quinta-feira, 2 de abril de 2026

Antes de julgar, compreender

“Julgar é, evidentemente, não compreender, pois se compreendêssemos, não poderíamos julgar.” A frase de André Malraux, escrita em 1928 em Les Conquérants, ecoa com uma atualidade desconcertante. Quase um século depois, continuamos reféns de uma máquina de julgar que funciona a todo o vapor, enquanto a compreensão permanece na estação, à espera de um comboio que nunca chega.


Basta olhar em redor. Ou, mais desconfortável ainda, olhar para dentro. No casal, o parceiro chega atrasado e imediatamente saltamos para o veredito: “É irresponsável”, “Não se importa comigo”. Raramente nos ocorre perguntar: “O que se passou? Estás bem?”. Na família, o filho adolescente fecha-se no quarto e lá vamos nós: “É preguiçoso”, “Só quer saber dos amigos”. Quantos de nós tentaram verdadeiramente entender o turbilhão emocional que ele atravessa?

No trabalho, o colega não entrega o relatório a tempo. Julgamos: “É incompetente”, “Não leva o trabalho a sério”. E se estiver sobrecarregado? E se houver algo na vida pessoal que o esteja a consumir? Entre amigos, a situação repete-se. Deixamos de receber mensagens e rapidamente concluímos: “Já não se importa com a nossa amizade”. Antes de perguntar: “Tenho notado que estás mais ausente. Está tudo bem?”.

A tirania da razão rápida

O problema é que julgamos porque é fácil. Julgar é rápido, económico em termos de energia emocional. Exige apenas um instante e uma pitada de certezas. Compreender, por outro lado, é caro. Exige tempo — muito tempo. Exige disponibilidade para estar verdadeiramente presente. Exige empatia, essa capacidade tão rara de nos colocarmos no lugar do outro sem perdermos o nosso. Exige escuta ativa, aquela que silencia a nossa voz interior para dar espaço à do outro.

Preferimos a razão ao entendimento porque a razão nos dá uma falsa sensação de controlo e de superioridade moral. Quando julgamos, posicionamo-nos no lugar do juiz, do detentor da verdade. Quando tentamos compreender, aceitamos a nossa ignorância, a nossa vulnerabilidade. Admitimos que não sabemos, que precisamos de aprender sobre o outro.

A sabedoria de Montaigne sobre o julgamento

Quatro séculos antes de Malraux, Michel de Montaigne já alertava para esta dificuldade humana nos seus Ensaios. “É coisa difícil estabelecermos o nosso julgamento contrariando as ideias comuns”, escrevia o filósofo francês, reconhecendo como estamos presos aos preconceitos e às primeiras impressões.

Montaigne ia mais longe, confessando: “Não detesto as opiniões contrárias às minhas. Estou muito distante de me assustar ao ver discordâncias entre os meus julgamentos e os dos outros.” Esta humildade intelectual — a capacidade de aceitar que o nosso julgamento não é infalível — é precisamente o que nos falta hoje. Em vez de nos sentirmos ameaçados pelas diferenças, deveríamos vê-las como oportunidades de alargar a nossa compreensão.

O ato de ensaiar — forma literária que Montaigne inventou — era, ele próprio, um exercício de humildade. Ensaiar é tentar, testar, explorar sem pretensão de verdade absoluta. É o oposto do julgamento sumário. Se cultivássemos esta arte do ensaio nas nossas relações, quantos conflitos evitaríamos?
Espinosa: compreender em vez de condenar

Mas é em Baruch Espinosa que encontramos talvez a formulação mais poderosa desta filosofia da compreensão. A sua famosa máxima — “Não rir, nem lamentar-se, nem odiar, mas compreender” — resume um programa ético para a humanidade.

Espinosa não acusa; talvez por isso o tenham chamado de imoral na sua época. Ele quer compreender para poder agir, não para julgar e condenar. Esta posição foi revolucionária: enquanto a moral tradicional se fundava no julgamento do bem e do mal, Espinosa propunha uma ética baseada na compreensão das causas e das necessidades.

Na sua Ética, Espinosa explica que “nos esforçamos, não é senão por compreender; e a mente, à medida que utiliza a razão, não julga ser-lhe útil senão aquilo que a conduz a compreender”. Ou seja: a verdadeira razão não serve para julgar, mas para compreender. Quando usamos a razão para condenar, estamos, na verdade, a traí-la.

Para Espinosa, quando compreendemos as causas que levam alguém a agir de determinada forma, deixamos de reagir com ódio ou desprezo. Passamos a ver a pessoa não como “má” ou “boa”, mas como parte de uma rede complexa de causas e efeitos. Isso não significa justificar tudo, mas sim libertarmo-nos das reações passionais que só geram mais sofrimento.
A revolução da Comunicação Não Violenta

É aqui que a Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg nos anos 60, surge como uma bússola para esta mudança de paradigma. A CNV ensina-nos a separar observação de avaliação, a identificar sentimentos e necessidades — as nossas e as dos outros — e a fazer pedidos claros em vez de exigências.

Em vez de “Tu és um egoísta” (julgamento), a CNV convida-nos a dizer: “Quando chegaste uma hora depois do combinado sem avisar (observação), senti-me desrespeitada e ansiosa (sentimentos), porque preciso de segurança e consideração (necessidades). Podes comprometer-te a enviar uma mensagem da próxima vez? (pedido).”

A diferença é abismal. O primeiro fecha portas, gera defesa e contra-ataque. O segundo abre espaço para o diálogo e para a compreensão mútua.

Por que continuamos a julgar?

Se Montaigne, Espinosa e Malraux nos alertaram, se a CNV nos oferece ferramentas práticas, porque continuamos presos ao julgamento?

A resposta está na nossa biologia e na nossa cultura. Evolutivamente, o cérebro humano desenvolveu mecanismos rápidos de avaliação para sobreviver. Julgar se algo é perigoso ou seguro, amigo ou inimigo, era essencial na savana africana. Mas o que nos salvou dos predadores tornou-se o nosso próprio predador nas relações sociais.

A cultura digital amplificou este problema. As redes sociais recompensam julgamentos rápidos, condenações sumárias, cancelamentos. Não há tempo nem espaço para a nuance, para a compreensão, para o ensaio. Ou estás connosco ou contra nós. Quem erra é eliminado, não educado.

Além disso, julgar dá-nos uma ilusão de controlo. Se o outro é “mau” ou “incompetente”, o problema está nele, não em nós. Se compreendêssemos, teríamos de aceitar a nossa própria vulnerabilidade, a nossa incapacidade de controlar o mundo. Teríamos de aceitar que somos todos, em última análise, produtos de circunstâncias que não escolhemos — como Espinosa tão bem entendeu.

O custo do julgamento

O julgamento tem um custo altíssimo que raramente calculamos. No casal, cada julgamento é uma pequena traição à confiança. Na família, é um muro que se ergue entre gerações. No trabalho, é um veneno que contamina o clima organizacional. Entre amigos, é uma lâmina que corta os laços.

Mas o custo mais alto é para nós próprios. Cada vez que julgamos, empobrecemos a nossa própria humanidade. Fechamo-nos numa prisão de certezas que nos impede de crescer. Perdemos oportunidades de aprender, de nos surpreender, de nos conectarmos verdadeiramente com o outro.
Mudar o mundo, uma conversa de cada vez

Malraux tinha razão: compreender é o antídoto para julgar. E num mundo cada vez mais polarizado, onde as redes sociais amplificam julgamentos sumários e cancelam sem apelo nem agravo, esta sabedoria é mais urgente do que nunca.

A boa notícia é que não precisamos de mudar a humanidade inteira. Precisamos apenas de começar por nós. No próximo confronto com o parceiro, antes de atacar, perguntemo-nos: “O que estará ele a sentir? Que necessidade não está a ser atendida?”. No trabalho, antes de criticar o colega, tentemos entender os obstáculos que ele enfrenta. Com os amigos, antes de nos afastarmos por um mal-entendido, levantemos o telefone e perguntemos: “Está tudo bem?”.

Podemos começar por praticar a humildade de Montaigne, aceitando que o nosso julgamento não é infalível. Podemos adotar a postura de Espinosa, buscando compreender antes de reagir. Podemos usar as ferramentas da CNV para transformar julgamentos em pedidos de conexão.

Cada vez que escolhemos compreender em vez de julgar, estamos a fazer uma pequena revolução. Estamos a dizer ao outro: “Tu importas. A tua experiência, as tuas vivências são válidas. Quero entender-te! Preciso de te conhecer!” E, no fundo, não é isso que todos procuramos? Ser vistos, ouvidos, compreendidos.

O mundo não vai mudar por decreto. Vai mudar conversa a conversa, relação a relação, escolha a escolha. Como escreveu Espinosa, a mente só julga útil aquilo que a conduz a compreender. Talvez seja altura de levar esta lição a sério.

A pergunta que fica é: hoje, vais julgar ou vais tentar compreender?

Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, costumava dizer: “Se pensarmos que as pessoas são más, vamos querer puni-las. Se pensarmos que as pessoas têm necessidades não atendidas, vamos querer ajudá-las.” Talvez seja altura de levar esta lição a sério.

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