terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Duas raças

Acrônimos são aquelas sopas de letras maiúsculas que costumam designar entidades de nomes compridos como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) ou Unesco (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). Não existem para provocar emoção ou sentimento — em si, são neutros, indolores, inodoros. Exceto pelas cinco letras de WCNSF. Essas ferem, fazem chorar, causam horror e dor. Significam Wounded Child, no Surviving Family, ou Criança Ferida sem Familiares Vivos. A sigla nem existia antes do ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro e da consequente terraplenagem da Faixa de Gaza desencadeada por Israel. Nunca fizera falta, pois em nenhuma guerra anterior a orfandade infantil fora tão maciça.

De qualquer ângulo que se olhe, as crianças palestinas do enclave formam um capítulo à parte da desumanidade em curso. Estatísticas de guerras anteriores mundo afora registravam média de 20% de crianças do cômputo total de vítimas. Em Gaza, elas são 40%. Dados levantados pela Save the Children apontam para mais de dez crianças mutiladas por dia, com a perda de uma ou ambas as pernas. Isso há quatro meses. E talvez já chegue a 25 mil o número das que perderam ao menos um dos pais na guerra.


Em Gaza, as crianças WCNSF abrigadas em hospitais ou junto a agências internacionais por vezes nem sequer sabem declinar o nome. Emergem mudas de algum escombro, cobertas de pó e sangue. Não choram, não demonstram medo. Estão em choque, à deriva na devastação geral. Inicia-se então uma labiríntica procura por alguma família aparentada capaz de acolher mais uma infância em ruínas. Às que têm a sorte de continuar com algum colo de mãe ou presença de pai/tio/avô por perto, as sequelas previsíveis são inomináveis. Uma observação do chefe de comunicação do Unicef dá a dimensão do drama sentido por qualquer adulto na população cada vez mais sitiada: fazer de tudo para que a criança não perceba que você perdeu o controle. Essa talvez seja a carga mais dura de qualquer adulto em Gaza, hoje.

A pediatra americana Seema Jilani, assessora sênior do Comitê Internacional de Resgate, que atua globalmente em emergências de saúde, passou duas semanas no Hospital Al-Aqsa de Khan Yunis. Em longa entrevista a Isaac Chotiner, da New Yorker, ela relatou como foram suas primeiras horas de plantão ali. Chegara acompanhada de alguns cirurgiões, um obstetra, um anestesista e um intensivista vindos do Cairo.

Já trabalhara em emergências no Afeganistão, no Iraque, no Líbano, no Egito, na Turquia, na Líbia, no Paquistão e há 19 anos fazia pit stops na Cisjordânia e em Gaza. Ainda assim, nada a preparara para o horror que viu no enclave desta vez. A ausência de dignidade ali possível lhe pareceu abissal.

A primeira criança a cair sob seus cuidados foi um menino de 12 meses:

— Ele tinha o braço e a perna direita arrancados por uma bomba. A fralda estava ensanguentada e se mantinha no lugar, apesar de não haver mais perna. Eu o tratei primeiro no chão, pois não havia macas disponíveis (...). A seu lado havia um homem emitindo os últimos respiros. Estava ativamente morrendo havia 24 horas, com moscas por cima (...) O bebê de 1 ano sangrava profusamente no tórax... Não havia nem respirador, nem morfina, nem medidor de pressão em meio ao caos. (...) Um cirurgião ortopédico envolveu com gaze os tocos da criança e comunicou que não a levaria de imediato para o centro cirúrgico porque havia casos mais urgentes — contou com crueza a dra. Jilani.

E concluiu, com empatia, que não conseguia imaginar o que poderia haver de mais emergencial que um bebê de 1 ano sem mão nem perna, sufocando no próprio sangue. A resposta, é claro, todos sabemos, a pediatra também: algum outro estropiado da guerra, com pelo menos uma ínfima chance de ser salvo. Considerando as carências colossais, não era o caso daquele bebê.

Indagada sobre como avaliava a utilidade de sua presença no caos do Al-Aqsa, Jilani apontou para algo muito além da emergência clínica: para o corpo médico do hospital, a chegada da equipe estrangeira significou que eles não haviam sido esquecidos, evidenciava que o mundo não os deixara sozinhos.

Dias atrás, mais um complexo hospitalar em Khan Yunis foi submetido a assalto maciço por parte das tropas de Israel. Segundo o governo de Benjamin Netanyahu, o hospital abrigava integrantes do Hamas e poderia esconder os restos mortais de alguns dos 130 reféns israelenses ainda em mãos do grupo terrorista. O caos, as mortes, o desamparo de civis apenas se repetem e se avolumam. O anunciado plano israelense de ataque tous azimuts à cidade de Rafah visando a derrotar os terroristas do Hamas é uma insânia. Ali está espremido 1,5 milhão de palestinos já exauridos. Fugiram do chão que habitavam mais ao norte para escapar dos bombardeios. Estão numa ratoeira, enquanto o Egito ergue um muro de 7 metros de altura delimitando vasta área do Sinai. Talvez para recebê-los in extremis? Quem sabe o mundo acorda? Como constatou o maravilhoso psicanalista Viktor Frankl, judeu austríaco que sobreviveu a Auschwitz, no fundo existem apenas duas raças — pessoas decentes e pessoas indecentes.

A diferença entre opinião e juízo crítico

Num percurso guiado pelos testemunhos e orientações de diversos pensadores, tentamos estabelecer uma fronteira entre um pensamento autónomo e crítico, que impediria o indivíduo de se abandonar ao ânimo coletivo, e toda essa dinâmica de manifestações efusivas que usurpam a própria gramática política e política e em último caso nos entregam ao niilismo.


Há uma consciência difusa de que estamos a entrar numa fase extrema de um processo “cujo fim não podemos prever com certeza, mas cujas consequências poderão ser catastróficas”, servindo-nos aqui das palavras do filósofo italiano Giorgio Agamben, numa crónica publicada há pouco mais de uma semana. E se há um esforço hoje, e diante da instabilidade política que se vive por todo o mundo e também no nosso país, para manter uma reflexão crítica sobre os aspetos marcantes da nossa vida pública, escapando àquela tendência para um alheamento do destino político comum, o que, no entender de Eduardo Lourenço, sempre só poderia ser encarado como um sintoma de sonambulismo mental e ético, por outro lado, é difícil não se sentir atraiçoado logo de partida pelos termos com os quais se esgrimem os argumentos em confronto, recaindo estes tantas vezes em eufemismos ou trivializações. Assim, mesmo quando há uma vontade de assumir uma atividade autónoma de juízo, muitas vezes o que afasta tantos é essa perceção muito clara do quanto aqueles que se entregam à atividade política revelam, na verdade, uma menoridade intelectual e cívica confundindo-a com uma mera “participação verbal quotidiana e obsessiva, puramente imaginária ou glandular, nisso que abusivamente se chama ‘a vida política” e que é apenas o comentário gratuito e vão de um processo que de todo em todo escapa aos que o comentam” (E. Lourenço).

Na esfera pública mediática, há muito foi diagnosticado essa forma de degradação do discurso que passa pela devoração a que está sujeito por virtude do dramatismo e das afetações da opinião, esse regime de emoção induzida, de ostentação de um pathos sem substância. A substância é substituída pela guerra das virtudes, em que um conjunto de figuras se digladiam por meio de reações inflamadas, produzindo choques contínuos e fátuas demonstrações de virilidade ou vigor, e tudo isto se torna “a coisa mesma”, a própria substância da política. Assim, como nos diz Roberto Calasso, “a opinião encontra confirmação em si mesma, brota por si - a servidão tornou-se espontânea”.

Este ensaísta e prestigiado editor italiano, que morreu em 2021, notava como a totalidade da opinião constitui então um corpo, esse Grande Animal descrito num excerto memorável da República de Platão: “Cada um desses particulares mercenários, a quem o povo chama sofistas e considera seus rivais na arte, só ensinam as máximas que o próprio povo professa nas suas assembleias, e é a isso que eles chamam sabedoria; como se alguém, depois de ter aprendido a conhecer os impulsos e os desejos de um animal grande e forte, como se deve aproximar dele e tocar-lhe, quando e porquê se irrita e se acalma, os gritos que costuma emitir em cada ocasião, e qual o tom de voz que o acalma ou enfurece, depois de ter aprendido tudo isso durante muito tempo, lhe chamasse sabedoria, e, tendo-o sistematizado numa espécie de arte, embora sem saber ao certo quais desses apetites são belos ou feios, bons ou maus, justos ou injustos, e só aplicasse termos de acordo com os instintos do animal; dizendo que é bom o que lhe agrada, e mau o que o importuna, sem poder legitimar de outra forma essas qualificações; dizendo que é justo e belo o que é necessário, porque não viu e não é capaz de mostrar aos outros até que ponto a natureza do necessário difere, na realidade, da natureza do bom.”

Para Calasso, toda a rede das oposições que até hoje formavam a gramática e a sintaxe do pensamento foi usurpada pela opinião, que domina todos os regimes, sem perfil em todos os lugares e em nenhum, e “o excesso da sua presença é tal que permite apenas uma teologia negativa”. Assim o mais difícil é reconhecer quando se ultrapassou essa fronteira, como reconhecer o que não é opinião. Diz-nos Calasso que não nos podemos socorrer de nenhum mapa de opiniões, que a existir não teria qualquer utilidade, uma vez que “a opinião é acima de tudo um poder formal, um virtuosismo que aumenta constantemente, que ataca todos os materiais. A opinião troça de nós ao aceitar qualquer sentido, o que nos impede de a reconhecer pelas teses que apresenta (…), a opinião engole o pensamento e reprodu-lo em termos idênticos, apenas com ligeiras modificações”.

Estamos assim diante de uma forma de produzir juízos momentâneos, que se confundem com simples impulsos, e que sujeitam a gramática e a sintaxe de que nos servimos para enquadrar determinados aspetos ou fenómenos da vida política a uma tal volatilidade em que estamos no terreno de uma pura emoção, esvaziada de qualquer racionalidade.

Como lembra António Guerreiro, este mundo da opinião “é agonístico, isto é, alimenta-se das ilusões marciais, das virtudes heroicas, e imagina-se sempre em combate para dar provas de existência. Além disso, é quase exclusivamente reativo, parasitário e amplificador de ecos. Por isso mesmo é volátil e funciona por ondas que se formam, se agigantam e se desfazem em pouquíssimo tempo, até que uma nova onda recomeça”. Tudo recai assim num regime de maior ou menor agressividade moral, naquele sentido em que o ódio e o amor se esgrimem enquanto manifestações enganadoras, aproveitando-se de indícios ocasionais, e apenas para capturar o maior número de pessoas, gerando essas tendências coletivas em que podem exprimir-se os tais impulsos violentos reprimidos. Estas tendências são agravadas nas sociedades modernas em virtude do que Adorno denominava a “claustrofobia das pessoas no mundo administrado”, sendo este caracterizado como “rede densamente interconectada”. Basta pensar no regime pesporrente das redes sociais como um cenário que atualmente se sobrepõe a qualquer paisagem real, com os seus humores a dominarem uma imprensa que busca um reflexo e avalia o seu alcance pela distribuição que obtém dos seus artigos, ou os números de visualizações, tendo nós chegado a uma vertigem em que a quantidade impede qualquer revolta contra ela.

Robert Musil lembrava como um certo regime de agressividade moral permite essa “coerção literalmente fantástica de reagir ao próximo de uma qualquer forma veemente, derramar-se nele, ou destruí-lo, ou criar em relação a ele algumas constelações ricas em invenções interiores”. Este grande escritor austríaco nota que mesmo o imperativo categórico e aquilo que, desde ele, é tido como uma experiência moral específica, não é, no fundo, senão uma nobre intriga rabugenta visando o regresso ao sentimento. Ora, o que acontece é que aos poucos, e para satisfazer este desejo de conversão sentimental, o próprio mundo se vê convertido em fábula, isto de forma a que os seus signos possam ser manipulados sem oferecerem grande resistência, e usurpados por aqueles facínoras do bem e do mal que, num horror insonso perante a forma de um fenómeno, se recusam a tocar-lhe.

Assim, somos devolvidos à lição de Elias Canetti que explica a formação dos efeitos de massa pelo receio do contacto, pelo pavor de ser tocado pelo desconhecido. E ele refere como entre os fenómenos mais sinistros da história intelectual humana se encontra a fuga ao concreto. Deste modo, o regime da opinião serve como uma manifestação desse desejo de escapar ao confronto com tudo aquilo que nos cerca e exige de nós uma ação decisiva. “O balanço dos gestos exuberantes, o lado aventuroso e temerário das expedições a terras distantes enganam quanto aos motivos que lhes estão por detrás. Não é raro tratar-se, simplesmente, de evitar aquilo que está mais próximo, porque não estamos à sua altura. (…) Seria necessária muita tacanhez para condenar essa extravagância do espírito, embora, de vez em quando, ela resulte de manifesta fraqueza. Levou a um alargamento do nosso horizonte, de que estamos orgulhosos. Mas a situação da humanidade é hoje, como todos nós sabemos, tão séria que temos de nos voltar para aquilo que está mais próximo e é mais concreto. Nem suspeitamos sequer de quanto tempo nos resta para olhar de frente o mais penoso, e, no entanto, bem pode ser que o nosso destino dependa de determinados conhecimentos difíceis, que ainda não temos.
Diogo Vaz Pinto

Quando o líder de Israel relativizou a culpa de Hitler no Holocausto

Em outubro de 2015, já como primeiro-ministro de Israel e às vésperas de uma viagem a Alemanha, Benjamin Netanyahu relativizou a culpa de Hitler no Holocausto, que dizimou 6 milhões de judeus, ciganos, poloneses e gays durante a 2ª Guerra Mundial.

Seu discurso em um congresso sionista correu o mundo e foi alvo de duras críticas, tanto mais por ser ele filho de um historiador e saber como tudo acontecera de fato. Hitler, segundo Netanyahu, não queria exterminar os judeus, mas expulsá-los da Europa.


O pai da “Solução Final” teria sido o mufti de Jerusalém, Haj Amin Al-Husseini, um líder religioso mulçumano, mais tarde procurado pelo Tribunal de Nuremberg por crimes de guerra, e que não queria colher os judeus na Palestina, contou Netanyahu.

Hitler então perguntou ao mufti:

“E o que eu faço com eles [os judeus]?”

Ao que o mufti, reproduziu Netanyahu, teria respondido:

“Queime-os”.

A reportagem da televisão portuguesa sobre o assunto mostra Netanyahu na Alemanha ao lado da primeira-ministra Ângela Merkel e da atual presidente da Comunidade Econômica Europeia, Ursula von der Leyen, que em junho último esteve com Lula, em Brasília.

Ah, Lula, de propósito ou não, você pediu para apanhar quando comparou a matança promovida pelo governo de Israel em Gaza com a matança em escala industrial dos judeus na Alemanha de Hitler. Não poderia ter comparado com tantas outras? A história está repleta delas.

Em outubro passado, no início da guerra Israel x Hamas, com os palestinos no meio, desarmados, tangidos para lá e cá por mísseis e bombas de alta ou de pouca precisão, o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, disse sobre Netanyahu o que Netanyahu jamais ouvira.

Disse, por exemplo, que o primeiro-ministro de Israel não é diferente do que foi Adolf Hitler, e comparou os ataques de Israel a Gaza ao tratamento dado pelos nazistas ao povo judeu. Netanyahu ficou furioso com Erdogan, mas não o declarou persona non grata a Israel.

Pelo que se vê, a crise diplomática provocada por uma fala improvisada de Lula repercute mais aqui do que em Israel, e tão cedo o barulho cessará. Os principais jornais do mundo publicaram notícias a respeito, mas por ora não editoriais ou artigos de opinião.

O governo israelense convocou o embaixador do Brasil para dar-lhe uma reprimenda pelo que disse Lula: o governo brasileiro convocou o embaixador de Israel com o mesmo objetivo. Coletivos de judeus se dividiram, uns acusando Lula de antissemitismo, outros o apoiando.

Lula pode ter arriscado sua credibilidade, mas a do Itamaraty está intacta. Não foram os diplomatas que aconselharam Lula a agir como ele agiu. Diplomatas americanos aconselharam o presidente Joe Biden a ser mais duro com Israel, e ele não é. Pode ser derrotado também por isso.

As relações do Brasil com os países democráticos não esfriaram com a fala de Lula, e não há sinais de que esfriarão. Os Estados Unidos estão às vésperas de apresentar à ONU uma resolução que, pela primeira vez, pede o cessar-fogo em Gaza “o mais rápido possível”.

Lula não pedirá desculpas pelo que disse, mas por meio de Janja, sua mulher, explicou o que quis dizer. Ela postou nas redes sociais:

“[…] Tenho certeza que se o Presidente Lula tivesse vivenciado o período da Segunda Guerra, ele teria da mesma forma defendido o direito à vida dos judeus. A fala se referiu ao governo genocida e não ao povo judeu. Sejamos honestos nas análises.”

Agora, afirmar que Israel está numa campanha de bombardeios apenas contra o Hamas, e adotou medidas para reduzir a morte de civis, é uma grossa mentira. Israel – ou melhor: seu governo de extrema-direita – pratica um genocídio; o que envergonha a maioria dos judeus.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


O fugidio deixa-se apanhar

Os deveres do cronista suportam-se bem porque é ele que decide quais são.

Um desses deveres é detectar o fugidio. À nossa volta, estão paisagens e modos de vida que ainda não sabem que estão a morrer. Temos de apanhá-los antes que morram. Não é um prazer mórbido. É uma despedida.

Sente-se quando se vai a um quiosque comprar jornais e todos os outros clientes estão a comprar boletins de apostas.

As coisas fugidias estão numa espécie de Outono tardio. Ainda há sol. Ainda há tempo. Precisamos é de lá estar. Quando uma coisa boa – ou mesmo má – desaparece de repente, é sinal de que os nossos detectores não estão a funcionar.


Todas as mortes são anunciadas. Nós é que não sabemos ler os anúncios.

Há quem se vicie em chorar o que já não existe. É quase como se esperassem pacientemente que as coisas desaparecessem, para poderem entrar em acção, como carpideiras à porta do cemitério, a pôr pingos nos olhos enquanto consultam os telemóveis, à espera que morra alguém.

É mais triste do que se pensa. O fugidio deixa-se apanhar. Precisa de nós: está a morrer. Se calhar, ainda pensa que pode sobreviver. Conta connosco para a renascença.

Não é azar, nem a maldade dos tempos sequer. As coisas vivas têm tempos de vida. Umas são borboletas e morrem muito depressa: a morte faz parte da beleza delas. Outras são tartarugas e morrem muito devagar: deixamo-nos irremediavelmente distrair, porque morremos antes delas.

O fugidio pode ser uma coisa má: um saco de plástico para transportar uma alface, uma aceleração escusada num automóvel, a pressa de despejar o lixo todo num contentor para lixo indiferenciado.

Para aproveitar enquanto se pode, primeiro é preciso detectar o que nos está a fugir.

“Já fui tarde” é o nome do nosso fado. “Quando cheguei, já tinha fechado” é sempre o primeiro verso. Não é coisa de velhos nem de saudosistas: cada vez há mais crianças que estão a deixar fugir a infância, sem saber aproveitá-la.

É preciso apanhar o fugidio.

Modo de reprodução

O Ódio casou com a Vida e tiveram muitos filhos: execração, malquerença, atiradeira, tacape, soco, arco e flecha, desgosto, inimizade, repugnância, vingança, funda, estilingue, besta, bodoque, repulsa, revolta, aversão, irritação, inveja, porrete, cassetete, espada, florete, pedra, pedaço de pau, faca, punhal, azagaia, antipatia, desamor, desafeto, desfavor, indiferença, maledicência, desprezo, lança, adaga, machado, estoque, foice, facão, martelo, canhão, fuzil, bazuca, obus, morteiro, abominação, mentira, depreciação, constrangimento, rancor, carabina, granada, dardo, espingarda, forca, guilhotina, canivete, veneno, ciúme, ganância, insulto, repúdio, desacato, adulteração, traição, desrespeito, desorientação, racismo, escárnio, pressão psicológica, intolerância, impaciência, trabuco, pau-de-arara, mosquetão, revólver, escopeta, metralhadora, garrucha, pistola, perseguição, rejeição, abandono, tolice, insensatez, violação, desatenção, torpedo, míssil, bomba A, bomba H, contrariedade, ridículo, menosprezo, terrorismo, futilidade, pistola a laser, carro-bomba, homem-bomba. E viveram infelizes para sempre.

Rui Werneck de Capistrano

Favela e democracia

Cidade colonial e Corte de um Império escravocrata, o Rio de Janeiro produz um tipo peculiar de segregação urbana, que faz das favelas uma forma racializada de configuração urbana, por isso mesmo fartamente instrumentalizada como antítese da cidade, um lugar habitado por um “outro”, contra o qual se opõe um ideal de cidade europeia e branca. A esse passivo histórico, devemos a crônica estigmatização da favela, que sustenta toda sorte de violência contra a sua população: da privação de saneamento à exposição a grupos armados paramilitares e às repetitivas incursões policiais, que em nada alteram esse quadro, mas que deixam um triste saldo de mortes e de traumas.


Para superarmos esse passado e imaginarmos um outro futuro, um primeiro passo é reconhecer que os que mais cultivam a democracia na cidade estão nas favelas e periferias. Mais especificamente, em seus coletivos e organizações que, há décadas, e cotidianamente, vêm lutando pelo direito a vida, educação, saúde, saneamento, cultura e outros direitos urbanos. Um segundo passo é reconhecer que são justamente eles os mais ameaçados pela simbiose em curso entre milícia e narcotráfico.

Diante desses grupos que controlam o acesso a bens de consumo nas favelas (inclusive a habitação) e que reúnem grande poder armamentista e penetração no sistema político, as trincheiras de defesa da cidade democrática no coração das favelas tendem a ficar cada vez mais vulneráveis. Daí que o cerco à narcomilícia não deva se reduzir ao necessário trabalho policial, que tem avançado com a bem-vinda participação da Polícia Federal. Para defender a democracia, também precisaremos conferir atenção especial aos danos que a narcomilícia produz no tecido da sociedade civil.

Historicamente, o Rio vem construindo redes envolvendo universidades, instituições de pesquisa e organizações de favelas e periferias. É relevante que, recentemente, Faperj e Fiocruz venham abrindo editais voltados para tais organizações. A isso se juntam trabalhos já sólidos de inúmeras organizações, de que são bons exemplos a Casa Fluminense, a Redes da Maré, o Grupo ECO Santa Marta, o Instituto Maria e João Aleixo e uma gama diversa de iniciativas como o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o Plano do CPX, a Expo Favela e o recém-criado Centro de Pesquisas PUC-Rio – Rocinha (Unir).

Essas organizações e iniciativas, e muitas outras não citadas, evidenciam que o Rio dispõe de um consistente capital social e político, formado em torno de redes horizontais, que vivificam o compromisso com a universalização do direito aos bens de cidade e que contribuem para romper com a segregação urbana derivada do estigma da favela. Mas é preciso investir mais na sinergia entre essas ações e apostar em seu caráter estratégico. Fortalecidas, essas redes contribuem para a agenda antirracista e erguem barreiras simbólicas e políticas em face da expansão da narcomilícia que, com sua lógica mafiosa de extração de lucro e concentração de poder, afronta a cidade e a democracia.

Veados e caranguejos

Andrelândia é uma cidadezinha do Sul de Minas, daquelas que poderiam perfeitamente ser o cenário de uma bucólica novela das 7 (no tempo em que novelas das 7 eram bucólicas). O casario colonial se espalha, como as contas de um rosário, em torno da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação (é assim que o hino municipal descreve a enorme praça ovalada, mais parecendo uma nau) no centro histórico daquela que um dia foi a Vila Bela do Turvo.

A meio caminho entre Ibitipoca e São Thomé das Letras, Andrelândia não ostenta a natureza intocada de uma nem os toques sobrenaturais da outra. Mas tem algo que a faz única: um bipartidarismo próprio, que — para o bem e, principalmente, para o mal — sobreviveu aos mais de 150 partidos políticos da nossa História.


Nas cédulas e nas urnas eletrônicas, as siglas podiam ser UDN, PR, PL, PSD, PTB, PCdoB, MDB, Arena, PSDB, Novo, PT; na cabeça do eleitor, o voto seria nos veados ou nos caranguejos.

Esta é outra peculiaridade, e remonta ao século XIX, quando um grupo se insurgiu contra a hegemonia do Partido Liberal e fundou o Partido Republicano do Turvo. Os eleitores do primeiro, tradicionalistas, perderam terreno. Andaram para trás, viraram caranguejos. Os do segundo, dando saltos adiante, se autodenominaram veados — e desde então Andrelândia deve ser o único lugar em que esse termo tem uma acepção ideológica.

Emulando as mesquinharias da política nacional (em que Bolsa Família vira Auxílio Brasil para depois voltar ao nome original — que já era um rebranding dos vários programas de transferência de renda de outro governo), as obras dos veados eram abandonadas nas administrações dos caranguejos, e vice-versa. Como a resultante das forças dos que saltavam para a frente e dos que andavam para trás é nula, a cidade estagnou.

O Brasil é uma grande Andrelândia, aprisionado no modelo binário (e eventualmente paradoxal) em que se muda o rótulo, mas os ingredientes permanecem os mesmos. Lá, os veados — outrora reformadores — se acomodaram no PMDB; e foram os tucanos que acolheram os conservadores caranguejos. Mais ou menos como, noutra escala, os “progressistas” defendem estatização, protecionismo, censura — enquanto “reacionários” propõem liberalismo econômico (e um golpe de Estado, de vez em quando).

O mais ilustre dos andrelandenses, o historiador José Murilo de Carvalho (ocupante por quase 20 anos da cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras) escreveu que os quatro pecados capitais do Brasil eram a escravidão, o latifúndio, o patrimonialismo e o patriarcalismo. Poderia ter incluído um quinto: o maniqueísmo. Esse que faz com que, em 2024, ainda sejamos divididos entre fascistas e comunistas — categorias do início do século XX, ressuscitadas como espantalhos.

Nesta semana, o apresentador Luciano Huck foi xingado no Xuíter por compartilhar um artigo pró-democracia. Como se sabe, só quem é esquerdista desde criancinha pode — mesmo apoiando ditaduras e terroristas — se considerar um humanista, um democrata.

É o mal de pertencer a uma fauna limitada a cervídeos e crustáceos, que insiste em negar a diversidade, a nuance, a complexidade, a possibilidade de convergência.

Quem souber como superar o estágio de veados x caranguejos em Andrelândia talvez tenha a chave para destravar o Brasil.

Quem cata suas latinas é trabalhador?

Não importa como você decidiu comemorar seu Carnaval. Se decidiu cair na folia, lá serão eles e elas, os catadores de latinhas. E quem olhou com atenção para as ruas cidades das brasileiras nestes quatro dias, viu que "Carnaval é cheio de cor, mas só uma cata latinha". Essa frase do artista A Coisa Ficou Preta estampou um post que circulou muito nas redes sociais mais progressistas do país, traduzindo aquilo que já sabemos quase que "intuitivamente", mas que foi confirmado por estudos do IPEA: os catadores são, na sua maioria, homens e mulheres negras.

É isso, nem mesmo a festa momesca e a transcendência que ela provoca consegue alterar ou suspender a realidade: quem recolhe as toneladas e mais toneladas de latinas tem uma cor específica, e não usa glitter.


Em artigo publicado no portal Mundo Negro em 12 de fevereiro de 2024, Priscila Arantes sublinhou questões fundamentais que acompanham a relação intrínseca entre catar lixo, a pertença racial desses sujeitos e as péssimas condições de trabalho em que eles estão. Dois em cada três catadores se autodeclararam negros ou pardos.

A precariedade é pouco para definir as condições de trabalho a que são submetidos (tanto aqueles que se organizam em associações e cooperativas, como os que trabalham de forma autônoma) e, se isso não bastasse, nos últimos anos a renda mensal de catadoras associadas caiu significativamente . Atualmente, muitos desses trabalhadores não conseguem tirar nem R$ 300 por mês, catando a mesma quantidade de lixo que, há três anos, eles rendem um pouco mais do que um salário mínimo .

De acordo com o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis ​​(MNCR), estamos falando das condições de vida de aproximadamente 800 mil pessoas, que são diretamente responsáveis ​​por 90% da reciclagem de lixo no Brasil.

As pessoas cujo trabalho permite que o custo da reciclagem de alumínio caia pela metade, são as mesmas que, embora organizadas em cooperativas e tendo contratos celebrados com algumas prefeituras do país, não têm previsão de quanto receber, e muitas vezes estão sujeitas a condições de trabalho que coloca sua saúde em risco por causas ocasionais, como a falta de equipamento adequado para trabalhar.

O mais perverso disso tudo, é que vivemos numa era em que o princípio da sustentabilidade está em voga. Ainda bem. Afinal, é fundamental revisarmos os padrões de consumo e descarte das últimas décadas.

Mas, como sublinhado por Anita Cristina de Jesus, chefe da Divisão de Sustentabilidade, Acessibilidade e Inclusão do TRT-4 do Rio Grande do Sul, esse processo não pode simplesmente desconsiderar as questões que norteiam a vida dos catadores e catadoras, como se eles apenas fizeram parte do cenário que compõe o processo de reciclagem. Antes de mais nada é preciso enxergar esses homens e mulheres naquilo que são: trabalhadores.

Essa vem sendo a luta da maior parte dos catadores e catadoras, principalmente aqueles que atuam no MNCR, como Alexandro Cardoso, o Alex Catador, importante liderança do movimento que recentemente concluiu uma etnografia na qual analisa e humaniza a vida e o trabalho dos catadores.

Um estudo que vale a pena ser lido, para que não esqueçamos do estigma histórico que acompanha pessoas negras e pobres que trabalham com a coleta de lixo e dejetos (lembremos que por muito tempo eram escravizados que faziam tais atividades), mas também para lembrar que , embora estejamos atualizando uma coisa bacana e importante, não temos muita ideia de como e onde esse processo se dá.

Sendo bem francos: a parte mais substancial do trabalho dos catadores é invisibilizada, e aquela que parece acaba gerando compaixão, mas não nos mobiliza muito: o máximo que fazemos é sermos educados e solícitos ao entregar as latinhas nas mãos desses homens e mulheres.

Tudo isso para dizer o óbvio: um projeto sustentável que não leva em consideração o trabalho e a critério por condições minimamente dignas dos catadores é falho em sua essência. Sustentabilidade que descarta pessoas, principalmente pobres e negras, é apenas outro nome para racismo ambiental.

Antes que nosso planeta seja a ponto de tornar uma vida humana insustentável, famílias de catadores podem morrer de fome. Uma contradição trágica que diz muito sobre o nosso tempo, e que exige que as ações do Estado, mesmo quando bem-intencionadas, devam colocar os direitos dos trabalhadores em primeiro lugar na formulação de políticas públicas sobre reciclagem.

Pois é, todo Carnaval tem seu fim. E precisamos decidir para onde vai o lixo que produzimos nele e em todo o restante do ano.

A sorte é que caminhos já foram traçados. E um bom começo é enxergar, escutar e aprender com os trabalhadores que vêm coletando nosso lixo há tanto tempo.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Ataque israelense a Rafah será uma catástrofe humanitária sem precedentes

A única coisa que podemos fazer agora é pedir, implorar, chorar: não entre em Rafah. Um ataque israelita a Rafah será um ataque ao maior campo de refugiados do mundo. Irá arrastar o exército israelita para a prática de crimes de guerra de uma gravidade que nem eles próprios conseguiram alcançar. Neste momento é impossível invadir Rafah sem cometer crimes de guerra. Se as Forças de Defesa de Israel (IDF) invadirem Rafah, a cidade se tornará uma casa funerária.

Existem actualmente cerca de 1,4 milhões de pessoas deslocadas em Rafah, algumas das quais se refugiam sob sacos de plástico convertidos em tendas. A Administração dos EUA, suposto guardião da lei e da consciência israelita, condicionou a invasão de Rafah a um plano israelita para evacuar a cidade. Tal plano existe e não pode existir, mesmo que Israel consiga inventar alguma coisa.


É impossível transportar um milhão de pessoas totalmente indefesas, algumas das quais já foram deslocadas duas ou três vezes, de um lugar “seguro” para outro, lugares que sempre se tornam campos de extermínio. É impossível transportar milhões de pessoas como gado. Nem mesmo o gado pode ser transportado com tanta crueldade.

Também não há lugar para evacuar estes milhões de pessoas. Na devastada Faixa de Gaza não há mais para onde ir. Se os refugiados de Rafah forem transferidos para Al-Mawasi, como as FDI proporão no seu plano humanitário, Al-Mawasi tornar-se-á palco de um desastre humanitário como nunca vimos na Faixa.

Yarden Michaeli e Avi Scharf relatam que toda a população da Faixa de Gaza, 2,3 milhões de pessoas, deverá ser evacuada num espaço de 16 quilómetros quadrados, aproximadamente o tamanho do Aeroporto Internacional Ben-Gurion. Toda Gaza no espaço do aeroporto, imagine.

Amira Hass calculou que se um milhão de pessoas for para Al-Mawasi, a densidade populacional será de 62.500 pessoas por quilómetro quadrado. Não há nada em Al-Mawasi: nem infra-estruturas, nem água, nem electricidade, nem habitação. Só areia e mais areia, para absorver o sangue, o esgoto e as epidemias. Pensar nisto não só faz gelar o sangue, mas também mostra o nível de desumanização que Israel atingiu no seu planeamento.

Sangue será derramado em Al-Mawasi, como foi recentemente derramado em Rafah, o penúltimo porto seguro oferecido por Israel. O serviço de segurança Shin Bet encontrará um oficial afiliado ao Hamas que terá de ser eliminado lançando uma bomba de uma tonelada no novo acampamento. Vinte espectadores, a maioria crianças, morrerão. Correspondentes militares nos contarão, com olhos brilhantes, sobre o maravilhoso trabalho que as FDI estão fazendo para liquidar o alto comando do Hamas. A vitória total está próxima; Mais uma vez, os israelitas ficarão satisfeitos.

No entanto, mesmo através desta alimentação forçada, a opinião pública israelita deve despertar, e com ela a Administração Biden. Esta emergência é mais grave do que qualquer outra durante esta guerra. Os americanos devem bloquear a invasão de Rafah com acções e não com palavras. Só eles podem deter Israel.

O sector consciente da comunidade israelita procura outras fontes de informação além das estações daqui, que são “doces para os soldados” e que se autodenominam canais de notícias. Assista a imagens de Rafah em qualquer canal estrangeiro – você não verá nada em Israel – e entenderá por que ela não pode ser evacuada. Imaginem Al-Mawasi com os dois milhões de pessoas deslocadas e compreenderão como proliferam os crimes de guerra.

No sábado, o corpo de Hind Hamada, de seis anos – ou Rajab, em alguns meios de comunicação – foi encontrado. A menina ficou famosa em todo o mundo após os momentos de terror que ela e a família viveram no dia 29 de janeiro diante de um tanque israelense – momentos que foram registrados em um telefonema com o Crescente Vermelho Palestino, até que os ataques cessaram. terror de sua tia. Todos os oito membros da família morreram.

Hind foi encontrada morta no carro queimado de sua tia em um posto de gasolina em Khan Yunis. Ela ficou ferida e coberta pelos sete cadáveres de seus familiares; sangrou até a morte antes de poder sair do veículo. Hind e sua família responderam ao apelo “humanitário” de Israel para evacuar. Quem quiser mais milhares de Hinds, que invada Rafah, cuja população será evacuada para Al-Mawasi.

A cultura do celular e a morte do homem simples

O novo sujeito social e político da sociedade pós-moderna é simbolizado pelo telefone celular. Social porque a sociabilidade dos seres humanos dele depende cada vez mais. Político porque por meio dele a política deixou de se apoiar na mediação de ideias sobre o bem comum para se tornar um processo político mediado por uma coisa portátil. Um esvaziamento da política que a vem tornando um novo meio de dominação, o da mentira verossímil.

Portátil porque o usuário pode levá-lo no bolso. Mas, em vez de ser levado, é ele que leva o seu dono, dono que se tornou instrumento do objeto que usa, objeto de seu objeto.


Essa não é a única nem a mais significativa anomalia que mediatiza e demarca nossa situação social, que define os marcos de nossas condutas, que empobrece nossos horizontes, que engendra um modo social de ser em que não somos, nem pessoas nem cidadãos.

Claro que é impossível desconhecer a importância que o celular tem na vida cotidiana de todos nós. Já não podemos viver sem ele. Mas é ele, também, um dos instrumentos de um número significativo de invisibilidades desta sociedade. É por aí que somos dominados, amansados, enganados e induzidos a ser e fazer o que não queremos nem devemos.

A vacina defensiva contra ele é a consciência socialmente crítica, que não deve ser confundida com a polarização ideológica que dominou e domina a situação política brasileira. Com exceções notáveis, direita e esquerda criaram uma cumplicidade reprodutiva e imobilista no sentido de se tornarem reciprocamente úteis e necessárias. Criaram um sistema.

Historicamente, a sociedade se move para solucionar necessidades sociais conscientes, o que depende de busca de saída no objetivamente possível. O destino histórico da sociedade não sai do bolso do colete nem do militante nem do reacionário, nem do silêncio nem do berro. Daí só sai alienação e bloqueio.

O Brasil desse sistema de dominação é completamente falso.

A pós-modernidade tem o símbolo complementar no dedo indicador, que digita, mas não pensa. O cérebro já não tem prontidão para reconhecer diferenças sociais significativas e desafiadoras. As dos processos interativos que mobilizem o ser humano para que se humanize naquilo que faz e seja um construtor social da realidade.

Para confirmar o nome dos dedos de minha mão e escrever este comentário, levei menos de meio minuto e recebi de volta mais de 4 milhões de informações sobre “dedos da mão”. Para conferir o que eu já sabia.

Só que, diferente do que acontecia quando eu era criança e adolescente, em que eu colhia ideias na própria memória como colhia goiabas na goiabeira. E colhia apenas o que ia usar e comer. Na busca de uma única informação, o celular me permite colher milhões de informações inúteis em meio minuto, pelas quais eu pago.

O sistema econômico que dá sentido às funções desse instrumento se tornou um sistema produtivo de informações, mas improdutivo de realidades funcionais e mesmo materiais.

De famílias de lavradores caipiras e artesãos de fábricas, desde muito pequeno aprendi a fazer coisas úteis com minhas próprias mãos. Aos 7 anos de idade, eu já fazia meus próprios brinquedos. O primeiro presente de Natal, de que me lembro, foi um joguinho de ferramentas de carpinteiro, para criança, pois meu pai me queria carpinteiro, uma tradição de família.

Aquele brinquedo me fazia feliz. Meu celular e tudo que ele significa e pode não me fazem feliz. Eu clico na tecla para receber aquilo de que preciso e ele me traz de volta não só milhões de informações que não preciso. Mas milhões de informações que me privam das referências da consciência social e política e me dizem que o mundo em que vivo é um mundo de incerteza e perigo. Já não é um mundo de saber, esperança e alegria. O homem simples está morrendo.

A cultura do dedo indicador nos tira a alegria da dúvida criativa, o prazer de imaginar e da imaginação, ao nos tornar apenas instrumentos de um imaginário fabricado por algoritmos.

Algo pouco notado, ela libertou satanás das profundezas do inferno, o inimigo da nossa luta pelo bem, pela liberdade e pela esperança. Ela libertou o medo e o transformou num poder. Satanás tem mais presença nos púlpitos de igrejas do que o próprio Deus. Porque é em nome dele que Deus passou a existir. Os templos deixaram de ser o lugar do sagrado para ser apenas um lugar de refúgio. O mero lugar da espera apocalíptica, a negação do hoje e do atual em nome do quimérico e falso.

Ele não é um ser de fora do mundo. O deus pós-moderno é manipulador, dissimulado, satânico, que fala no bem para implantar o mal. Cuja missão é a de criar o novo sujeito social da nulificação da pessoa, a multidão sem rumo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Pensamento do Dia

 


E ao pó retornamos...

Só quem experimenta uma boa velhice medita sobre o pó. A poeira — na juventude feita de estrelas e, na idade ou temporada final, uma espécie de segundo tempo ou parágrafo derradeiro de um belo livro — é puro e seco pó.

Esse tal “sujo” que na nossa cultura tanto preocupa mães e esposas dispostas a manter suas casas imaculadamente limpas, sem um “pingo de sujeira” ou “um traço de pó”. Pó que embaça móveis e louças e revela ao visitante uma “dona de casa” incompetente ou preguiçosa, o equivalente moral antiquado do marido que, mesmo vagabundo, teria de bancar o “trabalhador”. Traço importante até hoje no simbolismo pouco estudado do nosso congênito populismo.

Exceto na cabeça duvidosa de alguns jurisconsultos, não pode haver convivência entre o sujo e o limpo, assim como o pó impede que alguma coisa brilhe ou fique de pé. O pó é aquela parte menor de tudo o que foi alguma coisa.


Ele tem uma solidez enganadora, porque não se pode botar o pó em pé, do mesmo modo que não se podem cortar a água ou o ar. O pó é a divisão da divisão, é o átomo do “sujo”. Livros sagrados, que a IA certamente desmontará, dizem que viramos pó. Mas um lado meu resiste — ou, melhor e mais honestamente, duvida...

Sei apenas que estou pautado e aprisionado pelas cinzas-pó desta Quarta-Feira de Cinzas, que são o resultado do vale-tudo programado do carnavalesco que passou.

A cinza é o símbolo dominante ou central — como diria o saudoso Victor Turner (que viu um carnaval carioca e niteroiense comigo) — de arrependimento e expiação de culpas. Nestes nossos tempos enigmáticos e inseguros, esquecemos que, quando havia profetas, e não salvadores da pátria, as cinzas dos mortos eram postas num saco e espalhadas na cabeça do arrependido culposo que, desse modo dramático, incluindo rasgar suas próprias vestes, clamava publicamente por comiseração a Deus.

Hoje dizem que Deus acabou ou não tem importância, porque sua onipotência, onipresença e onisciência será superada pela IA. Mas o pó e as cinzas nos esperam, como decretam sem nenhum pudor esses antiquados, reacionários, os velhos rituais. Solenidades feitas de gestos lentos, realizados obrigatoriamente com a mão direita, elas mostravam sua força precisamente pela entrega absoluta, como determinam tanto a fé quanto o amor, no sofrido rito expiatório de reentrada na rotina, depois de um tempo vivido em pecado...

Confesso que recebi cinzas na testa depois de alguns carnavais antigos. Pior. Confesso que não estava arrependido nem um pouco porque havia ficado abraçado à minha linda e doce namorada, tão trêmula quanto eu naquela brecha licenciosa que — puxa vida! — o carnaval abria e encorajava. Eu não era bem eu. Era um marinheiro de um filme colorido, e ela não era bem ela. Era uma ciganinha de lábios pintados que lambuzavam o branco do meu falso uniforme, dando-lhe realidade. Aquele real inescapável que só acontece nas dores mais pungentes e nos mais belos sonhos.

A carne existe com a dura realidade do mundo. Mas o pecado ou o abuso da carne têm seu começo depois da descoberta e manejo do fogo. Junte carne e fogo, e você tem muito mais que um churrasco. Você tem o gosto, o sabor, a gula, a fome, o deleite do comer e do englobar. O gozo de ser canibalizado pela carne cozida que nos torna humanos e, eventualmente, humanos com o direito ao deleite de gozar com nossa carne.

Não seria exagero dizer que ainda estamos no campo delimitado pelas regras que separam a necessidade do exagero.

Mas o fato permanente — sem o qual não seríamos capazes de conhecer as cinzas do dia de hoje — tem tudo a ver com a lembrança do pó, como admoestava o Senhor Deus a Adão, depois do pecado:

— Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás!

Covid ainda mata mais do que dengue

No Brasil, ainda morre muito mais gente de Covid do que de dengue. Não, não se quer menosprezar o surto de dengue ou qualquer doença. Os alertas de autoridades sanitárias e profissionais de saúde devem ser levados muito a sério. Não o serão.

Trata-se apenas de um mote para lembrar de como morremos aos montes de doenças e barbaridades antigas, estúpidas, evitáveis e ignoradas. De homicídio, morriam 117 por dia em 2022. Devem ter sido 110 em 2023, na projeção do Ministério da Justiça. Mesmo assim, o Brasil ainda estaria perto do topo do ranking mundial da morte, de taxa de homicídio.

Morremos de doenças causadas pelo HIV: 31 por dia em 2022. De doença de chagas, aquela causada por um parasita carregado pelo barbeiro: 11 por dia.

É um lembrete conveniente para este início de ano do que, para católicos e simpatizantes, um dia foi o começo de um período especial de reflexão e introspecção, a Quaresma. Agora, o Carnaval nem acaba, propriamente.

No último mês, morreram POR DIA 31 pessoas de Covid no Brasil. É a média das quatro semanas epidemiológicas contadas até 3 de fevereiro, dados do Ministério da Saúde. Nas últimas 52 semanas, um ano, morreram 12.844.

Em 2023, se foram 1.094 pessoas por causa de dengue. Foi o maior morticínio causado pela doença desde ao menos 2000. Em 2024, até 12 de fevereiro, atualização oficial mais recente, eram 75 os mortos de dengue. Até dia 3 de fevereiro, a Covid levou 963.

As doenças são muito diferentes, claro, embora se difundam por causa do nosso primitivismo geral. Isso quer dizer também: por causa de ignorância, que é a vontade de não saber, de não se informar e de ter "opiniões". Por causa do nosso individualismo obsessivo, selvagem; da avacalhação; da opressão da miséria.

Muita gente ainda não se vacinou contra o coronavírus. Muita gente ainda oferece criadouros para o Aedes aegypti: água parada. Muita cidade gasta milhão com show de música e não tira o lixo e os focos de Aedes. O óbvio.

A Covid está sendo esquecida em parte por um motivo cruel e desumano, evidente já no pior da epidemia: leva os mais velhos, os já mais doentes, o que aliás era um tema da propaganda necrófila do governo das trevas, 2019-22. Mais de 80% dos mortos deste ano tinha 60 anos ou mais. A dengue manda mais para o hospital crianças de 10 a 14 anos, dizem as autoridades. Por isso, receberiam primeiro as vacinas escassas.

Não esquecemos apenas da Covid.

Quando criança, no auge da ditadura militar, lia impressionado que pessoas morriam de doença de Chagas, ou de esquistossomose e padeciam de cisticercose. O livrinho escolar ilustrava o assunto com pessoas com cara de Jeca Tatu vivendo em uma tapera de barro. A propaganda da ditadura dizia que o "progresso" nos livrava daquele "atraso", enquanto ocorria um surto censurado de meningite. Os militares nunca decepcionam.

Pois então. Em 2022, dado mais recente disponível, morreram 4.028 pessoas de doença de Chagas, quase o quádruplo das vítimas da dengue naquele ano (segundo o Datasus). Morre uma pessoa por dia de esquistossomose, ao menos. Etc.

Afora micropaíses e ilhas de América Central e Caribe, a taxa de homicídio no Brasil apenas é menor do que a de África do Sul, Venezuela, México, Mianmar e Equador; meio que empatamos com a Colômbia. Os dados são os compilados pelo Escritório das Nações Unidas (ONU) sobre Drogas e Crime, mas as fontes são diversas e um tanto imprecisas.

Como um país antidesenvolvimento autêntico (subdesenvolvido é eufemismo), nos acostumamos a males novos sem lidarmos com os antigos. Não nos preocupamos com essa sempiterna acumulação primitiva, por assim dizer, de deseducação, desigualdade, ineficiência e desumanidade.

Era só para lembrar.

Bolsonaristas amam a democracia, mas não gostam de conviver com ela

O Brasil é um país tão apaixonado pela democracia que boa parte da população e da sua elite política considera aceitável que seja dado um golpe de Estado para salvá-la. Tem tanto horror e ódio à ditadura que considera razoável abolir violentamente o Estado de Direito para evitar a ditadura do Poder Judiciário.

A proposta de "acabar com a democracia para salvar a democracia" não é uma pilhéria de Carnaval, infelizmente. É apenas mais uma evidência de nossa capacidade de acolher e alimentar crenças contraditórias.

Quem disse que 42,2% dos brasileiros acham que as investigações judiciais contra Bolsonaro são uma perseguição política injusta foi uma pesquisa Atlas Intel da semana passada, feita no rescaldo da operação Tempus Veritatis; 40,5% divergem.


Curiosamente, a mesma pesquisa indicou que 46,5% acreditam que Bolsonaro planejou um golpe de Estado. E que, se o presidente tivesse declarado um estado de sítio para limitar os poderes do STF e convocar novas eleições, 36,3% da população o apoiariam, enquanto 41,3% não o fariam.

Essa dinâmica sugere que, embora as pessoas estejam convencidas de que Bolsonaro planejou um golpe de Estado, essa percepção não é considerada tão grave a ponto de justificar investigações e processos. É pura perseguição política.

No cerne da questão, está o fato de termos uma profunda devoção pela democracia enquanto ela é em nossa cabeça uma nebulosa de ideias e valores. Como conceito, a democracia é como amor de mãe, crianças meigas, crepúsculos e veleiros ao poente —objetos de encantamento e reverência.

Assim, nada é mais mobilizador do que os apelos para proteger a democracia ou os lamentos que proclamam sua perda iminente. Nesse sentido, quimeras como "a ditadura do Judiciário" ou "o fascismo que está aí", bem como teorias da conspiração, como "a fraude eleitoral", cumprem as mesmas funções: emocionar as massas, provocar um sentimento de ultraje e justificar qualquer ação a partir desse ponto.

Eu aprendi ainda criança na escola que a Revolução havia salvado a pátria do comunismo. Se o golpe bolsonarista não tivesse fracassado, uma nova geração teria aprendido como o mito salvou a democracia dos "ditadores de toga" e dos "ladrões" que teriam vencido uma eleição fraudulenta. A democracia precisou, novamente, ser resgatada dos seus inimigos.

Os conspiradores que se reuniram com Bolsonaro para construir "um plano B" ao processo eleitoral democrático falavam de uma suposta fraude em andamento como se estivessem mencionando a parede ou a mesa sob seus braços. Tratavam-na como algo concreto, palpável, indiscutível, mesmo que, como admitiram, não tivessem meios de comprová-la. Era uma questão de fé.

A sinceridade da crença ou a conveniência da convicção não importam, contudo, pois todos os "considerandos" da minuta do golpe apontavam para o dogma compartilhado: a democracia precisava ser protegida das urnas do TSE.

No bolsonarismo, democracia está vagamente relacionada à vontade do povo depositada no líder carismático, autorizando-o a governar como queira em seu nome.

E pelo tempo que for necessário enquanto o vínculo orgânico entre o povo e o seu líder perdurar. Métodos para aferir e medir a real vontade popular, expressa em votos, são considerados problemáticos, pois é sabido que as elites do poder trabalharão para não perder o poder e irão certamente trapacear.

Em teoria política, acabei de descrever não uma democracia, mas uma autocracia de base populista. Mas uma vez que muitos estiverem convencidos de que democracia é isso, e de que tudo mais é abuso e usurpação do poder do povo, começa-se a entender por que golpes de Estado para salvar a democracia se tornam uma proposta aceitável.

Da mesma forma, compreende-se por que, no universo mental do bolsonarismo, a democracia liberal é uma inconveniência. Os três poderes (para que três se o líder escolhido poderia governar melhor sozinho?), as obrigações de que o Executivo preste contas e responda por suas decisões (deixem o homem trabalhar), a divisão de prerrogativas, os constrangimentos dos princípios e direitos fundamentais (como assim não se pode prender quem chama o líder de pequi roído?), nada disso faz sentido para eles.

Da democracia, gostam muito, mas não dos constrangimentos que ela impõe, das obrigações de transparência e prestação de contas, do rito de eleições regulares e livres, da liberdade de se divergir de quem governa. Tudo na democracia lhes é um estorvo, exceto a ideia de democracia, pela qual são capazes de tudo, até de um golpe de Estado.

Deixe-os comer sujeira

Nunca houve qualquer possibilidade de o governo israelense concordar com uma pausa nos combates proposta pelo Secretário de Estado Antony Blinken, muito menos com um cessar-fogo. Israel está prestes a dar o golpe de misericórdia na sua guerra contra os palestinos em Gaza – fome em massa. Quando os líderes israelitas usam o termo “vitória absoluta”, querem dizer dizimação total, eliminação total. Os nazistas em 1942 fizeram sistematicamente passar fome os 500 mil homens, mulheres e crianças no Gueto de Varsóvia. Este é um número que Israel pretende ultrapassar.


Israel, e o seu principal patrono, os Estados Unidos, ao tentarem encerrar a Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA), que fornece alimentos e ajuda a Gaza, não só estão a cometer um crime de guerra, como também está em flagrante desafio ao Tribunal Penal Internacional (CIJ). O tribunal considerou plausíveis as acusações de genocídio apresentadas pela África do Sul, que incluíam declarações e factos recolhidos pela UNWRA. Ordenou que Israel cumprisse seis medidas provisórias para prevenir o genocídio e aliviar a catástrofe humanitária. A quarta medida provisória apela a Israel para que garanta medidas imediatas e eficazes para fornecer assistência humanitária e serviços essenciais em Gaza.

Os relatórios da UNRWA sobre as condições em Gaza, que cobri como repórter durante sete anos, e a sua documentação sobre ataques indiscriminados israelenses ilustram que, como disse a UNRWA, “as ‘zonas seguras’ declaradas unilateralmente não são nada seguras. Nenhum lugar em Gaza é seguro. ”

O papel da UNRWA na documentação do genocídio, bem como no fornecimento de alimentos e ajuda aos palestinos, enfurece o governo israelense. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou a UNRWA após a decisão de fornecer informações falsas à CIJ. Sendo já um alvo israelense há décadas, Israel decidiu que a UNRWA, que apoia 5,9 milhões de refugiados palestinos em todo o Médio Oriente com clínicas, escolas e alimentos, tinha de ser eliminada. A destruição da UNRWA por Israel serve um objetivo político e também material.

As acusações israelenses, sem provas, contra a UNRWA, de que uma dúzia dos 13 mil funcionários tinham ligações com aqueles que levaram a cabo os ataques em Israel em 7 de Outubro, resolveram o problema. Viu 16 grandes doadores, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha, a Itália, os Países Baixos, a Áustria, a Suíça, a Finlândia, a Austrália, o Canadá, a Suécia, a Estónia e o Japão, suspenderem o apoio financeiro à agência de ajuda humanitária, na qual quase todos os palestinos em Gaza dependem de comida.

Israel matou 152 trabalhadores da UNRWA e danificou 147 instalações da UNRWA desde os ataques do Hamas e outros grupos de resistência em Israel, em 7 de outubro, que mataram cerca de 1.200 israelenses. Israel também bombardeou caminhões de ajuda humanitária da UNRWA.

Mais de 27.708 palestinos foram mortos em Gaza, cerca de 67 mil ficaram feridos e pelo menos 7 mil estão desaparecidos, provavelmente mortos e enterrados sob os escombros.

Mais de meio milhão de palestinos – um em cada quatro – estão a passar fome em Gaza, segundo a ONU. Os palestinianos em Gaza, 1,7 milhões dos quais foram deslocados internamente, carecem não só de alimentos suficientes, mas também de água potável, abrigo e medicamentos. Existem poucas frutas ou vegetais. Há pouca farinha para fazer pão. As massas, juntamente com a carne, o queijo e os ovos, desapareceram. Os preços do mercado negro para produtos secos, como lentilhas e feijões, aumentaram 25 vezes em relação aos preços anteriores à guerra. Um saco de farinha no mercado negro passou de US$ 8,00 para US$ 200 dólares.

O sistema de saúde em Gaza, com apenas três dos 36 hospitais de Gaza parcialmente a funcionar, entrou em colapso em grande parte. Cerca de 1,3 milhões de palestinos deslocados vivem nas ruas da cidade de Rafah, no sul do país, que Israel designou como “zona segura”, mas que começou a bombardear. As famílias tremem sob as chuvas de inverno sob lonas frágeis em meio a poças de esgoto bruto. Estima-se que 90 por cento dos 2,3 milhões de habitantes de Gaza foram expulsos das suas casas.

“Desde a Segunda Guerra Mundial, não houve nenhum caso em que uma população inteira tenha sido reduzida à fome extrema e à miséria com tanta rapidez”, escreve Alex de Waal, diretor executivo da Fundação para a Paz Mundial da Universidade Tufts e autor de “Mass Starvation: A História e o Futuro da Fome”, no Guardian. “E não há nenhum caso em que a obrigação internacional de acabar com isso tenha sido tão clara. ”

Os Estados Unidos, anteriormente o maior contribuinte da UNRWA, forneceram 422 milhões de dólares à agência em 2023. A separação de fundos garante que as entregas de alimentos da UNRWA, já escassas devido aos bloqueios de Israel, serão em grande parte interrompidas até ao final de fevereiro ou início de março.

Israel deu aos palestinos em Gaza duas opções. Vá embora ou morra.

Cobri a fome no Sudão em 1988, que ceifou 250 mil vidas. Há marcas em meus pulmões, cicatrizes por estar no meio de centenas de sudaneses que estavam morrendo de tuberculose. Eu era forte e saudável e lutei contra o contágio. Eles estavam fracos e emaciados e não o fizeram. A comunidade internacional, tal como acontece em Gaza, pouco fez para intervir.

O precursor da fome – a subnutrição – já afeta a maioria dos palestinos em Gaza. Aqueles que passam fome não têm calorias suficientes para se sustentar. Em desespero, as pessoas começam a comer ração animal, grama, folhas, insetos, roedores e até mesmo terra. Eles sofrem de diarreia e infecções respiratórias. Eles rasgam pedacinhos de comida, muitas vezes estragados, e os racionam.

Logo, com falta de ferro suficiente para produzir hemoglobina, uma proteína dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio dos pulmões para o corpo, e mioglobina, uma proteína que fornece oxigênio aos músculos, juntamente com a falta de vitamina B1, eles ficam anêmicos. O corpo se alimenta de si mesmo. Tecido e músculo são desperdiçados. É impossível regular a temperatura corporal. Os rins pararam. Falha do sistema imunológico. Órgãos vitais – cérebro, coração, pulmões, ovários e testículos – atrofiam. A circulação sanguínea fica mais lenta. O volume de sangue diminui. Doenças infecciosas como a febre tifoide, a tuberculose e a cólera tornam-se uma epidemia, matando milhares de pessoas.

É impossível concentrar-se. Vítimas emaciadas sucumbem ao retraimento mental e emocional e à apatia. Eles não querem ser tocados ou movidos. O músculo cardíaco está enfraquecido. As vítimas, mesmo em repouso, encontram-se em estado de virtual insuficiência cardíaca. As feridas não cicatrizam. A visão fica prejudicada com a catarata, mesmo entre os jovens. Finalmente, assolado por convulsões e alucinações, o coração para. Esse processo pode durar até 40 dias para um adulto. Crianças, idosos e doentes morrem mais rapidamente.

Vi centenas de figuras esqueléticas, espectros de seres humanos, movendo-se desamparadamente num ritmo glacial pela árida paisagem sudanesa. As hienas, acostumadas a comer carne humana, costumavam matar crianças pequenas. Fiquei sobre aglomerados de ossos humanos esbranquiçados nos arredores de aldeias onde dezenas de pessoas, fracas demais para andar, se deitaram em grupo e nunca mais se levantaram. Muitos eram os restos mortais de famílias inteiras.

Na cidade abandonada de Maya Abun, morcegos pendiam das vigas da destruída igreja missionária italiana. As ruas estavam cobertas de tufos de grama. A pista de pouso de terra era ladeada por centenas de ossos humanos, crânios e restos de pulseiras de ferro, contas coloridas, cestos e tiras de roupas esfarrapadas. As palmeiras foram cortadas ao meio. As pessoas comeram as folhas e a polpa de dentro. Corria o boato de que a comida seria entregue de avião. As pessoas caminharam durante dias até a pista de pouso. Eles esperaram e esperaram e esperaram. Nenhum avião chegou. Ninguém enterrou os mortos.

Agora, à distância, vejo isso acontecer em outra terra, em outro tempo. Conheço a indiferença que condenou os sudaneses, sobretudo os dinkas, e hoje condena os palestinos. Os pobres, especialmente quando são negros, não contam. Eles podem ser mortos como moscas. A fome em Gaza não é um desastre natural. É o plano mestre de Israel.

Haverá estudiosos e historiadores que escreverão sobre este genocídio, acreditando falsamente que podemos aprender com o passado, que somos diferentes, que a história pode impedir-nos de sermos, mais uma vez, bárbaros. Eles realizarão conferências acadêmicas. Eles dirão “Nunca mais! ” Eles se elogiarão por serem mais humanos e civilizados. Mas quando chegar a hora de falar abertamente sobre cada novo genocídio, com medo de perder o seu estatuto ou posições acadêmicas, eles correrão como ratos para as suas tocas. A história humana é uma longa atrocidade para os pobres e vulneráveis do mundo. Gaza é outro capítulo.

Batalhas pela memória

Israelenses estão com um problema de relações públicas.

Você, leitor, já ouviu falar nas Vésperas Efésias? Em 88 a.C., o imperador Mitrídates 6º, do Ponto, ordenou o assassinato de cidadãos romanos e aliados que viviam em cidades da Ásia Menor. Nem mulheres e crianças teriam sido poupadas. Estima-se que entre 80 mil e 150 mil morreram.

Imagino que esse massacre, um dos muitos da história, não o comova muito. Ele ocorreu há mais de 2.000 anos e, por alguma razão, descontamos o passado. Somos quase imunes às carnificinas muito antigas, nos importamos moderadamente com hemoclismos recentes e reagimos com vívida emoção aos massacres presentes. Está na programação de nossas mentes, ainda que a diferença temporal seja difícil de explicar filosoficamente. Por que a morte de uma pessoa há 2.000 anos valeria menos que a de uma morta há 80 anos?
O problema de Israel é que o tempo está passando. Foi sob o impacto do Holocausto nazista que a ONU aprovou, em 1947, o plano de partilha da Palestina que viabilizou o Estado judeu. Mas a memória viva do Holocausto, que ainda chegou à minha geração através das histórias de meus avós e tios-avós, vai aos poucos se apagando. Os registros históricos sempre podem ser consultados, mas o aspecto afetivo desaparece. Reportagem recente do New York Times mostra que é crescente o número de jovens judeus americanos que se identificam com a causa palestina.

Faz sentido. As histórias de injustiças cometidas contra palestinos estão ocorrendo ao vivo e numa era de hiperconexão. E quanto mais mortos as operações militares israelenses deixarem em Gaza, mais esse efeito se materializará. Ainda que não haja paralelo entre o que fizeram os nazistas e o que fazem os israelenses, civis palestinos estão morrendo aos borbotões.

Que a carnificina em Gaza sirva ao menos para viabilizar o Estado palestino. Sem ele, Israel jamais encontrará uma paz sustentável.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

É o clima, estúpido

"The Earth Transformed", de Peter Frankopan (Oxford), é uma obra importante. Ela coloca o clima como personagem central da história humana. Uma das figuras que mais aparecem ao longo das mais de 700 páginas do livro é Enos, a sigla para El Niño-Oscilação do Sul, um fenômeno relativamente regular, mas que pode ter grandes repercussões sobre a temperatura e a hidrologia do globo.


Humanos gostamos de nos imaginar como algo distinto da natureza, mas esse é apenas um viés —e bem tolo. Somos e sempre seremos parte dela. O clima sempre nos afetou. É até possível que o Homo sapiens tenha desbancado outros hominínios como o H. neanderthalensis devido a mudanças climáticas. Uma hipótese é que sobrevivemos –e eles não— não porque éramos mais adaptados para enfrentar os tempos frios que atingiram a Europa 35 mil anos atrás, mas mais simplesmente porque éramos em maior número.

Variações climáticas e ecológicas às vezes influíram em nossos destinos como agentes principais e sempre ao menos como coadjuvantes. O aquecimento registrado entre 200 a.C. e 100 d.C., por exemplo, ajudou Roma a obter melhores colheitas e tornar-se um império. O resfriamento entre 1100 e 1800 explica a maior prevalência de ataques a judeus devido a "preços altos" de comida. E há mais. Gêngis Khan teve o sucesso militar que teve porque a maior umidade nas estepes favoreceu a formação de seu exército.

O trabalho de Frankopan foi possível por causa de uma série de desenvolvimentos tecnológicos recentes que nos permitem estabelecer com precisão os padrões climáticos em diferentes tempos e lugares. Antes, esse tipo de variação só entrava para a história se algum autor percebesse a mudança enquanto ela ocorria e resolvesse registrá-la.

A moral da história é que dinâmicas ecológicas já extinguiram vários grupos e civilizações. Só sobraram os que souberam adaptar-se. Teremos muito trabalho nas próximas décadas.

A própria extinção

Falar de amor enquanto a mata chora/É luta sem flecha, da boca pra fora/Tirania na bateia, militando por quinhão/E teu povo na plateia/ vendo a própria extinção
Samba-enredo de Salgueiro, em homenagem ao povo Yanomami

Plantar árvores está trazendo água limpa para uma nação tropical

Dominga Reynoso abriu a torneira enferrujada e barulhenta acima da pia da cozinha. Não saiu nada, nem uma gota. Até os canos, que geralmente gorgolejavam em antecipação, permaneceram em silêncio. Reynoso e os seus vizinhos, que vivem em Santo Domingo, capital da República Dominicana, ficariam sem água corrente durante 22 dias – uma ocorrência cada vez mais comum na montanhosa ilha caribenha de Hispaniola, que o país partilha com o Haiti.

Historicamente, o país tem dependido de abundantes fontes naturais de água, que são livremente acessíveis a entidades públicas e privadas. Ao longo do século passado, no entanto, essa oferta esteve ameaçada. O aumento da procura por parte das indústrias turística, mineira e agrícola significou que resta menos para a população local.

“O crescimento económico e populacional está a exercer grande pressão sobre os recursos hídricos tradicionalmente abundantes da República Dominicana”, afirma Chloe Oliver Viola, especialista sénior em abastecimento de água e saneamento do Banco Mundial. “São urgentemente necessários reformas e maiores investimentos para garantir a utilização sustentável e o abastecimento seguro de água às empresas e às famílias.”

Décadas de desmatamento para dar lugar ao pastoreio de gado , desastres naturais como furacões que destroem sistemas e infraestruturas de esgoto já frágeis e má gestão dos recursos hídricos fizeram com que o país enfrentasse uma crise hídrica nunca vista antes, diz Francisco Núñez, do Caribe Central diretor da The Nature Conservancy, uma organização sem fins lucrativos especializada na conservação da água e da terra. “Estamos passando por uma seca severa”, diz ele. "Os animais têm morrido e as colheitas falharam. Construir uma barragem para conservar o abastecimento de água não é suficiente – precisamos da natureza para fornecer água, precisamos de voltar ao ecossistema e reconstruí-lo desde o início."

Em 2011, Núñez ajudou a lançar um projeto multinacional denominado Parceria Latino-Americana de Fundos de Água , trazendo milhões de dólares de financiamento de conglomerados como o maior engarrafador mundial de refrigerantes, para investir em projetos de água nas regiões da América Latina e do Caribe. A parceria estabeleceu 24 fundos de água em toda a região, formando um conjunto de diretrizes para definir padrões e melhores práticas para cada fundo.

Núñez, que nasceu e cresceu na República Dominicana, liderou dois fundos hídricos em seu país natal – um para restaurar três bacias hidrográficas na região de Santo Domingo, e outro no alto das montanhas, na bacia hidrográfica do Yaque del Norte, o mais longo rio no país. O objetivo dos fundos de água é simples, diz Patricia Abreu, chefe do Fundo de Água de Santo Domingo: “concentrar-se em soluções baseadas na natureza que contribuam para alcançar a segurança hídrica para o futuro”.

Para conseguir isso, os projetos têm aumentado as copas das árvores, garantindo que a água é gerida de forma eficiente, fornecendo água limpa às comunidades locais e trazendo capacitação económica sustentável e de longo prazo às zonas rurais – através de indústrias ambientalmente benéficas.

A bacia do rio Yaque del Norte abriga uma produção agrícola significativa, além de ser a segunda maior área metropolitana do país, o que tem levado ao aumento da tensão entre os usuários da água. “Como Estado insular, somos muito vulneráveis ​​às alterações climáticas”, acrescenta Abreu. “E os efeitos estão alterando a forma como o ciclo da água funciona.”


De toda a água da Terra, apenas 0,5% é água doce disponível para uso industrial, agrícola e doméstico. Esta água encontra-se em aquíferos subterrâneos, lagos de água doce e rios – áreas vitais para o abastecimento de água mundial e que estão sob ameaça de desflorestação, degradação de habitats e expansão das cidades. Embora a América Latina tenha o maior número de fontes de água do mundo, 36 milhões de pessoas na região não têm acesso a água potável.

Núñez e Abreu estimam que a seca está em curso desde 2015, embora haja falta de investigação científica no país quando se trata de questões ambientais. “É um desafio enorme”, diz Abreu. “Como país, precisamos de obter melhores dados sobre as nossas fontes de água – tanto as águas superficiais como os aquíferos subterrâneos. descobrir como abordamos as ameaças de um sistema degradado."

Grande parte do trabalho da The Nature Conservancy tem sido em torno da recolha de dados, da educação e do envolvimento de todos os utilizadores de água – desde serviços públicos a empresas privadas e comunidades agrícolas rurais. “Nosso objetivo é envolver todos e educar todos sobre a importância de conservar e administrar adequadamente a água”, diz Núñez. "Este modelo consiste em todos se unirem para trabalhar no mesmo objetivo."

O trabalho da organização começa logo no início do ecossistema da bacia hidrográfica, a 3.030 km (10.000 pés) na cordilheira da Cordilheira Central, também conhecida como Madre de las Aguas (Mãe das Águas). Cerca de 80% da população do país depende da água desta área, que também é a fonte do Yaque del Norte.

A reportagem desta história foi conduzida enquanto o escritor estava em outra missão. A viagem incluiu um voo de regresso (emissões de CO2 de 530kg), mas como não era o objetivo principal da viagem, não contabilizamos as emissões. As emissões digitais desta história são estimadas em 1,2g a 3,6g de CO2 por visualização de página. Saiba mais sobre como calculamos esse valor aqui.

A terra, que costumava ser coberta por uma vegetação verdejante, está agora gravemente degradada, com estradas cortando a paisagem seca, despojada de árvores nativas e fortemente pastoreada pelo gado. “Agora existe um entendimento de que se quisermos resolver a crise hídrica, precisamos reconstruir as bacias hidrográficas”, diz Núñez.

A equipe começou a abordar pequenos agricultores que vivem nestas áreas rurais e montanhosas com uma proposta: a The Nature Conservancy ajudaria a plantar culturas de café ou de cacau – ambas as plantas ajudam a prevenir a erosão do solo, o que leva a uma melhor retenção de água na bacia hidrográfica. Eles também são altamente valiosos economicamente; o país é um grande exportador de cacau orgânico de comércio justo . Plantar uma cultura valiosa significa que o dinheiro está a ser trazido para estas zonas rurais e é mais provável que os agricultores se apeguem a essa cultura.

Além do plantio de café e cacau, a organização semeia outras plantas para abrigar essas culturas e ajudá-las a crescer – prática conhecida como agrossilvicultura. Descobriu-se também que a técnica melhora a resiliência à água , à medida que as árvores retiram água do solo e a liberam na atmosfera na forma de vapor por meio de um processo chamado transpiração, que leva à precipitação local.

Os agricultores também são treinados em como monitorar a terra, auxiliando na coleta de dados vitais que são enviados à The Nature Conservancy, ajudando a informar projetos futuros e a observar o progresso. “Os técnicos vieram e nos deram cursos e palestras sobre como plantar cacau”, diz Digno Pacheco, agricultor participante do projeto Santo Domingo. “Aqui nesta pequena cidade não há muito trabalho. E vemos os benefícios de empreender este projecto de cacau porque no futuro poderemos colher cacau, mais pessoas poderão trabalhar e a nossa situação económica poderá melhorar”.

No início foi difícil convencer os agricultores, diz Núñez, pois havia pouca confiança em programas externos e pouca compreensão sobre como funcionavam as bacias hidrográficas. Demorou meses para convencer o primeiro grupo, mas agora “temos uma lista de espera”, explica. “Os agricultores veem o desempenho dos seus vizinhos com o nosso programa e querem inscrever-se!” Os agricultores são compensados ​​pela plantação de árvores nas suas terras agrícolas e a The Nature Conservancy fornece as sementes e fertilizantes. Até o momento, nenhum agricultor desistiu do projeto.

O projecto visa impactar as bacias hidrográficas que produzem água para consumo humano, agrícola e eléctrico, o que beneficiaria mais de 60% da população do país, melhorando o abastecimento de água nas comunidades urbanas e rurais e aumentando o saneamento e o tratamento de resíduos. O projeto também treinou 370 dominicanos em práticas de conservação de água e restaurou 8.000 acres (3.237 hectares) de ecossistemas produtores de água.

“Não existe plano B quando se trata de água”, afirma Abreu, que viu em primeira mão como a gestão da bacia hidrográfica nas montanhas pode impactar positivamente as pessoas da cidade – como Dominga Reynoso. “A segurança hídrica é muito importante para meios de subsistência sustentáveis, para a saúde humana e para o desenvolvimento económico em países como o nosso”, afirma. Até 40% dos agregados familiares gastam 12% do seu rendimento em água engarrafada, enquanto seis em cada 10 agregados familiares urbanos relatam um abastecimento de água intermitente. Mais de dois terços utilizam garrafas ou tanques para armazenar água para consumo diário.

A qualidade da água é tão importante quanto a quantidade disponível, destaca Walkiria Estévez, diretora do projeto Yaque del Norte. Os residentes em zonas atingidas pela pobreza relatam repetidamente a descoloração da água e os odores das torneiras geridas pelo governo, o que os deixa em risco de contrair doenças graves , incluindo a cólera. Dois terços das residências dominicanas não têm ligações de esgoto que tratem as águas residuais, o que leva à contaminação das águas subterrâneas, concluiu uma análise do Banco Mundial em 2021. Na capital, que tem o maior índice de água tratada, apenas 28% é tratada.

“É um problema que realmente precisávamos resolver”, diz Estévez, “e por isso começámos a construir zonas húmidas artificiais para tratar naturalmente águas residuais em áreas rurais e suburbanas para as comunidades”.

A Nature Conservancy construiu até agora 23 zonas húmidas nas bacias hidrográficas de Yaque del Norte, Nizao, Ozama e Haina, sendo que a maior delas trata o esgoto de 1.500 famílias. Esses sistemas de filtragem natural, construídos com camadas de areia e cascalho e plantas nativas como o vetiver, reduzem os poluentes em até 98% sem usar qualquer tipo de produto químico ou eletricidade, de acordo com a The Nature Conservancy. A água é absorvida pelas bacias escavadas manualmente e escoada por uma tubulação depois de filtrada pelas camadas de sedimentos. A água então volta para os rios ou é usada para irrigar projetos comunitários de cultivo de culturas de pequena escala.

Após a construção das zonas húmidas, 300.000 metros cúbicos (10,6 milhões de pés cúbicos) de águas residuais são agora tratados todos os anos, desviando a água contaminada dos rios, que muitos habitantes locais ainda utilizam para recolher água para lavar roupa, cozinhar, tomar banho e limpar. A zona húmida mais recente foi construída numa escola e a equipa treinou professores para utilizarem o ecossistema artificial para educar os alunos sobre ambiente e ecologia.

O Banco Mundial emprestou recentemente ao governo da República Dominicana 43,5 milhões de dólares (35,4 milhões de libras) para expandir e melhorar o abastecimento de água potável e os serviços de saneamento em dois municípios na costa norte do país. O projecto visa fornecer serviços de tratamento de águas residuais a 90.000 pessoas e acesso a água potável a 105.000 pessoas – 12.700 das quais serão ligadas a um abastecimento de água pela primeira vez.

O governo começou a avançar com reformas políticas para resolver o quadro fragmentado que actualmente abrange os recursos hídricos, a irrigação e os serviços de saneamento, e que está na origem da má gestão da água. (Um relatório do Banco Mundial de 2021 descreveu o sector da água e do saneamento como preso num “ciclo vicioso”.) Além disso, o governo propôs a criação de uma Autoridade Nacional da Água para definir directrizes para a gestão dos recursos hídricos. Em 2023, o governo lançou um programa para melhorar a eficiência dos fornecedores estatais de água.

Enquanto o governo promove as suas reformas legislativas de cima para baixo, Abreu continua a lutar pela água no terreno. “O mais importante para mim é a forma como integramos todos no país, para nos unirmos e cooperarmos para um objectivo maior”, diz ela. “A recolha de dados é importante, mas estamos a traduzi-los em projectos abrangentes que podem realmente responder ao desafio da segurança hídrica.”

E os resultados sugerem que a abordagem funciona. Os terrenos que passaram por uma cuidadosa restauração são totalmente diferentes das áreas intocadas: árvores saudáveis ​​e com folhagem plena pontilham a paisagem; os riachos são fluidos e claros, com vegetação margeando as margens; a grama verdejante cobre as colinas. É uma grande melhoria em relação às condições secas e áridas que Abreu e a sua equipa enfrentaram há uma década.

Nos próximos 10 anos, esperam duplicar o seu impacto, expandindo-se para mais 15 comunidades, ajudando outras 6.000 pessoas a terem acesso a água potável e restaurando outros 12.000 acres (4.856 hectares).