domingo, 23 de junho de 2019

As urnas acima de tudo

Nada há de novo na novidade da semana: o presidente Jair Bolsonaro é candidato à reeleição. E é meia-verdade dizer que isso contraria seu discurso de campanha, visto que já vinculava o fim da reeleição a uma reforma política com redução do número de congressistas. Discurso semelhante ao que sustenta agora, ainda que nem lá nem cá tenha conseguido mostrar qualquer relação de causa e efeito. Nada fez pela reforma. Por via das dúvidas, não desceu um só dia do palanque.

A extravagância da notícia é o contexto. Ela se dá diante de um governo em autocombustão, que começou e continua atrapalhado, que tem enorme dificuldade para se equilibrar nas cascas de banana por ele próprio lançadas. E de um presidente que, confessamente, diz “não ter nascido para o cargo” e que “não há dia feliz na Presidência”.

Feliz ou não, 20 dias depois de subir a rampa, o recém-empossado já replicava no Twitter a hashtag #Bolsonaro2022. Na época, para delírio do clã, seguidores chegaram a criar uma dinastia bolsonarista, com o capitão e os filhos eleitos e reeleitos até 2058. Brincadeiras, memes de redes sociais, mas que revelam o tamanho do apetite pelo poder.

Bolsonaro voltou ao tema em abril, quando disse que estaria sofrendo pressão para ser candidato. Sabe-se lá de quem ou de onde. Mas o frisson que o assunto reeleição provoca foi o suficiente para mexer com a direção dos holofotes, à época apontados para o filho Flávio e os rolos de Fabrício Queiroz, que até hoje continua fora do alcance da Polícia Federal.

Na quinta-feira, o presidente reincidiu, desta vez com ares messiânicos: “lá na frente todos votarão [em mim]”. Conseguiu com isso redirecionar as atenções, tirando o peso de sua última derrota no Senado, que, na prática, sustou seu decreto de flexibilização de posse e porte de armas de fogo. Uma pauta que lhe é caríssima. Mas pressa obsessiva em resolver com uma canetada o que só poderia ser feito por lei, acabou em tiros nos próprios pés.

Lançar uma “novidade” quando se quer mudar o vento tem sido um movimento repetitivo. Se a coisa aperta para o lado dele ou dos seus, Bolsonaro se lança em declarações polêmicas, faz pose com o seu estilo “sincerão”, inventa emergências. Não raro, conflitos.

Em todas as ocasiões que falou de reeleição, Bolsonaro associou o fim do instituto à reforma política. A diferença é que na campanha ele prometia ser o protagonista: “pretendo fazer uma excelente reforma política”, dizia.

Com experiência de quase três décadas de Câmara, sempre soube da inviabilidade de o Congresso votar contra si, quanto mais de reduzir o número de representantes, como o presidente diz defender. Ou seja, balela pura, lá atrás e agora.

Reeleição é bicho selvagem, indomável. Se por um lado lançar-se nela auxilia na ocupação de espaços, criando conteúdo (ainda que falso) para um governo que falha no ato principal que é o de governar, por outro deixa o presidente exposto.

Tudo, absolutamente tudo que fizer daqui para frente será eleitoral. Incontestavelmente eleitoral. São as urnas acima de tudo e todos.
Mary Zaidan

Pensamento do Dia


Xeque-mate

Em depoimento ao Congresso, Sergio Moro deu a volta por cima sobre os diálogos vazados com uma dúvida que percorre os meios jurídicos e políticos e aflige a sociedade: É para anular tudo? Soltar todos?

Ao responder ao senador Fabiano Contarato (Rede-ES) no depoimento ao Congresso, o ministro Sérgio Moro deu um xeque-mate não só na oposição e no Congresso, mas no Supremo, que julgará nesta terça-feira o pedido de suspeição de Moro e a consequente anulação de todo o processo que levou o ex-presidente Lula à prisão.

Delegado e professor de Direito, Contarato foi implacável ao citar a Constituição, o Código Penal e a Lei da Magistratura, enfatizou a imparcialidade de juízes como essência da democracia e condenou diálogos que Moro teria tido com procuradores: “Se eu, como delegado, fizesse contato com as partes de um inquérito, sairia preso da minha delegacia”.

Os questionamentos, pertinentes, geraram um momento de tensão, mas Moro deu a volta por cima com uma dúvida que percorre os meios jurídicos e políticos e aflige a sociedade: “O sr., então, quer que se anule tudo?”


O próprio Moro destrinchou o que seria esse “tudo”: anular todos os processos de governadores, parlamentares, empreiteiros, altos funcionários e doleiros condenados pela Lava Jato? Até dos pivôs Renato Duque e Paulo Roberto Costa? E devolver todo o dinheiro recuperado, algo próximo de R$ 3 bilhões, para esses condenados e para as empresas?

Xeque-mate, porque é disso que se trata nesse jogo de acusações entre os que condenam Moro pelos diálogos e os que podem até achar que não foram bonitos e corretos, mas nem por isso destroem as provas e o processo de julgamento por tribunais de segundo grau e, no caso do ex-presidente Lula, até pelo Superior Tribunal de Justiça, o STJ. O efeito, inclusive político, da anulação de “tudo” seria devastador.

O alerta de Moro vale para o Supremo, mais precisamente para a Segunda Turma, que se reúne na próxima terça-feira, pela primeira vez sob a presidência da ministra Cármen Lúcia, para tratar desse “tudo”. É nessas horas que eu não gostaria de estar na pele desses ministros, sofrendo enorme pressão de fora, de dentro e, em alguns casos, da própria alma, ou coração.

O pedido de suspeição de Moro, feito pela defesa de Lula em 2018, ganhou força e impacto com a revelação dos diálogos captados do celular do procurador Deltan Dallagnol. A PGR já se manifestou contra a suspeição de Moro e a anulação do processo, até porque há dúvidas sobre a veracidade integral e a abrangência dos diálogos. Mas a situação continua muito complexa.

Em votação anterior, Cármen Lúcia e Edson Fachin já se manifestaram contra a petição, mantendo as decisões de Moro e a condenação de Lula. Eles, entretanto, podem mudar o voto até a publicação do acórdão com a conclusão do julgamento e teriam, em tese, como alegar que surgiram “fatos novos”, ou seja, as revelações do site.

Logo, o julgamento recomeça, na prática, do zero a zero, sem comportar uma saída estratégica e um alívio para os cinco ministros: empurrar o abacaxi para o plenário. Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski já tentaram isso antes e perderam. Não há como retomar a discussão.

Como o decano Celso de Mello é um “garantista” empedernido, a aposta seria de três votos a favor da anulação e dois contra. Só que decisões do STF jamais são simples assim, como uma continha aritmética. Anular “tudo” seria o fim do mundo, uma convulsão. Qual a aposta? Ou uma alternativa de meio termo, menos dramática que esse “tudo”, ou empurrar com a barriga.

PS: Aliás, investigadores acham que Lula e o PT, os beneficiados mais diretos dos diálogos de Moro, não foram os responsáveis pela invasão das contas de autoridades, que é crime. As suspeitas recaem sobre os próximos da fila da Lava Jato. Têm muito dinheiro e poder e não são partidos nem políticos. A ver.

Ambição e poder

Examinemo-nos no momento em que a ambição nos trabalha, em que lhe sofremos a febre; dissequemos em seguida os nossos «acessos». Verificaremos que estes são precedidos de sintomas curiosos, de um calor especial, que não deixa nem de nos arrastar nem de nos alarmar. Intoxicados de porvir por abuso de esperança, sentimo-nos de súbito responsáveis pelo presente e pelo futuro, no núcleo da duração, carregada esta dos nossos frêmitos, com a qual, agentes de uma anarquia universal, sonhamos explodir. Atentos aos acontecimentos que se passam no nosso cérebro e às vicissitudes do nosso sangue, virados para o que nos altera, espiamos-lhe e acarinhamos-lhe os sinais. Fonte de perturbações, de transtornos ímpares, a loucura política, se afoga a inteligência, favorece em contrapartida os instintos e mergulha-os num caos salutar. A ideia do bem e sobretudo do mal que imaginamos ser capazes de cumprir regozijar-nos-á e exaltar-nos-á; e o feito das nossas enfermidades, o seu prodígio, será tal que elas nos instituirão senhores de todos e de tudo.

À nossa volta, observaremos uma alteração análoga naqueles que a mesma paixão corrói. Enquanto sofrerem o seu império, serão irreconhecíves, presas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre da voz. A ambição é uma droga que faz um demente em potência daquele que se lhe entrega. Esses estigmas, esse ar de fera desvairada, essas linhas inquietas, e como que animadas por um êxtase sórdido, quem não os tiver observado nem em si próprio nem em outrem permanecerá estranho aos malefícios e aos benefícios do Poder, inferno tónico, síntese de veneno e de panaceia.
Emil Cioran, "História e Utopia"

Os donos de sebo que estão sendo processados por Edir Macedo

Donos de um sebo no interior do Rio de Janeiro há 12 anos, o casal Luciano Gonçalves e Mariângela Ribeiro descobriu neste ano que estava sendo processado pelo dono de um dos maiores grupos de comunicação e líder de uma das maiores igrejas evangélicas do Brasil.

Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, resolveu acionar a Justiça contra Mariângela por causa de uma placa que o casal colocou em frente à sua loja em 2017.

Na vitrine do pequeno sebo em uma rua discreta na cidade de Resende, o casal havia colocado um banner que convidava a entrar racistas, machistas e homofóbicos, dizendo que ali era uma casa de cultura e inteligência que poderia ajudá-los.

A placa também convidava a entrar pessoas que não consideram a obra de Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Edir Macedo uma vergonha para a humanidade.

"Sempre tivemos uma pegada mais de esquerda. A ideia era ser algo divertido", conta Luciano. "A gente acha que um sebo é diferente de uma farmácia ou outra loja que simplesmente vende produtos. Nós trabalhamos com ideias. E algumas a gente gostaria de ver multiplicadas mais do que outras."

O banner ficou um longo tempo na frente da loja, e uma foto dele começou a circular na internet. Até que, nas eleições de 2018, quando Bolsonaro venceu a corrida à Presidência, a foto viralizou e foi compartilhada milhares de vezes.

E acabou chegando até Edir Macedo – ou, pelo menos, a seus advogados, que mandaram uma notificação extrajudicial pedindo para que Mariângela retirasse o banner.

O casal resolveu acatar o pedido e retirou a faixa da frente da loja, mesmo acreditando que afixar aquele banner era algo que estava dentro do seu direito à liberdade de expressão.

"Nunca tinha tido nenhum tipo de conflito na Justiça. Então, eu fiquei bastante assustada com a notificação, mesmo sendo extrajudicial (ou seja, sendo apenas um 'pedido', sem envolvimento da Justiça)", conta Mariângela.

A retirada do banner, no entanto, não aplacou o incômodo do bispo, que mesmo assim entrou com uma ação de danos morais contra Mariângela - que, juridicamente, é a dona do espaço.

Na ação, o bispo pede que o sebo faça uma nota se retratando com a mesma visibilidade da placa original e pede indenização de R$ 25 mil. Na ação, Macedo acusa Mariângela de danos morais e de cometer discriminação religiosa.

Questionada sobre o caso, a assessoria de imprensa de Edir Macedo afirma que um estabelecimento que comercializa livros, "supõe-se que seja administrado por pessoas esclarecidas, que sabem que não há mais espaço no Brasil para o preconceito e o ódio religioso".

"Trata-se de algo que não pode ser tolerado pela sociedade, nem por parte de grandes redes de lojas, tampouco em comerciantes locais", afirma.

"Não estamos discriminando ninguém, muito pelo contrário, estamos convidando as pessoas a entrarem", diz Luciano. "E em nenhum momento citamos a religião no banner", diz ele, que oferece em seu sebo diversos livros religiosos, incluindo de líderes evangélicos.

"Minha crítica é à obra dele, uma opinião que eu tenho todo o direito de ter. Não estou xingando a pessoa dele nem falando mal da religião."

Para os advogados do casal, Apolo Luis Hager e Renata Gonçalves Santos, não houve nenhum tipo de dano moral causado a Macedo pela placa, que apenas continha uma "opinião dos proprietários sobre a obra de Edir Macedo".

"Eles estavam manifestando seu direito à liberdade de expressão. Temos confiança de que a Justiça nos dará ganho de causa", afirma Gonçalves.

Na terça, 18, os dois lados foram convocados para uma audiência de conciliação pelo juiz responsável pelo caso, mas não chegaram a um acordo.
'Resistência'

A placa não foi a primeira manifestação política feita pelo sebo. "Desde que a gente surgiu a gente faz esse tipo de coisa", conta Luciano.

A posição política dele e de Mariângela - que são declaradamente "de esquerda e feministas" - fica clara pela decoração da loja, que tem foto da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), assassinada no ano passado, e uma seção sobre os "anos de resistência à covarde ditadura de 64".

Luciano diz que a loja já foi atacada anteriormente por causa da posição política do casal. "Um professor de artes marciais, discípulo do [presidente Jair] Bolsonaro, entrou aqui derrubando prateleira, me ameaçando", conta.

"O tamanho da ofensa não pode ser medido pela importância do ofendido", disse, em nota, a assessoria de imprensa de Edir Macedo, perguntada sobre o possível dano que uma placa em frente a um sebo no interior do Rio de Janeiro pode causar a um líder religioso tão conhecido.

"Um ator famoso que é vítima de preconceito racial em um restaurante não deveria reagir ou se sentir ofendido pelo crime praticado contra ele, enquanto um cliente anônimo pode?", pergunta a assessoria em nota assinada pela Unicom - Departamento de Comunicação Social e de Relações Institucionais da Universal.

O texto da Unicom também afirma que a eventual indenização por danos morais será doada a uma entidade filantrópica, "a Associação Brasileira de Assistência e Desenvolvimento Social (ABADS), que presta auxílio a pessoas com deficiência intelectual, desde 1952".

A entidade tem parcerias com o braço social da TV Record, que pertence a Edir Macedo.

E no Brasil de Rondon...


Bolsonaro coloca a reeleição à frente do trabalho

Jair Bolsonaro informou na campanha presidencial que, eleito, pegaria em lanças por uma reforma política que proibisse a reeleição. Acreditou quem quis. Na bica de completar seis meses de mandato, o capitão está de volta ao palanque. "Se tiver uma boa reforma política, eu posso até jogar fora a possibilidade de reeleição. Agora, se não tiver e se o povo quiser, estamos aí para continuar por mais quatro anos", ele declarou, cercado de eleitores evangélicos, no sacrossanto feriado de Corpus Christi.

Fernando Henrique Cardoso e Lula também diziam que não queriam a reeleição. Depois, desejaram-na ardentemente. Não se pode impedir que Bolsonaro cultive o mesmo desejo. A questão é saber se ele chegará a 2022 em condição de reivindicar a recondução ao trono. O "mito" foi eleito para fazer um serviço que durará quatro anos. Deveria entregar probidade e prosperidade. No momento, ninguém sabe onde está o Queiroz. E o PIB de 2019 ensaia um crescimento inferior a 1%.


Bolsonaro ainda dispõe de três anos, seis meses e uma semana para retirar a sua Presidência do caminho do brejo. Pode conseguir. Ou não. A única certeza disponível por ora é a seguinte: a revelação prematura de um projeto de poder solitário e longevo é o caminho mais curto entre a previsão de um fracasso e a sua realização. Para entregar a encomenda que recebeu de 57,8 milhões de eleitores, o capitão precisará de humildade e método. A ambição vem depois. Bem mais tarde.

Amigo e conselheiro de Bolsonaro, o general Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI, costuma dizer que ninguém pode exigir que o novo governo resolva em meio ano os problemas que se acumularam ao longo de 20 anos. Verdade. Seria injusto culpar o presidente pelo passado. Mas já se pode atribuir à nova gestão o custo da perda de tempo que compromete o futuro com o "show de besteiras" de que falou o general Santos Cruz, recém-expurgado do palco. Adiantar o relógio da sucessão presidencial é mais uma bobagem do espetáculo precário que inquieta a plateia.

A experiência mostra que o sucesso de um presidente depende do bem-estar que ele é capaz de propiciar. A popularidade é uma consequência natural da prosperidade. Se conseguir unir as duas coisas, Bolsonaro chegará em 2022 ao Éden que todo presidente ambiciona. A reeleição lhe cairá no colo como um fruto maduro. Entretanto, se mantiver aberta a usina de crises do Planalto, o trono logo lhe parecerá tão confortável quanto uma cadeira elétrica.

Bolsonaro ainda não percebeu. Mas o único lugar onde a reeleição vem antes do trabalho é nas páginas do dicionário.

Aos pobres, o pão dos diabos

O presidente representa setores da sociedade com estabilidade no emprego, como as Forças Armadas e os policiais militares.
 
Bolsonaro nunca falou aos brasileiros mais simples. O ministro Paulo Guedes menos ainda. Acho que está faltando alguém que consiga elaborar uma política para a base da sociedade, para as famílias que ganham dois ou três salários mínimos. A situação social no Brasil é de tamanha calamidade, a ponto de eu chamá-la de colapso social, que não dá para ficar perdendo tempo com uma agenda transversal 
Rodrigo Maia, presidente da Câmara

Bolsonaro e os 25 milhões sem os pinos do emprego

Comunistas, bolivarianos, inocentes úteis, ateus, criptopetistas, inimigos da Lava Jato, partidários da velha política, fabricantes de fake news ou, mais prosaicamente, economistas de boa reputação, bem treinados e dotados de algum bom senso. O leitor pode escolher a qualificação, mas, em qualquer caso, será prudente levar a sério a sombria avaliação de oito diretores do Banco Central (BC), incluído seu presidente, Roberto Campos Neto. A recuperação econômica já era. Ou, em linguagem mais engravatada: os últimos dados “indicam interrupção do processo de recuperação da economia brasileira nos últimos trimestres”. Não há terrorismo nem oposição irresponsável nessa frase do comunicado oficial distribuído depois da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. A mensagem sobre o quadro econômico, analisado em todas as discussões sobre a taxa básica de juros, tornou-se gradualmente mais dramática nos últimos meses, até surgir a palavra “interrupção”. Pergunta crucial: esse diagnóstico faz alguma diferença para o presidente Jair Bolsonaro e a maior parte de seus auxiliares? Não está claro. Ou parece pouco provável, em vista das prioridades presidenciais mais ostensivas nos últimos dias – a tomada para três pinos, por exemplo, e a defesa do decreto sobre as armas, derrubado, por enquanto, por 47 a 28 votos no Senado.

As más notícias sobre as condições do consumo e da produção têm-se acumulado quase sem pausa. Na terça-feira, quando o Copom iniciou sua reunião habitual, o Monitor do PIB, publicado mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), havia indicado novo recuo do Produto Interno Bruto. O valor havia diminuído mais 0,1% de abril para março. Também havia caído 0,9% no trimestre móvel findo em abril em relação aos três meses terminados em janeiro.

A perda de 0,2% no primeiro trimestre, no confronto com os três meses finais de 2018, já havia sido informada oficialmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Se as contas da FGV estiverem certas, a tendência negativa estendeu-se por todo o quadrimestre. As estimativas do Monitor em geral antecipam com muita aproximação os dados do PIB divulgados trimestralmente pelo IBGE.


Não surgiram sinais muito animadores a partir de maio. As exportações de industrializados foram 25,5% maiores que as de um ano antes, pela média dos dias úteis, apesar da crise na Argentina, terceiro maior parceiro comercial do Brasil. O valor total das vendas, US$ 21,39 bilhões, superou por 5,6% o de maio de 2018. Mas a receita geral acumulada em cinco meses, US$ 93,54 bilhões, foi 1,1% menor que a de janeiro a maio do ano passado. No caso dos bens industrializados, a queda geral foi de 0,6%, com aumento de 1,9% na conta dos semimanufaturados e queda de 1,5% na dos manufaturados. Na frente externa, como na interna, a indústria enfrenta dificuldades. Mas poderá encontrar obstáculos bem maiores, se as tensões e a escalada protecionista no comércio global se prolongarem.

Por enquanto, o quadro externo é razoavelmente benigno, principalmente por causa da política monetária no mundo avançado, com provável corte de juros, nos próximos meses, nos Estados Unidos. Mas, se as condições piorarem sensivelmente no comércio, o câmbio poderá ser afetado. Se isso ocorrer, a política de juros no Brasil deverá ficar menos suave do que hoje se espera. Com isso, a retomada dos negócios ficará mais difícil.

Diretores e técnicos do BC normalmente seguem todas essas informações com muito cuidado. A maior parte da equipe de governo em geral se mostra menos atenta a esse conjunto de sinais. Cuida menos, portanto, de questões como a evolução do consumo, as condições imediatas de produção e a evolução do mercado de trabalho. Pelos últimos dados do IBGE, havia 13,4 milhões de desempregados no primeiro trimestre, número equivalente a 12,7% da população ativa. Somados os subempregados, o conjunto chegava a 20,2 milhões. Adicionados os 4,8 milhões de desalentados, o total batia em 25 milhões.

Esse número parece causar pouco ou nenhum incômodo ao ministro da Economia e a seus companheiros. Nenhuma medida de estímulo aos negócios e às contratações será tomada antes da aprovação da reforma da Previdência, segundo têm afirmado e reafirmado. Como sobreviverão aqueles 25 milhões e seus dependentes parece uma questão menor. De acordo com gente do governo, os negócios voltarão a crescer, juntamente com os investimentos privados, depois de alterada a Previdência. Mas por que os empresários investirão a curto prazo, se a indústria opera com cerca de 30% de ociosidade? Comprarão máquinas mesmo com o consumo emperrado?

Quanto ao presidente, continua longe de conversas desse tipo. Há poucos dias, demitiu um de seus ministros mais confiáveis, o da Secretaria de Governo, por haver reagido às ofensas do guru presidencial Olavo de Carvalho. Enquanto congressistas acompanhavam a leitura do relatório sobre o projeto da Previdência, negociado e redigido pelo deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), o presidente se empenhava em defender seu decreto das armas, em discussão no Senado. Ao mesmo tempo, surgia a notícia sobre a nova grande preocupação do Executivo, a mudança da tomada para três pinos. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) reagiu rapidamente, defendendo, em comunicado distribuído à imprensa, a manutenção do terceiro pino.

É difícil imaginar o presidente da República dando atenção ao comunicado do Copom, ao Monitor do PIB da FGV ou a relatórios igualmente importantes para as pessoas preocupadas com a estagnação econômica e o enorme desemprego. Se ele, no entanto, ler ou tiver lido algum desses informes, isso fará alguma diferença? Qual a importância de 25 milhões de desempregados, subempregados e desalentados?

Respeitem o povo, Senhores!

O Senado, nessa terça, vetou o Decreto das Armas. Vetar o porte?, maravilha. Sou a favor. Mas vetaram, também, a posse. Pergunto só se a voz do povo não conta. Houve Plebiscito, em 23.10.2005, para decidir se “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil”. A campanha eleitoral esclarecia que se tratava só de “Posse”. Em vez de “Porte”. Resultado, 63,94% responderam “Não”. A favor de se poder ter armas em casa. Mas os Senadores "esquecem" que decidimos. Não está certo. Plebiscito é coisa séria, senhores. Segundo Bobbio ("Dicionário de Política"), em reconstituição do passado, “na antiga Roma era uma deliberação da plebe convocada por Tribuno”. E, hoje, “um instrumento da democracia direta”. A ser valorizado. Não só esse. Também outros Plebiscitos ainda estão bem presentes em nossa memória.


Em 21.04.1993, o povo votou a favor da República. Foram 86,6%. Contra a volta da Monarquia. Sem movimentações congressuais, até agora, neste sentido. Ainda bem. P.S. Soubessem haver um tipo diferente de Monarquia, não por “sangue (estirpe)”, mas por “eleição vitalícia” (como a do Vaticano), e muitos iriam às ruas defender “Lula Rei”. Ou “Bolsonaro Rei”. Deus nos proteja.

Foram dois plebiscitos. Ambos decididos contra o Parlamentarismo. O primeiro, em 06.01.1963, com 82% dos votos. E o segundo, em 21.04.1993, com 69,2%. Nos dois casos indicando, claramente, que não queremos Deputados e Senadores escolhendo quem vai dirigir o país. Exigimos ter nós mesmos, povo, esse direito. Até para errar. Quatro anos atrás, houvesse Parlamentarismo, e Primeiro Ministro seria Eduardo Cunha. Ou Renan Calheiros. Queremos isso?

Ocorre que nosso Congresso anda indócil. No desejo voraz de voltar a ter Ministérios. Para nomear apadrinhados. Ou fazer, com as milionárias verbas disponíveis, o que quiserem. Até o que não devem. O Presidente da Câmara teve mesmo coragem para dizer que “É cedo para discutir o Parlamentarismo”. Cedo, como? Discutir, como? Será que o Congresso está mesmo admitindo implantar o Parlamentarismo? Contra o povo? Por duas vezes já foi dito que não o queremos. E vão decidir, agora, sem nos ouvir? Perdão, senhores. Mas iniciativas assim, de evidente desrespeito à voz do povo, são, no plano político, um erro indesculpável. E, no plano ético, uma enorme indecência.
José Paulo Cavalcanti Filho

sábado, 22 de junho de 2019

Não armar o povo: a melhor forma de evangélicos mostrarem que seguem Jesus

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que se orgulha de ser um imitador de Trump, o excêntrico presidente dos Estados Unidos, surpreende a cada dia com declarações que na boca de qualquer estadista produziriam calafrios. Por exemplo, quando no dia 15, em Santa Maria (RS) durante a Festa Nacional da Artilharia (Fenart), afirmou que armar a população pode evitar um golpe de Estado.

O presidente foi explícito: "Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo para que tentações não passem pela cabeça de governantes para assumir o poder da forma absoluta". Mas o presidente não defendeu durante toda a campanha a possibilidade de que cidadãos comuns pudessem estar armados para se defender da violência no país? Que salto de malabarismo é esse de dizer que é bom que os brasileiros estejam armados, como o Exército, como um antídoto e barreira contra um possível golpe de Estado dos "governantes"? Será que ele se esqueceu que é ele quem governa a nação com os outros poderes do Estado? Será que está insinuando que o Congresso ou o Supremo Tribunal Federal poderiam preparar um golpe de Estado contra ele?


Sem dúvida, Bolsonaro está decepcionado e mal-humorado pela derrota sofrida no Senado, por uma grande maioria, com a rejeição de seu decreto em favor de armar os cidadãos. E agora deve estar preocupado que o Congresso Nacional também possa derrubar esse polêmico decreto que, segundo o IBOPE, é rejeitado por 70% dos cidadãos.

São muito graves as palavras do presidente, que deseja agora que os cidadãos estejam armados para poder evitar a tentação de um golpe por parte de governantes e não do Exército, embora ele continue defendendo e justificando a ditadura brasileira. É grave porque Bolsonaro insinua a possibilidade de uma guerra civil no caso de algum dos poderes do Estado cair na tentação de dar um golpe. Golpe contra quem? Contra ele, naturalmente.

Ele parece ignorar, o presidente obcecado pelas armas, os golpes e guerras, que hoje conta com apenas 30% de consenso no país. No caso insano de que algum dos poderes, fora do Exército, tentasse um golpe de Estado, o presidente imagina que o Brasil inteiro, já armado por ele, sairia às ruas para defendê-lo sem dar lugar a uma guerra entre irmãos? Por que esse medo se, além do mais, conta com o Exército, do qual 103 de seus integrantes constituem a metade dentro do Governo?

Para aqueles que, como eu, sofreram na carne durante a infância a Guerra Civil Espanhola entre irmãos, com mais de um milhão de mortos, à qual se seguiu não uma democracia, mas uma dura ditadura de mais de 40 anos que deixou a nação dividida até hoje, causaram arrepios essas piadas do religioso presidente brasileiro, que mal começou a governar e já está insinuando fantasmas conspiratórios e querendo armar a população para o caso de um hipotético golpe contra ele.

Tomara que os congressistas evangélicos do Congresso sigam os senadores e ajudem a derrotar esse fantasma de armar os cidadãos já pensando até em uma guerra. Seria a melhor maneira de demonstrar que eles estão realmente do lado de Jesus, que quando estava para ser preso para que fosse julgado, impediu um de seus apóstolos de usar a espada para defendê-lo. "Aquele quem com ferro mata com ferro morre", disse-lhe Jesus.

Esse mesmo Jesus que cerca de um milhão de evangélicos honraram durante a Marcha de São Paulo. Quando perguntei a Gustavo, um amigo meu, diretor de uma escola de música, quantos tinham comparecido à Marcha de Jesus, em São Paulo, respondeu irônico: "Todos menos Ele". Certamente, Jesus, que disse "bem-aventurados os pacíficos", nunca estaria ao lado daqueles que pronunciam apenas palavras sombrias como armas, guerras, ódios, medos, golpes. Será que já não servem à humanidade as palavras de luz, que criam paz, harmonia, diálogo entre diferentes e ainda são capazes de trocar as armas por campos de trigo e felicidade?
Juan Arias

Imensidão do Brasil


Conspiração de silêncio

É por isso que adoro romances de espionagem. Partem de tramas tão intrincadas que, já na segunda página, nos esquecemos de como elas são improváveis. O inglês John Le Carré é o mestre do gênero. Ou era —porque, agora, temos Lula e Jair Bolsonaro.

Há dias, Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada no candidato Bolsonaro em Juiz de Fora, em 2018, foi absolvido pelo Código de Processo Penal por ser inimputável, portador de uma doença mental. Ficará num presídio de segurança máxima, mas isso só reforçou a dúvida do ex-presidente Lula sobre se houve mesmo a facada. “Não aparece sangue…”, insinuou ele, numa entrevista.

Para Lula, o golpe em Bolsonaro deve ter sido feito com uma faca retrátil, de teatro, daí a falta de sangue. Para tornar a história plausível, armou-se previamente uma conspiração envolvendo o povo de Juiz de Fora, a equipe do hospital local, os que transportaram Bolsonaro para São Paulo, o pessoal do Albert Einstein que simulou operá-lo e os funcionários dos laboratórios que fingiram analisar suas tripas. Quem seria o cérebro por trás disso? Milhares de pessoas tomaram parte na farsa e, incrível, até hoje ninguém quebrou o pacto de silêncio.

O presidente Bolsonaro, por sua vez, também não admite a sentença. Para ele, Bispo foi apenas a mão que lhe cravou a faca. Por trás dela, haveria uma rede envolvendo o PT, o PC do B, o PSOL, o centrão, os ideólogos, sindicalistas, professores, jornalistas, cientistas de humanas, atores, cantores, índios, ecologistas, pacifistas, gays, lésbicas, praticantes de sexo urinário e idiotas em geral. Todos se articularam para que um ativista contratado o esfaqueasse entre milhares de pessoas e fosse preso ou linchado. E, para disfarçar, confiaram a tarefa a um —este, sim, reconhecidamente— idiota.

Tanto para Lula quanto para Bolsonaro, os psiquiatras que examinaram Bispo também devem estar na conspiração. E louco é o Bispo.

Bolsonaro gosta de quem o adula, e ignora o risco disso

Demitido na semana passada, Carlos Alberto dos Santos Cruz caiu na desgraça de Jair Bolsonaro no dia 13 de maio, quando circularam nas redes sociais mensagens datadas de uma semana antes em que o então ministro da Secretaria de Governo se referia a um dos filhos de Bolsonaro como “desequilibrado” e a um “Fábio” como “frouxo” — alusões provavelmente a Carlos Bolsonaro e Fábio Wajngarten, o secretário de Comunicação. Na conversa, o suposto Santos Cruz também concordava quando alguém chamava Bolsonaro de covarde. Quando revelada a conversa, Santos Cruz foi a público dizer que se tratava de uma montagem e lembrou que, no horário em que teria se dado o diálogo, estava num voo a trabalho. Sugeriu, ainda, que a Polícia Federal investigasse o caso. O problema é que Bolsonaro nunca acreditou na versão de Santos Cruz. Nascia ali uma fenda na relação de anos entre o general e o capitão, que desaguou na demissão da semana passada. O episódio, entretanto, simboliza um dos traços mais marcantes do jeito Bolsonaro de governar. O presidente gosta de se cercar de quem o venera. Para ele e para seus filhos, a demonstração de apreço incondicional é fundamental. Críticas, em nenhum grau, são bem-vindas. Enfeitiçados pela ideia do “mito”, os Bolsonaros ignoram o risco que é estar cercado por quem não os contraria.


Mais que a competência, o que de fato importa para os Bolsonaros é a lealdade de quem os cerca. Quando descrevem algum ministro ou assessor de que gostam, eles são mais elogiosos com aqueles em que identificam uma paixão sem limites por Jair. Demonstrações públicas de admiração por Bolsonaro valem dois pontos no boletim da família. Na semana passada, quando ministros e assessores atacaram Lula, saindo em defesa de Bolsonaro, o presidente vibrou. Quando Filipe Martins, o assessor de Bolsonaro para Twitter (e relações internacionais), defende o chefe nas redes, a família também aplaude. Wajngarten, o secretário que Santos Cruz nunca engoliu, também é volta e meia citado pelos filhos como um empenhado assessor de Bolsonaro.

Muitos desses apoiadores percebem o valor que essa paixão cega tem para Bolsonaro e usam isso para ganhar prestígio. Santos Cruz não o fazia. Contrariou Bolsonaro em diversos episódios, a exemplo da cobrança que fez ao presidente por não ter passado por ele a nomeação de Wajngarten, seu subordinado. Gustavo Bebianno também não. O ex-presidente do PSL foi um dos que criticaram os excessos de Carlos. Bolsonaro não gostou.

O exemplo mais recente de integrante do governo implodido por questionar Bolsonaro foi Joaquim Levy. O ex-presidente do BNDES nunca abraçou o discurso de que haveria uma caixa-preta de irregularidades prestes a explodir. Aliás, nem o próprio BNDES. Na seção “Perguntas e respostas” do site oficial do BNDES, o banco é claro sobre não enviar dinheiro diretamente para nenhum governo no exterior, mas sim financiar a exportação de bens e serviços de empresas brasileiras lá fora. Levy já havia demonstrado a Bolsonaro que o discurso dele era falso também sobre a suposta prioridade dada a exportações para a Venezuela e para Cuba: o maior destino dessas operações são... os Estados Unidos. Bolsonaro não aceitava o que ouvia.

De certa maneira, Hamilton Mourão também foi vítima dessa falta de predisposição de Bolsonaro para ouvir o divergente. Ainda na campanha, o vice-presidente dissera que não seria decorativo, e Bolsonaro não deu a ele uma função no governo. Sem ser ouvido nos bastidores, Mourão passou a, publicamente, dar seus recados. Criticou a política externa, a Comunicação, a falta de propostas para a Educação. Recentemente, passou a ouvir apelos dos próprios generais para que não falasse mais publicamente. Decidiu dar um tempo nas entrevistas. Engatilhada há tempos, sua entrevista para o New York Times, veículo odiado por dez entre dez olavistas, foi adiada para um futuro ainda indefinido.

A falta de conexão com a realidade preocupa os militares que atuam no Palácio do Planalto. A Secretaria de Comunicação continua sem nenhum contrato com institutos de pesquisa que possam dar ao presidente uma medição de sua popularidade encomendada pelo governo. Bolsonaro não acredita nas grandes empresas de pesquisa, como o Ibope e o Datafolha — o termômetro em que confia é o do calor de suas bolhas no Twitter e no Facebook, sempre medido por Carlos Bolsonaro e assessores como Filipe Martins.

Os mais radicais, chamados ora de ideológicos, ora de olavistas, vêm ganhando boa parte das batalhas junto a Bolsonaro porque sabem explorar esse sentimento da família.

Vale tudo nessa hora: manter o clima de campanha, atacar PT, PSOL e todos os tons de vermelho e até alimentar a narrativa de que Bolsonaro tem um quê de enviado divino — não são incomuns, em conversas privadas com Bolsonaro, as referências à “mão divina” que o protegeu de algo pior na facada.

Percebendo isso, muitos militares e integrantes de outros grupos do governo têm escolhido em quais bolas divididas devem entrar. O curioso é que fenômeno semelhante norteou durante muito tempo a relação que Dilma Rousseff, na posição oposta a Bolsonaro no espectro ideológico, tinha com seus assessores. Dilma também não gostava de ser contrariada. Quem discordasse dela deveria estar munido de muitos dados — aos quais nem sempre a presidente prestava atenção. Deu no que deu.

A notícia ruim para Bolsonaro vem de Nicolau Maquiavel e de seu "O Príncipe", que traz um capítulo inteiro para ensinar o governante a se livrar de aduladores. “Não há outro meio de guardar-se da adulação a não ser fazendo com que os homens entendam que não o ofendem dizendo a verdade”, escreveu o florentino. Mas, no mesmo capítulo, Maquiavel também escreveu que pouco importam os bons conselhos se não há ouvidos dispostos a captá-los: “Os bons conselhos, venham de onde vierem, devem nascer da prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos”. Nestes quase seis meses de governo, entretanto, o reino de Bolsonaro teve mais golden shower do que prudência.
Guilherme Amado

Crise tem rosto do presidente, não dos ministros

É preciso chamar as coisas pelo nome. Jair Bolsonaro fez uma reforma ministerial. Em menos de seis meses de mandato, o capitão trocou quatro dos seus 22 ministros. Repetindo: antes de atingir a metade do primeiro ano de mandato, o presidente da República já substituiu 18% do seu time ministerial. Mexeu inclusive no pedaço fardado da equipe, que se imaginava mais estável.

Num primeiro momento, foram ao olho da rua Ricardo Vélez, da Educação; e Gustavo Bebbiano, da secretaria-geral da Presidência. Agora, caíram os generais Santos Cruz, da Secretaria de Governo; e Floriano Peixoto, que havia sucedido Bebianno na secretaria-geral e foi rebaixado para a presidência dos Correios. Incluindo-se na dança de cadeiras o presidente do BNDES, Joaquim Levy, e o segundo escalão da Esplanada, as demissões passam de 20.

Por que o governo trocou tanta gente em tão pouco tempo? O general Santos Cruz, um dos demitidos, ofereceu a melhor resposta. O governo perde tempo com "bobagens" e "fofocagem", ele disse. "É um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante", acrescentou. De fato, o governo é pródigo na produção de crises inúteis. E Bolsonaro revelou-se um mago: as crises entram pequenas no seu gabinete e saem de lá enormes e ameaçadoras.

Bolsonaro referiu-se de forma singela à carbonização de auxiliares. Comparou certos ministros a fusíveis. Ele disse: "Para evitar queimar o presidente, eles se queimam." Quantos ministros ainda serão eletrocutados até que o presidente consiga passar uma imagem de tranquilidade?, eis a questão a ser respondida. Bolsonaro mudou a equipe. Mas continua o mesmo. Ainda não se deu conta do essencial: num governo marcado pela instabilidade, o rosto do presidente é o rosto do problema.

Pensamento do Dia


Outros tempos, a mesma patrulha ideológica

Na coluna de 7 de junho (“Reconstruindo Chico”), mencionei de passagem o Cemitério dos Mortos-Vivos, onde o cartunista Henfil enterrava simbolicamente as personalidades que, a seu ver, teriam colaborado com o regime de 64. Dos muitos zumbis que despachou para lá (bem antes de zumbis serem "fashion"), lembrei no texto os três que mais admiro: Elis Regina, Carlos Drummond e Clarice Lispector.

Nenhum deles apoiou a ditadura: tudo não passou de patrulha ideológica. À Elis, por cantar o Hino Nacional nas Olimpíadas do Exército, em 1972; ao Drummond e à Clarice, por supostamente serem “alienados” (uma espécie de “isentões” da época).

De alienada ou isentona Clarice não tinha nada: manifestou-se contra o arbítrio e esteve na linha de frente da Passeata dos Cem Mil. Elis já havia gravado “Dois na bossa”(com Jair Rodrigues, e repleto de canções “engajadas”); mais tarde não só participou de shows para arrecadar dinheiro para o Fundo da Greve do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo como deu voz a “O bêbado e a equilibrista”, hino informal da campanha pela anistia.


Nessa mesma época, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Glauber Rocha também foram tachados de “alienados” por acreditar na abertura democrática, mas não chegaram a ir para a cova.

Henfil se retratou parcialmente: “Eu só me arrependo de ter enterrado duas pessoas — Clarice Lispector e Elis Regina. (…) Eu não percebi o peso da minha mão.” Talvez não tenha tido tempo de tornar a mão mais leve e se redimir também pelo Drummond, o autor da “Rosa do povo” — livro anterior à ditadura e que animou muita gente na luta pela redemocratização.

O cartunista que decretava mortos em vida os artistas e intelectuais que ousassem não ser assumidamente de esquerda acabou por sepultar a si mesmo (ainda que por outros motivos) nessa necrópole virtual administrada pelo Cabôco Mamadô — suspeitíssima entidade que já havia aspirado a massa encefálica de Marília Pêra, Paulo Gracindo, Nelson Rodrigues, Bibi Ferreira, Rachel de Queiroz e outros tantos supostos simpatizantes do governo.

Na biografia desses enterrados sob sete palmos de desprezo, a passagem pelo Cemitério dos Mortos-Vivos é uma nota de rodapé. Diz muito mais a respeito daquele momento de radicalização que sobre a importância de cada um na cultura brasileira, incluindo o genial Henfil (e sua mão pesada quando o assunto envolvia política).

“Esse é tempo de partido / tempo de homens partidos”, escreveu Drummond.

“Os dias eram assim”, cantou Elis.

Os dias agora são outros, mas a patrulha é a mesma. É como estar reféns de um “feitiço do tempo”, o tempo de homens partidos num país dividido. Até o cemitério, que se imaginava fechado para todo o sempre, foi ressuscitado pelo filho do seu criador, com as exéquias de Nana Caymmi.

Nana (como Roger, do Ultraje, ocupante do jazigo ao lado), não defende ditadura ou barbárie. Apenas votou no candidato de sua preferência, como se faz em qualquer democracia. E não tem papas na língua, nem medo de desafinar o coro dos que acham que artista bom é artista de esquerda.

Em condições totalmente diversas das de 50 anos atrás, a persistência das patrulhas mostra como a polarização acaba por nos tornar bipolares — ou, pelo menos, desconexos. E dá-lhe querer combater o (suposto) fascismo com métodos fascistas, defender a liberdade de expressão na base do cala-boca. Achar que “nós” somos o lado certo da História, e “eles”, a escória. Que nossas ilegalidades são mais legais. Que nossa alma é a mais honesta; nossa causa, a mais justa, e que isso nos coloca acima da lei. A “nós”, o poder; a “eles”, o cemitério. Se Deus (ou seu equivalente humano) está conosco, quem “eles” acham que são para estar contra “nós”?

Não vamos chegar a lugar nenhum enquanto levarmos a sério o que Millôr disse com “democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim”. E o artista, como qualquer cidadão, não puder escrever sobre o que bem entender, apoiar quem quiser, falar o que lhe der na telha, sem ir direto para o Céu ou para o Inferno.

O cubo, que é um sólido geométrico relativamente simples, tem seis lados. O Brasil, com toda a sua complexidade, parece condenado a ter só dois.

Sem enredo

As pessoas são capazes de fazer qualquer coisa para não admitir que suas vidas não têm significado. Não têm utilidade, melhor dizendo. Não têm enredo
Margaret Atwood

Rumo à estação 22

Entre os vários assuntos a respeito dos quais é mais fácil falar do que fazer, a interrupção de mandatos presidenciais ocupa o topo da lista. Certamente porque passamos por dois processos de impedimento em menos de trinta anos e o mundo não se acabou. Donde a banalização do tema. A ponto de hoje ter virado lugar-comum em qualquer conversa pessoal ou digital dizer de maneira peremptória que Jair Bolsonaro não termina o mandato.


Pode terminar ou não, e, nessa hipótese, esses autores terão acertado à maneira dos relógios parados que duas vezes ao dia marcam a hora certa. Não há, por enquanto, evidências nesse sentido. O desempenho insatisfatório, a ocorrência de exorbitâncias oratórias, o exercício da boçalidade explícita e a inadequação dos atributos da pessoa às exigências do cargo não estão entre os fatores em que a Constituição prevê o afastamento definitivo de presidentes da República.

Isso sob o aspecto frio da lei. No ambiente quente da política, para a interrupção de mandato também são exigidas determinadas condições que por ora não estão postas. A principal delas, a existência de pessoas ou de grupos preparados e/ou interessados em ocupar a vacância decorrente do impeachment. Tal situação não se configura no momento. Isso não quer dizer, contudo, que os pretendentes à ocupação do poder ainda que no tempo regulamentar não estejam se mexendo desde já.

Para fazer uso de uma metáfora-chavão, digamos que 2022 seja um ano que já começou. Nada de anormal, pois os arranjos eleitorais funcionam à semelhança das escolas de samba, cujos preparativos para o Carnaval seguinte se iniciam assim que as alas se dispersam na Praça da Apoteose.

Não usual, entretanto, é que as articulações com vistas à próxima disputa presidencial ocorram no campo governista, que, em tese, ainda deveria estar unido no legítimo usufruto do poder recentemente delegado pelas urnas. Pois eis que entre outras esquisitices protagonizadas pelos vencedores de 2018 está a movimentação explícita de gente até outro dia aliada a Jair Bolsonaro na direção oposta.

Há os que o fazem de modo implícito (e são até os que não eram tão aliados assim) e os que atuam de maneira explícita. No primeiro caso está Rodrigo Maia, que não perde a chance de pontuar a necessidade de a direita firmar uma agenda para o país e não faz isso voltado para a eleição estadual do Rio de Janeiro, cuja situação penosa não se mostra atrativa para candidatos a governador.

No segundo caso está o governador de São Paulo, João Doria, que na campanha foi incansável ao correr atrás de Bolsonaro e hoje circula por salões dando a entender que já abandonou aquela canoa e se prepara para comandar a própria embarcação.

O presidente pode até ficar aborrecido com a sensação de que foi usado por políticos apenas interessados na derrota do PT. Só não pode reclamar de ser tratado com leviandade política e falta de consideração pessoal porque o desrespeito, a sem-cerimônia no descarte e a inapropriada descontração têm sido as marcas de sua atuação. É a madeira que bate em Chico e por isonomia atinge Francisco.
Dora Kramer

Falta bom senso nas redes sociais? Ou tem demais?

“O bom senso”, escreveu René Descartes na abertura do "Discurso do método", “é a coisa mais bem compartilhada do mundo.” Mal poderia ele prever o que se compartilha hoje nas correntes de WhatsApp, fios do Twitter, comentários de Facebook ou grupos do Telegram. Parece haver de tudo nas redes sociais, menos um pingo de bom senso. Só que todos os que “compartilham” suas opiniões, ideias e — suspiro... — memes julgam tê-lo. Ninguém acha que tem pouco. “O que quer que alguém acredite ser questão de bom senso, acredita com certeza absoluta. Só fica espantado com o fato de que outros discordem”, diz o sociólogo canadense-australiano Duncan J. Watts em "Tudo é óbvio — Desde que você saiba a resposta". Lançado em 2011 nos Estados Unidos, o livro analisa as peças que o senso comum nos prega. Instintivo, natural, prático, o bom senso é essencial nas decisões cotidianas individuais: que roupa vestir, como pegar o metrô, quando obedecer às regras, quando ignorá-las e coisas do tipo. Mas se torna um péssimo guia para as decisões de natureza coletiva, relativas a política, Direito, economia ou cultura.

“Sempre que discutimos sobre política, economia ou a lei, usamos implicitamente nosso bom senso para extrair conclusões sobre como a sociedade será afetada”, afirma Watts. “Em nenhum desses casos raciocinamos sobre como devemos nos comportar, mas sobre como os outros se comportaram — ou se comportarão — em circunstâncias sobre as quais temos no máximo compreensão parcial.” Praticamente todas as discussões nas redes sociais padecem dessa deficiência: das cadeirinhas infantis à posse de armas, da homofobia às vacinas, da reforma da Previdência às privatizações, da intervenção na Venezuela aos vazamentos da Operação Lava Jato.

Watts é meticuloso ao despir o senso comum da aura sobrenatural de que se reveste para nos proteger das opiniões discordantes, da complexidade inerente às questões humanas e de nossa resistência para lidar com a ignorância diante de conhecimentos que não dominamos. Desmistifica os agentes racionais da economia, mostra que nem sempre penalidades inibem desvios, prova que os mesmos incentivos podem resultar em reações diferentes dependendo de fatores culturais, descreve como elementos aparentemente irrelevantes alteram decisões, constata que filtramos informações segundo nossas opiniões prévias, revela como somos presas de raciocínios circulares e de toda sorte de viés cognitivo. O principal deles é aquele que dá título ao livro: tudo parece óbvio depois que já aconteceu. Há uma diferença, bem menos óbvia, porém, entre entender o passado e usá-lo para prever o futuro.

Formado em física, doutor em sociologia e hoje pesquisador na Microsoft, Watts ficou conhecido pelo pioneirismo no estudo da disseminação de informações nas redes sociais (em sua tese, explorou a ideia célebre dos seis graus de separação entre duas pessoas). Com base em suas pesquisas, questiona o mito dos “influenciadores” digitais e analisa as razões reais do sucesso da "Mona Lisa" ou das músicas que chegam ao topo das paradas. Desvenda o enigma da violência nos protestos de rua. Mostra quanto a sorte e as circunstâncias podem ser mais relevantes que conceitos difusos como talento, genialidade ou “pessoas especiais”.

Mais que tudo, Watts faz um alerta para que ninguém julgue o próprio bom senso algo especial. É comum, diz ele, amigos e colegas aceitarem seu argumento no sentido abstrato, mas o rejeitarem quando aplicado às opiniões que abraçam com força. “É como se os erros do bom senso fossem apenas dos outros, não deles próprios.” O recado de Watts não poderia ser mais sensato: não é porque alguém discorda que é necessariamente idiota, canalha ou, para empregar o lugar-comum, “desonesto intelectualmente”. E não há nenhuma vergonha em mudar de opinião. Questão de bom senso, não parece?
Helio Gurovitz