segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O maior valor da paz

Populações civis em vários pontos do globo são destroçadas sob a mais letal violência.(...) Nestas guerras não há vencedores; todos perdem. Gastam-se bilhões de dólares na destruição de sociedades e economias, alimentando ciclos de desconfiança e medo que podem perpetuar-se por gerações
António Guterres,  novo Secretário-geral da ONU pede Ano para a Paz em 2017

A Estação PT e a destruição do Brasil

"Ainda vamos passar pela Estação PT", disse certa vez o saudoso Carlos Alberto Allgayer. Corriam os anos 80 e estávamos a conversar entre quatro bons amigos. Allgayer era um talentoso jurista, que viria a ser diretor da Faculdade de Direito da PUC/RS, homem de uma sabedoria cordial que parecia cuidar para não constranger quando se expressava com sua voz privilegiada. Dava tanto gosto ouvi-lo que é impossível lembrar dele sem que, na imagem mental, apareça falando. E foi com essa voz que nos profetizou a chegada ao poder do pequeno partido saído das urnas gaúchas de 1986, época desse bate-papo, com uma pequena bancada de dois deputados federais e quatro deputados estaduais.

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A Estação PT foi um desastre ao qual chegamos 16 anos mais tarde. Fomos conduzidos a ela através da mais poderosa máquina de agitprop (agitação e propaganda, no dizer marxista-leninista) em operação no Ocidente após a queda do Muro de Berlim. Ao longo desse tempo, a política petista era servida nos meios de comunicação até pelos programas esportivos. Do ensino fundamental aos cursos de pós-graduação, frequentava a maioria das salas de aula.Habitava certas atividades pastorais, Campanhas da Fraternidade e documentos da CNBB. Valia-se de uma impressionante gama de movimentos sociais que se converteram em braços mais ou menos violentos da mesma causa por outros meios. Urdiu uma rede de organizações não governamentais que orbitaram e parasitaram o partido, servindo-lhe como militantes da luta de classes, de raças e de sei lá quantos gêneros. Compôs engenhoso conjunto de instituições - quase poderia dizer "artefatos" - culturais, dedicados à sistemática destruição da cultura cristã e seus valores. E para nada disso faltava dinheiro.

O amável autor da profecia sobre a Estação PT faleceu em abril de 2002 sem presenciar a concretização de seu vaticínio. Os demais, vivemos para ver e relembrar o episódio, repetidas vezes, ao longo dos últimos anos, exatamente como aconteceu ontem, quando me caiu diante dos olhos um documento da Fundação Perseu Abramo (órgão de pesquisa, elaboração doutrinária e formação do PT), que pode ser lido aqui. Nele, o autor ataca a política econômica e administrativa adotada durante o "modelito neoliberal dos tucanos", no qual "as estatais, responsáveis para a Produção Para o Mercado, seriam todas privatizadas e os serviços não exclusivos do Estado – educação superior, hospitais, previdência social acima do salário mínimo – seriam também privatizados". Como consequência, constata ele, no período de 1995 a 2002 houve uma redução de 121 mil servidores federais. E em contrapartida, na gestão petista, entre 2003 e 2013 - gaba-se o autor da matéria - foram nomeados 240 mil novos servidores. Isso equivale a 2,5 novos servidores por hora, sob o governo petista!

A demagogia, a irresponsabilidade fiscal, o patrimonialismo, a corrupção e o inchaço da máquina pública, que agora vejo, no site do partido, ser proclamado como admirável avanço administrativo, confluíram para gerar a tremenda energia destrutiva que acabou por demolir a Estação PT e tudo mais à volta. A conta do estrago? A conta do estrago é nossa. Que a possamos pagar, são meus votos nesta alvorada de um novo ano. E que o Senhor nos proteja, se possível, com um par adicional de Anjos da Guarda, preferivelmente brasileiros, afeitos à barbárie urbana que tomou conta de nosso país.

Uma boa notícia

O último dia do ano não é o último dia do tempo. Foi Carlos Drummond de Andrade quem me ensinou.

Foi-se um ano sofrido. A memória, parceira obrigatória da vida vivida, nesse dia pede um balanço de lucros e perdas. Há no ar, e nos implacáveis números das pesquisas, tristeza, desencanto e pessimismo. Quem se orgulhava do Brasil não se orgulha mais. O que é injusto com os brasileiros, jogados no purgatório das privações e incertezas.

O ano termina sobre as ruínas da crise mais grave de nossa historia. O cenário mundial é assustador. Vivemos um tempo de jogadas sinistras, de ídolos espatifados, tempos de grandes desilusões. A desordem dos acontecimentos de hoje não se parece com a de ontem, e o futuro não promete nada de previsível. O que vivemos hoje é um enigma ainda não decifrado.

Folheamos os livros que nos ensinaram tudo que sabíamos com um sorriso amargo, pena de nós mesmos e dos mestres em quem confiamos. Nesses dias de feriados e arrumações, eles nos olham das estantes, desolados, como fantasmas que, à noite, passeiam pelos quartos e salas preferidas da casa. E são eles que melhor testemunham nosso desvalimento, agora que vivemos longe da segurança que nos davam e pela qual vestimos um luto secreto. Não há mais caminho das pedras, e vamos nós mesmos, canhestramente, espalhando as pedras frágeis em que tentamos pisar.

Hoje, a crise dói: desemprego, saúde em risco, insônia, medo e miséria não retratam um fracasso individual, como tantos sentem, e sim um drama coletivo. Que não durará para sempre. Quem já enfrentou uma doença grave — em si ou numa pessoa querida — sabe que há recursos desconhecidos, nunca antes mobilizados, que vêm à tona e nos ajudam a enfrentar esses momentos críticos. Os brasileiros têm uma longa história de resiliência.

#Futurama + #TheScream (by Munch) = "Good news" by PaulaMould #crossover:
Paula Mould
É longo o inventário das perdas, mas também o do que está preservado. O que interessa lembrar é o que fica imune à crise, tudo que ela não pode confiscar, e que nos faz resistir à depressão e ao desalento. Cada um tem presente em sua vida um patrimônio imaterial com que pode contar.

Assim como o dinheiro não compra tudo — o tempo, por exemplo, a morte não vende —, há bens que independem dele, a exemplo dos vínculos afetivos profundos, como amor e amizade, os círculos de confiança onde esses sentimentos se produzem, onde a roda da vida cria e reforça laços.

As alegrias da solidariedade, aquela que faz o nadador atirar-se ao mar para resgatar o afogado ou alguém entregar as suas veias para, com seu sangue, prolongar uma vida desconhecida. A alegria das esperanças compartilhadas em torno de um projeto comum, que faz sentido — fazer sentido é de fato um fazer — e traz o sentimento cálido de pertencimento.

Tudo que não é passível de monetarização — alguns economistas dirão que tudo tem um preço, mas isso é problema deles — continua a existir e é fonte de prazer e de sentido para a vida. Pensar no que somos fora do dinheiro que temos ou não temos pode ser um exercício inédito de escapar da lógica econômica que torna invisível tudo que não anuncia seu preço e vai pouco a pouco se apropriando de todos os aspectos da existência, até definir cada um pelo que ganha ou deixa de ganhar. Nível de vida passou a ser sinônimo de nível de renda.

Essa lógica não é alheia à epidemia de corrupção que levou nosso país à ruína e homens desmoralizados, de cabeça baixa, às grades das prisões. A fidelidade a valores dos muitíssimos que não mentiram, não roubaram, não jogaram dinheiro no mar é um capital inestimável, razão de justificada autoestima.

Assim como a lógica econômica dita uma visão de mundo redutora, outra lógica perversa, a do charco em que mergulhou a política, ao penetrar cada recanto do cotidiano, incitando ódios, separando amigos, vai envenenando as possibilidades de esperança.

A crise ameaça expropriar até mesmo a esperança de ser mais feliz que sempre anima um novo ano. Paralisa com o risco do autoengano. Quer tornar ridículo o brinde da meia-noite. Inúteis, as rosas jogadas ao mar. Mas a esperança tem uma natureza imbatível, ela que, quando um cansaço imenso invoca o testemunho da memória para defender renúncias, caminha para o quebra-mar, olha o horizonte de um novo ano e, antes de mergulhar no futuro, anuncia: tenho uma boa notícia. E todos olham para ela porque é ela que se quer ouvir. A notícia é sucinta: estamos vivos.

Peço a benção, nessa passagem do ano, a Carlos Drummond de Andrade: “Recebe com simplicidade esse presente do acaso/ Mereceste viver mais um ano”.

Que seja um Ano Novo feliz.

Imagem do Dia

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Passado incerto

Você investiria seu dinheiro em um lugar no qual o cumprimento de contratos seja algo duvidoso, dependente por vezes de ações judiciais que se arrastam por décadas?

Você escolheria como moradia um local sujeito a índices absurdos de criminalidade, no qual apenas 1% do que acontece nas ruas chega ao mundo das leis, e onde não mais que 1% dos condenados cumprem suas penas até o fim?

Você construiria sua vida em um país no qual regras e metas são alteradas em ritmo frenético, distantes da serenidade que deve nortear qualquer planejamento?

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Você confiaria seu destino a um Estado cujas instituições, leoas implacáveis diante dos erros dos fracos, são carneiras submissas perante aquela "audácia dos canalhas" a que se referia Benjamin Disraeli?

Você se sentiria seguro em integrar uma sociedade na qual a culpa e as consequências pelos erros dos poderosos são invariavelmente transferidas aos mais fracos?

Você acreditaria no futuro de uma nação cuja administração notoriamente não se responsabiliza por suas faltas e erros, negando terem existido e recusando-se a arcar com os prejuízos que causou, ressarcindo suas vítimas?

Você entende sábio alterar-se o retrato da vida de um país através da manipulação de índices e estatísticas, conforme as conveniências dos ocupantes do poder?

Você viveria em uma terra na qual a expressão "direito adquirido" seja relativa, sujeita a interpretações que oscilam conforme os humores da economia e da política?

Você entregaria seu futuro a uma pátria que dá e retira direitos e expectativas ao calor das emoções do momento, de forma afoita e irrefletida?

Você se entenderia seguro para orientar-se sobre o passado recente em um lugar onde os órgãos de comunicação - e, via de consequência, as notícias que divulgam - dependem, em sua maioria, das benesses estatais?

Você teria confiança em um povo cujos livros de história são alterados e reescritos conforme a ideologia dos governantes de plantão?

Se sua resposta a todas estas perguntas foi "não", parabéns! Você é daquelas pessoas que defendem a estabilidade jurídica, motor essencial ao crescimento de qualquer país, e da qual derivarão a saúde, a educação, a segurança, mais investimentos etc.

Eis aí uma preciosa lição que nos legam o mundo e sua história: quando o passado é incerto, periga o futuro!

Pedro Valls Feu Rosa

O esbulho de estados e municípios

Os prefeitos das capitais e demais cidades começam a trabalhar hoje. Alguns recomeçam. Junto com os governadores, serão as vítimas de um processo que lhes tirou a força e a dignidade em suas cidades e seus estados. Cada unidade da federação encontra-se em estado de penúria, atravessando a pior de suas trajetórias. Sua função será sacrificar-se para a recuperação do que foram e não são mais, graças ao esbulho de uma força situada além de suas fronteiras.

É a União que depende e que precisa dos governadores e prefeitos, jamais estes daquela. Torna-se necessário o presidente Michel Temer entender essa verdade absoluta: os estados e municípios são o país, formam a rede de proteção de um poder etéreo e até inexistente. Brasília só existe porque municípios e estados a cercam e sustentam. Nunca o contrário.


Assiste-se à inversão da natureza. Têm sido os governadores e os prefeitos que chegam mendigando à capital federal, de chapéu na mão, humilhados e exangues atrás de recursos para continuar existindo, quando na realidade a União é que existe por decisão e concessão deles. Brasília deveria desculpar-se e pedir perdão por ter-se omitido tanto. Se há lamentos, reprimendas e arrependimento, deve-se debitar à capital federal o ônus maior.
Caberia ao governo central recuperar as estruturas estaduais e municipais por ele destruídas ao longo dos últimos anos. Sonhos inúteis e projetos impossíveis, entre muita corrupção, erodiram, desgastaram e quase destruíram os alicerces que sustentavam a unidade nacional. Um por um, estes mais, aqueles menos, municípios e estados foram conduzidos à situação de miséria pela incúria do poder federal. É inadmissível que agora se aceite a equação invertida, de que Brasília deve correr em auxílio das unidades federadas. Elas é que precisam cobrar o que lhes foi surripiado por ação do poder central. Sem estados e municípios Brasília permaneceria um deserto insípido.

A oportunidade não é de municípios e estados virem atrás de favores, como farão mais uma vez, senão de chegarem a Brasília para exigir e arrancar o que lhes foi tirado.

Carlos Chagas

Sem rumo

Vejo uma atitude muito esquisita da parte de algumas pessoas que, pelo menos aparentemente, parecem querer mudar o país: é um discurso ao mesmo tempo desesperado, desistente, agressivamente esnobe e até apocalíptico.

Seguem certas expressões características desse, digamos, estado de espírito: o Brasil acabou; país de merda; 2016 foi uma desgraça e 2017 vai ser desgraça ainda maior; povinho burro, ignorante; a única saída é o aeroporto... E por aí vai.

20 Ilustrações que mostram como os dias de hoje são irracionais:

É decepcionante. Que falta de vigor é esta? – me pergunto. Xingar o país, atacar o povo e dizer que a melhor coisa a fazer é se mandar para o exterior não são coisas que se deva esperar de quem deseja promover mudanças por aqui. E olha que os tempos nem andam tão pesados assim.

Quando comparo com a época realmente dura, pesada e violenta da ditadura militar pós-AI5 e pré-Geisel, o contraste chega a ser escandaloso. Naquela época, sob as botas da repressão, não xingávamos o país. Não ficávamos nos lamentando, dizendo que tudo tinha acabado. Quem não era expulso do país, queria mesmo era ficar por aqui. E, quando o Maracanã em peso aplaudiu Médici, nenhum de nós decretou: povinho de merda.

Não. Era muito diferente. Em vez de ficar se descabelando, xingando e jogando a toalha a cada tropeço, tratávamos de tentar entender as coisas e verificar onde estávamos errando. E atuávamos em todos os campos e em todas as brechas possíveis para contestar a ditadura e avançar em direção à democratização nacional.

Ou seja: numa situação incomparavelmente mais difícil, parecíamos ter mais serenidade, firmeza e consistência, apesar do desatino delirioso – suicida, mesmo – do projeto da luta armada. E foram anos e anos de trabalho político contínuo para transformar aquela realidade terrível.

Por isso mesmo, a vitória contra a ditadura foi resultado da práxis política cotidiana das forças democráticas brasileiras. A ditadura não caiu por causa de bomba, assalto a banco, araguaias. Longe disso. Caiu por causa do MDB, da Igreja Católica, da esquerda democrática, de artistas e intelectuais, todos batalhando juntos pelo retorno à democracia.

Agora, como explicar a diferença entre a disposição transformadora paciente e persistente daqueles tempos – e o misto de desespero-desistência-horror de tantos, hoje? Por que a mania atual de esculhambar o país (dizendo cretinices sobre a nossa história) e agredir a população, o povinho-de-merda?

O Brasil já tem uma nova direita. Nova esquerda, não. E, se for nessa batida, não terá tão cedo.

Paisagem brasileira

Garopaba - SC - Brasil:
Garopaba (SC)

Saudades da Guanabara

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Villas-Bôas Corrêa, o velho repórter que morreu em dezembro, nunca engoliu a transferência da capital para Brasília. Veterano da cobertura política no Rio, dizia que a mudança cortou os laços entre os políticos e a vida real do país. No livro “Conversa com a Memória” (Objetiva, 2002), ele lembra os tempos em que a classe dirigente era vigiada de perto. O Congresso funcionava de segunda a sexta, e os cariocas lotavam a Câmara e o Senado para acompanhar os debates.

“A presença espontânea de populares, a participação do que se podia qualificar como opinião pública, não sobreviveu ao trauma da mudança da capital”, escreveu. “Em Brasília, foi substituída pela pressão organizada de claques (…) que viajam de ônibus fretados.”

Antes de se isolarem no cerrado, os congressistas eram obrigados a gastar os sapatos na rua, sem a proteção de marqueteiros. Isso permitiu a Villas lançar os Comandos Parlamentares, que marcariam época no jornal “O Dia” a partir de 1951.

Toda semana, deputados e senadores eram recrutados para incursões de surpresa em escolas, hospitais ou presídios do Rio. Os convidados só conheciam o itinerário ao deixar a redação. “Nunca ninguém protestou. Viramos a cidade pelo avesso”, contava o jornalista.

Numa das reportagens, o então ministro da Justiça, Tancredo Neves, foi levado a um abrigo em que meninas eram submetidas a maus-tratos. Na saída, os visitantes flagraram instrumentos de tortura. O ministro transferiu as internas, demitiu a diretora e fechou a espelunca.

Acostumado a Tancredo, o velho repórter se espantaria com as bravatas do atual ministro, Alexandre de Moraes. Há pouco tempo, ele se deixou filmar em trajes de samurai enquanto desferia golpes de facão em pequenos pés de maconha. Depois da façanha, prometeu erradicar a droga no continente —algo mais improvável que ir a pé à Lua. Seria melhor voltar ao gabinete refrigerado.

Nove características de países que são superpotências educacionais

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A "maldição dos recursos", um fenômeno que mostra que as economias cuja base são os recursos naturais têm performance pior na educação

Quando se fala em rankings globais de educação a história parece se repetir. As superpotências educacionais asiáticas ocupam os primeiros lugares e, para o resto do mundo, sobram dúvidas e recriminações.

Para os ministros da Educação de grande parte do mundo este deve ser um momento difícil, no qual eles precisam encontrar algum aspecto positivo para destacar e tentar explicar a razão de seus países estarem mais uma vez no meio ou até nas últimas colocações da lista.

Cingapura dominou os resultados do Programa de Avaliação Internacional de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), divulgados no começo de dezembro, nas três áreas avaliadas, Matemática, Ciência e Leitura.

Cerca de 540 mil estudantes de 15 anos em 70 países participaram do exame, realizado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No ranking de Ciência, Cingapura foi seguida outra potência asiática da educação, Japão. Em terceiro, a Estônia. No de Leitura, o segundo e terceiros lugares ficaram com China (Hong Kong) e Canadá. E no de Matemática , Hong Kong e Macau (também China).

Mas o que estes países fizeram para chegar a este patamar? O que eles têm que outros países não têm?

Veja algumas das características destes vencedores.


1 - É melhor estar na Ásia Oriental 
Cingapura está em primeiro lugar, seguida pelo Japão. Outros daquela região estão entre os dez primeiros como Taiwan, Macau, Hong Kong, China, Vietnã. A Coreia do Sul está em 11º lugar.


2 - Um pouco de conformismo?
Falando de uma forma muito diplomática, a expectativa em muitos dos países que ocupam as primeiras posições geralmente é que as pessoam obedeçam as ordens que recebem.

Uma cultura conformista e concentrada, um senso de objetivo coletivo ou até um Estado onde exista apenas um partido, sem oposição, frequentemente são elementos que podem ser observados entre os países mais bem colocados.

Mas há exceções: a Finlândia ficou em quinto lugar e este é um país com um sentimento forte de independência liberal.

3 - Melhor não ter recursos naturais
Existe um fenômeno em educação chamado "a maldição dos recursos" que mostra que as economias cuja base são os recursos naturais - como as que dependem em grandes reservas de petróleo - têm uma tendência a performances ruins no setor de educação.

Países do Oriente Médio podem ser citados como exemplo. Como motivar uma pessoa que espera ser rica independente de seus resultados na escola?

Os países pequenos e com poucos recursos, por outro lado, precisaram aprender rapidamente como viver e progredir a partir de sua própria inteligência. Por exemplo, há 60 anos a Coreia do Sul tinha um dos piores índices de analfabetismo do mundo, agora muitos de nós estamos assistindo programas em aparelhos de televisão criados ou fabricados naquele país.


4 - Aposte nos professores
Andreas Schleicher, guru educacional da OCDE, tem uma frase: "Nenhum sistema de educação pode ser melhor do que a qualidade de seus professores".

E a classificação no Pisa demonstra isso: o sucesso está unido à oferta de professores de boa qualidade.

Não importa quais as declarações polêmicas dos ministro de Educação, tudo se resume em um bom investimento nos professores.


5 - Ser uma nação (relativamente) jovem
Os países mais bem colocados em rankings educacionais podem ter culturas antigas, mas uma característica interessante deles é que muitos são Estados relativamente novos ou tiveram suas fronteiras reconstituídas recentemente.

A Finlândia vai celebrar seu centenário em 2017 e a Coreia do Sul e Cingapura, em suas atuais formas políticas, são produtos do século 20.


O Vietnã, que saiu de uma guerra na década de 1970 foi um dos que melhoraram mais rapidamente seu sistema educacional, ultrapassando os Estados Unidos e os dinossauros da velha Europa.


6 - Ter um vizinho grande que brilhe mais que você
Outra característica surpreendente dos países mais bem posicionados em rankings de educação é o quanto eles tiveram que lutar para conseguir um lugar ao sol por causa de um vizinho muito maior.

As histórias de sucesso em países europeus nos últimos anos - na Finlândia, Polônia e Estônia - mostra que eles tiveram que sair da sombra do antigo bloco soviético.

A Coreia do Sul e Hong Kong têm como vizinha a China. Cingapura é uma cidade-estado minúscula cercada por vizinhos bem maiores em tamanho e população.

A educação é que permite a todos estes países competirem com os países maiores.


7 - Não é uma competição por eliminação
As classificações em rankings de educação se baseiam na proporção de jovens que conseguem alcançar algum ponto de referência de capacidade

Os ganhadores serão aqueles países que presumem que todos devem cruzar esta linha de chegada, alcançar este padrão, até os mais pobres - e esta é uma característica que marca os mais bem-sucedidos sistemas educacionais da Ásia.

Eles colocam os melhores professores cuidando dos alunos mais fracos para garantir que todos alcancem o padrão básico.

O sistema ocidental, por sua vez, aborda a educação como uma corrida de cavalos, com a expectativa de que poucos dos que começam a corrida alcancem a meta.

E as classificações refletem esta diferença fundamental.


8 - Copiar dos melhores
É difícil separar os sistemas educacionais da política e da cultura onde eles se desenvolvem.

Por mais que todos gostem de falar de "inovação", há muita pressão de todos os lados contra a mudança.

Mas muitos dos países com alto rendimento não tem nenhum problema em pegar as melhores ideias de outros países e usá-las em suas próprias escolas.


9 - Planejar para o longo prazo em um mundo onde tudo é no curto prazo
Dez anos ou até mais podem passar antes que as mudanças em um sistema educacional façam alguma diferença positiva a ponto de mudar o lugar do país em rankings globais do setor.

E isto não é um grande incentivo para a curta vida útil de um gabinete de ministro da Educação.

Em alguns países os ministros podem ser trocados várias vezes até em uma questão de dias.

A grande mensagem que os países precisam entender a partir destes rankings globais de educação é que os dois fatores necessários são coerência e continuidade.


10 - Culpe todo mundo
É preciso muito tempo para mudar a educação de um país e para notar estas mudanças.

Então os ministros desta pasta podem se vangloriar de qualquer coisa que tenha sucesso e culpar todos os da administração anterior pelos fracassos.

Xô, entulho de operações estruturadas

Ano novo, vida nova. Em 5.570 municípios, novos mandatos renovam esperanças de melhores tempos. Mas, prefeitos e vereadores, cuidado: o terreno está minado.

Até o final dos anos 2030, o Brasil construirá como nunca antes em uma geração. É impressionante: mais 40 milhões de domicílios se somarão aos 66 milhões existentes. Mais de meia cidade se somará à cidade existente. O desenvolvimento nacional depende desse terreno. Mas ele está minado.

Economistas que opinam sobre caminhos para a superação da crise, em geral, tratam de macroeconomia. Parece haver consenso sobre a necessidade de aumentar investimentos. Apontam para grandes obras e grandes sistemas, que, por certo, são indispensáveis.

Mas, enquanto o Brasil flanava em águas de almirante e planava em céu de brigadeiro, ouvíamos que os fundamentos macroeconômicos eram fortes, garantindo o progresso do país.

Pouco investimos na qualificação de nossas cidades, embora nelas sejam gerados mais de quatro quintos do PIB.

A saúde, a educação, o conhecimento e a inovação são urbanos. Os micro, pequenos e médios negócios, como os grandes, dependem da boa qualidade de vida urbana. Contudo, o saneamento continuou às moscas; a mobilidade, imóvel; a segurança, caótica; os serviços, inservíveis.

Acabou a bonança, os fundamentos desapareceram, e a cidade ficou à espera de novo ciclo. Será possível?
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É preciso buscar outros caminhos. O ciclo das respostas bombásticas passou, os frutos apregoados estavam bichados. Agora, enquanto o Brasil espera reerguer-se — em algum momento o fará —, é hora de o país projetar-se para o presente, de planejar suas cidades e seu território, olhar para o cotidiano da cidade comum, implantar distribuídas soluções que, somadas, dão um grande resultado. Não será fácil, em vista do emaranhado institucional urdido, que precisa ser removido.

Há um precedente a considerar. Acabada a ditadura, o país viu-se frente a um conjunto de leis e decretos concebidos durante os anos de chumbo. Era o “entulho autoritário”, que precisou ser revogado para a vigência da vida democrática. Encontramo-nos, hoje, em situação assemelhada.

Nos últimos tempos, o país produziu uma sucessão de leis que desqualificaram o pensamento criativo e desconstituíram nossa capacidade de planejar. No âmbito público, a desconstrução dos serviços de planejamento urbano e de planejamento de obras foi quase total.

Abandonando a ideia de projeto como categoria cultural autônoma, tais leis tornaram promíscua a relação entre agentes públicos e empreiteiras, dando legalidade a modalidades de licitação cujos preços de obras sustentavam as propinas abundantemente distribuídas enquanto reduziam a qualidade dos serviços.
Não houve argumento racional, embasado tecnicamente, que subsistisse à avalanche de “facilidades” promovidas tanto pelo Executivo, por medidas provisórias, como pelo Legislativo, transformando-as em leis. Mesmo com o avanço da Lava-Jato, editam-se MPs e tentam-se leis nesse sentido — como neste dezembro o Senado o fez com o PLS 559, que multiplica tais facilidades.

Mas agora há um porém: como a “delação do fim do mundo” iluminou o esquema, ficará sob suspeição o governante que adotar tal legislação envenenada, onde está a “contratação integrada/RDC” — a que entrega projeto e obra ao empreiteiro. Como adotá-la conhecendo sua gênese e seu objetivo?

Assim como feito com o entulho autoritário, precisaremos nos desfazer desse vergonhoso “entulho de operações estruturadas”, o entulho da propina. Precisamos recuperar a capacidade do país em se pensar, em se projetar, em se planejar, para enfrentar o impressionante desafio desta geração: construir mais meio Brasil urbano sobre bom terreno, não em terreno minado. Uma cidade onde se possa reerguer o desenvolvimento, mais saudável, menos desigual, mais bonita.

Ano novo, vida nova. Quem sabe?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Feliz 2017

Vai um ano, chega outro. Divisões infinitesimais do tempo que guardamos como bons ou maus, acolhemos como protegidos por lendários seres ou regidos por estrelas zodiacais, quando o mais importante de todo o tempo é o dia que nasce.

A alegria do renascer a cada dia para uma nova chance de viver é o que conta no tempo. O dia, em sua infinitude, traz todos os matizes de viver: o espanto, a surpresa, a alegria, a tristeza, a vida e a morte, tudo sem o que nunca viveríamos, mas vegetaríamos.

Devemos agradecer e participar de cada dia com intensidade e repetir pelo tempo o renascimento em cada amanhecer.

2017 bate à porta com centenas de dias felizes e saudáveis para se comemorar
Até o ano que vem 

Tributo aos campeões

A repercussão do anúncio dos EUA sobre a ação global da Odebrecht provocou um temporal político na América Latina. Bem maior do que tivemos notícia pelos jornais e TV. Foi um intenso movimento no Twitter, que começou com gente perguntando quem eram os corruptos do governo de cada país, passou por desmentidos de presidentes e ex-presidentes, nomes suspeitos, acusações. Alguns importantes projetos, como assegurar a navegabilidade do Rio Magdalena, na Colômbia, estão ameaçados. Começaram a duvidar até do estudo de impacto ambiental da Odebrecht.

Ao ver aquele furacão durante a semana, não podia perder de vista que tudo aquilo havia sido causado por uma empresa brasileira. Ironicamente, o programa do BNDES para estimular as empresas campeãs nos deu apenas um título mundial: o do maior escândalo de corrupção.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Em termos de política externa, penso eu, seria ideal que o Brasil fizesse o comunicado, informando, como fizeram os americanos, quanto se usou em corrupção e o lucro obtido em cada lugar. Em termos ideais, porque, dados as circunstâncias brasileiras, o ritmo do STF, a delicada posição do governo na Lava Jato, não temos as mesmas condições dos norte-americanos. Verdade é que o próprio relatório divulgado lá destacou as investigações feitas no Brasil, pois trabalhou com dados, essencialmente, obtidos aqui.

Todos estão conscientes da abertura brasileira para compartilhar as informações. Em termos ainda ideais, seria preciso um outro passo: uma legislação disciplinando o comportamento das empresas no exterior.

Quando todo esse movimento rumo ao exterior começou, confesso que tentei formular uma lei que punisse o suborno de autoridades. Alguns assessores da Câmara ajudaram. Mas as possibilidades de êxito eram muito remotas. Não só pela força das empreiteiras. Havia um argumento muito forte: era uma iniciativa ingênua que acabaria reduzindo a competitividade de nossas empresas.

Com as voltas que o mundo deu, uma legislação que discipline as empresas brasileiras pode ser precisamente um instrumento para que não percam a competitividade depois do furacão Odebrecht.

O relatório americano não menciona o papel que o BNDES teve em cada um dos projetos da Odebrecht. Quando tudo isso vier à luz, talvez se desvende que o dinheiro da propina eram recursos públicos.

Uma legislação mais precisa pode evitar que instituições sejam levadas para uma engrenagem criminosa internacional. Mas talvez não seja a falta dela o ponto essencial.

Havia toda uma política, da qual o BNDES era um instrumento, destinada simultaneamente a abrir caminhos para a Odebrecht e fortalecer a imagem de Lula. Os métodos escolhidos para isso resultaram num desastre, pois fecharam os caminhos da Odebrecht e atingiram profundamente a imagem de Lula na América Latina.

A escolha equivocada jogou-os num enredo e crime e castigo. Mas a Odebrecht era considerada a maior empreiteira brasileira atuando no exterior, Lula é o ex-presidente do Brasil. Por mais que tenha nascido e se desenvolvido aqui a investigação que revelou o gigantesco esquema, o Brasil tem um delicado problema externo a superar.

O passo que sugiro é criar legislação que possa atenuar a desconfiança em torno de empresas brasileiras no exterior.

Enquanto o esquema era revelado somente dentro do Brasil, alguns lugares do mundo não se interessaram por ele. Mas agora que pelo menos nove países se deram conta da interface Odebrecht-Lula com os seus próprios políticos e administradores, a América Latina tornou-se uma única aldeia escandalizada.

Outra resposta brasileira que poderia inspirar outros países envolvidos no escândalo seria romper o vínculo entre empreiteiras e governo. Para isso é preciso aprovar um projeto, que já está no Congresso, obrigando a mediação de empresas seguradoras, responsáveis por fiscalizar as obras.

Governo e Congresso estão pisando em ovos com a Operação Lava Jato. Em vez de definirem as alternativas que se abrem com seu desdobramento, preferem discutir como contê-la. No entanto, não acho insensato pressioná-los a se dar conta do que está acontecendo em torno de nós, depois que o relatório americano foi divulgado. Muitos são investigados na Lava Jato. Investigadas ou não, as pessoas podem fazer as coisas certas quando se colocam problemas nacionais. Isso, todavia, não vai absolvê-las nem condená-las.

A dimensão da Lava Jato nos obriga a ir um pouco além do quem recebeu quanto para quê, quando eles serão julgados. O escândalo anexou uma dimensão internacional ao drama e atingiu a imagem do Brasil, por causa do comportamento de seu Lula e das empresas que gravitavam em torno do BNDES.

Pode-se escolher a tática de fingir que não foi conosco, submergir à espera de um melhor momento. Isso costuma falhar. Um título mundial de corrupção não se esquece rapidamente. É preciso correr atrás da credibilidade perdida. O julgamento dos artífices do gigantesco esquema de corrupção será, certamente, uma grande resposta.

E, antes dela, também ajudaria a transparência sobre a delação da Odebrecht. Não é confortável ler algo que aconteceu no Brasil, foi apurado aqui, narrado em inglês com os políticos sendo chamados de brazilian officials e numerados.

O brazilian official número 1, por exemplo, deveria dar uma parada para pensar no rastro de raiva que deixou essa aliança entre corruptos latino-americanos. A prática de roubar o próprio povo transcendeu as fronteiras nacionais. Um fato histórico.

Os líderes comunistas do passado criaram internacionais para marcar posições políticas diferentes. A decadência chegou ao ponto de se criar a partir do Brasil uma internacional da corrupção. Nela, América Latina e África foram unidas pelos seus defeitos, e não pelas qualidades.

Há todo um caminho a reconstruir.

Controle de nações

Por trás da revelação feita pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, com base em investigações da Operação Lava Jato, de que a Odebrecht pagou mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3,4 bilhões) em propinas em 12 países desde 2001, está muito mais do que um esquema internacional de corrupção.

Tal prática é uma ameaça concreta à estabilidade democrática dos países. Pelo que foi levantado até agora pela força-tarefa da Lava Jato, a empresa teria bancado o pagamento de marqueteiros das campanhas de candidatos vitoriosos a presidente da República em alguns dos países onde tinha interesses comerciais, via caixa 2 ou dinheiro de propina.

Desse modo, passou a empresa a ter – ou a planejar ter – o controle sobre governos, programas de governos, cronogramas de obras.

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Com base em delações negociadas entre executivos e ex-executivos da Odebrecht aqui no Brasil, existe a informação de que medidas provisórias que interessavam à Odebrecht foram compradas por alguns milhões, pagos a burocratas, funcionários do governo e dirigentes partidários, possibilitando um retorno bilionário ao caixa da companhia. Se no Brasil houve a compra de MPs e leis, quem pode dizer que o mesmo não aconteceu nos outros países onde o conglomerado empresarial tinha interesses?

Há algum tempo estudiosos da geopolítica do mundo acreditam que a guerra convencional chegará ao fim. Prevalecerá os interesses de grandes grupos econômicos, que tudo farão para manter a hegemonia sobre outros e, principalmente, sobre as nações, simples joguete em suas mãos.

Criada em 1899, a americana United Fruit Company ficou muito conhecida no mundo, principalmente na América Latina. Financiou golpes de Estado e guerras civis nos quais a atuação do governo local ameaçava seus interesses. No lugar de quem ela derrubava, sempre era posto um fantoche. O Prêmio Nobel de Literatura Gabriel Garcia Márquez dedicou um bom espaço de sua obra Cem Anos de Solidão à United Fruit, identificando-a com massacre de trabalhadores, a negação de direitos sociais, sindicais e humanos, o clientelismo político e o suborno.

Do mesmo modo, também Nobel de Literatura, o escritor chileno Pablo Neruda escreveu um poema chamado La United Fruit Co, publicado em Canto General. Depois de dizer que a empresa se instalou também na costa central de sua terra, ele afirma que a companhia batizou de novo as terras chilenas, agora de “República de Bananas”. “E sobre os mortos dormidos, sobre os heróis inquietos que conquistaram a grandeza, a liberdade e as bandeiras, estabeleceu sua ópera bufa”. Em seguida, Neruda enumera os nomes dos fantoches que a United Fruit levou ao poder países afora.

Boa parte dos movimentos de esquerda na América Latina se fortaleceu na luta contra a empresa americana, principalmente na primeira metade do século 20 e depois da Segunda Guerra.

Há semelhanças entre a atuação da Odebrecht e a da United Fruit na luta pelo poder, com a diferença de que agora não há o emprego da violência. A americana financiava golpes contra governos estáveis e democráticos. A Odebrecht passou a financiar governos instáveis com os quais mantinha negócios, quase todos eles de centro-esquerda.

O que diriam Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Lenin e outros se soubessem que em um futuro não muito distante parte daqueles que se inspirou em seus ideais revolucionários acabaria por se desmoralizar pelo dinheiro do Brasil?

A respeito de toda essa questão que envolve o domínio de nações pelo interesse de empresas, diz o ex-deputado petista Paulo Delgado (MG): “Ironia da história o passado se parecer com o presente. A nossa esquerda, que em parte se formou na luta contra a United Fruit Company, se desmoraliza pedindo dinheiro à United Odebrecht Company”.

Imagem do Dia

Claire Droppert

O tempo

#Clock #Time #Watch #Timepiece #Timekeeper #AlarmClock #Reloj #Tiempo #TickTock #Retro #Vintage #Old #Anticque #Shabby: A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana

Quando todos os gatos são pardos

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Quando a noite é bastante escura, todos os contornos desaparecem 
Jostein Gaarder

Como me queixar de 2016?

2016 não foi, de modo algum, um ano simpático. Foi daqueles que torcemos para que acabe logo. Nem vou elencar aqui tudo que ele nos trouxe de ruim, as más notícias quase que diárias, as perdas irreparáveis. Seria como oferecer a vocês os jornais de ontem, anteontem e trasanteontem...

São tantos os bons jornalistas a analisar e comentar os inacreditáveis e infindáveis nós em que nos meteram, como vou me meter na seara deles? Eu não saberia falar com igual propriedade. “A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos”, aprendi no colégio, quando os mestres ainda nos estimulavam a ler os grandes filósofos.

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Mas tenho um sentimento em relação a 2016: ele não foi de todo negativo. Teve lados altamente positivos para o Brasil: o impeachment da representante do PT no Palácio do Planalto; a força moral da Lava-Jato; e o desmantelo da impressionante cadeia de corruptos responsável pela vergonhosa e lastimável situação em que o Brasil se encontra.

Entretanto, o PT despachado, ver poderosos bem instalados em Curitiba, a corrupção com sua cabeça cortada, não acham que é caso para agradecer, um pouquinho ao menos, o ano que se vai? Não sou das ingênuas que acreditam que a corrupção foi para sempre dizimada. Longe disso. Sempre haverá corruptos. O que é necessário é que sempre haja fiscalização e punição para os corrompidos e para os corruptores!

Mas que a corrupção levou um baita tranco, levou. Durante algum tempo seus acólitos vão se manter afastados desse ofício desgraçado. Quando tentarem voltar, não serão os mesmos e nós estaremos mais atentos e mais fortes.

Não é caso para agradecer aos Céus? Eu acho que é.

E tem mais: as pessoas que eu amo estão bem de saúde. Crianças queridas continuam chegando e encantando nossas vidas. Ainda estou por aqui. Alive and kicking, como dizem nossos amigos anglo-saxões. Probleminhas todos temos, mas nada que nos leve a desesperar. Viver é assim mesmo.

Por tudo isso, como posso me queixar de 2016, assim, sem mais aquela?

Agradeço pois o ano que passou e recepciono, com Fé e Esperança, o ano que vem.

Seja muito bem vindo 2017!

Finlândia, laboratório mundial da renda básica universal

A automatização da força de trabalho cresce a toda velocidade no século XXI. E a primeira consequência é dramática: perda de empregos tradicionais que, agora, a um custo laboral zero, são desempenhados por máquinas como lava-carros ou garçons que anotam os pedidos no restaurante. A Finlândia decidiu começar a se preparar para o futuro, experimentando com novas redes de proteção. O país nórdico será em 2017 o laboratório mundial do que foi batizado como renda básica universal. Ou seja, receber uma quantidade de dinheiro por mês sem motivo algum. Quer a pessoa esteja empregada ou não. Em um programa-piloto que durará dois anos, 2.000 cidadãos receberão a partir de janeiro 560 euros (1.920 reais) por mês somente para existir.

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“Para revolucionar algo tão grande, tão tradicional e tão fundamental como as remunerações é preciso experimentar primeiro”, afirma Roope Mokka, cofundador do Demos Helsinque, o primeiro think tank independente dos países nórdicos. Em um país calvinista no qual em toda esquina se respira a cultura da responsabilidade, esta remuneração adicional é vista por especialistas, políticos e cidadãos não como um presente, mas como uma oportunidade para fortalecer a economia e estimular a população a iniciar negócios, explica este jovem finlandês durante uma mesa redonda no Slush. Trata-se de um evento que congrega todo ano centenas de start-ups, empresas e investidores mundiais, e que se tornou um acontecimento crucial para a economia finlandesa, atualmente ainda lutando para sair de uma profunda recessão.

Mas mesmo com um horizonte difícil — a Comissão Europeia estima um crescimento de 0,9% no PIB do país no ano que vem —, o Governo conservador finlandês é pioneiro mundial em adotar a renda básica. Uma seleção de 2.000 cidadãos receberá a partir de janeiro, e durante dois anos, 560 euros por mês. “As análises mais confiáveis demorarão pelo menos seis anos para chegar”, prevê o especialista. Em um experimento em Oakland (EUA) serão mil famílias que ganharão o equivalente a 1.720 reais mensais, e em Utrecht, nos Países Baixos, a fórmula também será testada em 2017. Entretanto, a Finlândia é dos poucos países na União Europeia que não possuem um salário mínimo válido para todas as profissões, caso também das nações escandinavas. Seu PIB per capita, porém, é dos mais altos do bloco, mesmo em tempos duros: 38.200 euros (131.200 reais) em 2015 (ano em que o déficit alcançou 2,8% do PIB) enquanto o da Espanha é de 23.200 euros (79.650 reais), segundo o site datosmacro.

Para que a ideia da renda básica, que pode parecer utópica para muitos, se transforme em realidade é preciso haver financiamento. O especialista observa que a primeira coisa que as empresas e os Governos deveriam fazer é garantir que “os trabalhos tenham elevada remuneração”, além de pôr em prática uma reforma no sistema tributário que sobretaxe ainda mais as altas rendas. “A propriedade ociosa, bens, deficiência energética, edifícios... há muitas coisas sobre as quais podem ser aplicados mais impostos”, enumera Mokka de forma improvisada, embora tenha um grande conhecimento do que fala.

Do contrário, e como acontece, por exemplo, na Espanha — onde o Governo de Mariano Rajoy (PP) acaba de elevar o salário mínimo para 707,6 euros (2.430 reais), a metade do pago na França, segundo a Eurostat —, continuar trabalhando e receber este complemento salarial “não compensaria” e fomentaria a desocupação, um argumento que não convence Mokka. Acredita, no entanto, que aí se situa uma das chaves para o bom funcionamento da renda básica universal: “É preciso começar a assumir que nem todo mundo pode ter um trabalho porque estamos competindo contra as máquinas, e elas sempre ganharão”. O diretor da Tekes, a agência pública que investe em inovação neste país de pouco mais de cinco milhões de pessoas, Jukka Häyrynen, sustenta que a segurança no trabalho é algo que está sendo perdido em nível mundial, o que ele vê com certo positivismo: “Isto é um ingrediente para empreender”, afirma.

Um estudo que a Universidade Oxford elaborou em janeiro de 2016, mostra que 57% da força de trabalho humana nos países da OCDE está sob o risco de desaparecer por causa da automatização e dos avanços tecnológicos. “Temos a necessidade de integrar todas as pessoas desocupadas na nossa sociedade e, em lugar de subsídios pelo desemprego, a renda básica soa como uma boa ideia”, defende Juhana Aunesluoma, diretor de pesquisa de Estudos Europeus na Universidade de Helsinque, em uma sala do Ministério de Relações Exteriores. Algo que não convenceu a Suíça em junho, quando rejeitou essa iniciativa em um referendo.

Mas os Governos — especialmente os do sul da Europa — estão até certo ponto “obcecados”, diz Mokka, em chegar ao pleno emprego em detrimento da busca de alternativas para que o dinheiro entre nos lares (e no sistema) e para que os desempregados pela automatização do trabalho se mantenham ocupados e reinvistam seu tempo.

Paisagem brasileira

Abstrato
Casario, Durval Ferreira

Esperanças roubadas

Em 27 de dezembro foi publicada em O Globo a seguinte matéria do jornalista Antonio Werneck: “Carga milionária de remédio para câncer some a caminho de SP. Uma carga milionária de um medicamento usado no tratamento de leucemia crônica e no combate a tumores de estroma gastrointestinal desapareceu misteriosamente quando era levada de caminhão do Instituto Vital Brasil, em Niterói, para a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Avaliado em cerca de R$ 5 milhões...”

Não foi a primeira vez.

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Pesquisando jornais do Rio e de São Paulo, há relatos do roubo de drogas de alto custo que são revendidas por preços inferiores a farmácias e clínicas criminosas na capital e no interior desses estados. Desde 2007 foram noticiados assaltos nos hospitais Emílio Ribas, Brigadeiro, Servidor Público e Samaritano, todos em São Paulo. Os ladrões levaram os medicamentos específicos para oncologia, AIDS e reumatologia, que custam de 6 a 10 mil reais a dose. Apesar de armados, não usam de violência, mas certeiras informações ou crachás.

Há pouco mais de um mês, em um prédio de consultórios no Rio, foram roubados agentes biológicos caríssimos utilizados em reumatologia e que precisam ser conservados em baixa temperatura para manter sua eficácia. Hoje a clínica tem segurança armada na porta.

Será que existe um COCO - Centro Oncológico do Crime Organizado? Não creio.

Gente estabelecida compra, comercializa e administra esses medicamentos. Esses bandidos usando jaleco devem ter notas fiscais de remédios adquiridos legalmente, que usam para burlar a fiscalização.

No entanto, o crime mais grave é que essas drogas armazenadas de forma inadequada deixam de agir como deveriam, causam efeitos maléficos e podem matar os pacientes.

A Agência de Vigilância Sanitária, após o escândalo das “pílulas de farinha”, em 1999, aprovou uma resolução para a criação do sistema nacional de rastreabilidade de medicamentos, o que permitiria o controle do caminho de medicamentos da fábrica até o paciente.

O aumento do custo foi estimado em 0,05%, mas melhoraria enormemente a segurança no uso dos medicamentos, em todas suas fases: fabricação, transporte, distribuição, armazenamento, prazo de validade, prescrição, administração e avaliação de efeitos colaterais por lotes específicos, além de ajudar no combate tanto da falsificação, quanto do roubo. Porém a pressão da poderosa indústria farmacêutica e a complacência de nossos congressistas adiou essa normatização em 2013 e 2015. O golpe fatal foi desferido em 27 de setembro de 2016, quando sepultou qualquer prazo para adoção dessa saneadora medida.

O mercado brasileiro de medicamentos, que tem uma “informalidade” (amoralidade) de 30%, fato inconcebível nas sedes mundiais da lucrativa indústria farmacêutica, segue feliz.

Por quê? Uhum! Estranho!

A segurança dos pacientes exige a rastreabilidade dos medicamentos, fundamental também no combate à receptação de esperanças roubadas.

Resoluções de Ano Novo: as impossíveis e as obrigatórias

Hoje, como em todo 30 de dezembro, é dia de alinhar as resoluções de Ano Novo, daquelas impossíveis que abandonamos na primeira semana de janeiro, para reavivá-las no próximo dezembro. Por exemplo:

Parar de fumar. Beber menos. Evitar gorduras nas refeições. Fazer exercícios e corridas todos os dias. Tomar banho frio. Cuidar da saúde e fazer exames médicos. Ser carinhoso com filhos e netos. Ajudar os necessitados. Não pisar no acelerador. Ler um livro por semana. Assistir menos televisão. Matricular-se no curso de inglês. Cumprimentar e sorrir para os colegas de trabalho.
No entanto, por conta do ano bicudo que já termina, surgem novas e obrigatórias resoluções, que todos devemos seguir. São elas:
Acompanhar todos os dias a performance dos políticos. Marcar no caderninho os nomes dos envolvidos com a corrupção, para nas próximas eleições não votar neles. Pesquisar quais os deputados e senadores cujo padrão de vida aumentou depois de eleitos. Saber quantos políticos compraram apartamentos de luxo, sítios ou fazendas no exercício de seus mandatos. Anotar as viagens ao exterior de parlamentares e suas famílias. Acessar informações sobre gastos com cartões corporativos de crédito pelos funcionários do governo.

Mas tem mais. Participar de movimentos de protesto contra leis e iniciativas favoráveis às elites. Protestar contra a presença de políticos corruptos em restaurantes, aeroportos e mesmo na rua. Negar cumprimento aos políticos relacionados em listas da Odebrecht e outras empreiteiras. Aplaudir as ações da Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário, pessoalmente ou através de mensagens eletrônicas. Organizar grupos de amigos, familiares ou companheiros de trabalho para manifestações públicas de repúdio à corrupção. Acompanhar o comportamento da mídia na cobertura de escândalos e crimes praticados por políticos, exigindo de seus responsáveis a divulgação de notícias honestas e verdadeiras. Cobrar promessas não cumpridas de governantes e parlamentares.

Como também: ser tolerante para quem incorreu em erros, mas ser implacável com os erros. Transmitir experiências e lembranças para filhos e netos. Meditar e arrepender-se de omissões quando sua iniciativa poderia ter contribuído para a melhoria da vida em sociedade.

Por último, lembrar em quem votou nas últimas eleições e não repetir o voto, se o eleito ou seu partido descumpriram suas promessas.

Suicídio de funcionária exausta levou à renúncia do presidente de gigante japonesa

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O presidente da principal agência de publicidade do Japão anunciou sua renúncia ao cargo após o suicídio de uma funcionária que se dizia física e mentalmente exausta por causa do excesso de trabalho.

Tadashi Ishii liderava a Dentsu, uma gigante nipônica de publicidade, e assumiu a responsabilidade pela morte da jovem. Ele afirmou que vai tornar a renúncia efetiva na próxima reunião da diretoria da empresa, em janeiro.

Matsuri Takahashi tinha 24 anos e trabalhava na companhia havia sete meses quando pulou da janela de um prédio onde morava - que era da própria Dentsu - na noite de Natal de 2015.

O caso veio à tona nesta semana, depois da decisão do Ministério do Trabalho japonês de processar a empresa pela morte dela.

O governo chegou a fazer uma investigação e uma varredura na Dentsu para obter informações sobre as práticas de trabalho. Foi determinado que a empresa descumpriu as leis trabalhistas e, portanto, tem responsabilidade legal pela morte da jovem.

Na última quarta-feira, a empresa admitiu que cerca de 100 trabalhadores ainda faziam cerca de 80 horas extras por mês.

As mortes por excesso de trabalho são um problema tão grande no Japão que já existe até um termo para descrevê-las: "karoshi".

Antes de se matar, Takahashi deixou um bilhete para a mãe, no qual escreveu: "você é a melhor mãe do mundo, mas por que tudo tem que ser tão difícil?".

Semanas antes da morte, ela escreveu uma mensagem nas redes sociais em que dizia: "quero morrer". Em outra, alertava: "estou física e mentalmente destroçada".

Contratada em abril do ano passado, a jovem chegava a fazer cerca de 105 horas extras por mês.

Além disso, a família acusou a empresa de obrigá-la a registrar menos horas do que de fato trabalhava. Em muitos casos, o registro mostra que ela trabalhou 69,9 horas por mês, perto do máximo de 70 horas permitidas, mas a cifra era bem maior.

Takahashi havia acabado de se formar na prestigiosa Universidade de Tóquio e expunha as condições duras de trabalho na sua conta no Twitter, onde detalhava jornadas de até 20 horas diárias.

A carga horária disparou em outubro de 2015, quando ela só chegava em casa por volta de 5h, depois de ter trabalhado dia e noite. Além disso, ela não teve nenhum dia de folga em sete meses.

Ao anunciar sua demissão, o presidente da Dentsu afirmou que jamais deveriam ser permitidas essas quantidades excessivas de trabalho.

"Lamento profundamente não ter prevenido a morte da nossa jovem funcionária por excesso de trabalho e ofereço minhas sinceras desculpas", disse Ishii.