terça-feira, 12 de maio de 2020

Como Bolsonaro pagará a conta do mal provocado pelo Covid-19

A maior demonstração de pesar do presidente Jair Bolsonaro pela morte até aqui de mais de 10 mil brasileiros vítimas do coronavírus limitou-se a duas frases ditadas, ontem, por ele à entrada do Palácio da Alvorada: “Lamento cada morte que ocorre a cada hora. Lamento”.

Em seguida, explicou o que lhe caberia fazer a respeito: “Agora, o que podemos fazer, nós todos, é tratar com o devido zelo os recursos públicos. Está tendo denúncia em todo lugar. Gente presa. Em vez de fazer notinha de pesar, tem que dar exemplo. Gastar menos”.

Engana-se quem pensa que ele se referia à denúncia de que gastou só este ano com cartão de crédito corporativo R$ 3,76 milhões, segundo o Portal da Transparência. O valor representa um aumento de 98% em relação à média dos últimos cinco anos no mesmo período.


Também não se referia à fraude descoberta pelo Ministério da Defesa: militares de todas as patentes, da reserva e da ativa, se cadastraram no aplicativo da Caixa Econômica para receber o auxílio emergencial de R$ 600. A lei que criou o benefício não lhes deu tal direito.

Bolsonaro referia-se a denúncias de superfaturamento na compra por Estados e municípios de equipamentos médicos para enfrentar a pandemia. Há que se apurar se houve superfaturamento ou se o preço pago se deveu à procura bem maior do que a oferta.

Se tivesse mais preocupado com vidas perdidas do que com economia, Bolsonaro não teria assinado mais um ato de sabotagem às medidas de isolamento adotadas por governadores e prefeitos. Mas foi o que ele fez ontem, de resto como prometera fazer há um mês.

Baixou outro decreto, desta vez para incluir academias de ginástica e barbearias entre as chamadas “atividades essenciais”, não obrigadas a permanecerem fechadas. Com isso, ele incentiva a reabertura de negócios que podem provocar a circulação de muita gente.

Bolsonaro quer mais é que as pessoas se exponham. No último sábado, ele só suspendeu o churrasco que ofereceria a amigos e parentes no Palácio da Alvorada quando soube que o Congresso e o Supremo Tribunal Federal haviam decretado luto pela morte de tantas pessoas.

Agora, são 11.519 mortos. E o número de casos confirmados de coronavírus no país está próximo de 170 mil. O Supremo Tribunal Federal já decidiu que valem para Estados e municípios as medidas de confinamento impostas por seus governantes, não pelo presidente da República.

Pouco importa. Bolsonaro continuará a assinar decretos sem validade. Estimular a desobediência civil é o seu propósito, mas não só. Mesmo com decretos inválidos, ele agrada parcela de sua base de eleitores de olho na reeleição em 2022. É candidato antes de ser presidente.

Em tempo: tão logo foram informados sobre o decreto assinado por Bolsonaro, os governadores do Pará, Maranhão, Ceará e Bahia se apressaram a dizer que academias e barbearias permanecerão fechadas em seus Estados. Outros, hoje, deverão dizer o mesmo.

Bolsonaro, queira ou não, pagará grande parte da fatura pelo mal do século que poderia ter combatido. Fugiu à luta. E não será com cartão de crédito corporativo da presidência da República que saldará o débito. Será com a hemorragia de votos que o desidratará.

Imagem do Dia


'Mais que palavras'

Esse é o título em português de um artigo em fase de elaboração que começou a circular na última semana nos grupos de economistas brasileiros (More than Words: Leaders’ Speech and Risky Behavior During a Pandemic). Nele, dois economistas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Nicolas Ajzenman e Daniel da Mata, além de Tiago Cavalcanti, da Universidade de Cambridge, analisam o impacto das palavras e ações do líder político de uma nação sobre o comportamento das pessoas.

Os autores buscam responder a essa questão dentro do contexto brasileiro atual. Com base em uma análise que combina informações eleitorais com dados de telefones celulares, os autores concluem que houve uma redução do isolamento social nas localidades onde a presença de cidadãos pró-governo é mais relevante, relativamente às localidades onde o apoio é menor, após as manifestações do presidente Jair Bolsonaro minimizando publicamente os riscos da pandemia da covid-19 no Brasil. Ou seja, os resultados do trabalho sugerem que as palavras e ações do presidente da República têm impacto negativo no nível de obediência dos seus apoiadores às medidas de isolamento social.


Vale lembrar que na ausência de uma vacina ou de um medicamento, o isolamento social é a única medida comprovadamente eficaz para conter a disseminação da pandemia. Essa disseminação é determinada pela taxa de contágio que, por sua vez, está vinculada ao número de contatos que uma pessoa contaminada venha a ter e portanto à sua capacidade de passar o vírus adiante. Em particular, pessoas que estejam contaminadas e não apresentem sintomas são aquelas com maior potencial de contaminação.

Ao mesmo tempo que reduz a taxa de propagação do vírus, o isolamento social (obrigatório ou voluntário) também reduz a atividade econômica. Nesse contexto, além da proibição legal de funcionamento de algumas atividades, questões comportamentais também se impõem pelo receio da contaminação, nesse caso reforçando os impactos do isolamento sobre a curva de contaminação, mas também alavancando os efeitos sobre a atividade. O resultado dessa combinação é, por um lado, o desejável achatamento da curva e, por outro, os choques de oferta e de demanda que estamos observando no Brasil e no mundo.

Isso se reflete nos indicadores econômicos: pedidos recordes de seguro-desemprego nos Estados Unidos, que superaram os 33 milhões em abril ou quedas significativas no PIB dos diversos países afetados, como os 6,8% de contração do primeiro trimestre na China. Junte-se a isso os pedidos de recuperação judicial de empresas afetadas diretamente pela pandemia e uma perspectiva sombria para o mercado de crédito de varejo nos próximos meses e temos alguns exemplos dos impactos da crise de saúde na economia real.

Não há quem esteja insensível a esses números. O grande desafio está, contudo, na compatibilização dessa preocupação com a necessidade de se garantir que a contaminação não vai superar a capacidade instalada de atendimento de saúde. Infelizmente, não será impossível evitar que muitas mortes ocorram. Mas é sim possível reduzir os número delas desde que haja atendimento adequado e tempestivo. Essa é a restrição que precisa ser considerada e que condiciona todas as outras ações.

A decisão de quando e como flexibilizar depende, portanto, desse delicado equilíbrio entre o formato da curva de contaminação, a capacidade hospitalar – em particular de leitos de UTIs – e uma retomada organizada e gradual das atividades. Nessa última parte, o foco especial em setores mais afetados pela crise e com maior potencial de geração de emprego e informalidade pode ajudar a organizar a retomada. Aqui, a definição de protocolos de saúde que visem à redução dos riscos de contaminação é fundamental.

Adicionalmente, o Brasil precisa ampliar substancialmente sua capacidade de testagem. Atividade que dependerá de pactuação com o setor privado, cuja capacidade de execução é a única forma de garantir a necessária velocidade. Nessa equação com tantas variáveis, o esforço conjunto é o que fará a diferença.

Mas enquanto o presidente da República for na direção contrária das ações de conscientização e planejamento de governadores como João Dória, em São Paulo, ou Eduardo Leite, no Rio Grande do Sul, esforços estarão sendo desperdiçados.

Como mostra o estudo dos meus colegas economistas, as palavras do presidente não têm se perdido no tempo. Ao contrário, elas têm contribuído para atrasar o controle da curva de contaminação e, portanto, da possibilidade de retomada das atividades. Ou seja, ao contrário do que querem dizer as palavras de ordem dos seus apoiadores, o principal responsável pelo atraso na retomada da atividade econômica é o presidente da República.

Soneto da falha lembrança

Willy Zumblick
Que fizemos dos dias que passaram
(E foram tantos, minha velha amiga),
Que fizemos de todos eles, diga,
Que tão pouco de si em nós deixaram?

As lembranças que deles nos ficaram
Perdem-se como os sons de uma cantiga
Muito bela, mas também tão já antiga
Que até seus versos todos se apagaram.

Passaram todos, e a incapacidade
Que tivemos de inteiros conservá-los
Nos faz, com a alma de pejo e culpa cheia,

Juntá-los em um termo só, saudade,
E assim, sem brilho e sem calor, lembrá-los

Como se fossem de memória alheia.

Por um teto de pobreza

Três de cada 5 mães solo vivem abaixo da linha da pobreza. Esta trágica estatística se manteve estável nos últimos anos, como informa anualmente o IBGE na pesquisa Síntese de Indicadores Sociais. Embora o Dia da Mães possa ter sido de menos escassez este ano por conta do auxílio emergencial – que alcança mais mães e paga valores maiores que o Bolsa Família –, o benefício tem prazo para acabar. Mães e seus filhos cairão de novo na pobreza, e até na extrema pobreza. Uma PEC pretende erradicar essa situação intolerável: imitando o teto de gastos, cria um teto de pobreza infantil.

Metas de pobreza foram instituídas na década passada no Canadá, na Nova Zelândia e no Reino Unido (nestes dois últimos, especificamente, para a pobreza entre crianças). Se o teto de gastos estabelece limites para a despesa, o teto da PEC 11 estabelece anualmente limites para a pobreza infantil. Se o descumprimento do teto de gastos aciona gatilhos para controlar a despesa (como proibição de aumentos salariais), o descumprimento do teto de pobreza igualmente acionaria gatilhos para que metas fossem cumpridas.


No Brasil, cerca de 40% das crianças de até 14 anos vive abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial. É a faixa etária mais afetada pela pobreza no País, de forma desproporcional. A situação é pior para as crianças negras na primeira infância: cerca 60% vive na pobreza, e 20% na pobreza extrema. As estimativas são do pesquisador Daniel Duque (Ibre-FGV), usando os dados recém-divulgados de 2019 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE.

Na PEC 11, há dois tetos para a taxa de pobreza infantil. Enquanto ela estiver acima de 10%, aciona-se o gatilho para que mais crianças sejam acolhidas no Bolsa Família. Hoje, somente podem receber benefícios aquelas de famílias que vivem com menos de R$ 6 por dia para cada pessoa. E enquanto a taxa de pobreza entre as crianças estiver acima de 30%, aciona-se o gatilho para que o valor do Bolsa seja maior: hoje ele é inferior a R$ 1,50 por dia. Como ocorre com as regras orçamentárias, a desobediência levaria a crime de responsabilidade.

Não haveria elevação de déficit ou dívida. Na PEC, de iniciativa de 27 senadores – Alessandro Vieira o primeiro autor –, um fundo anticíclico custearia a elevação de gasto, e sua principal receita seria uma tributação progressiva sobre os ganhos de grandes instituições financeiras. Os lucros passariam a ser reinvestidos na infância. A PEC faculta ainda que qualquer despesa da União seja revertida para o combate à pobreza infantil, concretizando uma previsão que já consta da própria Constituição de 88: a de que o direito à vida, à alimentação e à saúde das crianças é prioridade absoluta. A lógica é intuitiva: enquanto houver criança na pobreza, outras despesas podem esperar. O ajuste fiscal ganha sentido.

A ênfase de variados governos em anos recentes na infância, e em particular na primeira infância, vem de uma florescente literatura científica evidenciando o retorno para sociedade do investimento nesta fase da vida. Evitar que crianças vivam em um ambiente de estresse e privações em uma época-chave para o seu desenvolvimento levaria a cidadãos mais prósperos e aptos a contribuir para a sociedade no futuro – combatendo a pobreza e a desigualdade de forma mais estrutural.

É evidente, porém, que transferências de renda não bastam. É essencial facilitar a inclusão no mercado de trabalho dos pais, especialmente das mães – frequentemente muito jovens (uma agenda que, infelizmente, ainda é encarada no Brasil como “perda de direitos”). São igualmente fundamentais o investimento na educação infantil e em práticas de desenvolvimento infantil – uma bela referência é o Mais Infância Ceará. O próprio fundo a ser criado pela PEC 11 (Fundo Anticíclico de Combate à Pobreza) se destina à premiação de Estados e municípios com avanços na área social.

Mesmo o teto inferior de pobreza infantil, de 10%, é conservador: ainda implicaria 4 milhões de crianças vivendo abaixo da linha da pobreza. O número talvez impressione porque naturalizamos por tempo demais nossa situação. Ter 40% de crianças na pobreza significa 17 milhões de pessoas. Negligenciamos uma Holanda inteira. O que vamos fazer até o próximo Dia das Mães?

O novo normal

Na expectativa de voltar àquele cotidiano a que estávamos acostumados, todo mundo fala a mesma coisa, pensando no futuro próximo: “Quando tudo voltar ao normal eu vou me reunir com amigos, vou realizar antigos projetos” e por aí vai. Pensamos no “normal” achando que a vida lá fora ficou congelada quando nos recolhemos por causa da pandemia.

Também é comum repetirmos que nada será como antes. O que parece ser uma contradição para com o primeiro pensamento. Se nada será igual, como voltaremos ao que ficou? Quem assim pensa, afirma que haverá grandes mudanças porque a humanidade jamais enfrentou tanta tribulação com o medo do vírus. Ou com o trauma das restrições de liberdade devido ao confinamento.

Como será o novo normal? Pela televisão e mídias sociais vemos os países onde as regras de convivência começaram a ser flexibilizadas. A doença saiu da fase aguda e as pessoas voltaram às ruas e aos parques. Todas, de máscara. Seria essa a primeira imagem do novo normal? A máscara persistirá feito cicatriz de uma ferida mal curada?

A outra mudança, com certeza, repercutirá nos hábitos de higiene. Aprendemos a lavar as mãos. Ah, também descobrimos para que serve álcool em gel e álcool 70. Essa coisa de aprender a lavar as mãos, como herança de um momento tão doloroso, faz lembrar a epidemia de cólera nos anos 1990. O brasileiro se conscientizou da necessidade de se lavar frutas e legumes e ficou sabendo da utilidade do hipoclorito de sódio.

Mas, as nossas transformações seriam, assim, tão prosaicas?

Nem tão prosaicas, nem tão apocalípticas. Não seremos estrangeiros na nossa cidade e nem encontraremos um mundo em ruínas. Nada tanto assim. Hoje, quando falamos de novo normal no Brasil é apenas uma projeção para mudanças podem ocorrer, mas que também podem demorar a se processar.

Talvez seja mais útil viver o sentimento do aqui e agora, aprendendo com esse instante tão rico. Posso dizer que, no meu caso pessoal, está havendo uma mudança interna. Uma mudança do olhar. Definitivamente, não vejo mais o mundo e a vida como os via quando tivemos que abreviar o cotidiano.

Muitas pessoas devem estar em processos semelhantes a mim. Mas, cada um, chegando à própria conclusão. O sentimento para com esse momento é individual. O vírus traz um recado para cada pessoa em particular.

Esta, portanto, talvez seja a mudança que vai ditar o novo normal. Se todos mudarmos um pouco, para mais ou para menos, seremos outros quando nos reencontrarmos no novo normal. Nesse caso o universo, é claro, também será outro.

Cícero Belmar

E lá vai o Brasil...


'Weak strongman'

A resposta canônica de líderes iliberais frente à pandemia é apontar a magnitude da ameaça como justificativa para a concentração de poder. O caso exemplar é o de Viktor Orbán na Hungria, que governa virtualmente por decreto.

Bolsonaro, Trump, e Johnson (este mais bufão que iliberal), no entanto, fizeram pouco caso dela.

Este paradoxo pode ser explicado pelo fato de que os dois últimos depararam-se com ameaças —impeachment e Brexit— que precediam a pandemia. Contavam com maiorias parlamentares disciplinadas: Trump foi inocentado no Senado, onde tem maioria; apenas um senador de seu partido (Mitt Romney) votou a favor. Contudo deparavam-se com checks and balances robustos e opinião pública ativa.


Bolsonaro é liderança iliberal hiperminoritária, o que é um oxímoro. Mas a contradição desfaz-se quando se examina as condições excepcionais de sua ascensão: a formação de uma maioria negativa que o rejeitava menos que o rival. Sua crescente vulnerabilidade explica a aliança com o centrão. Ela fortalece seu escudo legislativo (em equilíbrio instável), mas piora a popularidade. Ele também se depara com instituições de controle que adquiriram densidade.

Bolsonaro fez pouco caso da pandemia porque é weak strongman e também por esperar não ser responsabilizado pelo caos sanitário —afinal os serviços de saúde estão a cargo de governadores e prefeitos, que arcarão com seus custos políticos.

Mas importa-lhe o caos econômico —daí ter se antecipado em transferir responsabilidade para governadores. Aqui a jogada é radical: dos 12 governadores que o apoiaram, apenas 3 o fazem agora (ante 26 em 50, nos EUA, que são co-partidários de Trump).

Sua declinante popularidade eleva a probabilidade de derrocada. Mas a emergência sanitária e o afastamento do presidente são mega questões que tendem a ser mutuamente excludentes na agenda pública.

Disputa semelhante —mas de sinal contrário— ocorreu nos EUA, onde o impeachment ocupou a agenda congressual, deslocando a questão da pandemia.

O pedido de impeachment foi aprovado em 18/12/2019 pela Câmara dos Representantes, e o voto no Senado ocorreu em 5 de fevereiro. Já no Reino Unido, a disputa de agenda envolvendo o Brexit teve desenlace após as eleições gerais de 13/12/2019 e rodada de três votações entre 19/12/19 e 23/01/20, quando recebeu o Royal Assent. A pandemia só entra na agenda de Reino Unido e EUA em março e abril.

Se o afastamento e o horror sanitário mantiverem-se separados na agenda, Bolsonaro dificilmente será afastado. Mas, se suas ações cotidianas são vistas como ameaça, abrem-se possibilidades para fazê-lo.
Marcus André Melo

Isto é civilidade!

Considera-se tanto mais civilizado um país quanto mais sábias e eficientes são suas leis que impedem ao miserável ser miserável demais, e aos poderosos ser poderosos demaisPrimo Levi, "É isto um homem?"

Brasil perde status de democracia liberal perante o mundo

Nesta semana, o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, apresentou um dado revelador: no mundo, 40% das postagens numa grande plataforma social sobre a covid-19 eram realizadas por robôs. Se o dado em si é surpreendente, a pergunta que precisa ser feita é óbvia: a quem serve tal esforço? Por qual motivo um movimento disfarçado de indivíduos anônimos ― e portanto de massa ― buscaria influenciar a opinião pública sobre uma pandemia que matou nos EUA mais que a Guerra do Vietnã?

E por qual motivo líderes de nações supostamente democráticas se lançam, ao mesmo tempo, em ataques explícitos ou camuflados de “espontâneos” contra a imprensa, um eventual antídoto à proliferação de desinformação? No domingo, em pleno dia internacional da liberdade de expressão, jornalistas foram atacados em Brasília. A opção da presidência foi por minimizar os eventos. Dias depois, foi a vez do próprio presidente Jair Bolsonaro revelar sua índole mais íntima ao mandar um repórter “calar a boca” e ofender a imprensa.

Os jornalistas são apenas parte de uma nova rotina do poder. Nesta terça, Bolsonaro gritou duas vezes com jornalistas mandando um “cala a boca”, algo que só a ditadura viu no Brasil. Mas os relatos se espalham pelo país sobre como enfermeiras e médicos estão sendo alvos de ataques de apoiadores do Governo. Não faltam agressões morais contra professores, artistas, intelectuais ou cientistas, todos eles vistos como potenciais ameaças. Enquanto isso, nas redes sociais, milhares de robôs e apoiadores autênticos de um movimento violento transformam plataformas em trincheiras da mentira.

Nos discursos, quase nunca de improviso, Deus e ódio se misturam nas mesmas frases. Judas é evocado para atacar antigos pilares do movimento. A religião passa a legitimar abusos de direitos humanos. Pede-se orações para que um líder cuja promessa era a de exterminar o contraditório. Todos se apresentam como pessoas de bem. Todos se apresentam como patriotas, únicos autorizados a vestir as cores nacionais.

Nas ruas, nas praças, no mundo virtual ou na violência diária, todos esses personagens têm algo em comum: o desprezo pela democracia. O ruído causado por esse grupo, instigado por seus líderes, certamente é maior que seu número real de apoiadores. Mas ainda assim tal massa é relevante no cenário em que vivemos. Uma massa que mistura classes sociais sob uma única ideologia, com um comportamento fanático capaz criar uma surdez crônica.

Instrumentalizada, ela cumpre justamente um objetivo, online e offline: o de dar pinceladas de legitimidade popular a um movimento claramente autoritário. “Foi uma demonstração espontânea da democracia”, afirmou o presidente, numa referência aos recentes atos. Nada disso é novo. Nenhum regime autoritário foi instalado sem uma manipulação prévia de uma parcela da sociedade.

Hannah Arendt aponta como, anos antes da chegada ao poder de tais forças na Europa, sociedades de classes foram dissolvidas em massas. Já os partidos foram destruídos e substituídos apenas por ideologias. Em Brasília neste fim de semana, as caravanas do autoritarismo eram a distopia de um sonho de uma cidade erguida para ser a capital de um novo século, democrático. Nas sombras dos traços do arquiteto estavam os reflexos de uma parcela da sociedade que jamais viu a democracia com entusiasmo, que sempre desconfiou da ideia do pluralismo, que jamais entendeu a noção do público e que, com seu egoísmo insultante, nutre a convicção de que as instituições são uma fraude.

Ameaçado pelo vírus e por uma recessão brutal, o Governo mobiliza suas tropas cegas pela ignorância para se defender, aprofundar seu desprezo pela verdade e levar um país ao limite de sua coesão nacional. Todos os sinais apontam na mesma direção: a democracia brasileira está ameaçada e seu desmonte ocorre em plena luz do dia. Em cada desafio disparado a um dos poderes, em cada gesto de violência, em cada mentira disseminada e em cada caixão enterrado.

O Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo, um dos maiores bancos de dados sobre democracias no mundo, já deixou de classificar o Brasil desde o começo do ano como uma “democracia liberal”. Agora, o país é uma mera democracia eleitoral.

O instituto produz e coleta informações sobre países entre 1789 a 2019 e conclui que, nos últimos dez anos, a deterioração da democracia no Brasil só não foi maior que a realidade verificada na Hungria, Turquia, Polônia e Sérvia. Segundo Staffan Lindberg, um dos autores do informe e diretor do instituto, tal tendência ganhou uma nova dimensão mais recentemente. “O Brasil foi um dos países no mundo que registrou a maior queda nos índices de democracia nos últimos três anos”, alertou.

Na ONU, gabinetes da alta cúpula da entidade são tomados por preocupações em terno do discurso anti-democrático e o encolhimento real do espaço civil. Pela primeira vez em décadas, o país é denunciado nas instâncias internacionais, inclusive por flertar com o risco de genocídio.

Em outras palavras: o direito inalienável de viver numa democracia plena não está garantido. O Centro para o Futuro das Democracias da Universidade de Cambridge foi categórico num recente informe sobre a situação das democracias no mundo: “Para o Brasil, ao que parece, o futuro foi adiado mais uma vez”.

Enquanto essa eterna promessa é uma vez mais torturada, a fronteira entre massa hipnotizada e dos robôs programados para disseminar desinformação parece se desfazer à medida que a crise institucional e de valores se aprofunda. No mundo virtual ou numa praça ensolarada, ambos tem a missão de disseminar um vírus mortal: a pandemia do ódio, capaz de aleijar uma democracia. Como troféu, seu mito governará sobre esqueletos, mordaças e carcaças. Ainda assim, com a fumaça negra desonrando o horizonte do Planalto Central, irá declarar solenemente: “e daí?”.

Esboço do sonho do líder

O sono do líder é agitado. A mulher sacode-o até acordá-lo do pesadelo. Estremunhado, ele se levanta, bebe um pouco de água, vai ao banheiro onde se vê diante do espelho. O que ele vê ? Um homem de meia-idade. Ele alisa os cabelos das têmporas, volta a deitar-se . Adormece e a agitação do mesmo sonho recomeça. "Não! Não!" , debate-se com a garganta seca.

É que o líder assusta-se enquanto dorme. O povo ameaça o líder ? Não, se foi o povo que o elegeu como líder do povo. O povo ameaça o líder ? Não, pois escolheu-o em meio de lutas quase sangrentas. O povo ameaça o líder ? Não, porque o líder cuida do povo. Cuida do povo?

Sim, o povo ameaça o líder do povo. O líder revolve-se na cama. De noite ele tem medo. Mesmo que seja um pesadelo sem história. De noite vê caras quietas, uma atrás da outra. E nenhuma expressão nas caras. é só este o pesadelo, apenas isso. Mas cada noite, mal adormece, mais caras quietas vão-se reunindo às outras como na fotografia em branco e preto de uma multidão em silêncio. Por quem é este silêncio ? Pelo líder. É uma sucessão de caras iguais como numa repetição monótona de um rosto só. Parece uma terrível fotomontagem onde a inexpressão das caras dá-lhe medo. Nesse painel monstruoso, caras sem expressão. Mas o líder se cobre de suores porque os milhares de olhos vazios não pestanejavam. Eles o haviam escolhido . E antes que eles enfim se aproximassem definitivamente, ele gritou : sim, eu menti

Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"

Pensamento do Dia


Bolsonarizamo-nos!

Tá feia a coisa!

O Brasil Oficial bolsonarizou-se. Agora é golpe contra golpe suposto. Fato não vale mais nada…

Porque foi mesmo que essa coisa começou? Alguém se lembra? É capaz de precisar? Qual o inquérito que queriam parar? Qual a lei que foi violada? E essa urgência toda, desenfreada, sumária, é pela gravidade do crime? É para livrar o povo brasileiro de algum desastre iminente? Ou é só função da agenda biográfica do ministro Celso de Mello? Ele nós sabemos que tem pressa. Sua história acaba em novembro e sua eminência reverendíssima quer, declaradamente, um “fecho de ouro”.

Alexandre de Moraes?

Bolsonarizou-se. Teve um repente de emoção e deixou rolar queném presidente na cerca. Nem a lei, nem a razão. Fez lei do que sente. Ele com ele. Sozinho.

O colegiado?

Bolsominionizou-se. Respondeu como patota. Nenhum argumento. Nada sobre a constituição. Amiguismo só. Agora é guerra! Com ou sem Celso de Mello! Delenda Bolsonaro! Devassem-se as reuniões do ministério! O banheiro do presidente! Tem plano B e tem plano C, seja quem for que ele ponha no STF…

A imprensa?

Vai de arrasto esse rabo do Brasil Oficial. A mais doente virou personagem de si mesma. As manchetes são cada vez mais auto-referentes. Onde já houve informação e demonstração hoje ha dois ou três caroços de raciocínio boiando em enxurradas de adjetivos. É um bolsominion pelo avesso igualzinho ao STF. Ou pior! Atira aos cães a própria instituição do jornalismo. Os ostras do bolsonarismo agradecem empenhados. Deixariam de existir se não tivessem essa imprensa que pede pedradas.


É esse o dom divino do “Mito”. Tudo que ele toca bolsonariza-se ou bolsominioniza-se. Não é homem de ação, é homem de falação. Suas palavras partem do e são recebidas pelo cérebro reptiliano que ainda pulsa por baixo do nosso. Mal batem no ouvinte trancam-lhe o raciocínio e desatam tempestades de reflexos violentos. Não ha explicação científica. A conflagração sobrevem incontrolável, nevrálgica.

Fez da pandemia um instrumento inegociável de confronto. O STF instalou-o no mais covarde dos “eu não disses”. Se estivesse querendo vender caro a quarentena, que é o que dá em sã consciência pra fazer num país onde a saúde pública sempre esteve à beira do colapso, estava colhendo dados, desenhando parâmetros para balizar a saída para a quarentena inteligente. Em vez disso saiu por aí cuspindo e tragando perdigotos. “E daí”? Dez mil vidas e estamos na estaca zero. Meia quarentena pára a economia inteira mas o vírus continua a mil. É a festa da morte.

Para comprar ou para vender Bolsonaro só dá saída pelo que não é. Que golpe, que nada! Os milicos estão cevados na privilegiatura. Não querem mudar nada. Ele é louco mas não rasga dinheiro. Nem mostra seu exame de Covid. Paulo Guedes é o rótulo atras do qual esconde-se o sindicalista de fardado que sabota todas as reformas que foi eleito para fazer. Nem no meio da pandemia admite que toquem na privilegiatura. Prometeu um veto à punhalada que ele mesmo deu nas costas esburacadas do seu ministro quixote porque não está dando pra perder mais um “pilar” debaixo desse tiroteio. Mas é só se reequilibrar que crava de novo.

E o dólar voa e a ladroagem ruge…

Falta governo na pandemia

Falta governo na saúde. A evidência está na devastação provocada pelo vírus em menos de vinte semanas.

Em dezembro, quando a China confirmava a disseminação, 11 estados brasileiros fechavam 17 hospitais e 30 postos do SUS. Faltou dinheiro, alegaram aos repórteres André de Souza, Marlen Couto e Sérgio Roxo. 

Jair Bolsonaro repetia Dilma Rousseff, que presidiu a desativação de 11,5 mil leitos hospitalares — um a cada duas horas —, nos primeiros dois anos e meio. A redução da rede e as greves aumentaram a fila do SUS, única opção para três em cada quatro brasileiros. A imprevidência fez nascer outra fila, a das aposentadorias.


Antes do carnaval, no 28 de janeiro, deputados cobraram um plano federal para a Covid-19. Fez-se silêncio no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios. A prioridade era o corte linear nos gastos. 

Quando a “gripezinha” ameaçou o SUS de colapso, em abril, houve uma miríade de promessas: 2 mil novos leitos de UTI, 40 mil respiradores, 44 milhões de testes para Covid-19, entre outras coisas. Até sexta haviam sido entregues 400 leitos de UTI (20% do prometido), 487 respiradores (1,2% ) e, com sorte, maio acaba com 2 milhões de testes (4,5%). 

Com menos 17 hospitais no país, o governo resolveu erguer 48 unidades de campanha ao custo de R$ 10 milhões cada. Bolsonaro posou para imagens num deles (220 leitos), em Águas Lindas (GO). Está pronto há semanas, mas continua fechado, assim como o de Boa Vista (88 leitos). 

O desgoverno na saúde levou a um apagão de informações. O país sabe o ritmo da inflação a cada dia, mas desconhece a realidade sanitária nas cidades, de pessoal, leitos e equipamentos na rede hospitalar. ising-format=superbanner>

Com fila de mais de mil doentes, o Rio vive a agonia da anarquia na pandemia. Possui oito instituições federais de saúde em extrema precariedade. Elas consomem R$ 3,5 bilhões por ano, o equivalente ao custo anual da rede de 66 hospitais estaduais.

Cala a boca o senhor, presidente!

Desde que o senhor veio com o “golden shower” — tem mais de um ano — já deveria ter sido advertido nos mesmos termos que fez o rei da Espanha, Juan Carlos, ao boquirroto e inconveniente caudilho venezuelano Hugo Chávez, tempos atrás. Caberia adequadamente, ontem e hoje, a bronca no seu caso: “Por que não te calas?”. A destemperança verbal na condição de inquilino do Planalto, as ignomínias nos ataques sem propósito, a valentia fora de hora, a tentativa de intimidação e constrangimento, hostilizando quem apenas faz o seu trabalho, causam, no todo, repulsa. E vergonha alheia. Indistintamente. Quem presencia ou toma conhecimento do espetáculo horroroso fica desconfortável. Automaticamente. Sem necessidade. Vossa excelência, repetindo um bordão conhecido do seu mais novo aliado da tropa de choque do Centrão, Roberto Jefferson, desperta na maioria os instintos mais primitivos. Combine com ele, Jefferson, o toma lá, dá cá, mas nos poupe de mais impropérios. Para quem já falou em executar 30 mil pessoas, ameaçou mulheres de estupro, saudou torturadores e se disse a própria Constituição, deveria bastar. O vatapá de vitupérios da sua lavra passou da conta. Feche a matraca, evitando tantas barbaridades e constrangimento público. Não dê mais um pio. Para o seu próprio bem. Cala a boca o senhor, presidente! Coloque-se devidamente no papel de chefe de Estado. Um líder que só fala besteira, difunde asneira, agride e desinforma, não honra a faixa que recebeu. Veste a pitoresca fantasia de um arlequim. Está fadado à condição de bedel do entretenimento e shows de Ópera-Bufa, perdendo o respeito dia a dia. Cala a boca o senhor, presidente! A imagem de déspota autoritário, arrogante, de quem almeja governar como rei absoluto, não cai bem nos dias de hoje. Como funcionário público, alçado ao Palácio pelo voto popular, vossa excelência deve mesmo, a cada um dos brasileiros eleitores, satisfação. Respostas que evita dar. Não recebeu cheque em branco para fazer da presidência o que bem entende. Muito menos para usar o poder de Estado como se fosse uma propriedade privada. Não é assim. Ao contrário. Se não nos representa, se não sabe respeitar aqueles que lhe deram a condição de mando e o posto, deveria abandonar a cadeira e ir cuidar das milícias digitais, com as quais o senhor se sente tão à vontade e onde a sua decantada escatologia verbal é bem-vinda. Poupe-nos dos desaforos. Cala a boca o senhor, presidente! Nós não vamos nos calar, apesar do desejo incontido que manifesta nesse sentido. Como já disse a antiga cantilena, reprisada com propriedade numa sentença da ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, “cala a boca já morreu”. Se existem anseios mal velados nas suas reminiscências dos tempos da ditadura e dos podres porões da tortura, vingados no regime de exceção, fique com eles para si. Não encontram, pode ter certeza, mais espaço no nosso Brasil de hoje. Intimidar o livre exercício da liberdade de expressão é crime previsto na Lei. E a lei, presidente, rege todos nós. Paira acima, inclusive, do senhor. Muito embora as suas tentativas de desobediência a ela sejam corriqueiras.

A extravasada ira contra aqueles que apenas lhe dirigiam perguntas, postados num cercadinho miserável como gado a ter de aguardar as profanações do feitor, dão conta de um mandatário que não possui o mínimo senso de compreensão da atividade jornalística — cujo fundamento, precípuo, é o de retratar fatos de interesse público, transmitindo-os à população, que tem o direito de ser informada. Jair Messias Bolsonaro, que não se cala nunca e busca fazer encenação politiqueira de qualquer circunstância, mesmo das tragédias como a da Covid-19, tenta “moldar” os fatos a sua maneira. A verdade não se pauta por subterfúgios recorrentes. Quando mandou os entrevistadores calarem a boca, o capitão repetiu uma cena marcante dos momentos mais insidiosos da ditadura militar, na qual o então general Newton Cruz, nos idos de 1983, questionado sobre os retrocessos democráticos, quis silenciar o repórter Honório Dantas, com um “cala a boca” que descambou para a agressão física. A prepotência bolsonarista — vendida também por intermédio das falanges de veneradores e do gabinete do ódio — foi às vias de fato contra enfermeiros e jornalistas em dois episódios, na véspera e anti-véspera da admoestação presidencial.

Diferentes na forma, semelhantes no método. Inaceitável, indecoroso, repulsivo. Cala a boca o senhor, presidente! Ninguém aguenta mais tanto descomedimento. Vá com a sua incitação à desordem pública para lá. Reserve o descaso do “e daí?” para a sua tribo. Quem está pensando que é? As respostas que na ocasião não vieram à altura de suas agressões dão sinal da cordialidade e educação do povo que o senhor não sabe conduzir. Deveria aprender ao menos noções preliminares dessa natureza cordata. Não o provoque muito. Tudo tem limite e o da paciência de seus eleitores, como mostram as pesquisas, já transbordou. Esbanjar braveza para quem não lhe oferece resistência é o máximo da covardia. Cala a boca por que, presidente? O que aqueles jornalistas estavam lhe questionando que tanto o incomodava? Por acaso as notórias interferências na Polícia Federal, admitidas em seus próprios posts, eram fábulas da carochinha? Não parece. Ofender pessoalmente é o recurso dos pobres de argumento. Dos rasos de ideia. Dos sem noção. É o senhor dá demonstrações incessantes de agir segundo esse manual. Cala a boca o senhor, presidente! Para nos poupar desse ódio avassalador que faz tanto mal, das diatribes fora de propósito, das sugestões irresponsáveis e inconsequentes sobre desobediência à quarentena. O senhor vocaliza que a “gripezinha” não mataria nem 800 e quando ela mostra um número dez vezes maior vem com o seu debochado “E daí?”. E daí, lhe diria presidente, que milhares de famílias estão agora chorando seus mortos, desoladas no luto, sem qualquer amparo ou palavra de consolo daquele que deveria se apresentar como comandante e não passa de um bufão de palanque. Se quer silenciar o diálogo, cala a boca o senhor, presidente! Por que nós não vamos nos calar. A comunicação está nas nossas veias, na natureza da atividade, no nosso conceito de vida e democracia. E isso não se cala na marra. Nem com mordaças, como tentaram lá atrás. Cala a boca o senhor, presidente! Que precisa aprender o que é civilidade, princípios republicanos, decência e liturgia do cargo. Cala a boca já morreu, mas esses aqui servem apenas para mostrá-lo como eles machucam os ouvidos. Como atinge e dói fundo na alma. Não vamos nos calar.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Enfim uma 'descoberta'

Não é mais necessário insistir no fato de que o Governo Federal utiliza referências do nazismo. Quem tinha dúvidas já não as têm. Se segue no barco, compactua, pelo menos em parte, com esse ideário
Instituto Brasil-Israel sobre citação nazista usada em propaganda do governo

Responsabilidade militar

O presidente Bolsonaro, ao assumir, manteve uma política de confronto incessante com seus adversários, como se todo aquele que a ele se opusesse fosse um inimigo a ser abatido. Progressivamente, à maneira de Tânatos, o deus da morte na mitologia grega (editorial do Estado de 25/4), ou a pulsão de morte segundo Freud, fez a destruição reger as relações políticas. Amigos e inimigos passaram a caracterizar suas posições, ambos constituindo uma definição volúvel segundo as circunstâncias.

De inimigos objetivos da campanha (Lula e o PT) passou o mandatário para os políticos em geral, para o “sistema”, para os velhos amigos tornados inimigos, como generais do mais alto prestígio, e, enfim, as próprias instituições democráticas, como o Supremo Tribunal e o Legislativo. O resultado foi o isolamento presidencial, recluso em sua própria família, recorrendo, em manifestação recente, a um suposto apoio das Forças Armadas ao seu governo.

Ora, as Forças Armadas devem obediência exclusivamente à Constituição e à defesa nacional. Constituem uma instituição de Estado, não estão a serviço de nenhum governo. Note-se que desde a redemocratização do País, também por elas liderada, juntamente com os adversários de então, como o MDB, e aliados, como o novo PFL, foram o sustentáculo deste mais longo período de democracia no Brasil.

Se observarmos mais atentamente a composição militar do governo, constataremos que as Forças Armadas não constituem um bloco único, há oriundos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sendo esta última a mais afastada do governo, enquanto o primeiro é o mais próximo, com a segunda ocupando posição intermediária. Mais particularmente, generais do Palácio do Planalto são militares que fizeram parte de sua “turma”. Isso significa também que a sua “turma” não é necessariamente a de outras turmas do Exército, muito menos da Marinha e da Aeronáutica.


Note-se que, aos olhos da sociedade, os militares são responsáveis pelo atual governo e seus fiadores, ela não faz a distinção entre militares da ativa e da reserva, com destaque para o Exército. Isso significa, politicamente, que sua responsabilidade é ainda maior. Seria tentado a dizer que, para além dos fanáticos militantes das redes sociais, eles constituem sua única base de sustentação. Se houvesse uma mudança de posição, o presidente Bolsonaro não teria condições de permanecer no poder.

As redes sociais são influenciadas e tuteladas pelo dito gabinete do ódio, extensão do clã familiar, em cujas mãos parece estar o destino do País. São da estrita confiança presidencial, participam das decisões. A anomalia é gritante! Estamos aqui totalmente afastados do exercício republicano do poder.

Pior ainda, o clã presidencial tem dado mostras de que manda no governo e no Palácio do Planalto. Não apenas indica ministros, como os controla, decide até quando devem ou não ficar. Generais que o confrontaram foram banidos do governo, após indignos ataques nas redes sociais. Estamos numa situação que diria patológica: os filhos do presidente atacando ou, mesmo, mandando em generais! Os descontentes que se retirem voluntariamente ou serão obrigados a sair.

Atualmente, o País enfrenta uma crise epidêmica, uma crise econômica e uma crise política. A primeira, potencializada pela conduta presidencial, dando exemplo do que não deveria ser feito, em desprezo pelo bom senso e pela ciência. Governadores atuam responsavelmente no sem-rumo da liderança presidencial. A situação da economia já não era boa antes da epidemia, com as reformas avançando muito lentamente, pela ausência de diálogo com o Legislativo. E, agora, a crise política, conduzida “exemplarmente” pelo presidente e seu clã! Em apenas duas semanas dois ministros foram “renunciados”, Mandetta, por fazer um trabalho muito bom no combate ao coronavírus, seguindo diretrizes científicas e da OMS; e Moro, por não concordar com as ingerências presidenciais na Polícia Federal. Muita luz ofusca o presidente.

Ainda mais isolado, o presidente redobra a aposta no ataque: o Supremo torna-se o novo inimigo, após as contundentes acusações do ex-ministro da Justiça, símbolo da Lava Jato e da luta contra a corrupção. Ele recorre a alguns políticos do Centrão, os mesmos que ontem atacava como representantes do “toma lá dá cá”, na tentativa de evitar o impeachment. Destrói, assim, a sua própria narrativa!

A situação é crítica. Uma alternativa seria o presidente “converter-se”, isto é, afastar o seu clã dos assuntos governamentais, destituir ministros ideológicos, combater o coronavírus ao lado da ciência, usar o diálogo e a moderação. Outra, os militares mais diretamente engajados retirarem o seu apoio, com as Forças Armadas deixando claro que não pactuam com a polarização atual. Exerceriam a responsabilidade que lhes cabe, dada a sua participação. Ou o impeachment como solução última.

A pior saída seria nada acontecer: um governo incapaz de seguir com o seu programa de reformas e o presidente, um “pato manco”, no meio da algazarra de seus filhos.

Bolsonaro perde bonde do corona

Confesso que não fiquei tão perplexo com a ida de Bolsonaro ao STF levando um grupo de empresários. Acredito que, tanto quanto eu, ele não esperava nenhuma solução para o problema que levantava: a volta às atividades econômicas.

O objetivo de Bolsonaro era mostrar que estava trabalhando pela economia. Para isso, levou uma equipe de TV e transmitiu o encontro ao vivo, para surpresa do próprio STF. Um golpe de propaganda, nada mais. Interessante como Bolsonaro consegue perder os bondes nessa luta contra o coronavírus.

Perdeu o primeiro, quando se isolou, negando a importância da pandemia, criticando o trabalho de governadores e prefeitos. Uma nova oportunidade de liderança e alinhamento se abriria para ele, no processo de volta às atividades. Compete ao presidente unir governadores e prefeitos em torno de um detalhado plano de retomada.

Dois dias antes de Bolsonaro ir ao Congresso, Angela Merkel reuniu as lideranças regionais para definir e modular um plano de volta.

Esses planos são complexos. Não adianta pedir ao Tofolli, porque ele não tem. Implicam a definição dos dados necessários, como número de casos, disponibilidade de hospitais, capacidade de testar.

Implicam também um redesenho das escolas, das fábricas, dos escritórios. Na Alemanha, técnicos foram às escolas para redefinir o espaço, inclusive determinar o novo lugar dos professores na sala.

Em alguns países, houve escalonamento de turmas escolares; em algumas regiões, normas para restaurantes ao ar livre.

Normas para o funcionamento de teatros e casas de espetáculo também estão sendo trabalhadas nos detalhes. Os intervalos, por exemplo, serão suprimidos para evitar aglomeração. O próprio futebol na Alemanha volta no dia 16, mas com portões fechados, sem plateia.


Bolsonaro até o momento apenas falou contra o isolamento. Foi incapaz de apresentar um plano, mesmo um pobre esboço, como Trump.

Essa pressa acaba se estendendo a outros setores. O governador de Brasília queria que a final do campeonato carioca fosse jogada no Estádio Mané Garrincha mesmo com um hospital de campanha instalado ali.

Não sei a que atribuir esta loucura. Nós temos uma singularidade cultural, que é a improvisação. É inegável que ela tem qualidades, no compositor que escreve seus versos num botequim, nos profissionais que driblam a falta de recursos para alcançar um certo resultado.

Na formulação de uma política nacional e solidária contra o coronavírus, é preciso liderança e capacidade de planejamento. Bolsonaro trabalha por espasmos, acorda pensando na briga nossa de cada dia, a quem vai combater e orientar sua galera a chamar de lixo.

O ministro da Saúde tem dito que o Brasil é um país diverso. Todos concordam. Mas é precisamente por ser diverso que necessita de um plano com modulações.

Basta olhar no mapa para ver quantas cidades brasileiras não tiveram casos de contaminação. Até elas precisam ser orientadas a rastrear com rigor caso apareça alguém contaminado por lá.

Na verdade, é um projeto que se enquadra nessa expressão muito usada de nova normalidade. Os Estados Unidos viveram algo parecido de longe com isso, depois do atentado de 11 de setembro.

As circunstâncias agora são diferentes. O redesenho da sociedade não se faz diante de inimigos humanos, mas ameaças biológicas que podem nos dizimar. A etapa final do planejamento seria concluída com a existência de uma vacina, acessível a toda a população.

Mas, no entanto, a existência de uma pandemia como essa abriu os olhos de muita gente para a possibilidade de outras. Algumas delas podem ser favorecidas pelo desmatamento.

Tive a oportunidade de sentir isso quando cobri a volta da febre amarela. Aparentemente, a destruição de algumas áreas de mata acabou expondo os trabalhadores agrícolas e algumas populações rurais.

Estamos trabalhando com algo muito sério para o futuro das crianças. Se não houver uma transformação cultural que nos faça pensar coletivamente e nos convença da necessidade de planos cientificamente adequados, vamos ser uma presa fácil.

Nos anos de política, lamentava que o Brasil era um país onde o principio de prevenção não pegou. Não esperava um governo que, além de imprevidente, desprezasse a ciência. Tudo do que o coronavírus gosta.

Lerdeza fatal

Mário Henrique Simonsen ensinou que o sistema social menos imperfeito é o que sabe corrigir mais rápido seus erros. Chamava a atenção para um aspecto novo no mundo, lá nos anos 1970: não mais o grande a engolir o pequeno, mas o veloz a devorar o lerdo.

A pandemia escancara como viemos perdendo tempo pelos anos afora e mantendo esta desigualdade escandalosa. Nas reformas estruturais, por exemplo. Sempre adiadas e combatidas por corporativismos que impedem seu alcance na redistribuição de oportunidades. A eleitoral e a tributária empacaram. As que foram aprovadas, tímidas, sofreram com espertalhões garantidores de privilégios e enxertadores de jabutis.


Podíamos ter distribuído a prosperidade quando crescíamos. Agora a urgência do vírus exibe o abismo social acintoso. É inaceitável manter isenção fiscal para igrejas e empresários selecionados. Hipersalários para superfuncionários. Ou tolerar a inadimplência de ocupantes de imóveis da União (que chega a quase um bilhão de reais).

Somos o país dos cartórios mas o número de gente invisível e mal documentada se revela assustador. Sem comprovar o voto obrigatório, o CPF emperra. Como evitar fraude e ao mesmo tempo distribuir o auxílio emergencial que, num esforço incrível, se tenta fazer chegar a quem precisa? Como ser eficaz?

Engenheiros, cientistas e técnicos criam equipamentos e aplicativos para salvar vidas, em tempo recorde. Mas o governo nega recursos, combate a ciência e as universidades.

Evidencia-se que nossa democracia não desenvolveu mecanismos ágeis para correção célere de condutas predatórias de presidente. Sem freios, ele desafia recomendações sanitárias, agride a imprensa, incentiva desmatamento e invasão de terras indígenas. Tenta confundir militantes e milicianos com militares, constrangendo estes. Mas vamos empurrando o limite com a barriga. Fica para consertar depois. Será irreparável, se o mal estiver feito. Seguimos devagar, quase parando. Só a pandemia acelera e nos adverte que inércia pode ser fatal.

Imagem do Dia


O ano do Estado da morte

Os mortos de 2020 não são os da ditadura, enfiados em valas desconhecidas e assassinados por torturadores ocultos em registros escondidos ou destruídos. Os de hoje têm cara, identidade e local identificado. Também seus algozes - no momento livres, leves e soltos brincando com o sofrimento nacional - são por demais conhecidos para tentarem se eximir da mortandade.

Os corpos não serão jogados no colo apenas de um desvairado, que instituíram como salvador da pátria, para expurgar a corrupção, reorganizar a economia e redemocratizar o existente Estado Democrático.

Muitos, bem mais do que se pensa, também serão responsabilizados pelo ano da peste brasileira. Há os que protagonizaram a tragédia e seus coadjuvantes por todo o Executivo e mesmo grande parte do Legislativo e Judiciário. Não estão limpas as mãos na saúde, na cultura, na agricultura, nos direitos humanos (argh!), na economia, na educação, nas instituições de Estado, em todos os gabinetes que se tornaram de ódio. Nem as fardas sairão incólumes, sujas com a terra de cemitério. Sejam os que gargalham sobre caixões, ou silenciam coniventes, serão os mortos-vivos que perambularão pela história marcando com sal suas descendências.

Poderá não existir um julgamento de Nuremberg, mas no futuro nenhum taifeiro vai jogar as ossadas para debaixo do tapete. As fotos estarão lá e as valas comuns receberão monumentos de homenagem aos traídos pelos tais patriotas.

Nunca se matou tanto no país sob a desorganização governamental e a orientação inconsequente de um ex-capitão, como o ex-cabo austríaco Adolf Hitler quase dizimou a Alemanha. Ainda nunca na história deste país toda a população sofreu tanto de desemprego, fome e miséria, em meio a estrondosa ganância de privilegiados funcionários de Estado. Entra para a história 2020 como o ano em que o Brasil matou o Brasil.
Luiz Gadelha

O retorno da ‘Aischrópolis’, a cidade feia, e sua democracia agonizante


Corriam os anos do Século de Ouro de Atenas, entre 461 e 429 a.C., quando Péricles, arconte eleito pela Assembleia do Povo (Ekklesía), fez prosperar na polis a arte, a filosofia, a literatura e, especialmente, a política, como “a arte de discernir”. Era a época da chamada Callípolis ateniense, a “cidade bela”, regida pela beleza (kallos), a razão (logos), a justiça (díke) e a democracia (demos, povo – krátos, governo).

Péricles se preocupava não só em proteger Atenas de futuras invasões bárbaras, como também em promover o florescimento civil, artístico e intelectual da polis. Por isso, encomendou a seu amigo Fídias a construção dos principais monumentos e obras arquitetônicas, como o Partenon, os Propileus e as estátuas de Atena, senhora da cidade. Nesse então, Anaximandro e Sócrates se encarregavam da paideía (educação) no ginásio, enquanto que no théatron, Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes refletiam a vida do demos na tragédia e na comédia. Esses espaços cívicos constituíam o acesso ao conhecimento dos politēs (cidadãos ou homens livres) nesta democracia primordial. Contudo, era fundamentalmente no teatro, e durante as Grandes Dionisíacas, que não só os homens livres tinham o direito de participar, mas também os metecos (estrangeiros), as mulheres e os escravos. Era ali onde se exercia a verdadeira democracia, em que todos podiam se sentir parte da isonomia, que procuraram em seus inícios Sólon e Clístenes, graças ao fato de que o Estado custeava os ingressos para quem não podia pagar, garantindo assim que todos pudessem ter acesso a essa necessária e rica cultura intelectual.

No entanto, para realizar essas obras, Atenas cobrava onerosos impostos de seus aliados da Liga de Delos, que pagavam para evitar um eventual ataque inimigo. Foi assim que começou, em meados do século V a. C., uma moléstia nas colônias pelo alto custo de sua proteção. Isso provocou, em 431 a. C., a ruptura da liga e o rompimento com Esparta, começando assim a Guerra do Peloponeso, que durou até 404 a. C.

Esparta via com maus olhos a política de “direitos iguais” que Péricles promovia em Atenas, pois seu sistema de governo era o oposto, uma severa oligarquia na qual poucos tinham direitos. Mas a polis espartana temia, sobretudo, sucumbir ante o poderio dessa Callípolis democrática, porque algumas colônias da Liga do Peloponeso também começavam a se sublevar, pretendendo se unir a Atenas. O rei de Esparta, Arquidamo, pressionou por todas as vias os atenienses até que entraram em guerra, pois não podia permitir que a arrogante Atenas tomasse o controle da Hélade.

Péricles, sabendo os riscos que corria, aceitou a guerra com a convicção de que Atenas “devia ser a escola da Grécia” (Tucídides, II: 41), convencendo com essas palavras a Ekklesía, apesar do eclipse solar que aterrorizou os habitantes da Ática em agosto de 431 a. C. O arconte teve que aproveitar seus conhecimentos astronômicos –ensinados por Anaximandro– para convencer os atenienses de que o fenômeno não era presságio de desgraça e que a polis seguia sendo a favorita do Olimpo.

A intenção de Péricles não era fazer uma estratégia ofensiva, mas defensiva: atacaria só se fosse atacado. Para isso, transferiu todos os habitantes rurais da Ática para a cidade amuralhada para protegê-los do ataque terrestre dos espartanos, mas não se preocupou em lhes dar um teto onde viver na polis. Estes, amontoados nas ruas e nos templos, sofreram em pouco tempo as inclemências de uma epidemia sem igual, que pôs em xeque a poderosa Callípolis, transformando-a na feia e espantosa Aischrópolis (de aischrótes, feiúra, e polis, cidade-estado).

Embora Atenas ganhasse as primeiras escaramuças da guerra, ao começar o verão de 430 a. C., teve de batalhar em uma guerra muito mais cruenta, com um inimigo invisível e imprevisível, do qual só se sabia que provinha da Etiópia. “Chegou a Atenas de um modo inesperado e atacou primeiro os habitantes do Pireu. De repente as pessoas padeciam de febres intensas, (...) depois sobrevinham espirros e tosse, para logo atacar o estômago. (...) Exteriormente, o corpo não resultava nem muito quente nem muito frio (...), com uma erupção de pequenas pústulas e chagas. No entanto, os doentes sentiam uma queimação, que não aguentavam vestir túnicas leves, (...) só podiam andar nus e com vontade de mergulhar em água fria, não só pelo excesso de calor, mas também pela sede insaciável que sentiam. (...) O mais terrível do mal em seu conjunto era o desânimo quando se adoecia ―pois entregues ao desespero se abandonavam muito mais, sem vontade de melhorar― e o fato de que ao se contagiar por cuidar uns dos outros, morriam como rebanhos”, descreveu Tucídides fala, no Livro II de A História da Guerra do Peloponeso, sobre a epidemon nosema (epi, sobre, demon, povo e nosema, doença).

Com seu relato histórico, Tucídides visa possibilitar um maior conhecimento sobre esse contágio no futuro, por isso é minucioso em suas observações médicas tanto a respeito dos infectados como dos sobreviventes, pois ele mesmo resistiu à doença. Assinala que os que morriam em maior número eram os médicos, que, por desconhecer o tipo de mal, não dispunham de meios para curar nem os outros nem a si mesmos, e assim a epidemia se propagou como o fogo ateado nos campos pelos espartanos. E sem que as orações nos santuários pudessem salvá-los tampouco. Ao contrário, ao se aglomerar nos templos, muitos dos suplicantes morriam, ficando seus corpos ali caídos. Foi então que os atenienses mais antigos lembraram da profecia que advertia: “Virá a guerra dos dórios e a peste com ela.” (II: 54) Francisco Romero Cruz, tradutor de Tucídides, menciona como hipóteses muito discutidas para a epidemia ateniense uma variante do tifo ou até mesmo o sarampo, por causa das pústulas nos doentes. Mas estudos recentes se inclinam pela hipótese de febre tifoide.

A imagem da doença, aponta Tucídides, é mais impressionante do que é possível narrar, e o mais inusitado é que nem as aves de rapina se aproximavam dos cadáveres espalhados por toda parte em Atenas e em seus arredores, tanto que naquele ano os espartanos suspenderam os ataques para não se contagiarem. “Junto com a epidemia, o que mais angustiou [os atenienses] foi a concentração das pessoas do campo na cidade (…), houve um estrago que não respeitava regras, pois os cadáveres se empilhavam uns sobre os outros, e os moribundos se arrastavam pelas ruas e em volta de todas as fontes pela ânsia da água. (…) Os homens, sem saber o que fazer, tenderam a abandonar por igual o sagrado e o humano. Todo o ritual de que se serviam antes para os funerais ficou alterado e enterravam como podiam", descreve (II: 52).

Já não havia vestígio da Callípolis de Atena, daquela cidade bela que tinha abrigado os valores que os atenienses mais respeitavam: o bem, a verdade e a justiça. Com a chegada da epidemia, a polis se transformou no mais espantoso para o homem grego, a Aischrópolis, a cidade feia e obscena, onde o espírito se corrompe, a maldade e a falsidade correm soltas pelas ruas, e os vícios e excessos abrem os portões da polis para a temida Hybris, a senhora do mal da Idade de Ferro que, para Hesíodo, incitava nos homens a arrogância, a ambição, a ignorância e a injustiça. Assim narra Tucídides como os atenienses iam perdendo a honra e a virtude, pois já não respeitavam os deuses nem as leis: “Ninguém estava disposto a se esforçar pelo que parecia belo ante a incerteza de se pereceria antes de lográ-lo.” (II: 53)

O descontrole e a desmesura se espalharam ainda mais pela cidade quando o strategos Péricles morreu, com seus filhos, devido à epidemia em 429 a. C. A partir desse ano, a Assembleia do Povo foi vítima dos demagogos (de demos, povo, e ago, conduzir) ―que, corrompendo a ideia fundamental de que na vida política (politéia) deve primar o interesse pela maioria, ou seja, pelo público, viram na compra e venda do voto a possibilidade de enriquecer e satisfazer seus interesses privados. “Vereis que tudo é vendido junto no mesmo lugar em Atenas: Figos, testemunhas para atender a convocações, cachos de uvas, nabos, (...) fornecedores de provas, rosas, nêsperas, sopas, (...) processos legais... Máquinas de demarcação, íris, lâmpadas, clepsidras, leis, denúncias...”, descreveu o o estado da Aischrópolis ateniense o poeta Eubolo.

Atenas ia sendo destruída não só pela Guerra do Peloponeso e pela epidemia, mas também pela ação dos aduladores e demagogos que arruinaram a política com seus abusos e manipulações. Ante esse panorama desolador, Aristófanes escreveu, em 414 a. C., a comédia As Aves, como protesto pelos abusos cometidos pelos atenienses, que insistiam em lutar contra os espartanos, e como desejo utópico de construir seu próprio mundo ideal. Para Aristófanes, os atenienses tinham se transformado em comerciantes do dinheiro e do engano, “vivendo pendurados na burocracia, à custa dos impostos que os cidadãos pagavam”, inventando empregos inúteis que terminaram por saturar a polis, como o “mercador de decretos”, que trabalhava na Assembleia vendendo “leis novas por preços bem baratinhos”, ou vendendo “os mesmos decretos que eram impostos às colônias de Atenas”. Ou como o sicofanta (sykophanta), o “delator profissional”, a figura mais repudiada por Aristófanes no livro: “Sou um sicofanta (...). Recebo dinheiro pra acusar as pessoas... Trabalho muito e preciso ter asas. Assim poderei delatar mais rápido. (...) Sou um sicofanta que trabalha pro bem público! Fiscalizo as cidades e denuncio estrangeiros.”

Aristófanes é lapidar ao concluir que Atenas tinha se convertido em uma “árvore de mentiras e violências”, em uma cidade nas trevas, cujos habitantes acabaram sucumbindo ao “lado escuro da vida humana”.

A democracia de Atenas, que Sólon, Clístenes e Péricles ajudaram a criar, terminou em ruínas ante uma oligarquia corrupta, ignorante e despótica, que começou a desacreditar deliberadamente a outrora florescente “cultura das ideias”. Dessa forma, a manipulável Assembleia do Povo condenou ao ostracismo o arquiteto e escultor Fídias, o filósofo Anaxágoras e o sofista Protágoras, acusando-os de ímpios, mas sua decisão mais brutal foi sentenciar Sócrates à morte por considerá-lo uma ameaça à polis, acusando-o de não acreditar nos deuses e de corromper os jovens com seus ensinamentos, já que para o filósofo sua missão era ajudar a dar à luz o conhecimento, tal como sua mãe que era parteira (maieutike). A morte de Sócrates, em 399 a. C., marcou o perigeu dessa Aischrópolis doente, que terminou subjugada, juntamente com Esparta, em 338 a. C. por Felipe II da Macedônia.

A história, como pensava Tucídides, serve não só para examinar o que ocorreu em um momento determinado, como também para que a humanidade extraia lições dos episódios do passado. A filosofia serve para compreender que não estamos dissociados da natureza, que somos parte dela formando um todo; a literatura, para examinar onde falhamos como humanidade e como podemos corrigir o rumo; e a política, para saber escolher com discernimento os mais capacitados para governar a vida pública.

Contudo, 2.450 anos depois daquela epidemia, a humanidade, nem com toda a tecnologia e todo o conhecimento alcançados, pôde evitar que se repetisse a história de Atenas, e enfrenta novamente uma epidemia em que, além de lutar contra um vírus imprevisível, tem de combater a hybris, a arrogância e ignorância, dos que hoje governam alguns demos. Mostrando o pouco que se importam com o bem da maioria e pondo em perigo mais uma vez a democracia, pois muitos desses líderes demagogos corromperam seus eleitores com manipulações de todo tipo para chegar ao poder por meio do voto inconsciente, seja criando fake news e inimigos imaginários, exacerbando os discursos de ódio e o fanatismo religioso ou ―devido à própria ignorância― vilipendiando a ciência, a arte e o conhecimento.

As analogias com a Aischrópolis ateniense estão à vista, já que desde o surgimento da atual emergência sanitária fomos testemunhas da infâmia de tais governantes ao negar a gravidade da pandemia e boicotar recomendações vitais como a de quarentena, menosprezando assim os próprios povos que os elegeram. Também vimos como, por ambição, foi atropelado o respeito à vida das pessoas, consideradas apenas como números, como estatísticas, que devem se sacrificar para manter a todo custo “a economia” que beneficia os oligos, os poucos que se favorecem com ela. E fomos testemunhas da miséria em que se encontram alguns demos, onde a convivência com os mortos é cotidiana, porque não há como sepultá-los, ficando abandonados em qualquer lugar. Portanto, permanecem vigentes as observações de Tucídides sobre a doença, que já naquela época evidenciavam que é preciso ignorar as ambiguidades e demências dos demagogos, que desinformam os habitantes e os expõem ao contagio, e evitar as aglomerações até que o surto acabe. Assim como os espartanos perceberam a seriedade do contagio em Atenas e suspenderam naquele ano a guerra, é necessário que os líderes de hoje enxerguem a gravidade da pandemia. Já é hora de abrir os olhos para a realidade e aceitar que o mundo não deve ser regido pela ideologia, e sim pelo bem comum.

Lutamos contra um vírus complexo que coloca à prova toda a humanidade, mas até mesmo este iós microscópico veio nos mostrar aquilo que ainda podemos mudar; veio para nos dar a oportunidade, como advertiu Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias, de corrigir nossas ações, tomar consciência e compreender que para poder viver na Idade de Ouro devemos escolher o caminho de Díke, da justiça. Recuperando a humildade e a confiança e aprendendo a viver em harmonia não só com o próximo, mas também com o mundo em que habitamos; mundo que ainda pode se transformar, graças ao amor, à arte e ao saber, em uma autêntica Callípolis.
Paula Vera-Bustamante

É preciso reconstruir o que destruímos

Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente. O cataclismo já aconteceu e nos encontramos em meio às ruínas, começando a construir novos pequenos habitats, a adquirir novas pequenas esperanças. É trabalho difícil: não temos mais pela frente um caminho aberto para o futuro, mas contornamos ou passamos por cima dos obstáculos. Precisamos viver, não importa quantos tenham sido os céus que desabaram
D.H. Lawrence,  “O amante de Lady Chatterley”

Cinco letras que odeiam

O escritor português Mário de Carvalho anotou no Facebook: "Deve ser da palavra escrita. Pouco acostumadas a escrever, as pessoas deixam-se levar pelo embalo. Tenho verificado que criaturas, na vida real (notem: vida real!) razoavelmente delicadas e cordatas, perdem as estribeiras aqui no FB. E é vê-las, para meu espanto, a irritar-se, a cotovelar e, pior, a chamar nomes às outras. E às vezes basta uma trivial e natural diferença de opinião ou de perspectiva".

Autor de mais de 30 livros, alguns publicados no Brasil, como o romance "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde", Carvalho conclui: "Os profissionais da escrita, 'et pour cause', são mais comedidos e controlados. O que me parece justo sugerir é que pensem duas (ou três) vezes antes de se saírem com uma formulação mais grosseira, ou com um insulto".


Nem sempre os profissionais são mais ajuizados ou corretos. Ficou famoso, na memória do jornalismo, um artigo de Paulo Francis: "Tônia sem peruca". Atuando como feroz crítico de teatro no fim dos anos 50, ele desancou Tônia Carrero, sugerindo que a atriz ascendera ao estrelado usando o sexo.

A reação não foi menos feroz: o diretor Adolfo Celi, então marido de Tônia, e o ator Paulo Autran trocaram sopapos e engalfinharam-se com Francis. Este, mais tarde, se arrependeu do que havia escrito ("o artigo é sórdido", "me portei como um idiota") e de não ter ouvido no calor da hora o conselho de Rubem Braga: "Deixa o texto dormir um dia na gaveta. Se amanhã você quiser publicá-lo, publica".

Hoje as pessoas não pensam um segundo (três vezes, como sugere Mário de Carvalho, seria uma eternidade) antes de responder nas redes sociais a qualquer comentário. Entre os bolsonaristas, o comum é o uso de apenas duas palavras como resposta-padrão: "Teu c...". Frase que consegue a façanha de ter uma letra a mais do que o "E daí?" presidencial.

Sonhos impossíveis

O presidente Jair Bolsonaro não é mais apenas um trambolho em nossas vidas. Nesses meses de coronavírus, ele se tornou um pesadelo do qual está difícil acordar, ele não deixa. Assim que começamos a rir da desgraça que ele disse ou fez na semana passada, o presidente capricha na próxima besteira e não nos deixa esquecer a importância que ele tem, pelo que ele é, em nossas vidas. De minha parte, esbarro sempre nessa ideia de que ele foi eleito democraticamente, dentro das regras democráticas do país. Só nos resta, portanto, esperar pacientes e atentos pelos dois anos e meio que faltam para que ele complete seu mandato. A não ser que congressistas e juízes nos apareçam com motivos sérios e legais, para que ele sofra um impedimento. Mas não sei se um terceiro impeachment, em tão pouco espaço de tempo, fará bem ao país. Não sei.

Nunca vivi período político tão insuportável como este. Mesmo durante a ditadura militar, que durou 21 anos, nós sempre alimentamos alguma esperança e a fluida sensação, inventada talvez por necessidades psíquicas, de que o pior já tinha passado. E ainda havia, muito de vez em quando, inesperados sinais de que alguma coisa, afinal de contas, marchava em boa direção. Como foi, por exemplo, o tratamento dado ao cinema, durante o governo do general Ernesto Geisel, promovido pelo ministro Reis Velloso. Era como se o país estivesse ocupado por quem não devia; mas a nação estava lá, esperando que um dia a tomássemos nos braços.

Não acredito muito nessas classificações morais muito fechadas. Mas, às vezes, tenho quase certeza de que o presidente é um homem mau, que pratica a maldade social para compensar a consciência culpada da bananice com seus filhos, que podem quase tudo. Desde querer ser embaixador nos Estados Unidos, porque sabe fritar hambúrgueres; até nomear o diretor-geral da Polícia Federal. Como se PF fosse um acrônimo para Polícia da Família, da qual os Bolsonaro podem fazer gato e sapato.

Entre uma e outra gaiatice do mal, o presidente ainda promove ou apoia, no que julga ser seus domínios em Brasília, animadas domingueiras contra a Constituição, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, seus três inimigos jurados, exatamente os que o impedem de se soltar no Planalto, fazendo o que bem entender. Como ele não acredita no vírus (ou, quem sabe, já o pegou, está nos escondendo e pouco se lixando), a turma dele agora tem nova diversão endiabrada. Eles passam a noite em carreatas, na porta dos hospitais públicos, em buzinaço impiedoso, chamando os doentes infectados para sua campanha pelo fim do isolamento social.

Mesmo antes de a campanha eleitoral começar, Bolsonaro fazia o elogio sistemático de torturadores e escarnecia dos torturados. E nem se dava ao trabalho de nos dizer por que fazia isso, em nome de que religião, ideologia ou sistema político. O elogio à tortura era o elogio à tortura e pronto; não precisava de uma razão. Bolsonaro chegou a declarar que o Brasil só tomaria jeito depois de uma guerra civil, que matasse uns 30 mil. Talvez ele compense seus sonhos irrealizados com a visão dos “invisíveis”nas filas da Caixa. Ou que desconheça as necessidades deles, preferindo desfilar na Praça dos Três Poderes com empresários, para salvar a vida de suas contas bancárias.

Nos seus 28 anos de Câmara Federal, onde fez aprovar, nesse período, dois projetos seus, Bolsonaro pertenceu a nove diferentes partidos, vivendo a experiência profunda do baixo clero, aquele grupo de parlamentares que, no escurinho da Casa, topavam qualquer lance. Em 2005, um deles, Severino Cavalcanti, se elegeu presidente da Câmara em circunstâncias extraordinárias, uma reação de deputados, em crise com o Poder Executivo. A diferença é que os escândalos de que Severino fora acusado eram de muito baixa extração; como, por exemplo, a descoberta de que supostamente recebia propina do responsável pelo bar do Congresso, para onde levava seus camaradas de partido e de ideias. Não sei se o centrão terá essa mesma modéstia.

Em seu obituário sobre Aldir Blanc, Luiz Antonio Simas, um mestre, antropólogo especializado nas coisas do Brasil, nos explicou a diferença que faz entre Brasil e Brasilidade. “O Brasil”, escreveu, “é, vez por outra, como nos nossos dias, um empreendimento de ódio; a Brasilidade é um canto desesperado de amor e liberdade”. Confesso que não sei direito que rumo tomar nessa doidice que está sendo a vida pública brasileira de nossos dias. Mas sinto que estamos precisando muito de quem cante esse canto de que Simas nos fala.