sábado, 13 de maio de 2017

Refugiados no presente

No momento em que seus professores fizeram manifesto justificando greve contra as reformas previdenciária e trabalhista, alunos do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, redigiram documento defendendo as reformas.

Essa manifestação tem como lógica a disputa latente e crescente, mesmo que inconsciente, entre os interesses das gerações atuais e os interesses das futuras.

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Os jovens começam a perceber que eles são como refugiados tentando emigrar para o futuro, impedidos por um “mediterrâneo invisível” formado por leis e opções que protegem os adultos.

Basta pensarmos em relação ao meio ambiente. Ao concentrar o conceito de progresso no crescimento da produção para atender ao aumento da renda e do consumo, comprometemos o bem-estar dos que vão herdar um mundo com as consequências da crise ecológica. Mas não se veem nos adultos de hoje os gestos necessários de comedimento na prática do consumismo.

No campo da economia, a falta de austeridade nos gastos públicos provocou os orçamentos deficitários e deixará aos jovens a condenação a serviços estatais deficientes, como já se observa no Rio de Janeiro.

O atual sistema previdenciário, que beneficia os adultos de hoje, vai exigir um esforço crescente na contribuição dos jovens, até porque o número destes será cada vez menor para sustentar a aposentadoria de um número cada vez maior.

Sem a reforma, eles provavelmente nem contarão com um sistema sustentável para protegê-los na velhice, ou terão que receber suas aposentadorias em moeda inflacionada.

Da mesma forma, a reforma trabalhista é parte dessa luta entre gerações. Quando a atual legislação foi feita, o trabalho era manual, e as profissões eram permanentes.

Cada vez mais os jovens enfrentarão um mundo no qual os empregos provisórios serão substituídos por máquinas ou por novas profissões que exigem educação.

E de nada adiantará querer manter o emprego estável por determinação legal; as empresas antigas quebrarão, e as novas irão para outros países, como estão fazendo em direção ao Paraguai e à China.

É também por essa razão que os alunos se manifestaram contra a greve dos professores, ao perceberem que cada dia sem aula dificultará o futuro deles, na competitiva civilização do conhecimento que terão de enfrentar.

Mas precisam entender que não terão boa educação sem educadores contentes com seus salários, condições de trabalho e perspectiva de aposentadoria.

Devem, por isso, apoiar as lutas de seus professores por boas causas, de preferência sem paralisações.

A reforma da Previdência é necessária, mas deve ter um cuidado especial com os professores para não os prejudicar.

Conscientes ou não, os meninos do Colégio Santa Cruz estavam tentando não perder os direitos que esperam vir a ter quando chegar a vez deles. Por isso, todos os estudantes deveriam despertar e se mobilizar na defesa de seus interesses, corrigindo os vícios do atual sistema socioeconômico, que protege o presente dos homens e das mulheres com um “mediterrâneo invisível”, barrando os jovens na marcha para um futuro promissor.

A fim do triplex

O ex-presidente Lula fez bem em não querer comprar o tríplex do edifício Solaris, na praia das Astúrias, em Guarujá, que o empreiteiro Léo Pinheiro insistia em lhe vender. Imagine o dono de uma das maiores empresas do país, com faturamento de R$ 50 bilhões por ano e atuação em vários continentes, sair de seus cuidados para dar uma de corretor, abotoar pessoalmente um cliente e tentar empurrar-lhe um imóvel no valor de reles R$ 1 milhão e quebrados. Alguma coisa devia estar errada —com o comprador, com o vendedor ou com o imóvel.


Pois aconteceu que o ex-presidente, ao visitar o tríplex ainda em obras e fazer um tour pelas dependências, em 2014, logo enxergou tudo. O imóvel tinha mais de 500 defeitos —que ele fez questão de apontar para Léo. Havia problemas na área gourmet, espaço habitualmente reservado à churrasqueira, na escada e na cozinha. Léo concordou, exceto quanto à cozinha —afinal, do mesmo fabricante e modelo da que fora instalada no sítio em Atibaia que não é do ex-presidente e que o ex-presidente usou nas 111 vezes em que pernoitou nele a partir de 2012.

Além disso, alegou o ex-presidente, o tríplex, com seus 215 metros quadrados, era muito pequeno para abrigar sua família, composta do casal, cinco filhos e seus cônjuges, oito netos e, agora, um bisneto. Como se sabe, os filhos do ex-presidente ainda moravam com ele, embora todos tivessem mais de 40 anos, fossem casados e comandassem grandes e prósperas empresas, cada qual com dois ou três funcionários.

Para completar, disse o ex-presidente, o tríplex ficava em frente à praia, que ele só poderia frequentar na Quarta-Feira de Cinzas —único dia em que não seria atazanado pela plebe.

Léo Pinheiro entendeu. Quem não entendeu foi dona Marisa, que, sem avisar ao ex-presidente, continuou a fim do tríplex.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Charge O TEMPO 12.05.2017

A impunidade amedrontada

Quando as coisas sempre dão certo para uma pessoa logo se diz que ela tem muita sorte. Ou que é um líder nato. Sabe fazer amizades. E hipnotizar multidões. Muitas vezes nem sempre é assim.

Mas como as coisas que dão certo, e quase sempre ninguém sabe como, acabam obtendo uma repercussão descomunal, as coisas que não dão certo praticamente somem afogadas pelas ondas dos falatórios a favor.

Pratica-se muito aquela máxima de que em política, por exemplo, o que vale não é o fato, mas a repercussão que se lhe dê. Não é descomunal a repercussão que as mídias impressas e eletrônicas tem dado a depoimento de um acusado perante um juiz criminal?

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Ah, diriam, mas esse réu não é um réu qualquer. Mas o principio maior na República não é o da igualdade de todos perante a lei? Sim, mas o que vai interessar mesmo será a versão final pré-fabricada a ser disseminada. O que quer dizer que essa versão final para ser apresentada de forma atraente pode ser fantasiosa, recheada com mentiras, as mais descaradas.

E assim vão se forjando os mitos, os carismáticos, que se não conseguirem ficar bem na foto da história, pelo menos já tem espaços cativos no cotidiano das coisas indecorosas, posando de invencíveis. Não estou certo que a palavra certa para um começo de compreensão dessa coisa seja cinismo. Digo que não estou certo porque a palavra cinismo não diz tudo.

O cinismo, originariamente, era uma doutrina filosófica na Grécia antiga. Os cínicos buscavam a felicidade na vida simples em sintonia com a natureza, desprezando riquezas, confortos, tendo como parâmetro dessas virtudes o jeito de ser dos cachorros. E das cachorras.

Então quando se diz hoje que alguém é cínico está se dizendo que ele não tem compromissos com as regras sociais nem com a moral vigente, ou seja, é um descarado.

Daí que para algumas pessoas esse negocio de agir com cinismo chega a ser uma constante, quase sempre uma característica, algo já inoculado ao caráter.

A vida em sociedade impõe regras morais e éticas e regras legais, o que significa que todos nós estamos sujeitos a limites.

Cada um na sua função, uns como políticos, outros como juízes, todos como cidadãos, cada um está adstrito aos seus próprios limites.

Mas quando nessa sociedade de regras morais e éticas e de regras legais vem um e transgride e nada lhe acontece, nenhuma sanção lhe é imposta, ele se julga imunizado pela impunidade para poder continuar transgredindo.

Não demora e passa a ser uma pessoa temida, poderosa. Outros transgressores, de menor potencialidade, vão se juntando a ele, na crença de que vão ter sua proteção.

Mostrando união, exibem força e o chefão poderoso passa a ser mais temido. Os medrosos por natureza ou por ocasionais interesses, pelo sim, pelo não, aderem ou se calam.

Vai se formando o mito da invencibilidade. A impunidade deixa de ser a omissão da polícia ou a fraqueza conivente dos julgadores para se transformar em graça divina, - a sorte, justificativa única de tudo.

Tudo na vida um dia acaba. Estrela brilhante se apaga, a lua tem suas fases e numa dessas uma nuvem pode tirar da reta lunar o sortudo. E se tudo é parte de um pacto com diabo, é bom lembrar que nessas parcerias nunca ninguém ganhou.

A impunidade cansada de carregar tudo sozinha nesses tempos todos já começa a sair fora. E se acham que é sorte, é bom não abusar.

Edson Vidigal

Apenas um canastrão perigoso

Se tem um brasileiro, se tem um ser humano, em busca da verdade, sou eu
  Lula


Mais uma vez o Brasil teve oportunidade de conhecer Luiz Inácio da Silva, ex-torneiro mecânico que em São Paulo faria a mais lucrativa carreira política do país. A persona Lula, a mais honesta entidade do país, quiçá do mundo, transformou o pobre em produto de barganha como num passe de mágica. O medíocre Luiz Inácio não vale um tostão. Joga toda a maracutaia para cima dos outros, até mesmo sobre a cova da própria mulher, e corre para se esconder atrás de um legenda partidária.

Esses dois Lulas, o canastrão dos palanques e o ex-torneiro cretino, convivem intimamente com o único objetivo de se dar bem, acima de tudo e de todos. Não importa que aponte uma falecida dona de casa como possível "compradora" e mesmo "investidora" em tríplex no Guarujá; trate o presidente de uma das maiores empreiteiras do país como "corretor de imóveis" ou despreze a confirmação de que há roubo aos cofres públicos para o próprio partido. Tudo vale para confirmar o mantra: "Não sei, não vi, não ouvi".

Se não bastasse a ladroagem perpetrada contra o país, o ator dos palanques sem escrúpulos ainda propagou a mentira como ideal político do esquerdismo laranja. É flagrante desrespeito à verdadeira esquerda que nunca defendeu o roubo público. Infelizmente um estrabismo político que prolifera na já putrefada lama nacional.

Luiz Gadelha

Anjos e demônios

Como advogado, meu pai acreditava no poder da inteligência e da razão para entender e explicar o mundo, resolver problemas e disputas, e também para ajudá-lo em suas dúvidas metafísicas, que desafiavam sua espiritualidade difusa, mas intensa. Ele queria acreditar em Deus, mas para isso precisava entender a presença do mal no mundo, que não podia ser entendida só com a razão, e mergulhou em profundas pesquisas sobre os demônios e seus poderes. Sabia seus nomes (que não ouso repetir), hierarquias, atributos e malfeitos, tornou-se quase um demonólogo. Mas não bastava.


O estudo do mal e de seus agentes não explicava sua presença no mundo harmônico e amoroso de Deus, mas a trajetória dos anjos caídos o levou a pesquisar com paixão intensa os seus opostos: os anjos de luz, os arcanjos esplendorosos, os guardiões do bem contra a maldade satânica sobre os filhos de Deus. Tinha centenas de livros em várias línguas sobre anjos e demônios. Mas não tinha religião formal, detestava a intolerância e as políticas retrógradas das igrejas. Muito ligado a dom Hélder Câmara, com quem fundou o Banco da Providência, parecia que sua religião eram a caridade, a compaixão e a tolerância.

As maiores e mais demoníacas matanças da história da Humanidade foram, e continuam sendo, em nome de Deus. As legiões satânicas parecem mais ativas do que nunca, e mais numerosas, conforme a pergunta clássica que os exorcistas fazem aos endemoniados:

— Quem é você?

E a voz satânica rosna, ameaçadora:

— Meu nome é legião.

São legiões de legiões, que, no mundo inteiro, em Brasília certamente, enfrentam os anjos de luz, de bondade, de amor e de paz.

É difícil acreditar nisso? Difícil é acreditar no Brizola, no Collor e no Lula... rsrs... dizia meu pai, mas o Brasil acreditava.

Um dia, me disse que, depois de anos e anos de estudos metafísicos e filosóficos, usando toda sua inteligência e lógica, o rigor de seus argumentos, chegara à conclusão inexorável que virou nossa lei:

— Fazer o que tem que ser feito.

Todo mundo sabe o que tem que ser feito. Mas muitos não fazem. Esperam que outros façam.

Nelson Motta

Imagem do Dia

Lago Baofeng en Zhangjiajie China:
Lago Baofeng (China)

É difícil para Dilma manter a pose de flor do lodo

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Entre todas as revelações contidas na delação premiada de João Santana e Monica Moura, uma das mais assustadoras envolve o vazamento de informações sigilosas da Polícia Federal. Acomodada na poltrona de presidente da República, Dilma Rousseff abastecia o casal do marketing petista de informações sobre o andamento da Lava Jato, contou Monica aos investigadores.

Nesta versão, a presidente repassava aos investigados dados recebidos do então ministro da Justiça, o petista José Eduardo Cardozo. Dilma chegou mesmo a antecipar aos amigos a notícia de que ambos teriam a prisão decretada. Esse tipo de procedimento tem nome: é crime.

Diante de tudo o que já foi descoberto pela Lava Jato, não está fácil para Dilma ostentar a pose de flor do lodo. A essa altura, arma-se sobre o penteado da sucessora de Lula uma tempestade semelhante à que dispara trovões e raios que o partam sobre a cabeça do seu mentor e padrinho político. Sem mandato, Dilma será triturada na primeira instância do Judiciário.

Os delatores Santana e Moura informaram também que Lula e Dilma tinham plena ciência do dinheiro sujo que escorria pelos porões das respectivas campanhas presidenciais. Dinheiro vindo das negociatas trançadas na Petrobras. Liberada pelo Supremo Tribunal Federal, a investigação segue o seu curso. Por ora, apenas a sociedade brasileira sente o amargor de uma pena. É como se o Brasil estivesse condenado a uma Lava Jato perpétua. Impossível saber até onde vai escorrer o melado.

Isso é a lei

Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos
Provérbio tibertano

Lava Jato bombardeia coração da Justiça

Nada como um arranca rabo entre doutos da justiça para os brasileiros saberem o que há muito já se sabe em Brasília: a Justiça brasileira está podre por dentro e por fora. O bate boca entre o procurador Janot e o ministro Gilmar Mendes deveria ser louvado com aplausos porque escancara os bastidores desses homens de preto até então intocáveis. O desentendimento, a roupa suja, mostra os interesses econômicos que há por trás do arroubo desses dois senhores. Janot insinua que a mulher de Mendes, advogada, recebe dinheiro de Eike Batista por trabalhar no escritório de advocacia de Sérgio Bermudes, que defende o milionário. Chacoalhado, Bermudes chama Janot de inescrupuloso, mentiroso, ignorante, leviano e sicofanta (caluniador). E como não bastasse, aponta o dedo na ferida: a filha de Janot, Letícia Ladeira Monteiro de Barros, defende a OAS, a Braskem e outras empreiteiras em acordos de leniência envolvidas na Lava Jato.

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Janot quer impedir Gilmar de se envolver no processo de Eike por motivos óbvios, segundo ele, e pede seu afastamento do STF. Esse também é o pensamento de mais de 500 mil brasileiros em movimento pela rede social. Mas, e quanto a sua filha? Com a lama que jogou no ventilador, Sérgio Bermudes agora espera a reação de Janot. Seja qual for, o procurador sai menor na briga. A partir de agora virou alvo fácil para seus adversários. E não são poucos. Só de políticos, mais de 200. Se juntar empreiteiras e envolvidos na Lava Jato enche um caminhão e ainda sobra. Dentro do Ministério Público a notícia não caiu bem. Procuradores acham que revelações como essas minam o trabalho da Lava Jato e depõem contra os investigadores isentos que trabalham para limpar o país dos corruptos.

A virulência com que Bermudes atacou Janot para defender a mulher do Gilmar é cosia rara no meio jurídico. Normalmente os advogados temem criticar juízes, procuradores, desembargadores e ministros do STF com receio de terem seus processos boicotados quando analisados nessas cortes. Não é o caso de Bermudes que se mostrou muito seguro quando apontou seus mísseis em direção a Janot, destratando-o com insultos e impropérios típicos de briga de rua. Esqueceu-se, por um tempo, que o procurador é que está à frente da maior investigação sobre corrupção da história do país e que em torno dele gravita homens sérios e honrados que não estão envolvidos em maracutaias.

Espera-se que Janot responda à altura os desaforos de Bermudes. Mas, para isso, terá que explicar antes por que a sua filha – não se discute aqui o talento da doutora – aceitou defender os interesses de empresas envolvidas na Lava Jato que tem o seu pai como principal acusador. Parece-me um contrassenso. Depois disso bem explicado, o procurador, pelos insultos que sofreu, não deveria apenas ficar na defensiva. Se quiser ainda levantar a moral, terá que provar que a mulher de Gilmar, a doutora Guiomar Mendes, realmente estaria na caixinha de Eike Batista, solto pelo seu marido. Se convencer, admite-se que pode até permanecer à frente da procuradoria. Caso contrário, infelizmente, ele teria que entregar o cargo para não deixar seus auxiliares a duvidarem da sua honradez.

O certo é que os podres da Justiça começam a aparecer. A trombada entre procuradores, juízes e ministros do STF envolvidos no processo da Lava Jato já mostra frutos benéficos para a população. O primeiro deles é a revelação dos bastidores do STF. Como funciona a engrenagem. Sabe-se em Brasília – e isso não é novidade – que muitos dos ministros do STF não vivem apenas dos salários, por sinal, fartos. Alguns deles instalam escritórios e ali alojam filhos, sobrinhos e até amigos para defender causas, muitas delas dentro dos seus próprios tribunais. Não se sabia, portanto, pelo menos até agora, que procuradores também tinham adotado esse método, uma espécie de caixa dois para reforçar o orçamento da família. Ou quem sabe, uma sobra de campanha, como diria alguns políticos maldosos.

Há quem diga que, por causa dessa idiossincrasia, ser julgado no STF é a mesma coisa que chegar ao céu sem passar pelo purgatório.

Paisagem brasileira

Pantanal

Uma ruína moral

Quanto mais Lula se desdobra em artifícios retóricos, como quem trata de escapar, em ziguezague, da artilharia dos fatos, mais parecido fica com o que se empenha em afirmar que não é. Assistindo trechos de sua inquirição perante o juiz Sérgio Moro, lembrei-me de uma entrevista dele, em Portugal, à jornalista Cristina Esteves, da RTP, em abril de 2014. Nos últimos momentos da conversa, veio uma pergunta sobre o mensalão. A resposta de Lula tem tudo a ver com seu comportamento dia 10 em Curitiba. Transcrevo: "O tempo vai se encarregar de provar que o mensalão teve praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica. O que eu acho é que não houve mensalão. Também não vou ficar discutindo decisão da Suprema Corte. Mas esse processo foi um massacre que visava destruir o PT e não conseguiu". Em sequência, questionado sobre o fato de estarem detidas pessoas próximas a ele - como o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado José Genoíno - saltou fora. "Não se trata de gente da minha confiança. Tem companheiros do PT presos".

Esse "tchau queridos", proclamado em Lisboa, antecedeu o "tchau querida" do telefonema sobre a mensagem do Bessil; antecedeu o abandono dos parceiros encarcerados posteriormente, a quem e sobre quem nada tem a dizer; e antecedeu a tentativa de transformar a pacata Marisa Letícia em condutora de providências escandalosas que ele não tem como explicar e que com ela sepultou.


Eis o homem que governou o país sem ninguém de sua confiança por perto, cuja proximidade funcionava como um toque de Midas, gerando inesperadas fortunas, mesadas, pensões, negócios, a quem os amigos davam tudo e que nega lhes haver alcançado a menor vantagem. Eis o homem que se agita no partidor, disposto a concorrer à presidência. Sua anunciada campanha para desfazer as intrigas do mensalão e sua convicção sobre a natureza política do referido processo nunca passaram de peças de discurso.

Tudo isso porque a Lula não interessam os fatos. Os desarranjos políticos, econômicos e sociais a que dá causa se agravam e prolongam precisamente porque sua conduta contamina o juízo e o discernimento moral de dezenas de milhões de pessoas. A exemplo dos grandes ícones do populismo, ele trata o povo que o segue como massa da qual usa e abusa para objetivos pessoais, subtraindo do repertório mental dessas multidões valores sem os quais é impossível operar adequadamente uma democracia constitucional. Os recentes atos de violência contra o direito de ir e vir, a queima de pneus e de ônibus, o abandono de preceitos essenciais à vida civilizada e os anátemas lançados contra a Lava Jato são consequências do que acabei de descrever.

A patética inquirição levada a cabo em Curitiba pode ser parodiada com apenas uma frase: "Doutor, vou lhe confessar. Eu não sou eu. Eu sou um amigo meu, que, se conheço, não lembro".

Percival Puggina 

Governo prefere mudar aposentadoria de pobre antes de taxar lucro do rico

Resultado de imagem para pato da fiesp charge''Não sei se, neste momento, temos clima para essa alteração.''
A frase é do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), ao responder a Gustavo Uribe e Bruno Boghossian, da Folha de S.Paulo, sobre o desequilíbrio tributário por aqui. No Brasil, paga-se mais imposto sobre o consumo do que sobre lucros e dividendos embolsados.

E, ao que tudo indica, o governo Michel Temer não vai alterar esse quadro tão cedo. Tanto que, na mesma entrevista, Padilha afirma que uma Reforma Tributária só viria depois de aprovadas as Reformas Trabalhista e da Previdência. Por enquanto, há clima para parar tirar de quem é pobre. Mas para tirar de quem é rico, não há.

Se há uma coisa que o governo brasileiro não pode ser acusado é de que falta de sinceridade. Afinal, está deixando claro que, para sair da crise, primeiro vai tungar os trabalhadores mais pobres e a classe média – que encontram na legislação uma garantia mínima para a sua dignidade nas relações de trabalho e dependem de aposentadorias para sobreviver, até porque não têm dinheiro guardado no banco.

Só depois, e se der tempo, considerando os limites do período eleitoral, o governo deve debater o assunto. Assim, busca acalmar o mercado, essa divindade sem rosto e corpo. A prioridade deve ser um apanhado de medidas sobre o PIS, Cofins e o ICMS, ou seja, ajustes e simplificações (que são importantes, é claro), ao invés de mudanças profundas.

Uma Reforma Tributária com justiça social passaria por acabar com isenções na taxação de lucros e dividendos distribuídos pelas empresas a seus sócios e acionistas. E também pela reestruturação do imposto de renda. Uma opção que vem sendo discutida é elevar a isenção para rendimentos de até R$ 5 a 8 mil mensais e começar a taxar a partir daí, criando alíquotas de 30%, 35% e 40% para rendas muito altas.

Isso sem falar no aumento da taxação de grandes heranças (o teto atual é uma alíquota de 8%, mas o que é aplicado, na prática, pelos Estados não faz nem cócega) e na taxação de grandes fortunas. O Ministério da Fazenda sob o governo Dilma ensaiou uma proposta para alíquotas de 15 a 25% para heranças acima de R$ 5 milhões. Mas nada aconteceu.

Aumentar os ganhos de capital sempre esbarra na justificativa de que os mais ricos tirariam o dinheiro do país. Isso só aconteceria se tivermos um governo que se mantenha subserviente aos interesses de sua elite econômica, pois uma administração que pensa primeiro no bem público desenvolve instrumentos para não deixar isso acontecer. E, acontecendo, consiga punir os responsáveis – que, há pouco, repatriaram bilhões sem que nada acontecesse com eles.

Isso não resolve os problemas de caixa do país. Mas, pelo menos, seria um sinal de que ricos e pobres estão no mesmo barco. Hoje, a cena é conhecida: o barco está afundando e só há botes salva-vidas para quem tem uma bela conta bancária.

O governo promove uma Reforma Trabalhista que, apesar de trazer algumas boas mudanças, como o fim do imposto sindical obrigatório, tende a precarizar as condições de trabalho, aumentar o tempo de dedicação ao serviço e reduzir a segurança e a estabilidade.

E uma Reforma da Previdência que exige 25 anos de contribuição ininterrupta para trabalhadores assalariados urbanos e rurais como tempo mínimo para poderem se aposentar. Sendo que dados da Previdência Social mostram que 79% dos trabalhadores que se aposentaram por idade no ano de 2015 não conseguiram atingir essa marca. Portanto, teremos pessoas que contribuirão, mas não se aposentarão, se aprovadas as novas idades mínimas de 65 e 62 anos, para homens e mulheres respectivamente. Com ''sorte'', acabarão caindo na fila da assistência social para idosos mais pobres – o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Benefício que está subindo a idade mínima de 65 para 68 anos (proposta do relator da reforma) ou 70 anos (proposta do governo federal), a fim de dificultar o seu acesso pela massa de idosos que o procurarão. Quem está na categoria de pobreza extrema, que o governo Temer diz que não será punido, terá sim que esperar mais tempo.

Além do mais, como o acesso ao BPC é para famílias com renda per capita inferior a 25% do salário mínimo, nem todos os idosos pobres terão acesso a ele. Só aqueles que são considerados matematicamente pobres ou extremamente pobres por padrões internacionais. Os outros, que não entrarem no corte, vão ficar no limbo – sem receber o benefício, mas sem conseguir se aposentar.

Isso sem falar nos 15 anos de contribuição obrigatória dos trabalhadores rurais da economia familiar (hoje, são 15 anos de comprovação de trabalho). Quem produz comida para a nossa mesa no campo também só conseguirá se aposentar pelo BPC.

Antes das Reformas da Previdência Social ou Trabalhista, o Brasil precisaria de uma Reforma Tributária que trouxesse justiça social ao cobrar mais de quem tem muito.

E de uma Reforma Política que realmente mexa com as estruturas de representação. Para garantir que a massa dos trabalhadores e de pequenos empresários seja representada por quem defende seus interesses e não apenas as demandas de grandes empresários.

Creio que se o governo federal tiver tempo de incluir esses itens em uma Reforma Tributária, seria cassado no dia seguinte.

Por isso é paradigmática a declaração registrada pela repórter Marina Dias, também na Folha de S.Paulo, de Michel Temer em uma reunião com senadores a portas fechadas, reclamando das críticas que vem sofrendo por conta das reformas – impostas à toque de caixa.

''Até parece que chegamos aqui para destruir os trabalhadores. O destino me colocou aqui, Deus me colocou aqui para cumprir uma missão difícil, complicada.''

Se Temer chama de Deus quem o incumbiu dessa missão, então Deus é amarelo, inflável e faz quack.

Se Lula não for julgado com rapidez, vai acontecer uma situação de caos político

Depois do depoimento do réu, entra em fase final o processo em que Lula da Silva é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, por receber vantagens indevidas da empreiteira OAS. A partir de agora, o juiz federal Sérgio Moro abre prazo de cinco dias para alegações finais do Ministério Público (que corresponde à acusação), com outros cinco dias reservados para a defesa contestar. Esse limite de tempo pode ser estendido, mas tudo indica que o magistrado não o fará, porque a defesa tem criado repetidas “chicanas” (manobras antiéticas para tumultuar e retardar o processo). Já se caracteriza até a chamada “litigância de má fé”, mas o juiz Moro não tomou providências punitivas para evitar que se fortaleça a alegação de que o réu sofre “perseguição política”.

Após apresentadas as alegações finais de acusação e defesa, Moro pode dar a sentença assim que tiver formado convicção. Não existe obrigatoriedade, vai depender exclusivamente do juiz, porque no Brasil os prazos processuais são como vacina que não pega, juízes e tribunais simplesmente não os cumprem, e estamos conversados.

No caso específico do juiz Moro, não existe um padrão. O ex-deputado Eduardo Cunha, por exemplo, foi condenado por ele em apenas 51 dias, enquanto a sentença do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura levou 196 dias para ser exarada. Na média, Moro gasta 128 dias para dar sentença.

Segundo pesquisa feita por O Globo, levando em consideração o tempo que o juiz Moro e os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) levam para julgar processos recentes, tudo indica que a condenação em segunda instância aconteceria perto da data limite estipulada pela Lei da Ficha Limpa, ou seja, às vésperas da eleição do ano que vem.

Diante dessa possibilidade real, é muito provável que o juiz Moro acelere a sentença de Lula e que o Tribunal Regional Federal também o faça, para evitar uma intrincada batalha jurídica, que instalaria o caos político no país.

Mesmo sendo réu, não há impedimento legal para que Lula se candidate. Se vencer, pode tomar posse, mas não deve assumir, com base na jurisprudência do Supremo, de que réu criminal fica impedido de ocupar a Presidência da República, como ocorreu com Renan Calheiros, ao final de sua gestão como presidente do Senado. Se o STF não reverter a jurisprudência, o vice-presidente é que governará, porque o processo de Lula será suspenso até o fim do mandato, mas ele continuará réu e não poderá assumir, vejam que maluquice jurídica.

É por isso que o juiz Moro precisa julgar o processo com a máxima urgência, para possibilitar que, em caso de condenação de Lula, o TRF-4 também possa atuar com presteza, de modo a evitar a maior confusão eleitoral já instaurada na República, que passaria a viver uma espécie de novela surrealista, como Lula no papel principal de “perseguido político”.

Seja qual for o desfecho do inusitado enredo, Lula terá condições de dizer que nunca antes, na História deste país, se viu nada parecido. E la nave va, cada vez mais fellinianamente.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pobre Marisa Letícia

Para livrar-se do escândalo do mensalão em 2005, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou a cabeça do ex-ministro José Dirceu, o coordenador de sua campanha vitoriosa à Presidência da República.

Para livrar-se do escândalo dos aloprados, quando assessores seus forjaram, em 2006, documentos contra o PSDB, ele entregou as cabeças que pôde, inclusive a do coordenador de sua campanha à reeleição, Ricardo Berzoini.

Pouco antes, havia entregado a cabeça do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci quando restou provado que a máquina do seu governo fora usada para quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa.


Nada demais, pois, que Lula tenha se valido de sua mulher, Marisa Letícia, para livrar-se da acusação de que ganhara o tríplex do Guarujá como uma espécie de propina paga pela construtora OAS. Maria Letícia está morta.

Foi tudo obra dela, segundo Lula. Foi ela que quis comprar o tríplex — ele, não. Quando visitou o apartamento, enxergou nele mais de 500 defeitos. Mesmo assim, ela insistiu em comprar para fazer investimento, ele não.

Marisa visitou o apartamento pelo menos duas vezes, lembrou o juiz Sérgio Moro. Lula retrucou que nunca soube da segunda visita. Admitiu tê-la acompanhado na primeira, da qual há registro fotográfico.

Moro perguntou sobre a reforma do apartamento, que ganhou cozinha moderna, um elevador e outras melhorias feitas pela OAS. Lula afirmou que não encomendou nenhuma reforma. Foi coisa de Marisa, portanto.

Diante da insistência do juiz em arrancar-lhe respostas mais precisas e detalhadas, Lula novamente invocou Marisa: “Perguntar coisa para mim de uma pessoa que já morreu é muito difícil, sabe? É muito difícil”.

O Lula eloquente, imbatível quando desafiado, dono de um estoque inesgotável de frases prontas, deu lugar a um Lula reticente, quase monossilábico em certos momentos, que tentava disfarçar o nervosismo.

Cobrou provas da acusação que pesa contra ele no processo. Mas, quando uma delas foi apresentada, desconversou. Moro perguntou sobre um documento rasurado de compra do tríplex encontrado no seu apartamento.

Lula respondeu: “Não sei, quem rasurou? Eu também gostaria de saber”. E sobre o documento em si? Lula respondeu: “Não sei, nunca soube”. Consultou rapidamente o documento e o devolveu ao juiz.

A OAS pagou o armazenamento dos pertences de Lula depois que ele deixou o poder. Foi coisa de Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, garantiu o ex-presidente. Ele só soube disso muito mais tarde.

Moro não perguntou por que Lula aceitou que a construtora pagasse uma despesa que somente a ele, Lula, caberia pagar. Foi um favor? Foi propina? Foi uma maneira de agradecer pelos contratos que firmou com o governo?

Um interrogatório como o de ontem serve como peça de defesa do réu. Mas serve também ao juiz para ajudá-lo a formar sua própria convicção a respeito da inocência ou da culpa do réu. Como peça de defesa, foi pífio.

Gente fora do mapa

Pierre Verger

A impunidade amedrontada

Quando as coisas sempre dão certo para uma pessoa logo se diz que ela tem muita sorte. Ou que é um líder nato. Sabe fazer amizades. E hipnotizar multidões. Muitas vezes nem sempre é assim.

Mas como as coisas que dão certo, e quase sempre ninguém sabe como, acabam obtendo uma repercussão descomunal, as coisas que não dão certo praticamente somem afogadas pelas ondas dos falatórios a favor.

Pratica-se muito aquela máxima de que em política, por exemplo, o que vale não é o fato, mas a repercussão que se lhe dê. Não é descomunal a repercussão que as mídias impressas e eletrônicas tem dado a depoimento de um acusado perante um juiz criminal?

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Ah, diriam, mas esse réu não é um réu qualquer. Mas o principio maior na República não é o da igualdade de todos perante a lei? Sim, mas o que vai interessar mesmo será a versão final pré-fabricada a ser disseminada. O que quer dizer que essa versão final para ser apresentada de forma atraente pode ser fantasiosa, recheada com mentiras, as mais descaradas.

E assim vão se forjando os mitos, os carismáticos, que se não conseguirem ficar bem na foto da história, pelo menos já tem espaços cativos no cotidiano das coisas indecorosas, posando de invencíveis. Não estou certo que a palavra certa para um começo de compreensão dessa coisa seja cinismo. Digo que não estou certo porque a palavra cinismo não diz tudo.

O cinismo, originariamente, era uma doutrina filosófica na Grécia antiga. Os cínicos buscavam a felicidade na vida simples em sintonia com a natureza, desprezando riquezas, confortos, tendo como parâmetro dessas virtudes o jeito de ser dos cachorros. E das cachorras.

Então quando se diz hoje que alguém é cínico está se dizendo que ele não tem compromissos com as regras sociais nem com a moral vigente, ou seja, é um descarado.

Daí que para algumas pessoas esse negocio de agir com cinismo chega a ser uma constante, quase sempre uma característica, algo já inoculado ao caráter.

A vida em sociedade impõe regras morais e éticas e regras legais, o que significa que todos nós estamos sujeitos a limites.

Cada um na sua função, uns como políticos, outros como juízes, todos como cidadãos, cada um está adstrito aos seus próprios limites.

Mas quando nessa sociedade de regras morais e éticas e de regras legais vem um e transgride e nada lhe acontece, nenhuma sanção lhe é imposta, ele se julga imunizado pela impunidade para poder continuar transgredindo.

Não demora e passa a ser uma pessoa temida, poderosa. Outros transgressores, de menor potencialidade, vão se juntando a ele, na crença de que vão ter sua proteção.

Mostrando união, exibem força e o chefão poderoso passa a ser mais temido. Os medrosos por natureza ou por ocasionais interesses, pelo sim, pelo não, aderem ou se calam.

Vai se formando o mito da invencibilidade. A impunidade deixa de ser a omissão da polícia ou a fraqueza conivente dos julgadores para se transformar em graça divina, - a sorte, justificativa única de tudo.

Tudo na vida um dia acaba. Estrela brilhante se apaga, a lua tem suas fases e numa dessas uma nuvem pode tirar da reta lunar o sortudo. E se tudo é parte de um pacto com diabo, é bom lembrar que nessas parcerias nunca ninguém ganhou.

A impunidade cansada de carregar tudo sozinha nesses tempos todos já começa a sair fora. E se acham que é sorte, é bom não abusar.

Edson Vidigal

O país da rejeição é a favor de quê?

O primeiro grande evento da campanha de 2018, o comício de Lula em Curitiba, dá o que pensar sobre o país da rejeição.

O candidato líder da esquerda e das pesquisas é repudiado por metade dos eleitores. O presidente e seu programa são detestados por pelo menos dois terços.

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No entanto, qualquer que seja o presidente, Lula, um Cacareco midiático qualquer ou o "Novo" inominado, o país será mais governável caso o detestado Michel Temer seja bem-sucedido.

Não importa o que se pense das "reformas", o país tende a ficar mais governável com elas, ressalte-se.

Além do mais, o sucesso temeriano deve liberar os candidatos, da direita à esquerda, do dever de propor um programa desagradável demais ou da tentação de mentir demais na campanha.

Isto é, de mentir a respeito da necessidade de mais suor e lágrimas, inevitável (o problema é saber quem vai pagar a conta).

Com a estabilização precária da economia, será possível evitar mudanças muito impopulares ou tumultuárias no início do novo governo.

Até aqui estamos no âmbito das negações, porém.

O eleitor ora se diz disposto a votar em um anti-Lula qualquer que não seja político reconhecido como tal, "tradicional" ou zumbi da Lava Jato. Diz também que não quer o programa Temer, pelo menos na sua versão sem adoçante ou compensações.

A esquerda oficial, o PT, propõe coisas do arco da velha. Sugere uma volta ao passado pré-Carta aos Brasileiros, canoa na qual Lula embarca enquanto sua campanha está ainda na fase de evitar a cadeia. Tal programa levaria o país ao tumulto antes de 2019.

A direita que está com Temer não parece capaz de ressuscitar até a eleição, mesmo com um "milagre do crescimento" em 2018. Isso inclui o vampiresco PMDB e os zumbis tucanos. Sobram Geraldo Alckmin, que se finge de morto para não morrer de vez, e João Doria, que, diga-se de passagem, pode se estrepar por ser "vivo" demais na marquetagem.

Mas o que propõem? Se dizem liberais, "ges-to-res". Vão dizer que pretendem concluir a Ponte para o Futuro, completar o programa da coalizão de Temer? Doria ainda pode tentar desconversar, porque é "o Novo", linguajar adotado agora também por FHC, talvez apenas por conveniência analítica (ou não?).

As várias ONGs políticas, micromovimentos partidários nascentes mas desligados de políticos tradicionais, na maioria, ainda não parecem capazes de ganhar musculatura a tempo, embora não seja possível descartar um equivalente de Emmanuel Macron.

De todo modo, "o Novo", uma embalagem desencarnada, se torna alternativa cada vez mais atraente, é óbvio para qualquer leitor de jornal, tal como o truque Luciano Huck (convém não desdenhar da maluquice).

Mas, além de vazias, negacionistas ou malucas, essas opções realmente existentes por ora embutem desconversas estelionatárias –mentira eleitoral seguida de choque.

O próximo presidente estará amarrado por escassez aguda de dinheiro no governo, com ou sem "teto" de gastos. Reformas liberalizantes ainda serão necessárias, mas socialmente insuficientes e, de qualquer modo, pós-Temer, devem soar como palavrão, anátema, na campanha de 2018.

Não há palavra positiva e honesta sobre como desfazer esses nós.

Não há lugar para Pinzóns no novo mundo

Traem a nossa confiança desde antes da chegada de Cabral. Hoje se sabe que em janeiro de 1500 o aventureiro espanhol Vicente Pinzón deu por cá e, sem pestanejar, atacou os Potiguar no Ceará, para vendê-los como escravos. Não satisfeito, ainda legou à posteridade a sua versão dos fatos, posando de herói. Portanto, estamos acostumados com a deslealdade. Só resistimos porque nossa força é grande, e ela vem de nossas tradições. Mas, e o Brasil, quanto tempo ainda resistirá? Pinzón nos viu somente como mercadoria, e agora são os nossos direitos originários que estão à venda. Mas o rolo compressor de PECs, PLs, MPs e Portarias que ora nos ameaça pode deixar para trás somente terra arrasada. Como aconteceu no século XVI, quando o invasor europeu raspou até o último talo de pau-brasil e logo exauriu economicamente a terra que acreditou ter descoberto.

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É a economia, homem-branco: a importância de preservação do verde para o clima do planeta é conhecida, mas pouco se fala dos prejuízos econômicos que a sua destruição pode causar. Um negócio só vai adiante quando há confiança entre as partes envolvidas. Segundo a ONG internacional Iniciativa de Direitos e Recursos (Rights and Resources Initiative), em estudo divulgado no início deste ano, a insegurança jurídica implicando a posse da terra e os povos tradicionais pode afastar os investidores. O país atravessa um momento de grande instabilidade política, e o governo age como um aventureiro, impondo mudanças à força. Executivo e Legislativo querem desfigurar a Constituição para dificultar a demarcação de novas terras indígenas e, o pior, rever demarcações já feitas. Avançam vorazmente sobre o Código Florestal com a intenção de enfraquecer as regras de licenciamento ambiental – como se fossem exemplarmente cumpridas. Tratam o próprio país como se fosse colônia. Mas ao agirem de forma tão imprudente e incivilizada, perdem credibilidade e deixam cascas de banana no caminho para eles mesmos escorregarem.

Recentemente, duas vitórias da Justiça e dos povos do Xingu representaram grandes reveses contra essa política predatória. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF 1) suspendeu a licença de operação da usina de Belo Monte, a pedido do Ministério Público do Pará (MPF-PA). O motivo: a Norte Energia, empresa à frente do empreendimento, não executou as obras de saneamento básico na cidade de Altamira, previstas no contrato. E no dia 11, os mesmos TRF 1 e MPF-PA suspenderam a licença de instalação do projeto de mineração da empresa canadense Belo Sun na Volta Grande do Xingu. O estudo de impactos apresentado à Funai pela companhia foi considerado insuficiente, por não conter nenhum dado coletado dentro das áreas indígenas e por não ter sido realizada consulta prévia aos Arara e Juruna, que vivem na região. O projeto também foi paralisado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Pará, por causa de irregularidades fundiárias cometidas na aquisição de terras para sua instalação. Ou seja, o empreendimento está suspenso em duas instâncias: nas Justiças Estadual e Federal. A meta da Belo Sun é instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. A companhia canadense casou rios de dinheiro nessa aventura. Imaginem o tamanho do prejuízo.

Os tempos são outros e não há mais lugar para Pinzóns neste novo mundo.

Sonia Bone Guajajara, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)

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Itália

A Corte dos amigos e parentes

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Capitalismo de amigos em um ambiente de capitalismo de Estado, com o governo distribuindo verbas, créditos e obras para as empresas da casa — isso destruiu a economia brasileira. Mas a coisa vai além. Temos uma República inteira de parentes e amigos. Três casos exemplares chamaram a atenção nesta semana. Começou com o procurador-geral, Rodrigo Janot, pedindo o cancelamento do habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes que tirou da cadeia o empresário Eike Batista. Segundo Janot, o ministro estaria impedido porque a mulher dele, Guiomar Mendes, é sócia do escritório de advocacia Sergio Bermudes, do qual Eike é cliente.

Logo a bola voltou para Janot, cuja filha, Letícia Ladeira Monteiro de Barros, advoga para a OAS e para a Braskem, do grupo Odebrecht, empresas que estão no dia a dia da Lava-Jato e suas ramificações. O procurador deveria ser impedido nos casos daquelas empresas, disse o advogado Sérgio Mendes, que saiu em defesa do casal Mendes.

O terceiro caso está no Congresso. Parece diferente, mas, pensando bem, é um caso da Corte política. O deputado Newton Cardoso Jr. foi designado relator de uma medida provisória que permitia o parcelamento de dívidas com a Receita em até cinco anos. Pois o deputado incluiu no seu relatório perdão de juros e multas, dobrou o parcelamento e mais tantas bondades com devedores, todas medidas que beneficiam diretamente as empresas de seu pai — que acumulam mais de 30 processos fiscais.

Todos os envolvidos responderam com a mesma lógica. Algo mais ou menos assim: qual o problema? Sou imparcial e republicano, sei separar o público do privado (familiar, nos casos).

Na área jurídica, a argumentação em defesa de Janot e Mendes, feita por eles e por outros, foi quase idêntica. A filha de um e a esposa do outro advogam no cível e os casos da Lava-Jato e ramificações estão obviamente no âmbito criminal. Logo, não tem problema.

Curioso que, se esse argumento está correto, Janot não poderia pedir o impedimento de Mendes. Do mesmo modo, o advogado Sergio Bermudes não poderia dizer que o procurador-geral deveria ser impedido.

E se os dois lados estiverem certos, um contra o outro? Ok, o escritório Sergio Bermudes só advoga para Eike nos processos civis. Mas Bermudes, conforme admitiu, aparece como advogado do empresário no processo criminal e chegou a acompanhá-lo pessoalmente numa audiência.

Prestigiou o cliente num momento difícil, claro, mas olhem pelo outro lado, o do juiz do caso. Ele olha e vê ali um cliente do doutor Bermudes, o que não é pouca coisa. Trata-se de um dos mais brilhantes advogados brasileiros, titular de um superescritório, com sócios do primeiro time.

Faz diferença, não é mesmo?

Janot se defendeu em nota oficial com uma tese que pode ser assim resumida: ele, procurador-geral, não atuou pessoalmente, não assinou nenhum ato em partes do processo envolvendo a empresa OAS; e o que envolve executivos da OAS está a cargo dos promotores do Grupo de Trabalho da Lava-Jato.

Mas a empresa e seus executivos estão na Lava-Jato e quem manda na operação, em última instância, é Janot.

De maneira que a história vai mais longe. Janot, Mendes e Bermudes parecem convencidos de suas posições e seus argumentos. Nota-se mesmo uma indignação de todos os três quando dúvidas ou suspeitas são levantadas de um lado para outro.

É que, no ambiente da Corte, essas relações familiares e de amizade têm sido consideradas normais há tanto tempo que o pessoal estranha quando alguém estranha.

Ok, é normal que filhos sigam a carreira dos pais. Há famílias de médicos, jornalistas, advogados. Nenhum problema quando a família atua no setor privado. Mas a coisa muda quando se chega ao setor público.

Claro que a filha de Janot e a mulher de Gilmar Mendes podem ser advogadas. Mas pai e marido deveriam admitir, quando assumem altos cargos no Judiciário, que de duas, uma: ou eles passam longe de qualquer caso no qual atuam filha e cônjuge ou estas não atuam em casos que podem chegar a seu pai e marido.

Simples assim. Qualquer outra situação gera as dúvidas que este caso está suscitando — e enfraquece o Judiciário e, pois, o governo e a República.

Qualquer pessoa de bom senso percebe isso. Esqueçam as tais argumentações técnicas, de alto teor jurídico. Não pode o juiz decidir sobre um caso que envolve ainda que remotamente um parente ou mesmo um amigo.

É a mesma situação de Palocci e Dirceu, que ganhavam dinheiro fazendo consultoria para empresas clientes do governo do PT. Como se pode imaginar que saía daí uma consultoria independente?

E tem mais: o pessoal da alta Corte acha normal que advogados que atuam nos tribunais superiores sejam amigos do peito de juízes que decidem seus casos. Dividem jantares, festas, viagens.

Não pode, é claro.

Eis outro efeito indireto da Lava Jato. Está exibindo as perigosas relações da Corte.

Carlos Alberto Sardenberg

Sobre a construção de obras duradouras

Quanto tempo
Duram as obras? Tanto
Quanto o preciso pra ficarem prontas.
Pois enquanto dão que fazer
Não ruem.

Convidando ao esforço
Compensando a participação
A sua essência é duradoura enquanto
Convidam e compensam.

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As úteis
Pedem homens
As artísticas
Têm lugar pra a arte
As sábias
Pedem sabedoria
As destinadas à perfeição
Mostram lacunas
As que duram muito
Estão sempre pra cair
As planeadas verdadeiramente em grande
Estão por acabar.

Incompletas ainda
Como o muro à espera da hera
(Esse esteve um dia inacabado
Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)
Insustentável ainda
Como a máquina que se usa
Embora já não chegue
Mas promete outra melhor.
Assim terá de construir-se
A obra pra durar como
A máquina cheia de defeitos.
Bertold Brecht

Aba-pe-endé? Mamõ-pe-reikobé?

Com exceção das ditaduras ou similares, dos países africanos mais institucionalmente esculhambados, onde, senão num país que não trata as más formações de nascença ou adquiridas, não encara os traumas de infância e repete os erros da vida adulta, um integrante da corte máxima e o Procurador-Geral da República (uma elite!) rebaixam, em público e nos bastidores, as instituições que integram a disputas pequenas de tal forma que fragilizam o país já vulnerabilizado no pós-Janete? A bandidagem deve estar agradecida.

Conta-se que era 22 de abril de 1500, na Bahia, claro; já fazia uns dias que os índios espreitavam as estranhíssimas formações no horizonte que cresciam e já ganhavam a praia e a aparição de uns bichos sem banho, brancos, doentes, esdrúxulos, com cabelo na cara e o corpo coberto com panos assombrou os nativos limpos, pelados, morenos, saudáveis: Aba-pe-endé? Mamõ-pe-reikobé? Cito de cabeça, das longíguas aulas de tupi antigo (pré-colonial) na universidade. “Aba” (som de oxítona) é homem/ser humano; “pe” (“e” fechado) é partícula interrogativa; “endé” equivale a “quem”; “mamõ” (o “a” bem aberto e o “õ” muito nasalado) é “onde/lugar”; reikobé (pronuncia-se o “r” como em “neurônio solitário”; em tupi o “r” nunca é pronunciado como em “corrupção”) denota origem com verbos como surgir, aparecer e vir. Então, “Aba-pe-endé? Mamõ-pe-reikobé?” pode ser traduzido como “Quem são vocês e de onde vêm?”. O choque, o espanto, a perplexidade foram mútuos. Dois universos se encarando nas praias de… Ó pá, não vá nos dizer que passamos de Porto Seguro e viemos dar no Ceará!

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Não. Exaustos, abatidos e estupefatos, depois de meses no mar, Cabral e sua turma sabiam onde estavam desembarcando. Em abril de 2013, numa solenidade para inaugurar uma obra de combate à seca em Fortaleza, Janete afirmou que fora nas areias cearenses que os portugueses aportaram há 513 anos então, mas era Janete quem não fazia ideia de onde se metera ao embarcar na presidência do Brasil, viagem que o morubixaba jeca lhe arranjou para garantir a dele só de ida em retorno ao poder.

Ridícula e absurda, mesmo para uma nação que naturalizou espantos, Dilma está em Curitiba figurando na farsa espantosa que os petistas produziram em torno do interrogatório do idolatrado chefe da organização criminosa, afinal um circo não ficaria completo sem uma mulher sapiens. De dentro de natural confusão que a ansiedade provoca quando é grande e não é outra coisa senão de grande ansiedade para o ansiado depoimento que a alma de Lula transborda segundo o próprio, o réu orientou os advogados a insistirem até o último minuto na chicana que o livre do juiz Sérgio Moro.

Janot concorda com Janot contra Mendes; Janot discorda de Janot contra Janot; Janot e Mendes acham que mulher advogada é diferente de filha advogada. Nem sei nem me interessa quem está mais errado, os dois estão fora da casinha faz tempo, representam o nepotismo judicial-processual brasileiro e um deveria se abster nos casos Guiomar-Bermudes e o outro renunciar. É pedir muito? No país dos espantos, sim: logo mais, o corporativismo patológico – outra das más formações brasileiras – vai agir para deixar tudo como está e o público pagante dos gordos salários segue na expectativa frustrada de algum decoro por parte das excelências que desonram os respectivos cargos. A toda essa gente estranha a uma nação menos primitiva e que insiste em farsas íntimas e coletivas, cabe perguntar: Aba-pe-endé? Mamõ-pe-reikobé?

Paisagem brasileira

Parque Nacional do Catimbau, Buíque (PE)

Vocabulário paradoxal (para tempos paradoxais)

Por favor, não saque a arma no saloon. Eu sou apenas o cantor
Belchior (1946-2017)

Não se trata de inventar palavras novas à toa. Acontece apenas que, de vez em quando, para compreender o incompreensível e dizer o indizível é preciso ver o invisível e, nesses casos (extremos), uma palavra é tudo o que nos resta. Palavras, para quem ainda não percebeu, são máquinas de ver. Só vemos com nitidez aquilo que somos capazes de nomear. O sociólogo francês Pierre Bourdieu, no livro Sobre a Televisão, já tinha avisado: “Nomear, como se sabe, é fazer ver, é criar, levar à existência”. Um pouco antes dele, o jornalista americano Walter Lip-pmann, em Opinião Pública, escreveu mais ou menos a mesma coisa: “Na maior parte das vezes, não vemos primeiro para depois definir, mas primeiro definimos e depois vemos”.

Em tempos de muito falatório, é paradoxal: não precisamos de menos, e sim de maispalavras. Palavras que nos tirem da cegueira. Palavras que nomeiem o inominável.

Sendo assim, aqui vai uma contribuição imodesta. Seguem-se quatro vocábulos heterodoxos – uns inexistentes, ainda, outros bem pouco frequentes – não para produzir a luz (disso a fala não dá conta), mas bulir com a escuridão. As quatro palavras que serão expostas agora talvez nos ajudem o pensamento a sobreviver num Brasil indecifrável. Ou não. Em todo caso, bom proveito.

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Pop-lulismo – Substantivo masculino, até onde se sabe. Designa uma afecção do espírito das massas que se manifesta na compactação de opiniões sob a forma de certeza coletiva sólida, que repele frontalmente disposições, informações, fatos e evidências em contrário. Do carisma do líder pop (aquele de quem Barack Obama disse “é o cara”) o pop-lulismo carrega a idolatria, ainda que seu objeto de culto se tenha esvaziado de charme. Seria um fenômeno típico da indústria do entretenimento, mais ou menos como a seita “Elvis não morreu”, não tivesse migrado para o universo conturbado da demagogia sob as vestes de populismo rancoroso. Perdeu sua sustentação no mundo dos fatos, mas o pop-lulismo não vê o óbvio ululante – nem o admite.

Novelho – Substantivo masculino e adjetivo idem. O termo resulta da fusão (de resto, evidente) de dois adjetivos antônimos: novo e velho. Vem a propósito de recentes declarações de luminares da sociologia pós-moderna apontando no atual prefeito de São Paulo “o novo” na política brasileira. Interessante. Novo? De personagens que xingavam grevistas de vagabundos a história política do Brasil está cheia. Nunca nos faltaram autoridades que afirmavam que protestos de rua eram caso de polícia. De outsiders que estrearam na política vituperando contra a política e contra a alegada putrefação dos hábitos políticos abundam exemplos no mundo inteiro. No Brasil, tivemos em 1964 aquela pregação um tanto histérica de que era preciso livrar a política dos políticos. A coisa desaguou no golpe militar e, em 1968, recrudesceu com o golpe dentro do golpe. Fardas e patentes na administração pública fariam bem ao povo brasileiro. Logo, vale a pergunta: o que há de novo num político que vive de dizer que não é político? O prefeito de turno pode, sim, ser uma novidade, mas isso não faz dele “o novo”. A partir do pouco que dá para vislumbrar das ideias que ele representa, já se tem a certeza de que ele é bem mais velho que, digamos, Fernando Henrique Cardoso, que não é tão novo assim. Não custa lembrar que um antigo compositor, não baiano, nos dizia ter visto “um museu de grandes novidades”. É um pouco assim que descamba o cenário nacional, salpicado de novelhos.

Antipolítica – Substantivo feminino. Como adjetivo, o vocábulo é mais usual. Aparece, com muita luz, no ensaio Verdade e Política, de Hannah Arendt. Empregado como substantivo é menos frequente. Há anos este dedicado articulista vem alertando, neste espaço, para os riscos representados pela antipolítica (como substantivo). O uso vem se difundindo. A antipolítica se define por ser uma atividade política articulada por um discurso que nega a política e desqualifica seus agentes. A antipolítica tende a desconstituir a política, mais ou menos como um cavalo de Troia. A antipolítica é um vírus que invade o organismo e consegue disfarçar-se de célula de defesa. A antipolítica rechaça o diálogo e a negociação. A antipolítica sugere que a força bruta é mais eficaz e mais rápida que as tentativas de entendimento. Há traços rasgados de antipolítica em Donald Trump, em Vladimir Putin, em Recep Tayyp Erdogan e em Nicolás Maduro. Há empuxos bem preocupantes de antipolítica no Brasil, à esquerda e à direita, como se pode deduzir dos dois verbetes anteriores, mas não vamos fulanizar ainda mais as moléstias do nosso quadro clínico.

Pós-imprensa – Substantivo feminino. Falou-se muito da “pós-verdade”, o vocábulo do ano do Dicionário Oxford em 2016. Outros preferem falar em “pós-fato”. As duas palavras querem iluminar mais ou menos a mesma cena: na nossa era, a verdade factual deixa de ser o lastro em torno do qual se constroem os consensos para a gestão da coisa pública, para a administração do Estado, para a ação política dos grupos de interesse e dos partidos. Em lugar da verdade factual, o que aflora são as convicções polarizadas, o fanatismo, o irracionalismo elevado à segunda potência. Pois bem, se o fato perde valor na política, ele também perde valor na imprensa e se a imprensa não existe mais para checar os fatos, uma vez que ninguém mais liga para os fatos, essa mesma imprensa pode ser reduzida à triste condição de caixa de ressonância de preconceitos e mensagens de ódio (difusos ou concentrados). Se o espírito original da imprensa morrer, o que lhe sucederá serão flechas envenenadas contra a democracia e, no fim, contra a civilização.

Ah, sim, os verbetes não foram arrolados em ordem alfabética. No meio da desordem conceitual, a ordem alfabética foi revogada.

Engana que eu gosto

 
Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo
Abraham Lincoln

Manifestação em Curitiba foi um fracasso e reduz as chances eleitorais de Lula

Era um dia muito especial, mas as expectativas se frustraram e acabou sendo uma quarta-feira como tantas outras. A Bolsa de Valores subiu 1,67%, nada mal, e o dólar recuou para 3,168, prejudicando os exportadores. Enquanto isso, em Curitiba, o número de manifestantes pró-Lula era muito inferior ao esperado, mostrando que o PT, as centrais, os sindicatos e os movimentos sociais já não têm tanta força como se pensava.

A expectativa era enorme, o interrogatório de Lula havia se transformado no grande assunto do dia, não se falava em outra coisa, muita gente pensava que o ex-presidente seria preso e havia até torcida organizada para que isso ocorresse. Mas não aconteceu nada disso, os resultados foram surpreendentes e não estavam previstos.
A concretização da derrocada da manifestação organizada em Curitiba já era do conhecimento dos dirigentes petistas desde a semana passada e no fim de semana houve a confirmação sobre o pequeno número de ônibus fretados. Em decorrência, aconteceu então aquela correria dos advogados de Lula para adiar o depoimento, recorrendo ao mesmo tempo a três instâncias – ao juiz federal Sérgio Moro, ao Tribunal Regional Federal de Porto Alegre e ao Superior Tribunal de Justiça. Só esqueceram de ir ao Supremo, onde o recurso poderia cair com Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski ou Dias Toffoli, não necessariamente nesta ordem. Mas também no STF o clima está tempestuoso.
Os dirigentes e líderes do PT já sabiam do fracasso anunciado da manifestação, o que explica o ar de desânimo de Lula e da senadora Gleisi Hoffmann ao se encontrarem com os militantes na rua, a caminho do fórum federal de Curitiba. O astral estava mesmo baixo, não dava para esconder, embora os manifestantes continuassem demonstrando entusiasmo, gritando palavras de ordem. E diz o velho ditado que uma imagem vale mais do que mil palavras, como se constata na foto de Nacho Doce, da Agência Reuters, publicada no G1 e aqui reproduzida nesta análise.

A essa altura, já nem importa o que Lula disse ou o que lhe foi perguntado pelo juiz Sérgio Moro. O destino do ex-presidente já está traçado e ele tem um encontro com a Justiça. O fracasso da manifestação em Curitiba fala mais alto. É o oitavo município no ranking nacional e a região administrativa tem 3,5 milhões de habitantes. Mas só aparecem 5 mil pessoas para ouvir Lula discursar, num momento crucial. A grande maioria dos participantes da manifestação veio de fora, nos ônibus fretados, para passear de graça, com tudo pago. Esta realidade desmonta as pesquisas de opinião que têm sido divulgadas dando Lula como grande favorito, a farsa ficou evidente.

A conclusão é óbvia. Se neste momento decisivo, com apoio de quase todas as centrais, da maioria dos sindicatos, dos sem-terra, dos sem-teto, de outros movimentos sociais e da UNE e entidades estudantis, mesmo assim Lula não conseguiu encher a Praça de Curitiba, como será que pretende se encher de votos?

Circo armado por Lula tem um culpado no picadeiro

É compreensível que Lula e sua trupe de bacharéis tenham feito o diabo para adiar até o fim dos tempos o primeiro encontro com Sérgio Moro. E foi tão previsível quanto a mudança das estações do ano a tentativa do bando, tão logo se consumou o fiasco da tentativa de fuga, de transformar Curitiba em picadeiro, tribunal em palanque e depoimento de réu culpado em discurseira de perseguido político de botequim.


O ex-presidente que, ao contrário de Getúlio Vargas, saiu da história para cair na vida, não tem álibis nem atenuantes para os muitos crimes que cometeu. Sobretudo por isso, o que está em curso nesta quarta-feira não pode ser reduzido a um duelo entre um defensor da Justiça e um fora da lei. O que se vê é o confronto entre dois brasis. De um lado, está escancarado o Brasil do passado, uma velharia agonizante que até agora só condenava os lulas à perpétua impunidade. Do outro lado se vislumbra o Brasil do futuro, que está nascendo graças à Lava Jato. Neste país em trabalhos de parto, todos são iguais perante a lei.

O circo armado por Lula para escapar de punições judiciais merecidíssimas transformou em certeza a suspeita que vinha crescendo entre jornalistas do mundo inteiro: o ex-presidente que se fantasia de pai dos pobres é o chefe do maior esquema corrupto da história. O depoimento de hoje vai aguçar, entre os que conhecem as duas ofensivas contra a impunidade institucionalizada, a sensação de que a Lava Jato tem tudo para ir muito além das fronteiras expandidas pela Operação Mãos Limpas.

A imprensa italiana, por exemplo, tem tratado como reprise de quinta categoria as reações desesperadas, patéticas ou apenas ridículas dos políticos envolvidos até o pescoço nas bandalheiras. É coisa de cobra mal matada. É medo de cadeia, hoje epidêmico entre a turma do foro privilegiado.

O que nenhum jornalista de qualquer país entende é a proteção oferecida por ministros do Supremo Tribunal Federal a bandidos de carteirinha. Por que, em vez de estender-lhes a mão, o STF não ajuda a manter algemados os pulsos dos ladrões irrecuperáveis? Essa é a pergunta que mais tenho ouvido na Itália. Essa é certamente a pergunta que se fazem neste momento milhões de brasileiros decentes.

quarta-feira, 10 de maio de 2017


A hora da verdade

A nossa “revolução fundadora” está em pleno curso, ainda que, por enquanto, à revelia da maioria de nós. E é irreversível. Difícil, depois de 500 anos e entre tantos abismos materiais e educacionais, é refundarmo-nos para o bem evitando rupturas e explosões “venezuelizantes”.

Partimos de um labirinto. Há leis demais e órgãos públicos demais. As competências são sobrepostas, cruzadas, conflitantes. Nada pode ser definido com clareza, tudo pode sempre, e impunemente, não ser aquilo que parece.

A questão das prisões preventivas é exemplar. Onde está o ponto de equilíbrio entre a necessidade de forçar delações sem as quais não sairemos jamais desta “lenociniocracia” que mata mais de 60 mil por ano e a de assegurar respeito aos direitos individuais? Só há uma maneira boa – Winston Churchill dizia que era apenas a menos ruim – de resolver problemas como esse. Ninguém deu a isso resposta melhor que a elite do Iluminismo. Com 241 anos de aperfeiçoamentos do modelo do qual não adotamos ainda sequer os pilares da fidelidade da representação, da igualdade perante a lei e do controle do governo pelo povo, não falta com que começar. Não temos de inventar nada, temos só, como os japoneses, como os coreanos, como tanta gente de sucesso no mundo, de desinventar tudo o que inventaram para nos manter fora da democracia.

O problema é que não há como fazer isso de modo totalmente pacífico. Será preciso uma dose não pequena de criatividade e arbítrio para desmontar esta arapuca. O STF do bem deu um belo drible quando confirmou a legalidade das prisões a partir da 2.ª instância, a estaca zero do mundo civilizado da qual nunca deveríamos ter-nos afastado. Mas o outro abriu a porta da ratoeira. Deixar bandidos flagrados sem um horizonte previsível é decisivo para empurrá-los a uma delação premiada, mas é também o que define tecnicamente a ausência de um Estado de Direito. Agora, dizer que isso em que vivemos é um Estado de Direito...


Todas as respostas necessárias à reconstrução do Brasil envolvem esse tipo de dilema. Será preciso considerar judiciosamente, a cada uma delas, os custos e benefícios que, para fazerem mesmo sentido, terão de ser avaliados no devido horizonte de tempo e dentro da sua circunstância. Trata-se de contrabalançar cinco séculos de respostas que quase sempre desfavoreceram o lado do bem. Isso ensejará que o outro lado argumente como se não houvesse nada acumulado no outro prato da balança, sempre com lógica para o horizonte imediato ou para o ponto considerado fora de seu contexto. E seus argumentos, tomados isoladamente, parecerão fazer tanto sentido que até o mais notoriamente venal dos argumentadores poderá recorrer a eles sem que se possa, tecnicamente, acusá-lo de desonestidade.

Essa é a nossa “revolução fundadora”, porque não é mais uma opção deixar de fazê-la. Lula, com seu lendário senso epidérmico de oportunidade, deu-se conta imediatamente disso. Foi o que o tirou da depressão. Bem no ocaso da sua capacidade de incendiar plateias medida de cima dos palanques, caiu-lhe no colo o “argumento” capaz de “ressuscitar a militância” que andava com vergonha de mostrar sua carteirinha do partido.

O que, exatamente, amarra no mesmo enredo gente tão diferente quanto José Dirceu e sua guerra imaginária contra “ditadores” e “cães da ditadura” do milênio passado, na qual militância política e assalto a banco se confundem, os ministros do STF, com seus diferentes graus de suscetibilidade às tentações terrenas, Michel Temer e suas madalenas arrependidas, o cavaleiro errante de Curitiba e seus fiéis escudeiros do Ministério Público, o oportunismo atávico dos ladrõezinhos e dos ladravazes de dentro e de fora do Congresso e, pairando acima de todos, Luiz Inácio Lula da Silva, o reciclador geral da nossa mixórdia, em cujas mãos nada se perde, tudo se transforma em benefício do “eu”?

As ações e as intenções são genuinamente diferentes, mas na entrada, no meio do caminho ou na saída, o papel desempenhado por cada um desses atores tem mostrado uma mesma inconsistência. Um elo fraco que, na “hora H”, expõe seu flanco, afrouxa a sua garra e enseja que o filme recomece do zero.

A defesa, por ação ou omissão, da parte que a cada um deles cabe no latifúndio dos privilégios da estabilidade no emprego e do salário independente de resultado eternamente garantidos, das acumulações e dos “auxílios” para os quais o céu é o limite e das superaposentadorias precoces e frequentemente hereditárias onde tudo isso termina é que tem impedido que se feche o círculo e os põe a todos mais próximos uns dos outros do que de quem paga essa conta.

Os ladrões que uns prendem e os outros soltam são só os agentes de uma coisa muito maior e menos eventual. Toda essa roubalheira está a serviço de comprar as eleições, que não têm outra finalidade senão manter os “marajás” como e onde eles estão.

O populismo não é senão a socialização da corrupção. Lula, como sempre, confia cegamente na venalidade dos indivíduos e das massas e, para ele, é vencer ou vencer; ou a Presidência de um Brasil definitivamente venezuelizado, ou a cadeia. Não perde tempo com argumentos. Confia inteiramente na “escala” das esmolas que espalhou e do “poder de convencimento” que seus fiéis soldados José Dirceu e Marcelo Odebrecht lhe garantiram mantendo a roubalheira “antes, durante e depois” da Lava Jato para nos levar para esse Brasil sem imprensa e sem lei.

O Brasil do bem vai ter de se decidir. Não se ganha essa guerra sem o povo na rua e os argumentos do “acerto das contas públicas” e mesmo a ameaça do aquecimento do inferno em que já vivemos não mobiliza ninguém. O que, sim, une o resto do Brasil, que paga essa conta com miséria num horror cada vez mais visceral, é o privilégio, fora do qual e contra o qual todos eles hesitam em se colocar. Mas, da imprensa às tribunas do Congresso ou às bancas dos tribunais, essa é a chaga menos exposta e a palavra menos pronunciada no barulho todo que se fez até aqui.

Lula finge ser uma coisa e sua reputação é outra

Uma pessoa pode mudar. Pode até mudar radicalmente, de hábitos, de estilo, de orientação política, de amigos —mesmo que uma mudança de Olívio Dutra e Francisco Weffort para Emílio Odebrecht e Léo Pinheiro possa parecer exagerada. Mas Lula jamais imaginou que estaria prestando depoimentos como o desta quarta-feira. Sentado numa cadeira de réu, no centro de uma sala de audiências da Justiça Federal, na frente de um juiz linha dura, inquirindo-o sobre crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Tempos atrás, a encrenca talvez tenha aparecido para Lula num pesadelo. É possível que ele tenha acordado no meio da noite, alvoroçado. Pode até ter concluído que a migração do modesto sítio ‘Los Fubangos’, em Riacho Grande, no ABC Paulista, às margens da represa Billings, para a aprazível propriedade de Atibaia, equipada com todos os confortos que o departamento de propinas da Odebrecht pode pagar, não era um bom prenúncio. Mas decerto Lula voltou a dormir, imaginando que não, bobagem, nada de ruim aconteceria com ele. Aconteceu! E foi muito além do sítio e do tríplex.


Noutros tempos, dirigido Duda Mendonça e João Santana, Lula ostentava uma certa superioridade moral. Diante das câmeras de Sergio Moro, a moral perdeu o sentido. O interrogatório desta quarta trata do caso do tríplex do Guaujá, reformado e reservado pela OAS. Mas flutuam na atmosfera da 13ª Vara Federal de Curitiba, como fantasmas de um filme de terror: a planilha com os saques em dinheiro destinados ao “Amigo”, os milhões de agradecimentos travestidos de honorários de palestras, as ordens secretas para destruir provas. Tudo a indicar que Lula virou o que ninguém que o admirou no passado imaginou que ele viraria.

Lula gosta de citar sua mãe, dona Lindu, para informar que foi graças aos ensinamentos dessa “mulher analfabeta” que aprendeu a “andar de cabeça erguida por esse país.” Obviamente, Lula não ouviu quando a mãe rogou: “Cuidado com as companhias, meu filho.” Sua história seria outra se continuasse convivendo com gente como Olívio e Weffort. Presidente, poderia ter convivido com certas pessoas protocolarmente. Todo mundo entenderia. Mas ir atrás do Collor, adular o Renan, entregar cofres a apadrinhados do Sarney…

É natural que, na falta de dona Lindu, a Justiça tenha que assumir a função de mãe de Lula, impondo-lhe castigos inevitáveis. Há pouco mais de um ano, em janeiro de 2016, falando a um grupo de blogueiros companheiros, Lula jactou-se: “Não sou investigado!” Já estava rodeado de suspeitas. Mas alardeava: “Se tem uma coisa de que me orgulho é que não tem, nesse país, uma viva alma mais honesta do que eu.”

Lula continua fazendo sua pose predileta —a pose de vítima. Arrasta multidões de petistas e simpatizantes à capital paranaense para cultuá-lo. Vive uma experiência paradoxal: com os pés fincados no palanque, discursa com a voz estalando de autoridade moral. Mas no interior da sala de audiências da 13ª Vara Federal de Curitiba o que Lula chama de reputação é a soma de todas as ilegalidades esmiuçadas num processo. Ocorre a seguinte incongruência: Lula acha que é uma coisa. Mas sua reputacão já é outra. Mudou muito o personagem. E não deixou endereço. Bons tempos aqueles em que Lula podia ser encontrado no sítio ‘Los Fubangos’, nos finais de semana.

Brasil, o país da conveniência

É vergonhoso ver como o Brasil se tornou o país da conveniência. Basta o seu pior inimigo tomar uma decisão que lhe favoreça ou que vá ao encontro de sua posição política para que, da noite para o dia, ele se torne um grande amigo, ou, para ser superlativo, seja visto como um super-herói. Se a decisão tomada por esse inimigo resultar em alguma vantagem financeira, então, ele passa a ser tratado quase como um Deus.

Vejam, por exemplo, o que ocorreu depois que Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), deu o voto decisivo para que José Dirceu, um dos principais líderes do PT, fosse solto. Até então, o ministro era visto como o diabo por petistas e demais apoiadores de Dirceu. A forma agressiva como essas pessoas se dirigiam a Gilmar impressionava pelo rancor. O ministro era taxado como o grande defensor do PSDB e o algoz do PT.

Pois desde a decisão do STF, Gilmar se tornou referência quando se fala em Justiça no país. Basta fazer uma pesquisa pelas redes sociais para encontrar elogios rasgados ao ministro. Gente que gritava contra Gilmar passou a ver qualidades nele, numa desfaçatez sem limites. Um movimento típico de pessoas que se encaixam, perfeitamente, no grupo daquelas que se destacam pela total falta de caráter. Não há nenhum exagero nisso.

Essas mesmas pessoas passaram a idolatrar o senador Renan Calheiros, que, por interesses próprios e não pelo bem do país, assumiu um papel “patriótico” contra as reformas trabalhistas e da Previdência Social. Quantas vezes vi os atuais defensores de Renan bradando contra ele palavras fortíssimas, a mais leve delas, oportunista. Mas para que se apegar aos defeitos do senador alagoano se, agora, ele está difundindo o discurso que todos querem ouvir?

Coerência faz bem ao país. Ninguém aqui está defendendo ideias e pensamentos únicos. Muito pelo contrário. O contraditório é fundamental para o debate e o fortalecimento da democracia. O que não dá para suportar é ver a conveniência sendo usada de acordo com os interesses pessoais ou para reforçar posições políticas. Isso não é honesto. É vergonhoso.

Os mesmos que, agora, têm Gilmar Mendes e Renan Calheiros como ídolos, se recolheram depois das revelações bombásticas feitas por Renato Duque, o ex-homem-forte do PT na Petrobras. Por conveniência, saíram temporariamente do debate porque ficaram sem argumentos diante da confirmação do ex-diretor da estatal de que o chefe do maior esquema de corrupção da história era o ex-presidente Lula, ou “Nine”, para os íntimos.

É estarrecedor ver, a cada depoimento de envolvidos na roubalheira da Petrobras, a confirmação de todos os fatos. Independentemente da posição que cada um exercia na quadrilha que saqueou a empresa, as revelações são sempre as mesmas, com um ou outro detalhe diferente, mas complementar. São tantas as acusações contra os mesmos personagens que não há mais o que questionar.

Cabe, portanto, à Justiça ser enérgica nas punições. Não há por que protelar mais as prisões de citados pelos delatores. Há uma ansiedade crescente na sociedade, que começa a ser tomada pela descrença. A cada movimento contra a Operação Lava-Jato só aumenta a sensação de impunidade que atormenta o país. Não podemos perder essa oportunidade única para passarmos o Brasil a limpo.

A quadrinha e nossa verdade

“Tu fingiste que me enganaste, e eu fingi que acreditei, foste tu que me enganaste ou fui eu que te enganei?".
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Depois das revelações de um Duque do PT sobre os laços de Lula com a indústria de propinas, caberá à Justiça romper ou consagrar a velha quadrinha mineira legitimadora do labirinto ético nacional
Roberto DaMatta