segunda-feira, 30 de março de 2020

Aberta a Era do atravessar para o outro lado da rua

A fila na farmácia não é grande. Três pessoas aguardam à porta, encostadas aos dois postes de sinalização de trânsito. O olhar é de resignação ou, melhor, de compreensão. Foi sabiamente instilado um medo coletivo que nos levou a uma aceitação como que de uma nova condição humana: o Homo Hygienicus.

Foi um longo processo em que nos fomos afastando da rua, pensando que ela era cada vez menos segura. Estava tudo errado, a rua até era mais segura que nunca, mas o medo foi denegrindo esse espaço social de excelência. O medo foi-nos retirando liberdade, desejando vigilâncias vídeo; desejando polícias brutalmente armados em cada zona mais frequentada; entrando e saindo de casa e dos centros comerciais de carro, sem ter a necessidade de por um pé que seja na rua. É verdade, estamos no momento certo para nos afastarmos. Somos agora seres afastados, mas desejosos de proximidade e de abraços.



Mais à frente, numa loja qualquer que ficou com a montra ainda a publicitar saldos que não têm lugar, as cartas acumulam-se logo à frente da porta de vidro. Não estão ali há muito tempo. O dono desse pequeno comércio ainda lá vai regularmente matar saudades e dizer a si mesmo que em breve abrirá, sabendo que não imagina se mente ou se sonha. Contudo, quer ele, quer todos os restantes, acham com a maior das naturalidades que esta era a única solução. Mais uma vez, resignados, fizemos o mais correto. E sim, foi e é o mais correto, por mais que nos invada uma nostalgia da proximidade e da rua, por mais que desejemos que esta fase de confinamento termine depressa – o que sabemos ser irreal, utópico, mesmo.

Hoje, todos estamos certos, sejamos dos que pulverizaram as redes sociais com narrativas de ódio e de medo, sejamos os que lutam contra elas, pugnando por um mundo livre e aberto. Hoje todos afirmamos que temos de ficar em casa. É a máxima igualdade levada ao altar do consenso através da real hipocrisia do método. Todos estão certos no final, mesmo sabendo eu que a forma de cá chegar foi doentia e desonesta.

Vivemos a “Era do Atravessar de Rua”. Não sabemos bem quando terminará, mas veio para ficar. Está a impor-se pelo medo do contágio, suportada pela distância da segurança social. Vamos no pequeno passeio que nos é mentalmente permitido para ir à farmácia ou buscar medicamentos, e atravessamos a rua se vemos vir alguém na nossa direção. É higiénico. É uma reação de segurança. É fruto do medo.

Aquilo que antes era apontado como forma de ofender, atravessar a rua para não se cruzar com alguém, é hoje afirmação de consciência, face aos inconscientes que seguem em frente e quase roçam no casaco do outro.

Mas o mais irónico e brutal é a forma como o perigo que é externo acaba por ser colocado em nós. Fosse o nosso inimigo um grande mamífero selvagem que nos fizesse frente… era mentalmente mais fácil lidar com esse risco. Mas não, o inimigo entra em nós, faz-se parte de nós e transforma-nos em risco. Já não é um inimigo externo, mas está potencialmente dentro de cada dos iguais a nós com que nos cruzamos. Ele torna a nossa espécie e o nosso “vizinho” impuros, indesejáveis, capazes de serem postos fora da comunidade. É a ratoeira mais inteligente em que uma espécie pode cair: ser colonizada, ser transformada em inimiga de si mesma.

Já fomos à Lua. Planeamos viagens e colónias em Marte. Fazemos Aceleradores de Partículas capazes de reproduzir os momentos imediatamente a seguir ao Big Bang. Mas somos completamente impotentes perante um ser minúsculo que é um vírus.

Bem, não será exatamente assim. Fosse esta mesma Pandemia há umas dezenas de anos e tudo seria brutalmente diferente. Pior; muito pior. Hoje temos formas de combate e de organização que nos colocam na melhor época possível para resistir a um ataque destes. Mas é sempre revelador da nossa impotência, da nossa incapacidade para a superar.

Afinal, somos apenas uma espécie que não está no topo da cadeia alimentar.

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