terça-feira, 10 de novembro de 2015

É a lama, é a lama!

Devo muito de minha formação espiritual a um pensador francês, católico e progressista, chamado Emmanuel Mounier (meu filho mais velho é Emanuel também em homenagem a ele). Em seu livro ‘O personalismo’, Mounier dizia que um dos elementos básicos da comunicação humana era ‘sentir na própria carne’, ‘assumir em si as dores dos outros’. Sentimento difícil, ainda mais nessa época de egoísmo industrializado, de individualismo cibernético.

Às vezes, e de forma quase sempre trágica, a vida dá a chance de sentir a dor pungente do semelhante. A lama tóxica que se derramou por uma extensão imediata de oito quilômetros, com a ruptura das barragens em Mariana (MG), é uma dessas desgraças que nos chama à alteridade, indispensável à nossa humanidade.

Não devia ser difícil sentir na própria pele (e na alma) a agonia das quase 30 famílias que tiveram parentes mortos ou ainda desaparecidos, dos 530 moradores que perderam absolutamente tudo, do cãozinho de estimação a documentos e casa, dos 15 municípios às margens do Rio Pomba que estão na rota da lama, que se alongará por 300 quilômetros, chegando ao Espírito Santo.

Sei que os embrutecidos de vez não chorarão ao ler o drama de Wesley, que tentava se livrar do barro pesado com os dois filhos no colo, Nícolas, de dois anos, e Emanuele, de cinco. Ela, uma mineirinha sorridente, foi arrastada pela correnteza e está sumida até agora, para desespero de seus avós e pais.

Mas não basta se emocionar. Além da solidariedade concreta, é preciso analisar as razões de tamanha devastação – talvez a mais grave de nossa história. Ela é gerada por um padrão de exploração mineradora, comum no Brasil, em que o afã do ganho é maior que o da preservação da vida e dos cuidados com o ambiente. Essa sanha agride os pequeninos e não vale, senhora Vale e outras gigantes!

Tanta dor assim, tanto sofrimento sobre gente inocente, me fez lembrar Dostoievski, que via na maldade que acontece com crianças o maior argumento contra a existência de Deus. Crer é, cada vez mais, um ato de fé e... resistência!

A lama vem também do mundo político, onde há barragens rompidas em praticamente todos os Poderes. Aquele em que exerço mandato está em pleno soterramento: a lama tóxica é a da negação do óbvio, das tenebrosas transações agora descobertas, da ‘vendetta’ contra quem se insurge e cobra, do silêncio omisso de muitos. Calar-se diante de tudo isso, ignorando o trabalho da Justiça e do Ministério Público, é como ver a tragédia de Bento Rodrigues, o distrito de Mariana sob a lama, e não se inquietar, não perceber o grito de socorro ao seu lado.

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