sexta-feira, 20 de março de 2026

Jovens cheios de mofo

Está encostada para trás na cadeira. A grande barriga empinada debaixo do vestido com flores garridas. As mãos sobre o ventre, talvez auscultando os movimentos aquáticos do bebé ou tentando medir os tremores das primeiras contrações do fim da gravidez. Tem uns olhos azuis líquidos que chamam a atenção, longo cabelo dourado caído sobre os ombros e uma boca cor-de-rosa de lábios inchados pela gestação. Ele senta-se, pousando o chá, que ela insiste em saber se é de framboesa, por ter visto na internet que era bom para as contrações. “É de frutos vermelhos”, vai repetindo ele, com um ar um pouco perdido, o bigode fino nervoso por cima dos lábios, as mãos fingindo procurar qualquer coisa nos bolsos da parka verde-escura, antes de se sentar diante dela, sem nenhum sinal de intimidade ou carinho. Os dois tensos, com aquela barriga entre ambos e uma pequena mesa redonda, onde ficaram pousados os chás.

Sem mais conversas de circunstância, como se se tivessem ali sentado para aquele exercício, ele começa a debitar o que, vou percebendo à medida que o oiço, são as melhores qualidades dela. “Tens muito sentido de humor… para rapariga. É uma coisa rara nas raparigas.” Ela acena vagamente com a cabeça, a mão ainda afagando o ventre, enquanto ele discorre sobre como ela tem aquela característica que ele acha que falta às mulheres em geral. “És muito boa mãe. Consegues sempre acalmá-la. Não é porque tens muita paciência. Às vezes, também gritas.” Ela encolhe os ombros e lança-se para a frente. “A minha paciência tem limites”, exaspera-se. “Sim, mas tu és melhor a lidar com ela, porque é como se soubesses sempre aquilo de que ela precisa. Tens instinto”, conclui, antes de rematar com a qualidade que deixou para o fim. “Cuidas de ti. Há mulheres que se desleixam depois de serem mães, tu não.”

Fico em suspenso. Estou sentada demasiado perto da mesa deles. É-me impossível não ser testemunha deste momento, que talvez tenha acontecido depois de uma consulta de terapia de casal ou talvez seja, tal como o chá de framboesas, o resultado de uma pesquisa na internet que aconselhou este exercício. Estou sentada ao lado dele, quase como se partilhássemos a mesa os três. Tenho-a à minha frente. E olho-a à espera que ela perceba o mesmo que eu.

Enquanto o ouvia falar, foi-me completamente evidente o desprezo dele pelas mulheres, em geral, e a total ausência de encantamento com aquela que tinha à frente, em particular. Era como se cada elogio que lhe veio à cabeça só o fosse na medida em que a distinguia dessa entidade coletiva una que ele acredita serem “as mulheres” ou “as raparigas”. As suas qualidades resumiam-se ao que a tornava menos próxima do que ele acha serem as mulheres em geral, com exceção apenas para aquele instinto “maternal”, que ele deve achar que vem no pacote biológico. E nesse desenho, feito em negativo, não havia uma única singularidade, uma exaltação, um espanto. Ela era uma sombra recortada de uma amálgama de mulheres. Boa apenas por ser diferente das outras. Não por ser única. Mas por não ser mais uma.

Fiquei à espera que o esgar que as ligeiras contrações lhe provocavam se transformasse numa expressão de revolta ou enjoo, que lhe atirasse para cima a pequena mesa redonda e saísse carregando com as mãos a pesada barriga dentro do vestido de veludo preto e flores garridas. Mas ela ficou, quase impávida. Talvez colada à cadeira pelo peso daquele ventre, debitou sem emoção qualidades do parceiro, que repetiam mais ou menos o que ele tinha dito, sem a comparação com os outros espécimes do género masculino. “Tens sentido de humor. És bom pai”, dizia, sem expressão, enquanto eu me levantava de olhos baixos, envergonhada por ser testemunha daquela desistência, sabendo que são tantos os momentos em que desistimos e que eles não nos definem, mas devem ser mantidos secretos e, se possível, sem testemunhas que os julguem.

Saí dali com um nó no estômago e a remoer naquilo que tinha ouvido. Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu? Mesmo seguindo dicas de autoajuda pós-modernas, são só uma repetição de uma cena antiga: homem e mulher reproduzem-se em conjunto e desistem do amor. Mas talvez eu esteja enganada e o amor seja uma coisa antiga, inventada para as fotonovelas que encontrei na casa do meu bisavô quando era criança e me davam vontade de rir. Sim, aquele lado mecânico e desistente da conversa tinha-me incomodado. Mas o pior não era isso. O pior era ver aquele rapaz a fazer enunciados sobre as mulheres. No fundo, era isso que me tinha feito mossa. Senti-me traída na ideia de que num futuro qualquer essas ideias gastas sobre o que é ou não feminino fossem só uma caricatura ou, na pior das hipóteses, usadas para teses gerais, nunca para definir a parceira.

Mais uma vez, a realidade mostrou-me que as estatísticas estão certas, contra todas as minhas esperanças. Um estudo do Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, com mais de 23 mil inquiridos em 29 países, revelou que um terço dos homens nascidos entre 1997 e 2012 acredita que as mulheres devem obedecer ao marido, 33% acham que o marido deve ter a palavra final em decisões importantes, quase um quarto acredita que as mulheres não devem parecer independentes e 21% defende que elas não devem tomar a iniciativa sexual. Curiosamente, todas as notícias que encontrei sobre o tema usavam o adjetivo “conservadora” para descrever esta Geração Z. A mim parece-me que “machista” seria muito mais adequado.

Estas visões sobre o papel dos géneros são o reflexo de ideias antigas, sim, mas acima de tudo patriarcais. Elas têm um intuito político e tentam recuperar uma ideia de “guerra dos sexos” que devia estar completamente ultrapassada. A crescer numa sociedade em crise permanente, esmagados pela crescente desigualdade e por uma ausência de horizonte de esperança, os jovens rapazes são iludidos com a ideia de que estão a perder terreno para as mulheres. Vivem precários e sem esperança? A culpa é delas, que passam de seres humanos em pé de igualdade para objetos de consumo para validação pessoal ou inimigas simbólicas, culpadas de todos os males.

No Brasil, a Polícia Federal anunciou, esta semana, a abertura de inquéritos aos autores dos vídeos Treinando caso ela diga não, que basicamente mostram homens ajoelhados com um anel na mão, que começam aos murros e aos pontapés, para treinar a reação violenta à rejeição. O ódio que é semeado, vídeo atrás de vídeo misógino, pelo algoritmo da indignação, garante que ficam suficientemente adormecidos para não se aperceberem de como são explorados e oprimidos por um sistema controlado por um punhado de multimilionários.

Esses machos alfa, inchados de testosterona e creatina, gastam assim contra as mulheres a revolta que devia fazê-los questionar a sua condição, levando-as também a encolher-se e a desaparecer como agentes políticas. Todos domesticados por um sistema que oculta a desigualdade e a injustiça, entretendo-nos com o ódio. Até quando vamos deixar-nos manipular desta forma?

Margarida Davim

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