terça-feira, 28 de setembro de 2021
Antítese de Bolsonaro, primeira-ministra cita Bob Marley e chacoalha a ONU
Se Jair Bolsonaro causou constrangimento e indignação em sua participação na ONU, coube a uma mulher despontar como a antítese do presidente negacionista. Num discurso no mesmo púlpito que foi usado pelo brasileiro, a primeira-ministra de Barbados abandonou o texto que havia sido preparado por seu serviço diplomático e chacoalhou a Assembleia-Geral das Nações Unidas.
Mia Amor Mottley subiu ao pódio, na sexta-feira, determinada a dizer o que líderes queriam evitar escutar. E imediatamente foi elevada a uma espécie de celebridade diplomática, com comentários de que, finalmente, o mundo tinha uma líder.
Quando seu microfone foi ligado em Nova Iorque, ela foi clara: não iria repetir discursos. E lançou: “quantas vezes mais teremos então uma situação em que dizemos a mesma coisa repetidas vezes, para não chegarmos a nada?”. “Meus amigos, não podemos mais fazer isso”.
No lugar de um discurso robótico, ela evocou Bob Marley: “Who will get up and stand up?”. Em um português claro: “Quem se levantará?”.
“As palavras de Robert Nesta Marley. Quem se levantará e defenderá os direitos de nosso povo?”, questionou.
Ela também alertou: não tomaria muito o tempo daqueles que a escutavam, na mesma sala ocupada por Bolsonaro. Mas sua voz ecoou para além daquelas paredes. No lugar de certezas, ela levou perguntas impertinentes.
“Quem se levantará em nome de todos aqueles que morreram durante esta terrível pandemia? São milhões. Quem se levantará em nome de todos aqueles que morreram por causa da crise climática?”, questionou.
“Quantas mais variantes do covid-19 devem chegar, quantas mais, antes que um plano de ação mundial de vacinação seja implementado”? disse Mottley. “Quantas mais mortes devem ocorrer antes que 1,7 bilhão de vacinas em excesso na posse dos países avançados do mundo sejam compartilhadas com aqueles que simplesmente não têm acesso?”
“Temos os meios para dar a cada criança deste planeta um comprimido. E temos os meios para dar a cada adulto uma vacina”. E temos os meios para investir na proteção dos mais vulneráveis em nosso planeta contra uma mudança no clima. Mas optamos por não fazê-lo”, disse a primeira-ministra. “Não é porque não temos o suficiente, é porque não temos a vontade de distribuir o que temos”.
A primeira-ministra ainda atacou líderes que usam da mentira como instrumento de poder. Segundo ela, se o mundo ataca as plataformas para garantir o pagamento de impostos, é inconcebível que não se toque na questão da fake news.
A primeira-ministra também alertou para a falta de ação no campo ambiental. “Quantos mais aumentos globais de temperatura devem ocorrer antes de acabarmos com a queima de combustíveis fósseis? E quanto mais o nível do mar deve subir em pequenos estados insulares antes que aqueles que lucraram com o armazenamento de gases de efeito estufa contribuam para as perdas e danos que ocasionaram, em vez de nos pedir que excluamos o espaço fiscal que temos para o desenvolvimento para curar os danos causados pela ganância de outros”?
Ela ainda completou: “se conseguirmos encontrar a vontade de enviar pessoas à lua e resolver a calvície masculina, poderemos resolver problemas simples como deixar nosso povo comer a preços acessíveis”.
Mia Amor Mottley subiu ao pódio, na sexta-feira, determinada a dizer o que líderes queriam evitar escutar. E imediatamente foi elevada a uma espécie de celebridade diplomática, com comentários de que, finalmente, o mundo tinha uma líder.
Quando seu microfone foi ligado em Nova Iorque, ela foi clara: não iria repetir discursos. E lançou: “quantas vezes mais teremos então uma situação em que dizemos a mesma coisa repetidas vezes, para não chegarmos a nada?”. “Meus amigos, não podemos mais fazer isso”.
No lugar de um discurso robótico, ela evocou Bob Marley: “Who will get up and stand up?”. Em um português claro: “Quem se levantará?”.
“As palavras de Robert Nesta Marley. Quem se levantará e defenderá os direitos de nosso povo?”, questionou.
Ela também alertou: não tomaria muito o tempo daqueles que a escutavam, na mesma sala ocupada por Bolsonaro. Mas sua voz ecoou para além daquelas paredes. No lugar de certezas, ela levou perguntas impertinentes.
“Quem se levantará em nome de todos aqueles que morreram durante esta terrível pandemia? São milhões. Quem se levantará em nome de todos aqueles que morreram por causa da crise climática?”, questionou.
“Quantas mais variantes do covid-19 devem chegar, quantas mais, antes que um plano de ação mundial de vacinação seja implementado”? disse Mottley. “Quantas mais mortes devem ocorrer antes que 1,7 bilhão de vacinas em excesso na posse dos países avançados do mundo sejam compartilhadas com aqueles que simplesmente não têm acesso?”
“Temos os meios para dar a cada criança deste planeta um comprimido. E temos os meios para dar a cada adulto uma vacina”. E temos os meios para investir na proteção dos mais vulneráveis em nosso planeta contra uma mudança no clima. Mas optamos por não fazê-lo”, disse a primeira-ministra. “Não é porque não temos o suficiente, é porque não temos a vontade de distribuir o que temos”.
A primeira-ministra ainda atacou líderes que usam da mentira como instrumento de poder. Segundo ela, se o mundo ataca as plataformas para garantir o pagamento de impostos, é inconcebível que não se toque na questão da fake news.
A primeira-ministra também alertou para a falta de ação no campo ambiental. “Quantos mais aumentos globais de temperatura devem ocorrer antes de acabarmos com a queima de combustíveis fósseis? E quanto mais o nível do mar deve subir em pequenos estados insulares antes que aqueles que lucraram com o armazenamento de gases de efeito estufa contribuam para as perdas e danos que ocasionaram, em vez de nos pedir que excluamos o espaço fiscal que temos para o desenvolvimento para curar os danos causados pela ganância de outros”?
Ela ainda completou: “se conseguirmos encontrar a vontade de enviar pessoas à lua e resolver a calvície masculina, poderemos resolver problemas simples como deixar nosso povo comer a preços acessíveis”.
Governo do atraso
Os 1000 dias de Bolsonaro representam um atraso absurdo em todas as áreas, mas uma em particular exige atenção: quem se elegeu para ‘mudar tudo isso aí’ se juntou ao PT e o Centrão para acabar com a Lava Jato e atrasar todo o trabalho de combate à corrupção.Alessandro Vieira, senador (Cidadania-SE)
O reino da mentira
Há 44 anos, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., falecido no dia 27 de junho de 2009, dando vazão ao sentimento da sociedade brasileira, foi convidado para ler a Carta aos Brasileiros69. O País abria as portas da redemocratização. Hoje, o Brasil vive sob o Estado de Direito, mas vegeta sob o Estado da ética e da moral, com um mandatário-mor que nega a ciência, é responsável pela pior gestão da pandemia de coronavírus 19 do planeta, e faz um vergonhoso discurso na abertura da ONU, privilégio que, historicamente, cabe ao Brasil desde 1947.
Em quatro décadas, o País eliminou o chumbo que cobria os muros de suas instituições sociais e políticas, resgatou o ideário libertário que inspira as democracias, instalou as bases de um moderno sistema produtivo e, apesar de esforços de idealistas que lutam para pôr um pouco de ordem na casa, não alcançou o estágio de Nação próspera, justa e solidária. O país faz vergonha ao mundo. O baú do retrocesso continua lotado. Temos uma estrutura política caótica, incapaz de promover as reformas fundamentais para acender a chama ética, e um governo que prometeu acabar com a corrupção, amarrado às mais intricadas cordas da velha política, usando a extraordinária força de verbas e cargos para cooptar legisladores e partidos, principalmente do Centrão, transformando-se, ele próprio em muralha que barra os caminhos da mudança.
Não por acaso, anos depois o professor Goffredo confessava ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cidadãos votem em ideários, não em fulanos, beltranos e sicranos. O velho mestre das Arcadas, que formou uma geração de advogados, tentava resistir à Lei de Gresham, pela qual o dinheiro falso expulsa a moeda boa – princípio que, na política, aponta a vitória da mediocridade sobre a virtude.
No Brasil, especialmente, os freios do atraso impedem os avanços. Vivemos com a sensação de que há imensa distância entre as locomotivas econômica e política, a primeira abrindo fronteiras, a segunda fechando porteiras. Olhe-se para os Poderes Executivo e Legislativo. Parecem carcaças do passado, fincadas sobre as estacas do patrimonialismo, da competitividade e do fisiologismo. Em seus corredores, o poder da barganha suplanta o poder das ideias.
Em setembro de 1993, na segunda Carta aos Brasileiros, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonha. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Em 2002, Lula da Silva também leu sua Carta aos Brasileiros, onde pregava uma nova prática política e a instalação de uma base moral. Nada disso foi cumprido. O país continuou a ser um deserto de ideias.
Sem uma base eleitoral forte, os entes partidários caíram na indigência, poluindo o ambiente de miasmas. Até hoje, os eleitores esperam que as grandes questões nacionais recebam diagnósticos apropriados e propostas de solução para nosso pedaço de chão. Infelizmente, o voto continua a ser dado a oportunistas, operadores de promessas, poucos com ideários claros e correspondentes aos anseios sociais.
A utopia nacional resvala pelo terreno da desilusão. Nesses tempos da CPI da Covid, o Reino da Mentira, descrito pelo senador Rui Barbosa, nos idos de 1919, volta à ordem do dia: “Mentira por tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu. Nos inquéritos. Nas promessas. Nos projetos. Nas reformas. Nos progressos. Nas convicções. Nas transmutações. Nas soluções. Nos homens, nos atos, nas coisas. No rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Nas responsabilidades. Nos desmentidos”.
Em quatro décadas, o País eliminou o chumbo que cobria os muros de suas instituições sociais e políticas, resgatou o ideário libertário que inspira as democracias, instalou as bases de um moderno sistema produtivo e, apesar de esforços de idealistas que lutam para pôr um pouco de ordem na casa, não alcançou o estágio de Nação próspera, justa e solidária. O país faz vergonha ao mundo. O baú do retrocesso continua lotado. Temos uma estrutura política caótica, incapaz de promover as reformas fundamentais para acender a chama ética, e um governo que prometeu acabar com a corrupção, amarrado às mais intricadas cordas da velha política, usando a extraordinária força de verbas e cargos para cooptar legisladores e partidos, principalmente do Centrão, transformando-se, ele próprio em muralha que barra os caminhos da mudança.
Não por acaso, anos depois o professor Goffredo confessava ter vontade de ler uma segunda carta, desta feita para conclamar pela reforma política e por uma democracia participativa, em que os cidadãos votem em ideários, não em fulanos, beltranos e sicranos. O velho mestre das Arcadas, que formou uma geração de advogados, tentava resistir à Lei de Gresham, pela qual o dinheiro falso expulsa a moeda boa – princípio que, na política, aponta a vitória da mediocridade sobre a virtude.
No Brasil, especialmente, os freios do atraso impedem os avanços. Vivemos com a sensação de que há imensa distância entre as locomotivas econômica e política, a primeira abrindo fronteiras, a segunda fechando porteiras. Olhe-se para os Poderes Executivo e Legislativo. Parecem carcaças do passado, fincadas sobre as estacas do patrimonialismo, da competitividade e do fisiologismo. Em seus corredores, o poder da barganha suplanta o poder das ideias.
Em setembro de 1993, na segunda Carta aos Brasileiros, o mestre Goffredo escolheria como núcleo a reforma política, eixo da democracia participativa com que sonha. Mas falta disposição aos congressistas para fazê-la. Em 2002, Lula da Silva também leu sua Carta aos Brasileiros, onde pregava uma nova prática política e a instalação de uma base moral. Nada disso foi cumprido. O país continuou a ser um deserto de ideias.
Sem uma base eleitoral forte, os entes partidários caíram na indigência, poluindo o ambiente de miasmas. Até hoje, os eleitores esperam que as grandes questões nacionais recebam diagnósticos apropriados e propostas de solução para nosso pedaço de chão. Infelizmente, o voto continua a ser dado a oportunistas, operadores de promessas, poucos com ideários claros e correspondentes aos anseios sociais.
A utopia nacional resvala pelo terreno da desilusão. Nesses tempos da CPI da Covid, o Reino da Mentira, descrito pelo senador Rui Barbosa, nos idos de 1919, volta à ordem do dia: “Mentira por tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu. Nos inquéritos. Nas promessas. Nos projetos. Nas reformas. Nos progressos. Nas convicções. Nas transmutações. Nas soluções. Nos homens, nos atos, nas coisas. No rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Nas responsabilidades. Nos desmentidos”.
Quando os demônios não gostavam de gritos
Houve um tempo em que os demônios não gostavam que ninguém gritasse. Foi o que me contou há vários anos, quando eu era correspondente deste jornal na Itália, o então exorcista oficial do Vaticano, monsenhor Corrado Balducci, já falecido, que era chamado para tratar os casos mais graves de possessão diabólica.
Consegui uma entrevista com ele depois de uma série de peripécias. Encontrei-o em seu gabinete dentro do pequeno e poderoso Estado do Vaticano. Recebeu-me cordialmente, mas me advertiu em seguida que procurasse falar em voz baixa, já que, segundo ele, “os demônios não gostam que gritem”.”Como sabe?”, perguntei-lhe. Respondeu-me, sem mais detalhes, que “por experiência própria”. E assim a entrevista foi feita aos sussurros.
Lembro ainda hoje alguns detalhes curiosos que consegui arrancar dele, embora tenha me pedido depois que não os incluísse na entrevista publicada. Por exemplo, também os animais podem ser possuídos pelo demônio. E me deu o exemplo do seu cavalo, que às vezes amanhecia possuído. Perguntei-lhe como sabia, e me explicou que nesses casos o animal “ficava com todos os pelos do rabo arrepiados”.
Essa afirmação do exorcista vaticano de que os demônios não gostam de gritos me levou a pensar que hoje, entre os políticos, os demônios também evoluíram, já que boa parte deles parece só falar aos brados e fazendo muito barulho, enquanto lhes falta reflexão e compostura.
Também relembrei aquela afirmação do exorcista por conta da gritaria e da confusão que o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva criaram durante sua recente estadia em Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU. A imprensa brasileira e internacional já relataram todas as peripécias ocorridas – do fato de que o presidente brasileiro precisou comer uma pizza de pé na rua, porque não o deixaram entrar em um restaurante sem estar vacinado, até o gesto obsceno oferecido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga contra os manifestantes.
Há um detalhe que, entretanto, passou despercebido e poderia ser uma metáfora da atual política bolsonarista. Na cerimônia de abertura da Assembleia da ONU, inaugurada, conforme a tradição, com o discurso do presidente do Brasil, houve um detalhe pouco conhecido e que foi gravado pela imprensa dos EUA. Assim que o mandatário brasileiro saiu, e antes que fosse a vez do norte-americano Joe Biden discursar, a tribuna onde acabara de falar foi rapidamente higienizada.
Naquele momento já se sabia que o presidente brasileiro não se vacinou contra a covid-19, e havia o temor de que Bolsonaro pudesse contagiar os demais presentes. Talvez por isso tenha voltado ao Brasil sem que pudesse se encontrar com o presidente norte-americano.
Entretanto, a cena da tribuna onde Bolsonaro discursou sendo higienizada às pressas poderia ser lida também como metáfora da periculosidade política que o negacionista de extrema direita representa no país considerado o maior defensor da democracia e das liberdades. É como se aquele ritual de desinfetar o lugar onde o presidente brasileiro discursou fosse visto como um exorcismo contra os demônios da discórdia, da mentira, do ódio, do gosto pelas ditaduras, do culto às armas e à morte.
A higienização do lugar onde Bolsonaro discursou entrará para a história e deveria agora ser uma lição para os poucos brasileiros que continuam a apoiá-lo. Às vezes, há pequenos gestos que podem passar despercebidos, mas que acabam fazendo história.
A cena de desinfetar a tribuna do presidente brasileiro foi mais que uma simples cena de limpeza. Deem vocês o nome que preferirem.
Uma coisa é certa: quem suceder Bolsonaro no Planalto, algo que a grande maioria dos brasileiros deseja, como indicam todas as pesquisas, deverá antes de mais nada desinfetar aquele lugar junto com o cercadinho onde o capitão vomita a cada manhã aos seus seguidores mais fiéis os demônios que lhe fazem lançar anátemas, ameaças e mentiras. “É que ele é assim mesmo”, alegam aqueles que o seguem de perto. É verdade, mas também são assim mesmo os desequilibrados psíquicos, os incapazes de juntar duas frases com sentido, os que falam o que lhes vem à cabeça sem esses filtros dos quais todos necessitamos, como explica a psicanálise. O que ocorre é que personalidades dessa tipologia deveriam ser incapacitadas para presidir e governar uma nação.
Esses políticos que sonham com o poder absoluto são como vulcões sempre em perigo de erupção, que provocam desastres e morte. Quem vier a substituir o capitão na presidência deverá se apressar em desinfetar com essa mesma urgência um pedaço da história deste país que está sendo impedindo de sonhar com dias melhores sem o medo de ser devorado pelo vírus de uma política que preocupa o mundo e gera medo e pobreza nesses milhões de pessoas para quem já ficaram muito distantes os tempos em que se acreditava que Deus era brasileiro. Talvez nunca tenha sido, pois a história do país ainda arrasta muitas injustiças, violências e segregação social, mas o perigo de hoje é que esse “Deus acima de tudo”, lema do presidente, tenha se metamorfoseado em um demônio da discórdia e da ruptura existencial.
Não sou dos que minimizam a periculosidade dos medíocres na política que acreditam ser deuses encarnados e acabam agindo como os novos demônios da discórdia. A História está cheia de ditadores que eram insignificantes quando entraram no poder e acabaram arrastando seus países para o inferno. Nada pior, de fato, que um despreparado que acredite ser enviado pelos deuses, enquanto aparece mais como a encarnação dos novos demônios do fascismo e da intolerância que hoje parecem ressuscitar no mundo e dos quais eles gostariam que o Brasil fosse seu epicentro político.
É possível que os demônios de hoje em dia gostem de gritar e mentir, mas o que continua sendo verdade é que os deuses preferem o silêncio, a reflexão, os valores que enaltecem, a compaixão que cura, e não o gosto pela violência, a discórdia, a mentira e a morte.
Alguém será capaz de higienizar a política brasileira para impedir que o vírus da intolerância e do fascismo continuem a contaminá-la, deixando rastros da dor e da desesperança engendradas por quem governa o país?
Consegui uma entrevista com ele depois de uma série de peripécias. Encontrei-o em seu gabinete dentro do pequeno e poderoso Estado do Vaticano. Recebeu-me cordialmente, mas me advertiu em seguida que procurasse falar em voz baixa, já que, segundo ele, “os demônios não gostam que gritem”.”Como sabe?”, perguntei-lhe. Respondeu-me, sem mais detalhes, que “por experiência própria”. E assim a entrevista foi feita aos sussurros.
Lembro ainda hoje alguns detalhes curiosos que consegui arrancar dele, embora tenha me pedido depois que não os incluísse na entrevista publicada. Por exemplo, também os animais podem ser possuídos pelo demônio. E me deu o exemplo do seu cavalo, que às vezes amanhecia possuído. Perguntei-lhe como sabia, e me explicou que nesses casos o animal “ficava com todos os pelos do rabo arrepiados”.
Essa afirmação do exorcista vaticano de que os demônios não gostam de gritos me levou a pensar que hoje, entre os políticos, os demônios também evoluíram, já que boa parte deles parece só falar aos brados e fazendo muito barulho, enquanto lhes falta reflexão e compostura.
Também relembrei aquela afirmação do exorcista por conta da gritaria e da confusão que o presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva criaram durante sua recente estadia em Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU. A imprensa brasileira e internacional já relataram todas as peripécias ocorridas – do fato de que o presidente brasileiro precisou comer uma pizza de pé na rua, porque não o deixaram entrar em um restaurante sem estar vacinado, até o gesto obsceno oferecido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga contra os manifestantes.
Há um detalhe que, entretanto, passou despercebido e poderia ser uma metáfora da atual política bolsonarista. Na cerimônia de abertura da Assembleia da ONU, inaugurada, conforme a tradição, com o discurso do presidente do Brasil, houve um detalhe pouco conhecido e que foi gravado pela imprensa dos EUA. Assim que o mandatário brasileiro saiu, e antes que fosse a vez do norte-americano Joe Biden discursar, a tribuna onde acabara de falar foi rapidamente higienizada.
Naquele momento já se sabia que o presidente brasileiro não se vacinou contra a covid-19, e havia o temor de que Bolsonaro pudesse contagiar os demais presentes. Talvez por isso tenha voltado ao Brasil sem que pudesse se encontrar com o presidente norte-americano.
Entretanto, a cena da tribuna onde Bolsonaro discursou sendo higienizada às pressas poderia ser lida também como metáfora da periculosidade política que o negacionista de extrema direita representa no país considerado o maior defensor da democracia e das liberdades. É como se aquele ritual de desinfetar o lugar onde o presidente brasileiro discursou fosse visto como um exorcismo contra os demônios da discórdia, da mentira, do ódio, do gosto pelas ditaduras, do culto às armas e à morte.
A higienização do lugar onde Bolsonaro discursou entrará para a história e deveria agora ser uma lição para os poucos brasileiros que continuam a apoiá-lo. Às vezes, há pequenos gestos que podem passar despercebidos, mas que acabam fazendo história.
A cena de desinfetar a tribuna do presidente brasileiro foi mais que uma simples cena de limpeza. Deem vocês o nome que preferirem.
Uma coisa é certa: quem suceder Bolsonaro no Planalto, algo que a grande maioria dos brasileiros deseja, como indicam todas as pesquisas, deverá antes de mais nada desinfetar aquele lugar junto com o cercadinho onde o capitão vomita a cada manhã aos seus seguidores mais fiéis os demônios que lhe fazem lançar anátemas, ameaças e mentiras. “É que ele é assim mesmo”, alegam aqueles que o seguem de perto. É verdade, mas também são assim mesmo os desequilibrados psíquicos, os incapazes de juntar duas frases com sentido, os que falam o que lhes vem à cabeça sem esses filtros dos quais todos necessitamos, como explica a psicanálise. O que ocorre é que personalidades dessa tipologia deveriam ser incapacitadas para presidir e governar uma nação.
Esses políticos que sonham com o poder absoluto são como vulcões sempre em perigo de erupção, que provocam desastres e morte. Quem vier a substituir o capitão na presidência deverá se apressar em desinfetar com essa mesma urgência um pedaço da história deste país que está sendo impedindo de sonhar com dias melhores sem o medo de ser devorado pelo vírus de uma política que preocupa o mundo e gera medo e pobreza nesses milhões de pessoas para quem já ficaram muito distantes os tempos em que se acreditava que Deus era brasileiro. Talvez nunca tenha sido, pois a história do país ainda arrasta muitas injustiças, violências e segregação social, mas o perigo de hoje é que esse “Deus acima de tudo”, lema do presidente, tenha se metamorfoseado em um demônio da discórdia e da ruptura existencial.
Não sou dos que minimizam a periculosidade dos medíocres na política que acreditam ser deuses encarnados e acabam agindo como os novos demônios da discórdia. A História está cheia de ditadores que eram insignificantes quando entraram no poder e acabaram arrastando seus países para o inferno. Nada pior, de fato, que um despreparado que acredite ser enviado pelos deuses, enquanto aparece mais como a encarnação dos novos demônios do fascismo e da intolerância que hoje parecem ressuscitar no mundo e dos quais eles gostariam que o Brasil fosse seu epicentro político.
É possível que os demônios de hoje em dia gostem de gritar e mentir, mas o que continua sendo verdade é que os deuses preferem o silêncio, a reflexão, os valores que enaltecem, a compaixão que cura, e não o gosto pela violência, a discórdia, a mentira e a morte.
Alguém será capaz de higienizar a política brasileira para impedir que o vírus da intolerância e do fascismo continuem a contaminá-la, deixando rastros da dor e da desesperança engendradas por quem governa o país?
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
Só Deus me tira daqui
- Chamou, chamou?
O presidente se assustou com a aparição repentina. A figura que surgiu na sala do Palácio do Planalto não convenceu muito. Era um tipo alto, moreno, bronzeado, vestindo uma camisa florida em tons azuis, uma bermuda branca e sandálias. A barba era longa, mas bem aparada e os óculos escuros comprados certamente numa ótica parisiense.
- Mas quem é você? perguntou o presidente.
- Ué, você não me chamou? Estava esperando faz tempo esse chamado. Sou deus, mas sou democrático. Preciso atender à maioria da população e eles vivem me pedindo a mesma coisa. Quando você pediu achei que estava na hora.
- Na hora de quê?
- De tirar você daqui. Levar pra outro lugar. Tem gente querendo botar você em cana. Eu espero a justiça dos homens decidir antes aí eu entro.
- Mas a justiça divina não está comigo?
- Não sei o que lhe faz acreditar nisso. Aliás vocês vivem usando meu santo nome em vão. Já estou meio cansado disso. Andei conversando com o Alexandre de Moraes...
- Com o Alexandre, não!!! Ele quer ver minha caveira.
- Justamente. Precisava falar com ele porque essa história de caveira, defunto, etc tem que passar por mim. É minha administração.
- Eu não usei seu santo nome em vão. Achei que eu tinha prerrogativas. Estou fazendo um governo todo família, tradição e propriedade. Achei que seria do seu agrado.
- Quem falou? Quem anda falando em meu nome?
- Quem acredita no senhor.
- Quem acredita em mim ou que acredita no meu poder de persuasão, minha força de marketing, ...?
-Achei que a gente podia escolher. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.
- Eu estou acima de tudo, seu idiota. Não percebeu que essa frase é um equívoco só? Imagina se o Brasil vai estar acima de mim? Deus é deus e basta. E falando nisso lhe proíbo de continuar falando em meu nome. Vamos indo. Tá ficando tarde e sou uma pessoa muito solicitada.
- É...quer dizer. Eu falei no sentido figurado. Queria dizer que ninguém me tira daqui, só o senhor.
-Pois é. Estou tirando. Ou você acha que eu estou satisfeito com o seu governo? Ninguém está. Vamos indo, anda. Chama a Michelle, os meninos e vamos embora. Estou com um ônibus aí fora da viação Celeste para levar vocês pra casa.
- Mas nós não queremos...
- Eu decido e vai por mim. Melhor sair sob a minha proteção do que esperar que a PF baixe por aqui na operação Familícia.
- Jura? Eles estão vindo?
- Eu não juro por mim mesmo, meu filho. Só digo a verdade.
-Não sei o que é isso.
-Pois é. Se até hoje você não aprendeu não vai ser agora. Vamos indo. O tempo urge.
- Mas eu estava gostando tanto de brincar de presidente.
- O povo não estava gostando nada de você ser presidente.
- Posso fazer uma última pergunta, antes de ir, já que estou na frente de deus?
- Diga.
- Qual é o significado da vida?
- Ora, meu filho, piada velha numa hora dessas? Vamos embora antes que a casa caia.
E no meio dos escombros do palácio, deus foi saindo levando pelos braços o JMB que olhava para os lados com olhar saudoso. Uma lágrima rolou, mas ele logo desmentiu
- Homem não chora.
O presidente se assustou com a aparição repentina. A figura que surgiu na sala do Palácio do Planalto não convenceu muito. Era um tipo alto, moreno, bronzeado, vestindo uma camisa florida em tons azuis, uma bermuda branca e sandálias. A barba era longa, mas bem aparada e os óculos escuros comprados certamente numa ótica parisiense.
- Mas quem é você? perguntou o presidente.
- Ué, você não me chamou? Estava esperando faz tempo esse chamado. Sou deus, mas sou democrático. Preciso atender à maioria da população e eles vivem me pedindo a mesma coisa. Quando você pediu achei que estava na hora.
- Na hora de quê?
- De tirar você daqui. Levar pra outro lugar. Tem gente querendo botar você em cana. Eu espero a justiça dos homens decidir antes aí eu entro.
- Mas a justiça divina não está comigo?
- Não sei o que lhe faz acreditar nisso. Aliás vocês vivem usando meu santo nome em vão. Já estou meio cansado disso. Andei conversando com o Alexandre de Moraes...
- Com o Alexandre, não!!! Ele quer ver minha caveira.
- Justamente. Precisava falar com ele porque essa história de caveira, defunto, etc tem que passar por mim. É minha administração.
- Eu não usei seu santo nome em vão. Achei que eu tinha prerrogativas. Estou fazendo um governo todo família, tradição e propriedade. Achei que seria do seu agrado.
- Quem falou? Quem anda falando em meu nome?
- Quem acredita no senhor.
- Quem acredita em mim ou que acredita no meu poder de persuasão, minha força de marketing, ...?
-Achei que a gente podia escolher. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.
- Eu estou acima de tudo, seu idiota. Não percebeu que essa frase é um equívoco só? Imagina se o Brasil vai estar acima de mim? Deus é deus e basta. E falando nisso lhe proíbo de continuar falando em meu nome. Vamos indo. Tá ficando tarde e sou uma pessoa muito solicitada.
- É...quer dizer. Eu falei no sentido figurado. Queria dizer que ninguém me tira daqui, só o senhor.
-Pois é. Estou tirando. Ou você acha que eu estou satisfeito com o seu governo? Ninguém está. Vamos indo, anda. Chama a Michelle, os meninos e vamos embora. Estou com um ônibus aí fora da viação Celeste para levar vocês pra casa.
- Mas nós não queremos...
- Eu decido e vai por mim. Melhor sair sob a minha proteção do que esperar que a PF baixe por aqui na operação Familícia.
- Jura? Eles estão vindo?
- Eu não juro por mim mesmo, meu filho. Só digo a verdade.
-Não sei o que é isso.
-Pois é. Se até hoje você não aprendeu não vai ser agora. Vamos indo. O tempo urge.
- Mas eu estava gostando tanto de brincar de presidente.
- O povo não estava gostando nada de você ser presidente.
- Posso fazer uma última pergunta, antes de ir, já que estou na frente de deus?
- Diga.
- Qual é o significado da vida?
- Ora, meu filho, piada velha numa hora dessas? Vamos embora antes que a casa caia.
E no meio dos escombros do palácio, deus foi saindo levando pelos braços o JMB que olhava para os lados com olhar saudoso. Uma lágrima rolou, mas ele logo desmentiu
- Homem não chora.
A economia dos pobres
A pandemia virótica escancarou a pandemia da pobreza e o aumento da desigualdade. Ao lado emergência climática, são os maiores desafios da humanidade no século XXI.
No Brasil e no mundo, não faltaram grandes cientistas sociais, formuladores de políticas que defenderam ideias e participaram de experiências exitosas, porém insuficientes para estabelecer padrões aceitáveis de equidade social.
As dificuldades residem no tamanho e na complexidade do problema. Dimensão: 1bilhão e 100 mil pessoas que dispõem de menos de 1 dólar diário para sobreviver nos Estados Unidos, na Índia, 16 rupias correspondentes a 36 centavos de dólar; anualmente, 11 milhões de crianças morrem antes de completar 5 anos.
No Brasil, em 2019, 51,7 milhões de habitantes estavam abaixo da linha de pobreza (BIRD); entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021, 17,7 milhões de pessoas voltaram à condição de pobres (FGV Social).
O panorama atual revela um contraste avassalador e ratifica a percepção de que o mercado pode muito, mas não pode tudo, inclusive, distribuir a riqueza gerada. O capitalismo e a afluência empurram para cume da pirâmide social novos bilionários, ampliando o fosso monumental entre a maioria crescente de excluídos e a ínfima parcela da população que se diverte, investindo no turismo espacial.
Por sua vez, não faltam recursos para financiar guerras e socorrer os trambiques monumentais dos que são “grandes demais para quebrar”.
De outra parte, as políticas públicas de renda são, em grande medida, insuficientes ou ineficazes para ofertar aos cidadãos a possibilidade de emancipação.
O título do artigo “A Economia dos Pobres”, propondo uma nova visão da desigualdade, é o recente livro de autoria do casal Abhijit V. Banergie&Esther Duflo (segunda mulher a receber o Nobel de Economia, 2019).
Durante 15 anos, foram além das formulações acadêmicas e, com “foco nos mais pobres” e procuraram compreender como eles vivem em “becos e aldeias” e a “existência econômica”, privados que são de informações e condições mínimas para tomar decisões sobre o próprio destino.
O livro é extenso: “em última análise – registram ou autores – trata do que a vida e escolhas dos pobres nos dizem sobre como combater a pobreza global”. Destacam o valor do poder comunal e das instâncias locais.
Eles contemplaram a tragédia: “Vi ontem um bicho/Na imundície do pátio/catando comida entre os detritos […] Engolia com velocidade/O bicho não era um cão/Não era um gato/Não era um rato/O bicho, meu Deus, era um homem” (Manoel Bandeira).
No Brasil e no mundo, não faltaram grandes cientistas sociais, formuladores de políticas que defenderam ideias e participaram de experiências exitosas, porém insuficientes para estabelecer padrões aceitáveis de equidade social.
As dificuldades residem no tamanho e na complexidade do problema. Dimensão: 1bilhão e 100 mil pessoas que dispõem de menos de 1 dólar diário para sobreviver nos Estados Unidos, na Índia, 16 rupias correspondentes a 36 centavos de dólar; anualmente, 11 milhões de crianças morrem antes de completar 5 anos.
No Brasil, em 2019, 51,7 milhões de habitantes estavam abaixo da linha de pobreza (BIRD); entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021, 17,7 milhões de pessoas voltaram à condição de pobres (FGV Social).
O panorama atual revela um contraste avassalador e ratifica a percepção de que o mercado pode muito, mas não pode tudo, inclusive, distribuir a riqueza gerada. O capitalismo e a afluência empurram para cume da pirâmide social novos bilionários, ampliando o fosso monumental entre a maioria crescente de excluídos e a ínfima parcela da população que se diverte, investindo no turismo espacial.
Por sua vez, não faltam recursos para financiar guerras e socorrer os trambiques monumentais dos que são “grandes demais para quebrar”.
De outra parte, as políticas públicas de renda são, em grande medida, insuficientes ou ineficazes para ofertar aos cidadãos a possibilidade de emancipação.
O título do artigo “A Economia dos Pobres”, propondo uma nova visão da desigualdade, é o recente livro de autoria do casal Abhijit V. Banergie&Esther Duflo (segunda mulher a receber o Nobel de Economia, 2019).
Durante 15 anos, foram além das formulações acadêmicas e, com “foco nos mais pobres” e procuraram compreender como eles vivem em “becos e aldeias” e a “existência econômica”, privados que são de informações e condições mínimas para tomar decisões sobre o próprio destino.
O livro é extenso: “em última análise – registram ou autores – trata do que a vida e escolhas dos pobres nos dizem sobre como combater a pobreza global”. Destacam o valor do poder comunal e das instâncias locais.
Eles contemplaram a tragédia: “Vi ontem um bicho/Na imundície do pátio/catando comida entre os detritos […] Engolia com velocidade/O bicho não era um cão/Não era um gato/Não era um rato/O bicho, meu Deus, era um homem” (Manoel Bandeira).
Reconstrução de direitos
O atual presidente da República sempre foi contrário aos direitos humanos. Atacou-os repetidamente durante seus vários mandatos como deputado federal e durante a campanha eleitoral para a Presidência. Para além de ações mais visíveis, tais como seus discursos de ódio e suas tentativas de mobilizar apoiadores de um golpe para botar abaixo a democracia constitucional, seu governo promove antipolíticas de direitos humanos.
Estas são implementadas de diversas formas: por meio de mudanças legais, fechamento de órgãos e colegiados, cortes orçamentários, nomeação de dirigentes ineptos com posições hostis ao funcionamento de conselhos onde tem assento a sociedade civil ou pela inação pura e simples. Desse modo, os programas nacionais de direitos humanos em andamento foram esvaziados, inviabilizados ou desviados de seus propósitos, ao mesmo tempo que outras ações tornaram precária a condição dos grupos vulneráveis protegidos por direitos, ao instigar aqueles que os atacam.
O alvo mais claro do desmonte operado pelo atual governo de extrema direita é a política de Estado de direitos humanos institucionalizada na Secretaria de Estado de Direitos Humanos, pasta criada em 1996. Mais tarde, a secretaria foi convertida em ministério e acompanhada da criação de outros ministérios, secretarias e órgãos voltados à proteção dos direitos humanos, à promoção da igualdade racial e da equidade de gênero, ao combate à pobreza e ao trabalho escravo. O Programa Nacional de Direitos Humanos, começando pelo PNDH 1, de 1996, revisado pelo PNDH2, em 2002, ambos nos governos Fernando Henrique, e pelo PNDH 3, em 2009, no governo Lula, condensaram o conjunto de iniciativas em defesa dos direitos humanos promovidas nos níveis federal, estadual e municipal, com efetiva participação da sociedade civil.
As políticas de direitos humanos desde a redemocratização promoveram mudanças nas práticas políticas autoritárias, oligárquicas, clientelistas e na estrutura desigual e racista da nossa sociedade brasileira. Além de defendê-las contra os ataques e o desmantelamento que vêm sofrendo, é preciso divulgá-las publicamente para que possam servir de inspiração a todos os que resistem atualmente e lutam pela democracia, o Estado de Direito e a justiça social no Brasil.
Esse é o objetivo do primeiro manifesto assinado por 11 secretários e secretárias**, ministros e ministras de Direitos Humanos dos governos FH, Lula e Dilma, que será lançado em evento on-line do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) no próximo dia 1° de outubro, a partir das 14h. O manifesto defende a institucionalidade da política de Estado dos direitos humanos, traz a memória daqueles e daquelas que foram responsáveis por sua operacionalidade e clama por sua reconstrução. É uma mensagem forte e precisa para que a política de Estado de direitos humanos seja central nas campanhas de todos os candidatos e candidatas democratas à Presidência no próximo ano.**José Gregori, Gilberto Vergne Saboia, Paulo Sérgio Pinheiro, Nilmário Miranda, Mário Mamede Filho, Paulo de Tarso Vannuchi, Maria do Rosário, Ideli Salvatti, Pepe Vargas, Nilma Lino Gomes e Rogério Sottili
Estas são implementadas de diversas formas: por meio de mudanças legais, fechamento de órgãos e colegiados, cortes orçamentários, nomeação de dirigentes ineptos com posições hostis ao funcionamento de conselhos onde tem assento a sociedade civil ou pela inação pura e simples. Desse modo, os programas nacionais de direitos humanos em andamento foram esvaziados, inviabilizados ou desviados de seus propósitos, ao mesmo tempo que outras ações tornaram precária a condição dos grupos vulneráveis protegidos por direitos, ao instigar aqueles que os atacam.
O alvo mais claro do desmonte operado pelo atual governo de extrema direita é a política de Estado de direitos humanos institucionalizada na Secretaria de Estado de Direitos Humanos, pasta criada em 1996. Mais tarde, a secretaria foi convertida em ministério e acompanhada da criação de outros ministérios, secretarias e órgãos voltados à proteção dos direitos humanos, à promoção da igualdade racial e da equidade de gênero, ao combate à pobreza e ao trabalho escravo. O Programa Nacional de Direitos Humanos, começando pelo PNDH 1, de 1996, revisado pelo PNDH2, em 2002, ambos nos governos Fernando Henrique, e pelo PNDH 3, em 2009, no governo Lula, condensaram o conjunto de iniciativas em defesa dos direitos humanos promovidas nos níveis federal, estadual e municipal, com efetiva participação da sociedade civil.
As políticas de direitos humanos desde a redemocratização promoveram mudanças nas práticas políticas autoritárias, oligárquicas, clientelistas e na estrutura desigual e racista da nossa sociedade brasileira. Além de defendê-las contra os ataques e o desmantelamento que vêm sofrendo, é preciso divulgá-las publicamente para que possam servir de inspiração a todos os que resistem atualmente e lutam pela democracia, o Estado de Direito e a justiça social no Brasil.
Esse é o objetivo do primeiro manifesto assinado por 11 secretários e secretárias**, ministros e ministras de Direitos Humanos dos governos FH, Lula e Dilma, que será lançado em evento on-line do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) no próximo dia 1° de outubro, a partir das 14h. O manifesto defende a institucionalidade da política de Estado dos direitos humanos, traz a memória daqueles e daquelas que foram responsáveis por sua operacionalidade e clama por sua reconstrução. É uma mensagem forte e precisa para que a política de Estado de direitos humanos seja central nas campanhas de todos os candidatos e candidatas democratas à Presidência no próximo ano.**José Gregori, Gilberto Vergne Saboia, Paulo Sérgio Pinheiro, Nilmário Miranda, Mário Mamede Filho, Paulo de Tarso Vannuchi, Maria do Rosário, Ideli Salvatti, Pepe Vargas, Nilma Lino Gomes e Rogério Sottili
O Brasil entre o poder do horror e o horror do poder
Há tempos que eu não via Joca, meu velho amigo privilegiado, morador de casarão em trecho exuberante da floresta. Se não fosse apenas pelo prazer de vê-lo e ouvi-lo, não podia recusar seu convite para “tomar uma cerveja e saber como andam as coisas no Brasil”. Fui intrigado.
Joca conduziu o carro para os limites de uma comunidade e parou diante de um botequim, mais bem tratado que a média dos outros na região. Entramos, com ele à frente, e logo ouvi uma voz grossa e cheia de catarro preso gritar, por trás do balcão do boteco: “Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! É ele, minha gente, é o cara!” E puxou o aplauso pela chegada de meu amigo.
Meu amigo agradeceu os aplausos, assobios e gritos excitados de parte considerável dos fregueses, e me apresentou ao senhor bigodudo e gordo da voz de catarro. “Vamos contar aqui pro meu amigo como anda o Brasil, seu Taco!”, disse ele. Imaginei que Taco fosse uma redução popular para, por exemplo, Eustáquio. E arrisquei: “Boa noite, seu Eustáquio.” “É Otávio. Otávio Costa”, me respondeu jogando fora pela boca o que lhe travava a garganta.
O boteco estava lotado de gente, mesmo para uma noite de sábado. Joca pediu sua cerveja geladíssima, me contentei com uma Coca Zero pequena. Um rapaz, do outro lado do bar, perguntou em voz alta a Joca: “Ouviu o discurso do cara, cara?” Por um desses milagres cariocas de entendimento nas nuvens, compreendi que o rapaz se referia ao presidente e seu discurso em Nova York, na ONU. “Uma merda”, respondeu Joca de bate-pronto, “nem pra eleitor burro serviu”. Quase todo mundo no boteco riu. Um outro rapaz, na mesa ao lado da de Joca, afirmou, sem muita convicção, que “burro vota é no Lula, não vota nele”.
O boteco estava lotado de gente, mesmo para uma noite de sábado. Joca pediu sua cerveja geladíssima, me contentei com uma Coca Zero pequena. Um rapaz, do outro lado do bar, perguntou em voz alta a Joca: “Ouviu o discurso do cara, cara?” Por um desses milagres cariocas de entendimento nas nuvens, compreendi que o rapaz se referia ao presidente e seu discurso em Nova York, na ONU. “Uma merda”, respondeu Joca de bate-pronto, “nem pra eleitor burro serviu”. Quase todo mundo no boteco riu. Um outro rapaz, na mesa ao lado da de Joca, afirmou, sem muita convicção, que “burro vota é no Lula, não vota nele”.
O boteco pegou fogo. Em outra mesa, um trio parecia ensaiado: “Quem come na rua e entra pelos fundos...”, “... transmite doença e todos têm vergonha dele...”, “...só pode ser um rato...”, e os três juntaram suas vozes para encerrar o discurso: “...poderosa ratazana!” Antes que o terceiro homem entrasse no coro, todo mundo já caía na risada. Quando disse que o presidente só podia ser um rato, o boteco quase veio abaixo de tanto riso e palmas, de tanto protesto e vaias.
Ali estava o Brasil que Joca queria me mostrar, dividido ao meio, entre o poder do horror e o horror do poder.
A partir daí, não se podia ouvir mais nada do que se dizia no boteco. Ninguém tocava em ninguém, era só gritaria, acho que só pelo prazer de gritar. Joca ria vitorioso, como se fosse o feiticeiro sábio responsável pela balbúrdia. E eu acompanhava a discussão política derivar, com naturalidade, para acusações pessoais, protestos originados por acontecimentos do dia a dia. Frases agressivas que acusavam a uns e outros, ponteadas por palavrões inéditos que pareciam inventados na hora de tão gostosos de dizer, a boca cheia.
A partir daí, não se podia ouvir mais nada do que se dizia no boteco. Ninguém tocava em ninguém, era só gritaria, acho que só pelo prazer de gritar. Joca ria vitorioso, como se fosse o feiticeiro sábio responsável pela balbúrdia. E eu acompanhava a discussão política derivar, com naturalidade, para acusações pessoais, protestos originados por acontecimentos do dia a dia. Frases agressivas que acusavam a uns e outros, ponteadas por palavrões inéditos que pareciam inventados na hora de tão gostosos de dizer, a boca cheia.
Claro que ninguém ali pensava em nosso presidente, eram apenas discípulos de seu jeito de ser. Ou, melhor dizendo, haviam encontrado em seu comportamento a chave para se comportar igual. Também não era uma imitação barata, todos ali tinham aquele mesmo jeito, desde sempre. Só não sabiam que podiam ser assim, nosso presidente os libertava do temor de serem inconvenientes, sem projeto e sem ideologia. Apenas violentos e capazes de assumir seus modos e ideias assim, daquele jeito barato, sem preço. Não ficariam devendo nada a ninguém e depois se esqueceriam do presidente, não saberiam nem quem foi. Os bolsonaristas iam durar muito mais que Bolsonaro, iam durar para sempre.
Há tempos não tinha tanto medo. Disfarcei, conversei mais um pouco, acho que aos gritos para poder vencer a barulheira. E pedi para ir embora, não me lembro sob que pretexto. Joca me atendeu rindo muito.
Cacá Diegues
Há tempos não tinha tanto medo. Disfarcei, conversei mais um pouco, acho que aos gritos para poder vencer a barulheira. E pedi para ir embora, não me lembro sob que pretexto. Joca me atendeu rindo muito.
Cacá Diegues
Pau-de-arara generalizado
Concluímos que em mil dias de governo Bolsonaro os brasileiros estão vivendo sem direitos. As pessoas estão sentindo no bolso, no prato, na pele e no corpo as perdas dos seus direitos mais fundamentaisJurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil
A aristocracia refém de si mesma
Nada isenta o capitão genocida. Ele é antidemocrático desde criancinha, e há trinta anos bradava isso aos quatro ventos, para quem quisesse ouvir. Mas era apenas visto como um lunático bravateiro. Até mesmo os grupinhos que iam para a avenida Paulista com faixas pedindo a volta da ditadura eram vistos como excêntricos. Como fomos parar aqui? Com um presidente da República que ameaça o STF e a democracia em comício, sem que lhe aconteça nada de mais grave?
Pois é, após as reações no mínimo covardes dos presidentes da Câmara e do STF, temos que nos perguntar. Será mesmo apenas frouxidão? Medo do Bolsonaro? Será realmente que estão apequenados porque acreditam que o capitão seria capaz de aglutinar apoio para uma sublevação contra a democracia? Quando todos aqueles que circulam nos meios do poder indicam que ele não tem apoio para isso? Será que, como sustentam alguns, estamos menosprezando a força do golpe que Bolsonaro sorrateiramente prepara? Acredito que a resposta não está propriamente no Bolsonaro.
Há uma questão que sempre vale lembrar: quem começou com essa história de destruir a democracia, não foi Bolsonaro. Quem duvidou do resultado da penúltima eleição presidencial, insinuou fraude, lançou ameaças ao governo que recém vencia, não foi Bolsonaro. Foi Aécio Neves. Quem começou a subir, semana sim semana não, mais um degrau no desmonte da democracia, não foi Bolsonaro, mas um juiz que decidiu, à luz do dia e sem reação de ninguém, virar justiceiro e desrespeitar a lei. Quem iniciou um impeachment sem crime não foi Bolsonaro, foi o MDB associado ao PSDB.
Pois bem, há uma aristocracia poderosa e discreta que decide os destinos deste país. A imagem folclórica, embora haja testemunho de gente que presenciou, é que se reúnem de vez em quando em salões aveludados para discutir a conjuntura e os rumos do país. São grandes banqueiros, gigantes da indústria, donos das mídias, ex-mandatários, empresários de peso, e alguns políticos, mas não todos (escrevi este artigo antes do vídeo do jantar do Temer na casa do Naji Nahas, com todos os barões reunidos. Não poderia haver uma ilustração melhor do que essa). Pois desconfio que muito da inépcia das reações aos delírios de Bolsonaro deve ser buscado no meio dessa turma, e não no meio da família de dementes que eles deixaram, por um lapso, chegar ao poder. A explicação está em outro lugar. Está no impasse em que essa gente se meteu, por conta própria.
A questão é a seguinte: a aristocracia que manda cedeu à força democrática ao aceitar engolir Lula, convencidos pela “Carta aos brasileiros”. Deu até mais certo do que eles pensavam, mas, quando o caldo começou a entornar, porque Dilma mostrou-se mais à esquerda do que o desejado, porque enfrentou sem sucesso uma crise econômica que não era mais nenhuma “marola” (como havia prometido Lula), quando Dilma resolveu endurecer com os bancos, e quando viram que a brincadeira democrática podia perpetuar o PT no poder por décadas, resolveram que a brincadeira já não tinha mais graça. Prepararam-se com tudo – com a mídia e todo seu poder econômico – para tirar Dilma do poder nas eleições, mas não conseguiram. Restou-lhes questionar o pleito e iniciar um paulatino, mas seguro, processo de erosão da democracia.
O que não esperavam é que seus potenciais representantes políticos iriam cindir-se e, com mais de um candidato, todos sem nenhum carisma, iriam afundar-se eleitoralmente. Alkmin, Meirelles, Amoedo e, em certa medida, Marina, dividiram os votos do “centro esclarecido”, um eufemismo para uma direita aristocrática montada em seus privilégios, mas que se quer progressista, e se afundaram nas urnas. Seu inimigo naquele momento não era Bolsonaro, vale lembrar. Era o PT, de quem tinham medo que voltasse ao poder e ali ficasse.
Por isso, não se importaram em apostar naquele que havia gritado “Viva Ustra” poucos meses antes. Nem Ciro, nem FHC, ninguém. Todos aceitaram igualar dois candidatos incomparáveis, e ajudaram a parir o monstro, a acordar não um gigante, mas uma massa de brasileiros toscos, individualistas, racistas, xenófobos, machistas, egoístas, intolerantes, violentos, que de repente viram que lhes tinha sido dado espaço para se manifestarem sem vergonha. Pior, com orgulho.
Com Bolsonaro no poder, entraram – ou acharam que entraram – no clubinho dos poderosos novas figuras que na verdade não foram aceitos. Empresários do comércio de varejo, vaqueiros do agrobusiness, gente mais tacanha, focada no seu lucro imediato, habituada às burlas e falcatruas, à sonegação de impostos, às malas de dinheiro. Pastores das igrejas da enganação, tosqueadores do dinheiro dos mais pobres. Essa gente começou a falar alto. Ah, e também, é claro, as milícias.
Jair Bolsonaro vive, ou melhor, sobrevive da sua popularidade com esses setores. E só. Nenhum militar de mais alta patente com algum neurônio (e seria muito simplismo achar que eles não têm nenhum neurônio) iria se embrenhar em uma aventura golpista com um fanfarrão na liderança. As PMs podem até apoiá-lo, mas precisaria de muita coordenação entre forças estaduais desconectadas para que constituíssem uma força armada capaz de sustentar uma aventura militarista. Nenhum empresário, banqueiro, industrial, está interessado em ver o país virar um faroeste dominado por milicianos e aventureiros novos ricos. Sabem que seria o pior cenário para seus lucros. Aliás, nem mesmo o centrão parece disposto, pois sabe que isso seria o fim de sua fonte de clientelismos, seriam rapidamente substituídos por outras forças bem piores, milicianos e afins.
Mas ai, o que fazer? O problema é esse. Nessa dinâmica toda, essa elite aristocrática perdeu a mão da política. Ela é, no fundo, profundamente antidemocrática. Talvez mais até do que o próprio Bolsonaro, pois o é de maneira mais sofisticada. Sua estratégia é vencer legitimamente nas eleições, desde que ganhe quem eles queiram. Só que, desta vez, eles têm a frente um fanfarrão que tem o poder, e do outro lado, mais forte do que nunca, a possibilidade da volta do PT. Podem dizer o que quiserem, mas Lula é o que é, gostem ou não. Carrega caminhões de apoiadores legítimos. E a expressão mais acabada do modo antidemocrático de ser dessa gente surge quando algum jornalista ou político sugere que Lula deveria renunciar à candidatura, “em nome do país”. Vamos colocar em outras palavras: Lula deveria desistir porque ele impede que tirem o Bolsonaro para por no lugar alguém que eles queiram, “em nome e para o bem do país”.
Eles bem que tentaram: Moro, Huck, Mandetta e até mesmo um idiota como aquele humorista, foram testados para a tarefa. Mas aí que está o problema, ninguém “pega”. Nem mesmo o Ciro, que está disposto a tudo, até a se assumir de vez como representante dessa aristocracia. Eles todos até poderiam tirar o Bolsonaro, mas o problema não é bem esse: não tiram o Lula. E então estão se desesperando em busca de uma “terceira via”, um eufemismo para dizer que não aceitam a vontade democrática se ela confirmar que a escolha popular será Lula.
Então, por ora, aceitam as bravatas. Assim como ocorreu nas eleições, Bolsonaro, um oportunista profissional, aproveita o espaço. E sobe o tom. Se não conseguir um golpe, ao menos sairá atirando com uma base intacta de 25%, assim como Donald Trump. O STF e Artur Lira sustentariam uma reação à altura que as provocações de Bolsonaro merecem? Mas para dar no que? Em um impeachment que colocará Mourão à espera de uma eleição aparentemente já decidida? A solução não serve. O andar de cima deve estar fervendo. Urge achar uma saída, antes que percam de vez o pé da aventura bolsonarista.
Temos que entender que o DNA antidemocrático não é uma exclusividade de um louco que deixou o país à deriva e à morte em nome de seus projetinhos pessoais tacanhos, e que clama por um golpe desde que existe. O DNA está em quem deixa ele agir impunemente porque, do alto das instituições democráticas que deviam servir, não tomam as atitudes que se impõem.
Lembremos que Dias Toffoli, quando presidente do STF, colocou um militar para assessorá-lo, em um gesto para conciliar com Bolsonaro. Disse que a ditadura havia sido um movimento. A alta corte calou-se quando um general a emparedou caso seguissem a lei e soltassem o Lula. Porque tamanha condescendência? Porque estão perdidos, sem achar um caminho que tire o fanfarrão de onde não deveria estar, mas lhes garanta o poder. Se quisessem, têm dinheiro para pôr o centrão no bolso. A questão é que ser democrático, hoje, no Brasil, significa aceitar as eleições. E eles não querem do jeito que está. Então vão empurrando o capitão até algo novo surgir. Não se espantem se esse “algo novo” não venha a ser de novo o Moro: como a Folha já mostrou, a absolvição de Lula e a condenação do ex-juiz no STF não significa nada, para eles são só arranjos. O problema é que, nessa brincadeira, o fanfarrão pode acabar dando-lhes novamente um olé, e conseguir o que quer: um golpe de verdade.
Pois é, após as reações no mínimo covardes dos presidentes da Câmara e do STF, temos que nos perguntar. Será mesmo apenas frouxidão? Medo do Bolsonaro? Será realmente que estão apequenados porque acreditam que o capitão seria capaz de aglutinar apoio para uma sublevação contra a democracia? Quando todos aqueles que circulam nos meios do poder indicam que ele não tem apoio para isso? Será que, como sustentam alguns, estamos menosprezando a força do golpe que Bolsonaro sorrateiramente prepara? Acredito que a resposta não está propriamente no Bolsonaro.
Há uma questão que sempre vale lembrar: quem começou com essa história de destruir a democracia, não foi Bolsonaro. Quem duvidou do resultado da penúltima eleição presidencial, insinuou fraude, lançou ameaças ao governo que recém vencia, não foi Bolsonaro. Foi Aécio Neves. Quem começou a subir, semana sim semana não, mais um degrau no desmonte da democracia, não foi Bolsonaro, mas um juiz que decidiu, à luz do dia e sem reação de ninguém, virar justiceiro e desrespeitar a lei. Quem iniciou um impeachment sem crime não foi Bolsonaro, foi o MDB associado ao PSDB.
Pois bem, há uma aristocracia poderosa e discreta que decide os destinos deste país. A imagem folclórica, embora haja testemunho de gente que presenciou, é que se reúnem de vez em quando em salões aveludados para discutir a conjuntura e os rumos do país. São grandes banqueiros, gigantes da indústria, donos das mídias, ex-mandatários, empresários de peso, e alguns políticos, mas não todos (escrevi este artigo antes do vídeo do jantar do Temer na casa do Naji Nahas, com todos os barões reunidos. Não poderia haver uma ilustração melhor do que essa). Pois desconfio que muito da inépcia das reações aos delírios de Bolsonaro deve ser buscado no meio dessa turma, e não no meio da família de dementes que eles deixaram, por um lapso, chegar ao poder. A explicação está em outro lugar. Está no impasse em que essa gente se meteu, por conta própria.
A questão é a seguinte: a aristocracia que manda cedeu à força democrática ao aceitar engolir Lula, convencidos pela “Carta aos brasileiros”. Deu até mais certo do que eles pensavam, mas, quando o caldo começou a entornar, porque Dilma mostrou-se mais à esquerda do que o desejado, porque enfrentou sem sucesso uma crise econômica que não era mais nenhuma “marola” (como havia prometido Lula), quando Dilma resolveu endurecer com os bancos, e quando viram que a brincadeira democrática podia perpetuar o PT no poder por décadas, resolveram que a brincadeira já não tinha mais graça. Prepararam-se com tudo – com a mídia e todo seu poder econômico – para tirar Dilma do poder nas eleições, mas não conseguiram. Restou-lhes questionar o pleito e iniciar um paulatino, mas seguro, processo de erosão da democracia.
O que não esperavam é que seus potenciais representantes políticos iriam cindir-se e, com mais de um candidato, todos sem nenhum carisma, iriam afundar-se eleitoralmente. Alkmin, Meirelles, Amoedo e, em certa medida, Marina, dividiram os votos do “centro esclarecido”, um eufemismo para uma direita aristocrática montada em seus privilégios, mas que se quer progressista, e se afundaram nas urnas. Seu inimigo naquele momento não era Bolsonaro, vale lembrar. Era o PT, de quem tinham medo que voltasse ao poder e ali ficasse.
Por isso, não se importaram em apostar naquele que havia gritado “Viva Ustra” poucos meses antes. Nem Ciro, nem FHC, ninguém. Todos aceitaram igualar dois candidatos incomparáveis, e ajudaram a parir o monstro, a acordar não um gigante, mas uma massa de brasileiros toscos, individualistas, racistas, xenófobos, machistas, egoístas, intolerantes, violentos, que de repente viram que lhes tinha sido dado espaço para se manifestarem sem vergonha. Pior, com orgulho.
Com Bolsonaro no poder, entraram – ou acharam que entraram – no clubinho dos poderosos novas figuras que na verdade não foram aceitos. Empresários do comércio de varejo, vaqueiros do agrobusiness, gente mais tacanha, focada no seu lucro imediato, habituada às burlas e falcatruas, à sonegação de impostos, às malas de dinheiro. Pastores das igrejas da enganação, tosqueadores do dinheiro dos mais pobres. Essa gente começou a falar alto. Ah, e também, é claro, as milícias.
Jair Bolsonaro vive, ou melhor, sobrevive da sua popularidade com esses setores. E só. Nenhum militar de mais alta patente com algum neurônio (e seria muito simplismo achar que eles não têm nenhum neurônio) iria se embrenhar em uma aventura golpista com um fanfarrão na liderança. As PMs podem até apoiá-lo, mas precisaria de muita coordenação entre forças estaduais desconectadas para que constituíssem uma força armada capaz de sustentar uma aventura militarista. Nenhum empresário, banqueiro, industrial, está interessado em ver o país virar um faroeste dominado por milicianos e aventureiros novos ricos. Sabem que seria o pior cenário para seus lucros. Aliás, nem mesmo o centrão parece disposto, pois sabe que isso seria o fim de sua fonte de clientelismos, seriam rapidamente substituídos por outras forças bem piores, milicianos e afins.
Mas ai, o que fazer? O problema é esse. Nessa dinâmica toda, essa elite aristocrática perdeu a mão da política. Ela é, no fundo, profundamente antidemocrática. Talvez mais até do que o próprio Bolsonaro, pois o é de maneira mais sofisticada. Sua estratégia é vencer legitimamente nas eleições, desde que ganhe quem eles queiram. Só que, desta vez, eles têm a frente um fanfarrão que tem o poder, e do outro lado, mais forte do que nunca, a possibilidade da volta do PT. Podem dizer o que quiserem, mas Lula é o que é, gostem ou não. Carrega caminhões de apoiadores legítimos. E a expressão mais acabada do modo antidemocrático de ser dessa gente surge quando algum jornalista ou político sugere que Lula deveria renunciar à candidatura, “em nome do país”. Vamos colocar em outras palavras: Lula deveria desistir porque ele impede que tirem o Bolsonaro para por no lugar alguém que eles queiram, “em nome e para o bem do país”.
Eles bem que tentaram: Moro, Huck, Mandetta e até mesmo um idiota como aquele humorista, foram testados para a tarefa. Mas aí que está o problema, ninguém “pega”. Nem mesmo o Ciro, que está disposto a tudo, até a se assumir de vez como representante dessa aristocracia. Eles todos até poderiam tirar o Bolsonaro, mas o problema não é bem esse: não tiram o Lula. E então estão se desesperando em busca de uma “terceira via”, um eufemismo para dizer que não aceitam a vontade democrática se ela confirmar que a escolha popular será Lula.
Então, por ora, aceitam as bravatas. Assim como ocorreu nas eleições, Bolsonaro, um oportunista profissional, aproveita o espaço. E sobe o tom. Se não conseguir um golpe, ao menos sairá atirando com uma base intacta de 25%, assim como Donald Trump. O STF e Artur Lira sustentariam uma reação à altura que as provocações de Bolsonaro merecem? Mas para dar no que? Em um impeachment que colocará Mourão à espera de uma eleição aparentemente já decidida? A solução não serve. O andar de cima deve estar fervendo. Urge achar uma saída, antes que percam de vez o pé da aventura bolsonarista.
Temos que entender que o DNA antidemocrático não é uma exclusividade de um louco que deixou o país à deriva e à morte em nome de seus projetinhos pessoais tacanhos, e que clama por um golpe desde que existe. O DNA está em quem deixa ele agir impunemente porque, do alto das instituições democráticas que deviam servir, não tomam as atitudes que se impõem.
Lembremos que Dias Toffoli, quando presidente do STF, colocou um militar para assessorá-lo, em um gesto para conciliar com Bolsonaro. Disse que a ditadura havia sido um movimento. A alta corte calou-se quando um general a emparedou caso seguissem a lei e soltassem o Lula. Porque tamanha condescendência? Porque estão perdidos, sem achar um caminho que tire o fanfarrão de onde não deveria estar, mas lhes garanta o poder. Se quisessem, têm dinheiro para pôr o centrão no bolso. A questão é que ser democrático, hoje, no Brasil, significa aceitar as eleições. E eles não querem do jeito que está. Então vão empurrando o capitão até algo novo surgir. Não se espantem se esse “algo novo” não venha a ser de novo o Moro: como a Folha já mostrou, a absolvição de Lula e a condenação do ex-juiz no STF não significa nada, para eles são só arranjos. O problema é que, nessa brincadeira, o fanfarrão pode acabar dando-lhes novamente um olé, e conseguir o que quer: um golpe de verdade.
sábado, 25 de setembro de 2021
Delírio tropical
A cada episódio do espetáculo de desmoralização da Presidência da República estrelado por Jair Bolsonaro há dois anos e oito meses, as pessoas se perguntam qual é a razão de o presidente insistir na marcha da própria insensatez.
Buscam-se variadas motivações: na vocação ao autoritarismo, numa presumida esperteza bem planejada, em algum déficit no recôndito do cérebro presidencial ou mesmo na sinalização para um golpe de Estado.
Isoladamente, nenhuma delas satisfaz por ausência de razoabilidade fática na execução dos propósitos quaisquer que sejam eles. O conjunto dessas características sem dúvida presentes nos atos e palavras do presidente, e que por isso justificam as suspeitas, dá notícia de uma personalidade dada a delírios.
O maior dos produtos da confusão mental de Bolsonaro é a ideia de que nessa toada chegará à reeleição. O que mais se ouve por aí no rol de tentativas de explicar a série de tiros no pé é que ele fala “para sua bolha”. Assim a maior parte das análises sobre o espantoso discurso na abertura da Assembleia-Geral da ONU qualificou a passagem do presidente por Nova York.
Não é novo o fato de presidentes brasileiros perderem a chance de falar ao mundo e preferirem se dirigir à província. José Sarney, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff já fizeram isso, mas nenhum deles atraiu críticas nem obteve o destaque internacional alcançado pelo atual presidente, até porque o simples envio de “recados” internos não interessam ao mundo.
Portanto, parece apressado e um tanto equivocado resumir a atuação desastrosa à intenção de fidelizar uma base eleitoral de convertidos, que, inclusive, diminui de tamanho a cada contagem dessa adesão nas pesquisas. Jair Bolsonaro teve o apoio de 55% do eleitorado em 2018. Hoje é aprovado por 22% dos consultados na última apuração do instituto Datafolha, cuja mostra revelou que apenas 11% estão com ele para o que der e vier.
O que, então, poderia pensar o presidente em ganhar com a desastrosa passagem por NYC? E aqui a referência não é apenas ao discurso eivado de mentiras do começo ao fim, todas desmentidas interna e externamente, de A a Z, ponto a ponto. O desastre materializou-se na exibição do manual de estilo ao qual os ministros da Saúde e das Relações Exteriores acrescentaram alguns tópicos com suas chocantes linguagens de sinais.
Voltando ao ponto sobre o que pensa o presidente em ganhar com isso, chego à conclusão: ele não pensa. Tem vocação autoritária, sonha com golpes, é refém de uma expressiva confusão mental, mas não tem estratégia oculta nem é um esperto por natureza.
Bolsonaro simplesmente é assim, um homem inculto, grosseiro, deslumbrado e ao mesmo tempo assustado por ter sido guindado de repente da insignificância à total importância. Não sabe ser diferente e por isso se refugia em delírios, naquilo que se convencionou chamar de realidade paralela bolsonarista, um universo onde a lógica não tem vez.
Os habitantes desse planeta fora do mapa compartilham a euforia à deriva pela atenção recém-adquirida. Sentem-se finalmente relevantes, donos de voz ativa, credores do líder que os levou a essa condição. Decepcionam-se às vezes, mas se recuperam rápido criando razões para renovar a fidelidade, ainda que elas pouco ou nada tenham a ver com os fatos.
Os acontecimentos decorrentes das manifestações do 7 de Setembro foram particularmente expressivos nesse aspecto. Logo após o presidente ter inventado no palanque de Brasília que no dia seguinte haveria uma reunião do Conselho da República, vários deles divulgaram vídeos em que apareciam felizes e aos prantos pela “decretação do estado de sítio”. Também comemoraram a “fuga” do ministro Alexandre de Moraes “para Taiwan”, onde estaria exilado e tão “humilhado” quanto seus pares do Supremo Tribunal Federal.
E a carta do dito pelo não dito escrita por Michel Temer? Um hábil recuo estratégico para obter do STF a garantia de que não haveria punições nem investigações envolvendo o presidente e seus apoiadores. E a fraude eleitoral, e o chip da vacina, e os vacinados transformados em jacarés, e a cura pela cloroquina, e os milhões que foram às ruas na “maior manifestação de toda a história”, e a ameaça comunista?
Tudo isso, e mais um pouco que a memória deixou de fora, pode servir para movimentar os delirantes, mas não é suficiente para ganhar uma eleição.
Buscam-se variadas motivações: na vocação ao autoritarismo, numa presumida esperteza bem planejada, em algum déficit no recôndito do cérebro presidencial ou mesmo na sinalização para um golpe de Estado.
Isoladamente, nenhuma delas satisfaz por ausência de razoabilidade fática na execução dos propósitos quaisquer que sejam eles. O conjunto dessas características sem dúvida presentes nos atos e palavras do presidente, e que por isso justificam as suspeitas, dá notícia de uma personalidade dada a delírios.
O maior dos produtos da confusão mental de Bolsonaro é a ideia de que nessa toada chegará à reeleição. O que mais se ouve por aí no rol de tentativas de explicar a série de tiros no pé é que ele fala “para sua bolha”. Assim a maior parte das análises sobre o espantoso discurso na abertura da Assembleia-Geral da ONU qualificou a passagem do presidente por Nova York.
Não é novo o fato de presidentes brasileiros perderem a chance de falar ao mundo e preferirem se dirigir à província. José Sarney, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff já fizeram isso, mas nenhum deles atraiu críticas nem obteve o destaque internacional alcançado pelo atual presidente, até porque o simples envio de “recados” internos não interessam ao mundo.
Portanto, parece apressado e um tanto equivocado resumir a atuação desastrosa à intenção de fidelizar uma base eleitoral de convertidos, que, inclusive, diminui de tamanho a cada contagem dessa adesão nas pesquisas. Jair Bolsonaro teve o apoio de 55% do eleitorado em 2018. Hoje é aprovado por 22% dos consultados na última apuração do instituto Datafolha, cuja mostra revelou que apenas 11% estão com ele para o que der e vier.
O que, então, poderia pensar o presidente em ganhar com a desastrosa passagem por NYC? E aqui a referência não é apenas ao discurso eivado de mentiras do começo ao fim, todas desmentidas interna e externamente, de A a Z, ponto a ponto. O desastre materializou-se na exibição do manual de estilo ao qual os ministros da Saúde e das Relações Exteriores acrescentaram alguns tópicos com suas chocantes linguagens de sinais.
Voltando ao ponto sobre o que pensa o presidente em ganhar com isso, chego à conclusão: ele não pensa. Tem vocação autoritária, sonha com golpes, é refém de uma expressiva confusão mental, mas não tem estratégia oculta nem é um esperto por natureza.
Bolsonaro simplesmente é assim, um homem inculto, grosseiro, deslumbrado e ao mesmo tempo assustado por ter sido guindado de repente da insignificância à total importância. Não sabe ser diferente e por isso se refugia em delírios, naquilo que se convencionou chamar de realidade paralela bolsonarista, um universo onde a lógica não tem vez.
Os habitantes desse planeta fora do mapa compartilham a euforia à deriva pela atenção recém-adquirida. Sentem-se finalmente relevantes, donos de voz ativa, credores do líder que os levou a essa condição. Decepcionam-se às vezes, mas se recuperam rápido criando razões para renovar a fidelidade, ainda que elas pouco ou nada tenham a ver com os fatos.
Os acontecimentos decorrentes das manifestações do 7 de Setembro foram particularmente expressivos nesse aspecto. Logo após o presidente ter inventado no palanque de Brasília que no dia seguinte haveria uma reunião do Conselho da República, vários deles divulgaram vídeos em que apareciam felizes e aos prantos pela “decretação do estado de sítio”. Também comemoraram a “fuga” do ministro Alexandre de Moraes “para Taiwan”, onde estaria exilado e tão “humilhado” quanto seus pares do Supremo Tribunal Federal.
E a carta do dito pelo não dito escrita por Michel Temer? Um hábil recuo estratégico para obter do STF a garantia de que não haveria punições nem investigações envolvendo o presidente e seus apoiadores. E a fraude eleitoral, e o chip da vacina, e os vacinados transformados em jacarés, e a cura pela cloroquina, e os milhões que foram às ruas na “maior manifestação de toda a história”, e a ameaça comunista?
Tudo isso, e mais um pouco que a memória deixou de fora, pode servir para movimentar os delirantes, mas não é suficiente para ganhar uma eleição.
Nojo do Brasil de Bolsonaro
Há tempos, desde que a vacinação contra a Covid dividiu o mundo —de um lado, governantes dispostos a proteger sua população; do outro, Jair Bolsonaro decidido a matar o maior número possível de pessoas—, comecei a me perguntar como seria quando Bolsonaro tivesse de fazer uma viagem internacional. Como os serviços diplomáticos relatam a seus superiores o que acontece nos países em que estão baseados, não era segredo para nenhum chefe de Estado que Bolsonaro não apenas se recusava a se vacinar como fazia tudo para o vírus grassar no Brasil.
Fiquei a imaginar potentados como a alemã Angela Merkel, o chinês Xi Jinping e o próprio russo Vladimir Putin, para não falar do papa Francisco, sendo obrigados a receber Bolsonaro. O protocolo da OMS já tornara obrigatório o uso de máscara e o roçar de cotovelos no lugar do aperto de mãos, e, diante da notória recusa de Bolsonaro a respeitar essas orientações, não seria surpresa se aqueles líderes sentissem nojo dele.
O ser humano tem uma tendência irreprimível a demonstrar repulsa ou medo na presença de alguém suspeito de uma doença contagiosa, e não há etiqueta diplomática que atenue isso. A prova de que o nojo a Bolsonaro é um fato está em que o único governante digno de nota com quem ele conseguiu falar em sua ida à Assembleia-Geral da ONU foi o britânico Boris Johnson, hoje um líder quase de segunda divisão.
E, para azar de Johnson, o homem cuja mão ele apertou trazia um infectado em sua comitiva.
Ao saber disso, todos os diplomatas e funcionários que estiveram a um metro de qualquer brasileiro no evento da ONU foram se submeter a exame. O Brasil passou a provocar asco planetário.
Para eles, esse Brasil somos nós. Não sabem que, aqui, estamos tentando fazer a nossa parte, nos vacinando em massa —e que também nos enojamos com esse Brasil que arrota pizza e arrogância e mostra seu sórdido dedo para o mundo.
Fiquei a imaginar potentados como a alemã Angela Merkel, o chinês Xi Jinping e o próprio russo Vladimir Putin, para não falar do papa Francisco, sendo obrigados a receber Bolsonaro. O protocolo da OMS já tornara obrigatório o uso de máscara e o roçar de cotovelos no lugar do aperto de mãos, e, diante da notória recusa de Bolsonaro a respeitar essas orientações, não seria surpresa se aqueles líderes sentissem nojo dele.
O ser humano tem uma tendência irreprimível a demonstrar repulsa ou medo na presença de alguém suspeito de uma doença contagiosa, e não há etiqueta diplomática que atenue isso. A prova de que o nojo a Bolsonaro é um fato está em que o único governante digno de nota com quem ele conseguiu falar em sua ida à Assembleia-Geral da ONU foi o britânico Boris Johnson, hoje um líder quase de segunda divisão.
E, para azar de Johnson, o homem cuja mão ele apertou trazia um infectado em sua comitiva.
Ao saber disso, todos os diplomatas e funcionários que estiveram a um metro de qualquer brasileiro no evento da ONU foram se submeter a exame. O Brasil passou a provocar asco planetário.
Para eles, esse Brasil somos nós. Não sabem que, aqui, estamos tentando fazer a nossa parte, nos vacinando em massa —e que também nos enojamos com esse Brasil que arrota pizza e arrogância e mostra seu sórdido dedo para o mundo.
Prima-dona do cabaré
O bolsonarismo é incompetente e indecoroso até para mentir, e a mulher do sociopata, deslumbrada com as benesses do poder, é uma legítima representante dessa gente, contra a qual o impeachment é a única vacina
Bolsonaro, criminoso confesso, deixa o brasileiro ao Deus-dará
Se a Coronavac não tem eficiência comprovada conforme o presidente Jair Bolsonaro disse três vezes só nesta semana, e outras tantas desde o final do ano passado, como o Ministério da Saúde do já distribuiu até agora 101 milhões de doses?
Isso não configura crime – dele por desacreditar a vacina, e do Ministério da Saúde por distribuí-la? Não é o caso de repetir o que o planeta Terra sabe: Bolsonaro é um mentiroso compulsivo, mas de ele ser punido pelas mortes dos que acreditam em sua palavra.
Há comprovação científica de que a vacina funciona – entre elas, a imunização com sucesso de mais de um bilhão de pessoas na China, o país mais populoso do mundo, e de milhões no Chile e em outros lugares. Ou então aqui mesmo no Brasil.
Logo, quando Bolsonaro sabota a Coronavac, porque foi João Doria (PSDB), governador de São Paulo, que a adotou e o Instituto Butantan que a produz, está longe de tratar-se de mera questão de opinião como ele dirá um dia se for processado por isso.
Bolsonaro sempre disse que não haveria o que fazer no combate à pandemia, que o brasileiro é tão resistente que é capaz de meter-se num buraco lamacento e sair de lá com saúde, e que morreriam afinal os que tivessem de morrer. “Não sou coveiro”, lembra?
Patrocinou o tratamento precoce, à base de cloroquina e outras drogas ineficazes, sabendo que era uma fraude. Se não sabia à época, sabe agora. E se sabe, por que insiste em defendê-lo como fez em Nova Iorque na abertura da Assembleia Geral da ONU?
Em sua live semanal na última quinta-feira, ele afirmou que não erra e que nunca errou. Se admitisse erros, abriria brecha para que lhe perguntassem que erros foram, e se o tratamento precoce e o atraso na compra de vacinas não foram alguns deles.
É um criminoso confesso, que no exercício do cargo não pode ser processado, mas que poderia ser impedido de continuar desgovernando o país. Isso não acontecerá porque falte povo na rua a gritar “fora, Bolsonaro” – povo há de sobra, e haverá mais.
Falta na Câmara dos Deputados, comprada por meio de emendas ao Orçamento, cargos no governo e outros expedientes sujos, uma maioria que de fato represente o povo.
Isso não configura crime – dele por desacreditar a vacina, e do Ministério da Saúde por distribuí-la? Não é o caso de repetir o que o planeta Terra sabe: Bolsonaro é um mentiroso compulsivo, mas de ele ser punido pelas mortes dos que acreditam em sua palavra.
Há comprovação científica de que a vacina funciona – entre elas, a imunização com sucesso de mais de um bilhão de pessoas na China, o país mais populoso do mundo, e de milhões no Chile e em outros lugares. Ou então aqui mesmo no Brasil.
Logo, quando Bolsonaro sabota a Coronavac, porque foi João Doria (PSDB), governador de São Paulo, que a adotou e o Instituto Butantan que a produz, está longe de tratar-se de mera questão de opinião como ele dirá um dia se for processado por isso.
Bolsonaro sempre disse que não haveria o que fazer no combate à pandemia, que o brasileiro é tão resistente que é capaz de meter-se num buraco lamacento e sair de lá com saúde, e que morreriam afinal os que tivessem de morrer. “Não sou coveiro”, lembra?
Patrocinou o tratamento precoce, à base de cloroquina e outras drogas ineficazes, sabendo que era uma fraude. Se não sabia à época, sabe agora. E se sabe, por que insiste em defendê-lo como fez em Nova Iorque na abertura da Assembleia Geral da ONU?
Em sua live semanal na última quinta-feira, ele afirmou que não erra e que nunca errou. Se admitisse erros, abriria brecha para que lhe perguntassem que erros foram, e se o tratamento precoce e o atraso na compra de vacinas não foram alguns deles.
É um criminoso confesso, que no exercício do cargo não pode ser processado, mas que poderia ser impedido de continuar desgovernando o país. Isso não acontecerá porque falte povo na rua a gritar “fora, Bolsonaro” – povo há de sobra, e haverá mais.
Falta na Câmara dos Deputados, comprada por meio de emendas ao Orçamento, cargos no governo e outros expedientes sujos, uma maioria que de fato represente o povo.
sexta-feira, 24 de setembro de 2021
O pior negacionismo
Na ressaca do descalabro que foi o discurso do presidente brasileiro na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira, em Nova York, a gente se acabrunha. O grau do vexame extrapolou as piores expectativas. Em meio a mentiras ofensivas, distorções estúpidas e apologia de fármacos abstrusos, a saraivada de despautérios não convenceu ninguém e constrangeu o mundo inteiro. Aos conterrâneos do orador – dito mito, mas, de fato, mitômano – só restou engolir a humilhação. Vergonha – este foi o título do editorial do Estado em sua edição de ontem. Palavra bem aplicada.
Somos uma nação envergonhada, com as costas pensas sob o próprio fracasso. No ritmo em que as florestas deste país fumegam delirantemente, a esperança vira cinzas. O desastre ecológico e a tragédia sanitária se adensam num malogro político depressivo. Quando a autoridade máxima desta terra ardente (“qual fogueira de São João”) vai à ONU e pronuncia tudo o que pronunciou, em nosso nome, e nada lhe acontece, é sinal de que alguém aqui abdicou da dignidade.
Nestas horas, pouco adianta o sujeito sacar o celular e “postar” nas redes que o chefe de Estado é genocida. A inquietação lamurienta dos descontentes é seu triunfo. Cuspindo ácido sulfúrico, ele desfila sobre cadáveres de gente e de sonhos. Chamado de negacionista, mostra os dentes: negacionistas são vocês.
Talvez seja isso mesmo. Como já se percebeu, o pior negacionismo não é o dele, que rejeita a ciência, o saber e o diálogo, mas o daqueles que se negam a ver que estamos diante de um inimigo declarado da democracia, obcecado em preparar um golpe de Estado. O pior negacionismo é aceitar a permanência do governante que aí está e, nessa aceitação tácita, assinar um pacto de sangue com o projeto de ditadura que ele pretende pôr em prática.
O pior negacionismo vicejou (e ainda viceja) nas mesas de financistas sem princípios, que decidiram fazer vistas grossas para o que tinham recursos óticos para enxergar. Por uma fatalidade, mas não propriamente por acaso, o pior negacionismo encontrou meios de se disseminar à sociedade, contaminando até mesmo algumas artérias das redações profissionais.
A contaminação ficou evidente já na campanha de 2018. O presidente que aí está, então candidato, subia em palanques para idolatrar torturadores, amaldiçoar a liberdade de imprensa e elogiar a ditadura militar. Com essa postura, afrontou diretamente os fundamentos da nossa democracia. Embora cumprisse as formalidades jurídicas para obter o seu registro regular na Justiça Eleitoral, como se fosse um candidato normal, declarou guerra contra o Estado Democrático de Direito. Esse fato – rigorosamente um fato, não uma ilação opinativa – ficou sem o registro devido.
Sejamos mais precisos. A Constituição de 1988, o documento-base da frágil ordem democrática que este país foi capaz de estabelecer, pode ter suas contradições internas e seus acochambramentos mal costurados, mas está assentada sobre um consenso pétreo, ao qual todas as forças políticas devem lealdade. Esse consenso se materializa numa tripla recusa: a recusa da ditadura, da tortura e da censura. Ora, foi justamente para glorificar essas três formas de barbárie que aquele candidato se lançava em campanha e, não obstante, foi tratado em boa parte da cobertura da campanha eleitoral como se fosse, à parte seu destempero fascistoide, um candidato candidamente normal. Haja negacionismo. A vitória de Jair Bolsonaro está para a democracia brasileira como a vitória de um político declaradamente nazista estaria para a democracia alemã. Não foi e não é algo corriqueiro. Não é normal.
O mais aflitivo é constatar que, apesar de todas as provas em contrário, o negacionismo de pior tipo não cede. É repetidamente desmoralizado pelos acontecimentos, mas não cede. Seus estilhaços, como detritos ideológicos, ficam espalhados no chão da mídia e logo se reagrupam, em sucessivas e ridículas tentativas de dar crédito ao inacreditável. Uma das mais recentes veio na sequência dos atos golpistas de 7 de setembro.
No feriado, em comícios anabolizados por dinheiros estranhos, o presidente prometeu, aos brados, desobedecer às determinações do Supremo Tribunal Federal. No dia seguinte, para escapar aos processos que viriam, encenou mais um de seus recuos cínicos e assinou um texto mal escrito prometendo respeitar a separação e a harmonia entre os Poderes. Como de costume, ele se desdiz sem pejo, como se fôssemos uma nação de bobos. Mesmo assim, seu documento de rendição obteve calorosa acolhida em certos escaninhos do jornalismo. Sem memória e sem caráter, o negacionismo que beneficia o negacionista se restaura.
Quanto aos endinheirados alienados, que resolveram acreditar no fantasma do comunismo com o mesmo fervor que devotam ao lucro digital, não há o que fazer. O chefe de Estado, ao ler aquelas barbaridades na ONU, os representa fielmente. A imprensa, porém, que tem vida racional, poderia pensar um pouco mais a respeito, mesmo que seja tarde demais.
Somos uma nação envergonhada, com as costas pensas sob o próprio fracasso. No ritmo em que as florestas deste país fumegam delirantemente, a esperança vira cinzas. O desastre ecológico e a tragédia sanitária se adensam num malogro político depressivo. Quando a autoridade máxima desta terra ardente (“qual fogueira de São João”) vai à ONU e pronuncia tudo o que pronunciou, em nosso nome, e nada lhe acontece, é sinal de que alguém aqui abdicou da dignidade.
Nestas horas, pouco adianta o sujeito sacar o celular e “postar” nas redes que o chefe de Estado é genocida. A inquietação lamurienta dos descontentes é seu triunfo. Cuspindo ácido sulfúrico, ele desfila sobre cadáveres de gente e de sonhos. Chamado de negacionista, mostra os dentes: negacionistas são vocês.
Talvez seja isso mesmo. Como já se percebeu, o pior negacionismo não é o dele, que rejeita a ciência, o saber e o diálogo, mas o daqueles que se negam a ver que estamos diante de um inimigo declarado da democracia, obcecado em preparar um golpe de Estado. O pior negacionismo é aceitar a permanência do governante que aí está e, nessa aceitação tácita, assinar um pacto de sangue com o projeto de ditadura que ele pretende pôr em prática.
O pior negacionismo vicejou (e ainda viceja) nas mesas de financistas sem princípios, que decidiram fazer vistas grossas para o que tinham recursos óticos para enxergar. Por uma fatalidade, mas não propriamente por acaso, o pior negacionismo encontrou meios de se disseminar à sociedade, contaminando até mesmo algumas artérias das redações profissionais.
A contaminação ficou evidente já na campanha de 2018. O presidente que aí está, então candidato, subia em palanques para idolatrar torturadores, amaldiçoar a liberdade de imprensa e elogiar a ditadura militar. Com essa postura, afrontou diretamente os fundamentos da nossa democracia. Embora cumprisse as formalidades jurídicas para obter o seu registro regular na Justiça Eleitoral, como se fosse um candidato normal, declarou guerra contra o Estado Democrático de Direito. Esse fato – rigorosamente um fato, não uma ilação opinativa – ficou sem o registro devido.
Sejamos mais precisos. A Constituição de 1988, o documento-base da frágil ordem democrática que este país foi capaz de estabelecer, pode ter suas contradições internas e seus acochambramentos mal costurados, mas está assentada sobre um consenso pétreo, ao qual todas as forças políticas devem lealdade. Esse consenso se materializa numa tripla recusa: a recusa da ditadura, da tortura e da censura. Ora, foi justamente para glorificar essas três formas de barbárie que aquele candidato se lançava em campanha e, não obstante, foi tratado em boa parte da cobertura da campanha eleitoral como se fosse, à parte seu destempero fascistoide, um candidato candidamente normal. Haja negacionismo. A vitória de Jair Bolsonaro está para a democracia brasileira como a vitória de um político declaradamente nazista estaria para a democracia alemã. Não foi e não é algo corriqueiro. Não é normal.
O mais aflitivo é constatar que, apesar de todas as provas em contrário, o negacionismo de pior tipo não cede. É repetidamente desmoralizado pelos acontecimentos, mas não cede. Seus estilhaços, como detritos ideológicos, ficam espalhados no chão da mídia e logo se reagrupam, em sucessivas e ridículas tentativas de dar crédito ao inacreditável. Uma das mais recentes veio na sequência dos atos golpistas de 7 de setembro.
No feriado, em comícios anabolizados por dinheiros estranhos, o presidente prometeu, aos brados, desobedecer às determinações do Supremo Tribunal Federal. No dia seguinte, para escapar aos processos que viriam, encenou mais um de seus recuos cínicos e assinou um texto mal escrito prometendo respeitar a separação e a harmonia entre os Poderes. Como de costume, ele se desdiz sem pejo, como se fôssemos uma nação de bobos. Mesmo assim, seu documento de rendição obteve calorosa acolhida em certos escaninhos do jornalismo. Sem memória e sem caráter, o negacionismo que beneficia o negacionista se restaura.
Quanto aos endinheirados alienados, que resolveram acreditar no fantasma do comunismo com o mesmo fervor que devotam ao lucro digital, não há o que fazer. O chefe de Estado, ao ler aquelas barbaridades na ONU, os representa fielmente. A imprensa, porém, que tem vida racional, poderia pensar um pouco mais a respeito, mesmo que seja tarde demais.
O rumo está na escola
Em coluna no Correio Brasiliense, Luiz Carlos Azedo, além da honra de colocar-me ao lado de Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, me provocou com o título “Onde perdemos o rumo”, na véspera do bicentenário da Independência: estancados na economia, com pobreza e violência nas ruas e democracia fragilizada.
Nascemos sob o rumo insustentável da economia baseada no trabalho escravo para produção agrícola e mineradora, voltada para exportação. Atravessamos assim 350 dos 500 anos da história, e até hoje temos a economia semi-primária e semi-escravocrata. Fomos governados por populismo ou ditadura, com sistemático desrespeito ao equilíbrio fiscal, insensibilidade às necessidades sociais e urbanas, permanente concentração de renda, depredação ambiental. Tentamos rumo baseado em fazendas, minas, lojas, indústrias, estradas, hidrelétricas, uma nova capital, nunca em escolas.
Perdemos o rumo quando o quase Imperador gritou “Independência ou Morte” em vez de “Independência e Escola”; ou por esperarmos 350 anos para erradicar o escravismo e a Princesa assinar a Lei Áurea com o único artigo abolindo a escravidão, sem estes outros: “a terra pertence a quem nela produz” e “fica estabelecido um sistema nacional de educação para todos”. A bandeira republicana adotou o lema escrito “Ordem e Progresso”, em vez de “Educação é Progresso”, e até hoje não abolimos o analfabetismo: 12 milhões de adultos não reconhecem a própria bandeira.
Perdemos o rumo ao demorarmos 420 anos para criar nossa primeira universidade; ao implantarmos industrialização ineficiente, que tirou recursos da infraestrutura social e provocou inflação para cobrir custos do protecionismo; ao adotarmos o desenvolvimento sem sustentabilidade monetária, ecológica, fiscal, urbana, cultural ou política; e por até hoje não montarmos um Estado eficiente, democrático e republicano. Mas a causa principal do nosso descaminho tem sido o desprezo endêmico à educação em geral e a aceitação da desigualdade, conforme a renda e o endereço do aluno.
Chegamos ao terceiro centenário da independência, na Era do Conhecimento, sem uma população que leia e escreva bem português, fale outros idiomas, saiba matemática e ciências, conheça os problemas do mundo, use modernas ferramentas digitais e domine um ofício profissional. Perdemos o rumo ao imaginar que a boa educação é consequência do crescimento e da democracia, em vez de entendermos que crescimento sustentável e democracia sólida são consequências da educação.
A história de outros países mostra que a educação não ficou boa porque eles ficaram ricos, mas que ficaram ricos porque a educação era boa. Foi assim na Europa Ocidental e na América do Norte, desde o século XIX; na Irlanda, Coréia do Sul e Finlândia, desde meados do século XX. Foi a educação de qualidade que lhes deu base para elevar a renda social e distribuí-la com justiça, ainda que também graças à abertura comercial, finanças públicas equilibradas e instituições democráticas sólidas, capazes de liberar o talento das pessoas educadas. Cada vez mais a educação será o vetor do progresso econômico, a plataforma da distribuição de renda e da justiça social, a argamassa do regime democrático e o enlace para a sustentabilidade. Sem levar isso em conta, não encontraremos o rumo para o futuro que desejamos e para o qual temos potencial.
A educação é tão importante que, por falta dela, ainda não conseguimos perceber sua importância; agimos como pessoa perdida que não sabe para que serve o mapa que tem em mãos. Os traficantes usavam força para não deixar os escravos saltarem ao mar, porque os viam como mercadoria de valor, mas nós não damos condições para nossas crianças permanecerem em escola com qualidade até o fim do ensino médio, porque não as vemos como principal instrumento da criação de riqueza para o país.
Por isso, não aceitamos que o rumo está em escola de máxima qualidade para todos: não acreditamos que o Brasil pode ter uma educação das melhores do mundo, nem que seja possível no Brasil a educação ter a mesma qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da criança.
Temos recursos para implantar um Sistema Único de Educação de Base com qualidade. Não podemos adiar este rumo. É possível financeira e tecnicamente, também politicamente se entendermos que educação é o vetor do progresso, e moralmente, se percebermos a indecência e estupidez de não garantir que a qualidade seja a mesma para todos.
Nascemos sob o rumo insustentável da economia baseada no trabalho escravo para produção agrícola e mineradora, voltada para exportação. Atravessamos assim 350 dos 500 anos da história, e até hoje temos a economia semi-primária e semi-escravocrata. Fomos governados por populismo ou ditadura, com sistemático desrespeito ao equilíbrio fiscal, insensibilidade às necessidades sociais e urbanas, permanente concentração de renda, depredação ambiental. Tentamos rumo baseado em fazendas, minas, lojas, indústrias, estradas, hidrelétricas, uma nova capital, nunca em escolas.
Perdemos o rumo quando o quase Imperador gritou “Independência ou Morte” em vez de “Independência e Escola”; ou por esperarmos 350 anos para erradicar o escravismo e a Princesa assinar a Lei Áurea com o único artigo abolindo a escravidão, sem estes outros: “a terra pertence a quem nela produz” e “fica estabelecido um sistema nacional de educação para todos”. A bandeira republicana adotou o lema escrito “Ordem e Progresso”, em vez de “Educação é Progresso”, e até hoje não abolimos o analfabetismo: 12 milhões de adultos não reconhecem a própria bandeira.
Perdemos o rumo ao demorarmos 420 anos para criar nossa primeira universidade; ao implantarmos industrialização ineficiente, que tirou recursos da infraestrutura social e provocou inflação para cobrir custos do protecionismo; ao adotarmos o desenvolvimento sem sustentabilidade monetária, ecológica, fiscal, urbana, cultural ou política; e por até hoje não montarmos um Estado eficiente, democrático e republicano. Mas a causa principal do nosso descaminho tem sido o desprezo endêmico à educação em geral e a aceitação da desigualdade, conforme a renda e o endereço do aluno.
Chegamos ao terceiro centenário da independência, na Era do Conhecimento, sem uma população que leia e escreva bem português, fale outros idiomas, saiba matemática e ciências, conheça os problemas do mundo, use modernas ferramentas digitais e domine um ofício profissional. Perdemos o rumo ao imaginar que a boa educação é consequência do crescimento e da democracia, em vez de entendermos que crescimento sustentável e democracia sólida são consequências da educação.
A história de outros países mostra que a educação não ficou boa porque eles ficaram ricos, mas que ficaram ricos porque a educação era boa. Foi assim na Europa Ocidental e na América do Norte, desde o século XIX; na Irlanda, Coréia do Sul e Finlândia, desde meados do século XX. Foi a educação de qualidade que lhes deu base para elevar a renda social e distribuí-la com justiça, ainda que também graças à abertura comercial, finanças públicas equilibradas e instituições democráticas sólidas, capazes de liberar o talento das pessoas educadas. Cada vez mais a educação será o vetor do progresso econômico, a plataforma da distribuição de renda e da justiça social, a argamassa do regime democrático e o enlace para a sustentabilidade. Sem levar isso em conta, não encontraremos o rumo para o futuro que desejamos e para o qual temos potencial.
A educação é tão importante que, por falta dela, ainda não conseguimos perceber sua importância; agimos como pessoa perdida que não sabe para que serve o mapa que tem em mãos. Os traficantes usavam força para não deixar os escravos saltarem ao mar, porque os viam como mercadoria de valor, mas nós não damos condições para nossas crianças permanecerem em escola com qualidade até o fim do ensino médio, porque não as vemos como principal instrumento da criação de riqueza para o país.
Por isso, não aceitamos que o rumo está em escola de máxima qualidade para todos: não acreditamos que o Brasil pode ter uma educação das melhores do mundo, nem que seja possível no Brasil a educação ter a mesma qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da criança.
Temos recursos para implantar um Sistema Único de Educação de Base com qualidade. Não podemos adiar este rumo. É possível financeira e tecnicamente, também politicamente se entendermos que educação é o vetor do progresso, e moralmente, se percebermos a indecência e estupidez de não garantir que a qualidade seja a mesma para todos.
País feliz...
Para fazer o país feliz, precisamos despovoá-lo pela misériaLima Barreto, "Sátiras e outras subversões"
Por que o brasileiro não para de votar em corruptos?
Certas notícias despertam pouca atenção no Brasil por fazerem parte da normalidade deste país. Os brasileiros se acostumaram a elas, no fundo não esperam mais outra coisa. Mas são notícias que em mim continuam despertando incompreensão e cólera.
Quando as conto aos meus conhecidos na Alemanha, em geral me perguntam, cheios de perplexidade: "E essa gente está no poder, no Brasil? Eles não renunciam por conta própria, quando algo assim vem à luz? Ou são forçados a renunciar?" Aí eu sempre digo: "É pior ainda, porque essa gente é até eleita vez após vez. Parece que os brasileiros, de certa maneira, os admiram."
Mas cada coisa a seu tempo. O estopim imediato da minha indignação é Ciro Nogueira, atual ministro-chefe da Casa Civil do presidente "anticorrupção" Jair Bolsonaro. Quando ainda era senador, ele ganhou o questionável título de "campeão de gastos com locomoção, hospedagem, alimentação e combustíveis".
Nenhum senador gastou mais dinheiro de vocês, queridos leitores, para fins que, na minha opinião, deveriam ser pagos por ele mesmo. Entre janeiro e julho de 2021, o atual ministro gastou R$ 263.300 dos cofres públicos somente para abastecer seu jatinho, que costumava usar nas viagens para Brasília. O salário mensal de um senador da República é de R$ 33.763.
Quando Nogueira, hoje com 52 anos, foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, a mãe dele foi atrás, ocupando uma vaga de senadora. O que em democracias funcionais seria proibido como nepotismo é perfeitamente normal no Brasil. Aqui, os políticos fundam pequenos impérios familiares, empurram os cargos de um lado para o outro, dentro do clã. Em 2017, seis de cada dez parlamentares tinham parentes na política. O Congresso brasileiro, portanto, não representa o povo brasileiro: é um negócio de certas famílias.
Do avô ao neto, passando pelo filho, cargos políticos são herdados, e postos lucrativos, entregues a tios, tias, sobrinhas, sobrinhos e amigos íntimos da família – fazendo pensar mais em feudalismo do que em democracia. Em 2015 veio à tona o caso de Bonifácio de Andrada: em seu décimo mandato na Câmara, ele representava a quinta geração de um clã que, nos últimos 194 anos, já teve outros 14 representantes no órgão legislativo brasileiro.
E enquanto isso, os brasileiros se perguntam: por que nossa política nunca muda? Por que algumas famílias acumulam riquezas e terras inimagináveis, enquanto a maioria da população vive no limite da pobreza?
E assim voltamos à mãe de Ciro, Eliane Nogueira. Parece que o Senado não vai economizar muito com ela, que repete o hábito do filho de gastar o dinheiro dos brasileiros para o próprio conforto e já apresentou notas fiscais no valor de R$ 14.200 em combustível para o seu jatinho.
O caso é emblemático da arrogância de grande parte da classe política do Brasil. Aqui muitos não entram para a política com a intenção de melhorar algo para a população, fazer algo pela educação, justiça, proteção ambiental, segurança e saúde dos brasileiros, mas para usufruir pessoalmente dos privilégios que o disfuncional sistema político do país garante.
Na Alemanha, os políticos eleitos são também chamados representantes do povo. No Brasil, eles são representantes de si mesmos e de seu clã. Os únicos que poderiam mudar esse sistema são os próprios políticos, e estes não vão mover uma palha para limitar os próprios privilégios. Eles vivem como pinto no lixo, desfrutam de restaurantes, hotéis e viagens caros, pagos pelo contribuinte.
Um ótimo exemplo é o clã Bolsonaro. Perfeitos representantes do neofeudalismo brasileiro não são só os três filhos mais velhos – que estão sendo investigados por corrupção, e dos quais ninguém até hoje sabe o que é mesmo que fazem na vida, além de suas carreiras políticas – mas também o caçula, Jair Renan Bolsonaro.
As escapadas dele mostram de forma exemplar como o poder deforma certos indivíduos. "Há uma fera em cada ser humano, quando se coloca uma espada na mão dele" – é como dizem na série Game of Thrones.
No Twitter, Jair Renan descreveu o que considera um dia perfeito. "Bom dia rapaziada. Então, com vocês aí, melhor jeito de acordar: tomando um suquinho, comendo um pão de queijo, visitando a loja de um grande amigo meu aqui: Júnior. Sabe o que o cara vende? Arma, brinquedo." O rapaz, ao que tudo indica, não estuda, não trabalha, apenas aproveita a vida com o dinheiro e os contatos proporcionados pelo pai e os irmãos mais velhos. Assim se criam monstros.
Decadência moral generalizada
Tenho certeza de que no próximo pleito os brasileiros vão reeleger Aécio Neves, Fernando Collor, Eliane Nogueira, o palhaço Tiririca e os cerca de 35% dos deputados e senadores que já elegeram em 2018 embora a Justiça os esteja processando por corrupção, lavagem de dinheiro, assédio sexual, fraude e numerosos outros delitos. Trata-se de 160 parlamentares e 38 senadores. Quem sabe também Michel Temer e Eduardo Cunha voltem a ocupar cargos na política.
E é o próprio governo Bolsonaro que contribuiu, através de seu próprio exemplo, para a banalização da corrupção e do nepotismo.
Um dos financiadores dos atos bolsonaristas do Sete de setembro, Antônio Galvan, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). já foi multado por desmatar 500 hectares de vegetação nativa e vender soja sem nota fiscal. Também responde na Justiça por plantio clandestino de grãos e por uma tentativa de invasão de terra numa fazenda vizinha à sua.
Essa é a gente de bem do bolsonarismo. Gente que representa a suposta elite política e econômica deste país. E os brasileiros a elegem. Repetidamente, a cada quatro anos. Já há décadas.
Por isso acho que muitos se identificam com eles. Também gostariam de enriquecer à custa da coletividade e de burlar a Justiça. Como nenhum outro, o atual governo contribuiu com seu nepotismo, suas mentiras e sua moral dupla para essa decadência moral generalizada.
Philipp Lichterbeck
Quando as conto aos meus conhecidos na Alemanha, em geral me perguntam, cheios de perplexidade: "E essa gente está no poder, no Brasil? Eles não renunciam por conta própria, quando algo assim vem à luz? Ou são forçados a renunciar?" Aí eu sempre digo: "É pior ainda, porque essa gente é até eleita vez após vez. Parece que os brasileiros, de certa maneira, os admiram."
Mas cada coisa a seu tempo. O estopim imediato da minha indignação é Ciro Nogueira, atual ministro-chefe da Casa Civil do presidente "anticorrupção" Jair Bolsonaro. Quando ainda era senador, ele ganhou o questionável título de "campeão de gastos com locomoção, hospedagem, alimentação e combustíveis".
Nenhum senador gastou mais dinheiro de vocês, queridos leitores, para fins que, na minha opinião, deveriam ser pagos por ele mesmo. Entre janeiro e julho de 2021, o atual ministro gastou R$ 263.300 dos cofres públicos somente para abastecer seu jatinho, que costumava usar nas viagens para Brasília. O salário mensal de um senador da República é de R$ 33.763.
Quando Nogueira, hoje com 52 anos, foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil, a mãe dele foi atrás, ocupando uma vaga de senadora. O que em democracias funcionais seria proibido como nepotismo é perfeitamente normal no Brasil. Aqui, os políticos fundam pequenos impérios familiares, empurram os cargos de um lado para o outro, dentro do clã. Em 2017, seis de cada dez parlamentares tinham parentes na política. O Congresso brasileiro, portanto, não representa o povo brasileiro: é um negócio de certas famílias.
Do avô ao neto, passando pelo filho, cargos políticos são herdados, e postos lucrativos, entregues a tios, tias, sobrinhas, sobrinhos e amigos íntimos da família – fazendo pensar mais em feudalismo do que em democracia. Em 2015 veio à tona o caso de Bonifácio de Andrada: em seu décimo mandato na Câmara, ele representava a quinta geração de um clã que, nos últimos 194 anos, já teve outros 14 representantes no órgão legislativo brasileiro.
E enquanto isso, os brasileiros se perguntam: por que nossa política nunca muda? Por que algumas famílias acumulam riquezas e terras inimagináveis, enquanto a maioria da população vive no limite da pobreza?
E assim voltamos à mãe de Ciro, Eliane Nogueira. Parece que o Senado não vai economizar muito com ela, que repete o hábito do filho de gastar o dinheiro dos brasileiros para o próprio conforto e já apresentou notas fiscais no valor de R$ 14.200 em combustível para o seu jatinho.
O caso é emblemático da arrogância de grande parte da classe política do Brasil. Aqui muitos não entram para a política com a intenção de melhorar algo para a população, fazer algo pela educação, justiça, proteção ambiental, segurança e saúde dos brasileiros, mas para usufruir pessoalmente dos privilégios que o disfuncional sistema político do país garante.
Na Alemanha, os políticos eleitos são também chamados representantes do povo. No Brasil, eles são representantes de si mesmos e de seu clã. Os únicos que poderiam mudar esse sistema são os próprios políticos, e estes não vão mover uma palha para limitar os próprios privilégios. Eles vivem como pinto no lixo, desfrutam de restaurantes, hotéis e viagens caros, pagos pelo contribuinte.
Um ótimo exemplo é o clã Bolsonaro. Perfeitos representantes do neofeudalismo brasileiro não são só os três filhos mais velhos – que estão sendo investigados por corrupção, e dos quais ninguém até hoje sabe o que é mesmo que fazem na vida, além de suas carreiras políticas – mas também o caçula, Jair Renan Bolsonaro.
As escapadas dele mostram de forma exemplar como o poder deforma certos indivíduos. "Há uma fera em cada ser humano, quando se coloca uma espada na mão dele" – é como dizem na série Game of Thrones.
No Twitter, Jair Renan descreveu o que considera um dia perfeito. "Bom dia rapaziada. Então, com vocês aí, melhor jeito de acordar: tomando um suquinho, comendo um pão de queijo, visitando a loja de um grande amigo meu aqui: Júnior. Sabe o que o cara vende? Arma, brinquedo." O rapaz, ao que tudo indica, não estuda, não trabalha, apenas aproveita a vida com o dinheiro e os contatos proporcionados pelo pai e os irmãos mais velhos. Assim se criam monstros.
Decadência moral generalizada
Tenho certeza de que no próximo pleito os brasileiros vão reeleger Aécio Neves, Fernando Collor, Eliane Nogueira, o palhaço Tiririca e os cerca de 35% dos deputados e senadores que já elegeram em 2018 embora a Justiça os esteja processando por corrupção, lavagem de dinheiro, assédio sexual, fraude e numerosos outros delitos. Trata-se de 160 parlamentares e 38 senadores. Quem sabe também Michel Temer e Eduardo Cunha voltem a ocupar cargos na política.
E é o próprio governo Bolsonaro que contribuiu, através de seu próprio exemplo, para a banalização da corrupção e do nepotismo.
Um dos financiadores dos atos bolsonaristas do Sete de setembro, Antônio Galvan, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). já foi multado por desmatar 500 hectares de vegetação nativa e vender soja sem nota fiscal. Também responde na Justiça por plantio clandestino de grãos e por uma tentativa de invasão de terra numa fazenda vizinha à sua.
Essa é a gente de bem do bolsonarismo. Gente que representa a suposta elite política e econômica deste país. E os brasileiros a elegem. Repetidamente, a cada quatro anos. Já há décadas.
Por isso acho que muitos se identificam com eles. Também gostariam de enriquecer à custa da coletividade e de burlar a Justiça. Como nenhum outro, o atual governo contribuiu com seu nepotismo, suas mentiras e sua moral dupla para essa decadência moral generalizada.
Philipp Lichterbeck
Crônica de mortes anunciadas?
Muita gente fica horrorizada – com razão, evidentemente – ao ver o Talibã impondo seus costumes, fé e ideologia à população afegã em geral. Por outro lado, naturaliza a ideia de impor aos povos tradicionais os modos ocidentais. Essas pessoas muitas vezes são movidas pelas melhores intenções; acreditam piamente que não exista modo de vida melhor que o seu. Só que desde que foi promulgada a Constituição de 1988, os indígenas têm os mesmos direitos e deveres que qualquer cidadão brasileiro. Isso inclui liberdade de escolha. Se eles vivem como vivem, é porque assim desejam. E esta mesma Constituição prevê que o Estado brasileiro tem a obrigação de proteger seus cidadãos, estejam eles dentro ou fora das terras indígenas. No caso de povos isolados ou de recente contato, essa responsabilidade deveria ser redobrada – assim como são as ameaças.
O dicionário define genocídio como “extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, ou religioso”. Jamais saberemos quando se deu o início do fim dos Piripkura, por exemplo. É uma história cheia de lacunas, que jamais serão preenchidas: oficialmente, só foram contatados nos anos 1980; mas já no fim do século XIX, começaram a ser caçados por seringueiros, e na década de 1940 o território deles, que fica no noroeste de Mato Grosso, foi invadido por grileiros e madeireiros. Rita Piripkura, a última mulher de seu povo, deixou há cerca de 40 anos seu território ancestral, a contragosto. Hoje, vive numa aldeia Karipuna, em Rondônia. Ela conta que o último grande massacre aconteceu entre os anos 1960 e 1970, quando restavam apenas 20 indivíduos. Atualmente, só se tem notícia de dois: seu irmão, Baita (ou Monde’i), e um sobrinho, Tamandua (sem acento mesmo, ou Tikum). E seus dias podem estar contados. Com eles, podem desaparecer sua língua, derivada do tupi primitivo, e saberes que têm garantido a sua sobrevivência.
Se não podemos afirmar quando começou o genocídio Piripkura, aquele que pode ser o seu último suspiro tem data conhecida: 18 de março de 2022. Até semana passada essa data era 18 de setembro, mas a pressão de órgãos indigenistas levou o governo brasileiro a adiar esse momento em seis meses – mas não a eliminar de vez a ameaça. Este marco só torna legal um crime em andamento. Segundo a Funai, atualmente há 237 processos de demarcação de terras indígenas que dependem apenas da homologação presidencial. Como os processos de demarcação se movem a passos de cágado, a entidade baixou uma norma em 2008, que restringe a entrada de estranhos nesses territórios.
Essa proteção deveria ser renovada por tempo suficiente para a conclusão desses trabalhos; a última vez que isso aconteceu foi em 2018. Conseguirá, agora, o governo brasileiro fazer, em apenas seis meses, o trabalho de identificação e demarcação que não conseguiu concluir em três anos – ou 41, se considerarmos o primeiro registro do povo, em 1980? Sem a proteção integral do território até a identificação e homologação da TI, Baita e Tamandua – e outros Piripkura que porventura estejam escondidos na mata – serão abandonados à própria sorte.
A Funai foi criada em dezembro de 1967, em plena ditadura, com o objetivo de “promover e proteger os direitos dos povos indígenas do Brasil”. O atual governo entregou as rédeas dela para ruralistas e religiosos fundamentalistas. E ela se tornou a maior inimiga de quem devia defender. Por exemplo, em fevereiro deste ano a fundação baixou a Instrução Normativa 9, que escancarou as portas para invasores em áreas em processo de demarcação. Mas nem precisava, pois a Terra Indígena (TI) Piripkura, que tem 243 mil hectares de área, já tinha sido a mais devastada em 2020, entre as que vivem isolados: 962 hectares foram abaixo, 95% deste total somente entre agosto e dezembro. Em junho e julho deste ano, ela perdeu mais 220. Porém, a maior ameaça para os indígenas está no subsolo.
Em dezembro de 2020, o governo federal lançou o primeiro de uma série de estudos, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil, que indica áreas onde há mais possibilidades de haver metais preciosos no norte do Mato Grosso. E deu a largada para mais uma corrida do ouro. Entre 1994 a 2020, havia 119 requerimentos de mineração na área; depois da divulgação dos estudos, houve mais 202, um aumento de 70% em oito meses. Um levantamento da Operação Amazônia Nativa (Opan) apontou que os pedidos de lavra de garimpo no entorno da TI passaram de 21 processos, que abrangiam 64 mil hectares, em 2017, para 34 em junho de 2021. Isso fez a área total pular para 143 mil hectares, um aumento de 123% em três anos e meio.
Oficialmente, existem 28 povos isolados no Brasil, mas este número pode chegar a 86. As TIs Pirititi (que fica em Roraima), Jacareúba/Katawixi (no Amazonas) e Ituna/Itatá (no Pará) também vão perder a proteção em breve: a da primeira, que tem quase metade de sua área (47%) ameaçada pela grilagem, expira em 5 de dezembro; a última, que foi a terra indígena mais desmatada em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, fica ao deus-dará em 9 de janeiro de 2021. Afora a perda do conhecimento único que esses povos guardam, nossa geração vai carregar esses genocídios em sua consciência?
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| Philippe Echaroux |
O dicionário define genocídio como “extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, ou religioso”. Jamais saberemos quando se deu o início do fim dos Piripkura, por exemplo. É uma história cheia de lacunas, que jamais serão preenchidas: oficialmente, só foram contatados nos anos 1980; mas já no fim do século XIX, começaram a ser caçados por seringueiros, e na década de 1940 o território deles, que fica no noroeste de Mato Grosso, foi invadido por grileiros e madeireiros. Rita Piripkura, a última mulher de seu povo, deixou há cerca de 40 anos seu território ancestral, a contragosto. Hoje, vive numa aldeia Karipuna, em Rondônia. Ela conta que o último grande massacre aconteceu entre os anos 1960 e 1970, quando restavam apenas 20 indivíduos. Atualmente, só se tem notícia de dois: seu irmão, Baita (ou Monde’i), e um sobrinho, Tamandua (sem acento mesmo, ou Tikum). E seus dias podem estar contados. Com eles, podem desaparecer sua língua, derivada do tupi primitivo, e saberes que têm garantido a sua sobrevivência.
Se não podemos afirmar quando começou o genocídio Piripkura, aquele que pode ser o seu último suspiro tem data conhecida: 18 de março de 2022. Até semana passada essa data era 18 de setembro, mas a pressão de órgãos indigenistas levou o governo brasileiro a adiar esse momento em seis meses – mas não a eliminar de vez a ameaça. Este marco só torna legal um crime em andamento. Segundo a Funai, atualmente há 237 processos de demarcação de terras indígenas que dependem apenas da homologação presidencial. Como os processos de demarcação se movem a passos de cágado, a entidade baixou uma norma em 2008, que restringe a entrada de estranhos nesses territórios.
Essa proteção deveria ser renovada por tempo suficiente para a conclusão desses trabalhos; a última vez que isso aconteceu foi em 2018. Conseguirá, agora, o governo brasileiro fazer, em apenas seis meses, o trabalho de identificação e demarcação que não conseguiu concluir em três anos – ou 41, se considerarmos o primeiro registro do povo, em 1980? Sem a proteção integral do território até a identificação e homologação da TI, Baita e Tamandua – e outros Piripkura que porventura estejam escondidos na mata – serão abandonados à própria sorte.
A Funai foi criada em dezembro de 1967, em plena ditadura, com o objetivo de “promover e proteger os direitos dos povos indígenas do Brasil”. O atual governo entregou as rédeas dela para ruralistas e religiosos fundamentalistas. E ela se tornou a maior inimiga de quem devia defender. Por exemplo, em fevereiro deste ano a fundação baixou a Instrução Normativa 9, que escancarou as portas para invasores em áreas em processo de demarcação. Mas nem precisava, pois a Terra Indígena (TI) Piripkura, que tem 243 mil hectares de área, já tinha sido a mais devastada em 2020, entre as que vivem isolados: 962 hectares foram abaixo, 95% deste total somente entre agosto e dezembro. Em junho e julho deste ano, ela perdeu mais 220. Porém, a maior ameaça para os indígenas está no subsolo.
Em dezembro de 2020, o governo federal lançou o primeiro de uma série de estudos, elaborado pelo Serviço Geológico do Brasil, que indica áreas onde há mais possibilidades de haver metais preciosos no norte do Mato Grosso. E deu a largada para mais uma corrida do ouro. Entre 1994 a 2020, havia 119 requerimentos de mineração na área; depois da divulgação dos estudos, houve mais 202, um aumento de 70% em oito meses. Um levantamento da Operação Amazônia Nativa (Opan) apontou que os pedidos de lavra de garimpo no entorno da TI passaram de 21 processos, que abrangiam 64 mil hectares, em 2017, para 34 em junho de 2021. Isso fez a área total pular para 143 mil hectares, um aumento de 123% em três anos e meio.
Oficialmente, existem 28 povos isolados no Brasil, mas este número pode chegar a 86. As TIs Pirititi (que fica em Roraima), Jacareúba/Katawixi (no Amazonas) e Ituna/Itatá (no Pará) também vão perder a proteção em breve: a da primeira, que tem quase metade de sua área (47%) ameaçada pela grilagem, expira em 5 de dezembro; a última, que foi a terra indígena mais desmatada em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, fica ao deus-dará em 9 de janeiro de 2021. Afora a perda do conhecimento único que esses povos guardam, nossa geração vai carregar esses genocídios em sua consciência?
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