataforma digital, sentenciada a apagar opiniões de políticos e jornalistas . Musk expande seus negócios explorando a liberdade de informação. O cidadão ministro à busca de legitimidade para suas belicosas atitudes anticonstitucionais. São verdadeiras monstruosidades em curso . A persistirem, resta a pergunta: de que tamanho será esse monstro amanhã?

Este é Elon Musk

Um empresário estrangeiro bilionário, comanda aqui no Brasil a oposição à democracia e à soberania popular e busca aliados estrangeiros, em países próximos, para fazer sua guerra contra a soberania do Estado, a República e a ideia de nação, que esteve na raiz do nosso processo constituinte. E o faz apoiado por uma malta fascista, aliada ao que tem de pior no neoliberalismo autoritário, inimigo dos direitos fundamentais e da soberania popular. Este é Elon Musk.

A ideia de Elon Musk é instituir um novo tipo de Estado, através de uma estrutura privada de poder soberano, que possa corroer os valores democráticos – por dentro e por fora da estrutura normativa do Estado instituído – privando-o do seu poder soberano legitimado pelas eleições democráticos, para criar um sistema criminoso de poder privado que controle a República, de fora para dentro, sem ocupação territorial de caráter militar.


Erik Olin Wright busca, na parte conclusiva do seu livro Análise de classe –abordagens, uma resposta para o dilema “se a classe é a resposta, qual é a questão?” – formulando a pergunta específica: “como as pessoas, individual e coletivamente, situam subjetivamente a si e aos outros, dentro de uma estrutura de desigualdade.” É uma pergunta axial para nos situar hoje na nova estrutura de classes e “não-classes” do capitalismo financeiro turbinado pelas novas tecnologias, globalizado pelo consumismo desigual e exasperado.

Elon Musk e Karl Marx percorreriam o mesmo caminho com propósitos de dar respostas com sentidos e ideais diferentes. Marx diria que pela luta política entre as classes – pacífica ou armada, segundo o Marx que se lê – deveríamos conquistar um estado de extinção das classes, numa sociedade pautada pela igualdade com o reconhecimento das diferenças. Elon Musk diz – como Javier Milei – que é preciso uma geleia geral, sem Estado e sem classes estruturadas, para que a sociedade só reconheça os sujeitos como indivíduos em luta para meritoriamente serem mais desiguais.

Parece irônico colocar num mesmo texto a influência na realidade, de dois práticos e pensadores tão diferentes. Mas não será, se pensarmos que Marx é o principal herdeiro do iluminismo do século XVIII e Elon Musk é hoje o principal agitador e “influencer” do fim do humanismo burguês. Este, ao mesmo tempo em que destrói as heranças humanistas ilustradas, promove uma estética da decadência, que encarna – com a sua idiotia provocativa e o seu talento pervertido – a ideia de monetizar a canalhice como valor agregado à sua ousadia performática.

A experiência de Elon Musk como CEO, chanceler e líder de um novo poder soberano global, que se ergue no horizonte da história contemporânea, não é apenas o novo traçado de uma epopeia fascista libertina, hoje apelidada de “libertária”, mas é, sobretudo, a promessa de uma nova etapa – na época da dissolução do projeto imperial-colonial tradicional – que se encaminha para outro patamar de poder do capital financeiro global, no atual sistema-mundo.

Elon Musk concebe uma linha política, como um agente especial das mudanças tecnológicas e informacionais da grande pirataria do capitalismo, como representação informal de novos entes soberanos. Diferentes e distantes dos estados modernos, formados até agora, o Estado de Musk é o “estados-fluxo”, sem pátria e sem pruridos humanistas: Estado total global de natureza privada, que esmaga as agências públicas que fizeram as normas de poder do Estado de direito.

Estes Estados desafiam a genética do Estado de direito – nacional e social – pela captura da opinião na ditadura do mercado e que tem no seu limite tanto a guerra quanto a ditadura militar como seu recurso derradeiro. A naturalização da violência, o fim de qualquer proteção social e a multiplicação do Estado-polícia, face ao rebaixamento do que resta das funções públicas do Estado, são o seu caminho.

Elon Musk encarna o fato de que há uma outra realidade em marcha, onde os conceitos de pátria, nação e solidariedade, serão soterrados por estes novos gerentes, pilantras do capitalismo em crise, cheios de “brilho” nos momentos mais excitantes da sua vida, para quais não importa nada: miséria, famílias destruídas, crianças assassinadas, jovens mortos de fome, trabalho precário e noites de inverno sem calor. Nada lhes importa.

O que lhes importa é a próxima cotação das bolsas e como os idiotas e patéticos editoriais da desumanidade dos grandes órgãos de imprensa verão sua conduta desafiadora da ordem democrática, para negociar com eles os resultados da monetização da mentira industrialmente produzida nas catacumbas das redes.

A alarmante naturalidade com que a grande imprensa trata a pirataria de Elon Musk contra as democracias do continente, na Bolívia dizendo que seria ótimo um golpe de Estado para que o país possa ser colonizado para entregar seu lítio, no Brasil atacando os poderes da República, o presidente do Supremo e subvertendo a luta política para transformá-la num canil raivoso de protagonistas da direita fascista, ele, Elon Musk, passeia um oceano de delírios como um agente estrangeiro de um Estado sem pátria.

A síntese que Elon Musk representa é a seguinte: seu poder deixado “livre” terá como resultado a implementação de uma soberania de “novo tipo”, cuja ordem normativa será apenas um fluxo digital e comunicacional, combinados numa sequência de redes de empresas – reais e virtuais – em cujos “nós” inteligentes estarão os comandos da nova soberania privada, aceita como se fosse um Estado Nacional invasor que já dominou o território.