quarta-feira, 16 de novembro de 2022

O que faz de José Bonifácio patriarca não só da Independência, mas das florestas do Brasil

"Destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?" 

O texto, de 1821, um ano antes da Independência do Brasil, mostra que a preocupação com a destruição de florestas no território nacional é mais antiga do que o próprio Estado brasileiro.

O autor do alerta contra o desmatamento, redigido há quase 200 anos, não entraria para a História como ecologista, e sim como um dos fundadores do Estado brasileiro: José Bonifácio de Andrada e Silva, o chamado Patriarca da Independência.

Nas escolas, estudantes aprendem que José Bonifácio, filho de uma família abastada e nascido em 1763 na cidade de Santos (SP), é considerado um dos mais importantes estadistas brasileiros e personagem fundamental no processo de Independência do Brasil. Mas a biografia dele vai além da política: ele é também um dos precursores na defesa das florestas no território nacional.

"Bonifácio foi um personagem muito importante, apesar de ainda pouco reconhecido, na construção dessa preocupação com o ambiente e o futuro das florestas em escala mundial", diz o historiador José Augusto Pádua, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é um dos coordenadores do Laboratório de História e Natureza.

Filho de uma família rica - seu pai era importante funcionário da Coroa portuguesa - o jovem Bonifácio foi estudar na Universidade de Coimbra, onde teve uma sólida formação em Direito, Filosofia Natural e Matemática. Um de seus professores em Portugal foi o italiano Domênico Vandelli, especialista em História Natural e Botânica e que exerceu forte influência sobre o estudante brasileiro, que se tornou pesquisador naturalista, mineralogista e professor em Portugal durante muitos anos, além de exercer cargos públicos no governo português. Entre eles, a direção dos bosques nacionais.

"Ele explicava com detalhes sobre a importância de preservar os bosques do Reino. Isso não era nada comum nos tempos dele", explica o historiador Jorge Caldeira, organizador da biografia José Bonifácio de Andrada e Silva, da Coleção Formadores do Brasil. "Era um ecologista prático, bastante apurado para os dias de hoje. Tanto é que seu primeiro trabalho científico foi em defesa da preservação das baleias", completa Caldeira.

O texto citado por Caldeira foi publicado por José Bonifácio em 1790. Trata-se do Memória sobre a pesca da baleia e a extração do seu azeite, publicado pela Academia das Ciências de Lisboa. No texto, o político e estudioso alertava para o pouco retorno econômico da atividade de caça à baleia para extração do óleo, frente ao poder destrutivo do meio ambiente e a consequente redução do número de baleias na costa brasileira.

"Dentre outros naturalistas da época, José Bonifácio criticava a caça predatória da baleia, por julgá-la antieconômica, assim como as grandes propriedades monocultoras. Apreciador das matas e madeiras brasileiras, alinhava-se com estudiosos que, desde a fundação dos primeiros jardins botânicos no século 18, valorizavam o plantio de espécies raras", explica a historiadora Mary Del Priore, autora do livro As Vidas de José Bonifácio (Estação Brasil), que retrata a vida do Patriarca da Independência. "Ele era também favorável à inserção de índios e negros na sociedade depois de 'civilizados'", completa a historiadora.

De volta ao Brasil, em 1819, José Bonifácio tornou-se ministro e conselheiro do Príncipe Regente e futuro imperador D. Pedro 1º. Foi ele quem incentivou o monarca a proclamar a Independência do Brasil, em 1822, e integrou o primeiro escalão de dirigentes da nova nação. Entre outras atribuições, organizou a resistência do novo governo independente aos movimentos contra a separação de Portugal que surgiram na época em várias partes do país.

Apenas alguns meses após seu retorno ao Brasil, Bonifácio embrenhou-se nas matas do Estado de São Paulo junto com seu irmão, Martim Francisco, para aprofundar seus estudos naturalistas, em especial na Mata Atlântica que na época dominava o território paulista, mas já sofria os efeitos do desmatamento para expansão das lavouras e da pecuária.

Logo nos primeiros dias de expedição, o viajante lamenta o "miserável estado em que se acham os rios Tietê e Tamandataí, sem margens nem leitos fixos, sangrados em toda parte por sarjetas, que formam lagos que inundam essa bela planície." Nos arredores da Vila de Itu, observa que "todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado."

Em 1821, quando o Brasil estava na condição de Reino Unido a Portugal, Bonifácio defendeu, em um artigo chamado Lembranças e Apontamentos do Governo Provisório para os Senhores Deputados da Província de São Paulo, a criação de uma "Direção Geral de Economia Política", que seria responsável por obras públicas, minas, bosques, agricultura e fábricas.

Essa política integrada desenhada por José Bonifácio para a administração do Brasil, na sua visão, seria responsável pela preservação das riquezas naturais brasileiras, em especial os rios, matas e densas florestas que, na opinião do político e naturalista, eram fundamentais para a saúde do território nacional. Seria um grande ministério reunindo as áreas de meio ambiente, infraestrutura e agricultura. A proposta, porém, nunca saiu do papel e o Brasil tornou-se independente de Portugal em 1822.

"As preocupações e propostas ambientais de José Bonifácio estavam inseridas na discussão geral sobre o futuro do Brasil. Creio que ele propunha um ministério de planejamento geral da economia no sentido de uma relação mais racional com a natureza. Ou seja, todas as atividades econômicas estariam conectadas com o objetivo de acabar com a devastação e o desperdício, tratando o mundo natural de uma maneira mais cuidadosa e cientificamente inteligente", diz Augusto Pádua.

"Mesmo que o contexto atual seja tão diferente, creio que seria um grande avanço se pudéssemos retomar, ou de fato reinventar, essa maneira de enxergar o cuidado ambiental como eixo de todas as ações de governo relativas às atividades produtivas", completa o historiador da UFRJ.

Na Assembleia Constituinte de 1823, Bonifácio, eleito deputado constituinte, levou ao Parlamento ideias e emendas muito avançadas para a época, como o fim da escravidão, instituição de uma reforma agrária, preservação das matas e rios brasileiros, obrigação de conservar uma parte das propriedades rurais com florestas nativas, direito de voto aos analfabetos e até a mudança da capital do país para o Planalto Central, algo que só se tornaria realidade mais de um século depois, em abril de 1960, no governo do presidente Juscelino Kubitschek.

Para Bonifácio, a criação de uma grande nação só seria possível caso fossem superados problemas estruturais herdados do passado colonial. O principal deles era a escravidão. "Uma novidade muito interessante no seu pensamento foi justamente estabelecer uma relação de causalidade entre o domínio da escravidão e as dinâmicas de desflorestamento, degradação dos solos e destruição da fauna e da flora, diz Augusto Pádua.

"Ele não via a escravidão apenas como uma técnica, mas sim com algo parecido com o que veio a ser chamado mais tarde de modo de produção. A continuidade da escravidão levaria à destruição do grande trunfo com o qual o Brasil poderia contar para o seu progresso, que era a riqueza natural", completa o professor da UFRJ.

Ideias tão avançadas para a época custaram a José Bonifácio muitas inimizades entre os poderosos da época, principalmente a elite agrária e política conservadora, e o rompimento com o próprio imperador D. Pedro 1º. Após ser demitido do governo, Bonifácio é exilado e parte para uma longa temporada na Europa, de onde só retornaria em 1829, após se reaproximar do imperador e ser nomeado tutor do seu filho, D. Pedro 2º.

De acordo com os especialistas, em textos publicados ao longo de sua carreira na Europa e no Brasil, em especial entre 1790 e 1823, Bonifácio construiu o que hoje chamaríamos de agenda ambiental e são importantes para entender a história do meio ambiente no Brasil.

"Ele foi, sem dúvida, um homem muito preocupado com os recursos naturais, isto em um tempo que praticamente não existia consciência de preservação ambiental", diz o desembargador aposentado e professor de Direito Ambiental na PUC-PR, Vladimir Passos de Freitas. "Eu não posso afirmar que foi o único, porque antes dele Portugal criou em Ilhéus, na então província da Bahia, um cargo de Juiz Conservador das Matas. Mas posso dizer que foi o primeiro a aprofundar-se em temas ambientalistas variados", completa Passos de Freitas.

Um dos artigos mais famosos de José Bonifácio, de 1823, atesta que, caso o Brasil não tomasse providências para preservar suas florestas, rios e demais recursos naturais, em menos de dois séculos estaria convertidos nos "páramos e desertos áridos da Líbia". "Virá então este dia, (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos", escreveu o Patriarca da Independência. Há quase dois séculos.

domingo, 13 de novembro de 2022

Falta ao mercado saber que Lula não foi eleito para servir à camadinha especulativa

Ah, que horror! Lula disse que prioritário é acabar com a fome, não a contenção de gasto social, o tal teto de gastos! A Bolsa caiu! Reação imediata do mercado (nome de guerra dos que não produzem, não se incluem na infraestrutura econômica, e ganham no jogo financeiro das Bolsas). E tome de manchetes em primeiras páginas e comentaristas do "mau passo" com que "Lula já começou". Todos sempre reforçando a exigência reiterada pelo mercado: "Lula tem que indicar logo o novo ministro da Economia".

Tem que? Ainda falta ao mercado a informação de que Lula foi eleito para presidir um país de mais de 215 milhões de habitantes, não para servir à camadinha especulativa. A decisão eleitoral completa neste domingo duas semanas, apenas. Nas quais o mercado se fez de inquieto porque este é um método eficaz para acionar o sobe-desce lucrativo da especulação financeira. E de quebra dizer quem manda, para ver no que isso dá. Nenhuma empresa séria depende da urgência de um nome de ministro.


Expoente dos chamados investimentos financeiros, Arminio Fraga deu a Lula, na Folha, a resposta do mercado: "Estabilidade fiscal (...) gera mais investimento e mais crescimento. Simples assim. E (...) aumenta a chance de os recursos beneficiarem os mais pobres". Parece falar de economia, mas é de políticas que trata.

O crescimento não depende necessariamente de estabilidade financeira, e o Brasil tem no inflacionário governo Juscelino um dos seus tantos exemplos de desvario financeiro e crescimento. O governo da mediocridade desleal, de Michel Temer, até criou o "teto de gastos", mas daí não vieram "mais investimento e mais crescimento". Recursos, provenientes de estabilidade ou não, só "beneficiam os mais pobres" se esta for a política do governo. O que só por um breve período aconteceu no Brasil —e nem digo qual.

O batido tema da estabilidade fiscal ao gosto da especulação provocou, afinal, algo positivo. E assombroso. Em discreto pé de página, uma entrevista ao jornal O Globo (11 novembro) revelou uma franqueza nunca vista aqui, para divulgação pública, por parte de um economista, digamos, bem aceito.

Muito reverenciada por seus colegas destacados na imprensa brasileira, carioca que leciona na Johns Hopkins University, Monica de Bolle foi direta e clara desde o início. Sobre a reação do mercado a Lula: "O mercado (...) faz esses movimentos de Bolsa e dólar para ganhar dinheiro. Esses movimentos não querem dizer nada. Os economistas do mercado têm uma visão míope e estão com ela há muito tempo". Eles e os jornalistas que os ecoam.

Mais: "O teto de gastos já não existe há bastante tempo, basicamente desde que foi criado. Foi modificado em praticamente todos os anos do governo Bolsonaro. (...) Foi uma regra fiscal para jogar no lixo. (...) O momento é de revogar e fazer um teto novo".

A complacência utilitária do mercado com Bolsonaro e Paulo Guedes sufocou as reações a desatinos como a PEC Kamikaze, "a coisa mais populista e gastadora" (de Bolle), o orçamento secreto ainda vigente, o gasto eleitoreiro pró-reeleição. E tantas outras causas do rombo já estimado em prováveis R$ 400 bilhões, a ser deixado para o novo governo.

O que deveria inquietar o mercado e o empresariado bolsonarista é o risco decorrente de esperáveis investigações sobre os pagadores de atos golpistas contra o resultado eleitoral. Esses fatos que se espalham pelo país alertam para o rigor necessário à escolha dos futuros dirigentes da Polícia Federal, das demais polícias federais e da Abin. E, mais adiante, de quem restaure a moralidade na Procuradoria-Geral da República.

A quem pertencem os símbolos nacionais?

Passadas as eleições presidenciais, parte dos apoiadores de Jair Bolsonaro, derrotado nas urnas, continua se manifestando de verde e amarelo, as cores nacionais – atitude consolidada nas duas campanhas disputadas pelo atual presidente. Entre o eleitorado do mandatário eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, surgem paralelamente tentativas de resgatar os símbolos do país.

Mas o que leva, afinal, uma agremiação política a disseminar as cores que simbolizam um país como próprias de sua plataforma?

"Em sua gênese no século 18, os símbolos nacionais de Estados contemporâneos nasceram à esquerda, para usar a terminologia da Revolução Francesa. E nasceram no setor democrático, para representar o povo acima de qualquer rei, imperador, senhor feudal, autoridade religiosa tradicional", destaca Manuel Loff, professor do Departamento de História e Estudos Políticos e Internacionais da Universidade do Porto.

O que tem acontecido no momento, aponta, "é uma apropriação desavergonhada desses símbolos por parte da extrema direita". "Ela cria um confronto, e os símbolos nacionais perdem o significado unificador que pretendem ter."


O bolsonarismo, segundo o historiador, apresenta um agravante: a associação desses símbolos nacionais a práticas de violência e ideais religiosos.

"É uma das raras situações em que um ato agressivo, bélico, que é simular com a mão um revólver, é acrescentado à simbologia política. Como se arma, cruz e bandeira pudessem se fundir", afirma Loff.

Especialistas questionam se o Brasil deveria ter trabalhado melhor as marcas deixadas pela ditadura militar (1964-1986), durante a qual o usar as cores da bandeira era uma forma de mostrar apoio ao regime.

"As memórias subterrâneas retornam à superfície quando não são tratadas em políticas públicas", aponta Michel Gherman, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"O que aconteceu na ditadura militar e o que voltou a acontecer nesses últimos anos, inclusive com o retorno do discurso pró-ditadura, é que essa bandeira mais uma vez se tornou propriedade do Estado", analisa Ana Caroline Almeida, especialista em Comunicação e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

"Nesses contextos ultranacionalistas, não só a bandeira do Brasil, como várias outras bandeiras de Estados-nação tendem a se tornar metonímia não de um país, mas de partidos da extrema direita, que se apropriam e sequestram símbolos nacionais e, curiosamente, com isso, ferem a própria ideia de nação como constituição de um 'espírito coletivo'", constata.

Comum nas ditaduras militares da América Latina e também nos regimes stalinistas, a apropriação desses símbolos está também associada ao catálogo de medidas dos fascismos do século 20, aponta Francisco Palomanes Martinho, professor de História Ibérica da Universidade de São Paulo (USP).

"Na chamada crise dos liberalismos do período que sucedeu à Primeira Guerra Mundial, essa apropriação ganhou contornos muito próprios: ela se dá na afirmação do 'nacional' em detrimento do 'outro'. É nesse contexto que ideias de 'raça' ou 'espírito nacional' ganharam espaços cada vez maiores. Os símbolos nacionais, assim, se tornaram absolutos, inquestionáveis. Questioná-los seria questionar a própria existência da nação", pontua Martinho.

No entanto, pondera Odilon Caldeira, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), "os movimentos fascistas, no século 20, não somente se apropriavam de uma determinada simbologia nacional, como também subvertiam em certa medida essa simbologia ou criavam novos símbolos".

"Hoje, o extremismo e o radicalismo de direita utilizam sobretudo os símbolos nacionais dentro de uma, digamos, matriz republicana", diz o professor, que coordena o Observatório da Extrema Direita.

"Eles fazem uso de uma simbologia pré-existente, dando a ela um novo sentido, um novo caráter, uma nova leitura, mais do que necessariamente criar uma nova simbologia tal qual o fascismo no século 20 fazia", conclui.

Na Europa, aponta Loff, hoje é comum haver normas legais e regulações sociais sobre a utilização política desses símbolos. "Em Portugal, por exemplo, nenhum partido pode usar, segundo a Constituição, a bandeira nacional como símbolo próprio, justamente porque se considera que ela é um símbolo unificador e não divisório."

Durante as seis primeiras décadas que se sucederam à Segunda Guerra Mundial, a relação dos alemães com os próprios símbolos nacionais era considerada complexa – em uma rejeição coletiva explícita a qualquer demonstração que pudesse deixar suspeitas de nacionalismo exacerbado.

Quando o país sediou a Copa do Mundo de 2006, começou um processo de relativização, encabeçado pelas gerações mais jovens, do desconforto frente a símbolos como a bandeira e o hino.

No livro Wie der Fußball Deutsche macht (Como o futebol transformou os alemães, em tradução livre), publicado em 2016, Sven Ismer analisa detalhadamente essa mudança de comportamento da população ao longo das últimas décadas. Se no contexto do futebol tornou-se normal balançar bandeiras, fora dele "a moderação continua, felizmente, existindo", diz o autor – exceto entre círculos minoritários de extrema direita.

Para Ismer, esse comedimento é positivo, visto que "o nacionalismo alemão devastou a Europa duas vezes, deixando milhões de mortos". "Portanto, uma conduta atenta frente à simbologia nacional continua adequada", considera.
Após 

Ulrich Wagner, professor de Psicologia Social da Universidade de Marburg coordenou dois estudos sobre nacionalismo, patriotismo e xenofobia. Em um deles, aplicou dois tipos de questionários entre grupos específicos, a fim de averiguar tendências xenófobas. No primeiro deles, usou formulários "limpos"; no segundo, fez uso dos mesmos formulários acrescidos de uma bandeira da Alemanha no campo superior direito.

"Fomos capazes de demonstrar que, quando confrontadas com símbolos nacionais, as pessoas se revelam de fato um pouco mais xenófobas", relata Wagner.

No Brasil, o processo de uso indevido dos símbolos nacionais não poderá ser facilmente revertido, considera Caldeira: "Da mesma maneira que a apropriação foi longa, construída antes mesmo da gestação do próprio bolsonarismo, o processo do esvaziamento desse sentido não se dará da noite para o dia."

A partir da década de 1930, o futebol se tornou um elemento importante na construção das diversas identidades nacionais, visto que foi o primeiro esporte de massa com dimensão planetária. Hoje, a Copa do Mundo até poderá ajudar a sociedade brasileira, a retomar, de forma mais ampla, o uso dos símbolos e das cores nacionais, mas isso não bastará, considera Caldeira.

"Há um esforço no sentido dessa retomada, mas me parece que esse fenômeno não vai ser resolvido exclusivamente por conta do processo eleitoral e tampouco pelo Mundial", avalia.

"A camisa amarela ainda remete ao bolsonarismo, a atos antidemocráticos e bloqueios de estrada. Pode haver uma refundação dessa relação, mas vai levar tempo", concorda Gehrman.

Loff aponta haver na Europa uma grande atração não só pelo futebol brasileiro, mas pela cultura do país de forma geral. Segundo ele, era comum até poucos anos atrás ver pessoas vestindo a camisa verde e amarela nas ruas de países europeus, mas não está claro que destino terá essa predileção de agora em diante.

"Culturalmente o Brasil tem uma grande capacidade de atração em todo o mundo, mas o bolsonarismo pôs isso em causa", conclui o historiador.

O Conto do Vigário

Conta a estória que na maestral Ouro Preto do século XVIII, o vigário da Nossa Senhora do Pilar e o vigário da Nossa Senhora da Conceição disputavam uma imagem da Virgem Santa para as suas igrejas. O vigário do Pilar propôs então que amarrassem a Santa no lombo de um burro, e para onde o burro fosse a paróquia ficaria com a imagem. E em assim acordado, o burro dirigiu-se, de pronto, para a basílica do Pilar. É que o burro era do vigário do Pilar, o que ficou conhecido como o Conto do Vigário! Outra estória é a do Santo do Pau-oco, levado por tropas de mulas para a venda no Rio de Janeiro como expressão do barroco mineiro, mas ocos por dentro e recheados de ouro. Ou seja, santo por fora, não tão santo por dentro.


Bolsonaro se divide em dois. O que nos tirou o fôlego colocando nossos corações para fora da boca com sustos diários da iminência da quebra institucional, e o que compõe politicamente na busca de seus interesses imediatos ou pela maior segurança do que acha que possa vir a lhe acontecer. Os caminhoneiros param as estradas; a população urge à frente dos quartéis; cidadãos se mataram na anteposição ideológica. “Se pegar, quem sabe, leva; se não pegar, simplesmente se compõe”. Não era bomba, era traque, e como traque se dissipou. Como atribuído a De Gaulle após sua visita ao Brasil, como figura retórica, “ce n’est pas un pays sérieux”.

Diz Wright Mills que manda o poder econômico, garante o poder militar, executa o poder político. Diz Phillipe Schmitter, brasilianista, que o Brasil é um dos casos mais bem sucedidos de controle da população por uma elite, que não muda ao longo do tempo, onde mudam apenas as siglas. E diz Maquiavel que manter o principado é mais difícil do que ganhar o principado; não que ganhar seja fácil. Daí, a predominância do econômico sobre as sociedades, e as possíveis composições ao nível político. Ainda bem que existe a política! Os partidos que se uniam em torno de Bolsonaro, unem-se hoje, em um piscar de olhos, em torno de Lula. O acordo tácito entre as partes foi selado por cardeal católico, não por pastor, nem ortodoxo. Ou ainda, como se diz na gíria, “se colar, colou, se não colar, deixa prá lá”. Ninguém morre pelos seus liderados.

No total do eleitorado, Bolsonaro teve 33% dos eleitores no 1º turno, 37% no 2º turno, o representante dos 1/3. 20% formam seu núcleo duro eleitoral. 1% é radical, autodenominados de “patriotas”. É uma minoria pequena, mas barulhenta. As fake-news são ainda mais intensas. As Forças Armadas, a Polícia Federal, e as Polícias Militares, órgãos de Estado, seguem na normalidade democrática. Datas de possíveis conturbações: 15 de novembro no Dia da República; 19 de dezembro na Diplomação dos Eleitos pelo TSE; 1º de janeiro na Posse do Presidente Eleito. Mas sem riscos à estabilidade do país. O fascismo era pífio, e se esvaiu. Bolsonaro será líder de somente uma minoria dos que nele votaram.

Dinheiro é droga

O Capitalismo começa como uma espécie de realismo pragmático, mas depois de um certo ponto degenera em delírio quantitativo. No começo, ele é materialista até a medula. Escarnece da religião, faz pouco das ideologias, torce o nariz para a arte, dá um chega-pra-lá em todos os subjetivismos e diz que no mundo somente as coisas materiais contam. Só conta o que dá resultado, o que gera riqueza, o que produz. É nessa fase, por exemplo, que as manifestações artísticas são enxotadas para o sótão dos “Passatempos Para Gente Desocupada”. Por que perder tempo com coisas que provocam apenas prazer estético e enriquecimento espiritual? Já que ninguém pode quantificar prazer estético, ninguém pode lucrar planejadamente com ele. Quanto ao enriquecimento espiritual, pra começo de conversa não existe essa coisa chamada espírito.


Na sua fase produtiva, o capitalismo impõe um culto à produção, à matéria, às transformações das matérias primas em produtos. Esse culto é tão forte que contaminou o próprio comunismo, em suas tentativas falhadas de substituir o adversário. Estatizando o Capital e glorificando o Trabalho, o comunismo perpetuou e ampliou as ladainhas à máquina, à indústria, à produtividade, à transformação da natureza. Materialista por definição, o comunismo foi, neste aspecto, uma mutação avançada do capitalismo. Só existe o que é “material”.

O que destruiu o capitalismo e vai destruir o mundo (não se enganem) é o estágio seguinte, em que a Matéria cede lugar ao Símbolo. O capitalismo deixa de ser concreto e passa a ser abstrato. Já não conta mais quantas moedas de ouro você possui, e sim quantos zeros você acumula em suas contas bancárias. O Capitalismo Financeiro sucedeu ao Capitalismo Produtivo e começou a tirar milhões de coelhos virtuais de dentro da inesgotável cartola das manipulações bancárias. É irônico que um sistema de pensamento tão voltado para o que é sólido tenha se desmanchado no ar com tanta facilidade; e que as “águas glaciais do cálculo egoísta” tenham se evaporado nessa neblina impalpável, nessa nuvem dos trilhões de dólares inexistentes que são negociados todos os dias nos mercados mundiais.

Trilhões de zeros que bancos, empresas e países vendem, compram, revendem, emprestam, dividem, partilham, multiplicam, como se esses zeros todos valessem alguma coisa, como se existisse algum lastro produtivo (ouro, prata, grãos, capim, sei lá, qualquer coisa que servisse para algo no mundo real). O Capitalismo embebedou-se de Capital, passou a se alimentar não de produção mas de ficções financeiras, como um drogado que deixa de comer e de beber água, para poder continuar se drogando.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Pensamento do Dia

 


O perigo da multidão irracional

As semanas que antecederam o primeiro e o segundo turno das eleições de outubro de 2022 acrescentaram revelações sobre o estado de anomia em que se encontra a sociedade brasileira. Indicaram qual é de fato o legado politicamente enfermo do presidente que em dois meses deixará o poder, porque em confronto com a Constituição e a democracia.

Ainda uma semana depois do reconhecimento do resultado da votação, definido o nome do eleito, ajuntamentos estão ocorrendo em praças e portas de quartéis, os agitadores pedindo ditadura militar. Estranhamente, os comandantes militares, cujos quartéis são assediados, estão calados.

São decorrências da política de desmonte do Estado, das instituições e da própria sociedade pelo regime de 1º de janeiro de 2019, nas ameaças subversivas à ordem política.

Estamos em face de ameaças a uma inevitável e decisiva mudança social e política, cujos fatores vinham sendo gestados e acumulados desde o golpe de 1964. Bolsonaro, tenha ou não consciência disso, personifica o momento final de decadência do tenentismo.


Foram esses fatores atenuados com a redemocratização e a Nova República, e não suprimidos. Voltaram à superfície com o bolsonarismo na suposição falsa de que na eleição de 2018 a população pedia a volta da ditadura militar.

A anomia desta etapa da história brasileira expressa-se na desorganização social decorrente da desregulamentação política das relações sociais. Os regimes políticos repressivos, que expressam momentos como este, são criadores de situações de insegurança e medo que arrastam consigo para a nulidade da ineficácia e anulam valores e normas de conduta e de sociabilidade. A sociedade ficou confusa e desorientada, não só o presidente da República.

A tendência autoritária do governo que termina tem tido como característica a transgressão do que é próprio de mandato obtido de forma legal e constitucional. Porém indevidamente assumido como renúncia do eleitorado ao que é próprio de suas atribuições, no questionamento do pressuposto da alternância dos partidos no poder, em que se empenhou o governo nestes quase quatro anos.

O aparelhamento das instituições para consumar a tirania do poder pessoal tornou-se entre nós uma forma patológica de corroer as bases do que é propriamente a realidade social e política. Um meio de inviabilizar a vida coletiva e anular a competência dos cidadãos para reconstruir o tecido social em face da desordem personificada pelo próprio governante.

No limite, desordem instrumentalizada pelo oportunismo do consórcio de outro poder no poder, resultante dos fatores de tensão, de crise e de ruptura que nestes anos comprometeu a continuidade da sociedade que pedia socorro político urgente. O resultado da eleição foi um indicativo.

A questão é muito mais complicada do que a muitos parece. Na transição, disfarçada por algumas medidas protocolares, o governo que termina continuará ativo e barulhento no poder paralelo das redes, dos grupos de ativistas, como o dos caminhoneiros e o dos manifestantes de porta de quartel. Mas o ativismo antidemocrático persistente indica que Jair Messias manda muito menos do que supõe. Quando muito faz teatro de uma proximidade e de uma conivência que os militares não podem assumir porque funcionários do Estado, sujeitos às normas e aos rigores da lei. Nem o povaréu da agitação tem qualquer competência para levar o país à insurreição.

Fora do poder e por isso politicamente fraco, Bolsonaro dividirá o bolsonarismo. Os que parasitaram o Estado, avulsos e parentes, militares e civis, serão mandados de volta ao lugar de onde vieram. Sobrará a turba dos bajuladores e paus mandados de rua, fora do controle do governo oculto e do próprio Bolsonaro. As multidões reacionárias poderão gerar instabilidade. Para elas haverá a lei.

Os ajuntamentos subversivos de rua, dos inconformados, contra a vontade majoritária do eleitorado, dá cara e voz ao Brasil paralelo e ilegal instigado por ações e omissões do próprio presidente da República. O Brasil oculto da balbúrdia tem feito demonstrações agressivas e mesmo violentas, indicativas de um período de inconformismo intolerante que pode comprometer a democracia que tenta renascer. Tem características de comportamento de multidão, como o define Le Bon, o do sujeito coletivo divorciado da razão, de certo modo enlouquecido, como nos linchamentos.

As classes e os setores sociais mais incapazes de participar do processo de regeneração social e política, porque menos identificados com a sociedade a que pertencem sem querer pertencer, são os que com mais facilidade se empenham em transformar a anomia em identidade coletiva da minoria de que fazem parte.

O ódio começa em casa

Há pouco, jovens enrolados em bandeiras do Brasil em São Miguel do Oeste (SC) puseram-se em formação e fizeram a saudação nazista. Há uma célula nazista na cidade, que produz panfletos e bandeiras com a suástica. Dias depois, alunos de uma unidade da UFSC picharam suásticas e frases contra judeus nos banheiros. E meninos de um colégio em Valinhos (SP) postaram mensagens em louvor a Adolf Hitler, propondo que se fizesse com os petistas "o que Hitler fez com os judeus."


Numa escola em Presidente Prudente (SP), um aluno de 10 anos foi fantasiado de Hitler a uma festa da instituição. Em Curitiba, estudantes vestidos com a camisa da seleção hostilizaram com violência colegas favoráveis à vitória de Lula. As alunas não foram poupadas: "Vamos encher as meninas petistas de porrada." Em várias escolas, professores também são ameaçados. Um deles teve de ouvir: "Meu pai vai f... com você."

Esses agressores são garotos em idade escolar e não nasceram assim. Foram ensinados a odiar e a discriminar — por sua cidade, pelos grupos que frequentam ou, bem provável, em casa. Quantos pais e mães, hoje no Brasil, não estarão inoculando o preconceito e o nazismo em seus filhos?

Nada disso parece estar provocando indignação nos militares. Estão mudos a respeito. Em 1942, o Brasil declarou guerra ao nazifascismo e, em 1944, mandou para a Europa uma força expedicionária de 25.000 homens. Os pracinhas, como eram chamados, enfrentaram a inexperiência, temperaturas de 15 graus abaixo de zero e soldados alemães que atiravam neles de cima para baixo. Mas os brasileiros foram bravos, heroicos e vitoriosos.

Os restos dos 467 rapazes mortos em combate descansam no Monumento aos Pracinhas, aqui no Rio. Há uma pira eternamente acesa para eles e todo ano faz-se uma bela homenagem. Mas omitir-se diante de arroubos neonazistas é o mesmo que cuspir nesta pira.

Sobreviventes do Holocausto alertam para antissemitismo

Sobreviventes do Holocausto alertaram nesta quarta-feira para o ressurgimento do antissemitismo. O alerta foi feito no aniversário de 84 anos do pogrom nazista da "Noite dos Cristais", que ocorreu na Alemanha e na Áustria.

Marco vergonhoso da história alemã, em 9 de novembro de 1938, o regime nazista instigou a população a aterrorizar e agredir os judeus, em pogroms generalizados. A data é considerada um prelúdio ao Holocausto, uma nova e violenta escalada na perseguição nazista aos judeus, visando sua expulsão e extermínio.

No alerta, vários sobreviventes do Holocausto contam em vídeos como discursos antissemitas levaram a ações que culminaram no extermínio em massa dos judeus. Durante a Noite dos Cristais, mais de 1.400 sinagogas foram incendiadas e cerca de 30 mil homens judeus foram presos.

O alerta da campanha digital #ItStartedWithWords (Começou com palavras), promovida pela Conferência sobre Reivindicações Materiais Judaicas contra a Alemanha, ressalta que o Holocausto não começou com os guetos, deportações e campos de concentração, mas sim com o discurso de ódio.

Patrulhas antissemitas, lideradas pela força paramilitar
de Hitler (SA), atacaram sinagogas e lojas de judeus

"Com a crescente prevalência do negacionismo do Holocausto, da distorção e do discurso de ódio nas redes sociais, a campanha #ItStartedWithWords se torna mais importante", salientou Greg Schneider, vice-presidente da organização baseada em Nova York.

Num dos vídeos, Eva Szepesi, de 90 anos, conta seu choque quando os amigos de infância passaram a tratá-la mal, pouco antes de ela ser capturada e deportada para o campo de extermínio de Auschwitz, com apenas 12 anos: "Começou quando eu tinha oito anos, e eu não conseguia entender por que meus melhores amigos estavam me insultando." Os pais e irmãos de Szepesi foram mortos em Auschwitz.

A campanha trancorre num momento em que se registra o aumento de incidentes antissemitas no mundo. Somente na Alemanha, mais de 2.700 incidentes foram registrados em 2021, incluindo 63 agressões e seis casos de violência extrema. Cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados no Holocausto.

O presidente da Alemanha, Frank Walter-Steinmeier, afirmou nesta quarta-feira que o 9 de Novembro sempre lembrará na Alemanha a ruptura da civilização no Holocausto: "Nesta data sempre vamos urgir à luta contra o antissemitismo", declarou na abertura de uma conferência em Berlim.

Steinmeier destacou que a perseguição dos judeus não começou nessa data, "mas o que aconteceu nesse dia de violência escancarada foi a emersão visível da subsequente privação dos direitos, que foi meticulosamente planejada e conduzida com consequências brutais, rapto e extermínio dos judeus na Alemanha e Europa".

Brutalidade da eleição brasileira como artigo de exportação?

Vitória da democracia no Brasil mostra a resiliência das instituições, mas também desperta o temor de que as virulentas estratégias de campanha vistas durante o pleito possam encontrar imitadores no resto do mundo.

As eleições no Brasil detiveram por enquanto a crescente tendência de erosão das democracias no Ocidente. Esse é um sinal importante vindo do quinto maior país do mundo. Apesar da campanha eleitoral brutal, dos campos adversários irreconciliáveis e das muitas tentativas de declarar de antemão a invalidade das eleições, as instituições democráticas do Brasil resistiram. Logo após o fechamento das urnas, o resultado da eleição já era conhecido. Em comparação: nas eleições de meio de mandato nos EUA, o resultado final só deve ser conhecido dias depois.

No Brasil, logo após a divulgação dos resultados, os líderes da Câmara dos Deputados, do Senado e do Supremo Tribunal Federal declararam que a eleição ocorreu de forma limpa e que não havia motivos para contestar o resultado. Os militares se comportaram de forma neutra. Ao mesmo tempo, as burocracias e os políticos de Brasília começaram tranquilamente a se preparar para a transferência de poder.


Mesmo que os radicalizados apoiadores de Bolsonaro continuem acreditando em fraude eleitoral, os políticos eleitos do campo bolsonarista não os levam tão a sério. Inúmeros apoiadores influentes do presidente derrotado, dos setores político, econômico e social – mesmo as eminências pardas evangélicas – pediram o fim dos protestos.

Mesmo que a transição de poder até 1º de janeiro de 2023 ainda possa ser acidentada, a democracia brasileira provou ser dinâmica. A guinada à direita que ocorreu na sociedade brasileira nos últimos anos agora também chegou ao Congresso e às instituições.

Diferente do que pode ser observado em algumas democracias ao redor do mundo – na Europa, por exemplo – o sistema político do Brasil está se mostrando integrador. Novos protagonistas têm a chance de ganhar o controle do poder político por meio de eleições democráticas. A democracia brasileira mostra uma permeabilidade que não muitos sistemas possuem.

No entanto, essa eleição me preocupa: temo que estrategistas eleitorais da nova direita em todo o mundo olhem de perto a campanha eleitoral de 2022 no Brasil – para copiá-la no futuro. O uso das mídias sociais tanto pela equipe de campanha de Bolsonaro quanto pela de Lula atingiu um novo nível de agressividade e brutalidade, inimaginável pouco tempo atrás.

Sobretudo os 28 dias que antecederam o segundo turno mostraram um uso assustador de fake news nas mídias sociais difícil de imaginar na Europa e nos EUA. As autoridades eleitorais tentaram aplicar as lições das últimas eleições. O Judiciário agiu com mais rapidez e veemência do que até pouco atrás se esperaria. Nas últimas semanas, no entanto, mostrou-se parcialmente impotente nas reações à campanha eleitoral suja.

Todos os partidos tradicionais europeus, os órgãos judiciais relevantes e a mídia não só da Europa como também da América Latina devem estudar cuidadosamente as estratégias de campanha das últimas semanas no Brasil. É previsível que as próximas eleições também sejam brutais em outros Estados democráticos.

Os males que tiraram Bolsonaro de circulação depois da derrota

Erisipela é uma infecção cutânea causada geralmente pela bactéria Streptococcus pyogenes do grupo A, mas pode também ser causada por Haemophilus influenzae tipo B.

As bactérias penetram através de um pequeno ferimento na pele ou na mucosa, disseminam-se pelos vasos linfáticos e podem atingir o tecido subcutâneo e o gorduroso.


Pessoas com excesso de peso, portadoras de diabetes não compensado, de insuficiência venosa nos membros inferiores, cardiopatas com baixa imunidade são mais vulneráveis.

Senhora de um casarão próximo ao Colégio Salesiano, no Recife, viúva e religiosa que passava o dia rezando, Dodô sofria de erisipela e a tratava com remédios caseiros à base de ervas.

Nunca se curou. Mantinha no banheiro um cágado. E quando a dor excedia determinado limite, ela virava o cágado de pernas para o ar e amarrava uma fita vermelha na cabeça. Dizia que melhorava.

Bolsonaro deve ter outros meios de enfrentar a doença que o tirou de circulação depois de ser derrotado por Lula no último dia 30. Mas não padece só desse mal. Há outros tão ou mais dolorosos.

Ele sofre por ter perdido uma eleição que julgava ganha por pouco; sofre por não ter se oposto quando consultado sobre a decisão da justiça de soltar Lula, pois imaginou que o venceria.

E sofre com o processo em curso de lavagem de roupa suja que divide seus familiares mais queridos – de Michelle, a mulher, a Jair Renan, o filho Zero Quatro, e o mais distante deles.

Ana Cristina Valle, advogada e mãe de Jair Renan, lançou-se candidata a deputada pelo Distrito Federal, arrecadou dinheiro, perdeu e mandou-se para o exterior sem prestar contas.

Michelle nunca mais apareceu em público ao lado de Bolsonaro. Dizem que foi porque brigou com Carlos, o Zero Dois, e o marido tomou partido do filho, dono de suas senhas nas redes sociais.

Carlos nunca gostou de Michelle, que jamais gostou dele e que se recusou a abrigá-lo no Palácio da Alvorada porque Bolsonaro temia que Carlos fosse preso pelo ministro Alexandre de Moraes.

Houve tapas e não houve beijos no meio dessa quizila. Carlos afastou-se do pai, que se desentendeu com Eduardo, o Zero Três, que se escafedeu para os Estados Unidos onde tem amigos.

Flávio, o Zero Um, não abandonou o pai, mas está de mal com Eduardo e com Carlos. Cada um joga no outro a culpa pela má condução da campanha de Bolsonaro.

Para completar a desdita do clã, Bolsonaro cobra de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, muito mais do que ele tem para lhe oferecer. Quer casa, comida, roupa lavada e dinheiro para viagens.

Ao mesmo tempo, queixa-se dos políticos que se elegeram às suas custas e que não se mostraram agradecidos. É muita dor que ele é obrigado a suportar, além do medo da volta do comunismo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Brasil em transição

 


O Brasil respira melhor desde que Bolsonaro foi derrotado

Recluso no Palácio da Alvorada desde a eleição de Lula em 30 de outubro e após quase uma semana de silêncio, Bolsonaro voltou a trabalhar? Não, postou uma foto em suas redes sociais.

Uma foto de julho, quando sua candidatura à reeleição foi lançada durante a convenção do PL no Rio de Janeiro. Ele acreditou até o último momento que venceria Lula – decepcionou-se.

Calou-se desde então e só apareceu duas vezes no Palácio do Planalto. A primeira no dia seguinte à derrota, e por poucas horas. A segunda na última quinta-feira, por meia hora, se tanto.

Fez falta? A impressão é que não. O país respira melhor. Bolsonaro nunca foi de pegar no pesado. Não será agora que vai pegar. O Brasil só tem a ganhar se ele se mantiver inativo até o fim.

Golpe bolsonarista foi desmoralizado por um meme

Nas 45 horas de silêncio à nação depois da derrota nas eleições, Bolsonaro conversou reservadamente com militares, pedindo informações sobre o processo de auditoria nas urnas eletrônicas conduzido pelo Ministério da Defesa. Buscava solidariedade para contestar o resultado, mas não conseguiu.

Optou então pelo discurso covarde. Não reconheceu a vitória de Lula. Ao contrário, incentivou o por ele já esperado surto golpista que havia tomado as ruas. Decidiu passar os últimos dias na Presidência como o chefe da arruaça, valendo-se de extremistas de direita, membros de grupos armamentistas, tolos, lunáticos — e sobretudo de quem os financia. Uma minoria de inconformados "patriotas" e fascistas que, não se iludam, veio para ficar e perturbar o cenário político do país.


Primeiro foram os bloqueios de estradas nas barbas da PRF, atrasando viagens e o envio aos hospitais de remédios, oxigênio e órgãos para transplante (lembram, na pandemia, quando os bolsonaristas exigiam o direito de ir e vir?). Depois os atos antidemocráticos em frente aos quartéis, com cartazes de "intervenção federal", seja lá o que eles entendam por isso. Em seguida, o assédio e a ameaça aos trabalhadores, com a hashtag #DemitaUmPetista. Por último, a convocação de uma "greve geral contra o comunismo", façanha capaz de ressuscitar Marx e Engels.

Ao apostar na baderna, Bolsonaro quer mostrar alguma força de reação para negociar seu futuro, quando terá de enfrentar o STF, o TSE e a Justiça de primeira instância. Mas o tiro, mais uma vez, está lhe saindo pela culatra. É tudo tão ridículo e doentio, tão desconectado da realidade, que até os eleitores antipetistas estão se virando contra o capitão.

Nos registros da história, este ficará conhecido como o golpe que foi desmoralizado por um meme: a imagem real do homem de boné e camiseta verde e amarela agarrado à cabine de um caminhão em movimento.

O papel do indivíduo na História

O lobo da montanha come o cordeiro na planície acusando-o de sujar sua água unicamente pelo princípio da força, e não da subordinação lógica. Como não pode, pelo instinto, fundar o direito de desvirtuar o processo causal e fazer o rio correr do vale para cima, a água do cordeiro é uma desculpa e vai sempre ser a causa da ira do lobo. Só a fábula enfrenta a fantasia do caráter irreversível da coisa malfeita.

A eleição é um cavaleiro veloz. A grita admoestatória do mercado contra o problema fiscal deveria ser da mesma grandeza da percepção do problema social. Onde está o verdadeiro estorvo? O que afeta o senso de segurança do Brasil é ser governado por quem não se interessa em saber quanto de malefício a democracia suporta. E, neste mesmo período longo iniciado nos anos 1980, a eleição de agora decidiu, por um fio de bigode, quem tem condições de encerrá-lo. O Brasil precisa dar um próximo passo.

Quando a necessidade se faz consciência, é preciso estar preparado para se manter no poder apoiado por amplas camadas da sociedade. É isso que isola a paixão política do fatalismo ruidoso do sectário e permite despontar a ação enérgica dos que se arriscam a mudar a prática.

Sim, há momentos em que os fatos sociais e psicológicos se incorporam aos fatos políticos. E exigem um talento especial do líder para ser, sinceramente, o que for necessário e útil ao momento do País, e não dele próprio. A eleição mostrou que nem sempre a força pessoal que o líder projeta é favorável a ele. Especialmente se os desafios gerais do momento dispensam as particularidades de sua personalidade.


Este é um momento destes em que é possível ver o papel do indivíduo na História criar possibilidade de ressurgimento da esperança num povo. Não é palavra de ordem nem programa preconcebido. É interpretar e discernir seu sentido com imaginação.

Nascido da harmonia das contradições, deve ter um cromatismo melhor que realce o branco, uma síntese de todas as cores. É no encontro de contraintuições, calma, que a política é um fator de dinamização de humanismo e criatividade. É hora de ouvir e escutar o mundo que nos rodeia e não deixar erodir o significado do que estamos vivendo.

Relembro um fato da minha vida política e parlamentar que, de certa forma, incorpora o princípio universal que diz que é incompreendida a ideia que vem antes da hora.

Desde os anos 1980, defendo a união da social-democracia com o movimento dos trabalhadores. Nunca achei que houvesse vanguarda de classe nas lutas políticas, mas o pluralismo das ideias múltiplas que nascem dentro do movimento social geral e progressista. Busquei a afinidade com todos os partidos onde houvesse defensores com a causa de inscrever os direitos humanos e o progresso econômico para todos no rol das coisas essenciais da vida harmoniosa e fraterna. Ganhei o apelido, um pouco carinhoso, um tanto debochado, de pelicano, meio petista, meio tucano. Tive problemas na convivência partidária interna nas campanhas por introduzir traços da cor azul em meus panfletos. Dialogava bem com os liberais modernos no Parlamento.

Quando Lula e Alckmin, dois colegas constituintes de 1988 – formuladores dos princípios do Estado Democrático de Direito que são a regra magna da Constituição brasileira – decidiram fazer campanha juntos, minha memória acordou o esquecimento daquela velha ideia de composição suprapartidária, atento à unidade nacional e à busca de construir um caminho que ofereça ao País tranquilidade e prosperidade. Fossem tempos melhores, de menos ansiedade e incerteza, aproveitadores da confusão teriam menos espaço para produzir engano nos sentidos e sentimento do povo.

O resultado da eleição para o Parlamento é prova de que a História está se fazendo, o frisson das gerações em movimento, cada vez mais claros os sinais inimagináveis destes tempos. Os seis constituintes que restaram no Congresso – Paulo Paim e Renan Calheiros, no Senado; Benedita da Silva, Aécio Neves, Lídice da Mata e Sergio Brito, na Câmara – terão a companhia dos dois constituintes que vão governar agora o País.

Ninguém mais capaz de servir às grandes necessidades do momento, de estar atento às particularidades e às influências gerais de todo este tempo do que quem vai jurar fidelidade à Constituição que ajudou a escrever. Memória das modificações mais ou menos lentas das condições sociais e econômicas, e da necessidade permanente de reforma maior ou menor das instituições, a Constituinte não agiu espontaneamente. Exigiu a intervenção de líderes adequados ou designados como capazes de escrever o estatuto do funcionamento da Nação. É evidente que ser um constituinte não é um símbolo da resolução dos problemas brasileiros, mas um sinal de que homens e mulheres assumiram a responsabilidade de formular a melhor forma de resolvê-los.

Lula e Alckmin, duas das mais importantes personalidades do Brasil, souberam converter em força política a tendência para a mudança que existe na sociedade. Não a criaram, mas, como souberam interpretá-la melhor, são agora os maiores representantes dela.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

O Brasil pós-goiabeira

Não é necessário enxergar Jesus na goiabeira para concordar com a turma da Regina Duarte: a eleição foi roubada.

Mesmo alguém da altura do general Heleno consegue ver os círios à distância — se na Terra nada acontece sem a vontade de Deus, a derrota foi mensagem divina, caro cristão.

Aleluia, irmão.

Aqueles dois Fábios (mesmo o genro arrependido), mais o balila da PRF e as patifarias do posto Ipiranga (sem gasolina por causa do bloqueio de seus companheiros) acabaram punidos ao desrespeitar o sétimo mandamento.

Os 7 milhões de votos a mais, depositados no segundo turno na equipe enfim derrotada, resultam do uso descarado da máquina. Somando com Ciro Nogueira, que é bom de conta: sem a caneta e as roubadas de mão, boa parte sob o silêncio da Justiça, jamais chegariam aos 58 milhões de votos.

De fato, a eleição foi roubada. Sem a reza estatal, o último círculo do inferno de Dante seria a morada de Bolsonaro já no primeiro turno.


Outros métodos de conseguir votos também não surtiram efeito. A estratégia Carla Zambelli, por exemplo: evitar à bala voto de eleitor lulista.

Impressionante. Eu que apanhei da polícia da ditadura e do coronel Erasmo Dias jamais vira algo tão grotesco. Estava naquela tarde a cem metros da pistoleira. Comprava o lindíssimo livro de Geraldo Carneiro “Folias de aprendiz” e a reedição de “O eleito”, de Thomas Mann, na nova Livraria da Vila, na Alameda Lorena. Cercada de seguranças, a deputada bolsonarista, com um andar de quem cerca galinha no terreiro, empunhava revólver contra um adversário. Em pleno Jardim Paulista, no final de sábado, ao lado de crianças, pais e avós que passeavam sob a preguiçosa nesga de sol, a celerada assustou a todos. Não só pela arma, mas principalmente por cair feito goiaba ao trocar a perna direita pela esquerda (me lembrou cenas de “O Gordo e o Magro”). Com o jeans bem acima do umbigo, em estilo consagrado por Mazzaropi, aproveitou a cobertura de seus imensos seguranças para mostrar valentia.

Assim como uma eleição limpa jamais daria 58 milhões de votos a Bolsonaro, a dublê de Charles Bronson não teria sido um risco aos populares caso estivesse sem os seguranças e não panfletasse no tranquilo bairro dos Jardins. Duvido ela fazer isso perto de algum endereço da Gaviões ou da Galoucura. É um desafio.

A cena autoritária antecipava o módulo Venezuela produzido pelos bolsonaristas na madrugada de segunda. Os bloqueios trouxeram desabastecimento (principalmente em Santa Catarina, bem feito), causaram prejuízo de milhões e provocaram várias mortes. Felizmente foram poucas e não seguiram o padrão cloroquina da turma.

Ao bloquear as estradas e avenidas, vale lembrar, os bolsonaristas deixaram de cumprir a promessa de não dilapidar patrimônio público e de não invadir propriedade alheia. Os pneus queimados (curiosamente novos) por certo foram doados por almas caridosas, como antecipação de dízimo.

Chovia fino e fazia frio nas barricadas golpistas, mas a essa altura, como nem os fascistas são de ferro, Zambelli já se encontrava no confortável calor dos Estados Unidos, e Bolsonaro, birrento, teimava em esconder a bola no quentinho do Alvorada.

Ato contínuo, os tiozinhos do WhatsApp correram para a porta dos quartéis. Não pediam intervenção psiquiátrica, mas um golpe militar. Afinal, propagavam, tinham sido roubados em 19 milhões de votos, Deus não atendera suas preces, e não seria justo suas empregadas voltarem a frequentar a Disneylândia.

Ali estavam as netas de quem protestou na Marcha de Deus pela Família, em 1964, pedindo um golpe militar. Suas avós inventaram a ameaça do comunismo porque temiam reformas que dariam direitos básicos aos trabalhadores. As descendentes se mostram revoltadas com a maioria dos votos em Lula saídos do Nordeste. De novo retorna o pobre fantasma roto do comunismo, assoprado pela mesma turma que no carnaval compra abadá para seguir o trio elétrico de Daniela Mercury —e então escande preconceitos contra a cantora e os nordestinos. Sem Salvador, estariam na lama.

Aproveitei que Bolsonaro se encontrava debaixo da cama para não entregar a faixa presidencial e mergulhei em “Folias de aprendiz”, invejáveis memórias do doce poeta Geraldo Carneiro.

Para quem vive nos bloqueios das estradas e no WhatsApp: Geraldo é também autor de canções em parceria com Astor Piazzola, Egberto Gismonti e Francis Hime. Três gênios. Teve ainda sorte de viver ao lado de deuses como Paulo Mendes Campos e Tom Jobim e de compartilhar vários segredos de Vinícius de Moraes.

Seu livro traz de volta o Brasil civilizado, carinhoso e tolerante que se busca no pós-goiabeira. E com o retorno do humor, porque, afinal, a missa de sétimo dia merece ser oficiada pelo Padre Kelmon.

Pensamento do Dia

 


Em campo tóxico

Confirmada a vitória do rito democrático, ressoam frases aliviadas de "retorno à normalidade". Mas pode ser muito enganoso um terreno social minado pela "hungranização" incubada, estilo Viktor Orbán, ou seja, a modalidade de golpe de Estado sem tanques, com aparências normais. Sobre isso, aliás, a ornitologia tem algo a dizer.

Em pauta, um exótico falcão, conhecido como picanço ou pássaro-açougueiro, que não possui garras e, ainda por cima, canta. Igual aos demais, caça aves de menor porte. Só que em vez de matar na hora, espeta-as em espinheiros, arames farpados ou objetos pontiagudos, voltando depois para dilacerar e comer. A natureza autorregula-se: essa rapineira dispensa unhas afiadas porque mata de modo indireto, ecologicamente, por capilaridade de meios.


Assim também é possível figurar o tipo de golpe que, no silêncio comprometido das guardas pretorianas, lança mão de um meio ambiente favorável ao fluxo veloz de estímulos corrosivos do caráter e à anemia da civilidade. Tudo que troque a substância política pela aparência pode servir de ferramenta para prostrar a vitalidade da cidadania. Substanciais são as instituições educativas (escola, família, associações civis, imprensa livre), onde a democracia é concreta. Senão, o que se tem é o sepulcro caiado da história viva.

As redes sociais têm sido a pá de cal com que a ultradireita mascara a realidade. Moderno certamente é o fenômeno da capilaridade digital, base para que o ecossistema de algoritmos se imponha como solo real na sociedade da informação. O problema é que, por manipulação, as redes vistam aparências de realidade última, distorçam modos de apreensão do mundo e empacotem fatos.

Isso já ocorria na velha mídia, em outra escala. Agora, porém, cada um é manipulador de si mesmo, como efeito da individualização digitalizada dos estímulos. No vaivém das aparências, uma coisa é ela mesma e seu contrário, assim como o falcão que canta para matar.

O socioambiente está posto em risco. Como um campo minado pelo veneno da antidemocracia, o golpe se faz autoaplicado e permanente. Corre perigo a coexistência civil em meio a instituições fragilizadas e à mentira capilarizada em rede como certeza paranoica de que o inimigo é a diversidade.

Mas a atmosfera tóxica deprime espíritos, exaure o ânimo da nação. Por isso, votos contados, é um alívio respirar, como canta uma voz nordestina, "na bruma leve das paixões que vêm de dentro". É hora de reconstrução pessoal, obrigatoriamente a mesma de uma vigilância institucional continuada: espetado na ignorância dos fatos e na delinquência política, o corpo da democracia permanece vulnerável à dilaceração por aprendizes vorazes dos pássaros-açougueiros.

Descontrolados


Os delírios de uma minoria barulhenta e bagunceira são inspirados por Bolsonaro. Mas ele não tem controle sobre eles
Jerônimo Teixeira

Sem panos quentes

Acusados de ativismo político e excessos, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral foram implacáveis para impedir arreganhos golpistas, garantir a democracia e seu ápice: a voz do voto. Uma batalha dura, não raro com inimigos anônimos escondidos nas baixarias da deep web, e que ainda não se encerrou. Aqueles que insistem na imposição da minoria depois de perder as eleições, orientando o caos e atormentando a vida do país, terão de prestar contas à Justiça, sob pena de se normalizar a rejeição ao resultado das urnas – um precedente gravíssimo.

Aos crimes pré-eleitorais – assassinato de militantes adversários. agressões e assédio eleitoral, polícia rodoviária “fiscalizando” ônibus de eleitores do Nordeste -, os orquestradores da balbúrdia multiplicaram crueldades, incluindo a morte de uma garota de 12 anos e o quase enforcamento de outra criança, nesse caso por um policial militar, só porque ela preferia o “Lula lá”. Tudo ainda pendente de punição, de preferência rápida.

Estimulados pelo presidente derrotado a ocuparem as ruas e iludidos quanto a uma prometida intervenção militar, rebatizada de “intervenção federal”, que jamais teve qualquer chance de acontecer, fiéis se movimentaram como baratas tontas. Protagonizaram cenas surreais, hilárias e, ao mesmo tempo, de dar dó. Marcharam com a bandeira nacional na posição do sabre, ergueram o braço em saudação nazista enquanto cantavam o Hino Nacional. Teve um militante verde-amarelo agarrado a um caminhão que furou o bloqueio e outro que incendiou o próprio carro. Viraram “memes” nas redes sociais, piada.

Entrevistada, uma jovem na porta de um quartel dizia que estava lutando contra o comunismo. Questionada sobre o que era o comunismo, reagiu: – “Comunismo, pô!” Aos prantos, uma bloqueadora de estrada, branca de olhos verdes, reclamava da “polícia comunista” que lançou bombas de efeito moral sobre seu grupo. Outro manifestante disse que queria um Brasil melhor do que estava hoje. Como melhor? perguntou o repórter. “Melhor”, respondeu, como se o seu candidato não ocupasse o governo há quatro anos.

Tudo a revelar a que ponto chegaram a cultura do ódio, o poder da desinformação e a manipulação sobre a ignorância.

No feriado de finados, as imagens das manifestações nas portas dos comandos militares deixavam claro o quão os atos foram planejados e organizados. Patrocinadores instalaram banheiros químicos. As bandeiras do Brasil agitadas eram bonitas, todas novinhas e do mesmo tamanho, doadas nas esquinas. Churrasco nas estradas, lanches e capas de chuva nos atos urbanos eram distribuídos gratuitamente.

Sem poder contar com o procurador-geral da República – o lambe-botas Augusto Aras chegou a dizer que os bloqueios nas estradas eram “rescaldo indesejável, porém compreensível” -, a Subprocuradoria e os MPs dos Estados iniciaram uma série de investigações sobre os atos da semana, com foco nos financiadores. As requisições incluem o presidente em fim de mandato, cujo silêncio covarde não pode servir como salvaguarda, além de seus filhos.

O zero três Eduardo tem sido ativíssimo. Traduziu a mudez de quase 45 horas do pai como apoio às manifestações e se manteve ligado na tarefa de incentivá-las fora das rodovias e diante dos quartéis. Mais um abuso criminoso da crença popular, pois o fez por má-fé, sabendo que não há hipótese de qualquer ação militar.

O STF e o TSE agiram com firmeza nos últimos tempos. Merecem elogios e agradecimentos. Mas o Brasil, acostumado aos panos quentes em nome de concertações fictícias, não pode se intimidar. Terá de enfrentar investigações, processos indigestos e punições. Sem caça às bruxas, mas com penalizações aos que abusam da democracia com o intuito de destruí-la. Sem exceções.

O Brasil nos próximos tempos

E agora, José? Qual é o rumo? Descartes ensinava: perdido numa floresta, sem saber se está no meio ou perto das margens, caminhe para frente. Sem fazer curvas. É o que o Brasil precisa fazer. Caminhar. Sem titubear.

Com a experiência adquirida em dois mandatos, sob solavancos, abalos, pressões e contrapressões, Luiz Inácio saberá conduzir o barco. Que deverá enfrentar tempestades, bastando que olhemos para as nuvens plúmbeas que descem de maneira ameaçadora sobre o território. A começar pela prioridade número um, acabar com a fome que assola mais de 30 milhões de brasileiros.

Afinal, o que podemos distinguir no horizonte afora os estragos que a paisagem tropical nos mostra, como a devastação de florestas, as carências nas áreas de saúde, educação, habitação, saneamento, segurança pública, mobilidade urbana? Na sequência, seleciono algumas situações e tendências que movimentarão a esfera política nos próximos tempos.


O país volta a respirar. Tensões institucionais, que marcaram o ciclo Bolsonaro, tendem a arrefecer, a partir de articulação mais eficaz entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

O país resgatará sua credibilidade nos foros internacionais, ganhando respeito dos parceiros, tarefa que começa imediatamente com a participação de Lula no COP27, a Conferência do Clima, da ONU, a se realizar agora em novembro, no Egito.

Encerramento da era 64 - Na poeira do tempo, veremos a despedida dos protagonistas que ascenderam na política contemporânea com o discurso de combate aos anos de chumbo. Entre estes, Fernando Henrique, José Serra, o próprio Lula (que promete não voltar a se candidatar em 2026), Alckmin. Em outra ponta, Bolsonaro, que tem se posicionado como palanqueiro da ditadura.

O conservadorismo - Suas bandeiras foram levantadas por uma das campanhas. Seu discurso, porém, ficou disperso. As pautas conservadoras em campos como aborto, drogas, gêneros, tendem a ganhar força.
A direita - Esteve envergonhada por muito tempo. Ganhou coragem e mostrou sua face. Mas é a extrema direita que fará pontuações contundentes. A posição será ocupada, inicialmente, pelo líder Jair Bolsonaro. Na Câmara, a direita passa a ocupar 50% das vagas e no Senado, 44%. Em seu discurso de 2 minutos, o capitão garantiu: “a direita veio para ficar”. Terá folego para manter sua postura radical?

As oposições - Grupamentos de oposição se organizarão e sua força dependerá da articulação do novo governo. Farão uma oposição programática. Mas o PT aposentará sua contundência discursiva. Um olhar especial será dirigido ao governador eleito de São Paulo, Estado com a maior densidade eleitoral do país e o mais forte na frente da economia: Tarcísio de Freitas. Sua identidade está vinculada ao campo técnico, tendo ele servido aos governos que antecederam Bolsonaro. Sua performance o colocará na planilha das lideranças emergentes.

O quadro partidário - Carece renovar sua moldura. Parlamentares deverão mudar de posição com a nova janela partidária a ser aberta em abril do próximo ano. O PL, por exemplo, terá dificuldade em sustentar uma bancada de quase 100 parlamentares, devendo ver parcela de seus componentes migrar para outras siglas. A transferência entre siglas possivelmente não leve a canto nenhum, na esteira do ditado: “plus ça change, plus c’est la même chose”.

A democracia participativa - Nossa democracia participativa conta com os mecanismos do plebiscito, do referendo e de projetos de lei de iniciativa popular. A CF de 88 ampliou e consolidou o leque dos direitos coletivos e individuais. A sociedade passou a participar com mais disposição do rolo compressor de pressões e contrapressões. Núcleos abrigam-se no seio de entidades intermediárias – sindicatos, associações, federações, setores, movimentos –, criando polos de poder. Exemplo recente dessa tendência: abstenção menor no 2º turno do pleito e presença maciça dos jovens às urnas.

Diversidade - Nunca os conceitos de inclusão social ganharam tanto espaço no foro nacional como na atualidade. A política tem inserido em suas cartilhas o alfabeto da inserção de etnias, negros, comunidade LGBTQIA+, etc. na paisagem institucional.

As mulheres - Seu protagonismo será cada vez mais forte. Trata-se de defesa do gênero, aumento de bancadas femininas na estrutura do poder e participação intensa da mulher no debate político. Simone Tebet, Marina Silva, Janja, foram fiadoras de uma candidatura. Ganharam ampla visibilidade. Damares Alves e Michelle Bolsonaro, incorporando o papel de pastoras evangélicas, despontaram como cabos eleitorais da outra candidatura.

O evangelismo - As igrejas neopentecostais adquirem força. O Brasil poderá deixar de ser a maior Nação de católicos do mundo para dar lugar aos evangélicos. A emergência dos credos impulsiona a participação de seus representantes na esfera parlamentar com a formação de considerável bancada.

A laicidade é uma singularidade dos Estados não confessionais. Assegura-se a separação entre o Estado e a Igreja, garantindo-se a proteção de crença e das liberdades religiosas. O debate será acirrado.

As Forças Armadas - Foram puxadas para a esfera política. Os quadros militares descobriram ser possível exercer novos papéis. O discurso político-governamental se impregnou de um viés militarizado. Mas a aposta melhor é na corrente que defende o profissionalismo das FFs.

As redes sociais - Depois da onda das fake news, as lideranças se esforçarão para aprimorar os mecanismos tecnológicos com vistas ao resgate dos valores éticos e morais.