quarta-feira, 20 de maio de 2026

O bezerro da América

A inauguração aconteceu há dias no Trump National Doral, campo de golfe do presidente em Miami. A cerimónia foi dirigida pelo pastor Mark Burns, integrante do grupo Pastors for Trump, e outros religiosos, presentes na apresentação duma estátua dourada de 6,7 metros de altura. A estrutura, apelidada de “Don Colossus”, mostra Trump com o punho erguido. O projeto terá custado 450 mil dólares financiados por investidores de criptomoedas.

Supõe-se que estes religiosos certamente fizeram as suas orações ao deus Baal. O bezerro de ouro da América é Donald Trump, o alvo da idolatria de parte do espetro evangélico conservador dos EUA, que é uma das principais bases políticas do movimento MAGA. Só que, tal como a “divindade” que pretende adorar, é fake. Só é de ouro por fora, por dentro é de bronze.


O bezerro de ouro da tradição judaico-cristã, terá sido construído por Arão enquanto Moisés estava ausente no monte Sinai a receber as tábuas da lei. Provavelmente seria uma reprodução tosca da divindade egípcia Boi Ápis. Face às dificuldades iniciais do percurso no ambiente inóspito do deserto, embora livres, muitos hebreus pressionaram o irmão de Moisés a reproduzir a divindade egípcia, na ideia de reconduzir o povo de volta à terra de onde tinham sido libertados.

É a velha ambivalência entre liberdade e provisão. Ainda hoje muitos pensam que é melhor viver sob opressão e ter o pão mais ou menos garantido, do que assumir a liberdade e fazer pela vida, o que explica a presente emergência das autocracias por todo o mundo.

Em linguagem corrente, a expressão “bezerro de ouro” simboliza um falso ídolo, ou falso deus. Neste caso Trump representa o deus do nacionalismo cristão norte-americano que surge como “escolhido” por Deus. Por isso Trump tem intensificado cada vez mais a simbologia religiosa na comunicação política.

A verdade é que a inauguração da estátua provocou fortes reações contrárias no meio cristão americano e não só. A associação entre simbolismo religioso e apoio político foi a base das críticas, tendo alguns líderes evangélicos manifestado a sua frontal discordância ao considerar o ato como uma prática de idolatria.

Há muito que boa parte da igreja americana vendeu o seu direito de primogenitura, leia-se a sua legitimidade profética, qual Esaú, por um prato de lentilhas, isto é, pela proximidade do poder político. Por este andar vai acabar por ficar sem uma nem outra, ou seja, com uma mão sem nada e outra com coisa nenhuma.

Parece estar encontrado o “boi Ápis” da direita religiosa norte-americana. Aguarda-se que surja um Moisés contemporâneo que acabe com esta tonta blasfémia, e obrigue estes adoradores de bezerros a engolir o ouro derretido. O Moisés bíblico mandou derreter e misturar com água o ídolo profano, forçando-os a bebê-lo. Mostrou assim a impotência do Boi Ápis que passou pelo corpo do povo até ser defecado. Aquela beberragem desagradável funcionou como uma espécie de punição física, mas também como uma representação da amargura e das consequências da idolatria que Iavé abominava.

Ao menos o bezerro de ouro do Sinai era maciço, fundido a partir dos brincos, pulseiras e demais adornos de ouro que os hebreus haviam trazido durante o Êxodo, entregues pelos próprios egípcios em pânico, que se queriam livrar da maldição das pragas que se haviam abatido sobre o território.

Ainda assim, o bezerro de ouro dos hebreus não era falso como este, que só é dourado por fora, tal e qual como a figura humana que representa.

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