quarta-feira, 1 de abril de 2026

É proibido esquecer o esquecimento

Com a chegada da primavera, dos dias maiores e com sol, é fácil esquecermo-nos, levianamente, do que aconteceu no último inverno. Não me refiro ao “comboio de tempestades”, aos ventos de mais de 200 km/hora da depressão Kristin ou às cheias como há muito não se viam no Mondego, no Tejo e no Sado. Tudo isso, decerto, ficará nas nossas memórias por muito tempo – pelo menos, até sermos obrigados a enfrentar algo de parecido que sirva como termo de comparação. Refiro-me, isso sim, às populações que, em vários pontos do País, se sentiram esquecidas nesses dias, semanas, em que o céu literalmente desabou sobre as suas cabeças, levou os telhados das suas casas e deixou tantos sem eletricidade, sem vias de comunicação e até sem acesso a água potável.


Embora seja fácil esquecer, a verdade é que não podemos esquecer esses dias de abandono, que milhares sentiram, com as tempestades. E, acima de tudo, não podemos esquecer quem os esqueceu nesses momentos. Especialmente se, por causa da guerra, do aumento do preço dos combustíveis, do regresso da inflação e tudo o mais que a loucura de Trump está a fazer regressar ao mundo, voltarmos a esquecer esses dias de insuportável esquecimento, a que foram votadas essas populações.

Quem, no final de janeiro e de fevereiro, calcorreou muitos desses locais, alguns deles até bem próximos da Grande Lisboa, sede de todos os poderes, percebeu, sem esforço, o abandono em que se sentiram muitas daquelas populações. Até porque foi um abandono a vários níveis: não as informaram, devida e prontamente, em relação à força dos ventos, nomeadamente da Kristin; deixaram-nas isoladas para lá do suportável, nos primeiros dias, como se o resto do País já tivesse regressado à normalidade, após uma noite de chuva e de vento; permaneceram, durante mais dias do que seria admissível, no limbo daquele tipo de esquecimento que é alimentado com promessas de soluções rápidas – mas que demoram demasiado tempo a concretizar-se. Se voltarmos a esquecer essas populações e esses territórios, por causa de novas emergências que tudo ofuscam à sua volta, teremos um futuro traçado: uma clivagem ainda mais profunda na unidade de um território continental, em processo de divisão acelerada entre o País habitado e o País desertificado. Mas não só. É também a divisão entre o País que está continuamente no centro da atenção mediática e o outro que apenas consegue chamar a atenção por causa das tragédias que se abatem sobre as suas gentes. E, no fundo, a divisão entre o País que concentra o poder e o País que tem sido esquecido pelos poderes.

Grande parte desta reflexão surgiu-me depois de ter lido o livro Inteligência do Lugar, agora lançado pelo geólogo e professor universitário Carlos Alberto Cupeto, que é também colunista regular da VISÃO. Nessa obra, em que preconiza a importância dos lugares e da vida local como antídoto para um “colapso global”, provocado pelo esgotamento dos recursos do planeta e dos efeitos das alterações climáticas, ele tem uma frase que me deixou a pensar: “Os lugares sabem mais do que nós sabemos deles.”

É verdade. E, como sabemos, se a Natureza molda as pessoas, também as pessoas são moldadas pelos lugares e pela sua memória. Como escreve Cupeto, a inteligência do lugar é aquela que “vive nos gestos, nos cheiros, nas estações do ano”. Afirma também que ela se manifesta através de rotinas, que passam de geração em geração: “É o saber quando semear, onde recolher a água da nascente, como ler o céu ao fim da tarde para saber se vai chover. É um saber que não é nosso, mas que pertence ao lugar. Nós apenas o escutamos. E, se formos humildes, aprendemos.”

Perceber a inteligência do lugar é fundamental para criar comunidades fortes, enraizadas no território e que sabem responder aos desafios – e que não se limitem a ficar à espera de que outros corram em seu auxílio. Aquilo de que precisamos, cada vez mais, é de comunidades livres e participativas, com uma voz que lhes permita ser ouvidas e respeitadas.

Num mundo em que os algoritmos cavam e lucram com as divisões, em que se volta a instituir, no plano internacional, a lei do mais forte, e em que crescem os sentimentos de rejeição em relação aos “outros” – sejam eles quais forem –, é mais do que nunca necessário voltarmos a ligar-nos ao território em que habitamos, aos lugares que formaram as nossas memórias e à sabedoria avassaladora da Natureza – que será sempre mais forte do que nós. É por isso que, mesmo nesta primavera alegremente ensolarada, não podemos esquecer-nos dos esquecidos do último inverno. Até porque, se não fizermos nada e persistirmos na atitude de sempre, na próxima catástrofe natural pode ser qualquer um de nós a ficar esquecido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário