segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Pobreza na aposentadoria: como os pensionistas alemães se viram

Sentar num café e saborear um pedaço de torta é algo de que Hans Rudolf W. tem saudades, em sua vida de aposentado. Ele jamais imaginara que uma diversão tão inocente se tornaria um luxo fora de seu alcance financeiro.

Agora, o senhor de 77 anos passa a maior parte do tempo no apartamento que partilha com a esposa, na cidade renana de Bonn. Com seus sofás confortáveis e cortinas de renda, a residência de quarto e sala parece típica de um aposentado na Alemanha. Entretanto, o orçamento do casal é apertado, só dando para cobrir o básico, como comida, gastos acessórios e seguros.

"Desde que a minha mulher teve uma cirurgia no cérebro, ela não come muito. E eu também não como muito", comentou à DW. "Desse jeito, então, a gente consegue se virar."


Hans Rudolf W. começou a trabalhar assim que concluiu o curso médio, primeiro num banco, depois como taxista e zelador. Quando se aposentou, sexagenário, contudo, tudo o que lhe sobrou foi uma pensão mensal de 335 euros (1.536,89 reais), menos do que um terço do limite de pobreza no país.

Ele imediatamente requereu assistência do governo para prover suas necessidades básicas. Agora o Estado lhe paga cerca de 300 euros mensais e assume a metade do aluguel, e a previdência social da esposa cobre a outra metade.

Casos como este estão se tornando cada vez mais comuns na Alemanha, onde quase 17% dos aposentados correm o risco de cair na pobreza, e metade deles recorre à assistência governamental, segundo o Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW).

E os números só seguirão crescendo. Como no país as aposentadorias são diretamente subordinadas aos salários recebidos, quem sofrerá mais são os trabalhadores de meio expediente e os pequenos assalariados.

Por isso, neste domingo, os partidos da coalizão governamental se reúnem para finalizar um plano, a entrar em vigor em 2021, capaz de reduzir a carga de muitos cidadãos de terceira idade. O governo alemão concorda em implementar um nível básico de pensão para os baixos-assalariados que contribuíram para o sistema de aposentadoria por pelo menos 35 anos.

No entanto, as legendas políticas ainda estão debatendo um componente básico: a União Democrata Cristã (CDU), da chanceler federal Angela Merkel, quer verificar se os aposentados que se cadastrarem para a ajuda realmente precisam dela, ou se têm economias ou um parceiro financeiramente estável, por exemplo. O Partido Social-Democrata (SPD), minoritário na coalizão, esboçou originalmente o plano, e se opõe a essa sindicância.

Hans Rudolf W. deseja que o esquema de pensão básica seja aprovado, com ou sem a verificação. Ele já tem mesmo que provar que precisa da verba extra do governo, apresentando suas economias, seguros e confirmação de que não mais trabalha.

Para o pensionista, o mais importante é obter um incremento de renda suficiente para substituir a previdência de que depende, no momento. "Não fico constrangido de receber assistência do governo. No entanto, há sempre esse gosto meio amargo quando você diz que está recebendo previdência social."

Ele se considera afortunado, apesar das circunstâncias, pois, ao contrário de milhões de outros aposentados da Alemanha, não tem que recorrer ao banco alimentar. Às vezes, quando aparecem despesas extras que não pode cobrir, ele recorre a organizações assistenciais da comunidade local, que suprem necessidades como novas roupas ou colchões.

O mais importante é que não se sente isolado: ele tem filhos, netos e um bisneto que o visitam com frequência, conta, apontando para as prateleiras decoradas com fotos de parentes sorridentes. Ainda assim, seria um grande alívio para ele se qualificar para o esquema de pensão básica, tão logo seja introduzido, em 2021. "A primeira coisa que eu faria, é levar minha mulher à cidade. Faz tempo que a gente não vai lá."
Deutsche Welle

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