sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Farinha pouca, meu pirão primeiro

É o que mostra o diagnóstico do Banco Mundial, produzido para os debates do Fórum de Davos (Estadão, 22/01/24). Dois pontos chamam atenção no relatório. Primeiro, que “o enfrentamento da pobreza no mundo estagnou”, com 700 milhões de pessoas vivendo com US$2,25/dia em 2023. Segundo, que a desigualdade se manifesta de formas mais diversas do que apenas a pobreza, como na saúde, educação, espaços públicos, segurança, gênero e até mudança climática.

Em períodos de escassez, o razoável seria que a solidariedade inspirasse uma distribuição igualitária dos recursos existentes. Em tempos de abundância, melhor ainda, seria de se esperar que o espírito de partilha estimulasse uma divisão justa da riqueza produzida.

Desde que o homem virou gente não é isso que acontece. De um lado, a evolução tecnológica aumentou o degrau que distancia uma minoria rica da maioria pobre. Por outro lado, em tempos de crises, como o aquecimento global, os esforços de entendimento coletivos retrocedem, em favor de interesses arcaicos.


Aqui na Ilha da Vera Cruz, durante a pandemia de COVID-19, surgiram nove bilionários novos nas capas das revistas. Muito antes, Joaquim Nabuco (O Abolicionismo, 1883) já indicava que nossa desigualdade vem de longe.

“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”.

A desigualdade pode ser vista pela lente urbana. Patrícia Ellen, ex-secretária de desenvolvimento de São Paulo, lembrava que “a diferença da expectativa de vida entre um bairro rico e um bairro pobre pode chegar a um ano de vida por quilômetro”. A Suíça e o Haiti coexistindo numa mesma cidade.

Por sua vez, Beatriz Bracher, do Instituto Galo da Manhã, chama a atenção para a relação entre a segurança pública e a desigualdade, quando destaca que “grupos criminosos vêm espraiando seu poder para o restante da cidade e para outras menores, antes com baixos índices de criminalidade” (Folha de São Paulo, 22/01/24).

Enquanto isso, a FGV acaba de publicar uma pesquisa demonstrando que as mulheres ainda recebem salários até 29% mais baixos que os homens ocupando o mesmo cargo.

Nessa disputa milenar por tanta farinha e pirão, vale refletir sobre a relação entre os fatos de que 2023 tenha sido o ano mais quente dos últimos mil séculos (Serviço de Mudanças Climáticas, Copernicus) e que “2023 foi o ano da desigualdade social”, conforme o estudo do Banco Mundial. Ambos, em breve, serão caminhos sem volta.

A trama da desatenção

‘Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto’ — diz a bonita letra musical. Podia ser frase de psicanalista à espera de um sinal do inconsciente, em meio ao jorro de falas do analisando. Mas também um canto retraído e perplexo do sujeito atual, diante dos absurdos que o cercam. Afinal, dizer o quê? Como se a palavra já tivesse morrido, tamanha sua inocuidade. E o escritor, enquanto nada articula, escuta sua alma discutir a função e a utilidade da escrita. O dilema paralisante pode ser injusto com os que precisam manter o espírito aceso por ideias que os ajudem a encontrar sentido para suas perplexidades.

Será o escritor capaz de atender à expectativa, emergir da banalidade e articular ideias instigantes, ressuscitando a palavra — como na arte que se afasta ou distorce a realidade para, em seguida, desvelar suas nuances? Pois bem. Uma conspiração mundial estaria em curso — anônima, inconsciente, coletiva. Mas, ao mesmo tempo, como se houvesse um desígnio subterrâneo, um projeto intencional, tão efetivo que se expressa em sua universalidade automática. Com a cumplicidade das vítimas. A estratégia é deixar todos os indivíduos desatentos. É uma conspiração da desatenção, de manter os seres entorpecidos — mesmo aqueles que, na superfície, parecem resistir e criticar.


Sabemos muito bem dos meios usados para esse fim, todos os desfrutamos diariamente — aliás, acertaram em cheio, nos oferecendo preencher a incurável falta que nos habita. Não temos consciência de que aspectos a trama nos impede de enxergar e pensar, e esse é um dos êxitos de sua ação. Ela se alia a nosso dispositivo inato de negação da realidade frustrante. As questões podem ser as mais íntimas do ser, familiares, ou também as mais próximas da sociedade, da política e do planeta. E tais questões se agravam à medida que aumenta a desatenção individual e coletiva. A grande esperteza da conspiração é nos convencer, enquanto isso, de que seus meios foram feitos para aumentar o entretenimento, o conhecimento, a democracia e a comunicação.

Enquanto acreditamos que tudo se resume a essa dimensão positiva, a boiada da pulsão inata destrutiva vai passando e carrega consigo a deterioração da civilização que se infiltra de forma sorrateira. Ela expande a barbárie das guerras, agrava os riscos climáticos, produz soluções políticas com líderes extremos, em meio a conflitos sociais e disparidade de renda cada vez maior. Entre os mais lúcidos, cresce de forma assustadora o sentimento de que não é possível fazer nada — muito menos escrever alguma coisa. A máquina do mundo roda guiada por mãos invisíveis, com engrenagens anônimas, desígnios sinistros autônomos que já escaparam do alcance voluntário, mesmo de seus criadores e das esferas de maior poder.

O sentimento de impotência substitui o idealismo, e um realismo conformista e utilitário ocupa o lugar que outrora era do romantismo. Salve-se quem puder nesta feira moderna. Aqui, o convite é sensual, e a distância já morreu — numa livre citação da profética música do saudoso Som Imaginário. E a curiosa contradição é que, numa sociedade cada vez mais dispersa e desatenta, que tudo esquece, os indivíduos ainda lutem, na esfera mundana — às vezes de forma desesperada —, por conquistar atenção e lembrança, mesmo que seja por aqueles 15 segundos fugidios de fama. Mas a cultura da desatenção, da ausência de foco e do esquecimento de tantas questões cruciais de uma sociedade provoca nos sujeitos desnorteados o sentimento de desamparo e orfandade. A História já mostrou qual é o risco político desse virtual cenário.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Apenas rebanhos

A comunidade é uma coisa muito bela. Mas o que vemos florescer agora não é a verdadeira comunidade. Essa surgirá, nova, do conhecimento mútuo dos indivíduos e transformará por algum tempo o mundo. O que hoje existe não é comunidade: é simplesmente o rebanho. Os homens se unem porque têm medo uns dos outros e cada um se refugia entre seus iguais: rebanho de patrões, rebanho de operários, rebanho de intelectuais… E por que têm medo? Só se tem medo quando não se está de acordo consigo mesmo. Têm medo porque jamais se atreveram a perseguir seus próprios impulsos interiores. Uma comunidade formada por indivíduos atemorizados com o desconhecido que levam dentro de si. Sentem que já periclitaram todas as leis em que baseiam suas vidas, que vivem conforme mandamentos antiquados e que nem sua religião nem sua moral são aquelas de que ora necessitamos.

Hermann Hesse

Quando desistir pode nos salvar

Pode parecer um paradoxo. No entanto, desistir às vezes pode nos salvar. Querer ter sucesso, conseguir o que quer a qualquer custo, pode nos levar à pior derrota. Vivemos um momento em que, com mais força do que antes, o que nos valoriza é a conquista, a vitória a qualquer preço. A desistência aparece como covardia.

No passado, aqueles que persistiam eram descritos como teimosos e teimosos. “Vamos, deixe isso pra lá”, diziam nossos avós, quando nem cedíamos às evidências. Hoje, a neurociência avançou no estudo dos complexos labirintos do cérebro e está ajudando a psicologia clássica a aprofundar o estudo da mente e de seus mistérios.

Quando, por exemplo, a psicologia e a política andaram tão de mãos dadas como neste momento? Os estudos cada vez mais ampliados da neurociência, que examinam os labirintos do nosso cérebro, deparam-se com a crise política que está a ser vivida globalmente . E é nesta área que conceitos que podem parecer óbvios, mas que na verdade são os que transformam o mundo, são analisados com mais acuidade.


Há poucos dias, foi chocante a declaração ao jornal brasileiro Folha de São Paulo do psicanalista britânico Adam Phillips, de que “a ideia de nunca desistir é fascista”. E a persistência, não saber ceder, querer ter sucesso a qualquer preço, pertence à psicopatia. O aço não dobra, apenas quebra. Melhor ser uma cana que se molda sem nunca quebrar.

De acordo com os estudos que estão aparecendo na já rica análise do corpo da mente, velhos paradigmas estão começando a ruir. Hoje parece, por exemplo, que a verdadeira saúde mental é aquela que sabe combinar , dependendo do momento, tanto a perseverança quanto a desistência.

Se aqueles que não desistiram, chamados de “resistentes”, sempre foram exaltados como heróis, hoje começa a ficar mais claro que o que ontem foi condenado como fraqueza pode acabar sendo terreno fértil para a vitória. Ruth Aquino, em sua coluna no caderno literário do jornal O Globo , cita a obra: “O perigo de ser são”, de Rosa Montero e afirma: “Para se encontrar às vezes é preciso perder-se numa ilha para formar uma arquipélago.”

Vivemos numa era de tempos de mudança em que todas as águas parecem perturbadas, novas e velhas ao mesmo tempo. É como se tivéssemos que inventar outro alfabeto, outra língua, para podermos compreender o que se passa dentro e fora de nós. Assim, as publicações científicas se multiplicam a cada dia, focadas em desvendar os mistérios contidos em nosso punhado de gramas de cérebro, de autoajuda, que tornaram moda o rico mundo da psique .

E é a linguagem, esse enxoval que adorna apenas o Homo Sapiens, que cria as novas linhas de pensamento, os novos e inéditos labirintos para os quais a mente nos conduz. E assim renasce a força do paradoxo. É isso que estamos vendo quando dizemos que desistir pode ser mais fecundo e mais humano do que querer persistir, vencer, dominar, entregar-se ao outro a qualquer preço para sair vitorioso.

Saber desistir, mesmo que pareça uma derrota, pode, no entanto, ser a melhor das vitórias. Pela primeira vez em muito tempo, as obsessões dos conflitos do velho mundo parecem juntar-se de um lado ao outro do planeta, todos querendo persistir nos seus objetivos de guerra.

De um lado a outro do planeta, começam a ressoar sombrios presságios de guerras, sem esconder que, para não perdê-las, já sugerem sombrias soluções finais. Fala-se de um possível conflito atômico como se fosse uma simples discussão de bar. É curioso que a humanidade nunca tenha estado tão perto como hoje de desvendar os mistérios mais ocultos da natureza e da sua destruição total.

E é aí, nos momentos em que olhamos para o abismo, que precisamos abraçar conceitos simples mas fecundos, como ser capaz de desistir de triunfar, de passar da grosseira teimosia primitiva de não ceder, para o capacidade lúcida de desistir a tempo. Covardia ou sabedoria?

Citemos agora apenas dois exemplos que nos incomodam a todos: a guerra, que já parece eterna, entre a Rússia e a Ucrânia e a guerra cada vez mais complexa entre Israel e Hamas. Sem pensar no que o fim dessas batalhas pouparia em triliões de dólares em armas, estamos mais do que no passado confrontados com o sofrimento do sacrifício de mulheres e crianças inocentes. Portanto, o fato de “desistir” de continuar a matar e a destruir não seria uma covardia de ambos os lados, mas sim um gesto de humanidade.

A Rússia e a Ucrânia, apertando as mãos, fechando as portas do inferno em curso, e Israel e a Palestina parando a matança e criando juntos dois Estados que podem coexistir sem se destruir, podem parecer neste momento uma utopia infantil. Não é. Nem seria uma fraqueza militar por parte dos contendores. Seria uma nova primavera histórica, uma ressurreição do alegre Maio francês de 68, do “faça amor, não faça guerra”.

Seria a melhor demonstração de que tantas vezes, tanto a nível pessoal como universal, desistir, perdoar, desistir de vencer a qualquer preço, é a melhor e mais digna forma de existir e ter sucesso.

Diante dos delírios da guerra, onde os inocentes sempre perdem, desistir não é uma derrota. É a única coisa que pode nos salvar da loucura sem volta.

'Todos juntos contra o fascismo'

"O que está acontecendo aqui?", perguntou, confuso, um turista no Portão de Brandemburgo . Seu choque faz sentido. Para quem não sabe o que está reunido na Alemanha deve ter sido absolutamente surreal ver a multidão que andou no centro político e histórico de Berlim no último domingo (21/01). As milhares de pessoas participaram de uma manifestação gigante contra o fascismo, mais especificamente contra o partido de ultradireita Alternativa para Alemanha (AfD) . Segundo os organizadores, só em Berlim, eram 350 mil pessoas. A polícia fala em mais de 100 mil.

As ruas estavam lotadas. Os transportes públicos, idem. Na área perto da estação central de trens da cidade, uma ponte precisa ser fechada por excesso de gente e risco de pânico. O ônibus que peguei para ir à manifestação estava lotado. Algumas pessoas carregavam cartazes. Pela janela, vimos uma multidão nas ruas indo em direção ao local da manifestação.

A amiga com quem eu iria me encontrar mandava mensagens: "não consigo entrar no metrô, está cheio demais". Ela precisou esperar uns quatro trens passarem e descer longe do nosso local de encontro, já que a estação estava fechada por "excesso de gente".

A impressão: "todo mundo saiu de casa". Isso é exagero, claro. Mas o número continua sendo surpreendente. Se os organizadores tivessem certeza, o número de pessoas nas ruas da capital equivaleria a cerca de 10% da população da capital alemã. Se aplicarmos essa proporção a São Paulo para efeito de comparação, é como se o número de pessoas nas ruas correspondesse a 1 milhão e meio.

Posso garantir porque estava lá: não me lembro de ver tanta gente em uma manifestação em Berlim antes. Tudo fica ainda mais chocante (no bom sentido) quando pensamos que os organizadores esperavam cerca de 1 mil pessoas.

As manifestações contra a AfD se espalharam por todo o país depois que a editora de jornalismo investigativo Correctiv publicou uma reportagem na qual informou que membros da AfD participaram de uma reunião com extremistas de direita que discutiram a deportação em massa de centenas de milhares de imigrantes . Até aqueles que possuam cidadania alemã, o que é totalmente inconstitucional.

Só durante o último fim de semana, foram mais de 1,4 milhão de pessoas nas ruas. E em geral acontece do mesmo jeito: muito mais gente aparece, surpreendendo os organizadores e a polícia.

Em Munique, no sábado, a manifestação precisou ser interrompida porque os organizadores esperavam um número modesto de pessoas e apareceram cerca de 80 mil, segundo a polícia. Os organizadores falam em 250 mil. Uma semana antes, o mesmo aconteceu em Hamburgo, quando entre 50 mil pessoas (segundo a polícia) e 100 mil (de acordo com organizadores) compareceram a uma manifestação na qual eram esperados 10 mil pessoas.


Na frente do Parlamento (onde eu e minhas amigas conseguiram entrar com muito esforço, já que estão absolutamente lotados), a multidão gritante "alle zusammen gegen den Faschismus" (todos juntos contra o fascismo), "Ganz Berlin hasst die AfD" (toda Berlim odeia a AfD) ou "Ganz Berlin liebt Demokratie" (toda Berlim ama democracia.).

Outra coisa surpreendente: os presentes não são apenas pessoas de esquerda que costumam ir a esse tipo de evento, mas muita gente idosa, famílias inteiras e muitos pais com crianças e até bebês pequenos. Os slogans contra o fascimo estão em milhares de bocas.

O clima nas manifestações é de empolgação e surpresa. "Eu queria dizer para vocês que somos 350 mil pessoas aqui! Isso é inacreditável, muito obrigado a todos vocês", disse ao fim da manifestação de domingo uma das organizadoras do protesto. Muitos aplausos e sorrisos se seguirão à declaração.

Estar no meio dessa multidão é reconfortante, principalmente para nós, que somos imigrantes. É bom poder gritar "alle zusammen gegen den Faschismus" acompanhado por uma multidão, especialmente depois de lermos sobre os planos de deportação em massa.

Embora a AfD seja atualmente o segundo partido com mais interesse de voto na Alemanha de acordo com algumas sondagens, não acho que eles farão parte do governo federal.

Minha moderada “segurança” se deve ao fato de, na Alemanha, o sistema de governo ser o “parlamentarismo de coalizão”, o que significa que os radicais da AfD precisariam se aliar a outro partido para poder governar, uma opção que, com a intensificação das manifestações parece cada vez mais difícil.

Na Alemanha, existe uma expressão chamada Brandmauer , que significa "muro de contenção", um acordo entre os principais partidos para que a AfD fique isolada e não consiga governar. O risco desse muro quebrar quando tantos cidadãos vão às ruas fica menor.

"Wir sind die Brandmauer" (nós somos o muro de contenção), gritava a multidão na noite fria de domingo.

Acho que somos iguais.

Despojados, espancados ou desaparecidos: o tratamento de Israel aos detidos em Gaza

Com frio, quase nu e rodeado por soldados israelitas com fuzis de assalto M16, Ayman Lubbad ajoelhou-se entre dezenas de homens e rapazes palestinos que tinham acabado de ser forçados a abandonar as suas casas no norte de Gaza.

Era o início de dezembro e fotografias e vídeos feitos na altura mostravam-no e a outros detidos na rua, vestindo apenas roupa interior e alinhados em filas, cercados pelas forças israelitas. Num vídeo, um soldado gritou-lhes através de um megafone:

“Estamos ocupando toda Gaza. Era isso que você queria? Você quer o Hamas com você? Não me diga que você não é o Hamas.”

Os detidos, alguns descalços e com as mãos na cabeça, gritaram objeções. “Sou diarista”, gritou um homem.

“Cale a boca”, gritou o soldado de volta.


Os detidos palestinos de Gaza foram despidos, espancados, interrogados e mantidos incomunicáveis ao longo dos últimos três meses, segundo relatos de quase uma dúzia de detidos ou dos seus familiares entrevistados pelo The New York Times.

Organizações que representam prisioneiros e detidos palestinos deram relatos semelhantes num relatório, acusando Israel tanto de detenção indiscriminada de civis como de tratamento degradante dos detidos.

As forças israelitas que invadiram Gaza após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de Outubro detiveram homens, mulheres e crianças aos milhares. Alguns foram obrigados a abandonar as suas casas e detidos, enquanto outros foram levados enquanto fugiam dos seus bairros a pé com as suas famílias, tentando chegar a zonas mais seguras depois de as autoridades israelitas terem ordenado a sua saída.

Fotografias tiradas por jornalistas de Gaza mostraram detidos recentemente libertados a serem tratados em hospitais, com a pele à volta dos pulsos desgastada por cortes profundos devido às restrições rígidas que as forças israelitas lhes mantinham, por vezes durante semanas.

O escritório de direitos humanos das Nações Unidas disse na semana passada que o tratamento dispensado por Israel aos detidos em Gaza pode equivaler a tortura. Estimou que milhares de pessoas foram detidas e mantidas em condições “horríveis” antes de serem libertadas, por vezes sem roupa, apenas com fraldas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Obsolescência programada - um crime premeditado

A obsolescência programada, estratégia em que fabricantes limitam deliberadamente a vida útil de produtos para impulsionar o consumo, é uma questão complexa e multifacetada, essa prática tem suas raízes no início do século XX, quando as empresas perceberam que podiam aumentar suas vendas limitando a vida útil dos seus produtos, analisando as teorias estratégias que impulsionaram esse fenômeno, é possível entender como a busca incessante pelo lucro moldou esse modelo econômico perverso. Vários países e entidades internacionais, buscam um aparato jurídico para enfrentamento da obsolescência programada evidenciando a complexidade do problema, enquanto alguns Estados estão na vanguarda dessa discussão, adotando medidas rigorosas, como a França que criou a lei de transição energética, outros países ainda carecem de regulamentações específicas, a análise de tratados internacionais e as propostas de padronização legal são cruciais para o enfrentamento dessa questão, compreender como diferentes nações buscaram soluções e unificar essas abordagens é fundamental para resolução definitiva desse problema.

Investigações revelarem que a obsolescência programada impulsiona artificialmente um ciclo econômico de produção e contribui para o consumo excessivo, estudos de casos indicam que, em média, os consumidores substituem smartphones, laptops e outros dispositivos a cada dois anos, quando, na verdade, se a vida útil do produto fosse maior, seja pela qualidade e durabilidade ou pela atualização regular do seu software, os consumidores não comprariam novos equipamentos, mantendo os que possuem em média quatro anos, gerando um impacto significativo nos lucros, por isso a indução artificial para diminuir a vida útil dos produtos.

Analisar os custos diretos e indiretos para consumidores e governos é essencial. Dados do Instituto de Defesa do Consumidor – IDEC, apontam que, em países como o Brasil, os consumidores gastam bilhões de reais anualmente substituindo produtos eletrônicos que se tornaram obsoletos, ao mesmo tempo, os custos associados à gestão de resíduos eletrônicos sobrecarregam os cofres públicos e pressionam enormemente a natureza. O aumento exponencial de resíduos eletrônicos é um dos efeitos mais evidentes da obsolescência programada, estatísticas da União Europeia revelam que, em 2023, mais de 12 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos foram geradas globalmente, uma análise aprofundada desses números destaca a urgência de abordagens sustentáveis e de uma força tarefa mundial contra essa forma de rapinagem da indústria de eletroeletrônicos.

Além dos resíduos, a produção e descarte rápidos de produtos eletrônicos contribuem para as emissões de carbono, estudos científicos indicam que a pegada ambiental associada à obsolescência programada é substancial, exigindo estratégias mais eficazes para reduzir os impactos climáticos, a imposição de um padrão de consumo desenfreado tem implicações diretas na qualidade de vida dos consumidores, a análise de pesquisas psicológicas e sociológicas destacam como a cultura do consumismo, alimentada pela indústria eletrônica, impacta negativamente a psique das pessoas e afeta também o bem-estar financeiro dos indivíduos. A rápida obsolescência dos dispositivos aprofunda as desigualdades sociais, estudos socioeconômicos indicam que grupos de baixa renda enfrentam maiores dificuldades para acompanhar as demandas tecnológicas, além do crescente endividamento, a luta por estar sempre atrás da tecnologia funcional do momento será indelevelmente perdida pelos hipossuficientes, exacerbando ao final as disparidades digitais entre as classes sociais, gerando mais um abismo entre os que tem acesso ao mundo digital e quem ficará preterido.

Explorar alternativas sustentáveis é fundamental para mitigar os impactos da obsolescência programada, a promoção de produtos modulares e a adoção de princípios de economia circular oferecem caminhos viáveis, estudos de casos, como a implementação dessas práticas em países europeus, fornecem avanços enormes. Produtos modulares são dispositivos ou sistemas compostos por módulos independentes, interconectados de maneira padronizada, que podem ser facilmente substituídos, atualizados ou reparados de forma individual, essa abordagem contrasta com o design tradicional de produtos, nos quais os componentes são integrados de maneira mais permanente e complexa.

A ideia por trás dos produtos modulares é promover a sustentabilidade, a eficiência e a longevidade, proporcionando aos consumidores a capacidade de adaptar, personalizar e manter seus dispositivos ao longo do tempo, cada módulo desempenha uma função específica e pode ser retirado e substituído independentemente dos outros, o que facilita o reparo e a atualização. Várias categorias de produtos podem seguir o conceito modular, como smartphones, laptops, eletrodomésticos, carros e até mesmo edificações. Alguns exemplos práticos incluem:

1. Smartphones Modulares: Permitem que os usuários troquem módulos, como a câmera, bateria ou processador, sem a necessidade de substituir o dispositivo inteiro;

2. Laptops Modulares: Possibilitam a substituição ou atualização de componentes como memória RAM, armazenamento, bateria e tela, oferecendo maior flexibilidade e prolongando a vida útil do computador;

3. Eletrodomésticos Modulares: Geladeiras, máquinas de lavar, micro-ondas, máquinas de secar pratos e roupas, podem ser projetados com módulos independentes para facilitar a manutenção e reparo, durando por muito tempo e se modelando a novas necessidades;

4. Carros Modulares: Algumas empresas automotivas exploram o conceito de carros modulares, nos quais os componentes principais, como motor, bateria e sistema de entretenimento, teriam módulos independentes e substituíveis, elevando a qualidade e vida útil do veículo.

Ao permitir a substituição de partes individuais, os produtos modulares reduzem o desperdício eletrônico e contribuem para uma abordagem mais sustentável, a capacidade de atualizar ou substituir apenas partes específicas reduz a necessidade de produzir novos dispositivos completos, economizando recursos naturais preciosos, com a possibilidade de trocar módulos defeituosos ou obsoletos, a manutenção e o reparo tornam-se mais acessíveis, simples e econômicos, os usuários podem adaptar os produtos às suas necessidades, escolhendo módulos que atendam às suas preferências ou exigências específicas. Embora os produtos modulares ofereçam benefícios significativos, a implementação generalizada enfrenta desafios, principalmente pela visão predatória do mercado que não pretende prescindir fácil dos lucros imediatos apesar de todo impacto ecológico e econômico que criam, no entanto, o crescente interesse na sustentabilidade e na economia circular está impulsionando a exploração e adoção dessa abordagem inovadora em várias indústrias.

A análise de políticas de incentivo e regulamentações é crucial para a promoção de práticas sustentáveis, examinar como diferentes países abordam questões como a rotulagem de durabilidade e a facilitação da reparabilidade destaca estratégias eficazes e lições aprendidas que deve ser socializada como um verdadeiro manual de boas práticas para indústria eletroeletrônica. Como vimos, a rápida sucessão de produtos descartáveis alimenta não apenas um ciclo vicioso de consumo, mas também uma crescente montanha de resíduos eletrônicos, constituindo um crime ambiental de larga escala, a exploração da mão de obra e a desigualdade socioeconômica, muitas vezes associadas à produção em massa, merecem uma análise mais profunda, evidenciando as falhas éticas e sociais inerentes a esse modelo.

Ao mesmo tempo, que a obsolescência programada, cria uma cultura de consumo descontrolado, pode ser considerada um atentado contra a qualidade de vida dos consumidores, o ciclo interminável de compra e descarte não apenas sobrecarrega os orçamentos familiares, mas também gera um impacto psicológico significativo principalmente nos mais jovens, contribuindo para níveis crescentes de ansiedade e estresse, é crucial, porém desafiador, eliminar esse modelo de produção/consumo da nossa sociedade. O capitalismo, baseado na busca incessante pelo lucro, encoraja práticas que priorizam ganhos imediatos em detrimento de considerações ambientais e sociais a longo prazo, esta crítica é uma chamada à reflexão sobre como podemos superar esse modelo em prol da nossa sociedade e do ambientalismo.

A transição para um modelo mais sustentável requer não apenas mudanças nas práticas das empresas, mas também uma reavaliação coletiva de valores e prioridades de todos e de cada um de nós, incentivar a inovação, regulamentar de maneira mais eficaz e promover uma conscientização global sobre as consequências nefastas da obsolescência programada são passos iniciais, porém cruciais. O desafio é transformar essa crítica em ações concretas que possam remodelar a maneira como produzimos, consumimos e interagimos com a tecnologia, somente mediante uma abordagem multidimensional e colaborativa podemos aspirar a um futuro em que a sustentabilidade prevaleça sobre a busca desenfreada pelo lucro, mitigando os danos causados pela programação artificial do que será o lixo sem que necessário precisasse ser, e promovendo um equilíbrio mais justo entre sociedade, economia e meio ambiente.

Pensamento do Dia




 

Camões 500

Não, mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Luís de Camões, “ Lusíadas”

Por que o Brasil é recordista de vício no BBB?

"Por que as pessoas no Brasil gostam tanto de Big Brother ? Todos os meus amigos, pessoas progressistas, máquinas. Todo mundo assiste. Nunca vi algo assim." A pergunta foi feita por um amigo alemão que também tem muitos amigos no Brasil durante o BBB 21 , que foi exibido no auge da pandemia e virou uma febre nacional. E sucesso de lucro para a Globo, claro.

A pandemia acabou, mas meu amigo continua com razão. Sim, a realidade é um sucesso entre todas as camadas da população. No momento, quando você entra nas redes sociais, tem a impressão de que "só se fala disso".

O sucesso do reality no Brasil é um “case” mundial. Mais pessoas veem o programa no país do que em qualquer outro lugar do mundo.

Os números mostram isso. A diferença de audiência entre o reality da Globo e suas versões fora do mundo é gigantesca. A título de comparação: a estreia do BBB 24 foi vista por 39,1 milhões de pessoas. Nos Estados Unidos, a estreia do BB 25, exibida no ano passado, atingiu (apenas) 3,4 milhões de telespectadores.


No Brasil, 51 milhões de pessoas assistiram à final do BBB 21, o programa com maior audiência dos últimos anos. Enquanto isso, nos EUA, o recorde, registrado no BB1, é de “apenas” nove milhões.

Aqui, na Alemanha, um "sucesso" de audiência foi comemorado na estreia do Promi Big Brother (Big Brother celebridades), quando mais de 1,7 milhão de pessoas assistiram à abertura do reality. Em geral, a mídia de audiência do programa fica abaixo de 1 milhão. Ou seja, o Brasil é o campeão do mesmo vício.

Acho que existem muitas razões para que o programa ainda faça tanto sucesso no Brasil. Uma delas é o escapismo. A vida não é fácil. Vou dormir pensando em quem deve sair no "paredão" ou em problemas de outras pessoas que não ganharam o "anjo", por mais ridículo que seja, pode ser bem mais confortável do que ir dormir encarando a própria vida.

Sei como é, também já fui meio viciada no BBB . E, claro, como boa adicta, assistia e usava o Twitter (atual X) ao mesmo tempo. Desde que as redes sociais existem, elas fazem parte da experiência antropológica de ver o BBB. Adoramos comentar. Adoramos ter opinião. E, em muitos casos, os fãs viram “hooligans” . Sim, existe briga séria por causa do BBB . É difícil imaginar o programa hoje sem as redes sociais, onde nós, brasileiros, também colecionamos registros de engajamento.

É difícil não ceder à tentação. Em parte, porque a direção do programa brasileiro costuma ser muito competente (para o bem e para o mal) e sabe muito bem como fisgar a audiência. Desde 2020, por exemplo, o programa reúne anônimos e famosos, o que amplia o interesse e as fofocas.

Outra técnica usada pela produção do programa é escolher participantes que geram raiva e com potencial para escândalos. Ano após ano, a produção recruta homofóbicos , machistas e outros tipos que geram ódio. A nossa revolta faz a Globo lucrar. Mas é difícil ficar quieta quando uma mulher é agredida e/ou insultada na TV.

No momento, as mulheres do Brasil estão revoltadas com o pagodeiro Rodriguinho, que fez sucesso nos anos 90 com o grupo Os Travessos . Motivo: em pouco mais de uma semana desde a estreia da nova temporada, ele já fez comentários machistas, etaristas e misóginos. Explico: o cantor disse que o corpo da modelo e inspirou Yasmin Brunet "já foi melhor" e que ela está "mais velha" (sic).

"Ela tá mais velha e largou mão", disse, além de falar que ela estava comendo demais no programa.

A revolta com ele é justa. É lucrativo para a Globo, que ano que vem deve recrutar mais machistas para integrarem o elenco, já que a fórmula funciona.

Enquanto muitos se indignam, outros gostam e se identificam com os machistas e homofóbicos que sempre estão lá, formando uma espécie de "elenco fixo", já que os personagens mudam, mas as ideias continuam sempre presentes no programa.

Sim, vamos aceitar a realidade. Muitos gostam de ver um homem, por exemplo, julgando o corpo de uma mulher de maneira podre, já que eles mesmo fazem isso. O machismo exibido no programa em todas as temporadas é o mesmo praticado por pessoas comuns, infelizmente.

Será que vale a pena assistir e passar essa raiva? Não houve raiva o suficiente na vida real? Ora, já lidamos com machismo, por exemplo, quase todos os dias. Isso é rotina. Para que assistir isso de novo na hora de lazer? Essa é uma boa maneira de relaxar? Acho que não. Mas entendo, é muito difícil resistir. Da Alemanha, sem acesso à Globo, eu mesma não resisto e "assisto" a muitas cenas pelo Twitter (hoje X). E passo raiva, claro.

Vale a pena? Certamente não. Existem milhares de coisas melhores para fazer com o seu tempo, como "desligar a televisão e ir ler um livro" (como dizia uma antiga vinheta da MTV), ir para a academia, dar uma volta. A droga é poderosa. Vicia mesmo. Mas tente resistir.

Desinformação climática é relevante

A desinformação climática consiste no compartilhamento de informações falsas ou de dados atuais pré-selecionados sobre as emissões de combustíveis fósseis ou sobre as mudanças climáticas, o que inclui a omissão dos dados completos sobre esses temas, potencialmente influenciando a opinião de muitas pessoas.

Isso ocorre não necessariamente de maneira proposital: a desinformação também pode ser resultado de enganos ou da má compreensão de um tema complexo.

Um exemplo é a chamada greenwashing ("lavagem verde"), adotada por algumas empresas para transmitir uma imagem de correção ecológica e de respeito ao meio ambiente que não corresponde à realidade.

Algumas empresas de vestuário, por exemplo, propagandeiam o uso de fibras naturais ou renováveis e de embalagens recicláveis, ao mesmo tempo em que omitem a enorme quantidade de roupas descartáveis e de baixa qualidade que produzem.

A desinformação também ocorre quando negacionistas das mudanças climáticas e outros grupos ou organizações publicam de maneira proposital informações falsas ou disseminam farsas no intuito de avançar sua agenda contra a ciência do clima e as políticas governamentais criadas em benefício do meio ambiente.


Grandes empresas petrolíferas como Shell, Exxon Mobil e BP, juntamente com a chamada Coalizão para o Clima Global – um grupo de fachada dissolvido em 2022 que reunia quatro empresas associadas à indústria dos combustíveis fosseis – foram acusadas de promover campanhas de descrédito contra cientistas do clima e de omitir seus investimentos em combustíveis fósseis através de lobbies e propagandas com mensagens positivas desde o anos 1970.

Grupos como a The Empowerment Alliance ("Aliança do Empoderamento") nos Estados Unidos ou a Responsible Energy Citizen Coalition ("Coalizão de Cidadãos Responsáveis em Energia") na Europa utilizam táticas como o chamado astroturfing – ações políticas criadas de modo a parecer que são movimentos populares espontâneos – para promover o uso de gás natural derivado de combustíveis fósseis e para desacreditar políticas ambientais, sendo muitas vezes financiados por fontes obscuras.

Desinformações e mentiras também são publicadas em alguns veículos de imprensa ou promovidas por políticos populistas. Quando as enchentes resultantes de um ciclone extratropical causaram mais de 40 mortes no Rio Grande do Sul, em setembro de 2023, oposicionistas do governo e até um jornalista bastante conhecido no país atribuíram as mortes a abertura de comportas de três represas, numa tentativa de distrair a atenção dos esforços para mitigar os efeitos extremos do aquecimento global e culpar o atual governo federal pelo ocorrido. Umas das três barragens em questão nem sequer têm comportas.

As redes sociais e a manipulação de fotografias ou vídeos tornaram mais fácil a disseminação desse tipo de desinformação, especialmente quando associadas a teorias da conspiração, como nos ataques recentes à estratégia de planejamento urbano chamada de cidades de 15 minutos – na qual as cidades seriam planejadas de tal modo em que a maioria dos serviços e necessidades básicas dos habitantes estariam localizados a 15 minutos de distância, a pé ou de bicicleta, dos locais de moradia.

A Climate Action Against Disinformation ("Ação Climática contra a Desinformação"), uma coalizão global que trabalha no combate à desinformação e à má compreensão dos fatos, concluíram que as postagens negacionistas do clima com hashtags como #ClimateScam ("farsa climática") aumentaram na rede social X (antigo Twitter) depois de a plataforma ter sido adquirida pelo bilionário Elon Musk.

Nos últimos anos, a desinformação também infiltrou a esfera dos tomadores de decisões políticas. Um dos exemplos mais notáveis foram as repetidas críticas do ex-presidente dos EUA Donald Trump às energias renováveis e sua negação à ciência do clima antes e depois de ser eleito, com frequência classificando as mudanças climáticas como "farsa".

Trump, inclusive, retirou os EUA do Acordo Climático de Paris, de 2015, assinado por mais de 190 países que se comprometeram a limitar o aquecimento global a 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais. A decisão gerou um retrocesso de vários anos nas ações climáticas dos EUA e, possivelmente, globais.

Enquanto isso, se esgota o tempo para a adoção de medidas para conter o aquecimento global, em meio ao aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa e recordes sucessivos de temperaturas em todo o mundo.

A maioria dos cientistas concorda que ações urgentes se fazem necessárias, embora a desinformação resulte em questionamentos sobre a tese científica já comprovada de que os humanos são a causa das mudanças climáticas, e crie dúvidas que minam o apoio popular à defesa do clima.

Em 2022, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima da ONU (IPCC) reconheceu pela primeira vez que a "retórica e desinformação sobre as mudanças climáticas e a desautorização deliberada da ciência contribuíram para percepções errôneas sobre o consenso científico, assim como para incertezas, ignorância dos riscos e da urgência e para a discórdia".

Grupos como a Climate Action Against Disinformation, governos como o da União Europeia (UE) e organizações globais como a ONU, a Organização Meteorológica Mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre outras, trabalham para denunciar e combater a desinformação.

Muitos veículos de imprensa também direcionam recursos para a cobertura jornalística sobre o clima, a fim de desfazer mitos e mentiras sobre as questões ambientais.

A persistência da memória

Em 2024, já muitos chamaram a atenção para o facto, cerca de metade da população adulta mundial vai ter oportunidade de votar. É certo que algumas destas eleições, como será o caso das que acontecerão na Rússia ou no Irão, pouco mais serão do que meros atos formais, ritualistas ou performativos. Mas também é verdade que teremos importantes eleições livres e justas nalguns dos tradicionais bastiões da democracia liberal ocidental. Os portugueses terão, como bem sabemos, oportunidade de escolher um novo governo, os europeus um novo parlamento e, com muito mais significado global, os americanos escolherão um novo presidente.

Infelizmente, aquilo que, noutras circunstâncias, poderia ser uma grande festa da democracia, arrisca-se a resultar, a nível mundial, num enorme retrocesso dos regimes demo-liberais tal como os fomos conhecendo e, em consequência disso, numa perigosa erosão dos tradicionais pilares da segurança e da paz. Os sinais estão à vista de todos quantos queiram olhá-los de frente. Por todo o lado, crescem desencantos e descontentamentos profundos com esta particular fórmula de governo e de organização da cidade, assente em originalíssimas (mas também delicadíssimas) instituições materiais e imateriais, a que devemos muita da nossa paz, liberdade e prosperidade passadas, mas que parece progressivamente ter perdido a capacidade de ser geradora de esperança para franjas crescentes das populações. Sendo que – é bom ter consciência disso – não há qualquer regime político que possa sobreviver indefinidamente à desesperança. É pela desesperança que caem as autocracias, mas é também a desesperança que, mais subtil e lentamente, corrói as democracias.

São muitas e são variadas as causas da desesperança (das percepções sobre corrupção à desigualdade, da estagnação económica à disfuncionalidade do Estado). Seria uma irresponsabilidade tentar dissertar sobre todas, em poucas linhas, com um mínimo de seriedade e de profundidade. A minha proposta é bem mais modesta. Fixo-me, alternativamente, na ideia de memória. Não porque a junte ao rol das causas da desesperança, mas porque tenho para mim que esta lenta e silenciosa degenerescência dos nossos regimes demo-liberais se explica tanto pelo desencanto com as suas limitações intrínsecas e com as conjunturais dificuldades em responder aos desafios do tempo presente, como se fica a dever à falta de uma memória aguda, presente e viva sobre as suas reais alternativas.

A desintegração da Persistência da Memória, Salvador Dali

Explico-me. Em boa parte do mundo ocidental, uma muito significativa percentagem dos eleitores que são chamados a votar, neste perigoso ano de 2024, nunca verdadeiramente experimentou uma alternativa aos regimes demo-liberais em que temos o luxo de viver. Isso é verdade para boa parte dos cidadãos da União Europeia e é uma verdade insofismável para a esmagadora maioria dos cidadãos nascidos nos Estados Unidos (as exceções serão mesmo os migrantes chegados de outras paragens). Mesmo em Portugal, uma jovem democracia no contexto europeu e um dos países mais envelhecidos do mundo, quase metade dos eleitores nasceu já depois do 25 de Abril e cerca de três quartos destes não tinham atingido a maioridade naquela data (eu próprio incluído). Igualmente relevante, uma parte significativa dos líderes que se apresentam a eleições não podem ter reais memórias da vida num regime sem eleições livres e justas, sem separação de poderes, sem liberdade de expressão, sem proteções constitucionais às minorias e aos direitos fundamentais. Entre nós, só Rui Rocha, Rui Tavares e Luís Montenegro nasceram antes – e nasceram pouco antes – da revolução. Respetivamente em 1970, 1972 e em 1973.

Porventura mais relevante, a esmagadora maioria dos eleitores e dos líderes políticos do mundo ocidental nunca experimentou o horror de viver num país dilacerado pela guerra. Se é certo que nos Estados Unidos vários líderes políticos foram chamados a combater noutras paragens (curiosamente não é o caso de Trump, o primeiro Presidente americano sem qualquer experiência prévia, governativa ou militar), em boa parte da Europa há muito que se retirou a geração que viveu o trauma da Segunda Guerra Mundial. Em Portugal nenhum dos líderes políticos atuais terá, obviamente, memórias da Guerra Colonial.

Não quero com isto naturalmente significar que o apego racional aos ideais democráticos e da paz não seja real e absolutamente convicto nas gerações que nunca viveram em ditadura ou que nunca experimentaram a guerra. Seria absolutamente injusto fazê-lo. Limito-me a dizer que a ausência dessa memória viva e vivida acarreta riscos muito específicos. Desde logo porque cria uma ilusão sobre a perenidade da democracia e da paz. No plano racional, sabemos bem que o passado está pejado de sombras e de horrores, mas a verdade é que temos dificuldade em acreditar que possam, efetivamente, reavivar-se. Talvez seja uma defesa inconsciente e necessária para viver o quotidiano – mas uma defesa perigosa, como já veremos.

Da mesma forma, esta ausência de memórias diretas torna-nos incapazes de fazer tangível um passado que nunca foi o nosso. Somos capazes de uma racionalidade abstrata, é certo. Mas, porque nos é impossível reinventar as cicatrizes das memórias vividas, nunca conseguimos verdadeiramente entender, em toda a sua profundidade concreta, a experiência de uma vida sem liberdade, sem democracia ou sem paz.

Ora é essa ilusão sobre a perenidade da democracia e da paz e é essa incapacidade de alcançar o real significado de um mundo em que não existam, que, não destruindo o nosso apego intelectual a ambas, diluem o nosso sentido de urgência e a nossa capacidade de sacrifício para as preservar. É a complacência inconsciente que nos deixa mais expostos à repetição do indizível.

Teria Mario Soares feito frente, com a coragem que conhecemos, aos delírios da esquerda militar sem um passado de prisão e de exílio? Teriam Kohl e Mitterrand defendido com o mesmo afinco o projeto de paz que é a União sem a experiência de ter servido na Segunda Guerra Mundial? Teria Adenauer dedicado a última parte da vida a reconstruir uma Alemanha pacífica e reconciliada com a Europa, se não queimassem ainda as memórias do Reich?

São respostas que nunca teremos. Assim como não temos real resposta ao problema da erosão da memória. Resta-nos, apesar de tudo, ter a consciência de que existe.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

Presságios do fogo, da água, da terra e do ar

Um dia já distante, os magos voaram até a gruta da mãe do deus da guerra. A bruxa que levava oito séculos sem lavar-se, não sorriu nem cumprimentou. Aceitou, sem agradecer, as oferendas, mantas, peles, plumas, e escutou com uma careta as notícias. México, informaram os magos, é senhora e rainha, e todas as cidades estão aos seus mandados. A velha grunhiu seu único comentário: Os astecas derrubaram os outros, disse, e outros virão que derrubarão os astecas.
Passou o tempo.

Há dez anos, se sucedem os signos.

Uma fogueira esteve gotejando fogo, do centro do céu, durante toda uma noite.
Um súbito fogo de três caudas ergueu-se do horizonte e voou de encontro ao sol.
Se suicidou a casa do deus da guerra, se incendiou a si mesma: lhe arrojavam cântaros de água e a água avivava as chamas.

Outro templo foi queimado por um raio, uma tarde em que não havia tormenta.
A lagoa onde tem seu assento a cidade, se fez caldeira que fervia. As águas se levantaram, candentes, altas de fúria, e levaram as casas e arrancaram até os alicerces.

As redes dos pescadores ergueram um pássaro cor de cinza misturado aos peixes. Na cabeça do pássaro, havia um espelho redondo. O imperador Montezuma viu avançar, no espelho, um exército que corria sobre patas de veados e escutou os seus gritos de guerra. Depois, foram castigados os magos que não souberam ler o espelho nem tiveram olhos para ver os monstros de duas cabeças que acossavam, implacáveis, o sono e a vigília de Montezuma. O imperador encerrou os magos em jaulas e condenou-os a morrer de fome.

Cada noite, os alaridos de uma mulher invisível sobressaltam a todos os que dormem em Tenochtitlán e em Tlatelolco. Filhinhos meus, grita, pois já temos de ir-nos longe! Não há parede que não atravesse o pranto dessa mulher. Aonde iremos, filhinhos meus?
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Ensino técnico, Pé-de-Meia e sonhos de Beneditos

Forte, alto e magro, José Benedito (nome fictício) tinha tudo para ser um zagueirão. Desde garoto, destacou-se entre os coleguinhas do bairro pela estatura, que hoje chega quase a 1,90m. Era um gigante intransponível na defesa em jogos de futebol no terrão.

O tempo foi passando e Benedito teve de abandonar os amiguinhos do bairro, enquanto alguns já faziam testes na base de grandes times de São Paulo. Tendo pai ausente, aos 9 anos começou a ajudar a mãe, empregada doméstica, a sustentar a família, com cinco irmãos menores. Vendeu picolés caseiros no farol e ao mesmo tempo carregou tijolos como servente de pedreiro.

O trabalho infantil, que envolve 1,9 milhão de crianças no país, destruiu dois sonhos do jovem Benedito: ser jogador de futebol e fazer engenharia civil. Mas ele conseguiu uma vaga no ensino técnico, o que hoje lhe garante um emprego na enfermagem em um grande hospital de São Paulo.

Já trabalhando na área médica, Benedito tentou realizar o sonho da engenharia, mas não deu certo. A faculdade era privada e ele não conseguiu bolsa, porque seu salário estava acima do limite para a concessão do benefício. Já com dois filhos, teve que optar entre sustentar a própria família e estudar engenharia. Abandonou a faculdade no segundo ano. (Entre parênteses, isso lembra o clássico “Pequeno Burguês”, de Martinho da Vila: “Felicidade, passei no vestibular/mas a faculdade é particular/”).


Não há, como já houve no passado, conflito ideológico sobre a importância dos cursos médios técnicos no país. Durante décadas, a educação profissional e tecnológica sofreu com o estigma de que seria apenas uma boa opção para pobres. E os jovens ricos iriam para a universidade. Talvez por isso e, consequentemente, por falta de investimento público, hoje apenas 10% dos alunos cursam o técnico, enquanto países ricos, líderes nas avaliações internacionais sobre educação, investem pesadamente para que os estudantes ingressem nos cursos técnicos e tecnológicos. Cerca de 84% dos jovens fazem ensino técnico na Suíça, 68% na Finlândia e 49% na Alemanha. Até na América Latina os números são desfavoráveis ao Brasil: 34% no México, 29% no Chile, 24% na Colômbia e 20% na Costa Rica.

Os resultados de 2022 do Pisa, a prova mais importante de educação no mundo, que avalia estudantes de 15 anos em 81 países, foram divulgados no fim de 2023. E mostraram que os seis países líderes do ranking são asiáticos: Cingapura, China, Taiwan, Hong Kong, Japão e Coreia do Sul. Não por coincidência, todos são entusiastas e incentivadores do ensino técnico. Também no Brasil, que está em posição vergonhosa no ranking do Pisa (65º lugar entre os 81 países), alunos de escolas técnicas são os que conseguem melhores notas nos vestibulares quando comparados com outros alunos de escolas públicas.

Pessoas que cursaram o ensino técnico no país têm uma remuneração profissional média 12% acima daqueles que fizeram apenas o ensino médio convencional. Há inúmeros estudos nacionais e internacionais sobre esse tema e alguns concluem que o aumento da remuneração chega a 32% em muitos casos, com efeito direto na redução da desigualdade de renda. Estudo divulgado recentemente pelo Itaú Educação e Trabalho e pelo Insper mostrou que, além dos benefícios para os estudantes, há ganhos macroeconômicos para o país. Quando o governo triplica o número de vagas no ensino técnico, ocorre um impacto positivo de 2,32% no PIB a longo prazo.

Em entrevista à imprensa, o pesquisador do Insper Vitor Fancio disse que a capacidade de produzir de uma empresa que tem mais funcionários com ensino médio técnico é maior: produz mais bens e mais serviços do que se tivesse empregados majoritariamente com o médio tradicional. É isso, segundo ele, que leva à elevação do PIB a longo prazo no país.

O sonho de entrar na universidade não conflita com a escolha do técnico no ensino médio. A educação profissional representa até um incentivo à continuidade dos estudos. Exatamente o que José Benedito tentou fazer, mas foi barrado pela falta de recursos e de financiamento estudantil.

Agora, todo seu empenho é para formar a filha mais velha, de 13 anos, que é um fenômeno na escola, segundo os professores da rede pública em que estudou. O novo sonho é colocá-la numa escola privada para fazer um bom ensino médio e depois conseguir ingressar em uma universidade pública.

Na semana passada, foi sancionada a lei que institui o “Programa Pé-de-Meia”, que dará incentivo financeiro para a permanência de estudantes de baixa renda no ensino médio. Talvez isso ajude os Beneditos a realizar seus sonhos. Talvez.

Mercado de carbono: aliado ou concorrente?

Na expectativa de descobrir novas fontes de receita para amparar a economia, o governo brasileiro vem propagando um “futuro” baseado no ciclo comercial do carbono e na importância da bioenergia. Serve, no mínimo, de apoio para a discussão sobre “oneração” e “desoneração” fiscal tributária, pontos de inflexão política.

Para além disso, faz ressurgir das tais “memórias do esquecimento” uma das políticas públicas que mais alavancaram a economia brasileira nos anos 60 e 70: a Lei no 5.106, de 02.09.de 1966, que permitia investimentos em reflorestamento por parte de pessoas físicas e jurídicas, até o limite de 50% do imposto de renda devido. Tirou o Brasil de uma cultura extrativista, inconscientemente predatória, para criar milhares de empresas e empregos de base florestal no país.

Em pouco mais de dez anos, o setor passou a ser responsável por 4% das exportações brasileiras. Gerou mais de um milhão de empregos em todo o Brasil. Só a modesta indústria moveleira, que operava de maneira primitiva, abriu 255 mil empregos diretos e institucionalizou mais de 18 mil negócios, transformando-os em pessoas jurídicas cooperativas, e que, em 2021, tiveram um valor de produção estimado em aproximadamente R$ 78,1 bilhões (Abimovel, 2023).

Tornou-se no maior programa de reflorestamento do mundo. Reproduzia-se em sofisticados empreendimentos nas áreas da siderurgia, do papel, da celulose, dos laminados e aglomerados e da indústria moveleira, gerando fabricantes periféricos de pequenas máquinas, ferramentas, colas, tintas, vernizes, óleos, tacos, embalagens, chapas, parafusos, forrageiras, sementes e mudas selecionadas, designs originais, que atraíam italianos, ingleses, japoneses, norte-americanos, pela alta qualidade e beleza dos produtos. Eram três mil subprodutos derivados da floresta.


O reflorestamento oferecia alternativas de matérias primas naturais abundantes e de economicidade maior, ao mesmo tempo em que as espécies tropicais nativas, particularmente algumas madeiras duras, como o mogno, o cedro, o jacarandá, o jequitibá, a sucupira e outras que, por sua vez, demoravam 20 a 30 anos para viabilizar-se economicamente. Os brasileiros descobriram que, com 6 a 7 anos, a madeira de pinus (Pinus elliottii e Pinus taeda), introduzidas por meio de sementes importadas, apresentavam resultados similares. Centenas de experimentos feitos nas universidades e pelas empresas mostraram sua adaptação ao clima e ao solo tropical, inclusive os mais áridos. Brasília foi cercada para um cinturão florestal.

O programa ganhou maturidade, tornando-se um negócio como outro qualquer, incorporando, sem dúvida, também os males da corrupção e a ideia explícita da agressão à natureza pelos grandes desmatamentos, sem reposição, voltados para abrir espaços para a agricultura extensiva, que envolvia o cultivo de grandes áreas de terra, baixo uso de mão de obra e de tecnologia.

Os produtos e subprodutos florestais ocupavam o 5º. ou 6º. lugar entre as exportações brasileiras. As grandes indústrias florestais e periféricas juntaram-se em polos de desenvolvimento, ganhando configuração e mercado próprio. Concomitante, na área da agricultura, capitaneada pelo professor Alyson Paulinelli, desencadeara-se a “Revolução Verde”, gerando massa crítica profissional, pesquisas, altas tecnologias, a introdução de insumos, máquinas agrícolas, fertilizantes, que independiam do clima. Representado por um 1/3 das exportações, tornou-se um dos maiores produtores mundiais de alimentos.

Não é, entretanto, esta a imagem que ficou na história da economia brasileira. No início dos anos 80, a moralidade ambientalista chegara, combatendo, em nome da ciência, da qualidade de vida e da proteção dos recursos naturais, a revolução agrícola e os desmatamentos, sobretudo na Mata Atlântica, e as queimadas na Amazônia, que destruíam, de fato, solos férteis, a fauna, princípios biológicos ativos, e poluíam os rios. A indústria, inclusive a florestal, passou a ser acusada de produzir gases que agrediam a atmosfera e o ar que respiramos. A modernidade expulsava os trabalhadores do campo, engrossando a pobreza da vida urbana.

A política florestal tomaria outros rumos. O Brasil descobrira a sustentabilidade, e geraria visões novas sobre a proteção dos recursos naturais. Depois de revisar os incentivos, incrementaram-se programas compulsórios de reposição florestal e de preservação dos ecossistemas originais, bem como de cooperação entre pequenos produtores rurais, reunindo propriedades familiares (2011).

Contudo, havia alcançado a autossuficiência na produção florestal e incorporado ao sistema outros produtos da floresta que passaram a ser incluídos nas formulações acadêmicas da biotecnologia – essências silvestres para a indústria farmacêutica e perfumaria, frutos da floresta, como açaí, palmitos, cacau, castanhas, pimentas e forragens. O setor estava consolidado. A política florestal ganhara, entretanto, um novo perfil, associado agora fortemente às preocupações com o meio ambiente e, mais recentemente, também com as mudanças climáticas.

Caminhando para os oitenta, Lula está alheio a isso. Preocupa-se é com as novas oportunidades comerciais que estão desembarcando no setor, como o mercado de carbono e do hidrogênio verde. Sua mensagem vai ao encontro de quem dispõe de maciços de florestais naturais ou de reflorestamento: a venda, em toneladas, da captura do CO² pelas florestas. Essa pretensiosa intenção tende a ser concorrente forte para os segmentos industriais e extrativistas produtivos baseados na floresta.

Estaria ele no caminho certo? Na Itália acabaram de descobrir um grupo de ativistas profissionalizados formuladores e difusores de teorias conspiratórias pelo mundo.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Pensamento do Dia

 


Os errantes

Muros são a representação física mais simplória de mundos que se querem isolados. Em toda a Europa de 1989, ano da queda do Muro de Berlim, existiam apenas quatro demarcações de fronteiras semelhantes no Velho Continente. No início do milênio, outras 30 haviam sido erguidas, todas destinadas a barrar não mais o específico inimigo armado de antanho, e sim um animal genérico, desprovido de retaguarda e futuro: o ser humano errante. Ele é danado, esse migrante, apátrida, exilado, expatriado, deslocado ou expelido pela força. Ele teima em buscar um chão, em alguma parte, a qualquer risco. Antes, porém, com igual tenacidade, terá se agarrado ao pedaço de teto que sempre chamou de seu. Assim tem caminhado a humanidade. Dois episódios ocorridos na semana passada fazem parte desse caldeirão.


Na quarta-feira, o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, conseguiu aprovação para transformar em lei uma promessa de campanha nascida da cabeça platinada de Boris Johnson, seu desastroso antecessor. Trata-se de desestimular o afluxo de embarcações irregulares que cruzam o Canal da Mancha todos os anos, abarrotadas de migrantes em busca de asilo, deportando-os para Ruanda, país africano sem saída para o mar. Ali, a 6.500 quilômetros de Westminster, aguardariam o resultado de seu pedido de asilo.

Segundo dados do Observatório de Migração da Universidade de Oxford, 45.755 refugiados conseguiram chegar à costa britânica em 2022 pelas águas traiçoeiras da Mancha, em pequenos barcos, enquanto o total de imigrados irregulares chegou a 670 mil. Seria, portanto, uma medida irrisória, além de sua essência desumanizante e colonialista. Ela ainda precisará do aval da Câmara dos Lordes, que não demonstra o menor apetite para tratar do tema. O próprio Partido Conservador de Sunak ficou rachado, com alguns parlamentares exigindo medidas mais radicais enquanto outros apontavam para a inexequibilidade da operação.

Uma primeira tentativa de deportação para Ruanda, com Boris Johnson ainda em Downing Street, fora abortada judicialmente na 25ª hora, quando as turbinas do avião que levaria a carga humana rumo a Kigali já estavam ligadas. À época, o governo britânico havia feito um adiantamento de 240 milhões de libras esterlinas (o equivalente a R$ 1,5 bilhão ) aos cofres do presidente Paul Kagame, para cobrir o custeio dos deportados. Em Davos, Kagame reclamou da lentidão da operação e não falou em ressarcir de imediato os cofres de Sua Majestade. Entrementes, as 4 mil pessoas listadas para compor o pelotão inicial e aguardar, em Ruanda, autorização de asilo no Reino Unido simplesmente sumiram do radar do home office. São errantes escaldados por desesperança múltipla acumulada ao longo de suas muitas travessias.

Na quinta-feira, foi a vez de o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, remoer com bota a ferida mais exposta do Oriente Médio desde o final da Segunda Guerra Mundial. Em entrevista tensa concedida na base militar de Kirya, em Tel Aviv, ele rejeitou a perspectiva da criação de um futuro Estado Palestino independente e soberano. Nem ontem, nem hoje, nem amanhã. Nem mesmo se conseguir erradicar de Gaza o terrorismo do Hamas, responsável pelos atos de barbárie e desumanidade praticados em 7 de outubro contra civis israelenses. A mensagem de Bibi foi clara, mesmo sob pressão dos Estados Unidos e de movimentos democráticos em seu próprio país: todas as terras palestinas continuarão sob ocupação do Estado judeu.

E o que sobrar da população civil de Gaza, encurralada num pedaço reduzido do enclave onde persiste a teimosia humana de sobreviver? Netanyahu não disse, mas vozes do primeiro escalão de seu governo falaram por ele: que saiam de Gaza, larguem o chão onde nasceram, procurem outro lugar como tantos outros obrigados a se tornar errantes antes deles.

Consta dos arquivos do Estado de Israel uma minuta datada de 55 anos atrás, que autorizava o governo a transferir 60 mil palestinos de Gaza ao Paraguai:

— Decisão Shin.Taf/24 do Comitê Ministerial para a Administração de Territórios, 29 de maio de 1969, Imigração Árabe. Aprovada a sugestão do Mossad para a emigração de 60 mil árabes dos territórios administrados de acordo com os seguintes termos (...).

Os quatro itens listados no documento estabeleciam a responsabilidade de Israel com as despesas de viagem de cada emigrado, a alocação de US$ 100 para cobrir seus custos iniciais de instalação, o pagamento de US$ 33 por palestino ao governo do Paraguai e o desembolso imediato de US$ 350 mil para a operação com os 10 mil primeiros selecionados. Levi Eshkol, o primeiro-ministro daqueles tempos expansionistas que se seguiram à Guerra dos Seis Dias, não poderia ter sido mais claro:

— Quero que todos vão embora, nem que seja para a Lua.

Foi um experimento que deu terrivelmente errado. O Paraguai, nos confins da América do Sul, então comandado pelo ditador Alfredo Stroessner, tinha ainda menos a ver com a alma palestina que Ruanda tem a ver com um refugiado da Síria. Quem primeiro revelou a operação foi o jornalista israelense Yossi Melman, em 1988. Ele havia atuado nos serviços de Inteligência de seu país. E quem se aprofundou no tema mais recentemente foi a antropóloga americana de origem palestina Hadeel Assali. Em artigo para a London Review of Books de 10 de maio de 2023, ela mergulha na memória de um tio natural de Gaza, ainda vivo. Rapazote em 1969, Mahmoud embarcara com um laissez-passer fornecido pela ONU para, segundo os ocupantes israelenses, trabalhar um ou dois anos no Brasil. Depois poderia retornar a Gaza. Era embuste, nem sequer viu a cor do Brasil.

Errantes sempre houve e haverá. Cabe a nós não esquecê-los.

Transição ecológica para onde?

Cada vez mais evidente são os efeitos ecológicos e ambientais negativos decorrentes da superexploração dos recursos naturais, a partir da revolução industrial. Essa conclusão, muito bem documentada na publicação “Limites do Crescimento”1 , aduz ainda que, se a humanidade continuasse seguindo o padrão de produção e consumo verificado na época, os recursos naturais se esgotariam em menos de 100 anos. Esses foram os fatores que levaram à realização da 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano, que reuniu 113 países na cidade de Estocolmo em 1972.

Vinte anos depois, 176 autoridades governamentais (países) e 1400 entidades da sociedade civil (ONGs), compondo mais de 30 mil pessoas, se reuniram na cidade do Rio de Janeiro em 1992 para a realização da 2ª Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, conhecida também por ECO 92, uma das conferências mais emblemáticas já realizadas, e que apresentou ao mundo um quadro preocupante sobre a questão ambiental e aquecimento global, o que levou os países a assinarem vários acordos, entre eles a Agenda 21 e a Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas.

Em 2024, mais de 30 anos se passaram desde a Rio-92 e 50 anos desde Estocolmo-72, em que o alerta foi dado à humanidade, pois esses eventos já expressavam a necessária e urgente transição ecológica, estando essa necessidade expressa na publicação “A Transição Ecológica”2 , que abordou as preocupações sobre a interação negativa do homem com o ambiente físico, assim como na publicação “Nosso Futuro Comum”3 , que revelou os problemas ambientais estavam além da capacidade natural de recomposição e cientifica de apresentar soluções, além dos dados do aquecimento global e as falhas na camada de ozônio, e a publicação “Manual de Transição: da dependência do petróleo à resiliência local”4 , um manual com orientações para pôr uma cidade em movimento de transição.


Portanto, podemos considerar que o assunto da transição ecológica não é algo novo, mas volta com força ante os resultados climáticos violentos, cada vez mais intensos, que todos inequivocamente temos observado, vivenciado e sentido cotidianamente. A “transição ecológica” encontra rebatimento em diferentes esferas, além da questão das emissões de gases de efeito estufa, devido à queima de combustível fóssil que causa a aceleração do aquecimento global, tais como: economia competitiva e predatória, desflorestamentos para a produção de celulose e geração de pastos, superprodução de resíduos urbanos e industriais perigosos, agricultura industrial baseada em agrotóxicos prejudiciais à saúde e meio ambiente e uma visão de saúde centrada na doença e fármacos químicos perigosos, em contraposição à energias limpas e renováveis, economia justa e solidária, reciclagem, compostagem e biofertilizantes, uma produção orgânica e de incentivo familiar, e uma saúde centrada na pessoa e o rigoroso controle e eliminação de condicionantes deletérias de determinantes e determinações sociais de saúde.

Portanto, considerando meio século desde Estocolmo-72, já deveríamos estar em um estágio muito mais avançados e já ultrapassado esse período, do que desejosos por um processo de transição. Já dizia Albert Einstein: “Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo pensamento que usamos quando os criamos”. De lá para cá, estamos apenas trabalhando na inclusão de poucos desvalidos, em uma sociedade talhada para uma produção e consumo insustentáveis para a manutenção da vida como a conhecemos.

No livro “A Lei da Entropia e o Processo Econômico”5 , se demonstrou que o processo econômico não é um sistema perpétuo, que alimenta a si mesmo de forma circular, sem perdas. O sistema econômico — hoje dominante, linear e predatório, como se os recursos naturais não fossem finitos — é alimentado pelos recursos naturais, que após sua utilização são transformados em rejeitos que não são gerenciados para serem reutilizados.

Pois bem, muito embora essa teoria tenha sua lógica, nunca fora verdadeiramente levada em consideração; afinal, sempre se imaginou que recursos naturais eram todos infinitos, e que aqueles que não fossem teriam em abundância na natureza.

Essa afirmação acabou sendo superada por si só com o passar dos anos, e hoje percebemos que os recursos naturais estão escassos — os chamados serviços ecossistêmicos estão cada vez mais comprometidos por superexploração, devastação, desertificação, poluição e contaminação de territórios — aliás situação ideal para acumular ainda mais capital. Dessa maneira o desenvolvimento humano sustentável é fundamental e urgente.

Afinal não há nenhuma atividade econômica no mundo que não precise de recursos naturais, e que uma vez desaparecendo, desaparece junto toda a atividade econômica como a conhecemos.

A bola da vez é um Desenvolvimento Humano Sustentável, isto é uma gestão equilibrada fundada no tripé da integração de práticas econômicas (solidárias), sociais (universalizadas) e ambientais (ecologicamente equilibrada); logo, é preciso entrar no domínio do pensar complexo, solidário para com o destino planetário, ajustando o convívio do homem com a natureza, visto que estão nela contidos os elementos e os meios que garantem a vida em sociedade e suprem materialmente as bases de criação e manutenção do corpo vegetal, animal e humano, em síntese, a adequada sobrevivência da presente e futuras gerações.

Em tese o plano de transição ecológica no Brasil e no Mundo tem por objetivo o
combate à crise do clima com justiça social, sustentabilidade, geração de empregos e aumento da produtividade com objetivo de tornar a economia mundial e brasileira mais sustentável, espelhadas expressamente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, sucessor dos Objetivos do Milênio e da Agenda 21 que precisam ser relembrados. No entanto, no bojo dessas discussões e ações, é preciso exaustivamente lembrar que economia sustentável pode ser a insustentabilidade do desenvolvimento à médio e longo prazo, e que nem toda proposta sustentável de fato é, dependendo de diversos fatores condicionantes.

Com poucas críticas midiáticas, pois precisamos agir, a transição tem atenção
centrada na matriz energética, e que apesar de sua importância em função das mudanças climáticas, na verdade é tímido, uma vez que essa mesma energia independentemente da matriz, da maneira que é e será usada, ou seja, para manter os atos que geraram escassez de recursos naturais, é destruidora de mundos. E ao não impedir que processos necrocorporativos e necroeconômicos, deletérios ao meio ambiente e à saúde pública e coletiva sejam instalados, como por exemplo: produzir energia queimando insanamente milhares de toneladas de lixo reciclável e combustível fóssil, de fato podemos concluir que estamos bem longe de aproximação do discurso com a prática.

Nesse diapasão, e não abordado com firmeza nos referidos planos de transição
ecológica, está o incentivo e a expansão de processos que fazem uso intensivo de
combustível fóssil em várias partes do mundo e regiões do Brasil. Estamos sendo ameaçados pelo fantasma das termelétricas e incineradores, esse último disfarçado de unidades de recuperação de energia (UREs), ambos operados através da queima de quantidades exorbitantes de combustível fóssil e que se constitui, na prática, ofensa à Constituição Federal e à Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A exemplo, está sendo planejada, numa linha de 75 quilômetros entre duas
grandes regiões metropolitanas, três incineradores (Santos, Mauá, Barueri no estado de São Paulo), que, juntos, terão a capacidade total próxima de queimar 6 mil toneladas de resíduos por dia e, com isso lançarão na atmosfera, diariamente, cerca de 4 mil toneladas de gases tóxicos e de efeito estufa, 1500 toneladas de resíduos sólidos perigosos, mais algumas milhares de toneladas de água contaminada.

Esquece-se com facilidade da frase bicentenária de Lavoisier, que “no mundo nada
se cria, nada se perde, tudo se transforma”, ou seja, tudo que entra para ser incinerado sai em uma forma ainda mais perigosa. Importante salientar que essa política retrógada na perspectiva do desenvolvimento humano sustentável, contou com total apoio de governos anteriores, nos níveis estadual e federal, e das empresas que operam e lucram com esse processo poluidor e sugador de recursos públicos e que vêm fazendo efetivo lobby junto aos governos locais.

Ainda sob o signo da transição ecológica e energética, para alimentar esse aumento e uso intensivo de combustível fóssil em incineradores e termelétricas, está sendo implantado um píer de descarga dos navios metaneiros, dentro da cidade de Santos, próximo à região urbana densamente povoada, sendo que um único tanque padrão de GNL4 (125 mil metros cúbicos) é equivalente a sete décimos de uma megatonelada de TNT, o mesmo que cerca de 55 bombas de Hiroshima, como apontam estudiosos no assunto (LOVINS & LOVINS, 2001). Os navios mais modernos carregam até o dobro dessa quantidade e em conjunto com o navio regaseificador somam um potencial energético de até 190 bombas de Hiroshima. O processo movido contra essa ameaça, realizada pelo Ministério Público com apoio da sociedade civil organizada, encontra-se sob a apreciação da Justiça.

Não obstante a boa intenção dos planos de apoio e de Transição Ecológica, posto que é um passo aparentemente positivo, mas é excessivamente tímido, e pode até mesmo ser inócuo para reverter ou atenuar a grave questão climática e ambiental, quando ainda não tratou da malsinada herança do governo anterior que no estouro da boiada empurrou goela baixo da sociedade Santista a implantação de um terminal que em caso de acidente catastrófico pode vir a pôr bens público e privados no chão e ceifar centenas, quiçá milhares de vidas, e sacudir a economia nacional, pois pelo Porto de Santos passa 1/3 do PIB nacional.

Em resumo, esses navios trarão combustíveis fósseis responsáveis pelas mudanças climáticas para serem queimados em termelétricas e incineradores disfarçados de URE, que poderá inviabilizar a sadia qualidade de vida da população Santista e região ao liberar substâncias conhecidas como moléculas da morte, além de aumentar a poluição na região com outros gases tóxicos e de efeito estufa; não resta dúvida que, apesar de teoricamente ter boas intenções, os planos na prática trazem omissões e, da maneira como são criados, não serão suficientes para que os objetivos ambientais e climáticos tenham êxito.

Corremos sério risco de ter uma resposta engendrada pelo mesmo pensamento
que gerou tais problemas ambientais. Não podemos continuar maculando e extraindo do planeta o que ele não está mais sendo capaz de suportar, para nos doar recursos gratuitamente para as nossas vidas. Nossos esforços devem ultrapassar as demandas emergentes e respostas ao saldo negativo, resultantes dos anos de descaso, a transição ecológica precisa também enfrentar o desafio de apontar para soluções mais permanentes, construindo processos de boa governança, democráticos de fato e amplamente participativo, com a inclusão da sociedade como um todo.

Não é impossível de mudar

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar
Bertolt Brecht

A fumaça, os rios, os lagos e a ciência

Eu gostaria de facilitar as coisas para todos nós, achando que um feliz maconheiro, deixou escapar um “bagulhinho” no mato, e o Curupira, ainda descuidado, em conluio com o Greenpeace, não tomaram conta dos galhos e folhas como deveriam, e tudo virou fumaça, intoxicando aqueles que não gostam de um produto da floresta.

Resolvemos perguntar ao Dr. Google e ao Chat GPT, os dois mais renomados e baratos assistentes que eu consegui contratar, para isolar a burrice que me castigava, e eles responderam no mesmo patamar:

“A Amazônia é conhecida por ter uma alta incidência de raios, com algumas estimativas sugerindo que a região pode experimentar milhares de raios em um único dia". Que coisa espantosa, essa resposta dos meus assistentes! Todos à mesa do dominó, sentimos que a evolução passou por nós e nos beijou. De repente, o nosso Gorila achando-se à altura do Dr. Google e do Mestre GPT, gritou: até que enfim sei de uma coisa há mais tempo que o Dr. Google! Os raios não contribuem com as queimadas?


Comemoramos com um açaí duplo e passamos a nos considerar cientistas do GreenPeace, WWF, BrazilFundation, ICMBio, Fundo Amazônia, One Tree Planted e do SOS Amazônia, que tem a sua vida ligada ao hiper cientista, físico, químico, naturalista, Einstein dos microbianos vermelhos e verdes, o cerebral PhD Chico Mendes.

Somando a estas, existem mais algumas centenas de ONGs por quilômetro quadrado na nossa Amazônia, todas dizendo que as fumaças são atividades criminosas e nenhuma delas é oriunda de raios que caíram em árvores e mato ressecado. A este crime, os bares das cidades ribeirinhas, repletos de brasileiros querendo aprender de Amazônia, com os “amazonólogos” do momento, perguntam, com a voz um pouco trêmula, de emoções geladas, ingeridas para o calor:

Tá bom que as fumaças são criminosas! Mas quem bebeu as águas dos rios, lagos e igarapés, em pouco mais de um mês?

Os nossos irmãos amazônidas estudam, desde o Jardim da Infância, que o oxigênio vem das diatomáceas marinhas, algas existentes no sul do Oceano Pacífico, e que a Amazônia, por ser uma floresta velha, tudo que produz de oxigênio pela manhã, consome à noite. É bom reconsiderar esse teorema e colocá-lo para a comunidade acadêmica do mundo, como uma tese para estudos, de todas as nações, ou vamos ter problemas muito graves em um pequeno intervalo de tempo. O bom mesmo seria acabar com essa história de que isso é o El Niño, aquilo é La Niña e tudo é culpa do casal e também do Lula e do Bolsonaro.

Os institutos daqui, como o INPA, o Goeldi e outros competentes estudiosos, deveriam chamar a comunidade mundial e colocá-los nas diversas regiões e rios, com máquinas e computadores, com dedicação extrema e acharem, juntos, outro nome e como usar essa praga que se abateu sobre a nossa Amazônia.

Nunca sentimos um calor tão desmoralizante, capaz de prostrar milhares de pessoas em seus lares, dentro de quartos com ar-condicionado, sempre no máximo, até queimá-los. Nunca sentimos uma temperatura tão alta e por um prolongado número de dias sem chuvas.

É hora de estudar e pesquisar. Que venha Harvard, Princeton, Stanford, Yale, Cambridge, Oxford, Ben-Gurion, Haifa e quem se dispuser a enfrentar esse problema, que deixou de ser só nosso e passou a ser mundial.