sábado, 23 de maio de 2026

A equação para sanar rombo bilionário no banco de Edir Macedo se reflete na corrida ao Planalto

O Republicanos ainda não decidiu quem vai apoiar para presidente esse ano porque há um assunto mais importante para o partido controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus resolver que nada tem a ver com palanques regionais ou posicionamentos religiosos de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A cúpula da legenda está focada em salvar o Digimais — o banco controlado pelo bispo Edir Macedo com rombo estimado em R$ 8,5 bilhões — , e talvez a neutralidade seja o melhor caminho para que o objetivo seja alcançado.


Desde a Semana Santa, a histórica postura da Universal contra o PT mudou de tom. Embora tenha passado o mês de março anunciando que enviaria um recado crítico para a esquerda nos eventos da Sexta-feira da Paixão em estádios lotados pelo Brasil, nada disso aconteceu. Pelo contrário, de lá pra cá o presidente do Republicanos, o bispo licenciado Marcos Pereira, passou a dar entrevistas cogitando não apoiar Flávio na corrida presidencial — uma aliança, em tese, natural devido à maior aceitação de nomes da direita no segmento evangélico.

Dias depois da Páscoa, foi divulgada pela imprensa a negociação para o BTG Pactual de André Esteves comprar o Digimais, que previa um aporte de R$ 7 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para que a operação avançasse. Simultaneamente, voltou a entrar no cálculo da Universal a necessidade de manter boa relação com o Palácio do Planalto. Embora privado, o FGC tem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal como membros. Há casos em que a palavra do governo vale ainda mais para colocar de pé as operações do fundo. Desde o mês passado por exemplo, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), está aguardando resposta do Tesouro Nacional a um pedido de aval para um empréstimo de R$ 6,6 bilhões do FGC para socorrer o Banco de Brasília (BRB) após a exposição a carteiras de créditos podres do Banco Master.

O escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro tornou complexa qualquer operação de resgate a bancos neste momento no Brasil — o que dificulta a vida do Digimais. Há duas semanas, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro da Fazenda Dario Durigan indicou que seria difícil o governo federal ajudar o BRB e que a situação financeira da instituição era um problema do Distrito Federal. Nas suas falas aos jornalistas, Durigan estava mais disposto a passar a mensagem que o caso Master era grave do que em apontar saídas para instituições financeiras enroladas.

Nos últimos dois meses, o noticiário envolvendo o Digimais expondo suspeitas de operações fraudulentas atrapalhou ainda mais os planos de Macedo. Em março, a Revista piauí revelou um modus operandi fraudulento do Digimais semelhante ao do Master. Uma dessas irregularidades está sendo analisada na 13ª Vara de São Paulo em ação movida pelo fundo EXP1, que acusa o banco da Universal de vender R$ 650 milhões de reais em carteiras de crédito falsas. Essa semana, o Estado de S. Paulo mostrou que há repasses de carteiras do Digmais para outras instituições com cerca de 60% de inadimplência.

Diante da resistência do FGC de avançar no resgate do Digimais nos termos negociados com o BTG Pactual, Macedo está disposto a fazer ele próprio um aporte de R$ 1,5 bilhão no banco. Em dezembro do ano passado, o fundador da Universal já havia feito esse movimento ao injetar R$ 250 milhões para reforçar o capital da sua própria empresa.

A relação de Macedo com o mercado financeiro começou em 2009, quando adquiriu 40% de participação do então Banco Renner. Em 2020, comprou todo o banco, mudando seu nome para Digimais, e colocou o bispo João Urbanela para dirigi-lo. Após dois anos, uma instituição de finanças sólidas na era Renner passou a dar prejuízo — em 2022, o balanço do banco apontou um vermelho de R$ 740 milhões no caixa.

Enquanto não resolve a situação do Digimais e o que fará na eleição, o Republicanos segue deixando correr soltas as especulações sobre o seu futuro. Nos últimos dias, integrantes da sigla começaram a falar da possibilidade do senador Cleitinho Azevedo se lançar ao Planalto. Cleitinho é o líder nas pesquisas para o governo de Minas Gerais, mas ninguém no estado acredita que ele será candidato de fato. Para a Presidência da República, menos ainda.

Thiago Prado 

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