sábado, 5 de dezembro de 2015

O Brasil não tem como voltar atrás

A destruição das Torres Gêmeas de Nova York pelo terrorismo mudou o mundo. Desde então, não fomos os mesmos.

No Brasil, que é observado hoje pelos países que reconhecem sua importância no cenário mundial, explodiu uma bomba política, o processo de destituição da presidenta, a ex-guerilheira Dilma Rousseff, cujas consequências ainda estão por decifrar.

A bomba foi lançada por um político com poder, o terceiro na hierarquia da República, o presidente da Câmara, e a explosão já ultrapassou, por sua gravidade, as fronteiras do país. O mundo está desconcertado com a notícia.

A perplexidade foi maior porque o personagem que acendeu o pavio da bomba, o deputado Eduardo Cunha, conta com a rejeição universal e até mesmo visceral da sociedade.


De acordo com o consultor político Murillo de Aragão, as chances de que o processo termine com a saída de Dilma Rousseff são de 50%, a mesma porcentagem que nas redes sociais divide os favoráveis e os contrários ao impeachment.

A bomba, porém, explodiu e não há como voltar atrás. Resta apenas esperar o resultado. Algo, porém, já parece se esboçar: o gesto suicida de Cunha fará com que o país não volte a ser o mesmo.

E não será, ganhe ou perda Dilma.

Desse estouro, que metade do país aplaude e outra metade reprova, poderia sair um Brasil diferente. E como em todas as convulsões políticas e sociais, é difícil saber se será melhor ou pior. Sairá mais unido ou mais rachado?

Se Dilma Rousseff permanecer porque o Congresso a absolveu, nem ela nem seu Governo poderão ser os mesmos. Muitas coisas terão que mudar para que ela recupere, por exemplo, sua popularidade que hoje é de apenas 10%. E para voltar a unir uma sociedade dividida.

A presidenta terá de reconstruir a alquebrada maioria no Congresso; terá que dar uma guinada em seu Governo, pois o processo deixará feridas entre os partidos que demorarão a cicatrizar.

Ela terá de apresentar ao país um projeto claro e rápido para recuperar a economia que afunda e cujo índice de desemprego atinge 20% da juventude.

Ela terá de esclarecer as relações com seu partido, o PT, assim como com seu mentor, o ex-presidente Lula, para que não haja dúvidas sobre quem governa o país.

Terá de ficar claro para os cidadãos comuns que a fórmula maldita de oferecer cargos e regalias para comprar o apoio de partidos e de congressistas (um pecado que está na raiz de tantas ilegalidades) sairá para sempre de sua agenda.

Terá de saber conquistar aqueles brasileiros que a levaram ao poder e que hoje confessam estar arrependidos.

Terá de demonstrar que estão errados aqueles que hoje a acusam de não se interessar pela política. Terá de aprender a ouvir mais e sem excessiva irritação. Terá de aceitar que nem sempre acertou no passado.

Dilma Rousseff não poderá ser a mesma se sair ilesa da guerra. Nem o país será o mesmo se ela tiver de deixar o comando. Os vencedores deverão demonstrar que têm uma fórmula melhor e mais segura para estancar com urgência a hemorragia da economia.

Terão de convencer o país de que eles saberão distribuir melhor a riqueza e que são capazes de oferecer um plus de realismo e de eficiência para gerenciar o Estado sem arruiná-lo novamente.

Terão de demonstrar que contam com a força e a lealdade no Congresso que faltou a Dilma. Que têm claro o caminho para uma alternativa melhor.

Terão de demolir com fatos a acusação de que o que pretendiam era apenas afastar a presidenta para ocuparem seu lugar e continuar com as mesmas falcatruas e as mesmas ambiguidades.

Terão, em primeiro lugar e acima de tudo, de conseguir pacificar a sociedade mostrando que sabem governar para todos usando mais as armas do diálogo do que as da guerra.

Os próximos meses, até que se conheça o resultado da bomba que Cunha se empenhou em fazer explodir, serão decisivos para saber que país emergirá desses escombros. Se melhor ou pior, mais unido ou mais dilacerado, com maior ou menor esperança e entusiasmo.

Dizem que existe quem seja capaz de escrever certo por linhas tortas. Oxalá que, com qualquer resultado do impeachment, o Brasil seja capaz de surpreender a si mesmo. Sem esquecer que é geralmente melhor não o que mais cacareja que ama o país, mas o que melhor sabe demonstrá-lo com fatos. E com menos desperdício de dinheiro público e de palavras vazias.

A política precisaria de mais silêncio e reflexão. De menos algazarra e menos brigas de galos. De menos fariseus vociferantes e mais samaritanos dispostos a curar com amor as feridas dos que sempre acabam esquecidos.

Todo o resto é apenas lixo.

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