Na planilha, a Anthropic planeja chegar ao azul em 2028 — daqui a dois anos. A OpenAI, em 2030. Para chegar ao azul, a primeira companhia espera gastar US$ 22 bilhões de seus investidores. Fazer inteligência artificial é bastante caro. A OpenAI, que pretende chegar dois anos depois ao azul, acredita precisar gastar US$ 200 bilhões. Fazer IA pode ser até muito mais que bastante caro. E, até aqui, os dois modelos das duas companhias, Claude e GPT, são equivalentes. É virtualmente impossível, para quem usa ambos pesadamente, dizer que um é realmente melhor que o outro. Então onde está a diferença? O que se compra com US$ 200 bi que US$ 20 bi não pagam?
Na última semana, a OpenAI tirou do ar o Sora, seu modelo de vídeo por inteligência artificial. Quando foi lançado, há um ano, era o mais revolucionário sistema para criar vídeos. Hoje, pelo menos dois modelos chineses são superiores, e o VEO, do Google, é melhor em alguns aspectos. Mas, graças ao Sora, a Disney havia se comprometido a investir US$ 1 bilhão na companhia. Ainda assim, os números não fecham.
O negócio da inteligência artificial gasta dinheiro de duas maneiras. Uma é treinando um modelo — qualquer modelo. Modelo de texto, de música, de imagem, de vídeo. Muito caro e, quanto mais sofisticado, mais caro. Mas esse é o custo pequeno. O custo realmente alto está no uso. Uma pergunta a uma IA de ponta pode custar até 50 vezes uma pergunta feita ao Google. E o preço já caiu. Em 2023, chegava a cem vezes. Esse valor é uma soma de eletricidade para processamento e refrigeração, custo do equipamento e o necessário para operar um data center.
Então, qual a diferença entre OpenAI e Anthropic? A diferença é que todo mundo já ao menos ouviu falar do ChatGPT, mas só quem está um pouco mais atento conhece o Claude. No fim, é isso que US$ 180 bilhões compram. A OpenAI teve sorte e, dentro dessa sorte, desenhou uma estratégia. A sorte foi o ChatGPT.
Um modelo de linguagem pode ter muitos usos distintos. Poderia ser um botão para resumir textos, uma janela de busca para encontrar respostas. Quando ligou seu modelo GPT a uma janela de chat, a OpenAI bolou um truque para demonstrar o potencial da tecnologia. Só que o ChatGPT deu muito certo. O jeito de demonstrar se tornou tão popular que, para muita gente, IA só existe na forma de chat. E o termo ChatGPT virou uma marca com a força de Gilette ou Google. É sinônimo de uma tecnologia.
A maneira tradicional de empresas do Vale do Silício crescerem é pegar dinheiro dos investidores e usar para atrair uma base extensa de clientes. A esperança é que, quando reunir gente o suficiente, via propaganda ou assinatura, o investimento se paga. Busca virou negócio assim, redes sociais idem. Só que IA é muitas vezes mais cara.
Ainda assim, nos primeiros dois anos, a OpenAI não economizou recursos. Desenvolveu um excelente modelo de linguagem, um excelente modelo de imagem, um excelente modelo de vídeo e fez bastante para que todos pudessem usar de graça. Gastou ainda outro tanto comprando uma empresa que desenhará máquinas de IA — para os ouvidos, para as mãos, para pendurar no pescoço ou colocar na cara. Ninguém sabe bem como serão.
Enquanto isso, a Anthropic foi crescendo devagarinho, buscando principalmente clientes corporativos. Investindo quase inteiramente num modelo de linguagem, sem imagem, sem vídeo. Com o objetivo principal não de resolver as dúvidas de pessoas físicas, mas de encarar os dilemas de grandes empresas. Sua aposta foi no mercado corporativo. Assim, tendo gastado incrivelmente menos, com uma conta gratuita muito limitada, o Claude chega a 2026 tão bom quanto o GPT, e a Anthropic muito mais competitiva que a OpenAI.
Não está dado que a empresa mais famosa perderá a partida, mas ela está em maus lençóis. Tentou oferecer um GPT gratuito com propaganda — e a concorrente fez propaganda ironizando. Pegou tão mal a ideia de pôr publicidade na IA que a OpenAI voltou atrás. Ao menos por enquanto.
O dinheiro do Vale do Silício é enorme, mas tem limite. A OpenAI depende, como nunca, de o mundo adotar IA o mais rápido possível.
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