quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Recomeça a campanha de 2018, segundo tempo

Começou! Foi oficialmente dada a largada para a corrida presidencial nesta terça-feira. Dizem que se trata da eleição mais importante desde a redemocratização. Minha única certeza é a de que estamos vendo o segundo tempo da campanha de 2018, daquela tão estranha e confusa disputa pelo Planalto que resultou na vitória de Jair Messias Bolsonaro. Havia um candidato preso, outro esfaqueado e um terceiro que todos chamaram de "poste".

Lembro-me daquele dia 15 de agosto de 2018, quando milhares de pessoas acompanharam o registro oficial da candidatura de Lula. O petista liderava as pesquisas com cerca de 40% das intenções de voto. Mas estava preso em Curitiba. Lembro-me de Fernando Haddad, o vice, passando pela multidão e entrando pelo portão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. Todo mundo dizia que Haddad assumiria a chapa se o TSE rejeitasse a candidatura de Lula. E realmente, Haddad acabou assumindo "no lugar de Lula". Mas era tarde demais para superar Bolsonaro. Considero um erro histórico o PT não ter lançado Haddad à Presidência mais cedo.


Hoje, quatro anos depois, Lula lidera as pesquisas outra vez. Para o petista, seria um sucesso enorme vencer nas urnas. E o Brasil veria algo inédito nas últimas décadas: depois de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff se reelegerem, Bolsonaro seria o primeiro presidente depois da redemocratização incapaz de aproveitar a caneta presidencial para garantir um segundo mandato.

Acontece que, como o governo Bolsonaro acaba de começar a pagar novos benefícios sociais – que incluem o Auxilio Brasil no valor de R$ 600, vale-gás e ajuda financeira para caminhoneiros e taxistas –, ainda é cedo para ver os efeitos disso. Mas me parece óbvio que a grande vantagem de Lula, de entre 12 e 20 pontos percentuais, dependendo da pesquisa, deve cair nas próximas semanas devido aos pagamentos feitos a milhões de famílias de baixa renda. Também deve beneficiar Bolsonaro a melhora de indicadores econômicos como prévia do PIB e desemprego, em meio a uma redução da inflação e – muito importante – do preço da gasolina.

Nesta terça, Bolsonaro lançará sua campanha oficial à reeleição (a não oficial já está em curso desde que ele assumiu a Presidência, em janeiro de 2019) em Juiz de Fora, no mesmo local onde foi esfaqueado em setembro de 2018. Faz parte da aposta "mística" do mito: no local onde Deus o salvou da morte, se dará inicio ao segundo milagre: o de vencer Lula. É o começo da tal "guerra do bem contra o mal" anunciada pelo presidente.

As bases para essa encenação já foram estabelecidas com os discursos religiosos da primeira-dama Michelle Bolsonaro nas últimas semanas. Ela ressuscitou uma antiga fala de Bolsonaro: ele não seria o mais capacitado para ser presidente, mas Deus capacita os escolhidos. Quer dizer, Jair Messias foi a escolha de Deus para liderar a nação brasileira, mesmo não sendo a melhor opção para tal tarefa.

As falas fraquinhas do presidente contrastam com os discursos poderosos de sua esposa. Por que Deus não escolheu logo de cara Michelle como presidente, só Ele deve saber.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Bolsonaro reescreve a história da ditadura

Cascudo é uma pancada dada na cabeça com os nós dos dedos. Quando menino, levei alguns aplicados pela tia Iracema, que se socorria deles para pôr um pouco de ordem entre seus 13 filhos.

Em entrevista ao canal do Youtube Cara a Tapa, Bolsonaro citou “cascudo, tapa ou afogamento” como “coisas erradas” que aconteceram durante os 21 anos da ditadura militar de 64.

Ignorou torturas, mortes e desaparecimentos. Verdade que o afogamento era uma técnica de tortura que consistia em mergulhar um preso num tonel de água até que ele se dispusesse a falar.


Mas não a qualificou de tortura, nem mesmo uma tortura branda. Não era branda. Era violenta como qualquer outro tipo de tortura. Como introduzir um rato vivo na vagina de uma presa. Aconteceu.

Os militares usaram o inexistente “perigo do comunismo” para suprimir a democracia. E da tortura para defender a democracia que simplesmente deixou de existir por um ato de força deles.

A Justiça Militar recebebeu 6.016 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos. Presos foram espancados, estrangulados e submetidos a choques elétricos.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade, cujos trabalhos foram concluídos em 2014, identificou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime militar.

Testemunha do acidente da princesa Diana expõe só agora o que viu naquela noite

Bolsonaro já disse que o número de mortes deveria ter sido muito maior. A seu gosto, pelo menos umas 30 mil. E que seu ídolo foi o coronel Brilhante Ulstra, o único torturador condenado.

Na entrevista, contou que chegou à Câmara dos Deputados em 1991 e que havia por lá “um montão” de beneficiados pela lei da anistia. Descreveu-os assim para negar as torturas da ditadura:

“Apareceram os torturados com a pele mais lisa que a branca de neve. Uns diziam: ‘Ah, me quebraram os ossos todos’. Tira Raio-X do cara e vê se tem algum calo ósseo.”

A ex-presidente Dilma Rousseff foi presa pela ditadura. Ao dar seu voto no processo de impeachment para cassá-la, Bolsonaro exaltou Brilhante Ulstra que havia mandado torturá-la.

É esse sujeito que se diz cristão? Que foi se batizar nas águas do rio Jordão, em Israel, por um pastor evangélico que depois seria preso por corrupção? Que à caça de votos vai a passeatas por Jesus?

Diante da enxurrada de manifestos em defesa da democracia, ele negou que esteja se movimentando para dar um golpe:

“Alguém já viu eu me movimentando com generais por aí, conspirando?”

Evidente que sim. No momento, ele e seus generais tentam desacreditar as urnas eletrônicas e o sistema de apuração de votos para não reconhecer uma eventual derrota em outubro.

Ele ainda convocou o público a ir para o ato de 7 de setembro, mais um ensaio para o golpe:

“Vamos todos, no dia 7 de setembro, estar presentes em Copacabana, onde vamos dar um grito muito forte dizendo a quem pertence a nossa nação e o que nós queremos”.

A nação pertence a todos os brasileiros. Ao jurar a Constituição em sua cerimônia de posse, Bolsonaro afirmou que governaria para todos os brasileiros, não só para os que o elegeram.

O caráter à flor da pele

Mais em opiniões populares do que em textos, há algum consenso quanto à correspondência entre traços faciais de figuras do poder e caráter aberto ao desvario e à corrupção. Diz-se que as inclinações morais lhes transparecem nos rostos, ou, numa expressão corriqueira, que "estão na cara". Mas já houve para isso uma designação culta: fisiognomonia.

Trata-se nada mais nada menos de "leitura facial", ou seja, a hipótese, aceita no passado por muita gente sisuda, de que na estrutura corporal do indivíduo haveria legíveis marcas psicológicas e morais. Imperadores de antigas dinastias chinesas levavam tão a sério a leitura desses sinais que por eles escolhiam seus ministros.

O fenômeno chegou à modernidade. Shakespeare faz Lady MacBeth dizer ao marido: "Teu rosto, meu nobre, é um livro em que os homens podem ler coisas". O que se lia? "Falso, sangrento, enganador, luxurioso." A literatura romanesca é pródiga nas descrições em que as distintas partes corporais revelam características de comportamento, e não apenas visuais, mas táteis: até o medo exalaria um odor específico.

Em outros tempos de estudos jurídicos, ainda circulavam as ideias oitocentistas de Cesare Lombroso, para quem zigomas acentuados, bossas cranianas e maxilares protuberantes indicavam tendências criminosas.


A fisiognomonia sempre foi a ciência prática de caricaturistas. Agora ela tem chance de uma insólita reentrada na cena pública brasileira, em meio à crise ético-política que turva a legitimidade do poder.

Sumindo a credibilidade dos aparatos de Estado, vazam fisicamente os traços de caráter dos dirigentes.

A afecção visual pode ser tão concreta quanto a mental. Um traidor e golpista, agente das sombras, é figurado como vampiro, algo a se temer. Um delirante predador parlamentar, como ratazana voraz. Quando se põe lenha na fogueira do autocratismo, a contrapartida da imaginação coletiva é a representação por arquétipos críticos da encarnação do poder.

Livre para interpretar, o povo "lê", sentindo. Foi assim que um John Kennedy jovial, queimado de sol e maquiado venceu no famoso debate televisivo um Richard Nixon suado e sombrio (26/6/1960). Houve quem achasse melhor a fala de Nixon, mas a cara de Kennedy, imbatível, deu início à era da telegenia.

Entre nós, é hoje notável a força negativa do flagrante defeito: no dirigente que mente contra todas as evidências, o arquétipo da cara de pau despudorada traduz a falha moral. A troca da palavra pelo palavrão, do sorriso pelo deboche, se distorce à flor da pele como, no mamulengo nordestino, os nervos do mau-caráter se mostram à flor do pano. Isso marca ponto no placar de jogo do povo, no qual a fisiognomonia também chuta em gol.

Mentiu porque não o fez. Mente de novo porque não o fará se reeleito.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Pensamento do Dia

 


Dois caminhos errados

As eleições que se aproximam estão sendo movidas quase que exclusivamente pelas paixões políticas, não deixando lugar sequer para um mínimo de competição entre ideias ou projetos. Estes parecem não fazer falta para animar as campanhas ou convencer os eleitores. É o verde contra o vermelho e não é preciso mais nada. As pessoas se reúnem em torno destes símbolos, sem se perguntar muito o seu alcance e o seu significado. Há quem diga, e não sem razão, que muitas vezes ser verde é mais odiar o vermelho do que amar o próprio verde. E vice-versa. No final será uma eleição , como disse alguém, em que a maioria vai votar contra e só uma minoria vai votar a favor.

Uma nação não se sustenta com esses sentimentos puramente negativos. Se continuar assim o país estará se encaminhando para uma encruzilhada existencial. Há dias David Brooks, um excelente colunista do New York Times, discorrendo sobre a complexidade do mundo contemporâneo, concluiu que o principal problema de qualquer sociedade é a ordem : a ordem moral, a legal e a social. Quando falta ordem as sociedades não tem como evoluir, e na verdade retrocedem. Eu acrescento que a ordem que faz evoluir uma sociedade é a ordem cuja fonte é o consentimento coletivo e não a que é imposta verticalmente por meio da autoridade e da força. O Brasil corre hoje o risco de tornar-se um conjunto social incapaz de produzir consensos por meio do compromisso político, uma vasta arena em que reinará apenas a obsessão de vencer, de destruir e de eliminar.


Se é verdade que este clima de paixão e de antagonismo reflete uma realidade mais profunda, que está encarnada no tecido social, os dois candidatos que disputam de fato a eleição, porque concentram a maioria do apoio popular, não tem feito nada para amenizar os conflitos e prometer algum tipo de pacificação no futuro.

A campanha do Presidente Bolsonaro optou por ocupar a agenda política com temas da religião, da moral e da cultura, questões que não se prestam à soluções próprias da política, constituidas pela negociação e pelo compromisso, em que cada lado cede uma parte para se chegar a um denominador comum. Estas questões são de caráter absoluto, dividem as pessoas de modo duradouro e não tem solução por meio da razão. Divisões religiosas e culturais tem sido a maldição de alguns povos, separando irmãos e até derramando sangue inocente. A história nos livrou por séculos desta maldição e cabe agora a nós impedir que ela venha se instalar entre nós.

Do outro lado do campo político, a candidatura do ex-presidente Lula tem como meta principal reconstituir o passado, prometendo voltar aos tempos idílicos dos governos do PT, revogando as mudanças legais implantadas após a interrupção do governo Dilma. A interpretação dos fatos sociais e econômicos está sempre exposta à controvérsias, mas é impossível negar que de 2014 a 2016 o Brasil viveu um verdadeiro desastre, com a maior recessão acumulada de nossa história, com o descontrole da inflação e um grave desarranjo fiscal, tudo isto claramente provocado por erros do governo. O governo Temer foi um periodo de reconstrução do Estado e das empresas públicas e de reformas importantes, cujos efeitos são inequívocamente positivos. Revogar o que foi feito não é um programa para o futuro, mas um movimento francamente reacionário.

De um lado e de outro da luta política não se nota qualquer preocupação com as duas questões essenciais : como voltar a crescer a economia à taxas suficientes para diminuir a pobreza e melhorar o padrão de vida da maioria dos brasileiros e como preparar o país para aproveitar as novas mudanças geopolíticas que estão em marcha e que abrem inesperadamente oportunidades para a reindustrialização do Brasil e sua inserção mais profunda na economia do Ocidente.

Enquanto as oportunidades passam, o debate político pobre e míope impede nosso país de aproveitá-las. Isto nos lembra com tristeza o vaticínio do velho Roberto Campos: o Brasil não perde a oportunidade de perder uma oportunidade.

O demônio da fé dos outros

Como Jair Bolsonaro deve estar informado, sua mulher é ainda mais sem noção do que ele. Com poucas palavras, ela desmontou a fantasia de que o Brasil seja um país tolerante com a diversidade religiosa. “Isso pode, né? Falar de Deus, não”, comentou Michelle no post de uma vereadora dizendo que Lula “entregou a alma para vencer a eleição” e mostrando um vídeo dele na cerimônia de purificação da Irmandade da Boa Morte e Glória, em Cachoeira, na Bahia. O ataque não é contra Lula, o anátema de seu bendito consorte. Lula é um detalhe, porque o sujeito oculto é a religião afro.

Antes perseguida pelas autoridades da Colônia e do Império, pela polícia da República Velha, também pelas forças repressoras de Getúlio, as religiões afro só encontraram compreensão (eufemismo, é claro) em meados do século passado. Se deixaram de ser violentadas pela polícia, ao menos na aparência legal, tornaram-se alvo preferencial desde a ascensão de algumas correntes evangélicas. Mais do que religioso, é ideológico. A cerimônia da Irmandade baiana ocorre há 200 anos.


Como Michelle sabe, num único exemplo, o lendário terreiro Casa Branca, da nação nagô, é reconhecido como patrimônio cultural brasileiro desde 1984. O templo de Guilherme de Pádua, frequentado por ela, não recebeu tamanha honraria.

Michelle, porém, está incorporada a um quadro maior. Melhor: em que momento nasce a crença e se inicia a busca pelo voto?

Vale a pena buscar indícios.

Se Bolsonaro se configurar apenas como um pesadelo de inverno, ao olharmos para este período, certos fatos não deverão ser negados em seu crédito, qual seja, desmentir alguns mitos: 1) o Brasil ser uma terra cordata; 2) racialmente democrática; 3) fraternal com todos os credos; e 4) não existir racismo.

Desde sempre — só alguns empresários não sabiam —, Bolsonaro tratou de escandir seus preconceitos contra os gays, as mulheres e a vida alheia. Se defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, a guerra civil como método político de extermínio dos adversários e a sanguinária ditadura militar brasileira, mesmo sendo “liberdade de expressão”, perpetrou na prática a liberação geral das armas.

— Quero todo mundo armado — já esperneou sua principal política pública.

Como se por acaso o Brasil já não trouxesse a manchete anual sobre homicídios por armas de fogo, cujos principais alvos são os jovens negros. Eis uma política pública. Em pouco mais de três anos, Bolsonaro distribuiu sua parlapatia léxica num exercício diário de deseducação de civilidade. Foi útil. Ajudou o Brasil a deixar de ignorar que, atrás de sua retórica, escondem-se milhões de cidadãos prontos a tuitar preconceitos medievais como se fossem ventríloquos. Até que sua política pública passou a mostrar resultados práticos, com assassinatos a sangue-frio até na plateia de espetáculos musicais.

A linguagem, como Bolsonaro cansou de estudar em vários livros, é uma arma branca capaz de induzir ao amor — ou ao ódio. Não tenho visto muito amor vindo dele ou de seus ventríloquos, como as incendiárias Damares Alves, Carla Zambelli — e agora, Michelle Bolsonaro. A questão: será que atrás de um grande homem sem noção existe uma grande mulher ainda mais sem noção?

Ao mirar o candomblé, Michelle explicitou a perseguição empreendida por certos cultos evangélicos contra as religiões de matriz afro no Brasil. Realçou a intolerância de sua representação diante da diversidade religiosa. Basta uma busca casual pela internet e surgirão centenas de casos de ataques a terreiros e a seus praticantes.

O preconceito da primeira-dama só estimula maior violência contra religiões afro, como o candomblé. Damares e Michelle — são tão parecidas, meu Deus — falam em inferno (não é o preço do tomate) e em luta contra contra o mal (não é a gestão de Pazuello), mas atiçam o povo armado contra seus desafetos religiosos.

É ideológico. E nem é original em seu preconceito. Para fugir dos maus-tratos, os negros escravizados se aproximaram das igrejas e criaram várias irmandades. Como proteção, também, para não ser surrados por chicotadas, aceitavam ser batizados. Para o sincretismo, apenas um passo. Foi um artifício de sobrevivência física e cultural.

Na década de 1940, a antropóloga Ruth Landes — judia, branca e de olhos claros — escreveu o belíssimo e revelador “Cidade das mulheres”. Ciceroneada por Edison Carneiro, percorreu os terreiros de Salvador para construir uma obra precursora que identificava o predomínio das mulheres como mães de santo, quase um matriarcado, a inexistência na religião de preconceito de gênero e nenhum problema com a prática sexual.

Não à toa, Michelles e Damares daquele tempo (sou capaz de imaginar a razão) também espalhavam mentiras diversas, incomodadas com tanta liberdade, ausência de culpa e o dionisíaco sabor pela vida frugal, dedicada de fato ao outro, sem pedir dízimo em troca.

Para combater um tipo de religião tão livre e alegre — seria inveja? —, buscam até hoje, agora com ajuda do aparato presidencial, colocar os seus demônios na fé dos outros.

O Brasil voltará a ser o país do futuro?

No final de 2012 cheguei ao Brasil como correspondente. Queria escrever sobre a nação que então era considerada a mais empolgante do mundo. O Brasil era o "país do futuro", que finalmente florescia para se tornar uma potência política e econômica.

Um país que mostraria ao mundo como pessoas de cores e origens culturais diferentes podem conviver de forma criativa e produtiva. Um país que finalmente aproveitaria seu gigante potencial para gerar prosperidade para todos.

Eu estava enganado. Os últimos dez anos foram anos perdidos. O Brasil tem o estranho hábito de andar em círculos e sempre voltar para o começo. Neste país, as questões mais fundamentais sempre têm que ser negociadas novamente.

Para mim pessoalmente não foram anos perdidos. Pode soar cínico, mas jornalistas vivem de notícias ruins, violência, catástrofes, injustiças e desenvolvimentos negativos. E o Brasil teve mais do que o suficiente disso para oferecer.


Começou em 2013, quando um incêndio na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, matou 242 pessoas e feriu outras 636. A tragédia foi a segunda maior do Brasil em número de vítimas em um incêndio. Foi um alerta para o que estava por vir nos anos seguintes.

Depois de uma década de crescimento econômico, o Brasil começou a mergulhar numa crise. Em meados de 2013, milhões saíram às ruas, a maioria jovens. Eles exigiam um Brasil diferente, mas democrático e mais justo: com melhor educação, serviços de saúde, segurança e transporte público e sem corrupção. Mas os protestos foram criminalizados, a Polícia Militar reagiu com violência, e a mídia transmitiu a falsa impressão de que o radical Black Bloc deu o tom para as manifestações.

Naquele momento havia uma chance de mudanças, de um diálogo social. Ela foi desperdiçada.

Daí veio a Copa do Mundo, com suas muitas promessas quebradas e obras de estádios superfaturadas. Para o Brasil, a Copa acabou com o 7 a 1 contra a Alemanha, que pareceu simbolizar o estado da nação.

No mesmo ano, Dilma Rousseff foi reeleita por margem estreita. A profunda divisão da sociedade brasileira ficava evidente. A direita começou uma campanha contra Dilma e o PT, e, como resultado, milhões voltaram às ruas – desta vez não para protestar por um país mais justo, mas pelo impeachment da presidente democraticamente eleita. O que começou como algo progressista em 2013 acabou se transformando em algo reacionário em 2015.

As investigações da Lava Jato começaram no início de 2014 e trouxeram à tona um dos maiores escândalos de corrupção da América Latina. Uma grande parte da classe política e da elite econômica do país estava envolvida, e semana após semana novas revelações chocavam o país. Junto com a crise política e econômica, o sentimento de uma crise moral profunda se espalhava.

Em novembro de 2015, uma barragem de rejeitos de mineração se rompeu em Mariana, Minas Gerais. O desastre matou 18 pessoas e contaminou o rio Doce. E muitos se perguntaram se outras barragens da indústria mineradora brasileira eram seguras.

O ano de 2016 foi marcado pelo processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Como nenhum envolvimento da presidente no escândalo da Lava Jato pôde ser comprovado, foram construídas acusações que em circunstâncias normais não teriam levado à destituição.

Nos bastidores, também se tratava de parar as investigações da Lava Jato, que Dilma tinha deixado correr livremente. Os investigadores chegaram perto de figuras poderosas do Centrão – formado por partidos do suposto centro político, mas que na verdade existe para garantir a certos clãs o acesso ao poder e a verbas estatais. "Estancar a sangria" foi a expressão que o senador do então PMDB Romero Jucá usou no contexto do impeachment de Dilma. Após a destituição da presidente, Michel Temer, desse PMDB, assumiu o poder e nomeou um gabinete formado exclusivamente por homens brancos.

O Centrão e a Globo, que havia feito alarde pelo impeachment, calculavam que nas eleições presidenciais seguintes um candidato adepto do liberalismo econômico sairia vencedor. Raramente uma estratégia deu tão errado.
Bolsonaro e a política da desconstrução

Em 2017, a política de pacificação das favelas cariocas fracassou de vez. E ficou a fatal impressão de que ela só foi desenhada para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, ou seja, de que foi "para inglês ver".

Em setembro de 2018, o Museu Nacional no Rio de Janeiro foi palco de um incêndio. O fogo foi provocado por um velho ar-condicionado, não havia proteção contra incêndio no edifício e os hidrantes ao redor não tinham água. O Brasil viu a própria história queimar. O incêndio foi como um símbolo da eleição do outsider e extremista de direita Jair Bolsonaro para a Presidência no mês seguinte. Pouco depois de tomar posse, Bolsonaro disse, durante uma visita a Washington, que o sentido de seu governo não era construir coisas, mas desconstruir.

Bolsonaro cortou verbas para a educação, a saúde e a preservação ambiental. Um resultado: a Amazônia queimou em proporções devastadoras em 2019. A catástrofe chamou a atenção mundo afora quando uma nuvem de cinzas escureceu o céu sobre São Paulo. Desde então, a cada ano mais floresta é desmatada para dar lugar a pastagens de gado de plantações de soja, e os rios da Amazônia são contaminados com mais mercúrio do garimpo ilegal. E o governo Bolsonaro estende sua mão protetora sobre os que se beneficiam da destruição.

Em janeiro de 2019, quase quatro anos depois do desastre de Mariana, se rompeu uma barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho, Minas Gerias. No total, 270 pessoas foram soterradas, entre elas duas grávidas. A mina em questão pertencia à Vale, gigante do setor. Os responsáveis sabiam dos riscos, mas não agiram para economizar custos.

No início de 2020, a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil. Quase 700 mil pessoas morreram da doença desde então. Poderiam ter sido muito menos, se o governo Bolsonaro não tivesse sabotado os esforços de autoridades locais para conter a pandemia. O governo federal demorou, por exemplo, a comprar vacinas. Durante a pandemia, a pobreza voltou a aumentar drasticamente, e milhões de brasileiros só conseguiram sobreviver graças a doações de cestas básicas. Ficou claro mais uma vez quão precária é a situação de grande parte da população do Brasil, um país que na verdade é tão rico.

A seca persistente desde 2018 no Pantanal, um dos cinco grandes ecossistemas do Brasil e internacionalmente famoso por sua diversidade de espécies, levou a incêndios devastadores em 2020. Quase 17 milhões de animais vertebrados morreram. Até hoje chove pouco na região alagada, uma consequência da mudança climática e do desmatamento na Bacia Amazônica.

Em 2021, a favela do Jacarezinho foi palco da ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. Vinte e oito pessoas foram mortas a tiros, algumas executadas. O massacre foi tematizado brevemente na mídia, para logo cair novamente no esquecimento. Desde que vivo no Brasil, chacinas assim se repetem. Mas nada muda.

Em 2022, a fome voltou com tudo no Brasil, segundo as Nações Unidas. São 61 milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades para se alimentar; 15 milhões deles passam fome.

A poucas semanas das eleições, Bolsonaro, que está atrás nas pesquisas, voltou a afirmar que as urnas eletrônicas não são seguras, sem apresentar provas. Bolsonaro quer dizer que, se ele não ganhar, os militares terão que intervir. Pela primeira vez desde a redemocratização, há novamente o medo de um golpe.

O Brasil ficou extremamente polarizado nos últimos anos, uma fenda se abriu. Hoje são dizíveis coisas que antes não eram. Mentiras e xingamentos se tornaram algo normal. E muitas vezes acabam em violência. Também a fenda entre ricos e pobres voltou a se aprofundar. A destruição do meio ambiente aumentou, e, graças a Bolsonaro, a máfia ambiental está mais forte do que nunca. Milhões de brasileiros se armaram. As igrejas evangélicas são mais influentes do que nunca e propagam suas superstições junto com suas visões políticas ultraconservadoras.

Nas eleições de outubro também está em jogo se, após dez anos de crise que deixaram claros os déficits do país, o Brasil tem força para novamente se erguer. O país quer continuar caminhando para trás ou ousar dar um passo rumo ao futuro?

Os sete saberes necessários à educação do futuro

Os sete saberes necessários à educação do futuro não têm nenhum programa educativo escolar ou universitário, e aliás não está concentrado no primário, nem no secundário, nem no ensino universitário, mas aborda problemas específicos para cada um desses níveis que precisam ser apresentados, porque dizem respeito aos sete buracos negros da educação completamente ignorados, subestimados ou fragmentados nos programas educativos, que, na minha opinião, devem ser colocados no centro das preocupações da formação dos jovens que, evidentemente, se tornarão cidadãos.

O primeiro buraco negro diz respeito ao conhecimento. Por quê? Porque, naturalmente, o ensino dá conhecimento, fornece conhecimento, saberes. Porém, nunca se ensina o que é o conhecimento, apesar de ser muito importante saber o que é o conhecimento, tendo em vista que nós sabemos que o problema chave do conhecimento é o erro e a ilusão.

Ao examinarmos as crenças do passado, concluímos que a maioria delas contém erros e ilusões, mesmo quando pensamos há vinte anos atrás e constatamos como erramos e nos iludimos sobre o mundo e a realidade. E por que isso é tão importante? Porque o conhecimento nunca é um reflexo ou espelho da realidade. O conhecimento é sempre uma tradução, seguida de uma reconstrução. Mesmo no fenômeno da percepção em que os olhos recebem estímulos luminosos que são transformados, decodificados, transportados a um outro código, e esse código binário transita pelo nervo ótico, atravessa várias partes do cérebro e isto é transformado em percepção, logo a percepção é uma reconstrução. Tomemos o exemplo da percepção constante que é a imagem do ponto de vista da retina: as pessoas que estão perto, parecem muito maiores do que aquelas que estão mais distantes, pois, a distância, o cérebro não registra e reconstitui uma dimensão idêntica para todas as pessoas, assim como os raios ultravioletas e infravermelhos que nós não vemos, mas sabemos que eles estão aí e nos impõem uma visão segundo as suas incidências. Portanto, temos percepções, ou seja, reconstruções, traduções da realidade, e toda tradução comporta o risco de erro, como dizem os italianos “tradotore/traditore”.

Assim como sabemos também que não há nenhuma diferença intrínseca entre uma percepção e uma alucinação. Por exemplo: se tenho uma alucinação e vejo Napoleão ou Júlio César, não há nada que me diga que estou enganado, exceto o fato de saber que eles estão mortos. Mas são os outros que vão me dizer se o que vejo é verdade ou não, quero dizer com isso que estamos sempre ameaçados pela alucinação. Até nos processo de leitura, por exemplo, isto acontece. Nós sabemos que não seguimos a linha do que está escrito, pois, às vezes, nossos olhos saltam de uma palavra para outra, ou um grupo de palavras e reconstrói o conjunto de uma maneira quase alucinatória, ou seja, neste momento é o nosso espírito que colabora com o que nós lemos. E não reconhecemos os erros porque deslizamos neles, é o mesmo que acontece, por exemplo, quando há um acidente de carro, as versões e as visões do acidente são completamente diferentes, principalmente, pela emoção e o fato das pessoas estarem em ângulos diferentes.


No plano histórico há erros, se me permitem o jogo de palavras, histéricos. Tomemos um exemplo um pouco distante de nós; os debates sobre a Primeira Guerra Mundial, uma época em que a França e a Alemanha tinham partidos socialistas fortes, potentes e muito pacifistas, e que, evidentemente, eram contrários a guerra que se anunciava, mas, do momento em que se desencadeou a guerra, os dois partidos se lançaram, massivamente, a uma campanha de propaganda cada um imputando ao outro os atos mais ignóbeis, isto durou até o fim da guerra. Hoje, podemos constatar com os eventos trágicos do Oriente Médio a mesma maneira de tratar a informação, cada um do seu lado prefere camuflar a parte que lhes é desvantajosa para colocar em relevo a parte criminosa do outro.

Este problema se apresenta de uma maneira perceptível e muito evidente, porque as traduções e as reconstruções são também um risco de erro e muitas vezes o maior erro é de pensar que a ideia é a realidade, tomar a ideia como algo real é confundir o mapa com o terreno.

Outras causas de erro são as diferenças culturais, sociais e de origem. Cada um pensa que suas idéias são as mais evidentes e esse pensamento leva à idéias normativas e as que não estão dentro desta norma, que não são consideradas normais, são julgadas como um desvio patológico e são rejeitadas como ridículas, não somente no domínio das grandes religiões ou das ideologias políticas, mas também das ciências, quando Watson e Crick decodificaram a estrutura do código genético, o DNA (ácido deoxyribonucleico), que surpreendeu e escandalizou a maioria dos biólogos que não pensavam que isto poderia ser transcrito em moléculas químicas. Foi preciso muito tempo para que essas idéias pudessem ser impostas e aceitas. Na realidade as idéias adquirem consistência como os deuses nas religiões, é algo que nos envolvem e nos dão ordens e nos dominam a ponto de nos levar a matar ou morrer. Lenin dizia: “Os fatos são teimosos, mas na realidade as idéias são ainda mais teimosas do que os fatos e resistem aos fatos durante muito tempo”. Portanto, o problema do conhecimento não deve ser um problema restrito aos filósofos, é um problema de todos e que cada um deve levá-lo em conta muito cedo e explorar as possibilidades de erro para ter condições de ver a realidade, porque não existe receita milagrosa.

O segundo buraco negro é que não ensinamos as condições de um conhecimento pertinente, isto é, de um conhecimento que não mutila o seu objeto. Por que? Porque nós seguimos em primeiro lugar, um mundo formado pelo ensino disciplinar e é evidente que as disciplinas de toda ordem que ajudaram o avanço do conhecimento são insubstituíveis, o que existe entre as disciplinas é invisível e as conexões entre elas também são invisíveis, isto não significa que seja necessário conhecer somente uma parte da realidade, é preciso ter uma visão que possa situar o conjunto. É necessário dizer que não é a quantidade de informações, nem a sofisticação em Matemática que podem dar sozinhas um conhecimento pertinente, é mais a capacidade de colocar o conhecimento no contexto.

A economia, que é das ciências humanas, a mais avançada, a mais sofisticada, tem um poder muito fraco e erra muitas vezes nas suas previsões, porque está ensinando de um modo que privilegia o cálculo e esquece todos os outros fatores, os aspectos humanos; sentimento, paixão, desejo, temor, medo. Quando há um problema na bolsa, quando as ações despencam, aparece um fator totalmente irracional que é o pânico, que, freqüentemente, faz com que o fator econômico tenha a ver com o humano, e por sua vez se liga à sociedade, à psicologia, à mitologia. Essa realidade social é multidimensional, o econômico é uma dimensão dessa sociedade, por isso, é necessário contextualizar todos os dados.

Se não houver os conhecimentos históricos e geográficos para contextualizar, cada vez que aparece um acontecimento novo que nos faz descobrir uma região desconhecida, como o Kosovo, o Timor ou Serra Leoa, não entendemos nada. Portanto, o ensino por disciplina, fragmentado e dividido, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar, é essa capacidade que deve ser estimulada e deve ser desenvolvida pelo ensino de ligar as partes ao todo e o todo às partes. Pascal dizia, já no século XVII, e que ainda é válido: “Não se pode conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo sem conhecer as partes”.

O contexto tem necessidade, ele mesmo, de seu próprio contexto e, atualmente, o conhecimento deve se referir ao global. O global sendo, bem entendido, a situação de nosso planeta, onde, evidentemente, os acidentes locais têm repercussão sobre o conjunto e as ações do conjunto sobre os acidentes locais, o que foi comprovado depois da guerra do Iraque, da guerra da Iugoslávia e atualmente com o conflito do Oriente Médio.

O terceiro aspecto é a identidade humana. É curioso que nossa identidade seja completamente ignorada pelos programas de instrução. Podemos perceber alguns aspectos do homem biológico em Biologia, alguns aspectos psicológicos em Psicologia, mas a realidade humana é indecifrável. Somos indivíduos de uma sociedade e fazemos parte de uma espécie. Mas estamos em uma sociedade e a sociedade está em nós, pois desde o nosso nascimento a cultura se imprime em nós. Nós somos de uma espécie, mas ao mesmo tempo a espécie é em nós e depende de nós. Se nos recusamos a nos relacionar sexualmente com um parceiro de outro sexo nós acabamos com a espécie. Portanto, o relacionamento entre indivíduo-sociedade-espécie é como a trindade divina, um dos termos gera o outro e um se encontra no outro. A realidade humana é trinitária.

Eu creio que se pode fazer convergir todas as ciências sobre a identidade humana. Um certo número de agrupamento disciplinar vai favorecer esta convergência. É necessário reconhecer que na segunda metade do século XX, houve uma revolução científica, reagrupando as disciplinas em ciências pluridisciplinares. Assim, há a cosmologia, as ciências da terra, a ecologia e a pré-história. Tome-se a cosmologia que, efetivamente, utiliza a microfísica, os aceleradores de partículas para imaginar os primeiros segundos do universo, utiliza a observação e pratica uma reflexão filosófica sobre o mundo como Hubert Reeves, como Hawkins, como Michel Cassé e tantos outros. Eles refletem sobre o universo incrível no qual vivemos. Mas o que é importante para a identidade humana, é saber que estamos neste minúsculo planeta perdidos no cosmos. Nossa missão não é mais a de conquistar o mundo como acreditava Descartes, Bacon e Marx. Nossa missão se transformou em civilizar o pequeno planeta em que vivemos.

Por outro lado, as ciências da terra nos inscrevem neste planeta que é formado por fragmentos, fragmentos cósmicos de uma explosão de sóis anteriores e resta saber como estes fragmentos reunidos, aglomerados puderam criar uma tal organização, uma auto-organização para nos dar este planeta. É necessário mostrar que ele gerou a vida, e a nós somos; filhos da vida. A biologia, a teoria da evolução, nos prova como nós trazemos dentro de nós efetivamente o processo de desenvolvimento da primeira célula vivente que se multiplicou e se diversificou. Quando sonhamos sobre nossa identidade, devemos pensar que temos partículas que nasceram no despertar do universo, temos os átomos de carbono que se formaram em sóis anteriores ao nosso, pelo encontro de três núcleos de hélio que se constituíram em moléculas e neuromoléculas na terra. Somos filhos do cosmo, mas nos transformamos em estranhos pelo nosso conhecimento e pela cultura.

Portanto, é preciso ensinar a unidade dos três destinos, porque somos indivíduos, mas como indivíduos somos cada um, um fragmento da sociedade e da espécie homo sapiens a qual pertencemos, e o importante é que somos uma parte da sociedade, uma parte da espécie, seres desenvolvidos sem os quais a sociedade não existe, a sociedade só vive dessas interações.

É importante, também mostrar que, ao mesmo tempo que o ser humano é múltiplo, existe a sua estrutura mental que faz parte da complexidade humana, isto é, ou vemos a unidade do gênero e esquecemos a diversidade das culturas, dos indivíduos, ou vemos a diversidade das culturas e não vemos a unidade do ser humano. Esse problema vem causando polêmicas desde o século XVIII, quando Voltaire disse: “Os chineses são iguais a nós, têm paixões, choram”. E Herbart, o pensador alemão, afirmou: “Entre uma cultura e outra não há comunicação, os seres são diferentes”. Os dois tinham razão, mas na realidade essas duas verdades têm que ser articuladas, nós temos os elementos genéticos da nossa diversidade e, é claro, os elementos culturais da nossa diversidade.


È preciso lembrar que rir, chorar, sorrir, não são atos aprendidos ao longo da educação, são inatos e modulados de acordo com a educação. Heigerfeld fez uma observação sobre uma jovem surda, muda de nascença que ria, chorava e sorria. Atualmente, estudos demonstram que o feto começa a sorrir no ventre da mãe, talvez, porque não saiba o que o espera depois…

Mas isso nos permite entender a nossa realidade, nossa diversidade e singularidade. Chegamos, então, ao ensino da literatura e da poesia, elas não devem ser consideradas como secundárias e não essenciais. A literatura é para os adolescentes uma escola de vida e meio para se adquirir conhecimentos. As ciências sociais vêem categorias e não indivíduos sujeitos a emoções, paixões e desejos. A literatura, ao contrário, como nos grandes romances de Tolstoi, aborda o meio social, o familiar, o histórico e o concreto das relações humanas com uma força extraordinária.

Podemos dizer que as telenovelas também nos falam sobre problemas fundamentais do homem; o amor, a morte, a doença, o ciúme, a ambição, o dinheiro. Temos que entender que todos esses elementos são necessários para entender que a vida não é aprendida somente nas ciências formais e a literatura tem a vantagem de refletir a complexidade do ser humano e a quantidade incrível de seus sonhos. Como James Joyce, por exemplo, que ao criar um personagem, mostrava que uma pessoa pode ter sentimentos totalmente diversos. Ou como o herói de Dostoïewsky, em O Idiota que não sabe se a jovem está apaixonada por ele e no fim da trama, depois de ter sofrido muito, encontra um amigo que lhe diz: “mas que imbecil você é, não entendeu que ela o ama”. Isto pode acontecer com qualquer pessoa, a dificuldade de saber o que o outro pensa e sente.

Marcel Proust mostrou em Um amor de Swan, o que ele chamava de intermitências do coração, que uma pessoa pode se apaixonar, esquecer se da pessoa desejada e voltar a amá-la. Neste romance o herói sofre durante anos de ciúmes por causa de uma mulher e quando ele não está mais apaixonado, ele diz: “mas eu sofri tanto por uma mulher que não me amava e que nem era meu tipo”. Então, podemos compreender a complexidade humana através da literatura, enquanto que a poesia nos ensina a qualidade poética da vida, essa qualidade que nós sentimos diante de fatos da realidade. Como, por exemplo, os espetáculos da natureza: o céu de Brasília que é tão bonito. É essa poesia que nos dá força e nos ensina a qualidade poética da vida, porque ela não é somente uma prosa que se deve fazer por obrigação. A vida é viver poeticamente na paixão, no entusiasmo.

Para que isso aconteça devemos fazer convergir todas as disciplinas conhecidas para identidade e para a condição humana, ressaltando a noção de homo sapiens; o homem racional e fazedor de ferramentas, que é, ao mesmo tempo, louco e está entre o delírio e o equilíbrio no mundo da paixão em que o amor é o cúmulo da loucura e da sabedoria. O homem não se define somente pelo trabalho, mas pelo jogo. Não só as crianças gostam de jogar, os adultos também gostam e por isso vemos partidas de futebol. Nós somos homo ludens pois não existe apenas o homo economicus que só vive em função do interesse econômico. Há, também o homo mitologicus, isto é, vivemos em função de mitos e crenças. Enfim, há o homem prosaico e poético, como dizia Hölderling: “O homem habita poeticamente na terra, mas também prosaicamente e se a prosa não existisse, não poderíamos desfrutar da poesia”.

O quarto aspecto é sobre a compreensão humana. Nunca se ensina sobre compreender uns aos outros, como compreender nossos vizinhos, nossos parentes, nossos pais. O que significa compreender? A palavra compreender vem de compreendere em latim, que quer dizer: colocar junto todos os elementos de explicação, quer dizer, não ter somente um elemento de explicação, mas diversos. Mas a compreensão humana vai além disso, porque na realidade ela comporta uma parte de empatia e identificação, o que faz com que se compreenda alguém que chora, por exemplo, não é analisando as lágrimas no microscópios, mas porque sabe-se do significado da dor, da emoção, por isso é preciso compreender a compaixão que quer dizer sofrer junto, é isto que permite a verdadeira comunicação humana.

No entanto, há os verdadeiros inimigos da compreensão, porque não existe a preocupação de ensiná-la. Na realidade, isto está se agravando, cada vez o individualismo aparece mais, estamos vivendo numa sociedade individualista, que favorece o sentido de responsabilidade individual, que desenvolve o egocentrismo, o egoísmo que, consequentemente, alimenta a auto-justificação e a rejeição ao próximo.

A raiva leva a vontade de eliminar o outro e tudo que pode aborrecer, e de certa maneira isto favorece ao que os ingleses chamam de self-deception, isto é, mentir a si mesmo, pois o egocentrismo vai tramando sempre o negativo e esquecendo dos outros elementos. A redução do outro é o que impede a compreensão, a visão unilateral, a falta de inteligência da complexidade humana. Outro aspecto da incompreensão é a indiferença que nos bloqueia a compreensão. E, por este lado, é interessante abordar o cinema, que os intelectuais acusam de alienante, mas que é uma arte que ensina a superar a indiferença, pois transforma em heróis, os invisíveis sociais, ensinando a vê-los por um outro prisma, como por exemplo, Charlie Chaplin que sensibilizou platéias inteiras com o seu personagem do vagabundo, ou Coppola, quando popularizou os chefes da Máfia com “O Chefão”, ou a complexidade dos personagens de Shakspeare: reis, gangsters, assassinos e ditadores. No cinema como na filosofia de Heráclito: “Despertados, eles dormem”. Estamos adormecidos, apesar de despertos, pois diante da realidade tão complexa, mal percebemos o que se passa ao nosso redor.

Por isso, é importante este quarto ponto: compreender não só os outros como a si mesmo, a necessidade de se auto-examinar, de analisar a auto-justificação, pois o mundo está cada vez mais devastado pela incompreensão que é o câncer do relacionamento entre os seres humanos.

O quinto aspecto é a incerteza, apesar de ensinar-se só as certezas: a gravitação de Newton, o eletromagnetismo. Atualmente, a ciência abandonou determinados elementos mecânicos para assimilar o jogo entre certeza e incerteza da micro-física às ciências humanas. É necessário mostrar em todos os domínios sobretudo na história o surgimento do inesperado. Eurípides dizia no fim de três de suas tragédias que: “os deuses nos causam grandes surpresas, não é o esperado que chega e sim o inesperado que nos acontece”. Ou mesmo a velha idéia de 2.500 anos, nós esquecemos sempre.

As ciências mantêm diálogos entre dados sobre os quais se podem basear para dados hipotéticos, outros dados que parecem mais prováveis e os incertos. Os processos físicos ou não pressupõem variações que nos levam a desordem caótica ou para a criação de uma nova organização, como nas teorias sobre a incerteza de Prigogine, baseadas nos exemplos dos turbilhões de Born. Ou, analisando retroativamente a história da vida, constata-se que ela não foi linear, que não teve uma evolução de baixo para cima. A evolução segundo Darwin foi uma evolução composta de ramificações a exemplo do mundo vegetal e o mundo animal.

O homem vem de uma dessas ramificações e conseguiu chegar a consciência e a inteligência, mas não somos a meta da evolução, fazemos parte desse processo, o que quer dizer que a história da vida foi marcada por catástrofes. No fim da era secundária com a queda do asteróide que provocou um desastre, matou os dinossauros e ressecou a vegetação desses animais enormes, matando-os de fome e, por conseqüência dando oportunidade à proliferação dos mamíferos. Assim também nas sociedades humanas, nenhuma sociedade antiga sobreviveu, nem mesmo o império romano que parecia eterno. Todas sofreram o colapso por uma razão ou outra. As sociedades andinas que eram mais potentes que seus colonizadores espanhóis e cujas capitais eram muita mais ricas que Paris, Madri ou Lisboa foram destruídas por espanhóis que chegaram com cavalos e armas desconhecidas.

As duas guerras mundiais destruíram muito na metade do século XX, depois da Primeira Guerra Mundial, os três grandes impérios: romanootomano, austro-húngaro e soviético desapareceram.

Isto nos demonstra a necessidade de ensinar o que chamamos de ecologia da ação: a atitude que se toma quando uma ação é desencadeada e escapa ao desejo e às intenções daquele que a provocou, desencadeando influências múltiplas que podem desviá-las até o sentido oposto ao intencionado. A história humana está repleta de exemplos dessa natureza. O mais evidente no final do século XX foi o projeto político de Gorbatchev que pretendeu reformar o sistema político da União Soviética, mas provocou o começo de sua própria desagregação e implosão. Assim tem acontecido em todas as etapas da história, o inesperado aconteceu e acontecerá, porque não temos futuro e não temos certeza nenhuma do futuro. As previsões não foram concretizadas, não existe determinismo do progresso. Portanto, os espíritos têm que ser fortes e armados para afrontarem essa incerteza e não se desencorajarem. Essa incerteza é uma incitação à coragem. A aventura humana não é previsível, mas o imprevisto não é totalmente desconhecido. Somente agora, se admite que não se conhece o destino da aventura humana. É necessário tomar consciência de que as futuras decisões devem ser tomadas contando com o risco do erro e estabelecer estratégias que possam ser corrigidas no processo da ação, a partir dos imprevistos e das informações que se tem.

O sexto aspecto é a condição planetária, sobretudo na era da globalização no século XX, que começou, na verdade no século XVI com a colonização da América e a interligação de toda a humanidade, esse fenômeno que estamos vivendo hoje em que tudo está conectado, é um outro aspecto que o ensino ainda não tocou, assim como o planeta e seus problemas, a aceleração histórica, a quantidade de informação que não conseguimos processar e organizar.

Este ponto é importante porque estamos num momento em que existe um destino comum para todos os seres humanos, pois o crescimento da ameaça letal como a ameaça nuclear se expande em vez de diminuir, a ameaça ecológica, a degradação da vida planetária. Ainda que haja uma tomada de consciência de todos esses problemas, ela é tímida e não conduziu a nenhuma decisão efetiva, por isso, devemos construir uma consciência planetária.

Conhecer o nosso planeta é difícil: os processos de todas as ordens, econômicos, ideológicos, sociais estão de tal maneira imbricados e são tão complexos que é um verdadeiro desafio para o conhecimento. Já é difícil saber o que acontece no plano imediato. Ortega y Gasset dizia: “Não sabemos o que acontece, isto é o que acontece”, é necessário uma certa distância em relação ao imediato para poder compreende-lo e atualmente em que tudo é acelerado e tudo é complexo, é quase impossível. Mas, é preciso mostrar, é esta a dificuldade; é necessário ensinar que não é suficiente reduzir a um só a complexidade dos problemas importantes do planeta como a demografia, ou a escassez de alimentos, ou a bomba atômica ou a ecologia. Os problemas estão todos amarrados uns aos outros. Sobretudo, há, daqui em diante, os problemas de vida e morte para a humanidade, como a arma nuclear, como a ameaça ecológica, como o desencadeamento dos nacionalismos acentuados pelas religiões. É preciso mostrar que a humanidade vive agora uma comunidade de destino comum.

O último aspecto é o que vou chamar de antropo-ético, porque os problemas da moral e da ética diferem entre culturas e na natureza humana. Existe um aspecto individual, social e genérico, diria de espécie, uma espécie de trindade em que as terminações são ligadas: a antropo-ética, a ética que corresponde ao ser humano desenvolver e ao mesmo tempo, uma autonomia pessoal – as nossas responsabilidades pessoais – e desenvolver uma participação social – as responsabilidades sociais – e a nossa participação no gênero humano, pois compartilhamos um destino comum.

A antropo-ética tem um lado social que não tem sentido se não for na democracia, porque na democracia o cidadão deve se sentir solidário e responsável e permite uma relação indivíduo-sociedade. A democracia em princípio deve controlar, o controlado passa a controlar quem controlava e deve tomar para si responsabilidades por meio de eleições o que permite aos cidadãos exercerem suas responsabilidades. Evidentemente, não existe democracia absoluta, ela é sempre incompleta, mas sabemos que vivemos em uma época de regressão democrática porque existe, cada vez mais, o poder tecnológico que agrava os problemas econômicos, mas na verdade, é importante orientar e guiar essa tomada de consciência social que leva à cidadania para que o indivíduo exerça sua responsabilidade.

Por outro lado, está se desenvolvendo a ética do ser humano com as associações não-governamentais, como os Médicos Sem Fronteiras, o Green Pace, a Aliança pelo Mundo Solidário e tantas outras que trabalham acima de denominações religiosas, políticas ou de Estados nacionais assistindo aos países ou às nações que estão sendo ameaçadas ou em graves conflitos. Devemos conscientizar todos dessas causas tão importantes, pois estamos falando do destino da humanidade.

Seremos capazes de civilizar a terra e fazer com que ela se torne uma verdadeira pátria? Estes são os sete saberes necessários ensinar, não digo isso para modificar programas. Na minha opinião não temos que destruir disciplinas, mas temos que integrá-las, reuni-las uma as outras em uma ciência como as ciências estão reunidas, como, por exemplo, as ciências da terra, a sismologia, a vulcanologia, a meteorologia, todas elas, articuladas em uma concepção sistêmica da terra. Penso que tudo deve estar integrado, para permitir uma mudança de pensamento que concebe tudo de uma maneira fragmentada e dividida e impede de ver a realidade. Essas visão fragmentada faz com que os problemas permaneçam invisíveis para muitos, principalmente para muitos governantes.

E, hoje, que o planeta já está ao mesmo tempo unido e fragmentado começa a se desenvolver um ética do gênero humano para que possamos superar esse estado de caos e iniciar, talvez, a civilizar a terra.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Auxílio Brasil


 

Alguma novidade ou mais do mesmo?

Sempre temo aborrecer meus leitores, e não é para menos, pois tenho cansativamente martelado três teclas: a estagnação econômica, cujos efeitos de médio prazo nunca aparecem no debate político; o imperativo de uma reforma política, sem a qual não iremos a parte alguma; e a necessidade de defender a democracia contra certas tendências autocráticas recentes, esforço esse que, felizmente, agora apareceu, e com o devido vigor.

O que me leva a retomar hoje esses temas é evidentemente a campanha eleitoral. Outubro está logo ali à frente. Ouviremos alguma novidade ou só mais do mesmo? Os dois candidatos que lideram as pesquisas e outros que possam subir têm consciência do que nos espera se permanecermos neste marasmo? Sabem que o mundo inteiro crescerá menos e terá inflação mais alta nos próximos dois anos? Percebem que estamos aprisionados na “armadilha do baixo crescimento”, que condenará uma geração inteira à mesma mediocridade, se não for superada o quanto antes?


Estou ciente de que o leitor está cansado de indagações; quer respostas. Mas a mim cabe perguntar se algum dos candidatos gastou ou pretende gastar pelo menos uma noite estudando os problemas mais graves que nos afligem. Tenho de perguntar porque, como reza o ditado, de onde menos se espera é que não sai nada mesmo. O Congresso, por exemplo, brindou-nos durante o mês de julho com duas pérolas: o “estado de emergência”, que a Constituição desconhece, a fim de turbinar com mais R$ 41 bilhões a campanha do sr. Bolsonaro; e o “orçamento secreto”, este obviamente inútil para a governabilidade, mas notável como contribuição à comicidade nacional.

Faço-lhes uma confissão. Foi quase por acidente que resolvi repetir hoje provocações que venho fazendo já há algum tempo. Espiando meio a esmo minha estante, detive-me no livro Preparing for the Twenty-First Century (Preparando-se para o século 21), do economista americano Paul Kennedy. Trata-se de um abrangente estudo sobre as grandes mudanças que estão transformando o mundo, que certamente trarão coisas boas, mas também graves ameaças, sobretudo para os países mais vulneráveis. Detalhe: o livro foi publicado em 1993. Isso mesmo: 1993! Vinte e nove anos antes da música cacofônica que, salvo melhor juízo, seremos forçados a ouvir nos próximos dois meses.

Nas três ou quatro curtas passagens que dedica à América Latina, Paul Kennedy revela ser uma alma caridosa. Ao mencionar o Brasil e a Argentina (página 206), por exemplo, ele escreve que um obstáculo à recuperação econômica é o precário (“unimpressive”) desempenho do sistema educacional. “Isso não se deve a uma falta de escolas e universidades, como em certas partes da África. Muitos países latino-americanos têm amplos sistemas de educação pública, dezenas de universidades e altas taxas de alfabetização. O Brasil, por exemplo, tem 68 universidades; a Argentina, 41. O problema real são o descaso e a falta de investimento” (esta, mais na Argentina). Esse trecho permite-nos cogitar que não foi propriamente uma caridade de alma o que levou Kennedy a fazer tal avaliação, e sim o fato de o haver escrito quase 30 anos atrás. Realmente, ele não poderia ter antevisto para que serviria o prédio do Ministério da Educação no governo Bolsonaro, no qual várias coisas parecem ter acontecido, menos políticas educacionais sérias.

Serei breve no tocante à reforma política, pois a esta altura ninguém supõe que um milagre dessa ordem possa acontecer num governo notoriamente populista – como será o de Lula ou o de Bolsonaro, se o favoritismo deles nas pesquisas se confirmar. O que podemos afirmar com certeza é que algumas pérolas serão servidas aos jornalistas, como todo ano acontece. Outro dia, o deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, referiu-se a um tema sobre o qual deve ter meditado por anos a fio: as excelências do “semipresidencialismo” francês. Fosse eu uma alma malévola, insinuaria que a inclinação gaulesa de Sua Excelência deve ser o “semi”, pois é certo que nós, brasileiros, somos meio aristotélicos, sempre achamos que a virtude, o equilíbrio, a moderação, enfim, todas as coisas boas devem ser procuradas no meio.

Quem observar atentamente a estrutura política brasileira logo concluirá que atingimos a quadratura do círculo. No que concerne ao Executivo, parece que consagramos ad aeternum nossa teratológica combinação do presidencialismo com o populismo. São irmãos siameses, amarrados um ao outro por uma crença deveras infantil: a de que um Executivo unipessoal e crescentemente autocrático imprime consistência e legitimidade ao Estado. Com sua recente descoberta não-constitucional do “estado de emergência”, o Senado decidiu que transferências de renda não precisam ter limite e que não há mal algum em violar as regras do jogo eleitoral às vésperas de um pleito presidencial. Fugindo um pouco ao seu estilo, o senador José Serra se referiu a essa histórica decisão como uma prova de que, finalmente, o Senado se dera conta de que existe fome no Brasil.

Hoje como ontem

Nas eleições de 2018, produzi neste espaço alguns textos que, embora ingênuos e quase nunca agressivos, acabaram provocando reações diversas e adversas, sendo algumas bastante ameaçadoras. Hoje, quatro anos depois, releio esses artigos e fico pensando em como tudo piorou tanto. Fico pensando em como se comportam hoje os que me ameaçaram em 2018 por quase nada. Será que devo até me esconder deles?

No último daqueles textos antigos, eu escrevia amedrontado: “Pense bem no que você vai fazer no próximo fim de semana. Quer dizer, pense bem em como você vai votar no domingo, em quem e por quê.” E eu acrescentava que “não gostaria que o Brasil passasse por um recuo político e ético como o que está sendo prometido pelo provável vencedor e seus apoiadores.” Não deu outra.


Mas não era disso que eu queria falar. Outros jornalistas, escritores e palpiteiros, sobretudo no mundo digital em que tudo pode, estavam e estão fazendo isso com muito mais talento, argumento, empenho e sabedoria. O que eu queria e ainda quero falar é dos quatro anos que se seguirão ao resultado eleitoral de outubro. Durante os próximos quatro anos, um dos dois reinará sobre a população brasileira e é de seu comportamento que devemos cuidar. E para isso precisamos nos preparar.

E aí eu escrevia o que vale até hoje e valerá sempre: “Em primeiríssimo lugar, exigindo que o vencedor respeite a Constituição que nós todos, expressa ou implicitamente, juramos respeitar. Governar sem observar respeito à Constituição é como viver numa selva em que só a violência e o acaso decidem o que deve acontecer.”

Não se trata de mera formalidade que os governantes tratarão de interpretar ao sabor de seus interesses políticos e administrativos. Mas de uma necessidade sem a qual não saberemos como nos mover, as regras sob as quais o país sobrevive com alguma dignidade, identidade e unidade de propósitos, um conjunto de condições sem as quais nada faz sentido, sem as quais não saberemos nunca onde fica o gol adversário e mesmo o nosso. Não levá-la em consideração é declarar-se perdedor antes de o jogo começar.

A cultura do povo que a Constituição deve representar é a soma de seus hábitos e costumes, dos meios que, ao longo do tempo, escolheu para viver. Mas não apenas o jeito majoritário de viver e sim todas as formas que, mesmo minoritárias, não signifiquem prejuízo para o outro.

A verdadeira democracia é aquela que garante à maioria a liderança da sociedade e reconhece o direito das minorias se manifestar e viver do jeito que julgar mais apropriado, saudável e conveniente sem fazer mal a ninguém. Se no discurso dominante não houver pelo menos uma pequena probabilidade de o contrário estar certo, ele será sempre um discurso autoritário que não serve a nosso progresso material e espiritual.

Futuro só com moral e conhecimento

A ciência na nossa época tem funções sociais, econômicas e políticas, e por mais distante que o próprio trabalho possa estar da aplicação técnica, é um elo na cadeia de ações e decisões que determinam o destino da raça humana.

Nossa esperança se baseia na união de dois poderes espirituais: a consciência moral da inaceitabilidade de uma guerra degenerada no assassinato em massa dos indefesos e o conhecimento racional da incompatibilidade da guerra tecnológica com a sobrevivência da raça humana
Max Born

Deus não vota, Michelle!

Ao voltar para casa no início da semana, vi um adesivo verde-amarelo no vidro de trás de um carro de preço médio, longe de ser luxuoso. Aproximei-me no sinal e li: “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Fiquei espantado com a novidade no trânsito. A frase, no estilo da antiga TFP (Tradição, Família e Propriedade), identifica o motorista com o famigerado Jair Bolsonaro. No domingo, uma motociata em apoio ao ex-capitão passou pela Conde de Bonfim, na Tijuca, entre gritos de protesto (Fora Bolsonaro!) e também de apoio. No andar de baixo do meu prédio, uma vizinha berrou: “Deus está com Bolsonaro!”. Não sou de bater-boca, mas rebati na hora: “Não seja herege. Deus não vota!”. E fez-se silêncio.


Fiz essa introdução porque me espanta a desenvoltura com que a primeira-dama Michelle Bolsonaro anda por aí com seu discurso messiânico — dizem que é pentecostal — misturando política com religião. Tudo começou no lançamento da candidatura do marido, no Maracanãzinho, quando ela afirmou, entre dezenas de améns e exaltações ao Senhor, que Bolsonaro “é o escolhido de Deus para governar o Brasil”.

Segundo ela,“Deus tem promessas para o Brasil e todas as promessas irão se cumprir. Enquanto existir esse joelhinho aqui, as promessas de Deus irão se cumprir”. Em meio às demonstrações de fé e religiosidade, Michelle só não nos revelou quando se deu sua conversa com Deus a respeito da política brasileira. E muito menos forneceu maiores detalhes sobre a declaração de voto do todo-poderoso. Vai ver que ela está ouvindo vozes por aí.

Nos últimos dias Michelle prosseguiu com sua pregação radical e enviezada. Numa madrugada, levou grupo de amigos e amigas para benzer o Palácio do Planalto. E no domingo, diante culto evangélico em Belo Horizonte, afirmou que antes do governo Bolsonaro, o Planalto era “consagrado a demônios”. Disse ela: “Podem me chamar de fanática, podem me chamar de louca. Eu vou continuar louvando nosso Deus. Vou continuar orando (…) porque, por muitos anos, por muito tempo, aquele lugar foi consagrado a demônios. Planalto consagrado a demônios. E, hoje, consagrado ao Senhor Jesus”.

Cá entre nós, ou Michelle Bolsonaro é ingênua ou está enlouquecida mesmo. Seu discurso bate de frente com a realidade e com a própria fé cristã. Como sabem, mesmo os que não acreditam em Deus, uma das peças mais belas no Novo Testamento é o Sermão das Montanhas de Jesus Cristo. Lá está dito para quem tem ouvidos para ouvir: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”.

Portanto, um imenso fosso separa as ações (ou a inação) de Bolsonaro do que está escrito no Evangelho. Bolsonaro prega o ódio e é impiedoso. Jamais mostrou um pingo de solidariedade aos milhões de brasileiros e brasileiras que têm fome e sede de justiça. Jamais pisou num hospital para consolar doentes acometidos pela Covid-19. Em seu mandato, jamais pisou numa comunidade ou num bairro de periferia. Bolsonaro é o antipovo. Não tem nada a ver com a justiça e a liberdade. Sua visão de família é misógina e ultraconservadora. Seu patriotismo é o do último refúgio dos canalhas, como disse Samuel Johnson.

Ontem, Michelle voltou a atacar o ex-presidente Lula por ter participado de cerimônia de uma religião de matriz africana. Compartilhou o vídeo e comentou: “Isso pode, né! Eu falar de Deus, não!”. Novamente, mostrou que anda muito confusa. Ninguém criticou a primeira-dama por “falar de Deus”. Inaceitável é o fato de ela atribuir ao todo-poderoso preferência pela candidatura de seu inominável marido. Mas, desta vez, ela recebeu resposta à altura da socióloga Rosângela da Silva, a Janja, mulher do ex-presidente Lula. Nas redes sociais, Janja lembrou a Michelle que “Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, respeito”. A Frente Inter-Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns também pediu que Michelle “se retrate dentro dos princípios do amor ao próximo que afirma professar”.

Ao misturar alhos com bugalhos e falar de visões e demônios, Michelle Bolsonaro parece mesmo fora de si. Fanática ou louca, como ela mesmo diz. Fico aqui pensando em Lady Macbeth, quando viu o reinado do marido chegar ao fim. Vendo fantasmas dos inimigos mortos pelo usurpador, ela enlouqueceu. Mas eu não desejo o mesmo final trágico para Michelle. Espero, sinceramente, que ela tenha saúde para acompanhar a tarefa árdua de reconstruir o Brasil após o terrível mandato do seu marido. O ex-presidente Lula terá um grande desafio pela frente. Repor o Brasil nos eixos vai exigir energia e tempo. Amém!

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Juros de 100% sobre o Auxílio Brasil: o cúmulo do cinismo?

Por decreto, o presidente Jair Bolsonaro estipulou, no início de agosto, que os beneficiários do Auxílio Brasil podem receber em forma de crédito 40% dos pagamentos a que têm direito.

Quer dizer: quem, a partir de agosto, tem direito a R$ 600 de auxílio mensal já pode, por exemplo, requerer a transferência de R$ 3 mil. Nos centros das cidades brasileiras, há meses as financeiras vêm cadastrando beneficiários para que eles tenham acesso rápido ao seu dinheiro.

Poucos dentre os beneficiários do auxílio compreendem no que estão se metendo: dependendo do plano oferecido, terão que pagar entre 80% e 100% de juros ao ano. Ou seja, ao final de um ano, o valor final da dívida já pode alcançar o dobro do que foi emprestado.

As amortizações serão descontadas de suas parcelas futuras: em vez de R$ 600, até o fim do ano receberão mensalmente apenas R$ 360. A partir de janeiro de 2023, quando o Auxílio deve baixar para R$ 400 por mês, e, portanto, só R$ 160 serão consignáveis.

Já em março, o governo federal possibilitara aos receptores do Benefício de Prestação Continuada (BPC) penhorar seus pagamentos futuros em troca de um empréstimo imediato. O Ministério da Economia justifica essas possibilidades ampliadas de crédito para os mais pobres da sociedade com o retrocesso dos rendimentos desencadeado pelas "turbulências nos mercados internacionais".
"Auxílio" que leva à falência

Está claro que, com esse acesso ao crédito, o governo tenciona propiciar um aumento do consumo antes das eleições e assim melhorar o clima econômico – a fim de convencer os cidadãos a votarem a favor de mais um mandato presidencial para Bolsonaro.

É cínico o governo colocar o fardo desse programa conjuntural nas costas dos mais pobres. Pois desde 2005 os brasileiros nunca estiveram tão endividados: no momento eles já empregam mais da metade de sua renda para pagar juros e amortizações de créditos assumidos.

É provável que as medidas atuais levem milhões de brasileiros à falência. Pois quem até agora não conseguiu assegurar uma aposentadoria ou renda mínima, já depende de cada real da Previdência Social. Se os pobres entregarem a metade de seus salários às financeiras, não sobrará muito para eles. O provável resultado será mais miséria.

Trata-se de uma reversão cínica do conceito básico do crédito consignado. Em si, ele é uma ideia bastante sensata, que possibilitaria o fechamento de créditos sobretudo para quem recebe aposentadoria do funcionalismo público, mas também pensão do INSS em caráter vitalício. Do ponto de vista dos bancos, eles são bons devedores, já que as amortizações são descontadas diretamente de suas pensões ou aposentadorias. O risco é menor para os bancos, permitindo-lhes cobrar juros mais baixos.

No caso de uma ajuda social como o Auxílio Brasil, que o governo estabelece por motivos políticos, os bancos encaram um risco alto, pois em 2023 o novo governo pode reduzir ou eliminar o programa. Seja como for, não há uma garantia vitalícia.

As grandes instituições privadas, como o Itaú e o Bradesco, já anunciaram que não oferecerão crédito para quem recebe ajuda social. Para os muitos bancos menores, entretanto, a medida governamental é altamente bem-vinda, aumentando seus seus lucros em tempos de endividamento alto e economia estagnada.

O Moody's Investors Service avalia: "De um modo geral, o aumento das margens de consignação tem uma implicação positiva para os bancos brasileiros, estimulando o crescimento de linhas de menor risco e taxa de juros menores."

Infelizmente não há agência de classificação de risco para alertar os pobres do Brasil a não pedirem crédito.

Os militares, os mitos e suas armas

Há certas histórias que ouvimos desde crianças. Têm aquelas que servem para nos assustar como a do “homem do saco” ou a da “loira do banheiro”; as que visam promover a esperança, como a de que vivemos no país do futuro ou, outra similar, a de que o Brasil é o país de um “povo alegre e brincalhão”; têm ainda as histórias políticas, tal qual a do mito da democracia racial ou o conto institucional da reconciliação e do consenso.

Sem dúvida, uma dessas histórias que reúne todas as qualidades das descritas acima é a de que os militares vão dar um golpe.

Afinal, ao menos desde o fim da Ditadura se difunde, com vistas a assustar os sujeitos da democracia, que os militares ficaram insatisfeitos com tal ou qual medida de governo ou com determinado protesto e ameaçam intervir na vida pública, a despeito do que lhes impõe boa parte da Constituição. Também se utiliza a história do golpe junto com os militares para alavancar projetos conservadores de “transformação” do país, como o fez o bolsonarismo, com ênfase na véspera das eleições de 2018.

Mas, claro, a história do golpe das Forças Armadas contra a democracia é também um evento político tradicional. Para fundar a República do Brasil ocorreu o golpe de Estado comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, que viria a ser o seu primeiro governante. Em apoio ao ditador Getúlio Vargas, em 1937, as Forças Armadas fomentaram a primeira ditadura do século XX no país, o Estado Novo. (aliás, em 1945, por meio de um golpe dos militares, o mesmo governo foi deposto).


Após cerca de 18 anos tentando construir uma democracia, as Forças Armadas assumiram o papel central no Golpe de 1964, implantando a Ditadura Militar com o apoio das elites econômicas, das grandes empresas e do imperialismo norte-americano. Foram mais de duas décadas de um violento, sanguinário e corrupto regime governado por cinco generais do Exército brasileiro.

Para sair dessa enrascada, o país adota a “abertura lenta, gradual e segura” elaborada pelos próprios ditadores, ainda que um potente movimento social se expandisse em busca de uma democracia sem fome e com emprego e moradia para o povo.

Sem ter muito para onde correr, a nova democracia aceita esconder os militares das barbaridades produzidas na Ditadura e os protege no capítulo da Constituição que trata da segurança nacional e da segurança pública. A militarização desta segunda, entre outros fatores, seria nos anos 2000 a forma com que as instituições militares ganharam novamente a cena pública, espalhando o mito de proteção por meio da doutrina militar de segurança pública.

Primeiro com a missão de paz no Haiti, na qual se experimentou transformar a intervenção do Estado nos territórios vulneráveis para o modo da guerra. Com a nova lei de encarceramento do tráfico (2006) e a expansão da rede de presídios federais e dos estados como São Paulo e Minas Gerais, o país abriu as portas para os passos seguintes. Surgem as intervenções via as assustadoras Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) e os acionamentos dos mecanismos de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), na passagem da primeira para a segunda década deste século.

Sabem quando lodo do fundo do lago é o assentamento dos restos do que por ali já foi outra coisa, enterrando uma série de sobras e de seres em decomposição? Pois então, de certo modo, assim funcionou o trato da memória e da história da Ditadura e da presença dos militares na política.

Talvez por isso, quando foi instalada a Comissão Nacional da Verdade, os pactos com os cramulhões da Ditadura foram remexidos e vieram à tona por meio da ideologia do inimigo interno, sempre alimentada nos centros de poder das Forças Armadas. E se somou ao ressentimento de uma considerável parcela da população, com certo poder aquisitivo, que se remoía por ver pretos nas universidades, o povo pobre nos aeroportos, pessoas periféricas circulando em ambientes de consumo exclusivos do poder social branco. Além de todas as mudanças nos costumes heteronormativos, com avanços na pauta LGBTQIA+, na denúncia do feminicídio, do etnocídio e nas lutas antirracistas.

Era demais para o capitalismo colonial neoliberal. Foi como se o lulismo, ao mesmo passo em que garantia a manutenção de formas econômicas de exploração das desigualdades, tivesse liberado forças de transformação social que poderiam colocar em risco a ordem do capital.

O que o governo Bolsonaro expôs foi o fato evidente de que as Forças Armadas, enquanto instituição, têm um projeto de poder político no país. Sem a necessidade do clássico golpe dos tanques nas ruas (ainda que ele tenha sido mal encenado no 7 de setembro de 2021), os militares ocuparam setores estratégicos do Estado e promoveram a radicalidade das políticas de destruição dos direitos e das instâncias democráticas.

Recentemente a mídia divulgou a existência do documento “Projeto de Nação”, produzido por três institutos que reúnem oficiais das Forças Armadas e cujo lançamento contou com a presença maciça do setor, além do vice-presidente da República e do general chefe do Estado-Maior do Exército.

Trata-se de um plano de consolidação, a partir do governo militarizado, de uma administração do Estado paralela e permanente, autônoma em relação aos processos eleitorais e às normas de funcionamento das instituições democráticas. Isso tudo sem colocar tanques nas ruas. No programa de gestão das próximas décadas, evidencia-se o alinhamento com as políticas neoliberais: cobrança para utilização do SUS, fim da autonomia universitária, ocupação militar da Amazônia, entre outras medidas.

Há ainda a proposta de criação do chamado Centro de Governo (CDG), algo semelhante com o que tentaram recentemente fazer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), colocando as estruturas dos ministérios e das relações com os outros centros de poder (Legislativo e Judiciário) sob a tutela de militares.

O projeto se soma ao investimento na lógica da guerra, com as UPPs, intervenções, fortalecimento do mundo das armas, aumento do poder de atuação das polícias militares, aumento do sistema prisional e liberação do “excludente de ilicitude” para os agentes de segurança agirem sob o arrepio da Constituição. Junto a essas medidas, consolida-se o discurso de legitimação, com a guerra ao tráfico, a guerra contra a fome, a guerra contra a criminalidade, entre outras que se enquadram no modelo global da guerra pela paz e da guerra contra o terror (temos até mesmo a guerra contra o vírus, que liberou uma série de mecanismos de exceção nos diversos modelos de Estados de Direito).

Se todas essas histórias assustadoras, ficcionais e políticas acima fizerem um mínimo de sentido, somos forçados a ver aquilo que se mostra na ponta de nossos narizes. Sim, um cheiro que não é bom, mas que temos dificuldade para saber de onde vem. Contudo, temos a certeza de que há algo de podre.

Dessa forma, me parece que não se trata de um grupo de militares alinhado com o capitão e meia dúzia de generais beirando a aposentadoria e que se desgarraram do século XX ditatorial de nossa história. É um projeto neoliberal e da guerra colonial, em que o pacto racista e de morte de uma aristocracia estatal e burguesa se une ao modelo global do capitalismo de mercado.

O projeto se refere à estratégia de uma institucionalidade do Estado elaborada dentro da doutrina de segurança nacional, atualizada no modelo do Estado de Direito e que sai do ocaso da Ditadura sem sofrer modificações.